história de O
Maio 7, 2008 por Vanderdecken
Estive a rever o filme. Nestas ocasiões é obrigatório dizer-se que o filme é muito inferior ao livro, e neste caso é verdade.
No filme, o amante de O, René, é simplesmente bonito demais. Faz beicinho. Pede, suplica, explica-se, justifica-se. Fica-se com a sensação de que O é que devia ser a Senhora dele, e não ele dela. O actor que faz de Sir Stephen é um canastrão: o seu domínio sobre O é demasiado histriónico para ser credível. Os homens em Roissy são vilões de opereta. Salvam-se Anne-Marie, Jeanne e Yvonne.
No filme foi eliminada uma personagem do livro: Natalie, a irmã mais nova de Jacqueline (Jaqueline é a modelo fotográfica que O acaba por conduzir a Roissy para se submeter ao mesmo treino que ela). A personagem foi suprimida porque tem quinze anos, e entre a data em que o livro foi escrito e a data em que o filme foi produzido tornou-se politicamente incorrecto uma jovem dessa idade pensar em sexo noutros termos que não sejam o da pura diversão - uma espécie de desporto radical - a praticar exclusivamente com miúdos da mesma idade.
No entanto Natalie é uma personagem importante. Não porque intervenha na acção - não intervém - mas porque observa tudo com um olhar inocente - isto é, um olhar sem preconceitos. Natalie legitima O porque não olha para ela politicamente, mas sim com os olhos dos sentimentos. É um olhar velho como o mundo e novo como a manhã.
E o mundo de Just Jaeckin (o realizador) tem glamour a mais. Do que eu menos gosto no filme, porém, é a cena final em que O apaga um charuto na mão de Sir Stephen. Porquê este gesto? Pela necessidade politicamente correcta de introduzir um factor de simetria na relação entre os dois? Mas isso é pôr tudo ao contrário: a beleza duma relação senhor-escrava está precisamente no equilíbrio radicalmente assimétrico que procura e às vezes alcança.
O livro, esse, é uma obra-prima. Um clássico, não só da literatura erótica, como da literatura em geral. Como assinala Jean Paulhan no prefácio, é um daqueles livros que mudam o leitor para sempre. Livros assim são da ordem da grande literatura.
Talvez um dia alguém faça um bom filme da História de O. O tema merece-o. Com um bom realizador, bons actores e sem concessões, quer ao politicamente correcto, quer à estética «glossy» das agências de modelos.
(Publicado no Blogger a 21/08/07)
