Autor: Polly Peachum
Tradução: Vanderdecken
Não sei se fui sempre submissa, mas algumas das minhas memórias mais antigas, começando nos cinco anos de idade, envolvem actos e pensamentos submissos. Eu era a menina que queria sempre servir as outras crianças com quem brincava. Lembro-me de brincadeiras em que empurrava as minhas irmãs num carrinho de brincar até ao ponto da exaustão, pensando o tempo todo em quão confortáveis elas estavam e como se estavam a divertir graças ao meu esforço. Adorava poder servi-las. Com os meus pais sentia algo de semelhante mas muito mais intenso. Ficava radiante quando eles me davam tarefas para os ajudar na vida da casa, e aceitava a maior parte dos castigos, quando eles vinham, com obediência e sem os pôr em questão. Ser punida comportava para mim, mesmo nessa idade, um frémito distintamente erótico. Estava a ser corrigida fisicamete por alguém mais forte e mais sábio do que eu, e isto era não só correcto e justo mas também terrivelmente excitante.
Ao crescer, comecei a ter fantasias explicitamente eróticas de submissão: inventava histórias em que era uma cativa ou uma criada, forçada a fazer coisas extremamente embaraçosas e a suportar punições dolorosas administradas por alguém mais velho e mais forte do que eu. Estas fantasias excitavam-me: nunca me fizeram sentir má ou culpada. Julgo que assumi que todas as crianças tinham sonhos em que eram perseguidas nuas na arena de um circo por enxames de abelhas que tentavam introduzir-se nos seus rabos enquanto a multidão se ria à gargalhada duma situação tão vergonhosa e dolorosa.
Por volta dos nove anos de idade comecei a tentar envolver as crrianças com quem brincava em jogos de senhor-escrava, nos quais eu, naturalmente, era sempre a escrava. Mas apesar de a maior parte dos miúdos adorarem a novidade de serem os senhores, de mandarem em alguém para variar, raramente encontrei companheiros de brincadeira que continuassem a gostar do jogo depois de o terem jogado algumas poucas vezes. Eu, é claro, seria capaz de o jogar o dia inteiro se eles cooperasem, e sentia um enorme prazer em obedecer às exigências cada vez mais extravagantes do meu Senhor ou Senhora. Paradoxalmente, quando por volta dos treze anos aprendi finalmente alguns factos sobre o sexo, os constantes e poderosos temas sadomasoquistas que tinham imbuído a minha infância recuaram para segundo plano. Talvez isto se devesse ao facto de eu estar demasiado ocupada em aprender o que fazer numa saida com um rapaz; talvez ao facto de eu, uma leitora voraz, ter descoberto aos treze anos a literatura feminista, literatura que sugeria fortemente que não era apropriado ter fantasias nesta direcção. Fosse qual fosse a razão, as minhas tendências submissas tornaram-se, durante a puberdade, muito menos conscientes do que antes, emergindo apenas à noite como acompanhamento da masturbação. Mas mesmo nessas ocasiões eu não associava estas fantasias à minha pessoa ou às minhas necessidades: eram apenas uma coisa que eu fazia enquanto me masturbava.
Durante anos as minhas fantasias e tendências sexuais ficaram por examinar, pelo menos por mim própria. Aos 17 anos uma conhecida mais velha do que eu deu-me um exemplar da “História de O”, o romance sadomasoquista clássico do século XX, dizendo simplesmente “acho que vais achar isto interessante”. Devorei o livro, que se transformou na base das minhas fantasias nos anos seguintes, mas abafei todas as especulações sobre o porquê de ela me ter dado aquele livro. Não queria, simplesmente, pensar nisso. Olhando para trás, esta negação parece-me ao mesmo tempo divertida e compreensível. Tentem imaginar uma adolescente precoce a ter aulas na faculdade e a viver com dois rapazes dez anos mais velhos do que ela. Como uma verdadeira filha dos anos 70, o seu currículo icluía uma disciplina de Estudos Femininos ministrada por uma lésbica e uma disciplina de sexualidade humana estilo “beijinhos e abraços” durante a qual o sadomasoquismo foi mencionado de passagem durante uma conversa de cinco minutos sobre variações e fetiches para nunca mais ser trazido à baila. E no entanto esta adolescente volta para casa todas as noites e passa 40 a 60 minutos de joelhos no chão de madeira, aos pés duma cama, massajando os pés do seu companheiro de quarto, um jovem politicamente correcto, ecologicamente consciente e sensível aos papéis sexuais, até ele adormecer! E o tempo que ela gasta a fazer isto é a parte mais arrebatadora, excitante e íntima do seu dia. Uma vez mais, de um modo limitado e socialmente aceitável, encontrava-me em posição de reviver aqueles momentos de infância que me tinham dado tanto prazer. Mas a submissão sexual continuava a não ser algo que eu relacionasse comigo própria. Pura e simplesmente não pensava nela – a não ser como fantasia nocturna.
