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O chicote

– Não sei se me poderás domar…

Esta frase, meio desafio e meio apelo, dissera-lha a noiva no dia em que a pedira ao pai, no ano longínquo de 1959. Tal como ele, Helena pertencia a uma das famílias mais proeminentes da vila, mas não faltara quem o tentasse dissuadir do enlace. As comadres, sempre ciosas dos bons costumes, viam na filha do notário uma liberdade nos modos, uma sensualidade no olhar e nos movimentos, que lhes despertavam as piores suspeitas.

– Sabe muito… – rosnavam.

– Passa a vida no café…

E se alguém lhes objectasse que Helena, quando entrava no café da vila, ia sempre acompanhada pelas suas colegas do Magistério Primário, não desarmavam:

– Já foi vista a fumar, em Braga… Também o pai, é do reviralho, deve ensinar-lhe essas liberdades.

O pai de Helena, tal como o de Bernardo, estava, com efeito, conotado com a oposição a Salazar; mas enganava-se quem supusesse que ao seu liberalismo político correspondia um igual liberalismo de costumes. Pelo contrário, inquietava-se com o comportamento da filha e com os zunzuns de cujos ecos se apercebia.

Não assim os Santaclara, salazaristas fiéis, no que respeita os filhos homens. Como proprietários rurais, excediam em fortuna a família de Helena somada à de Bernardo; mas nunca nenhum deles, apesar de várias gerações terem passeado por Coimbra a sua bravata, se tinha chegado a formar. E se o filho mais velho participava na administração das propriedades familiares, já o mais novo, Leandro, empregava o seu tempo em caçadas e arruaças, nos bordéis do Porto, e na perseguição às moças da terra.

Mas disto tudo, no seu regresso a Coimbra depois de pedir Helena ao pai, Bernardo só pensava nas palavras da noiva. Porque precisaria Helena de ser domada? Nada nela indicava uma natureza selvagem, apenas uma natural vivacidade que a ele o atraía. Adolescente ainda, Bernardo tinha visto no circo um homem que tirava, com um chicote comprido, o cigarro da boca de outro; e não descansara enquanto não aprendera a manejar esta arma com a mesma destreza. Começara por procurar o próprio artista, que, depois de o avisar que o chicote que usava era uma arma letal, não se recusara a vender-lhe um dos que tinha de reserva nem a dar-lhe as primeiras lições. Depois tivera que se ensinar a si próprio, treinando horas infinitas até transformar o chicote de três metros numa extensão do seu próprio braço e dos seus próprios dedos. Ao falar em ser domada, Helena fizera com que se estabelecesse no espírito do noivo uma ligação incómoda entre esta expressão e aquilo que nunca passara, para ele, duma habilidade de circo e de um desporto.

Nem pensou no chicote quando as cartas de Helena começaram a rarear e a apresentar um certo tom de desafio ou menosprezo. Mas veio-lhe imediatamente ao espírito quando alguém veio propositadamente a Coimbra para o avisar que Helena era vista frequentemente no café com Leandro e que este se gabava junto dos amigos de se ter já gozado dela.

– Não gozou, não… Eu conheço a Helena.

– Também penso assim – respondeu-lhe o amigo. – Mas também sei como ela é insatisfeita com a vida da aldeia, e como gosta do perigo. E o Leandro é perigoso que chegue para a atrair… Anda a dizer que se apareceres por lá a desafiá-lo te enfia, desculpa, uma bala nos cornos.

Nesse mesmo dia Bernardo despiu a capa e batina, envergou o fato com que viajava entre a vila e Coimbra e meteu-se no automóvel que o pai lhe tinha oferecido por completar com distinção o terceiro ano de Direito. Chegado à vila, perguntou por Helena. Estava no café. E acompanhada de Leandro, conforme Bernardo verificou ao entrar, de chicote na mão, neste estabelecimento.

– Com que então, gozaste-te da minha noiva – disse Bernardo.

– Eu nunca disse isso – defendeu-se Leandro, enquanto Helena olhava para ele como se o visse pela primeira vez.

– E enfiavas-me uma bala nos cornos… Tens aí com quê?

– Eu nunca disse isso…

– Se não tens, arma-te e anda ter comigo cá fora. Helena, já para o meu carro.

Leandro estava armado, com efeito, mas nunca se tinha servido do revólver para outra coisa que não fosse tiro ao alvo: latas, garrafas, cães  vadios e uma vez, bêbedo, um relógio de parede no café. Saiu para a praça com a arma na mão, nauseado com a ideia de ser obrigado a um duelo. Quando viu que Bernardo não tinha à vista mais que o chicote, apontou tão atabalhoadamente que o tiro foi atingir um dos bebedouros do jardim central, fazendo com que um repuxo de água se erguesse no ar e encharcasse os circunstantes.

Bernardo, por sua vez, só tinha utilizado o chicote em alvos inanimados, mas manteve o sangue-frio suficiente para enrolar o chicote no braço direito de Leandro e puxar, fazendo-o largar a arma. Depois, de cada vez que o outro se baixava para a apanhar aplicava-lhe um golpe nas costas que o desequilibrava e lhe rasgava a roupa, tingindo-a de sangue a pouco e pouco. Quando se cansou deste jogo, fez com que a ponta do chicote se enrolasse na pistola e puxou-a para si, segurando-a na mão esquerda.

– Não dispares, Bernardo! Não o mates! Não te desgraces, homem! – ouviu gritar de todos os lados.

Mas não era sua intenção matar Leandro. Com um golpe final de chicote retalhou-lhe a face esquerda, cortando tão fundo que lhe deixou os dentes à vista.

– Levem esse desgraçado ao hospital para o coserem, antes que sangre como um porco – ordenou. – Duma bela cicatriz já não se livra.

E enquanto os colegas de farra do adversário, que não o tinham defendido antes, se precipitavam agora para o socorrer, Bernardo voltou-lhes as costas e dirigiu-se ao automóvel onde Helena o esperava, encolhida no extremo do banco corrido. Tomou a estrada alcatroada que conduzia para fora da vila, virando logo a seguir para o caminho de terra batida que levava a uma das quintas da família. Helena, que sabia a casa abandonada e meio em ruínas, arriscou uma pergunta:

– Também me vais chicotear?

– Com este chicote? Não. Retalhava-te toda.

Ao chegar ao portão meio coberto de silvas, parou o carro e tirou o bolso um canivete suíço, que abriu numa lâmina com dentes como uma serra.

– Descalça-te e vai cortar uma vergasta naqueles bambus.

– Descalça porquê?

– Por penitência.

– Quer dizer que ainda me queres?

– Veremos. Vai lá.

No interior poeirento da casa, Helena sentiu-se tão incapaz de recusar o abraço de Bernardo como seria incapaz de recusar o castigo. Quando sentiu a mão dele levantar-lhe o vestido e insinuar-se-lhe entre as coxas, abriu um pouco as pernas; mas ele só lhe afastou as calcinhas para o lado para se certificar que estava molhada e para introduzir o dedo até onde foi possível.

– Bom. Ainda estás virgem.

– Perdoa… – murmurou Helena.

– Por estares virgem?

– Por te ter levado a pensar que….

– E virgem vais continuar, até casarmos.

Mas mandou-a despir para o castigo. Tomada duma vertigem, Helena obedeceu. Quando ele terminou, mandou-a vestir e levou-a para casa. À ansiedade dos pais dela respondeu com a exigência de que a fizessem examinar por uma parteira para determinar se estava virgem. À saída da mulher, chamou-a de parte, passou-lhe discretamente para a mão uma nota de quinhentos escudos e murmurou-lhe ao ouvido:

– A quem lhe perguntar, Dona Ermelinda, conte o que viu, mas não tudo o que viu. Está-me a entender?

A mulher acenou que sim. As vergastadas no corpo de Helena ficariam em segredo. Mas Bernardo sabia que ela daria a entender a toda a gente, por alusões e silêncios, que ele não era homem para sofrer vexames.

Faltava combinar o casamento. A sós com Helena, Bernardo ordenou:

– Quando fores combinar a data com o padre, vais confessar-te. Vais pedir-lhe a absolvição pelo escândalo que provocaste e vais pedir-lhe que te dê a penitência de casar descalça.

– Descalça, Bernardo? Vou morrer de vergonha!

– Não vais. Quando chegar o dia, já toda a vila se terá habituado à ideia. Ou pensas que a modista vai guardar segredo, como o padre?

– Está bem… Mas vou de branco, não vou? Isso ainda mereço…

– De branco, e de flor de laranjeira.

Na noite de núpcias, antes de a penetrar, Bernardo avisou:

– Vai doer.

– Tanto melhor – respondeu Helena. E depois de ele gozar nela:

– Tua escrava… Meu Senhor.

Agora, passados mais de cinquenta anos, recordando isto tudo, Bernardo sorriu. Quase todas as personagens desta história tinham já morrido: Leandro, a parteira, o padre, a modista, os pais de Helena. A própria Helena, seu único amor. E a ele poucos meses restavam de vida: se se cumprisse a promessa do médico, em breve se juntaria a ela.

Durante décadas, os filhos e os netos tinham encarado com naturalidade o hábito de Helena andar sempre descalça em casa. E os vergões da vergasta, frequentemente renovados, tinham permanecido o seu segredo de amantes.

De regresso

Passeando por Praga, deparei com uma exposição do fotógrafo Jan Saudek, autor da imagem que volto a publicar depois de o ter feito antes sem saber de quem era. Fiquei contente com a possibilidade que o acaso me deu de corrigir o meu erro; e a visão duma obra tão original nos temas e nas técnicas constituiu um dos pontos altos da minha viagem à República Checa.

Ler os clássicos

Os grandes clássicos da literatura, sobretudo os que foram escritos no Séc. XIX, não costumam ser associados ao erotismo e muito menos ao bdsm – sobretudo se, como no caso de “Jane Eyre”, não contiverem uma única cena de sexo ou sequer qualquer referência a partes do corpo que não andassem à época, normalmente cobertas.

Eu próprio, ao ler este romance pela primeira vez e pela segunda, não me dei conta de nada que fosse além do mais estrito decoro vitoriano. Só quando me chamaram a atenção para o subtexto erótico é que decidi relê-lo a essa luz, e foi como se o lesse pela primeira vez: numa história que é basicamente, à superfície, a da Gata Borralheira (Cinderela para os meus leitores brasileiros), encontram-se nas entrelinhas, nas alusões, nos pequenos sinais em código que surgem em todas as páginas, todos os elementos dum romance erótico.
Se partirmos do princípio que o que estamos a ler é a narrariva duma relação amorosa e erótica entre uma mulher extremamente submissa e um homem extremamente dominante, o livro adquire um brilho, um interesse e uma verdade ainda mais pronunciados do que tem numa leitura mais convencional.
Existe uma tradução portuguesa, que nunca li, que tem por título “O Grande Amor de Jane Eyre”. Não sei se na tradução se mantêm todos os sinais em código presentes no original: por exemplo, não sei se “my master” está traduzido por “meu patrão ou “meu senhor”; mas é impossível que não se mantenham alguns. Em todo o caso, para quem tiver gosto pela leitura dos grandes clássicos e paciência para a sua extensão, fica aqui o meu conselho de leitura.

Romance (Excerto # 24)

Cap. 38: VAIVÉM

[ … ] Depois da aula, em casa, Teresa serviu o almoço a Raul; à tarde viu um filme, sentada aos pés dele, sem saber o que aconteceria a seguir. À noite, Milena serviu o jantar sozinha porque Teresa recebera ordem de se arranjar com especial cuidado para o jantar.

– Fica de seios nus, mas não os maquilhes – disse Raul. – Põe os teus rubis.

Para acompanhar o jantar, Raul escolheu Mozart: a Sinfonia nº 38, o Concerto de Piano nº 23 e Eine Kleine Nachtmusik. Terminada a comida e a música, ordenou a Teresa que fosse buscar Ana, que estaria à sua espera, a casa de Miguel.

– Veste o teu casaco mais quente por cima do tronco nu, põe um cachecol e um gorro, mas não te calces. Deixa aqui a Ana, volta para casa do Miguel e fica à disposição dele até ele te mandar para casa.

Atordoada, Teresa nem sequer foi capaz de dizer “sim, meu senhor”, mas também não pensou em desobedecer. Estava desvendado o mistério: ia ser emprestada a outro homem; o seu dono, o seu senhor querido, de quem pensara ser a única escrava, ia servir-se doutra mulher; e não sabia qual das duas coisas lhe doía mais. Foi ao quarto de banho e arranjou-se para sair, sempre com aquele “sim, meu senhor,” que não dissera, a soar-lhe aos ouvidos como um mantra. Agasalhou-se, pegou nas chaves do Smart, desceu ao estacionamento, entrou no carro e foi onde Raul a enviara.

A própria Ana lhe abriu a porta, muito agasalhada mas, tal como Teresa, com os pés nus.

Durante o percurso não falaram. Cada uma estava perdida na contemplação do futuro imediato: iam ser cedidas, iam ser traídas. Não: traídas, não. Ambas se davam conta, mais agudamente que nunca, que Raul e Miguel não lhes pertenciam. Talvez tenha passado pela cabeça de Ana revoltar-se; mas, ao ao ver a expressão de Teresa – pálida, orgulhosa e decidida a obedecer custasse o que custasse – resolveu-se a orientar o seu comportamento pelo dela. Teresa entrou com o carro na garagem subterrânea e acompanhou Ana até à porta do apartamento para a entregar a Raul.

– Entra, Ana – disse este. – E tu, Teresa, podes ir. Obedece ao Miguel em tudo.

Sim, meu senhor, pensou Teresa. Fez o segundo percurso até casa de Miguel num estado de perturbação ainda maior do que tinha feito o primeiro. Já não contemplava apenas o seu futuro próximo, mas o presente que se desenrolava atrás de si, entre Raul e Ana. Sim, meu senhor. Estariam estas palavras, neste momento, a ressoar também na cabeça de Ana? Ou, mil vezes pior, estariam a sair-lhe dos lábios, dirigidas a Raul? Apertou o volante com as mãos até os nós dos dedos lhe ficarem brancos: Não, não era possível. Tudo, menos isso.

Miguel recebeu-a à porta. Ajudou-a a tirar o casaco, pegou-lhe no cachecol e no gorro, que arrumou, e quando a viu nua da cinta para cima não fez qualquer comentário.

– Anda comigo – disse.

O aquecimento central não era tão eficiente aqui como no apartamento de Raul, mas a temperatura não era demasiado desconfortável, nem para os pés nus, nem para o tronco nu de Teresa. Seguiu Miguel para o quarto, onde ele lhe ordenou que acabasse de se despir e tirasse as jóias.

Teresa obedeceu prontamente e em silêncio. Miguel encostou-se à ombreira da porta a vê-la tirar a saia e as jóias.

– Anda cá – disse Miguel.

Teresa avançou até ficar de pé a meio metro dele, que lhe tomou as mãos para as aquecer por um momento entre as suas e depois a beijou na boca, que ela não abriu mas também não fez força para manter fechada.

– Despe-me – disse ele.

Teresa começou por lhe tirar a T-shirt preta e arrumou-a nas costas duma cadeira. Como devo agir, pensou Teresa, com um homem que não é o meu senhor, mas a quem tenho que obedecer? Não lhe beijaria os pés, a não ser que ele lho ordenasse, nem lhe daria quaisquer outras mostras duma humildade que não sentia em relação a ele; mas obedeceria em tudo, e esforçar-se-ia o mais que pudesse para lhe dar prazer. Ajoelhou-se para o descalçar: as sapatilhas eram difíceis de tirar, tinham muitos cordões e era preciso fazer força. Ainda de joelhos, desapertou-lhe o cinto e as calças. Miguel ajudou-a a tirar-lhas, levantando alternadamente os pés; ela endireitou-as e arrumou-as junto com a T-shirt. As cuecas tinham uma mancha húmida que as tornava transparentes. Ajoelhou-se para lhas tirar, mas desta vez não se voltou a erguer: atirou as cuecas para junto da outra roupa e só então olhou para o membro erecto à sua frente. Era diferente do de Raul, mais comprido e mais fino, e completamente a direito. Como não tinha sido circuncidado, a glande era mais vermelha e parecia molhada.

– Chupa-me o pénis.

Sim, meu senhor, disse ela intimamente a Raul; não te deixarei ficar mal. Tomou na boca este pénis que não conhecia: havia de usar as carícias que Raul lhe tinha ensinado, ou as que tinha aprendido nos seus anos de puta? Qual destas opções honraria melhor o seu senhor? A primeira, claro: Raul tinha emprestado a Miguel a sua própria escrava, não uma puta qualquer apanhada na rua. Miguel gemeu de prazer com esta carícia, que ela continuou até ele lhe ordenar que se deitasse na cama e abrisse bem as pernas, entre as quais se ajoelhou para lhe ver o sexo. Viu os anéis de titânio que o transfixavam, fê-los oscilar um a um com a ponta do dedo e suspirou:

– Se eu pudesse, mandava fazer o mesmo à Ana…

Passou-lhe a mão lentamente pelo ventre, pelas ancas, beijou-lhe os seios, e finalmente ordenou:

– Estás seca, masturba-te um pouco.

