Ao entrar em casa de Raul, Carolina apertou-lhe formalmente a mão e deu um beijo na face da irmã. Ainda no átrio perguntou a Teresa onde podia guardar os sapatos; e entrou descalça no interior da habitação. Não explicou a razão deste gesto, nem deu lugar a que Teresa e Raul conjecturassem. Quando a convidaram a entrar para a sala, pediu:– Posso ver a casa primeiro?
A visita começou pela cozinha, como quase sempre acontece quando tanto a visitante como a anfitriã são mulheres. A sala pareceu a Carolina um pouco nua demais:
– É fácil de limpar… – comentou.
O escritório de Raul fez-lhe lembrar o do pai. Tantos livros… Tinha passado horas felizes, em criança, no escritório do pai. No quarto, ao ver o catre aos pés da cama, levou a mão à boca:
– É aqui que dormes?! – perguntou, incrédula.
– Às vezes – respondeu Raul.
– Muito raramente – corrigiu Teresa. – O Raul gosta de mimos e eu também, dormimos quase sempre abraçados.
Restava o mais difícil.
– Agora, minha irmã – disse Teresa – só falta o quarto dos castigos.
Carolina não sabia se queria ver este quarto, mas também não sabia como negar-se a vê-lo.
– Quarto dos castigos?! – exclamou, aterrada.
– Não se passam lá só castigos – disse Teresa. – Passam-se também outras coisas. O nome, fui eu que o sugeri, e o Raul concordou. Anda ver.
Carolina ficou à porta, sem ousar entrar mais do que um passo, olhando à volta com uma mão a cobrir a boca.
– Além de o apartamento estar todo insonorizado, este quarto, que é interior, tem uma insonorização suplementar – disse Teresa. – Tiveste que subir um degrau para entrar porque instalámos um isolamento no chão por cima do que já existia. Foi instalado por uma firma especializada e é constituído por várias camadas de diferentes materiais, com uma espessura total de doze centímetros. Em cima disso tudo ainda tem o pavimento.
Carolina continuava a olhar em volta, espantada.
– Estás a ver as paredes? – continuou Teresa. – Também foram insonorizadas. Doze centímetros de materiais de alta tecnologia, a toda a volta. O tijolo maciço que reveste tudo foi ideia minha. Ajuda a absorver o som, mas não era preciso porque o que está por baixo é mais do que suficiente.
– É horrível… – murmurava Carolina. – É horrível…
– Seria horrível para ti – disse Teresa. – Sei isto porque te conheço bem. Mas tu também me conheces bem. Sabes muito bem que não sou nenhuma vítima inocente. Não te vou mentir, minha irmã: gritei muitas vezes de dor aqui dentro. Gritei e gritei até não poder mais, e não sei se hoje mesmo não voltarei a gritar até ficar rouca: tudo depende da vontade do meu dono e senhor. Também para isso me dei a ele, não foi só para os beijos e para as carícias, nem para lhe lavar a roupa e servir o jantar.
Carolina não podia suportar aquele lugar. Sentia que a respiração lhe faltava e que as pernas não lhe suportavam o peso do corpo. Não tinha nada contra o facto de Teresa lavar a roupa e fazer o jantar de Raul, ela fazia o mesmo ao Zé Tó e não lhe custava nada – por mais que algumas amigas suas ralhassem contra a sua submissão. Beijos e carícias, tomara ela muitos. Mas tortura?! Um quarto destinado a chicotear a sua irmã dilecta, a sua companheira de infância?! Um quarto que Teresa ajudara, para cúmulo, com a sua inteligência e o seu dinheiro, a adaptar a este fim?!
– Podemos ir para a sala? – perguntou em voz fraca.
– Claro – respondeu Raul, e segurou-a pelo cotovelo.
Quando se sentaram, serviu vinho do Porto às duas mulheres e um whisky a si próprio. Teresa, sentada no chão, tomou entre as suas as mãos da irmã.
– É difícil de compreender, não é?