Nao fiz mais nada em relação às minhas fantasias até seis anos mais tarde, quando, aos 23 anos, tentei dar mais tempero a um relacionamento de cinco anos contando ao meu namorado episódios da “História de O” enquanto fazíamos amor. Ele ficou tao excitado com estas histórias que, para minha grande delícia, me surpreendeu dias depois amarrando-me os braços a um gancho no tecto do dormitório. Depois deu-me uma sova com uma vergasta que tinha cortado lá fora, degradou-me, e tentou realizar sexo anal comigo. Esta primeira experiência genuína de submissão forçada arrebatou-me até ao mais fundo de mim, mas na manhã seguinte quando o meu namorado viu as nódoas negras nas minhas ancas e nádegas ficou absolutamente horrorizado. A culpa que sentiu por ter feito aparecer aquelas marcas no corpo da sua amada impediu-o de alguma vez voltar a fazer comigo algo de tão “doentio”, apesar da minha afirmação que tinha adorado.
O conhecimento da minha relação com a submissão pode ter estado a subir lentamente do meu inconsciente para o meu consciente durante aqueles anos, mas foi necessária uma experiência catalítica, uma espécie de epifania, para me confrontar com o facto que sou uma submissa. Tinha quase 30 anos e andava com LuAnn, uma mulher com quem tinha trabalhado durante nove meses. LuAnn era uma leitora ávida de ficção popular e tinha-me chamado a atenção para os livros da série “Vampiros” de Anne Rice. Ao lê-los fui fortemente afectada e atraída pelos relacionamentos de poder entre um vampiro e as suas vítimas escolhidas – na realidade entre um vampiro com séculos de idade e experiência e uma jovem protegida sua, recentemente humana. No meu estilo habitual de leitura, que é levar tudo à minha frente, acabei por ler tudo o que Anne Rice alguma vez tinha escrito, e acabei por tropeçar nos seus romances eróticos, escritos sob o pseudónimo A.N. Roquelaure. Foi nessa altura, quando comecei a ler as aventuras de conto de fadas erótico de Beauty, que acorda de um sono profundo por meio duma violação e duma sessão de palmadas, que também eu acordei do meu sono pessoal para fazer a conexão essencial: esta sou eu. Eu sou como esta personagem de conto de fadas. Sou uma submissa, e não há nada que queira mais do que ser escrava de alguém! Bingo. Tocaram as campainhas. As trompas soaram. As luzes piscaram. Ali estava eu. Mas onde? Estava maluca e não sabia? Mas aquilo não me parecia maluquice. Parecia-me certo.
Nesse tempo eu não fazia ideia de quão poucas pessoas encaram o sadomasoquismo como aceitável para terceiros, muito menos para si próprias. Magoou-me a sério dar-me conta. como me dei rapidamente, que LuAnn estava totalmente impreparada para aceitar a minha auto-descoberta. Fiquei subitamente isolada, não sabia de todo para onde havia de me virar para encontrar pessoas que partilhassem os meus novos interesses, ou sequer como encontrar alguém que não sentisse repulsa pelos meus sentimentos. Tal como muitas outras pessoas nas minhas circunstâncias – só mais tarde me apercebi de quantas – procurei alívio na Internet. Sozinha no meu apartamento, aprendi a ligar um modem a um computador e descobri o mundo das comunicações online. Também encontrei rapidamente, graças à surpreendente ajuda do meu ex-namorado, as áreas mais desviantes nos sites de contactos e alguns serviços comerciais que podia subscrever. Aqui comecei a encontrar outros submissos e dominantes. Deixei mensagens longas sobre a minha sexualidade e numa questão de horas comecei a receber numerosas respostas e mensagens electrónicas. Conheci várias pessoas e cheguei a “jogar” com algumas delas por computador. Aprendi que o tipo de submissão que eu queria – imersão total, life-style – não era o que todas as pessoas envolvidas em sexo sadomasoquista querem. De facto, a grande maioria das pessoas que encontrei online pareciam satisfazer-se com um pouco de S&M com os seus parceiros no quarto ou ao fim de semana para voltarem a uma relação convencional entre iguais depois destas “sessões” relativamente breves. Eu, por outro lado, tinha a certeza que não queria nada que não fosse uma escravidão absoluta e sem fim.
Procurei entre as pessoas que encontrava online pela minha contraparte dominante: alguém que quisesse dominar e controlar tanto como eu queria ser dominada e controlada. Acabei por encontrá-lo – ou melhor, ele encontrou-me. Depois duma longa correspondência, numerosos telefonemas, e vários encontros que duraram vários dias, fiquei encantada quande ele me deu a oportunidade de me entregar a ele em escravidão. Embora ele me pudesse ter ordenado que me tornasse sua escrava, e eu teria obedecido instantaneamente, ele queria que esta escolha fosse minha – e a minha última decisão livre. Pensei cuidadosamente no assunto durante várias semanas, e até ao segundo em que ele me disse que era tempo de decidir considerei a ideia de que tinha uma escolha e ainda podia recuar. Embora não quisesse recuar e tudo em mim clamasse pela experiência da escravidão, eu ainda me dava bem conta de que até ao momento em que me desse a ele tinha o poder de continuar livre. Não sofri nenhuma lavagem ao cérebro; ele não tentou persuadir-me de nada. Pelo contrário, eu tinha estado activamente à procura dele ou de alguém como ele. Foi uma decisão minha, e foi a melhor (e última) decisão que alguma vez tomei.




