Há coisas na vida que já me resignei a não saber, e uma delas é se as mulheres são naturalmente submissas.
As teorias, conheço-as todas mas não acredito em nenhuma. Falarei portanto das mulheres que conheço pessoalmente: umas autoritárias e dominantes; outras comprometidas ideologicamente com o feminismo e a igualdade entre os sexos; outras ainda – a maioria – indecisas e contraditórias; e outras, finalmente, possuídas pela paixão de obedecer e servir.
Olho para estas mulheres e todas elas, com excepção das feministas doutrinárias, me parecem «naturais». Mas há uma coisa em que as submissas se distinguem das outras: a intensidade com que vivem a sua escolha.
Não se trata aqui de paixão ideológica, mas de algo muito diferente. As submissas não teorizam, vivem. Não é que não sejam inteligentes: são-no tanto como as outras, ou mais, e usam essa inteligência com uma lucidez que por vezes chega a ser arrepiante. Mas é uma inteligência que tem tudo em consideração, até o mistério; e nunca conheci nenhuma submissa que não reconhecesse e celebrasse o mistério da sua natureza.
Uma amiga minha, muito activa no meio BDSM, diz-me repetidamente que aconteça o que acontecer – saldem-se~as suas experiências e relações futuras em êxitos ou em fracassos – «baunilha» é que nunca mais. Ouço-a e fico maravilhado perante alguém que – coisa rara nos tempos que correm – sabe exactamente o que quer.
Outra boa amiga – em cujo vocabulário não entram, de resto, expressões como «BDSM» ou «baunilha» – põe as coisas de modo diferente. Exprime-se em termos duma epifania, duma iluminação súbita, duma descoberta. Para ela há, muito nitidamente, o «antes« e o «depois». Houve uma vida dita «normal», depois houve o contacto com um mundo de possibilidades centradas no obedecer e no servir; e agora há a convicção inabalável de pertencer a este mundo.
De onde vêm estas mulheres? De que mundos, de que vidas, de que experiências? Sabe-se que para cada acção há uma reacção igual e oposta: tratar-se-á aqui duma reacção aos excessos doutrinários do feminismo radical? A hipótese é tentadora mas pouco convincente, até porque não faltam zonas de intersecção entre certas formas de submissão e certas correntes feministas (veja-se a este respeito a reacção inicial de Andrea Dworkin, que mais tarde mudou de ideias, à História de O). Mais plausível é tratar-se duma reacção à morte do amor romântico anunciada esta semana pela revista Time: Hollywood já não conta histórias de amor; Humphrey Bogart já não se despede, de coração partido, de Ingrid Bergman; Rhett Butler já não beija apaixonadamente Scarlett O’Hara. No mundo de hoje o amor romântico já não tem lugar: quem ama serve, quem ama está preso, e poucos querem servir ou estar presos.
E contudo…
E contudo lembro-me do amor cortês na Idade Média. Olho para as submissas, tão belas e tão nobres na sua servidão, e lembro-me do amor cortês. Os temas estão lá todos: o serviço, a abnegação, muitas vezes a não-consumação ou a consumação adiada do amor físico. A diferença é que hoje quem está sentado no trono é um homem e quem está de joelhos perante ele é uma mulher. É justo.
Porque são apaixonadas; porque mantêm acesa uma chama que não se pode, não se deve apagar; porque vão ao fundo de si próprias e não têm medo do que lá encontram; porque são as guardiãs do Mistério neste tempo de máquinas e simplismos – por tudo isto, quero prestar hoje a minha homenagem à «d», à «k», à «a», à outra «a», à «i» e a todas as outras submissas e escravas com quem tenho aprendido tanto.
(Publicado no Blogger a 27/08/07)
(Publicado no Blogger a 27/08/o7)




