Transacção
Maio 14, 2008 por Vanderdecken
Clara teve finalmente que admitir perante si própria que já não se sentia escrava de Lúcio. Mais do que isto: teve que admitir, o que de certa maneira foi ainda mais difícil, que Lúcio já não se sentia seu Senhor.Tornara-se dependente, possessivo e ciumento. Já não dispunha dela com a liberdade de outrora - uma liberdade esplêndida, insolente, que era quase uma displicência; em vez disto agarrava-se a ela com um amor timorato e inquieto.
Ela, por sua vez, sentia-se culpada: culpada de já não se sentir dele por mais que dissesse a si mesma que havia de o ser sempre. Cada vez mais se lembrava das palavras com que tinham selado, meses atrás, o seu pacto: «a tua única liberdade é deixares de ser minha escrava quando quiseres.» Muito bem; lindas palavras; mas para Clara o exercício desta liberdade, a mera admissão de que ela pudesse ser exercida, aparecia como uma traição e um fracasso.
E havia ainda Ricardo. Pensar em Ricardo, como Clara não se conseguia impedir de fazer, era outra deslealdade para com Lúcio. A maior traição, porém, a traição que Clara não perdoava a si própria, era o quadro que a sua imaginação lhe pintava com cada vez maior frequência - sempre inesperado, sempre súbito, sempre indesejado: ela própria aos pés de Ricardo em vez de aos de Lúcio: Ricardo, e não Lúcio, na posição de Senhor - um Senhor verdadeiro, mais atento, mais firme, mais seguro de si, mais exigente.
Culpada, portanto. Sabia-se culpada. Porque não via Lúcio que ela era culpada? Porque não a punia? Porque não se apoderava de novo dela, e a fazia sua, e lhe tirava da cabeça o pensamento indesejado de pertencer a outro?
A relação não terminou com um corte limpo nem repentino. Teve afastamentos e reconciliações, lágrimas, discussões, dias de felicidade quase perfeita. Durante um desses períodos de afastamento, Clara, sem saber se era livre ou não, começou a encontrar-se com Ricardo; e ao fim de alguns destes encontros teria sem dúvida chegado a ir para a cama com ele se ele se tivesse prestado a isso sem que estivessem perfeitamente definidos os seus direitos sobre ela.
- Não podes ter dois donos - disse ele no dia em que ela lhe ofereceu a boca num beijo.
Tão estranho é o coração humano que Lúcio, quando soube dos encontros entre Clara e Ricardo, se ressentiu mais desta infidelidade não consumada do que se teria ressentido da mais tórrida e apaixonada das ligações eróticas. Numa das últimas discussões que tiveram disse à amante, entre desencantado e furioso:
- Finalmente, não és minha escrava.
Clara ainda não estava preparada para admitir esta verdade. Foi buscar o chicote, disse a Lúcio que não a poupasse, e ele de facto não a poupou; mas no fim, perante as lágrimas dela e os vergões em carne viva que lhe cobriam o corpo, continuou a dizer:
- Não, Clara. Já não és a minha escrava.
Dias depois, durante a noite, quando ele tinha acabado de sair de dentro dela, ela murmurou, como tantas vezes antes, «sou tua».
- Pois se és minha - respondeu Lúcio - não te vais entregar ao Ricardo.
Clara não respondeu. Entregar-se a Ricardo era o seu maior desejo, e sobre isto não podia mentir. Além disso não tinha compreendido bem as palavras de Lúcio, que pareciam uma ameaça mas não tinham sido ditas em tom de ameaça. Só compreendeu quando ele continuou:
- Não te vais entregar a ele. Se não te pertences, não te podes entregar a ninguém. Quem te vai entregar ao Ricardo sou eu.
E sem mais palavras, surdo aos pedidos e às perguntas dela, levantou-se, vestiu-se a saiu. Nos dias que se seguiram, Clara não o encontrou nem em casa, nem nos lugares que ele costumava frequentar, e não conseguiu contactá-lo por meio nenhum. Durante este tempo todos os encontros que teve com Ricardo foram para falar de Lúcio, do estado de espírito de Lúcio, do medo que Clara tinha de que ele fizesse «alguma asneira».
Por fim foi Ricardo quem lhe disse:
- O Lúcio telefonou-me.
- Telefonou-te? A ti? Onde é que ele está?
- Está em Itália. Chega amanhã. Quer encontrar-se contigo e quer que eu esteja presente.
Clara ficou sem saber o que pensar. Ao fim de um longo silêncio, perguntou:
- E tu vais?
- Vou. E tu também. Vamos os dois. Mas esta noite dormes comigo.
Nessa noite, quando os corpos dos dois se uniram pela primeira vez, foi como se fossem amantes de longa data, reencontrados ao longo duma longa e penosa ausência. Amaram-se toda a noite com lágrimas e sorrisos, com denodo e temor, com violência e brandura. Mas nem por uma vez ele disse «és minha» ou ela disse «sou tua».
