AS LÁGRIMAS
Abril 14, 2008 por Vanderdecken
Me perdoe
Se o quadradismo de meus versos
Vai de encontro aos intelectos
Que não usam coração
Como expressão.
Vinícius de Moraes
A verdadeira história de Mariana e Miguel só começou vinte anos depois de Marta e ele se terem conhecido em Coimbra, onde frequentavam o mesmo curso na Universidade.
Nesse tempo tanto um como outro tinham outros amores. Ao de Marta tinham-lhe os pais, professores de Grego no liceu, posto o nome de Ulisses. Era um jovem atlético, musculoso, com lábios sensuais e longas pestanas, que impunha a todos os lugares em que se encontrasse uma presença carnal e morna. A pele era macia e acetinada, e tinha uma cor de pão ligeiramente torrado; e numa época em que quase todos os rapazes usavam barbas e bigodes, Ulisses apresentava-se perfeitamente escanhoado, a sombra azul da barba misturada com o corado saudável da face. Tinha sempre raparigas à sua volta; e a robustez física de que fazia alarde alargava-se – pelo menos a acreditar nas confidências que ele próprio fazia, indiscriminadamente, a amigos e amigas, – à firmeza e às dimensões do membro viril.
E contudo havia alguma coisa de ambíguo, de demasiado óbvio, na sua virilidade. Uma parte de Marta achava-o demasiadamente belo, demasiadamente sensual e seguro de si; e muitos anos mais tarde havia de dizer a Miguel, numa noite de insónia e reminiscência: “Sim, o Ulisses era bonito; mas olha que tu também eras; já nessa altura eras um bonito homem.”
Depois de Coimbra, Marta tinha mantido contacto com Ulisses durante o tempo suficiente para assistir à sua decadência física e moral; mas Miguel, que nunca mais o tinha visto, lembrava-se apenas do jovem que podia ter servido de modelo a Louis David. Marta achava isto um disparate; mas Miguel achava Ulisses parecido com o guerreiro nu, em primeiro plano no quadro, que segurava um dardo nas pontas dos dedos, delicadamente, como se o sangue e o suor da guerra, a paixão das mulheres, lhe fossem de todo alheias.
Ulisses era, além do mais, requintado; e era-o mais do que convém quando se tem vinte anos. Sabia escolher um vinho, um filme, uma mulher, e nunca lhe faltava a palavra certa para exprimir o seu desdém pelas imperfeições dos outros; fossem estas de inteligência, de maneiras, de gosto, ou – as mais imperdoáveis – de beleza física. As farpas que atirava tinham por alvo os ingénuos, os mal vestidos, os desajeitados, os feios; e lançava-as com a leveza de quem não dá importância às feridas que provoca, mas só à elegância do lançamento.
A relação de Marta com Ulisses não durou muito tempo, nem deixou nela marcas profundas. Marta nunca chegou a ter grandes ilusões acerca do namorado, e cedo se apercebeu dos seus defeitos maiores: vaidade, superficialidade, preguiça, hedonismo. Quanto a ela, só o seu sentido de humor e a sua ausência de vaidade lhe permitiram suportar por algum tempo a displicência com que ele a tratava. Falta de vaidade, porém, não implica falta de dignidade ou de amor-próprio, e o namoro acabou por se esgotar sem ruído e sem recriminações, por desinteresse recíproco.
Diferente era a relação de Miguel com a Lena: uma paixão escancarada pelas ruelas da Alta. Quem os conhecia conhecia-os juntos, a Lena e o Miguel. Lena – como de resto também Miguel – era uma estrela menor no pequeno firmamento da Faculdade: se não pela beleza, como Ulisses, pelo êxito académico e pela panache intelectual.
Nem Miguel nem Marta eram promíscuos por natureza, e não se sentiam especialmente atraídos pela ideia de trair os respectivos parceiros. Mas a época era avessa a compromissos sentimentais; e nos meios em que se moviam a liberdade de costumes era uma forma indispensável de afirmação política, e só o ciume era tabu. Miguel tinha com Lena longas conversas a este respeito, das quais concluíam sempre que nenhum dos dois tinha o direito de usufruir do outro em exclusivo. Quanto a Marta, não precisou de discutir o assunto com Ulisses: bastou-lhe assistir à sucessão de casos em que ele se foi envolvendo, quase semana a semana, enquanto mantinha a sua ligação com ela.
