Ricardo acabou de desamarrar Dúnia que, ainda meio a soluçar, se chegou muito a ele, e para esconder o rosto lhe molhou o ombro de lágrimas.
Abraçando-a, conduziu-a de novo à sala, onde lhe pegou no queixo para a obrigar a virar-se para ele. Dúnia ofereceu um pouco de resistência mas acabou ceder: então ele começou a beijá-la nos olhos, na boca, na face, nos cantos dos lábios, chamando-lhe minha querida, minha escrava linda, minha menina. Quando a viu serena perguntou-lhe:
- Sofreste muito?
- Sim – respondeu Dúnia. E depois duma pequena pausa acrescentou:
- Sofri por ti…
Ricardo fez que sim com a cabeça, tomou-a nos braços para a beijar de novo e ordenou:
- Agora vira-te para eu ter ver as marcas.
Dúnia obedeceu prontamente, com uma espécie de orgulho a animar-lhe os gestos. Afastou-se do dono um metro ou dois e girou devagar sobre si própria para lhe mostrar as costas e o traseiro. Curiosa, virou a cabeça para trás por sobre o ombro tentando ver as suas próprias nádegas.
- Estão bonitas, as tuas marcas – disse Ricardo.
Ela não concordou nem discordou. O chicote tinha-lhe traçado uns riscos grossos de um lado ao outro do corpo, mais rosados ou mais vermelhos conforme a força com que os golpes tinham sido vibrados. Onde os traços se cruzavam a vermelhidão era mais intensa, da cor da carne viva.
- Agora ajoelha-te.
O orgulho e a alegria de Dúnia esvaíram-se repentinamente e em seu lugar veio-lhe um forte sentimento de angústia e revolta. Sabia a razão daquela ordem. Conhecia o ritual. Ajoelhou.
Ricardo pegou no chicote, que estava caído em cima do sofá, e pô-lo diante dos lábios dela:
- Minha escrava, beija o chicote.
Ela aproximou os lábios… Mas não, não podia. Suplicou:
- Não, isso não. Não me obrigues a fazer isso. Por favor, meu Dono, não me obrigues.
- Beija o chicote, escrava.
Com um movimento violento da cabeça, Dúnia virou a cara para o lado, fechando os olhos para não ver, não ouvir, não estar ali. Ricardo pegou-lhe no queixo, obrigou-a a virar a cara para a frente e, quando viu que ela não abria os olhos, esbofeteou-a com força. Então ela abriu os olhos, atónita e ultrajada, e olhou para ele fixamente num silêncio desafiador.
- Não queres beijar o chicote, escrava?
Dúnia nunca o tinha visto tão zangado – pálido, com os lábios apertados, as narinas muito abertas, os olhos a faiscar.
- Pois bem, não vais beijar o chicote – disse Ricardo.
Mas acrescentou, antes que ela tivesse tempo de suspirar de alívio:
- Com uma condição.
Dúnia sentiu que tinha mais medo da condição do que do gesto que lhe tinha sido exigido. Timidamente, mansamente, ainda de joelhos, perguntou:
- Que condição, meu Senhor?
A expressão de Ricardo não abrandou.
- Sabes o significado deste beijo. A condição é esta: vais olhar-me bem nos olhos, bem de frente, e dizer-me que esse significado é mentira. Diz-me isso e não beijas o chicote.
Ela baixou os olhos de novo e manteve-se longamente em silêncio sem que ele lhe interrompesse os pensamentos. Por fim disse, em voz sumida:
- Não, não é mentira.
Ricardo não disse nada. Dúnia, depois doutro longo silêncio, repetiu:
- Não é mentira, meu Senhor.
Ao ouvir isto, o Dono apresentou-lhe de novo o chicote; e desta vez ela beijou-o, pondo nesse beijo todo o fervor que antes temera mostrar, e compreendeu então que esse temor tinha sido a causa principal da sua recusa.
- Agora agradece-me o castigo.
Vencida, Dúnia tentou obedecer, mas as palavras não lhe saiam da boca. Ricardo acariciou-lhe o rosto e disse:
- Vá. Repete comigo: “Obrigada, meu Senhor, pelo castigo que me deste.”
Dúnia baixou os olhos, sorriu muito ao de leve, e disse:
- Obrigada, meu Senhor, pela oportunidade que me deste de sofrer por ti.
Ricardo sorriu, encantado pela volta que a sua escrava tinha dado à frase e pela pequenina vitória que esta modificação representava para ela. Inclinou-se, ajudou-a a pôr-se de pé, abraçou-a e ficou mais de um minuto a acariciá-la e beijá-la. Depois sentou-se no sofá e fez-lhe sinal para que se sentasse no chão aos seus pés.
Durante muito tempo ficaram os dois em silêncio com os seus pensamentos. Quando começaram a falar foi como se um dique tivesse rebentado: a conversa prosseguiu pela noite fora. De madrugada, já com os primeiros raios de sol a entrar pela janela, ele possuiu-a sobre o tapete.