– De compreender, sim, muito difícil; mas de aceitar, muito mais. Vi-os ontem na televisão e fiquei sem saber o que pensar. Foi por isso que me convidaram para jantar hoje?
– Em parte, sim – disse Teresa. – Tínhamos que nos assumir. Mas estamos ambos aterrados com a reacção das pessoas que gostam de nós.
– O Pai e a Mãe não viram o programa, sabem?
– Foi nessa esperança que o fizemos tão tarde.
– E eu espalhei palavra por toda a gente que o viu que quem falasse dele aos Pais teria que se haver comigo.
– Obrigado, por mim e pela Teresa – disse Raul. – E o que é que a Carolina achou?
– Achei-os sinceros, e isto é o que me perturba mais. Se fossem dois poseurs à procura do seu quarto de hora de fama, tê-los-ia achado desprezíveis… Achei a Teresa muito corajosa, por ir descalça e por lhe ter beijado a mão em público. Depois comecei a pensar que vocês afinal não eram muito diferentes de outras pessoas que eu tinha visto no mesmo programa, e que eu também tinha admirado pela sua coragem. Aquelas tuas opiniões sobre os vários feminismos pareceram-me muito reflectidas, muito lúcidas… Viam-se que eram tuas, que ninguém te tinha feito a cabeça. Fiquei com a ideia que eras contra todas as leis que impõem submissão ou desigualdade às mulheres…
– Como no Irão – interrompeu Teresa.
– Mas se um homem e uma mulher quiserem ter uma relação desigual, ou mesmo muito desigual, ninguém tem nada com isso…
– Ou dois homens, ou duas mulheres… – interrompeu Teresa.
– Sim – disse Carolina, corando. – É isto que é fácil de entender mas difícil de aceitar.
– Se algumas pessoas começarem por entender, para nós já é bom – disse Raul. – O aceitar pode vir depois. Algumas nunca aceitarão.
– Mas porque é que duas pessoas hão-de fazer um acordo desses? – disse Carolina. – E mesmo que o façam, quem nos garante que é livre? Pode ser imposto pela força. Um pode ser mais forte fisicamente, ou mais inteligente, ou mais violento, ou mais influente, ou mais integrado na sociedade, ou mais rico, ou mais assertivo…
– Achas que o Raul tem essas vantagens todas sobre mim? – disse Teresa.
– Só se for a força física – admitiu Carolina. – No resto, se alguém tem vantagem, és tu.
– Pois tenho – disse Teresa. – Na força física ele tem vantagem. No resto, ou estamos equilibrados, ou quem tem vantagem sou eu. Violentos não somos, nem eu, nem ele. E embora todos nós sejamos capazes de um acto violento, a verdadeira violência, a violência a sério, é relativamente rara. Eu sei, porque já me encontrei com ela, e sei que não tem nada a ver com aquilo a que a maioria das pessoas chamam violência. E felizmente que é rara, e que a que há está mais ou menos controlada, porque quem é realmente violento faz o que quer de quem quer. Por isso é que o Onoprienko conseguiu fazer de mim o que fez, embora eu não seja fraca. Hoje não conseguiria, mas apesar disso ainda tenho medo dele…. Mas estamos a desviar a conversa: estavas a dizer o que tinhas achado do programa.
– Uma coisa que me fez um bocado de confusão – disse Carolina – foi tu dizeres que eras feminista. As feministas que eu conheço não fazem vénias aos homens, nem lhes beijam a mão…
– Enquanto eu, ao Raul, em privado, até lhe beijo os pés… mas continua.
– Achei o teu feminismo muito simples. Ora deixa ver se me lembro do que disseste: que a autoridade pública não deve dar a ninguém direitos ou deveres especiais por ser homem ou mulher; nem deve ser usada para que outros imponham direitos ou deveres diferentes a homens e mulheres; e que cada um deve ter o direito de dispor de si próprio. Se ser feminista é só isto, então eu também sou feminista, e isso é uma coisa que nunca me considerei. E deixaste uma coisa de fora: as famílias não devem ter o direito de treinarem os meninos e as meninas para terem comportamentos diferentes.