Teresa enrubesceu até ao peito, mas obedeceu. Se estivesse com Raul, não estaria seca; estaria já quase à beira dum orgasmo. Mas Miguel tinha direito a que ela lhe apresentasse uma vagina bem lubrificada, que ele pudesse penetrar à vontade. Começou a acariciar o clítoris, imaginando que eram os dedos de Raul, até que ficou pronta a ser possuída. Miguel pôs um preservativo, deitou-se sobre ela, penetrou-a sem brutalidade – mas também sem uma ternura excessiva que só a humilharia – e começou a mover-se dentro dela. Teresa não teve qualquer dificuldade em usar as técnicas do pompoar, que se estavam a tornar automáticas para ela. Os movimentos dele tornaram-se mais rápidos e vigorosos e a respiração mais ofegante. E foi neste momento que Teresa sofreu a maior humilhação da sua vida:

– Vem-te agora – disse Miguel.

E ela teve o orgasmo que não tencionara ter, um orgasmo intenso que a obrigou a abraçar Miguel, a colar-se a ele apaixonadamente, a procurar-lhe a boca e a língua como procurava a boca e a língua de Raul; e tudo isto desencadeado por duas pequenas sílabas, uma ordem seca dada por outro homem. Já sabia que o seu corpo obedecia a Raul sem intermediação da sua vontade, e tinha orgulho em tê-lo treinado para isto; mas nunca imaginara que este treino o fizesse obedecer assim a outro homem. Quem era ela, a quem o seu próprio corpo não obedecia? Em que se estava ela a transformar? Passara os últimos meses a transformar-se, deliberada e metodicamente, na escrava de Raul; mas nunca tinha sido sua intenção tornar-se no seu próprio ser uma escrava, obediente por reflexo a certas ordens, dadas num certo tom fosse por quem fosse. Não tinha sido ela a transformar-se nisto; tinha sido Raul que a transformara. Sentiu uma indignação que lhe subia ao peito, logo cancelada pelas palavras que tantas vezes dissera, e não em vão: sou tua, faz de mim o que quiseres. Se estava a transformar-se, não no que planeara, mas no que Raul queria, isto não podia ser senão justo. Era humilhante, esta obediência reflexa a outro homem; mas não a fazia escrava dele: fazia-a, sim, mais escrava de Raul. Virou a cara para não ver Miguel, mas sentiu com agrado as suas carícias. Ficou-lhe grata quando ele, pudicamente, foi tomar duche sozinho e lhe permitiu que fizesse o mesmo. Já não o encontrou no quarto, onde vestiu a saia e pôs as jóias. Foi encontrá-lo na sala, já vestido, e sentiu vergonha dos seus seios nus como não tinha sentido ao entrar. Miguel deu-lhe um beijo leve na boca, a que ela correspondeu, e disse:

– Podes ir, o Raul telefonou. Não entres na garagem: espera à porta do prédio. Tranca o carro. Abre-o só para deixar entrar a Ana.

Mas Miguel ajudou-a rapidamente a vestir-se e deu-lhe um beijo à despedida, desta vez na cara.

Ao ficar sozinho com Ana, Raul pegou-lhe na mão e conduziu-a à sala.

– Entra, Ana. Põe-te à-vontade. Dá cá o casaco.

Ana tirou os agasalhos, que ele entregou a Milena para que os arrumasse.

– Dá uma volta para eu te ver – disse Raul.

Ana rodou sobre si mesma e voltou-se de novo para ele.

– Estou bem? – perguntou.

Estava linda, pensou Raul. Não estava de seios nus, como Teresa, mas sim com um top que lhe descobria o umbigo. A saia, preta e um pouco transparente, tinha a cinta muito descaída, e caía em pregas largas até aos tornozelos. Todos os adornos eram de prata, e o cabelo estava cuidadosamente penteado de modo a parecer que o não estava.

– Senta-te – disse Raul.

Ana sempre tinha visto Teresa sentada no chão, nunca no sofá, mas sentiu um certo acanhamento que a impedia de fazer o mesmo. Ia sentar-se na borda do sofá quando Raul lhe disse:

– Podes sentar-te no chão. Queres tomar alguma coisa?

Ana acenou que não. Raul pegou-lhe na mão, sentou-se no sofá, muito perto dela, e perguntou-lhe:

– Sabes para o que estás aqui?

– Para fazer tudo o que o senhor mandar – disse Ana.

– Então anda comigo, minha querida.

Quando chegaram ao quarto, Ana quis dar-se algum tempo. Não se sentia pronta para se despir já, como uma puta; e tinha necessidade de falar, de se justificar.

– O senhor vai-me possuir?

– Sim, querida, vou-te possuir – respondeu Raul, pronto a dar-lhe o tempo de que ela precisasse.

– Sabe, o Miguel é o único homem a quem me submeti até hoje… Já não era virgem quando comecei com ele, mas nunca tinha sido submissa de ninguém.

– E agora vai difícil obedecer-me.

– Um pouco – respondeu Ana. – Mas com o senhor sou capaz. Foram o senhor e o Miguel que decidiram sozinhos, não foram? A Teresa não entrou nessa decisão…

– Fomos nós sozinhos – respondeu Raul.

Esta resposta tornava tudo mais fácil. Se Teresa tivesse conspirado contra ela…

– Estão no seu direito… – murmurou. – Quer que me dispa agora?

Raul mandou-a tirar só o top. Ana tinha os seios um pouco mais pequenos que os de Teresa, de forma cónica, e com as aréolas dum rosado muito claro que quase não fazia contraste com a pele. Tapou-se com as mãos, mas logo se destapou, como se tapar-se fosse uma falta. Raul sorriu:

– Uma escrava não tem direito ao pudor, não é, minha querida?

– É verdade… – murmurou Ana, corando.

Raul mandou-a tirar a saia e deitar-se na cama, onde ficou apoiada sobre um cotovelo, olhando para ele enquanto ele se despia. Raul era o homem mais velho que Ana já tinha visto nu: não soubera o que esperar, mas afinal era um homem como os outros, mais atraente que muitos. A primeira carícia que ele lhe fez, entre o pescoço e o ombro, fê-la estremecer; mas devolveu-lha, tocando-lhe no peito; e beijou-o timidamente na boca. Raul deitou-se de costas, cruzou as mãos sob a nuca e disse:

– Anda tu por cima, Ana. Mostra-me o que sabes fazer.

Ana tinha a certeza que sabia fazer tudo. A experiência que tinha com homens era muito pouca, limitava-se quase só a Miguel. Sabia dar prazer a Miguel, e portanto devia ser capaz de dar o mesmo prazer a Raul. Pôs-se de gatas por cima dele, deixando pender os colares e as correntes, e começou a beijá-lo nos olhos, nas orelhas, na boca, nos mamilos… Quando estendeu a mão para lhe agarrar no pénis, ele disse que não, ainda não… Ainda não, porquê? Miguel gostava… Mas obedeceu e continuou a beijá-lo, progredindo devagar até lhe chegar ao sexo depilado, tão confortável de meter na boca. Quando começou a chupá-lo, sentiu a mão dele entre as pernas, que abriu para lhe dar espaço.

Raul começou por lhe tactear os lábios exteriores da vulva, de comissura a comissura, primeiro de um lado e depois do outro. A seguir, percorreu a fenda entre eles e, quando chegou ao extremo desta, continuou a acariciá-la entre as pernas, no rego entre a vulva e o ânus. Regressando à vulva, mais fina e mais comprida que a de Teresa, separou-lhe com os dedos os lábios exteriores e começou a afagar-lhe os interiores, que eram nela muito rosados e um pouco proeminentes. O toque de Raul era duma delicadeza extrema: Ana nunca tinha sido acariciada neste lugar por uma mulher, mas imaginava que seria assim, e era muito bom… Por um momento perdeu a concentração, mas ouviu Raul, que lhe dizia:

– Ana, presta atenção, não pares…

Não podia parar de chupar Raul. Estava ali para o servir: tinha sido essa a ordem, muito clara, que Miguel lhe dera. Mas como podia ela ignorar aqueles dedos que se lhe insinuavam pelos folhos da vulva, lubrificados pelos sucos da vagina? Raul descobria-lhe agora o pequeno capuz que lhe escondia o clítoris; este já tinha a pontinha de fora, mas Raul, com infinitos cuidados, afastou o capuz para trás de maneira a descobri-lo mais, e começou a titilar com movimentos rápidos o botãozinho que tinha deixado a descoberto. Ana não sabia o que queria, se queria que ele continuasse a fazer isto por toda a eternidade ou que a penetrasse e possuísse sem delongas. Mas sabia o que Miguel havia de querer: que ela se concentrasse e continuasse, até ordem em contrário, a chupar o melhor que soubesse o pénis de Raul. A ordem em contrário não se fez esperar muito:

– Vem agora, minha querida. Empala-te em mim.

Ana assim fez, com um pequeno gemido. Coleou por Raul acima, deitou-se sobre ele com as pernas abertas, pegou-lhe no pénis para o apontar exactamente à abertura da vagina, e baixou-se sobre ele, sentindo como ele a enchia por dentro. Os movimentos de Raul dentro dela foram, ao princípio, quase imperceptíveis: queria dar-lhe oportunidade de mostrar do que era capaz; e ela, que não queria outra coisa, começou a combinar o que sabia que agradava a Miguel com o que sabia de pompoar.

Raul, deliciado, reteve o orgasmo. Começou a acariciar Ana nas nádegas e nas costas, beijando-lhe a boca, os mamilos, o pescoço sempre que ela se inclinava o suficiente para lhe chegar ao alcance dos lábios. Viu-lhe corar o rosto e o peito, ouviu-lhe a respiração transformar-se num gemido e logo a seguir num arquejo; sentiu como os músculos da vagina se apertavam, já não como no pompoar, mas num tremor involuntário; e esvaiu-se dentro dela com três estocadas fortes, ouvindo-a exclamar:

– Sim, Miguel, sim, vem-te em mim, meu querido!

Mais tarde, com ela estendida sobre ele, escondendo o rosto na curva do braço, ouviu-a dizer:

– Que vergonha, Raul… Chamei-lhe Miguel…

Raul riu-se, obrigou-a a encará-lo e respondeu:

– Tolinha… Pensas que isso me ofendeu? Pelo contrário, até me lisonjeou. Mas agora vá, toca a lavar e a vestir, que tens o teu dono à espera.

Teresa parou o Smart à porta do prédio. Alguém devia ter coordenado as coisas muito bem, porque não passaram mais do que uns segundos até Ana aparecer. Um grupo de rapazes e raparigas, à conversa ali perto, devem ter ficado um pouco admirados ao vê-la dirigir-se para o carro toda agasalhada, mas descalça. Teresa ligara o aquecimento: esperou que Ana se ajeitasse com o cinto de segurança e arrancou: a quinta vez que fazia o mesmo percurso nessa noite. Ao princípio não disseram nada, embora por vezes Ana desse a impressão de querer dizer alguma coisa. Por fim, não se conteve:

– Como te tratou o Miguel?

Teresa não compreendeu: queria Ana saber se Miguel a tinha tratado bem? Que importância tinha isso? Não eram ambas escravas?

– Não é isso – disse Ana. – O que é que ele te chamou? Chamou-te minha escrava?

– Não – disse Teresa, elucidada. – Chamou-me sempre Teresa.

Teresa gostou de sentir Ana relaxar ao seu lado, como que aliviada de um peso.

– E o Raul – perguntou. – Chamou-te minha escrava?

– Não, chamou-me Ana e minha querida. E eu também não lhe chamei meu senhor.

Teresa envolveu-se toda no prazer desta resposta: Raul fizera com Ana o que quisera, mas não lhe chamara minha escrava.

– Também me chamou tolinha…

Então puseram-se as duas a rir, em paroxismos tais que Teresa teve que parar o carro até recuperar o controlo sobre si mesma. Tolinha… e de cada vez que uma delas dizia esta palavra, a outra respondia:

– Cala-te, não me faças rir.

E assim foram até casa de Miguel, onde Teresa esperou que Ana entrasse, gelando de novo os pés.

Hipismo

Romance (Excerto # 23)

brand-st-05-cCap. 35: FERRO EM BRASA

[ … ] Raul não ficou surpreendido quando Teresa se ajoelhou à sua frente trazendo nas mãos um embrulho com cerca de setenta centímetros de comprimento. Ao abri-lo, deparou com uma caixa em couro que tinha na tampa o mesmo símbolo que Teresa exibia no piercing do umbigo: uma elipse longa, aberta nos extremos, em que se inscreviam as iniciais RM [ … ]. A caixa era um estojo, e alojado nele encontrava-se um ferro de marcar gado: um belo objecto, com o cabo em raiz de nogueira, uma haste em aço inoxidável, e na ponta o mesmo design que estava gravado na tampa. Raul tirou o ferro do lugar: lá estava a elipse, lá estavam as iniciais do seu nome [ … ]. Gravadas ao longo da haste, podiam ler-se as palavras Made in the USA by Unionized Labor. Um ferro de marcar gado, pensou Raul; e a sua única propriedade a que se podia chamar gado estava ali mesmo, ajoelhada à sua frente, perscrutando-lhe o rosto.

– Este ferro – disse Raul – és tu a dizer-me que não passas duma cabeça de gado.

– E acaso sou mais do que isso? – perguntou Teresa. – Acaso desejo ser mais do que isso?

Teresa, implacável Teresa. Lúcida, consistente, intransigente Teresa. Incapaz de um eufemismo.

[ … ]

– Tens a certeza? – perguntou Raul. – É isto que queres?

– Há muito tempo que tenho a certeza, meu senhor.

– Não podia ser uma tatuagem? Seria permanente na mesma, e dar-me-ia um prazer igual.

– Perdoa, meu senhor – disse Teresa – mas desta vez não é do teu prazer que se trata.

Raul ergueu uma sobrancelha:

– Nem do teu, espero?!

– Não, meu senhor – disse Teresa. – Do meu, ainda menos. Posso contar-te uma coisa? Quando foi o incêndio no Luna Rossa… O Ettore e eu tínhamos combinado que no dia seguinte eu ia fazer uma tatuagem, um “T” de “Tedeschi”. Mas houve o incêndio, e tudo mudou. Anos mais tarde, quando começou a parecer-me possível voltar a ter um senhor, veio-me um pressentimento, uma certeza, sei lá, que se isso acontecesse ele me marcaria a fogo. Essa certeza manteve-se sempre, mas começou a estar cada vez menos presente no meu espírito… até ao incêndio do Red Moon, que trouxe tudo de volta. E agora esse senhor és tu. Falei em pressentimento, mas exprimi-me mal, não é bem isso: é como se essa marca já estivesse invisível no meu corpo desde o Luna Rossa e tivesse chegado agora a altura de a tornar visível. Uma tatuagem seria uma falsificação, um sucedâneo.

E para ti, pensou Raul, um sucedâneo é tão desprezível como um eufemismo…

– O teu domínio queima, meu senhor – prosseguiu Teresa. – Sempre senti isso. Um bocado de tinta aguada não me designaria como coisa tua. Mas uma marca a fogo no meu corpo transformar-nos-ia [ … ].

Mais um risco a correr, portanto, pensou Raul. Todas as fichas numa jogada. Porque não me pedes antes que arrisque a minha vida? Arriscá-la-ia por ti, de bom grado.

– Já pensaste na dor que vais sofrer? – perguntou.

– Há meses que penso nela, meu dono, e morro de medo. Mas o medo não é importante.

– Vai ser muito, muito pior que qualquer chicote. Estás preparada para isto?

– Não, meu senhor, mas estarei na altura. [ … ]. Para mim, ser marcada pela tua própria mão seria a maior felicidade do mundo. Quando Manfredi mandou marcar a Chiara…

– A Chiara está marcada a fogo?

– Está, sim, meu senhor. Foi marcada nos Estados Unidos, o Avvocato não quis ser ele a fazê-lo…

Nos dias que se seguiram, Raul teve que decidir o que faria. Marcar uma escrava com um ferro em brasa era uma ideia que sempre se tinha situado, para ele, no campo da fantasia. Neste campo, dava-lhe prazer. Mas agora era chamado a considerar essa ideia como uma possibilidade real [ … ]. Agora que tinha que decidir, tinha que se interrogar. A questão menos importante era se a perspectiva lhe dava prazer: admitia que sim, mas era um prazer sem o qual podia bem passar, e enormemente desproporcional à dor de Teresa. Traria este acto algum benefício para Teresa, para ele próprio, ou para os dois? Se o trouxesse, seria enorme; mas também o custo seria enorme, se o acto se revelasse desastroso. Tinha ele a coragem necessária? [ … ] O processo era seguro? Estava sujeito a consequências indesejadas? Que precauções exigia? Como se executava na prática? Raul ignorava isto tudo, e não ia marcar Teresa a ferro quente sem estar completamente seguro do que fazia.

