A VERGASTA
Abril 14, 2008 por Vanderdecken
Ela jamais compreendera, mas acabou por reconhecer como uma verdade inegável e importante, a confusão contraditória e constante dos seus sentimentos; amava a ideia do suplício mas, quando o sofria, teria traído o mundo inteiro para lhe escapar; quando acabava, sentia-se feliz por tê-lo sofrido, tanto mais feliz quanto mais cruel e mais longo tivesse sido.
Pauline Réage, História de O
Uma tarde o dono de Mariana disse-lhe: “Uma das próximas vezes que vier ter contigo vou trazer um chicote.”
Estavam os dois na cama. Mariana nunca tinha sido castigada fisicamente. Tinham acabado de fazer amor com vagar e com ternura e ela estava debruçada sobre o amante, dando-lhe pequenos beijos no peito. Quando, desorientada pelas palavras dele, quis objectar, ele pôs-lhe um dedo sobre os lábios e começou a retribuir-lhe os beijos, e depois derrubou-a de costas sobre os lençóis amarrotados para lhe beijar e chupar os seios, e o ventre, e o sexo, até que ela se abriu para ele e se esqueceu do que ia dizer; mas não era uma objecção importante.
Uma noite, havia vários meses, o amante tinha-lhe dado duas ou três palmadas nas nádegas com a mão aberta enquanto faziam amor. Mas isto não se podia chamar um verdadeiro castigo, e não contava.
Horas antes, na praia, tinham jogado um risonho jogo de esquivas: “Não te obedeço. Não sou tua. Que farás se a tua escrava não te obedecer?” Noutra vida, noutro mundo, Mariana era Marta; tinha um marido e uma profissão, e hábitos de autonomia. Mariana era o seu heterónimo de escrava: dócil ou rebelde conforme a hora. O amante, com a voz velada, entrava-lhe no jogo: “Castigo-te. Se não me obedeceres bato-te.”
Mas nessa noite longínqua a fome tinha sido outra, saciada ainda pelo riso mas já também pela ternura; e o castigo, quando veio, veio tímido e tarde, como um intruso. Havia longos minutos que ela e o amante se acariciavam e beijavam, ofegantes e meigos, e Mariana sentia no sexo o florescer húmido do desejo. Ela própria tinha iniciado o jogo: “Olha. Não tens muita sorte. Sou uma escrava desobediente.” À primeira palmada nas nádegas sentiu esmorecer a excitação; à segunda sentiu que o sexo se lhe contraía e secava, mas ainda assim não quis protestar. À terceira todo o desejo tinha desaparecido e Marta rolou para o outro lado da cama. “Desactivaste-me.”
A ele nunca lhe tinha ocorrido esta palavra para exprimir o fim da excitação. Olhou para ela muito atento e muito sério, mas sem sinais de contrição; e se continuou a acariciá-la e beijá-la, Mariana viu bem que a carícia era agora de ternura e não de desejo. Também ele estava desactivado, como se as palmadas que lhe tinha dado tivessem tido sobre ele o mesmo efeito que sobre ela.
Mas não exactamente o mesmo efeito: enquanto a desactivação de Mariana se tinha produzido em três fases instantâneas, coincidentes com os golpes recebidos, a dele estava a ser lenta e gradual. O quarto de hotel em que se encontravam era acolhedor e o barulho das ondas chegava-lhes pela janela aberta. Sobre os lençóis amarrotados, muito brancos, destacava-se o pequeno corpo moreno e macio de Mariana. No fundo dos olhos do amante, que falava com ela em tom sereno e voz pausada, podia ver-se uma centelha de riso. A paixão que minutos antes os possuíra tinha desaparecido - ou melhor, tinha ficado latente sob a ternura dos gestos e das palavras.
Mas um pouco mais tarde, de repente, sem que Mariana se desse conta da transição, a excitação do amante tinha voltado; o pénis que se comprimia contra as suas coxas estava erecto de novo. Ela própria se encontrou subitamente activada, embora com uma excitação diferente da que tinha sentido antes. Sem querer reflectir em que consistia a diferença, inclinou-se sobre o corpo do amante:
“Deixa-me fazer. Meu senhor.”