– E se eles quiserem ter comportamentos diferentes? Devem forçados a ter comportamentos iguais? Não, prefiro manter a coisa assim simples, como disse na televisão. Se não for assim simples, torna-se uma coisa totalitária. Eu posso assumir os deveres que entender em relação ao Raul, e posso reconhecer-lhe os direitos que entender sobre mim. Se alguém me impedir disso, estará a forçar-me: a exercer violência sobre mim.
– E quando a relação é de força…
– Nesse caso – disse Raul – é irrelevante que a força seja exercida por um parceiro sobre o outro, ou que seja exercida de fora sobre os dois. Trata-se na mesma de violência. Foi o que nós dissemos no programa: não se trata aqui de violência minha sobre a Teresa, nem dela sobre mim, mas sim de uma ameaça de violência duma terceira parte sobre nós os dois.
– Terceira parte essa a que eu também pertenço…
– Podes deixar de lhe pertencer quando quiseres – disse Teresa. – Mas isso é decisão tua: nem eu, nem o Raul te pedimos nada.
– A apresentadora disse que vos tinha imaginado de cabedal preto, cheios de piercings, e a ti com uma coleira ao pescoço, meias de rede e saltos agulha… E eu confesso que também vos tinha imaginado com esse aspecto, apesar de nunca vos ter visto usar nada do género. Devo ter imaginado isso por ser o que as revistas mostram…
– As revistas mostram esse estilo por ser o mais vistoso, mas há no nosso meio quem adopte outros estilos, ou até estilo nenhum.
– Foi por isso que disseste à apresentadora que a tua coleira de escrava eram os pés descalços?
– Foi. Como símbolo de submissão, são uma coisa menos óbvia que uma coleira. E com raízes mais antigas na nossa cultura e nos nossos mitos. E mais ambígua, porque tanto podem significar submissão e humildade, como contestação, liberdade, ligação ao mundo natural… Mas já que me lembraste isso, diz-me uma coisa: porque é que te descalçaste ao entrar aqui?
– Não sei bem…Lembras-te que lá para cima, entre a gente do povo, era costume, se a dona da casa estivesse descalça, as outras mulheres que entrassem descalçarem-se também? Era uma questão de boas maneiras. Lembras-te?
– Lembro-me bem, sim… E foi por isso que tiraste os sapatos?
– É… Não sei o que me deu… De repente pareceu-me apropriado.
Teresa sentiu que lhe vinham as lágrimas aos olhos:
– Obrigada, mana… Foi um gesto bonito.
– Não quer dizer nada, até estou mais confortável assim. Só mais uma coisa: disseste na entrevista que os teus deveres para com o Raul eram servir e obedecer, e que nisso estava também o teu prazer. Mas aquele quarto que me mostraste não é um lugar de serviço nem de obediência, é um lugar de sofrimento. Se não tens prazer em sofrer, porque te submetes?
– Tu própria acabas de responder a isso. A palavra-chave é a submissão. Não é a dor que me interessa, é a submissão à dor. Aquele quarto é antes de mais nada um lugar de submissão, e se não fosse isto, não serviria para nada, nem para mim, nem para o Raul. Compreendes isto?
– Compreendo. Ou melhor; não, não compreendo. Entendo a lógica, o que é diferente, mas não há parte nenhuma de mim que se identifique com isso. Em minha casa quem manda é o meu marido, e eu nunca tive problemas com isso, mas nunca tirámos disso prazer, parece-me. Apenas nos pareceu mais… confortável. A vossa vida, essa, parece-me uma coisa estranha, uma coisa fora deste mundo.
– E criminosa, parece-te? Maléfica?
Carolina ficou alguns minutos silenciosa.
– Não – disse por fim. – Criminosa, não. E maléfica também não, Deus me perdoe.
Depois fez outro intervalo de silêncio, durante o qual Raul voltou a pôr vinho do Porto nos copos.
– Aquele quarto, utilizam-no muitas vezes? – perguntou Carolina.