O encontro foi em casa de Lúcio, que os recebeu num compartimento mobilado como uma biblioteca. Convidou Ricardo a sentar-se numa poltrona e fez sinal a Clara que se sentasse no chão, como tantas vezes antes. Quando ela, corando, fez menção de se ajoelhar no seu lugar habitual em frente ao sofá, ele abanou a cabeça e indicou-lhe com o queixo o tapete à frente de Ricardo.
- Aceita um whisky? Um charuto?
- Com todo o gosto - respondeu Ricardo. - Mas só o whisky, por favor.
- Clara, queres servir-nos?
Clara, que já estava ruborizada, enrubesceu ainda mais ao ouvir esta frase que lhe pareceu cheia de segundos sentidos. Ao verter a bebida atrapalhou-se e deitou um pouco por fora de um dos copos. Poucos dias antes este lapso teria sido pretexto para um castigo severo, mas desta vez Lúcio limitou-se a dizer:
- Deixa estar, não faz mal. Depois a empregada limpa.
Parecia não estar com pressa: esperou que ela servisse os dois whiskies e se sentasse de novo no chão aos pés de Ricardo antes de perguntar:
- Diga-me, Ricardo, a Clara alguma vez lhe disse que me pertencia?
- Sim - respondeu Ricardo. - Várias vezes.
- Ah. E alguma vez lhe disse que tinha deixado de me pertencer?
- Não, nunca.
- Nem que lhe pertencia a si?
- Também não. Tanto quanto sei, a Clara considera-se propriedade sua.
Lúcio sorriu levemente.
- Nem nunca lhe disse que desejava ser sua?
- Os desejos da Clara - respondeu Ricardo, pausadamente - não contam.
Lúcio levantou-se do sofá e serviu-se doutro whisky.
- Da última vez que estive com a Clara - murmurou - disse-lhe que não queria que ela se entregasse a si. Queria ser eu a entregar-lha. Ela contou-lhe?
Ricardo assentiu com a cabeça e Lúcio continuou:
-Sabe, Ricardo? Há uma coisa sobre mim de que a Clara provavelmente nunca se deu conta. Não esteve comigo tempo suficiente para isso. Mas é importante que o saibam agora, ela e você.
Ricardo levantou uma sobrancelha e esperou polidamente que Lúcio prosseguisse.
- Sou um jogador, meu caro Ricardo Sempre o fui, desde que me conheço. Não por compulsão, nem por qualquer tendência auto-destrutiva. Pertenço à espécie rara dos que ganham mais do que perdem.
Ricardo inclinou um pouco a cabeça:
- Espécie rara, com efeito.
- Mas mesmo assim aprendi a perder - disse Lúcio, como se o não tivesse ouvido. E acrescentou, perdendo pela primeira vez um pouco da calma com que até então tinha conduzido a conversa:
- Aprendi a perder, e aprendi sobretudo a nunca jogar a feijões. Está-me a entender?
- Não - disse Ricardo. - Lamento, mas não estou a compreender aonde quer chegar.
Lúcio mostrava agora alguns sinais de agitação:
- Aonde quero chegar? Quero chegar aqui: sei que vou perder a Clara, se não a perdi já. Mas não quero que você a ganhe sem pagar um preço. Reflecti muito enquanto estive em Itália, e decidi isto: a Clara, nunca lha darei, mas vendo-lha. Se você a quiser e puder pagar, eu vendo-lha. Aceita?
Sentada no chão, Clara teve um sobressalto violento. Ter-se-ia levantado de repente se Ricardo, com um gesto imperioso, a não tivesse obrigado a ficar quieta.
- E já pensou no preço? - perguntou ele, serenamente.
Lúcio bebeu um trago de whisky e mencionou uma quantia que levou Clara a dar outro salto no lugar. Porquê isto? Lúcio era rico, bem mais rico que Ricardo. Nem precisava de dinheiro, nem era ganancioso: disto tinha Clara a certeza. E para Ricardo a quantia pedida era, sem ser ruinosa, significativa. Teria Lúcio tido em conta as circunstâncias do outro?
- Por esse preço não a quero - disse Ricardo, impassível. - Dou-lhe o dobro.
A estas palavras Lúcio ergueu o queixo.
- Peço-lhe que não me insulte. Pedi-lhe um preço por esta mulher, é esse preço que está em discussão.
- Tem razão - disse Ricardo. - Peço desculpa. Estou de acordo com o preço, naturalmente.
E sem mais palavras tirou do bolso o livro de cheques. Enquanto desenroscava a tampa da caneta virou-se para Clara:
- Descalça-te, Clara. Agora és propriedade minha.
Com as lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto, Clara tirou os sapatos de salto muito alto com que Lúcio gostava de a ver e que tinha trazido calçados em homenagem a ele. Viu o cheque mudar de mãos. Aproximou-se de Ricardo, ajoelhou, beijou-lhe a mão.
À despedida, o sorriso que deu a Lúcio foi tanto de agradecimento como de compaixão. Os sapatos, deixou-os com ele.
(Publicado no Blogger a 08/09/07)