Enquanto Lena e Ulisses se espalhavam pelo mundo no exercício da sua liberdade, Marta e Miguel ficavam entregues a si mesmos, e cada vez mais um ao outro. Estudavam juntos, conversavam, passeavam, e um dia, inevitavelmente, naturalmente, sem se interrogarem demasiado sobre o sentimento que os unia, foram para a cama juntos. Depois fizeram-no outra vez, e outra; e apesar de os seus encontros nunca terem passado de esporádicos, foi nessa altura que começaram a conhecer-se e talvez a amar-se.
Entretanto terminaram os cursos. Começaram a trabalhar. Viajaram. Depois, cada um para seu lado, casaram; encontraram-se ainda algumas vezes, e acabaram por se perder de vista.
Quando voltaram a encontrar-se – para um almoço, uma reunião de curso convocada por um antigo condiscípulo – tinham já filhos crescidos; e no momento em que se viram todo o seu passado desabou de súbito sobre eles: tanto o que realmente fora como, e não com menos peso, o que poderia ter sido. É de espantar que ao sentarem-se à mesa lado a lado, e só poderia ter sido lado a lado, não tivesse saltado entre os dois uma chispa de paixão, ofuscando os restantes convivas. Nesse dia trocaram endereços.
Mais tarde encontraram-se, em Coimbra. Era no Verão. Marta levava um vestido decotado, todo às flores, e Miguel pensou que ela não trazia soutien. Almoçaram frugalmente num restaurante perto da Universidade e foram sentar-se no jardim da Sereia, num banco entre as árvores. Falaram do passado, da profissão, das famílias, dos filhos. Tocaram-se nas mãos, olharam-se nos olhos. Depois desceu sobre eles um silêncio: não de embaraço, mas de expectativa. O Verão ia muito seco, mas dentro do jardim as árvores estavam carregadas de sombras e a fonte barroca desfazia-se sob os líquenes que lhe comiam a pedra. O banco de madeira começava a decompor-se; e tudo ressumava a mesma humidade, discreta como um choro contido.
“Agora vou-te beijar,” disse Miguel, de súbito.
Assim que ele a abraçou, sem hesitação nem timidez, Marta reconheceu-lhe o toque das mãos; e era o mesmo de há vinte anos, leve como o de quem não põe limites à ternura, ou firme e assertivo, como quem naturalmente se assenhoreia do que é seu.
Abraçaram-se até doer, beijando-se no banco do jardim como um par de jovens namorados. Beijos na boca, prolongados ou breves, copiosos, nos olhos, na face, nos lábios: como se na eternidade deste momento nada mais fosse necessário para os contentar do que estes abraços e estes beijos. Beijos em grinalda, disseram, quando foi preciso dizer alguma coisa. Beijos em cascata. Depois foram passear para o Jardim Botânico, que não é longe, e que também é poiso de namorados; e aí, sentados noutro banco, falaram dos seus amores de juventude: de como já nessa altura a sua primeira fome era sempre de beijos, de como a sua intimidade era entremeada de ficções e fantasias.
“Uma das coisas que me lembro mais vezes são as histórias que tu me contavas,” disse Marta. “Tantas histórias. E eu fascinada a ouvir-te. Raparigas orientais, sultões e haréns, sedas, perfumes…”
“Histórias de senhores e escravas, se bem me lembro. E essas coisas, sabes, ainda hoje me dizem muito.
”Eu sei,” disse Marta, e abraçou-se de novo a ele. Tinham sido jovens naquele tempo, e agora que voltavam a encontrar-se o que tinham diante de si era o começo da velhice.