[ … ].

Ao mesmo tempo que se entregava a esta introspecção, Raul procurava obter toda a informação objectiva que o pudesse ajudar. O primeiro elemento desta informação, encontrou-o logo na embalagem do ferro: uma folha de instruções pormenorizada, que contemplava não só a utilização do instrumento em animais, mas também em seres humanos. Na Internet, a informação que encontrou era incompleta e contraditória: não podia fiar-se nela. Não podia perguntar a um médico, por razões óbvias. [ … ]. Telefonou a Manfredi, que confirmou a importância que este ritual teria para Teresa. Compreendia as dúvidas de Raul, simpatizava com elas, mas só podia ajudar na vertente prática: queria Raul que ele, Manfredi, lhe aparecesse no Porto acompanhado por um especialista de confiança? Raul respondeu que sim, mas que se reservava, até ao último minuto, a escolha de abortar a operação.

Of course – respondeu Manfredi [ … ].

Entretanto, a vida prosseguia. Menos de uma semana depois de regressar do Brasil, Teresa voltou às aulas de pompoar. Muitas colegas suas estavam já adiantadas nos exercícios com vibrador, mas Teresa voltou atrás por recomendação da professora, e na primeira aula fez exercícios sem instrumentos e com bolas ben-wa. Achou esta precaução exagerada: nessa tarde, quando chegou a casa, introduziu na vagina o vibrador ligado. Para sua surpresa, sentiu um pouco de dor, devida talvez ainda à colocação dos piercings; mas aquele outro sofrimento que tanto se parecia com prazer tinha desaparecido quase por completo. Se consigo meter este, pensou, mais facilmente meterei o óvulo, que é mais pequeno… Tomou uma decisão: no dia seguinte, antes de sair para a aula de dança do ventre, introduziu na vagina o óvulo de controlo remoto. Entregou o controlo a Ana e pediu-lhe que carregasse algumas vezes no botão, o mais possível de surpresa, enquanto a lição durasse [ … ].

– Quando é que chega o homem do gado? – perguntou Ana depois da aula.

– O quê? – disse Teresa.

– Poça! Gado rachado, como nós as duas. O americano que marca gado rachado.

Teresa não pôde deixar de se rir da formulação escolhida por Ana.

– Chega amanhã de manhã, via Newark. Vai o Raul buscá-lo com o Avvocato.

– O Avvocato está cá? Gostava de o conhecer.

– Chega logo à noite, com a Chiara.

– E tu, estás preparada?

– Quem é que pode dizer que está preparado para uma coisa destas? – disse Teresa. – Claro que não estou preparada: estou aterrorizada. Mas o que manda não é o meu terror, é a minha vontade.

– A tua? – disse Ana. – Não é a do teu dono?

– A minha vontade subjuga-se à do meu dono [ … ]; mas se a minha vontade não fosse mais forte que o meu medo, pensas que poderíamos levar isto por diante?

[ … ].

O americano chamava-se Zebediah Pyke. Vinha de sapatilhas, blusão e boné de baseball; só o rosto, talhado a machado, e a pele curtida, faziam lembrar [um cowboy]. Trazia uma quantidade enorme de bagagem, muito mais do que seria de esperar para uma estadia de quatro dias. Reconheceu imediatamente Manfredi e saudou-o com um “Hi, Orrie” que deixou o Avvocato imperturbável.

Hi, Zeb – respondeu. – This is Raul Morgado. Raul, o Zeb chama-me Orrie porque o meu nome próprio é Orazio.

Isto era novidade para Raul, que simpatizou com o à-vontade de Zeb.

Hi, Raul – disse o americano, pronunciando “Rol”; e apertou-lhe a mão com firmeza.

[ … ].

No apartamento, passaram à conversa séria. Primeiro: sabia Teresa o que estava planeado e no que consistia? Então que o descrevesse pelas suas próprias palavras. Consentia nesse procedimento? Consentia em que a marca lhe fosse aplicada por Raul, apesar de aconselhada em contrário? Sabia que o processo era extremamente doloroso? Teresa respondeu que sim a tudo, e Zeb pediu-lhe que assinasse um documento nesse sentido. Quanto a Raul, Zeb tinha sido informado que ele se reservava o direito de abortar o procedimento até ao último minuto; mas, caso o fizesse, teria que o pagar na mesma por inteiro. Estava de acordo? Raul respondeu que sim. Zeb faria todos os esforços para que Raul adquirisse a competência necessária para marcar a sua escrava; mas se no fim não o considerasse competente, marcá-la-ia ele próprio, ou sairia sem se responsabilizar pelo que acontecesse a seguir. Estava Raul também de acordo com isto?

Raul pediu um momento para falar a sós com Teresa e retirou-se com ela para o escritório [ … ]. Quando regressaram à sala, Raul perguntou se podia ver a marca de Chiara.

– Mostra – disse Manfredi à mulher.

A Dottoressa Chiara Manfredi era uma senhora elegante de meia-idade, com o cabelo louro cortado à pajem, deixando a nuca a descoberto; naquele dia, trazia blusa de seda, saia pelo joelho, um pouco travada, e sapatos rasos: era em tudo uma profissional discreta, uma académica respeitada. Sem hesitar nem perder o aprumo, desapertou um fecho ao lado da saia e tirou-a pelos pés, desvendando umas calcinhas brancas rendadas. Quando as baixou, Teresa compreendeu porque nunca lhe tinha visto a marca: eram apenas duas pequenas iniciais, OM, em estilo cursivo e sem bordadura. Estavam inscritas na púbis depilada, onde qualquer biquíni reduzido as esconderia. Era uma marca bonita, um pouco em relevo e apenas mais rosada do que a pele em redor; e o lugar em que estava gravada também era bonito: um monte-de-vénus mais saliente e rechonchudo do que a magreza de Chiara faria prever.

A um sinal de Manfredi, Chiara vestiu-se de novo. Zeb perguntou se podia ver o ferro [ … ]. Ainda bem que a elipse era aberta nas pontas e que o arco do R era também aberto. Isto reduzia o risco de que a pele não queimada viesse agarrada quando o ferro fosse retirado [ … ]. O tamanho da marca limitava os lugares onde podia ser aplicada: com dez centímetros de largura e sete de altura, teria que ser nas nádegas. O melhor lugar seria a parte de cima, um pouco abaixo dos rins, mas este não era um lugar discreto: seria visível quando Teresa usasse um biquíni ou qualquer peça de roupa muito decotada atrás.

– Não me importa a discrição – respondeu Raul. – Uma marca é para se ver. Vamos marcá-la aí.

[ … ].

Para essa tarde, Zeb ia necessitar de um espaço onde se pudesse acender um fogareiro. Depois de verificar que o apartamento de Raul dispunha de um terraço adequado no último andar, quis saber se o mesmo existia no lugar onde ele pensava marcar Teresa. Raul telefonou à Baronesa e ela assegurou-lhe que o Justine dispunha dum pequeno espaço nas traseiras e de um fogareiro. A questão seguinte, disse Zeb, era onde amarrar Teresa: teria que ficar perfeitamente firme e imóvel [ … ]. Raul levou-o ao quarto dos castigos e mostrou-lhe o móvel que mandara fazer: uma mesa de comprimento igual à altura de Teresa e largura igual à das suas ancas, com aros de latão a toda a volta e uma ranhura funda na espessura do tampo. Tal como as outras peças de mobiliário, estava aparafusada ao chão. Milena foi despachada para comprar a fita de embalagem autocolante que era necessária para a primeira lição de Raul: como prender a sua escrava de modo a que ficasse perfeitamente imóvel. Enquanto esperavam, Teresa, meio perdida num nevoeiro de apreensão, só prestou atenção a Chiara, quando esta contou como tinha sido marcada. Tinha sido num rancho perto de Houston. Tinham-na levado para um telheiro e amarrado a uma banca de barriga para cima. Zeb interrompeu para dizer que essa era a sua posição preferida para marcar a fogo uma mulher, porque era aquela em que era mais fácil e mais rápido prestar-lhe os primeiros cuidados depois de a marcar. Orazio, continuou Chiara, decidira vendar-lhe os olhos. Depois tinha-se sentado junto dela, falando-lhe baixinho ao ouvido, chamando-lhe nomes ternos, fazendo-lhe perguntas sobre recordações passadas. Chiara não conseguia deixar de pensar no ferro em brasa, mas, quando Manfredi insistia nas perguntas, tinha que fazer um esforço para lhe responder: só isto a tinha impedido de se entregar ao pânico. A dor tinha sido a pior que jamais sofrera, mas tinha passado; e a marca era tão bonita, não era? Teresa reconhecia vagamente que a marca era bonita; mas aquela dor terrível, que já tinha passado para Chiara, estava ainda seu no futuro [ … ]. Não duvidava, nem da sua coragem, nem da de Raul. Chegado o momento, tinha a certeza que Zeb autorizaria que o seu dono a marcasse pela sua própria mão; acreditava apaixonadamente que o que se ia fazer era o melhor para Raul e para si própria; mas não se podia impedir de ficar ensimesmada como um soldado na trincheira, nas horas que antecedem o ataque.

Quando Milena chegou com a fita autocolante, Zeb pediu-lhe que começasse a preparar o braseiro, tarefa esta em que Chiara se propôs ajudar. A Raul, a Teresa e ao Avvocato, pediu que o seguissem até ao quarto dos castigos e levassem o ferro. Pediu ainda a Teresa que se despisse e se deitasse na banca de barriga para baixo com as pernas um pouco afastadas. Para o que iam fazer a seguir, não era preciso amarrá-la, mas esta era a posição em que tudo ia acontecer. Antes de mais nada, Raul tinha que aprender a pegar no ferrol: os dedos firmemente à volta do cabo de madeira, segurando-o virado para baixo. Raul pôs-se do lado em que queria marcar Teresa, que era o esquerdo, e segurou o ferro por cima dela com a haste em posição vertical. Não, disse Zeb: o ferro tem que ficar perpendicular à pele e não ao tampo da mesa. Raul que reparasse: ali, onde ele queria a marca, o corpo dela tinha um declive.

Raul aproximou o ferro da nádega de Teresa, mas Zeb disse que era demasiado perto. Se parasse o ferro ali, Teresa sofreria inutilmente, porque sentiria a queimadura com antecedência. Devia pôr o ferro em posição um pouco acima, aí a quatro polegadas. Quatro polegadas era o quê? Dez centímetros? Raul tentou executar à letra as instruções de Zeb, que não pareceu insatisfeito com o primeiro resultado. Manfredi, que os estava a observar, reparou que o americano estava tão atento às expressões e à linguagem corporal de Raul como ao seu desempenho. Está à procura de sinais de nervosismo excessivo, pensou. Mas em parte estava enganado: Zeb estava também atento a sinais de nervosismo insuficiente. Se os notasse em Raul, abortaria o processo da mesma maneira que o abortaria por nervosismo a mais.

Depois de treinar duas ou três vezes o posicionamento inicial, era altura de treinar o contacto entre o ferro e a carne. Primeiro o movimento, que tinha que ser rápido, preciso, uniforme e em linha recta. Depois a pressão adequada: firme, mas não exagerada. Não, assim não chegava. Não, assim era demais. Assim estava bem, podia repetir. Depois, a duração: três segundos no mínimo, no máximo cinco.

– E como é que decido entre três e cinco? – perguntou Raul.

Good question – respondeu Zeb. – Viu a marca de Chiara? Quando a fiz, mantive o contacto por três segundos. Se quer que a sua escrava fique com uma marca mais nítida e mais escura, deve manter o contacto por quatro ou cinco segundos; but let me have another look at the iron.

Revirou o ferro nas mãos, medindo com os olhos todos os espaços entre as linhas, e concluiu:

– Quatro segundos é melhor. Com cinco, podíamos ter problemas ao retirar o ferro.

[ … ].

Quando Zeb se deu por satisfeito, passou à lição seguinte: como amarrar Teresa. O objectivo, explicou, era segurá-la de modo a que lhe fosse de todo impossível mover as nádegas, mas de modo também a que fosse possível libertá-la instantaneamente em caso de necessidade.

– E de onde pode provir essa necessidade? – perguntou Raul.

A necessidade podia provir de Teresa entrar em estado de choque. Se isto acontecesse, seria preciso prestar-lhe os primeiros socorros adequados. Se estes não resultassem, o que era muito improvável, seria preciso prestar-lhe os cuidados médicos que ele, Dr. Zebediah Pyke, diplomado pela Harvard Medical School, e membro da American Medical Association, estava habilitado e equipado para prestar.

– Equipado? – perguntou Raul. – Quer dizer que tem medicamentos nessa maleta?

– Medicamentos e outras coisas, tudo documentado de modo a passar na alfândega na mais absoluta legalidade. Don’t worry.

– Mas se a Teresa entrar em choque…

– Não vou entrar em estado de choque nenhum – disse Teresa, com tão absoluta segurança que ninguém ousou acrescentar uma palavra a este pronunciamento.

– Continuemos – disse Raul por fim.

Zeb ordenou que Teresa mantivesse os braços cruzados a fazer de almofada. Nesta posição, atou-lhe os antebraços um ao outro com duas voltas de corda rematadas por um simples laço. Usou os mesmos laços de puxar pela ponta para lhe prender os cotovelos e os pulsos a dois aros de latão. Qualquer pessoa poderia desamarrar Teresa em segundos, ou ela própria em minutos. Raul e Manfredi acharam este sistema demasiado frágil para imobilizar completamente uma pessoa, mas não disseram nada. Zeb explicou que nesta fase não lhe interessava a imobilidade completa de Teresa, mas sim definir a sua posição: o importante era que os nós pudessem ser desfeitos instantaneamente.

– Não vou mesmo entrar em estado de choque – disse Teresa.

Raul e o Avvocato, que a conheciam, começaram a acreditar nela, mas Zeb prosseguiu como se ela não tivesse falado. Atou-lhe os tornozelos com a mesma desenvoltura com que lhe tinha atado os pulsos; bastaria que ela se debatesse um pouco para ficar livre. Atou-lhe a parte superior de cada coxa ao aro de latão mais próximo, e depois a parte inferior, junto ao joelho.

Fourteen granny knots – disse Zeb, como que falando consigo mesmo – Catorze lacinhos. Conte-os você mesmo, Orrie. Quantos são?

Orazio Manfredi obedeceu conscienciosamente e concluiu:

They’re fourteen alright, Zeb.

Very well – disse o Dr. Zebediah Pyke. – Se eu der a ordem de desatar, não pense noutra coisa que não seja em desatá-los, e depressa. Comece pelos braços. OK?

That’s OK, Zeb.

O que verdadeiramente ia segurar Teresa era a fita adesiva. Zeb começou por lhe prender a cintura, dando várias voltas por cima e por baixo da banca. Depois prendeu-lhe a pélvis, as coxas e os ombros, por baixo dos braços. Quando Zeb lhe mostrou o X-acto que tinha pousado na banca, Raul compreendeu que as ranhuras no rebordo eram para que a fita ficasse em falso e fosse possível cortá-la num segundo. Com Teresa assim amarrada, Zeb quis que Raul repetisse o treino com o ferro.

– Sente a diferença? – perguntou.

Raul sentia uma diferença, com efeito. A inclinação da pele era agora ligeiramente diferente. Também a consistência da carne, assim amarrada, era outra: era preciso um pouco mais de força.

O treino da manhã terminou assim. Milena serviu o almoço. Zeb levantou-se algumas vezes para ir ao pátio ver como estava a progredir o braseiro, juntando-lhe eventualmente mais um pouco de carvão. O aço é um mau condutor do calor, o que significa que é difícil aquecer a zona de queima até uma temperatura uniforme. Zeb rejeitou a sugestão de aquecer o ferro nos bicos de gás: umas partes ficariam quentes demais enquanto outras não o ficariam o suficiente. O melhor processo era o braseiro: introduzir a zona de queima no meio das brasas, deixar de fora a maior parte da haste, virar o ferro periodicamente e esperar até que a zona de queima apresentasse uma cor entre o cinzento escuro e o vermelho. Enquanto o ferro aquecia, trouxe para o quarto dos castigos umas almofadas em cabedal muito fino.

– Tome o peso a isto – pediu ele a Raul, passando-lhe para as mãos uma delas.

– É pesada – disse Raul.