Não era frequente, nesse tempo, que Mariana tratasse o amante por Senhor, nem que lhe tomasse o sexo na boca - carícia que ela já tinha confessado ser-lhe penosa e que ele, de resto, quase nunca lhe exigia. Desta vez aplicou-se em dar-lhe todo o prazer de que foi capaz; quando ele, perto do fim, lhe fez sinal de que não conseguiria evitar a ejaculação por mais tempo, redobrou de esforços para lha provocar, e recebeu-a no fundo da garganta. Ainda se abraçou a ele por alguns segundos antes de se levantar e de ir para a casa de banho.
Tudo isto tinha acontecido havia meses. Entretanto várias coisas se tinham passado entre Mariana e o dono: tinha-se habituado, por exemplo, a descalçar-se diante dele, a soltar os cabelos, em sinal de respeito e submissão; tinha aprendido a reconhecer e a aceitar, em si mesma e nele, a crescente dor da ausência; e uma tarde, num banco de jardim, por palavras da sua própria boca, e quase por sua própria iniciativa, tinha confessado e feito explícito o seu estatuto de escrava. Abraçada ao seu senhor, nessa tarde, falando-lhe ao ouvido, sem querer olhar para ele, tinha enunciado uma a uma as condições e as consequências da sua escravidão. Mas tinha havido uma condição e uma consequência que ela não tinha mencionado, uma condição e uma consequência em que não queria sequer pensar: a sujeição ao castigo, a necessária sujeição ao castigo. Mariana lembrava-se das muitas vezes que perguntara ao amante, “que farás se a tua escrava não te obedecer”.
“Castigo-te,” respondia ele sempre. Talvez fosse por recear uma resposta mais explícita que Mariana tinha começado a fazer-lhe a pergunta menos vezes. E embora tanto a pergunta como a resposta fossem parte de uma representação, de um desafio, a verdade é que cada vez mais correspondiam a uma real perplexidade: o que faria ele, o que fariam ambos, no momento inevitável em que ela não quisesse ou não pudesse cumprir a servidão que se impusera?
Um Senhor não é um marido, não amua, não retalia com frasezinhas venenosas ou silêncios estudados. Qualquer punição que o dono de Mariana lhe viesse a impor seria necessariamente física. Era isto que ela não ousava admitir, como não ousava admitir que a perspectiva a fascinava - não pelo prazer que o castigo físico lhe pudesse dar, que era nenhum, mas pelo que significava de submissão. Mas ele não tinha voltado a puni-la, nem ela o tinha querido, desde a noite em que a tinha desactivado.
Se o seu senhor alguma vez viesse a castigá-la, não o faria, pensava ela, para satisfazer o seu próprio prazer; nem para lhe dar prazer a ela. E sobretudo nunca o faria para resolver brutalmente um conflito ou uma frustração. Mariana dizia a si mesma que estava pronta a ser castigada pela primeira razão, embora lhe parecesse pouco provável que o amante alguma vez lho exigisse. Para ter ela própria prazer, não; a dor não lhe dava prazer. E era claro para ela que o amante nunca desceria a castigá-la pela terceira razão.
Estava portanto a salvo. Além destas três razões, não conseguia imaginar mais nenhuma que pudesse levar um homem a querer punir fisicamente a mulher amada, ou esta a aceitar ser punida. Mas estava a enganar-se a si mesma, sabia-o bem. Havia uma quarta razão possível para o amante a punir. Se estivesse verdadeiramente a salvo, nem sequer lhe ocorreria, a ela ou ao amante, pensar no assunto; e muito menos abordá-lo. E de resto, quantas vezes não tinha querido ela própria arranhar, morder, magoar os que lhe estavam mais próximos? Sim, até a mãe, o marido, as amigas mais íntimas; até os filhos. E não para tirar daí prazer, obviamente; nem, o que seria igualmente grotesco, para lhes dar prazer; nem mesmo para vencer discussões ou libertar violências reprimidas - mas sim, precisamente, para melhor os possuir. Para os amar, se tal palavra se pode dizer neste contexto sem empalidecer de terror.