Depois, num impulso, quiseram ir à praia. Uma das propensões que ambos conservavam desde a juventude era a de adoradores do sol – capazes, já no princípio dos anos setenta, quando em Portugal ainda não se falava de nudismo como prática viável, de caminhar quilómetros ao longo da costa para exporem o corpo todo aos raios solares. Tanto um como o outro sentiam, sem que o soubessem exprimir ou disso fizessem grande caso, que qualquer vestuário que se use, por reduzido que seja, nos domínios do sol, do mar e do vento, profana sempre qualquer coisa de sagrado.
Meteram-se no carro e foram para a Figueira da Foz. Durante o trajecto Mariana não parou de tocar em Miguel, de lhe pegar na mão ou, se ele se soltava para conduzir, de lhe acariciar o joelho e a coxa. Atravessaram a cidade sem parar, subiram a serra da Boa-Viagem, e no caminho encontraram uma vereda que levava à praia. Só à chegada se deram conta de uma dificuldade: no porta-bagagens havia uma toalha esquecida, mas nem um nem outro tinham trazido fato de banho. Tiveram por isso que caminhar por muito tempo sobre a areia mole até encontrarem um recanto onde pudessem ficar à vontade. Marta estendeu-se ao sol, vestida apenas com as suas cuequinhas brancas de renda, e Miguel, que ao princípio conservara os shorts de algodão, acabou depois por tirá-los e ficar nu. Conversaram e beijaram-se, tomaram-se do sol, e acariciaram-se; mas não fizeram amor – a não ser que já esteja a fazer amor quem mata uma fome antiga de beijos e carícias. Não tinha sido ainda para isso que se tinham encontrado: não precisaram de palavras para o saber.
O caminho de regresso pela areia mole deixou-os exaustos. Quando estavam quase a chegar à vereda que os havia de levar ao carro Miguel deu por falta dos sapatos e teve de voltar atrás por eles. Não tinham levado nem uma garrafa de água: quando voltaram ao carro aquecido pelo sol estavam desidratados; e quando quiseram rir-se de si mesmos e da sua pequena aventura no deserto, a voz e o riso sairam-lhes da garganta como um murmúrio ressequido.
Num café à beira da estrada beberam água a grandes goles e os corpos, hidratados, puderam de novo produzir a necessária porção de suor e lágrimas e saliva. Agora podiam falar, e talvez ocasionalmente, conforme as palavras ditas, ver nos olhos um do outro um ressumar de lágrimas. Foi a partir desse momento que souberam com certeza absoluta que no encontro seguinte se iam tornar amantes.
E com efeito: mais tarde, quando a época balnear já tinha passado, passaram um fim de semana na praia. Não tiveram dificuldade em alugar um apartamento com vista para o mar. De manhã e ao fim da tarde já fazia frio, e a maior parte das lojas e cafés estavam fechados. As horas de sol passavam-nas na areia, na praia mais deserta que puderam encontrar. Desta vez tinham trazido fatos de banho mas o adiantado da época permitiu-lhes ficar nus, abrigados numa reentrância da areia. Nunca pararam de se beijar, como se com esta infinita sucessão de beijos pudessem recuperar o tempo que tinham passado longe um do outro. É por vezes assim que se mitiga o choro no peito antes que chegue aos olhos: talvez proviesse daí o sufoco, a vertigem, o esvaimento desses beijos.
Comeram iogurtes, fruta e sanduiches, que Marta preparou na altura. Numa garrafa traziam a água que lhes serviu para beber e para lavar as mãos. Enlaçaram-se em cima da toalha, ele por cima, penetrando-a com alguma dificuldade enquanto lhe beijava a boca; e entremearam as carícias com risos e gracejos, exorcisando o desconforto do lugar, a areia que se insinuava por todos o lados, a possibilidade de serem surpreendidos por algum passante inocente ou voyeur experimentado, e exibindo um ao outro, com alguma melancolia, as marcas que a idade já lhes ia deixando nos corpos.
No apartamento tomaram duche um de cada vez, pudicamente. Marta vestiu o seu roupão de cetim branco e calçou uns chinelos do mesmo tecido. Depois de comerem ficaram algum tempo à conversa diante do televisor. Deitaram-se como um casal com anos de convívio, ela em camisa de noite, os chinelos arrumados ao lado da cama, ele em pijama às riscas. O visível prazer que encontravam nesta pacatez partilhada despertou-lhes de novo o riso: os dois namorados aventurosos que se tinham enlaçado na praia deserta revelavam-se afinal dois velhos amantes ciosos do seu conforto. “Meu amor quarentão,” dizia Marta. “Meu amante serôdio.”
