- Agora, meu Senhor, vou continuar a dançar para ti. Posso?
- Dança, minha escrava.
Mariana tirou o avental. De novo toda nua, ligou a aparelhagem; e dos altifalantes saiu um dos sons que Ricardo, tão pouco apreciador de folclore como Mariana, menos esperaria: uma modinha da Nazaré, ferrinhos, concertinas, cavaquinhos, pandeiretas, cântaros percutidos na boca por abanadores de palha e um coro de que sobressaiam as vozes esganiçadas das mulheres.
Também o mar é casado, ó ai,
Também o mar tem mulher.
É casado com a areia, ó ai,
Bate nela quando quer.
Não se tratava de recordar a Nazaré, é claro. Ricardo e Mariana nunca tinham estado juntos na Nazaré. O que veio à memória de Ricardo foi outra terra de pescadores, a Figueira da Foz, a praia de Buarcos, o hotel onde tinham passado a noite e onde ele tinha batido em Mariana pela primeira vez. Não foi só pela música que Ricardo se recordou dessa noite, foi preciso também que Mariana, nos movimentos da dança, passasse as mãos pelas nádegas; e então, sim, lembrou-se das palmadas que lhe tinha dado e que a tinham, no dizer dela, «desexcitado» – e de como ela se tinha voltado a excitar logo a seguir, com uma excitação nova e diferente que nunca mais tinha deixado de colorir a relação entre os dois… Mariana dançava com os braços no ar, rodopiava, corria, marcava o fim de cada verso com um bater do pé no chão, como se durante toda a vida tivesse pertencido a um rancho folclórico e nunca tivesse faltado aos ensaios.
Mas antes que a cantiga chegasse ao fim o som começou a esmorecer. Por fim já nada restava que não fosse uma batida surda e quase imperceptível, que Mariana acompanhava com gestos pouco mais que esboçados. E desta batida emergiu outra música, tão gradativamente como a anterior tinha terminado. Era ainda o mar; era ainda a Figueira, Buarcos, Quiaios, a Tocha, Mira, Sesimbra; mas visto com outros olhos, sentido com outros sentidos, cantado com outra voz.
Fui ao mar
No meu batel,
Além ao mar cruel
E o mar bramindo
Diz que eu fui roubar
A luz sem par
Do teu olhar
Tão lindo.
A voz de Dulce Pontes. No embalo da música, Mariana ondeava os quadris, os ombros, os braços, e caminhava na direcção de Ricardo para logo refluir, como o mar.
Que luz teria Ricardo roubado, e a quem, que assim iluminava o voltear de Mariana – tão depressa junto dele a oferecer-se toda, como, subitamente arisca, no canto oposto da sala, inacessível.
Esta liberdade que Mariana tomava de se negar ao seu Senhor nos movimentos da dança era uma pura ficção que mais não fazia do que realçar, por contraste, a realidade; e esta era o direito absoluto de Ricardo sobre ela. Um único gesto que ele fizesse bastaria para que Mariana se lhe lançasse aos pés, pronta a satisfazer o mínimo ou o mais exigente dos seus caprichos.
- Dança para mim, minha escrava.
E Mariana dançava, abria os braços na horizontal, criava um movimento sinuoso que lhe começava na ponta dos dedos e se propagava horizontalmente até aos dedos da outra mão: uma sucessão de ondas, convexa na flexão dos pulsos e na redondeza dos ombros, côncava na dobra dos braços e na junção das clavículas. Mais abaixo oscilavam-lhe os seios como dois batéis sem lastro. O ventre, brilhante de suor, despedia revérberos como o mar no Verão, e as ancas poderosas balançavam como entre as margens dum oceano balançam as marés.
Dançaria assim a Rainha de Sabá para Suleiman. o Sábio? Roxana para Alexandre, o Grande? Cleópatra para Marco António? Sentado no sofá na posição dos Césares, com o torso direito, os braços descansados nos apoios laterais, um pé mais avançado do que o outro, Ricardo era neste momento o imperator, o centurião; contemplava Mariana com o olhar tranquilo que um soldado lança aos despojos de guerra que lhe couberam; e foi com a sua voz de legionário, a sua voz de Leonardo, que repetiu:
- Dança, escrava. Dança para mim…
Mariana tinha dançado muitas vezes para Leonardo, como também para Gino, para Baltazar e para Jorge, os outros três avatares de Ricardo, e para cada um tinha estilos diferentes. A varina efusiva e vigorosa de uns minutos antes tinha desaparecido completamente para dar lugar a uma lânguida odalisca. A dança agora era uma dança do ventre: sem véus, nem sedas, nem guizos, nem moedas douradas a chocalhar, só o corpo nu de Mariana e os cabelos soltos; mas nem por isso um espectáculo menos sumptuoso.
Xerazade, pensou Ricardo. E o mesmo tinha pensado Mariana, sem dúvida, ao organizar a sucessão de músicas, porque agora o que se começava a ouvir era a Xerazade Op. 35 de Rimsky-Korsakov. O primeiro andamento desta suite sinfónica, um Largo Maestoso, e o último, um Allegro Molto, aludem ao mar e a Sindbad, o marinheiro. Ao balançar das ondas acrescentava agora Mariana, nos movimentos da dança, a graça majestosa e a leveza dum dhow, essas embarcações de vela latina, antecessoras das caravelas portuguesas, que ainda hoje percorrem o Oceano Índico das praias do Hindustão às de Moçambique.
Mariana fincara os pés no chão; a cabeça, conservava-a inclinada para a frente, imóvel numa posição que tanto podia ser de respeito como de concentração; e mantinha o pescoço na vertical, direito como um mastro num dia de calmaria. Entre o pescoço e os pés, porém, todo o resto do corpo se movia sem cessar, seios, cintura, ancas, cada músculo e cada refego de carne puxado numa direcção diferente como se todos os ventos do ar e todas as ondas do mar os disputassem. As mãos, como gaivotas, solicitavam a cada momento a atenção de Ricardo, forçando-o a desviar os olhos dos mamilos maquilhados de cor-de-rosa escuro (como ele gostava) e da racha entre as pernas onde de vez em quando podia entrever (como uma pérola ainda dentro da ostra, ou como uma gota de orvalho numa violeta) um brilho de excitação ou de suor.
(Publicado no Blogger a 28/01/07)