Era pesada porque estava cheia de silicone de modo a imitar a consistência do corpo humano. De cada vez que Zeb treinava alguém, destruía várias destas almofadas, e esta era uma das razões por que os seus serviços eram tão caros.

– Estou a ver – disse Raul.

Zeb pediu-lhe que fosse buscar o ferro que estava a aquecer no pátio; Raul que não se apressasse: durante o percurso, o ferro quase não perderia calor. Entretanto prendeu uma almofada à banca e, quando Raul regressou, disse-lhe:

Here’s your female. Agora marque-a.

Raul fez tudo errado. Não pôs o ferro na posição correcta nem à distância certa, aproximou-o numa linha irregular, que tentou corrigir tarde demais; suou, a mão tremeu-lhe, e ao fim dos quatro segundos retirou o ferro com um movimento hesitante, como que a medo.

I’ve seen worse – foi o único comentário de Zeb.

Mas a Raul pareceu-lhe que era impossível pior: a marca que tinha deixado na almofada era uma coisa feia e informe. A ideia de que Teresa pudesse passar o resto da vida com semelhante deformidade no corpo punha-o doente. Enquanto o ferro voltava a aquecer, passou em revista os seus erros. Na almofada havia ainda espaço para mais duas ou três tentativas: a segunda resultou muito melhor do que a primeira, mas ainda assim Zeb teve um defeito a apontar:

– Está a ver aqui a linha indistinta? É onde a sua mão tremeu durante o contacto. Terá que fazer muito melhor para eu o deixar aproximar-se duma mulher a sério.

Quando Raul conseguiu dez marcas perfeitas seguidas, Zeb deu o dia por concluído e explicou-lhe como se limpava o ferro [ … ].

Nessa noite, Raul parecia sentir uma fascinação especial pelas nádegas de Teresa e ela pelas mãos dele, que beijou mais vezes nessa noite do que habitualmente numa semana. Depois de se terem abraçado e beijado longamente, e quando Teresa, já toda aberta e molhada, se preparava para receber na vagina o seu senhor, ouviu-o dizer:

– Dá-me o teu cuzinho, escrava…

Com um gemido que era ao mesmo tempo de ansiedade e frustração, Teresa procurou na mesinha de cabeceira o frasco de gel. Ela própria lubrificou o pénis do dono, mas, quando lhe ofereceu o frasco, ele recusou, dizendo:

– Faz tu, escrava.

Guiando-se só pelo tacto, Teresa aplicou o gel no seu próprio ânus, tendo o cuidado de não se atrapalhar com a pressa: se ficasse mal lubrificada, seria ela a sofrer. A penetração foi dolorosa, como ela esperava, e Raul não lhe acariciou o sexo enquanto a possuía por trás; e contudo, pela primeira vez na vida, sentiu nesta penetração prazer suficiente para a levar a um orgasmo.

– Meu senhor, posso vir-me?

Raul, um pouco surpreendido, autorizou-lhe o clímax e, quando lhe sentiu os primeiros espasmos, esvaiu-se também dentro dela.

O dia seguinte começou com várias repetições do amarrar e desamarrar de Teresa. Durante a tarde, Raul treinou com o ferro quente, destruindo mais umas tantas almofadas de silicone. As marcas saíram todas perfeitas, apesar de Raul continuar a dar alguns sinais de nervosismo. Agora que tivera tempo para pensar, o Avvocato entendia porque é que Zeb preferia um Raul ligeiramente nervoso a um Raul perfeitamente calmo: é que na hora da verdade não estaria calmo de certeza, e apesar dos nervos teria que fazer bem o seu trabalho. Ao fim da tarde, Zeb deu-se por satisfeito: declarou que ia aproveitar a manhã do dia seguinte para conhecer um pouco o Porto e despediu-se. Às seis da tarde de sábado, alguém o iria buscar para o levar ao Justine, onde daria a Raul um ligeiro treino final antes da cerimónia, que teria lugar às nove e meia. Estariam presentes, como testemunhas: bondarina e o seu Dono; a Baronesa e o seu submisso; kathy e o seu Dono; Ana e Miguel; a professora de dança do ventre de Teresa – que esta, num impulso de última hora, se atrevera a convidar, e que, para sua surpresa, aceitara; Orazio e Chiara Manfredi; e Carolina, que adivinhara que algo do género estava para acontecer e pedira para assistir.

No sábado, a seguir ao almoço, Igor apresentou-se em casa de Raul, acompanhado pelo submisso da Baronesa, para ajudarem a desaparafusar a banca e a pô-la na carrinha alugada. O submisso da Baronesa, apesar do seu aspecto frágil, e o Avvocato, apesar da idade, ajudaram; e pouco depois a banca estava no Justine, aparafusada ao chão no lugar que ocuparia de futuro.

Enquanto Zeb e os convidados não chegavam, Teresa foi o centro das atenções. Igor, bondarina, a Baronesa, Raul, todos a rodeavam e mimavam, arrancando-lhe um débil sorriso ou uma curta frase. Às seis, chegaram o Avvocato e Chiara trazendo Zeb. Às nove, prepararam-se para a chegada dos convidados: competiria a Teresa recebê-los e a cumprimentá-los à porta, toda nua por baixo duma capa comprida, segura no pescoço só por um botão. Às nove e meia, o braseiro, no pátio, estava aceso; e o ferro de marcar gado estava à temperatura certa. Zeb, ao chegar, disse que era seu dever perguntar a Raul se queria Teresa anestesiada. Teresa, muito pálida, acenou que não com a cabeça, e Raul recusou a oferta. Zeb perguntou se podia, nesse caso, dar-lhe um sedativo que não a poria a dormir mas lhe reduziria o medo. Teresa voltou a acenar que não, mas desta vez Raul aceitou. A Baronesa pôs música a tocar – Canto Gregoriano – e os convidados sentaram-se. Teresa dirigiu-se para junto da banca, tirou a capa, que entregou a Chiara, ajoelhou-se nua aos pés de Raul para lhe beijar as mãos e os pés, e ergueu-se de novo. Na sala, ninguém falava. Do outro lado da banca, estava Zeb, e junto ao topo o Avvocato: Teresa fez uma vénia a cada um e disse-lhes “obrigada por tudo” em voz sumida. Depois deitou-se de bruços na banca, onde os três a amarraram e amordaçaram. Zeb procurou-lhe uma veia nas costas da mão. Teresa sentiu a picada e logo depois sentiu-se relaxar: dava-se conta de tudo, mas tudo parecia muito longe.

Os dados estão lançados, pensou Raul. Rien ne va plus.

Chiara dirigiu-se ao pátio, de onde voltou para anunciar que o ferro estava pronto. Teresa não viu o sinal de Zeb: viu Raul sair do seu campo de visão e ouviu-lhe os passos no regresso, rodeando a banca pelo lado oposto. Não viu o ferro, mas imaginou-o, a haste em aço claro, a ponta vermelha-escura. Começou a respirar o mais devagar e o mais profundamente que podia, como lhe ordenava Zeb numa voz calma, quase hipnótica. Sentiu Raul de pé, junto ao seu flanco esquerdo; de onde ele estava, irradiava o calor do ferro, que ela sentia à distância. Esta sensação de calor intensificou-se subitamente: agora era quando ele punha a superfície de queima em posição. Teresa procurava manter a respiração funda e lenta que Zeb lhe prescrevera, quando de repente a trespassou uma dor imensa que lhe fez perder a vista, que lhe endoidou a vista e a fez ver a sala toda branca, como se a luz de mil sóis a tivesse inundado. Ouviu, muito ao longe, a voz de Raul, que contava até quatro. Não sentiu a retirada do ferro, nem reparou quando Zeb lhe levantou as pálpebras para lhe ver os olhos. Antes de a desamarrarem, puseram-lhe um penso. A dor abrandou. Depois sentiu a picada duma injecção na outra nádega: é para a dor, disse Zeb. Passado um bocado, a dor abrandou mais um pouco.

Perfect – disse Zeb.

Se alguém viu Teresa sorrir um pouco neste momento, por certo não acreditou nos seus olhos. Mas ela sorriu porque tinha um segredo: Raul tinha passado o teste a que ela o sujeitara. E ela própria também. O que era uma queimadura, por dolorosa que fosse, comparada com isto? Mas a dor ainda era intensa. Teresa descobriu que, se voltasse a respirar fundo e lentamente, a dor se tornava mais fácil de suportar. Começou a tomar uma consciência mais nítida das coisas. Alguém a beijou no rosto: era Chiara. Depois Raul, muito pálido:

– Estás bem?

Teresa tentou um sorriso:

– Estou bem.

[ … ]

– Amo-te muito, minha escrava – disse Raul.

Teresa sentiu o coração a bater com mais força, e Zeb, que lhe tomava o pulso e olhava para o relógio, sorriu levemente.

– Amo-te tanto, meu dono!

E todos a devem ter ouvido, porque o ambiente da sala mudou: estava agora mais enfeitado de sorrisos, como se todos os presentes partilhassem um triunfo.

– Vamos sentá-la – disse Zeb.

Com várias mãos a ajudá-la, Teresa sentou-se na banca onde tinha sido marcada.

– Põe a cabeça entre os joelhos e respira fundo.

Passado um bocado, perguntaram-lhe se conseguia levantar-se e ela fez que sim com a cabeça. Lentamente, conduziram-na para uma cadeira onde a sentaram, ainda nua, e lhe lançaram uma manta por cima.

– É preciso vesti-la – disse alguém.

Give her time – respondeu Zeb. – Daqui a pouco, ela própria vai conseguir vestir-se.

Mediu-lhe a tensão arterial, os batimentos cardíacos e a temperatura: estava tudo normal. Teresa olhou à sua volta: onde estava Carolina? Viu-a de pé, pálida, a suar e agarrada às costas de um sofá para não cair.

– A minha irmã não está bem, ajudem-na.

Em dois passos rápidos, Zeb pôs-se junto de Carolina, sentou-a e agachou-se para lhe ver os olhos.

Can you see me? Who am I? – perguntou.

– Zeb – disse Carolina.

Zebediah notou como a respiração se normalizava e como a cor lhe voltava ao rosto.

– Tragam-lhe um pouco de água – ordenou.

Depois fez-lhe os mesmos exames que fizera a Teresa.

She’s gonna be alright – concluiu.

Quando Teresa se sentiu melhor, pediu a bondarina que a ajudasse a vestir-se e que a trouxesse depois para junto da irmã.

– Deixem-nos um momento sozinhas – pediu.

Do outro extremo da sala não se podia ouvir o que estavam a dizer; mas, pelos gestos e expressões, a conversa pareceu dividir-se em várias fases: primeiro, Carolina pegou na mão de Teresa; depois pareceram zangadas; a seguir foi Teresa a pegar na mão de Carolina; por fim abraçaram-se, e Carolina desatou num choro desabalado que só pouco a pouco, sob os beijos da irmã, foi acalmando. Por fim, à hora de abrir o clube e deixar entrar os clientes, estavam as duas numa conversa amena: igual, para quem visse, a qualquer outra conversa entre duas irmãs que se dão bem.

Desabafo de Mulher Moderna

ameliaEncontrei este texto no blog Os Meus Desejos da Angell, que por sua vez o encontrou noutro lado e e não resistiu a transcrevê-lo. Ela achou-o delicioso, e eu também. A ilustração é tirada do mesmo blog.

São 6h… O despertador canta de galo e eu não tenho forças nem para atirá-lo contra a parede… Estou tão cansada, não queria ter que trabalhar hoje, queria ficar em casa, cozinhando, ouvindo música, cantarolando. Se tivesse filhos, gastaria a manhã brincando com eles, se tivesse cachorro, passeando pelas redondezas.. . Aquário? Olhando os peixinhos nadarem. Se eu tivesse tempo gostaria de fazer alongamento…brigadeiro…tudo, menos sair da cama e ter que engatar uma primeira e colocar o cérebro pra funcionar. Gostaria de saber quem foi a mentecapta, a infeliz matriz das feministas que teve a estúpida idéia de reivindicar direitos de mulher, queria saber PORQUE ela fez isso connosco, que nascemos depois dela… Estava tudo tão bom no tempo das nossas avós. Elas passavam o dia a bordar, trocar receitas com as amigas, ensinando-se mutuamente segredos de molhos e temperos, de remédios caseiros, lendo bons livros, decorando a casa, podando árvores, plantando flores, colhendo legumes da horta, educando as crianças, frequentando saraus, ENFIM, a vida era um grande curso de artesanato, medicina alternativa e culinária. Aí vem uma fulaninha qualquer que não gostava de sutiã nem tão pouco de espartilho, e contamina várias outras rebeldes inconsequentes com idéias mirabolantes sobre ‘vamos conquistar o nosso espaço’!!! Que espaço, minha filha??? Você já tinha a casa inteira, o bairro todo, o mundo aos seus pés. Detinha o domínio completo sobre os homens, eles dependiam de você para comer, vestir, pra tudo!!! Que raio de direitos requerer? Agora eles estão aí, são homens todos confusos, que não sabem mais que papéis desempenhar na sociedade, fugindo de nós como o diabo foge da cruz… Essa brincadeira de vocês acabou nos enchendo de deveres, isso sim. E nos lançando no calabouço da solteirice aguda. Antigamente, os casamentos duravam para sempre, tripla jornada era coisa do Bernard do vôlei – e olhe lá, porque naquela época não existia Bernard do vôlei. POR QUE???..me digam PORQUE um sexo que tinha tudo do bom e do melhor, que só precisava ser frágil, foi se meter a competir com o macharedo? Olha o tamanho do biceps deles, e olha o tamanho do nosso. Tava na cara que isso não ia dar certo!!! Não agüento mais ser obrigada ao ritual diário de fazer escova, maquiar, passar hidratantes, escolher que roupa vestir, e que sapatos combinar, que acessórios usar… tão cansada de ter que disfarçar meu humor, que sair sempre correndo, ficar engarrafada, correr risco de ser assaltada, de morrer atropelada, passar o dia ereta na frente do computador, com o telefone no ouvido, resolvendo problemas que nem são meus!!! E como se não bastasse, ser fiscalizada e cobrada (até por mim mesma) de estar sempre em forma, sem estrias, depilada, sorridente, cheirosa, com as unhas feitas, sem falar no currículo impecável, recheado de mestrados, doutorados, e especializações (uffff!!!). Viramos supermulheres e continuamos a ganhar menos do que eles… Não era muito melhor ter ficado fazendo tricô na cadeira de balanço? CHEGAAAAAAA!! Eu quero alguém que pague as minhas contas, abra a porta para eu passar, puxe a cadeira para eu sentar, me mande flores com cartões cheios de poesia, faça serenatas na minha janela… Ai, meu Deus, já são 6:30,tenho que levantar!… , e tem mais, quero alguém que chegue do trabalho, sente no meu sofá, coloque os pés pra cima e diga ‘meu bem, me traz um cafezinho, por favor?’, descobri que nasci para servir. Vocês pensam que eu tô ironizando? To falando sério! Estou abdicando do meu posto de mulher moderna…. Troco pelo de Amélia. Alguém se habilita?

Actualização (06/04/09): Fui informado que este texto é da autoria da escritora argentina Maitena.

Mulher cadela

catherine_deneuve_gallery_mainLi um post no blog da Cadela Loura que me fez lembrar um filme dos anos 70 com Catherine Deneuve e Marcello Mastroiani.
O filme tem por título «Lisa» e conta a história duma mulher que é expulsa de um iate e vai ter a uma ilha ao largo da Côte D’Azur. Nesta ilha vive sozinho um homem que ganha a vida como cartunista, acompanhado apenas pelo seu cão.
A personagem feminina fica com ciúmes do cão e faz com que ele se afogue, nadando com ele para tão longe que ele não consiga regressar. Chegada a terra, assume ela própria os deveres do cão: usa coleira, dorme aos pés do dono e vai buscar na boca os paus que ele atira.
Infelizmente, não consegui encontrar este filme editado em DVD. É pena, porque gostava de o voltar a ver.

Violência Doméstica

A decência mais elementar exige que nos saibamos pôr no lugar do outro. Isto exige alguma imaginação. Quando me dizem que não posso imaginar um certo sofrimento porque nunca passei por ele, estão-me a negar esta imaginação e a não querer que cumpra o dever moral de me pôr no lugar da outra pessoa. No limite, estão a exigir-me que seja um psicopata: alguém que se caracteriza por não compreender que os outros também existem e também sofrem.

Portanto não me vou desculpar pelos exercícios de imaginação que vou fazer neste artigo. É certo que não sou mulher, nem nunca fui vítima de violência doméstica, mas é precisamente nesta situação que me vou tentar imaginar.