– Não muitas – disse Teresa.
– E como é que fazem quando o utilizam? Combinam previamente?
– Não. O Raul decide sozinho. É o meu dono e dono do meu corpo.
– E és feliz assim?
– Só assim.
– Sabes o que eu imaginava? Imaginava que a vossa vida juntos consistia numa série ininterrupta de tormentos, que era disso e só disso que vocês tiravam prazer…
– E tiramos, indirectamente. Mas o meu verdadeiro prazer, a minha felicidade, está em servi-lo, em obedecer-lhe e em ser propriedade dele para todos os efeitos. Para isto não é preciso ele estar sempre a bater-me. Acreditas se eu te disser que ele nunca me chamou um nome feio na vida?
– Nem tu a mim – interrompeu Raul.
– Mesmo com o Ettore, que no aspecto físico era muito mais duro comigo, que me dava castigos muito mais frequentes e muito mais severos, havia outras dimensões na minha submissão.
Carolina abanou a cabeça:
– Então eras mais submissa ao Ettore…
Teresa ficou um momento a olhar para longe.
– Amei-o muito… Mas não: sou incomparavelmente mais submissa ao Raul.
– Talvez eu um dia entenda isso – disse Carolina. – E você, Raul, de onde lhe vem o seu prazer?
– Vem de muitas fontes – respondeu Raul. – É um prazer de homem, e por isso não é fácil explicá-lo a uma mulher.
– Nem eu o compreendo inteiramente – interrompeu Teresa. – Limito-me a aceitá-lo sem fazer muitas perguntas.
– A parte mais simples do meu prazer – prosseguiu Raul – e sem dúvida a mais egoísta, vem de a Teresa ser qualquer coisa de precioso que me pertence exclusivamente, como um quadro ou um livro.
– E atreve-se a dizer uma coisa dessas?! – Exclamou Carolina.
– Há uns meses talvez não se atrevesse – interveio Teresa. – Fui eu, com muito esforço, que o levei a atrever-se. Mas já estava na natureza dele, como a minha submissão está na minha.
– É verdade, Carolina, devo isso à sua irmã – disse Raul. – Isso, e muito mais. Quanto ao meu prazer: também me vem do prazer dela, mas esta parte funciona um bocado como dois espelhos virados um para o outro: a certa altura já não sabemos onde está a imagem original. É aquilo a que a Teresa e eu chamamos o labirinto. Às vezes entretemo-nos a explorá-lo, mas nunca vamos muito longe. Depois há a parte que me vem da dificuldade, de estar a fazer uma coisa que poucos tentam e menos conseguem.
– Nessa parte, sou igual a ele – disse Teresa.
– A parte principal – disse Raul – vem de sermos um para o outro, de encaixarmos perfeitamente um no outro. Mas aqui já não estou a falar de prazer, mas sim de felicidade.
Ao ouvir estas palavras, Carolina levantou-se, deu uns passos em direcção à janela e ficou a olhar para a cidade iluminada.
– Lá tinha a felicidade que vir à baila – disse, como se estivesse a falar para uma quarta pessoa. − Estes dois são completamente loucos.
E depois, virando-se para Raul:
− Tenho que lhes agradecer aos dois: aprendi muito hoje. Que a minha irmã era louca, eu já sabia desde criança, e nunca me incomodei com isso. Que o senhor é tão louco como ela, estou agora a saber. Disse-me que a sua loucura combina com a dela: só espero que assim seja. Agora está a ficar tarde: é altura de lhes agradecer e de me despedir.
À saída, depois de se calçar, beijou a irmã. A Raul, estendeu a mão:
− Saiba, senhor Raul Morgado, que não vou confiar facilmente em si, e que o responsabilizo pela felicidade da minha irmã.
O que também é, pensou Raul depois de fechar a porta, perfeitamente justo.





{íSiS}
Gostei de ter estado aqui!
visite o nosso!
beiojos doces
{íSiS}
http://submissaoepoesia.blogspot.com/