Depois abraçaram-se, colaram a boca um à do outro, e começaram mais uma das intermináveis séries de beijos de que nunca, mesmo anos depois, haviam de se cansar. Das bocas e das faces os beijos passaram aos corpos. A camisa de noite de Marta tinha botões à frente; Miguel abriu-os para lhe beijar os seios. Os mamilos eram de um cor-de-rosa escuro e tinham a falsa transparência das framboesas que ela lhe tinha servido de tarde, na praia. As mãos dele percorriam-lhe o corpo, devassando-lhe os seios, as coxas e as nádegas com a mesma liberdade insolente de havia vinte anos.
Quando a camisa de noite se tornou um empecilho Marta tirou-a por sobre a cabeça. Depois foi a vez das roupas dele; e quando se encontraram os dois despidos puxaram os lençóis de novo para cima, num estranho acesso de pudor; como se não tivessem estado também nus na praia, poucas horas antes, à vista de quem passasse. E também esta inconsistência lhes foi ocasião de riso: riam-se de si próprios, das suas fragilidades, das histórias absurdas que inventavam a propósito dos incidentes do dia.
Debaixo das roupas da cama Miguel inclinou-se sobre ela. Marta enterneceu-se quando ele a cobriu com o lençol, como que para a proteger da devassa dos seus próprios olhos. Sob a carícia dele sentiu que as coxas se lhe começavam a afastar como se tivessem vontade própria; mas durante muito tempo tudo o que ele fez foi beijá-la, de novo na boca e nos seios, mas agora também nas coxas e no ventre e por fim, deliciosamente, no sexo. Timidamente, aflorou-lhe ela também com os lábios a ponta do pénis, como lhe tinha feito apenas uma vez no tempo dos seus amores juvenis; mas Miguel, concentrado em beijá-la, mal pareceu aperceber-se de como ela lhe retribuía a carícia.
Marta começou a mover-lhe os lábios ao longo do sexo, a explorar-lhe a glande com a ponta da língua. À medida que a sua própria excitação progredia ia-se sentindo mais afoita, e queria ouvi-lo gemer como ela própria não se conseguia impedir de o fazer. Finalmente sentiu-o reagir: da cabeça que se lhe aninhava entre as coxas subiu-lhe até aos ouvidos um gemido que lhe pareceu meio de prazer, meio de protesto, e aquele beijo dele, tão sábio e tão firme, transformou-se numa carícia vaga e trôpega, como se a boca com que lhe explorava as dobras do sexo tivesse perdido o norte, embriagada, distraída.
Subitamente Miguel estendeu-se por cima dela e procurou-lhe a boca. Marta não tinha muita vontade de provar nos lábios do amante os sabores do seu próprio corpo; mas não teve tempo nem presença de espírito para recusar o beijo que ele lhe pedia, agora que lhe sentia o falo erecto e urgente às portas da vagina, penetrando-a de um movimento só. Miguel estava apoiado sobre os cotovelos e sorria-lhe; por vezes baixava a cabeça para lhe beijar a boca, ou desviava-lhe o cabelo dos olhos e da face, desejoso de a olhar. Quando quis penetrá-la mais fundo, passou-lhe os braços por detrás dos joelhos e ergueu-lhos quase até aos ombros, batendo o ventre contra o dela, trás, trás, trás, com um ruído seco de palmadas. E depois, quando precisou de descansar os braços e se lhe deitou todo estendido sobre o corpo suado, o ruído dos embates mudou, platch, platch, platch, como quem bate com a mão aberta num pano encharcado.
De repente Miguel saiu de dentro dela. “Anda tu por cima, agora.”