Uma mulher vê-se sozinha e sem defesa perante um homem violento e descontrolado. Pelo decurso dos minutos ou horas antecedentes, sabe que vai ser agredida fisicamente – só não sabe com que gravidade. Pode ser que fique tudo por um par de estalos. Pode ser que inclua murros, pontapés e pauladas, em partes do corpo normalmente cobertas pela roupa. Ou pode incluir o nariz partido, equimoses na cara, lábios rebentados, dentes quebrados. Pode levar a dias, semanas ou meses de hospital.

Pode levar à morte.

E é aqui que eu tento pôr-me no lugar dessa mulher e pergunto a mim mesmo o que é que ela sente. Isto depende, é claro, do modo de ser de cada uma: há mulheres que numa situação destas ficam de tal maneira dominadas pela ira que nem conseguem sentir medo ou dor: se puderem defender-se, defendem-se, e se tiverem acesso a qualquer coisa que possa servir de arma são até capazes de matar o agressor – que não merece outra coisa.

Outras ficam tão paralisadas pelo terror que não reagem: tentam cobrir com os braços as partes mais vulneráveis do corpo, choram, pedem ao homem que pare, são capazes até, naquele momento, de pedir perdão pelo que não fizeram.

Duma coisa tenho a certeza: nenhuma mulher tem prazer nisto. Haverá quem não concorde com esta afirmação, a começar pelas minhas amigas baunilha com quem converso. São unânimes em dizer que um episódio destes releva do mais puro horror, no que concordo com elas; e são quase unânimes em que o essencial deste horror não está necessariamente na dor física sofrida, mas no descontrolo e na imprevisibilidade da situação; mas quase todas têm histórias a contar duma empregada que tiveram, ou das mulheres da aldeia onde passaram a infância, que apresentam como exemplo da mentalidade do «quanto mais me bates, mais eu gosto de ti» ou, ainda mais chocante, «o meu homem não deve gostar de mim porque nunca me bate».

As minhas amigas baunilha – mulheres urbanas da classe média ou média alta – sabem que no seu próprio grupo social há mulheres vítimas de violência doméstica. Compreendem e aprovam que algumas destas mulheres aguentem esta situação até as circunstâncias da vida lhes permitirem separarem-se dos seus agressores; mas não lhes passa pela cabeça que esta separação não tenha lugar logo que possível. O que elas não compreendem é a a mentalidade do «quanto mais me bates» de que falam. E só encontram uma explicação para ela: muitas mulheres pobres, rurais, dependentes ou iletradas gostam de ser vítimas de violência doméstica.

Quanto a mim, as minhas amigas estão enganadas.

Este meu juízo releva mais da imaginação do que da experiência: cresci em meio urbano, nunca assisti a situações de violência doméstica, e nunca nenhuma mulher me fez o tipo de confidências que as minhas amigas baunilha me dizem que já ouviram muitas vezes. Que autoridade tenho, eu, portanto, para falar?

Eu nunca tive esta experiência; mas as minhas amigas baunilha nunca tiveram a experiência que eu tive muitas vezes: a de falar com submissas ou escravas que aceitam, desejam, e muitas vezes necessitam absolutamente de sofrer, e/ou de serem humilhadas, às mão de um Dominante ou de um Senhor. E isto em graus que podem ir do ligeiro ao extremamente severo. O que diferencia estes desejos e estas práticas de situações de violência doméstica é, pela minha experiência, o facto de se tratar de processos controlados. Este controlo pode ser exercido, em situações extremas, pela própria submissa ou escrava (através, por exemplo, dum safeword), mas geralmente é exercido pelo dominante. O que interessa é que há sempre um controlo. E é isto que faz toda a diferença: ao ser castigada, a submissa sente-se segura, ao contrário da vítima de violência doméstica.

E isto leva-me a especular sobre aquelas mulheres a quem as minhas amigas baunilha consideram «primitivas», «ignorantes» e sujeitas a uma tradição injusta que lhes fez uma «lavagem ao cérebro». Serão mesmo assim tão estúpidas, primitivas, influenciáveis e ignorantes? Por mim, tenho dificuldade em presumir a estupidez dos outros como primeira explicação para o que não compreendo.

Talvez o caso seja outro. Talvez a mesma tradição primitiva que dá aos homens, em certos contextos sociais, o direito de bater às mulheres estabeleça, nos mesmos contextos, mecanismos de controlo social que limitem esse direito. Talvez as mulheres que dizem aquelas frases, que tanto indignam as minhas amigas, se possam dar ao luxo de as dizer porque se sentem de alguma maneira seguras.

Se esta minha hipótese estiver correcta, então talvez estas mulheres, que habitam um mundo tão diferente do meu, não sejam tão estúpidas, ignorantes e alienadas como as minhas amigas as consideram; e talvez os homens que lhes batem não sejam sempre bestas enlouquecidas. Talvez uns e outras mereçam da nossa parte algum respeito.

Arminda tinha a chave do apartamento da filha, mas raramente lá ia sem ela lá estar, e nunca sem autorização. Um dia, Joana pediu-lhe que passasse por lá e lhe levasse uma pasta que lá tinha; depois, quando jantassem as duas, poderia entregar-lha, evitando assim que ela tivesse ir a casa primeiro.

– Depois de jantar ainda vais para a Faculdade?

– Tenho que ir – respondeu Joana. – Há uma coisa que tem que ficar pronta ainda hoje.

Arminda pegou na pasta e já vinha a sair quando uma curiosidade súbita a levou a voltar para trás e ir espreitar o quarto. E viu, sobre a cama, uma vergasta. Era vermelha, revestida dum tecido que parecia o das velas dos barcos. O punho era de cabedal preto, em tiras entrançadas. Na ponta tinha outra tira de cabedal, dobrada sobre si própria. Estava atada a meio com uma fita de seda preta que formava um laço e a identificava como um presente.

O laço foi o que mais a chocou.

Conduziu o carro até casa tentando controlar o batimento do coração, concentrando-se no trânsito, tentando imaginar toda a espécie de explicações inocentes para o que tinha visto; mas não conseguiu imaginar nenhuma.

– Ouve lá – disse à filha, mal ela lhe entrou em casa. – O que é aquilo que estava em cima da tua cama?

Joana nem se deu ao trabalho de perguntar à mãe com que direito lhe tinha ido meter o nariz no quarto.

– É uma vergasta, mãe – respondeu serenamente.

– Que é uma vergasta, sei eu. O que não sei é o que está a fazer uma vergasta em cima da tua cama. Foi o Rui que ta deu?

– Não, mãe; eu é que a vou dar ao Rui.

Arminda retirou-se de rompante para a cozinha. A filha seguiu-a e começou a ajudá-la em silêncio.

– Nunca pensei que o Rui tivesse essa tara de ser vergastado. Nem nunca pensei que uma filha minha se prestasse a essas poucas-vergonhas.

Joana suspirou. Não devia ter deixado a vergasta tão à vista, mas a verdade é que nem sequer se lembrara. Alguma vez teria que ter esta conversa, mas não esperava tê-la tão cedo; e era muito difícil.

– O Rui não gosta de ser vergastado, mãe. Quem vai ser vergastada, sou eu.

Pronto, está dito, pensou; agora, seja o que Deus quiser.

Arminda voltou-se para ela, desvairada:

– Eu, nunca! Nunca, ouviste?! Nunca admitiria que o teu pai me pusesse um dedo em cima!

– Nem ele o faria, mãe.

– Lá nisso, tens tu razão! O fulano pode ser uma besta e um sacana, mas nunca me tocou!

– Ao passo que o Rui, que está longe de ser uma besta ou um sacana, é perfeitamente capaz de me dar meia dúzia de vergastadas no rabo.

A Arminda, no estado emocional em que estava, estas palavras da filha pareceram dum cinismo atroz. Remeteu-se a um espesso silêncio, que só foi quebrado quando a filha lhe disse que Rui lhe tinha proposto viverem juntos e ela aceitara.

– Ai sim? Felicidades – respondeu Arminda, secamente.

Joana suspirou e tentou conciliar a mãe.

– O pai nunca te bateu, e ainda bem. Tu nunca o admitirias. A mim, também não. E se calhar, algumas vezes, fez mal em não me dar umas palmadas.

Arminda voltou-lhe as costas e encolheu os ombros, recusando aplacar-se. As palmadas de que a filha precisara em criança, tinha-lhas dado ela; mas com uma criança é diferente, pensou.

– Até amanhã, mãe – disse Joana ao sair.

– Até amanhã.

Só muito depois é que ocorreu a Arminda que as palmadas que dera à filha, por justas e necessárias que fossem, tinham sido dadas a uma criança que não se podia defender, e que nunca tinha consentido nelas; mas que Joana, adulta, não só se sabia defender muito bem, como era competente para dar o seu consentimento. Nessa noite não dormiu, consumida por uma ira tumultuosa contra a filha, contra Rui e contra si própria.

Voltou a nunca se encontrar com Rui nas tertúlias semanais, mas desta vez não ocultou às suas amigas a animosidade que nutria contra ele e a filha: só lhes ocultou, por muito tempo, o motivo dessa animosidade. Rui, por seu lado, começou a aparecer com menos frequência, por vezes acompanhado de Joana, que algumas amigas da mãe conheciam desde criança. Nunca deram mostras de retribuir a amargura de Arminda; nunca revelaram o seu motivo, nem fingiram que não o conheciam; nunca deixaram que as outras senhoras pensassem que ela tinha ciúmes; e nunca permitiram que alguém lhe atribuísse as culpas pela desavença. Arminda não tinha razão, mas tinha as suas razões, que eles compreendiam; não tencionavam voltar atrás nas suas decisões pessoais – que não disseram quais eram – mas esperavam que um dia Arminda as aceitasse e se reconciliasse com eles. Em suma: a cabra que havia em Joana aflorava cada vez menos à superfície, e as amigas da mãe não sabiam se deviam atribuir isto a hipocrisia ou à influência de Rui.

Os meses seguintes foram dedicados, por parte de Joana, à minuciosa aprendizagem dos ritos e das regras da sua nova condição. Nesta aprendizagem encontrava, por vezes, prazeres novos e imprevistos; mas também humilhações que lhe seriam insuportáveis senão tivesse decidido, teimosamente, levar até às últimas consequências a experiência iniciada e o compromisso assumido. Descobrira, com surpresa, que o castigo físico a afectava pouco: não lhe dava prazer, mas só era difícil de suportar enquanto durava. Submeteu-se a ele desde o início e nunca recusou deixar-se manietar para o sofrer. Custou-lhe muito mais submeter-se a actos que a humilhavam ou embaraçavam, sobretudo perante terceiros. Também lhe custou muito a habituar-se a ordens ou a regras cujo propósito não compreendesse e às que lhe parecessem caprichosas ou fúteis. Rui nem sempre se explicava:

– Basta que seja este o meu prazer – dizia, por vezes, quando ela o questionava.

Joana começou a compreender que qualquer ordem ou regra, mesmo que aparentemente não tivesse sentido nem propósito, servia ao menos para lhe lembrar que estava sujeita ao prazer de Rui.

Mas o que mais lhe custou, de longe, a ponto de quase a fazer desistir, foi perder o direito de escolher as suas próprias roupas. Não é que Rui tivesse mau gosto, mas tinha um gosto diferente do dela; e ao transitar lentamente do seu estilo, que era o da profissional competente, para o estilo boémio construído por Rui, sentia que estava a perder identidade. Quando confessou isto a Rui, ele respondeu:

– Essa identidade que estás a perder é falsa; essa mulher não és tu.

Quando Joana ouviu isto, a cabra veio à superfície:

– E tu é que sabes quem eu sou, suponho?! A identidade que me deres é que é verdadeira?!

– Se não for verdadeira – respondeu Rui, placidamente – havemos ambos de nos dar conta disso, e bem depressa. Estaremos a tempo de construir outra. O que te posso garantir, é que essa outra não obedecerá a qualquer convenção pré-fabricada.

– E a tua vontade? E o teu prazer?

– Serão determinantes, é claro – disse Rui. – Não serás só o que já és, serás também o resultado da educação que eu te der.

Por muito brutais que estes propósitos parecessem a Joana, tinha que reconhecer que a primeira coisa que dissera a Rui – que dissera à mãe, para ser mais exacta – é que precisava de quem a educasse.

Este mesmo período foi, para Arminda, de lenta reconciliação com a filha. Por mais que o não quisesse ver, não podia deixar de notar que Joana andava melhor: mais serena, mais feliz, mais segura de si e menos agressiva. Mantinha a animosidade contra Rui: em parte por teimosia, em parte por ciúmes, em parte pela ideia de incesto que a relação, irracionalmente, lhe sugeria; mas também porque não conseguia suportar a ideia de ver a filha maltratada e humilhada às mãos de um homem de quem fora amiga e que sempre se lhe apresentara como gentil e inofensivo.

– E é mesmo gentil, mãe – dizia-lhe Joana. – Gentil, honesto e justo. Inofensivo não é, certamente: mas quanto a isto, foi ele que te iludiu, ou tu que te iludiste?

Foi muito a custo, e ao fim de muita insistência, que Arminda aceitou encontrar-se com a filha e com Rui em casa deste. Não se surpreendeu por Joana a receber descalça: numa das raras ocasiões em que, vencida pela curiosidade, sondara a filha sobre pormenores da sua vida, ela contara-lhe o que os pés nus simbolizavam e as ordens que tinha de nunca se calçar em casa. Recordava-se da tendência que Joana tivera, em criança e adolescente, de se descalçar sempre que podia; e de como ela tinha reprimido esta tendência, a ponto de a filha ter interiorizado a sua aversão a andar descalça e se ter habituado, como ela, a nunca sair da cama sem enfiar os pés nuns chinelos. Agora, ao obedecer a Rui, Joana estava finalmente a desobedecer à mãe; e esta não deixou de se aperceber deste facto.

Arminda cumprimentou Rui com alguma distância, distância esta que ele respeitou, embora deixasse claro que estava na disposição de a transpor. A casa pareceu-lhe decorada totalmente à homem: não notou a mão da filha em nenhum pormenor. Na sala, Rui convidou-a a sentar-se no sofá.

– Fica aqui com o Rui, mãe – disse Joana. – Eu vou buscar uma bebida.

Quando Joana regressou com três copos de vinho branco num tabuleiro, Arminda deu-se conta, de repente, que sempre tinha sido ela a servir a filha à mesa, e que mantivera este hábito mesmo depois de ela se tornar adulta. Rui agradeceu e fez sinal com os olhos a Joana que se sentasse no sofá ao lado da mãe, que ficaria assim entre os dois.

– Tenho uma notícia a dar-te, Arminda – disse Rui. – Vou casar com a Joana.

Arminda, que era cada vez mais contra o casamento como instituição e não desejava ver a filha mais presa a Rui do que já estava, não ficou contente com a notícia.

– E para que é que vão casar? – perguntou. – Não estão bem como estão? Para que querem vocês um papel passado?

– O papel não é importante – disse Rui. – O que é importante, para mim, é ter alguém a quem deixar o que é meu. Se eu morresse agora, iria tudo para os meus sobrinhos do Canadá, que mal conheço, e a Joana ficava a ver navios. Acho que tenho o direito de deixar as minhas coisas à pessoa de quem gosto.

Contra isto não havia argumentos, pensou Arminda. E a naturalidade com que Rui tinha falado em gostar de Joana… Sentiu um impulso de simpatia para com ele, mas logo o reprimiu: nunca fora interesseira e não queria sê-lo agora. Mas Joana não tinha nada o ar de se estar a sacrificar por dinheiro. Pelo contrário: ao olhar para ela, Arminda notou-lhe um ar resplandecente que a levou a perguntar, tomada duma súbita suspeita:

– Por acaso não estarás grávida?

Joana deu uma risada franca, como Arminda não lhe ouvira havia muito tempo:

– Grávida, mãe?! Não, está descansada. Por enquanto, o Rui e eu queremos ser só dois.

E se a filha estivesse grávida, que mal teria isso? Com um filho em casa, pensou Arminda, não se poderia entregar tão livremente a jogos eróticos que a mãe nem queria imaginar.

– Vê lá, não adies muito. Olha que já não és uma criança, e o tempo passa.

– Terei isso em conta – disse Rui.

Está a informar-me, pensou Arminda, que a decisão será dele. O impulso de simpatia que sentira começou a desvanecer-se. Mas também me está a informar que está disposto a dar à Joana o que ela sempre quis. O ex-marido de Joana nunca quisera filhos, e esta tinha sido uma das causas do divórcio.

– E vou deixar de trabalhar – disse Joana. – Já apresentei o meu pedido de exoneração.

Ah, não. Isto, não. Deitar fora anos de estudo e de formação profissional?! Abortar uma carreira que mal começara?! Ficar na dependência dum homem?!

– E o que és que vais fazer? Vais passar o resto da vida a estupidificar no meio dos tachos e das panelas?