“Para o meu dono me castigar,” reconhecia Mariana finalmente, “basta que me queira possuir.” Não era necessária outra razão para o castigo: eis o que lhe custava a aceitar. Não queria sofrer, mas queria pertencer ao amante - e para isso teria de estar sujeita não sabia a que sofrimentos, sem poder tirar deles um prazer masoquista, e sem se poder consolar com a ideia que lhe estava a dar a ele um prazer sádico.
Um dia, em Lisboa, perto da Praça da Figueira, Marta passou pela montra de um seleiro. Lá dentro, entre estribos e botas de montar, viu uma pequena vergasta de bambu, fina e flexível, com um punho de couro e acabamentos em latão brilhante. Era uma bonita peça artesanal, forte e delicada, de um castanho quase negro e com o brilho discreto que só um fabrico perfeito pode dar. Marta entrou na loja e pediu que lha mostrassem: era do tamanho exacto para o saco de viagem que costumava levar nos seus encontros. Ao pagar ainda se perguntou o que estava a fazer; mas não quis ou não pôde responder à sua própria pergunta.
Alguns dias depois Mariana mostrou a vergasta ao amante: “É para ti. Para mim.”
O amante sorriu-lhe, aparentemente desatento à impossível ousadia desta dádiva, beijou-a ao de leve, e pousou a vergasta sobre o toucador aos pés da cama. Depois fez com que ela se despisse e mandou-a ajoelhar.
Mariana já se tinha dado conta que quando o amante a possuía pela boca o prazer dele era mais intenso, mas muito mais demorado, do que quando a penetrava pelo sexo. Desta vez foi-a penetrando alternadamente nas duas aberturas, durante o que a ela lhe pareceu horas. Por fim fê-la gemer num orgasmo interminável ao mesmo tempo que se lhe esvaía no fundo da vagina. Depois de tudo terminado ele deitou-se de costas e puxou-a para si. E foi nesta posição que Mariana acabou por adormecer, a meio da conversa: uma coxa sobre as pernas dele, os cabelos pretos espalhados sobre o peito masculino; e nunca chegou a saber que o dono tinha ficado acordado muito tempo a velar-lhe o sono.
De manhã, quando estavam os dois a fazer as malas, a primeira coisa que ele guardou foi a vergasta. Antes de a arrumar no fundo do saco passou-lhe os dedos por todo o comprimento: “Obrigado, Mariana. É muito bonita. Vou passar a trazê-la sempre comigo quando nos encontrarmos.” E assim fez, mas nos encontros seguintes não chegou a tirá-la da pasta; Mariana, aliviada, chegou a pensar que ele não tencionava usá-la nunca.
E com efeito só veio a usá-la alguns anos mais tarde, já depois de terem ido viver para fora de Portugal e regressado. Foi no Inverno, numa casinha de pedra no Gerês, ao calor da lareira. Mariana torceu-se de dor sob os golpes, que a queimavam como ferros em brasa. Pela terceira ou quarta vez desde que se conheciam chorou na presença do amante; mas as lágrimas anteriores tinham sido de felicidade, ou de saudade pelos anos perdidos, ou de angústia pelo futuro, e era impossível dizer qual destes elementos predominava. Nas de hoje não havia ambiguidade, eram de dor e revolta: talvez viesse desta certeza a sensação de liberdade que a invadia.
Mariana nunca tinha chorado um choro assim desfeito. No fim do castigo perscrutou o rosto do amante, e viu-o angustiado, tão pálido como a serra sob o céu cinzento. Abraçou-se a ele toda nua, como que para o consolar, molhando-lhe a roupa com as últimas lágrimas e sentindo-lhe as mãos na carne ainda dorida. Depois, quase a medo, fizeram amor. Uma acha crepitou na fogueira. Lá fora nevava, e ouvia-se o vento, e um ramo molhado vergastava a vidraça.
(Publicado no Blogger a 18/03/05)