Por um minuto Marta gozou a sensação de ter o amante imobilizado; mas depois também teve prazer no movimento que ele começou a fazer para cima com os quadris, num vai-vem que era amplo e vigoroso e contudo não lhe retirava a ela o domínio dos seus próprios movimentos. Sentiu que ele a puxava para si, mas libertou-se-lhe do abraço e foi-se levantando a pouco e pouco até ficar sentada sobre ele.
O que Marta mais desejava neste momento era inclinar-se toda para trás, vergando para baixo o pénis do amante de modo a senti-lo duro e firme no ponto exacto em que o queria. Mas viu-lhe o trejeito de dor, ouviu-lhe o “não” murmurado e sentiu-lhe as mãos na cintura, puxando-a, impedindo-a de se inclinar mais para trás do que já estava; e para se compensar desta limitação redobrou a rapidez e o vigor com que o cavalgava, mais rápido, mais forte, mais fundo.
E Miguel, o que sentia ele? Antes de mais uma dor, o pénis erecto demais, repuxado para baixo como um ramo de árvore prestes a quebrar-se; mas sentia também, nos quadris, uma vontade urgente de soltar o corpo e o ventre até que se tornassem independentes da mente e da vontade; e finalmente, nas mais duras e mais fundas raízes do corpo, os chamamentos de um orgasmo que se lhe anunciava do lado de lá da dor e do desconforto. Da dor que o obstruía, que se lhe antepunha, que era preciso que terminasse. E o que ele ouvia eram os suspiros e os arquejos de Marta, e os seus próprios, os sons dos corpos batendo um no outro, as palavras desconexas, meu amor, minha querida, assim, assim é bom. E também os carros na rua, as ondas no mar, o vento nas janelas, e tudo isto se integrava, por uma alquimia inexplicável, nos sons do amor e do prazer.
Mas o que Miguel via, o que ele via nesta hora prodigiosa, era uma imagem de beleza absoluta: sentada sobre ele, cavalgando-o como uma amazona furiosa, a cintura fina, o ventre liso, os seios juvenis raiados de veias azuladas, Marta tinha inclinado para trás a cabeça. Os cabelos negros, desgrenhados como os de uma feiticeira, combinavam-se com o preto das sobrancelhas e das pestanas para lhe endurecer os traços do rosto, e era um rosto de índia, de matriarca; um totem, uma máscara africana. E via-lhe ainda, maravilhado, a boca meio aberta num ricto de sofrimento; os olhos fechados num esforço de concentração; os dois vincos fundos, como parêntesis, dos dois lados da boca; o rubor que lhe tingia as faces e o pescoço do mesmo cor-de-rosa escuro dos mamilos.
Do pescoço sobressaía-lhe o cordame reteso dos tendões e das veias. Miguel teve a certeza de que nunca em toda a história do mundo uma mulher tinha sido tão perfeitamente bela como Marta no momento do prazer; e viu na imagem que tinha diante dos olhos a justificação da sua própria existência neste momento. A dor que o desexcitava, a certeza de estar cada vez mais longe do orgasmo que o corpo há tão longos minutos lhe pedia, nada disso tinha importância comparado com a contemplação que desejaria eterna deste corpo, destes seios, deste rosto de deusa agonizante. Quis largar-lhe a cintura, deixá-la inclinar-se para trás à sua vontade; mas não conseguiu, não era possível, a dor ia acabar por torná-lo flácido, tão incapaz de ter prazer como de o dar à amante. Para se manter erecto abraçou-a; depois puxou-a para si até lhe sentir os seios sobre o peito e rolou para cima dela sem a largar.
Marta não teve orgasmo; teve-o Miguel, tanto mais intenso quanto mais difícil e mais dolorosamente perseguido. Os primeiros gemidos com que o prazer dele se anunciou pareceram de aflição aos ouvidos de Marta; mas o que se lhes seguiu foi um rugido, um grito exultante como ela nunca tinha ouvido a nenhum outro homem com quem tivesse feito amor; e no momento em que ele se lhe desfez em sémen dentro da vagina também a respiração se lhe desfez num riso solto, meu amor meu amor minha querida, uma girândola festiva de beijos e palavras e suspiros: e Marta viu naquele orgasmo dele, tão solto e confiante, tão bonito, tão mais de mulher que de homem, uma dádiva e uma entrega.