– Ora, ora, mãe – disse Joana. – Sabes muito bem que nunca gostei do meu trabalho; e sabes que hoje em dia, no nosso país, para uma pessoa da minha idade, não há carreiras, só há empregos, e precários ainda por cima. Tu vais-te reformar quando fizeres sessenta anos; eu reformo-me aos trinta, é tudo. E não vou estupidificar, vou viajar com o Rui pelo mundo todo.

Durante o jantar, Arminda não parou de oscilar entre sentimentos contraditórios. Pedro, um homem trabalhador e pacato, que parecera ter todas as condições para fazer a filha feliz, fizera-a profundamente infeliz; Rui, que parecia ter tudo para a destruir e anular, fazia-a resplandecer; a filha parecia que estava a deitar fora tudo o que a geração de Arminda tinha conquistado para as mulheres, e no entanto dava mais a sensação de estar a ganhar terreno que a perdê-lo. Tudo isto era demasiado para ela assimilar rapidamente, mas teria que o assimilar sob pena de ficar isolada num mundo que deixara de compreender. Não é por aí que vou ficar velha, decidiu; e foi a partir desta decisão que começou a dar o benefício da dúvida a Rui e à filha.

Recomeçou a comparecer na tertúlia nos mesmos dias que Rui. As amigas foram convidadas para o casamento. A pouco e pouco, foi-lhes permitido que se apercebessem da natureza da relação entre Rui e Joana, e isto deu lugar a semanas de debate.

– Se é assim que eles querem, deixá-los – decidiu por fim a mais velha, que era madrinha de Joana.

É claro que não foram felizes para sempre. Tiveram doenças, tiveram conflitos, tiveram que enfrentar a velhice; dos dois filhos que Rui fez a Joana, um deu-lhes problemas muito graves durante a adolescência; e Rui, quando morreu, deixou na vida muitas pontas soltas que Joana teve de atar sozinha. Por outro lado, enquanto viveram, nunca se arrependeram de terem decidido ser senhor e escrava. Se morrer sem arrependimento é a única vitória possível do homem sobre a vida e sobre os deuses, a vida deles foi um êxito total.

LOVE STORY (2ª parte)

Quando Rui propôs a Joana que fizessem exames médicos para poderem ter sexo sem preservativo, ela viu nisto a vontade dele de dar estabilidade à sua relação. Ficou contente mas não quis mostrar este agrado; e a cabra que havia nela fê-la perguntar:

– Porquê? Queres fazer-me algum menino, é?

Rui ignorou o sarcasmo:

– Se alguma vez te quiser fazer um menino, informo-te primeiro. Para já, o que quero é criar as bases para que haja uma confiança absoluta entre nós.

Joana não tinha nada contra fazerem análises, pelo contrário; a reacção que tivera viera-lhe duma vontade súbita de espicaçar Rui, e o facto de ele não se deixar espicaçar desarmou-a. Ficou ela de marcar a data para as análises, de preferência numa clínica onde poucas pessoas os conhecessem, e passaram a outros assuntos.

Joana viu nesta conversa uma para abordar uma questão em que andava a pensar:

– Posso perguntar-te uma coisa? O que querias tu dizer quando disseste à minha mãe e às amigas dela que da tua porta para dentro, só admitias uma escrava?

– Queria dizer isso mesmo – respondeu Rui. – Deixei-as pensar que aquilo era retórica para as calar, é claro, mas a ti digo-te que lhes estava a dizer a verdade sobre a minha orientação sexual.

– Não dás nada essa ideia – disse Joana.

– Não? Tens a certeza?

Joana corou, o que a fez zangar-se consigo mesma. Lembrou-se que nos primeiros dias da sua relação com Rui, ainda antes de o ter seduzido, ele lhe tinha dado a entender que não gostava muito de a ver de calças; e desde então ela passara a usar saias ou vestidos com cada vez maior frequência. Era a primeira vez que mudava a sua maneira de vestir por causa da vontade de um homem, ademais tão vagamente expressa. Quando se zangava consigo, Joana descarregava sempre noutra pessoa, e foi o que fez agora:

– Claro que tenho a certeza. Não te estou a ver a mandar numa mulher. Pelo contrário: até me parece que a minha mãe tem razão quando diz que te deixas dominar facilmente.

Rui sorriu:

– E tem razão, a tua mãe. Deixo-me dominar com a maior das facilidades quando o que está em jogo não me interessa. Com os mais fracos que eu, sou muito dócil: é uma ironia que me diverte. Mas também te quero fazer uma pergunta: que querias tu dizer quando confessaste à tua mãe que eras uma cabra e precisavas de dono? Também te devo dizer que não dás nada essa ideia.

– Como, não dou? Ainda há bocado…

– Ah, sim – disse Rui. – Há bocado, com efeito. Só tenho duas perguntas: porque diabo queres tu deixar de ser uma cabra, admitindo que o és? E se é isso que queres, porque diabo não o fazes sozinha? Para que precisas tu de um dono?

– E tu, para que diabo precisas tu duma escrava?

– Eu nunca disse que precisava duma escrava. Já precisei, já tive, e agora estou bem como estou. O que eu disse foi que só aceitava uma mulher em minha casa na qualidade de escrava; mas estou perfeitamente disposto a aceitar a alternativa mais provável, que é ficar sozinho.

Joana calou-se, olhando para baixo com os punhos cerrados. Como uma miúda birrenta, pensou Rui. Por fim, sem deixar de olhar para baixo, respondeu:

– Preciso de dono porque estou farta de lidar com homens que não respeito. Tu és o primeiro a quem respeito desde há muito tempo.

– Sim – sorriu Rui. – Ainda agora foste muito respeitosa para mim.

– Não é disso que se trata – disse Joana. – Não é por ser ocasionalmente sarcástica que preciso de dono: é porque sou mesmo uma cabra, e estou farta disso.

Rui ficou silencioso por tanto tempo que Joana pensou se não teria dito alguma coisa que o fizesse zangar. Mas disse, por fim:

– Olha, Joana. Há muitas espécies de dono, e nada garante que eu seja o dono de que precisas. Se alguma vez levar uma escrava para minha casa, nada garante que possas ser tu: podemos ter noções muito diferentes do que é uma escrava.

– Não me estou a oferecer como tua escrava – disse Joana.

– Nem eu como teu dono – disse Rui. – Pelo menos, ainda não. E pode ser que eu queira uma escrava já feita, e não uma a quem ainda seja preciso educar.

– E eras tu que me educavas?

– Dizes que és uma cabra, não dizes? Então, para continuar com metáforas de animais, terias que passar de cabra a cadela: isto seria uma educação. Seria também um esforço enorme e muito demorado, e eu teria de estar disposto a fazê-lo.

– Então não estás disposto.

– Posso vir a estar, mas teria de contar com a tua colaboração. Já não tenho idade para perder tempo com meninas que pensam que querem ser escravas.

Joana voltou um pouco atrás na conversa:

– Cadela, dizes tu? O que quer dizer isso, cadela?

– Quer dizer que quando eu te fizer sinal tens que vir com o rabo a abanar, mesmo que uns minutos antes eu to tenha feito pôr entre as pernas.

– Isso não vai ser nada fácil – disse Joana. – Nada fácil, mesmo.

– Não vai ser? – disse Rui – Já estás a pressupor que vamos tentar? Tem calma: primeiro vamos ver se a nossa relação resulta noutros planos, ao mesmo tempo que vemos se aquilo em que estamos a pensar é viável. Para já, vou-te dar três palavras para meditar, e um dia destes peço-te a tua reacção.

– Que palavras?

– Servir, obedecer, sofrer – disse Rui.

– Se é isso, posso dizer-te já…

– Não podes nada – disse Rui. – Podes dizer-me quando eu te perguntar.

Fizeram os exames médicos, esperaram pelos resultados, voltaram a fazê-los e esperaram de novo. Joana recomeçou a tomar a pílula. Começaram a ter relações sexuais sem preservativo, o que implicava já um primeiro compromisso, que era a fidelidade recíproca. Não se falou, porém, em viverem juntos. Veio o divórcio de Rui e resolveu-se a partilha dos bens, o que lhe permitiu remodelar uma casa que herdara, um pouco degradada e muito desconfortável: não o fizera antes para que a ex-mulher não pudesse dizer que o tinha feito com dinheiros comuns. Joana acompanhou esta remodelação, que foi completa: demolição de paredes internas, rearranjo das divisões, isolamento térmico e acústico, caixilharias novas, janelas com vidros duplos ou triplos, climatização, transformação em jardim do matagal nas traseiras.

A obra mais difícil foi na cave, onde o chão foi rebaixado um metro para aumentar a altura. Rui manteve as paredes em pedra tosca, mas revestiu o tecto com material isolante e instalou aquecimento a partir do soalho.

Joana, vendo que Rui não media despesas, perguntou à mãe:

– Como é que o Rui pode fazer aquelas obras todas com a pensão dele? Com a reforma antecipada, não pode ter ficado a receber muito.

– O Rui não depende da pensão – respondeu Arminda. – Com o que herdou, pode viver muito bem dos rendimentos.

Isto explicava uma decisão de Rui que Joana tinha considerado excêntrica: a de organizar a vida em função das temporadas de ópera do S. Carlos, do Scala, do Met, do Teatro del Liceo em Barcelona, do Covent Garden, do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e de festivais como o de Glyndebourne e Bayreuth. Esta agenda incluía lugares tão remotos como Manaus ou Sidney e exigia bem mais que doze viagens por ano – o que chegava para não o deixar estupidificar. Comprava os bilhetes pela Internet com meses de antecedência, tal como as viagens e o alojamento.

– Compro sempre a dobrar – explicara. – Para o caso de ter companhia.

A companhia, embora ele não o dissesse expressamente, seria ela; se os afazeres profissionais não a deixassem ir, seria algum amigo ou amiga; ou em último caso iria ele sozinho, assumindo o prejuízo. Só uns dias depois desta conversa é que Joana notou que ele nem sequer tinha posto a hipótese de ela, podendo, não querer ir; e que ela própria também não a tinha levantado. Eis-me, portanto, a obedecer, concluiu. O curioso é que nunca era claro se o que ele lhe solicitava era uma sugestão, um pedido ou uma ordem; nem se a resposta dela era anuência ou obediência; mas era claro, em contrapartida, que Joana fazia tudo o que Rui queria como nunca fizera com ninguém. Servir, obedecer, sofrer, pensou. Sobre o obedecer, começava a estar elucidada; e, se quisesse ser honesta consigo própria, teria que reconhecer que também estava a aprender alguma coisa sobre o servir. Na cama, embora Rui lhe desse mais prazer do que qualquer outro homem lhe tinha dado, tornara-se óbvio desde o primeiro dia que o único prazer que contava era o dele; e ela, não só aceitara isto, como se sentira feliz por aceitá-lo. Restava o sofrer: sobre isto, Joana não fazia a menor ideia do que sentia, e não saberia responder se Rui a interrogasse.

Rui tinha erigido na cave duas grossas colunas de madeira, esculpidas com baixos-relevos eróticos.

– Mandei-as fazer na Índia – explicou.

E com efeito as imagens copiavam as dos templos hindus.

– Para que são as colunas? – perguntou Joana.

– Para amarrar uma mulher, por exemplo. Para a punir.

Joana deu uma volta lenta a cada uma das colunas, passando os dedos pela madeira esculpida.

– E pensas que serei eu essa mulher?

– Não faço ideia. Depende de alguma vez vivermos juntos ou não. Podes ser tu ou pode ser outra, mas continuo a dizer que o mais provável é não ser nenhuma. E enquanto andar contigo tenciono ser-te fiel.

Porque não lhe disse Joana, naquela altura que aquela mulher nunca seria ela? Porque se calou? Eis-me com o rabo entre as pernas, pensou; não demorou muito. Continuou a tocar aquelas imagens profusas de mulheres com os seios generosos e redondos e de homens com grandes falos erectos, unidos em todas as posições imagináveis; subiu as escadas com Rui; depois, ao caminharem em direcção ao carro, deixou que ele a abraçasse, e até se chegou mais a ele, sorrindo-lhe, e dizendo a si própria: e agora até estou com o rabo a abanar.

Esta visita à cave de Rui obrigou Joana a pensar na última das palavras que ele lhe tinha proposto para meditar: a palavra sofrer. Tratava-se aqui, como ela compreendia muito bem, de sofrimento físico provocado intencionalmente por outra pessoa. Nunca tivera, nem as tinha agora, fantasias sexuais com a ideia de ser punida fisicamente. Por outro lado, nunca partilhara a vertigem de pânico e revolta com que muitas mulheres encaravam a simples menção desta possibilidade. Teria medo, sim, da violência, do descontrolo; mas se estes elementos fossem retirados da equação, deixando isolada a dor física, verificava, com alguma surpresa, que era capaz de considerar friamente a hipótese de a sofrer.

Uma noite, quando estavam a fazer amor, Rui proibiu-a de ter orgsmo. Joana nunca tinha imaginado que esta ordem pudesse ser dada, e muito menos obedecida, mas deu por si a reprimir o orgasmo que se aproximava, e a conseguir evitá-lo por pouco. Surpreendente foi o prazer que teve nisto, que se prolongou pelo resto da noite e por todo o dia seguinte: uma excitação sexual surda e permanente, que nunca aumentava nem diminuía, nem exigia desenlace. Passou semanas a analisar este prazer inédito, mas não chegou a nenhuma conclusão. Suspeitava que Rui sabia deste prazer e o podia explicar, mas não conversaram sobre ele.

Num fim-de-semana em que tinham ido ao Teatro alla Scala para ver Cecilia Bartoli no papel de Cenerentola, sentaram-se numa esplanada da Galeria Vittorio Emanuele II a fim de comerem qualquer coisa antes do espectáculo. Era um dia quente de Junho, tinham ido com muita antecedência e o sol ainda ia alto. Foi este o momento que Rui escolheu para a inquirir, finalmente, sobre as três palavras que a convidara, meses antes, a considerar.

– Lembras-te delas?

– Lembro – disse Joana. – Servir, obedecer, sofrer.

– E…?

Joana virou a cara:

– Posso fazer isso por ti, se é o que tu queres.

– Já o tens feito – disse Rui.

Joana continuava com a cara virada para o lado.

– Ainda não sofri… – murmurou.

– Mas já me tens servido e obedecido, embora com  moderação. Diz-me: alguma vez tiveste prazer nisso?

Algumas vezes, mas Joana não o quis confessar. Baixou a cabeça, encolheu os ombros, e disse baixinho:

– Não sei…

– Não sabes. Hmmm… Diz-me outra coisa: daquelas três palavras-chave, qual achas que é a mais problemática?

– Não sei – respondeu Joana. – Ainda nenhuma foi problemática para mim.

Rui fez um gesto afirmativo com a cabeça, como que a reconhecer a pertinência da resposta.

– A mais problemática é obedecer – declarou. – É a que dá origem aos maiores mal-entendidos.

Joana sempre achara difícil obedecer a outra pessoa. Admirava-se da relativa facilidade com que obedecia a Rui, mas também era certo que ele nunca lhe pedira nada de difícil. O que ela não sabia era a que mal-entendidos se referia Rui.

– Pensa numa mulher – disse ele. – Numa mulher qualquer. Pensa que se trata duma pessoa com desejos muito fortes e fantasias sexuais muito definidas, mas com inibições e sentimentos de culpa que a impedem de as realizar. Imagina que ela começa a fantasiar com alguém que a obrigue a realizar esses desejos… alguém que lhe permita pensar que não tem culpa, que só está a obedecer, a ser obrigada… não lhe ocorre sequer que lhe possa ser ordenado algo que ela não deseje à partida. Supõe agora que esta mulher encontra um homem como eu, que espera dela obediência; e supõe que a certa altura ele lhe exige alguma coisa que ela nunca previu nem desejou, algo que para ela é doloroso, ou humilhante, ou embaraçoso, e não lhe dá qualquer prazer. E então recusa. Continua a fantasiar com situações em que é obrigada a obedecer, e tem-se sinceramente na conta de submissa; mas o homem pensa que ela está enganada e termina a relação. Qual dos dois achas tu que tem a melhor noção do que é obedecer?

– O homem, é claro – disse Joana.

E corou, porque Rui só uma vez lhe tinha pedido uma coisa que não correspondia a uma fantasia sua; e mesmo dessa vez tinha-lhe proporcionado um prazer cuja existência ela ignorava e que ainda agora não compreendia. Tanto quanto Joana sabia, a mulher hipotética descrita por Rui podia ser ela própria.

– Disseste que estavas disposta a obedecer-me se eu quisesse – disse Rui. – Vamos ver se é verdade: vai lá dentro aos lavabos e deita os sapatos para o lixo.