Por vezes o melhor é quando dois amantes se reencontram na cama, frescos do duche, lassos do amor, para conversar enquanto o sono não vem. A conversa de travesseiro serviu para falarem de amor, o que na circunstância queria dizer falar de sexo: o que cada um já tinha feito, o que gostaria ou não se importaria de fazer um dia, o que não faria de maneira nenhuma. E foi também durante esta conversa que ficaram delineadas as primeiras das ficções com que ao longo do tempo haviam de se explicar um ao outro: trovador e castelã, édipo e esfinge, cavaleiro e rainha, chefe bárbaro e princesa cativa; e ainda guru e feiticeira, dois velhos mirrados, meio bruxos, procurando conchas numa praia tropical; mas também desde já, e sobretudo, e sempre, Senhor e escrava.
Mas não foi ainda desta vez que inventaram Mariana. Adormeceram falando, que é o mais delicioso dos adormecimentos para amantes apaixonados. Acordaram a meio da noite para que os corpos se unissem de novo; e quando ela se deitou por cima dele na escuridão, beijando-o ternamente, deixando que os cabelos lhe caissem sobre o rosto, a imagem que Miguel teve dela foi a de horas antes, plantada sobre ele, majestosa, totémica, agonizante de esforço. Como se uma árvore poderosa, a Árvore do Mundo, Yggdrasil, estivesse misturando as suas raízes com as dele.
“Sim, minha rainha. Minha deusa. Goza. Goza muito. Goza tudo. Se soubesses como és bela no prazer!” E ao dizer isto sentiu um choro que não era de amargura avolumar-se-lhe no peito, porque as meras palavras não podiam fazer ver à amante a completa verdade da visão que o dominava. Durante todo o tempo não cessou de lhe murmurar palavras de amor e homenagem, deusa, castelã, rainha.
Marta ouvia-lhe estas palavras mais com o coração do que com os ouvidos, que lhe iam ficando surdos aos meros ruídos do mundo; e embora elas lhe enchessem o peito de um éter subtil que a embriagava; e lhe fizessem correr o sangue com mais força, e lhe endoidassem os quadris, não a distraíram tanto que a não deixassem ver a fragilidade exposta com que o amante neste momento se lhe mostrava.
Ninguém tem o direito de se entregar assim a alguém, pensou, eu agora se quisesse podia magoá-lo terrivelmente, podia destruí-lo. E comparou-o com os animais, os gatos e os cães que temos em casa para nosso prazer e companhia. Os animais, esses, olham para nós sem saber que está nas nossas mãos alimentá-los ou bater-lhes, acarinhá-los ou abandoná-los; mas uma pessoa, um ser humano, tem o dever de saber tudo isso, e de se precaver. Foi por isso com um laivo de irritação, mas também com a mais escrupulosa doçura, que Marta possuiu o corpo de Miguel, naquela noite em que se debruçou sobre ele, cobrindo-o todo com os seios e os cabelos.
“Dá-me, dá-me tudo,” disse-lhe, abraçando-o com força. Miguel abriu muito os olhos, encheu o peito com uma golfada de ar, e soltou um longo gemido que a ela lhe soou tão aflito como exultante; e Marta sentiu a ejaculação que a inundava. Mas desta vez o orgasmo maior, o climax de espanto e maravilha, foi o dela, gritado ao mundo sem cuidar que atravessasse paredes, despertasse pássaros, alarmasse vizinhos.
Quando Miguel a beijou encontrou-lhe o rosto molhado. Acendeu a luz, alarmado, e viu que chorava, um choro discreto que lhe corria pelo o rosto sem lho deformar. Os olhos não lhos viu vermelhos, nem as feições distorcidas, apenas um pequeno sorriso entre lágrimas. Sentiu que ela lhe escondia a cara no ombro, molhando-lho também, e tremendo um pouco. Depois o tremor passou. Miguel abraçou-a com força, sem falar, e pôs-se a entristecer ao lado dela, até que o sono os consolou, e o sol da manhã os alegrou de novo.
(Publicado no Blogger a 18/12/05)