Joana estava arranjada para ir à ópera. O vestido, dum vermelho acobreado escuro, tinha sido comprado num costureiro da Via della Spiga, numa outra visita a Milão. Na bolsa de mão, minúscula, trazia os brincos, o anel e o colar que tencionava pôr quando estivesse em segurança no interior do teatro. Por ordem de Rui, não trazia calcinhas nem soutien: mas esta ordem não lhe custara a cumprir porque sabia que o vestido tinha sido concebido para ser usado sobre o corpo nu, coisa que ela nunca faria por sua própria iniciativa. Mas esta outra ordem era diferente: não a podia usar como pretexto para fazer o que queria e não ousava; pelo contrário, exigia dela que ousasse o que não queria. Tentou objectar:

– Mas… mas… vou descalça para a ópera?!

– Vais – respondeu Rui placidamente.

– E se não me deixarem entrar?

– Se houver algum problema, eu resolvo-o.

Para esta certeza, não tinha Joana resposta. Como último recurso, usou uma palavra que nunca lhe tinha sido proibida, mas que já lhe soava pouco lícita:

– Mas… mas porquê?!

Rui sorriu levemente antes de responder:

– Por duas razões: a primeira, como te disse, é testar a tua obediência. A segunda é que doravante os teus pés nus serão, aos teus olhos como aos meus, um sinal de humildade e respeito. Se isto não se harmonizar com o que sentes por mim, a minha recomendação é que recuses.

Joana não queria pensar, naquele momento, no que sentia por Rui. Sentia que estava numa encruzilhada: o que decidisse naquele momento determinaria muito do seu futuro, e do futuro dele.

Obedeceu. Na Galeria e na rua, ao atravessar para o teatro, sentiu-se embaraçada quase até à vertigem pelos olhares de curiosidade ou desdém que atraía. Ninguém lhe barrou a entrada no La Scala; e, depois de pôr as jóias, sentiu que atraía menos olhares dentro do teatro do que tinha atraído lá fora.

Isto talvez seja assim, pensou, porque esta gente que aqui está sabe muito bem ver quando um vestido é de luxo e uma jóia verdadeira.

LOVE STORY (1ª parte)

(Nota: este conto acabou por ocupar treze páginas no Word. Decidi por isso dividi-lo em três partes e publicá-lo aqui três dias seguidos. Espero que gostem.)

– O Rui lá acabou por deixar a mulher – disse Arminda à filha, enquanto punham a louça na máquina.

– Quem é o Rui? – perguntou Joana.

Arminda pôs uma pastilha de detergente na máquina e escolheu o programa.

– Ora, quem é o Rui. Já te falei tantas vezes dele: é o meu colega que costuma aparecer ao almoço… O Rui Tavares, de medicina interna… Aquilo com a mulher já andava muito tremido.

– Ah, já sei: na tertúlia que fazes com as tuas colegas reformadas. Já estou a ver a cena: o homem arranjou outra fulana e saiu de casa. Típico. Não tarda nada, o meu pai faz o mesmo.

– Tomara eu – disse Arminda. – Mas o Rui não saiu por causa de mulher nenhuma. Quer viver sozinho, numa casa em que ninguém mande a não ser ele. Alugou um apartamento, fez a mudança, começou a mobilá-lo, meteu os papéis para o divórcio, e só no fim disto tudo é que nos disse.

Ainda faltava limpar o lava-louças e o fogão, mas Joana deteve-se com o pano na mão para se virar para a mãe:

– E tens a certeza que não foi por causa de outra?

– Se fosse, nós sabíamos. A Carmo e a Lúcia fizeram uns telefonemas e ninguém sabe de nada.

– E não será larilas, esse teu Rui Tavares?

– Só se for, mas não me parece. Com o currículo dele… Mas agora não tem ninguém. O que é estranho é ter sido ele a deixar a mulher, e não ela a ele. Mas sabes como é, ele é que tem o dinheiro… Mas também não é homem para deixar a mulher a passar mal.

Joana, às vezes, não entendia a mãe: estava farta de ver casamentos falhados, a começar pelo seu próprio e pelo da filha; e quando via algum terminar, a primeira coisa que lhe ocorria era organizar outro.

– Já estou a perceber: tu e as tuas amigas estão mortinhas, é por fazer de casamenteiras. Deixem o homem em paz… O que ele quer deve ser sossego.

– É o que ele diz: que já tem idade para aguentar uns meses de celibato, e que tão cedo não quer ver mulher nenhuma dentro de portas. E quando a Carmo começou a insistir demais, ele calou-a logo: mulher, em casa dele, só se fosse uma escrava.

– Bem feito – disse Joana. – Aposto que vos embatucou a todas.

Deram as duas uma última volta à cozinha, até que Joana disse:

– Queres ver um filme que eu trouxe? É com o George Clooney…
O filme, afinal, não era grande coisa, e a certa altura nem a mãe, nem a filha lhe estavam a dar grande atenção. Joana, que tinha ficado a remoer as últimas palavras da mãe, disse por fim:

– Essa coisa da escrava…

– Que escrava? – perguntou Arminda.

– A que o teu amigo disse que deixava entrar em casa. Se calhar era ele o homem para mim: de algum tempo para cá tenho andar a pensar que o que eu preciso, é de dono.

Uma parvoíce destas não merecia resposta, mas Arminda não se conteve:

– Passaste-te de todo, ou quê? Primeiro, o Rui é quase da minha idade. Segundo, é do tipo sonhador e poético, não ia estar para te aturar. E terceiro, depois do que passaste com o Pedro, a última coisa em que devias estar a pensar era em ter dono. Trata mas é de acabar o doutoramento e faz como eu, não penses em homens.

O filme, afinal, começou a ser interessante, e o Clooney era um pedaço de homem. Ficaram as duas absorvidas, mãe e filha, até que começaram a rolar no ecrã os créditos finais. Depois de desligar a televisão e o aparelho de DVD e de ter arrumado o filme, Joana entrou na cozinha, onde a mãe tinha aquecido leite para as duas e aberto um pacote de bolachas.

– Ó mãe, tu sempre és muito ingénua. Conheces-me tão bem, sabes a cabra que eu sou, até para ti…

– Ai, lá isso, és.

– E acreditaste em tudo o que eu te disse sobre o Pedro. A maior parte das sacanices que eu te disse que ele me fez, fui eu que lhas fiz a ele, e tu nem desconfiaste: correste logo em socorro da filhinha.

– É, tens razão, sou uma grande parva – disse Arminda. – Mas se é assim, porque não voltas para ele?

– Isso queria ele. Parece que gosta de levar na cara, o desgraçado. Eu é que nem o quero ver à minha frente. Então o teu amigo chama-se Rui Tavares e é internista, não é?

Arminda pousou a caneca e virou-se para a filha, muito séria:

– É, mas agora sou eu que te digo que o deixes em paz.

Joana sorriu:

– Não tenhas medo, eu sei defender-me.

– Pois é, isso estou eu a ver – disse Arminda. – O meu medo não é por ti, é por ele. Se fizeres mal ao meu amigo, não penses que te perdoo.

Joana levantou-se e beijou a mãe:

– E eu quero lá o teu amigo para alguma coisa? Estou como tu: não quero pensar em homens. Olha, vou para casa. Até amanhã.

– Até amanhã – disse Arminda. – Tranca as portas do carro e guia com cuidado.

Arminda era pediatra a tempo inteiro no hospital de Santo António, o mesmo em que Rui trabalhava. Joana, que não tinha conseguido entrar para Medicina, tirara uma licenciatura enfermagem; mas o trabalho não lhe dava prazer, e por isso continuava a estudar: fizera um mestrado e estava agora a concluir, de forma competente mas sem grande entusiasmo, um doutoramento. O trabalho e a tese quase não lhe deixavam tempo para mais nada, mas quando podia ia a concertos de música clássica ou jazz. Já conhecia de vista os frequentadores mais assíduos da Casa da Música, mas nunca quis travar conhecimento com nenhum; até que um dia, numa das bibliotecas da Faculdade de Medicina, encontrou um deles com uma tarjeta identificadora na lapela: Rui Tavares, médico.

– Conheci o teu amigo Rui – disse mais tarde à mãe. – É muito simpático, e não me parece que seja quase da tua idade. Apresentei-me como tua filha e estivemos a conversar.

– Eu sei – disse Arminda. – Ele disse-me que tomou um café contigo. Diz que te achou doce e sensível, o trouxa. Eu só não o avisei que tivesse cuidado porque não lhe quis pôr ideias na cabeça, mas aviso-te a ti.

Joana não respondeu. Não podia levar a mal à mãe que chamasse trouxa a Rui; ela própria se admirava com o seu comportamento em relação a ele. A ironia estava em que a sua doçura não tinha sido fingida, pelo menos de forma consciente: tinha-se mostrado como realmente era – ou como realmente era junto dele – ou talvez, ainda, como gostaria de ser.

Nos meses que se seguiram, continuou a encontrar-se com Rui para tomar café ou ir a um espectáculo. Porque havia de ir cada um sozinho quando podiam ter companhia? O que sossegava Arminda quanto a estes encontros era que Rui os mencionava quando estava com ela e com as amigas. A filha também não fazia segredo deles; e continuou a não fazer segredo quando ganhou o hábito de ir tomar um copo com Rui depois de irem ao cinema ou a um concerto. Só começou a parecer a Arminda que as coisas estavam a ir longe demais quando estas saídas começaram a ser precedidas de jantares a dois. Rui já não dizia que não queria nada com mulheres e não lhe contava todos os encontros que tinha com Joana, nem esta todos os que tinha com ele; mas, ora por um, ora por outro, lá ia sabendo de quase todos, e se não lhos contavam todos era decerto porque já os tinham como adquiridos.

Uma noite, depois de terem ido à ópera no Coliseu, Joana sugeriu que tomassem um copo em casa dela. Usavam nas suas saídas, alternadamente, os respectivos automóveis, e desta vez tinha-lhe calhado levar o seu. Não chegaram a tomar o tal copo: assim que tiraram os casacos, ela abraçou-se a ele e beijou-o na boca, ao que ele respondeu com entusiasmo. Colada a ele, Joana sentiu-lhe o sexo a intumescer. Levara um vestido muito decotado nas costas, sem soutien, e, quando sentiu a mão dele a insinuar-se por baixo do tecido, afastou-se um pouco e disse:

– Comprei preservativos…

Rui ficou com ela a noite toda. Tinha pedido a aposentação antecipada e não tinha que ir trabalhar na manhã seguinte. Quando Joana se levantou para ir para o hospital de S. João, deixou-lhe um bilhete a dar-lhe um beijo, a dizer-lhe onde estavam as coisas para o pequeno-almoço e a pôr-lhe a casa à disposição. Deixava-lhe uma chave para ele dar quatro voltas na fechadura quando saísse.

À hora de almoço, ele telefonou-lhe para lhe mandar um beijo e marcar novo encontro. Não, nessa noite não podia ser, Joana ia estar de serviço. Na noite seguinte, sim. Jantar? Podia ser, e depois podiam ir ao cinema: havia um filme que ela estava com vontade de ver.

Ao passar por casa, ao fim da tarde, Joana tinha à sua espera, já metido numa jarra com água, um ramo de rosas vermelhas. Sentimentalismo idiota, pensou; este afinal é como os outros. Mas este princípio de decepção passou-lhe quando leu o bilhete: Pedi à florista que não tirasse os espinhos. Espero que gostes. E gosto, pensou Joana. Gosto muito dos espinhos.

– Seduzi o teu amigo – disse Joana à mãe. – Estou a dizer-te isto para que não penses que foi ele.

Arminda sentiu vontade de se atirar à filha e de lhe arranhar a cara toda. Ou então de fazer o mesmo a Rui, que não lhe tinha dito nada. Aquilo parecia-lhe uma espécie de incesto: não sentiria maior revolta se tivesse sido o marido a dormir com a filha. Mas isto era uma idiotice, e é claro que Rui nunca lho poderia dizer: como é que um homem diz a uma mulher, que conhece há anos, que foi para a cama com a filha dela?

Não compareceu ao almoço com as amigas no dia em que Rui costumava ir, nem na vez seguinte. Quando as amigas começaram a achar isto estranho, telefonou a Rui para o telefone fixo. Era verdade, disse ele. Então Arminda descarregou toda a sua raiva: se ele não achava que estava velho para seduzir meninas, se não tinha nojo de si próprio, se não achava que o que tinha feito era uma traição.

– Traição? – disse Rui. – Estás com ciúmes?

Isto fez com que Arminda se calasse e desligasse o telefone. Ciúmes? Como, ciúmes, se entre eles nunca tinha havido, sequer, um desejo fugidio? Rui era livre, Joana era livre, só ela, Arminda, é que não; e por mais que desprezasse o marido, nunca seria capaz de pagar traição com traição. E contudo, era obrigada a reconhecer que Rui não andava longe da verdade. Ciúmes, inveja ou orgulho ferido: a relação entre Rui e Joana depressa seria conhecida, e Arminda não sabia como havia de encarar os amigos quando eles soubessem.

Tanto ela como Rui passaram a comparecer de novo na sua tertúlia, mas, por um acordo tácito, nunca os dois ao mesmo tempo. Quando as amigas lhes perguntavam o que tinha havido entre eles, ambos respondiam que não tinha havido nada; se não se encontravam ao almoço, era porque não calhava.

Joana, por sua vez, lidava com a mãe como se nada se tivesse passado. Não dava pormenores da sua relação com Rui, mas também não evitava o assunto. Às vezes, se viesse a propósito, dizia-lhe que nessa noite dormia em casa dele; e esta naturalidade, que ao princípio era sal esfregado na ferida, acabou por levar Arminda a aceitar como facto consumado a relação entre o amigo e a filha. Foi ela que informou dela as amigas, antes que soubessem por outras vias, e por fim recomeçou a comparecer na tertúlia ao mesmo tempo que Rui. Isto provocou neles e no grupo um certo constrangimento; mas este, à medida que os dois foram aprendendo a tratar-se em público como uma espécie de sogra e genro, e as dinâmicas do grupo se estabilizaram num novo equilíbrio, acabou por se dissipar: a relação entre Rui e Joana estava, por assim dizer, oficializada.

Romance (Excerto # 22)

Cap. 34: TITÂNIO

Entretanto havia a viagem ao Brasil, documentos a regularizar, dossiers médicos a organizar, contactos a estabelecer… Os piercings de Teresa iam ser aplicados por um cirurgião, porque os aros de titânio não podiam ser trabalhados no local. Os furos tinham que ter à partida o diâmetro e a curvatura correctos, e o acesso a eles exigia incisões, de modo a que os aros, completos com os ilhós em que deslizariam, entrassem de lado; e por fim havia que suturar estas incisões. Este procedimento exigia uma anestesia local e era muito mais complicado que o que se pratica nos ateliers, mas a cicatrização, devido à precisão dos cortes, ia demorar menos que os dois meses habituais.

O voo para São Paulo demorou quase dez horas, e a transferência para a clínica mais uma. Na mesma noite em que chegou, Teresa ficou internada: o dia seguinte seria dedicado a exames e análises, e no terceiro seriam implantados os anéis. A própria clínica, situada ao lado do parque Ibirapuera, tratou do alojamento de Raul num hotel próximo. Assim, pôde estar presente na primeira consulta com o cirurgião, que já tinha em seu poder um modelo dos quatro piercings que ia colocar. Cada peça consistia em dois anéis que entrariam parcialmente na carne de Teresa. Estes anéis, distantes um do outro por cerca de um centímetro, estavam unidos por uma barra que ficaria de fora; desta barra saía outra, na ponta da qual havia mais um aro. Esta barra engatava, por meio de ranhuras, na que lhe correspondia no lábio oposto, de modo a que os lábios ficassem apertados naquele ponto e os aros da ponta ficassem justapostos sobre a longitude da vulva.

– Reparem os senhores que o engate não é perfeito – disse o cirurgião. – Há um pouco de folga. Isto é propositado: os engates não podem ter arestas vivas, para não machucar; e têm que engatar sem repuxar os tecidos. Depois de os aros de cima engatarem… assim… será possível segurá-los com um cadeado. A senhora deseja piercings de cada lado do clítoris e da vagina, não é verdade?

– Sim – disse Raul – mas a uretra tem que ficar livre…

– Vou dizer-lhe a verdade: com os dois piercings apertados no lugar, a uretra ficará um pouquinho constrangida. Não terá dificuldade em urinar, mas vai ter que fazer uma higiene mais cuidada…

– Sim, nós sabemos.

– A cicatrização não vai demorar tempo demais, porque a incisão vai ser muito exacta e a sutura também. Mas precisa ter alguns cuidados. Quero falar neles aos dois para ter certeza que entendem.

– Faça favor – disse Raul.

– Hoje, a senhora irá para a o seu quarto e fará exames. Se tudo estiver certo, será operada amanhã de manhã. É uma operação muito simples, com anestesia local. Algumas suturas serão bio-solúveis, outras terão que ser removidas à medida que não sejam necessárias. Logo que possível, a senhora deverá mover um pouco os implantes para eles não colarem aos tecidos, mas sempre com muito cuidado. Não tente engatar os anéis exteriores antes de passarem três semanas. Não poderá fazer sexo vaginal antes de seis semanas, e espere oito semanas antes de usar os cadeados.

– E sexo anal? – perguntou Teresa.

– Pode fazer sexo anal passadas quatro semanas, mas tem que fazer logo a seguir uma higiene muito completa de toda essa parte de seu corpo, usando um bom anti-séptico. Agora a enfermeira vai levar a senhora ao seu quarto. O senhor poderá vir de visita a qualquer hora entre as dez da manhã e as dez da noite. Se tudo correr como esperamos, ficará internada três dias: hoje para preparação e exames, amanhã para a operação e mais um para tratamento pós-operatório. No último dia, o senhor também deverá estar presente para a enfermeira ensinar alguns cuidados que deve ter. Depois, a senhora deve descansar, não pode fazer muito esforço; pena que não possa visitar nossa cidade como ela merece.

– E pompoar, quando posso fazer? – disse Teresa.

– Exercícios de Kegel? Pode fazer daqui a quatro ou cinco dias: até ajuda a recuperar. Mas ao princípio faça com muito cuidado, ouviu? Se lhe doer, nem que seja um pouquinho, pare logo.

Depois disto, Raul foi posto delicadamente na rua. Um funcionário da clínica conduziu-o de automóvel ao hotel. No dia seguinte só o deixaram visitar Teresa de tarde: encontrou-a um pouco combalida e impaciente por não a deixarem pôr-se de pé. Para a entreter, Raul descreveu-lhe o hotel, o passeio que tinha dado de manhã, alguns factos que tinha apurado sobre a clínica:

– Sabes que como teu acompanhante tenho direito a alguns tratamentos de graça? Limpeza facial, drenagem linfática… tenho que ver melhor o catálogo.

Teresa fez-lhe sinal de que lhe queria falar ao ouvido, e quando ele se inclinou disse-lhe:

– Só não os deixes modificar-te o pénis, gosto dele exactamente como é.

E ao sentir-se sacudida de riso acrescentou, como se a culpa fosse dele:

– Ai, não me faças rir, que me dói…

Raul deu o suspiro os homens que dão há milénios quando confrontados com a injustiça feminina, ajeitou-lhe a inclinação da cama para ela ver melhor a televisão, beijou-lhe os lábios e perguntou:

– Estás bem assim?

– Estou bem, não te preocupes. Que livros são esses?

– Alguns são para ficar aqui, os outros para eu levar para o hotel.

– Não vais sair à noite?

– Não é preciso. Ligo para a recepção e eles mandam-me uma moça da cor e feitio que eu quiser.

– Para te acender o charuto e servir o whisky, não é?

– Pois claro. Para que mais havia de ser?

– Então manda-a passar por aqui para eu a ensinar. Não quero o meu senhor mal servido…

Riram-se os dois e ficaram algum tempo de mão dada, um pouco enleados, sem saberem bem o que dizer um ao outro. Por fim, foi ela que o mandou embora:

– Anda, vai. Também precisas de descansar. Eu fico bem, daqui a pouco apago a luz.

O dia seguinte foi passado na clínica, onde Teresa já podia passear uns minutos nos jardins.

– Esta coisa ainda me incomoda – disse ela no fim de um destes passeios.

– Dói-te?

– Não, quase não me dói. Mas sinto que são objectos estranhos… Hei-de habituar-me, está claro.

No terceiro dia Teresa teve alta. Antes de sair, uma enfermeira levou-a com Raul a um quarto mobilado como o duma casa particular, com um quarto de banho normal, e ensinou-lhes alguns procedimentos que teriam que seguir no futuro: muita água, muito sabonete, muita água oxigenada, muita circulação de ar, e tudo sempre o mais seco possível.

– Melhor andar de saia sem calcinha, moça… Não vai ter vergonha, vai?

Agora, havia que ocupar os dias. Teresa achava frustrante ter forças para andar e não o poder fazer tanto quanto queria. Os passeios no parque eram dados em passo lento, o que, se por um lado os fazia durar mais, por outro impacientava Teresa, que sempre gostara de caminhar depressa. Raul apontava-lhe os animais e as plantas, que naquele início de primavera brasileira animavam o parque com sons e com cores: assim conseguia que ela se detivesse por momentos e não forçasse demais o corpo.

Na primeira noite que passaram juntos, Teresa decidiu que era tempo de voltar a assumir os seus deveres de escrava: depois dos beijos profusos e das demoradas carícias do reencontro, ajoelhou-se à frente dele, num gesto tão gracioso que dava a impressão de já nada lhe tolher os movimentos, e pediu:

– Meu senhor, não queres gozar na minha boca? Há tanto tempo que não te sirvo…

Raul olhou-a nos olhos:

– Lembras-te de como eu te ensinei, minha escrava?

– Como não havia de me lembrar, meu senhor? Vou-te mostrar…

Raul desapareceu no quarto de banho da suite – aqui dizia-se banheiro – para reaparecer cheirando a sabonete e vestido com o pijama que ela lhe tinha oferecido. Sentou-se na poltrona e ordenou:

– Anda cá, escrava, e abre-me o pijama.

Quando Teresa obedeceu, compreendeu a razão de ele ter vestido o pijama: estava completamente depilado na púbis e na zona genital, e tinha querido fazer-lhe uma surpresa.

– Ficas bonito, meu senhor – disse Teresa.

Gostava, com efeito, de o ver assim. Agradava-lhe que ele não tivesse depilado as pernas nem as coxas, particularmente junto às virilhas, onde a pelugem é mais sedosa. Só depilara o escroto, a púbis e o ventre até ao umbigo. O pénis, assim, parecia maior, e viam-se melhor os testículos.

– Quando voltar a servir-me de ti pela vagina – explicou Raul – não quero que os meus pelos se enredem nos teus piercings. Comecei a fazer depilação a laser aqui na clínica. Em Portugal, continuo.

Teresa sabia que o seu prazer não contava, mas não se pôde impedir de sentir que agora era mais agradável metê-lo na boca, sem ter que cuspir pelos. Começou a chupá-lo como ele lhe tinha ensinado, com ternura e respeito; mas desta vez experimentou uma técnica que tinha inventado: virar a cabeça para os lados de modo a poder acariciar-lhe a glande com a mucosa macia do interior das bochechas. De que ele gostou, não teve dúvidas. Mas também ela tinha uma necessidade o satisfazer, uma necessidade que não era física mas emocional: renovar a dádiva de si que estava no centro do seu amor por ele. Por isso se dedicou tanto, por isso apressou a carícia até sentir a boca inundada de esperma.

Limpou-o com a boca e com a língua: outra vantagem de ele se ter depilado era que esta limpeza era agora muito mais fácil. Depois sentou-se no chão, apoiou a cabeça nos joelhos dele e disse:

– É estranho como chupar-te me faz sentir propriedade tua mais do que qualquer outra coisa… e já estava a precisar de me lembrar, meu amor. Nunca deixes de usar a minha boca.

– Não, minha querida – respondeu Raul. – Também eu te sinto mais escrava quando te ajoelhas para me servir, e não quero nunca prescindir de te possuir assim…

Dois dias depois de sair do hospital, Teresa foi com Raul ao consultório do cirurgião. O médico ficou tão satisfeito com a evolução dela que chamou Raul para junto de si:

– Venha, venha ver… Olhe aqui, no interior dos anéis, como os tecidos estão a cicatrizar… Se continuarem assim, as cicatrizes vão ficar quase invisíveis, e os aros vão ficar bem firmes… É bom sua mulher ter os labia majora tão grandes e resistentes. Mas não se esqueçam que a cicatrização completa demora muito mais que a cicatrização visível… É importante que respeitem os prazos que eu lhes dei.

– Nós sabemos, doutor – disse Teresa. – Vamos respeitá-los à risca…

Teresa não se permitia a impertinência de andar calçada no hotel: considerava que este era, de momento, a casa de Raul, onde tinha de mostrar humildade e respeito; mas nos jardins ele mandou que ela usasse havaianas: um passo em falso, provocado por qualquer pedra no caminho, seria perigoso.

Nos dias seguintes, Teresa tirou os pontos. Onde os anéis de titânio lhe entravam na carne, a pele estava muito fina e rosada, mas não lhe doía nem apresentava sinais de inflamação. Um automóvel alugado com motorista permitiu-lhe visitar com Raul alguns centros de interesse e percorrer duma ponta à outra a enorme Avenida Paulista. Uma noite, aproveitaram a proximidade do Auditório Ibirapuera para irem ouvir a Sinfonia Fantástica de Berlioz: o edifício de Niemeyer impressionou-os, e a música, furiosamente romântica, harmonizava-se com o seu estado de espírito. Passavam, porém, tanto tempo no hotel que Raul ganhou o hábito de se servir de Teresa pela boca mais vezes por dia do que seria de esperar de um homem com quase cinquenta anos. Teresa, que já tinha aprendido muito sobre as preferências dele nesta área, teve ocasião de aprender ainda mais, agora que nada se interpunha entre ela e a pele dele: a infinita leveza com que era preciso beijá-lo ou tocá-lo no escroto, o prazer que era possível dar-lhe passando-lhe a língua no períneo, a maior profundidade a que era agora possível engoli-lo e a necessidade de reaprender a não se engasgar … A ideia de se dedicar durante várias semanas exclusivamente a chupá-lo seduzia-a particularmente, a ponto de nem lhe interessar muito que ele a acariciasse. Tinha-lhe dito um dia que por vezes fantasiava não ser para ele mais do que uma cona; pois agora tinha a oportunidade de não ser mais do que uma boca; durante alguns dias concentrou-se em aproveitá-la e não se importou de andar com os maxilares sempre doridos. Agora que fazia cada vez mais da boca uma vagina de substituição, Teresa achava-se cada vez menos no direito de falar. Sem que ele lho ordenasse, ganhou o hábito de pedir autorização antes de iniciar qualquer conversa:

– Posso falar, meu senhor?

Algumas vezes teve a surpresa de o ouvir dizer não, a ele que tanto gostava de a ouvir; mas estes silêncios impostos eram preenchidos, por um lado, por uma tensão erótica que a fazia cantar por dentro, e por outro por toda uma linguagem de gestos e olhares que era quase uma telepatia. Mas este período mágico tinha que terminar. No dia anterior ao do regresso a Portugal, Teresa, meio morta de vergonha, telefonou para a recepção a perguntar se lhe podiam indicar uma sex-shop que não fosse longe dali. Deram-lhe a indicação pedida, mas informaram-na que o próprio hotel poderia mandar entregar no quarto qualquer artigo mais corrente que a senhora desejasse. Era apenas um lubrificante, disse Teresa. Se era só isso, não precisava de ir à sex-shop: quando voltasse ao quarto, depois de a faxineira o arrumar, encontraria o que desejava no banheiro. E foi assim que Teresa deu a Raul a última abertura do seu corpo que lhe faltava utilizar. Bastou-lhe deitar-se nua sobre a cama, colocar uma bisnaga de lubrificante sobre a mesinha de cabeceira de modo a que ele reparasse, e pôr-se de bruços à espera.

– Queres dar-me o teu cuzinho? – perguntou Raul.

– Não te posso dar o que não é meu – respondeu Teresa. – O meu cu sempre foi teu, mesmo que nunca te tenhas querido servir dele. Mas, se não é ousadia uma escrava exprimir um desejo, gostava que te servisses dele hoje.

Raul deu uma risada:

– É verdade, já é meu – observou. – E é verdade, és uma escrava muito ousada.

– Aqui dizem abusada – interrompeu Teresa.

– Ousada ou abusada, vou-te fazer a vontade: prepara-te, porque não vou ter dó de ti.

Despiu o roupão e começou a acariciar as nádegas de Teresa, que se levantavam de encontro à mão dele como se tivessem vontade própria. A esta carícia seguiram-se duas ou três leves palmadas, que lhe rosaram a pele e a fizeram respirar um pouco mais fundo. Quando a viu ficar um pouco excitada, Raul pôs um pouco de gel nos dedos e começou a massajá-la em volta da abertura de trás, aproximando-se cada vez mais do centro e acabando por lhe introduzir o dedo indicador, primeiro só até à primeira articulação, depois até à segunda, por fim até à base.

Quando lhe encostou ao ânus a ponta do pénis, que também tinha lubrificado cuidadosamente, disse-lhe que fizesse força para fora, como se estivesse a fazer sair qualquer coisa e não a deixá-la entrar. Teresa sorriu: este truque, conhecia-o ela dos seus anos de puta. Sempre tinha tentado evitar o sexo anal, mas nem sempre isto dependera da sua vontade. Mas agradou-lhe que Raul a tratasse como a uma jovem inocente; e de facto, desde a última vez que tinha sido possuída por trás, tinham-se passado tantos anos que o rabo se apertara de novo. Apesar Raul de ter tido todo o cuidado em lubrificá-la e em lubrificar-se, teve muito menos ao penetrá-la. Isto agradou a Teresa: sexo por trás é para doer, pensou; e embora gemesse de dor, virou a cara para e entreabriu os lábios num convite a que ele a beijasse.

O voo de volta foi mais difícil para Teresa do que tinha sido o de ida. Raul tinha comprado lugares em primeira classe, para que Teresa, sentada sobre os seus piercings, tivesse mais amplitude para ajustar a sua posição no assento – necessidade esta que ter o rabo dorido tornava agora mais premente. Reservara um lugar junto à coxia, para que ela se pudesse pôr de pé algumas vezes. Mas tratava-se dum voo nocturno, e Teresa também dormiu não podia passar o tempo todo a passear pela coxia.

Chegaram a Pedras Rubras, estremunhados, às nove da manhã. À sua espera estava Milena, muito engomada no seu uniforme de empregada, e com ela Ana e Miguel, que os acompanharam a casa. Depois do pequeno-almoço, Raul mandou Teresa deitar-se no sofá, levantou-lhe a saia e examinou-lhe o sexo: nos pontos de inserção dos piercings, a carne estava um pouco inchada e avermelhada. Depois do duche, que tomaram juntos, Raul fez questão que ela se secasse bem antes de ele próprio aplicar a pomada desinfectante e anti-inflamatória que o médico tinha receitado. Passaram o resto da manhã na cama, a descansar e a conversar. Almoçaram em casa, servidos por Milena, que pôs sobre a cadeira de Teresa a almofada mais macia que havia em casa; e de tarde passearam um pouco a pé: foram até à Rotunda da Boavista, à Casa da Música, tiraram fotografias um ao outro como um par de namorados e pediram a um casal de turistas que os fotografasse juntos.

– Espere, deixe-me tirar os sapatos! – disse Teresa.

Enquanto a senhora, já de cabelos brancos, lhe segurava os sapatos para que não ficassem caídos no chão a estragar a foto, o marido tirava-lhes o retrato, sorrindo com indulgência da veleidade romântica de Teresa.

De novo em casa, Raul foi para o escritório e mandou Teresa de novo para a cama: queria-a de pé ou deitada; mas sentada, o mínimo possível. À noite não quis possuí-la por trás: era sua intenção fazê-lo raramente, de modo a que a abertura se mantivesse sempre apertada. Ele também acha que por trás é para doer, pensou Teresa; e pôs no beijo que deu a Raul um pequeno extra de ternura.

Romance (Excerto # 20)

Cap. 32: DISCÍPULOS

[ … ]

Entre as colegas de Teresa na dança havia uma jovem que também era colega dela no pompoar: chamava-se Ana e ainda não tinha vinte anos. Foi esta jovem que uma tarde convidou Teresa para lanchar. Quando Teresa lhe disse que não podia aceitar este convite sem autorização do namorado, Ana não mostrou repulsa nem surpresa, antes deleite:

– Então pede-lhe, por favor!

Mal tinham tido tempo de mandar vir as meias de leite e as torradas quando Ana, impaciente, começou a conversa:

– Quer dizer que nunca fazes nada sem autorização do teu namorado?

Teresa sorriu.

– É claro que faço muitas coisas por minha iniciativa, nem ele quereria que fosse doutra maneira. Mas uma das coisas em que combinámos que eu não teria qualquer liberdade foi o uso do meu tempo: por isso é que tive que lhe telefonar antes de aceitar lanchar contigo.

Ana bebeu um pouco de café com leite antes de se decidir a dizer:

– Acho isso tão bonito… Pensava que não havia mais ninguém como eu e o Miguel.

– O Miguel é o teu namorado? – perguntou Teresa. – E costumas obedecer-lhe?

– Adoro obedecer-lhe, e ele adora que eu lhe obedeça… Nunca contámos a nenhum dos nossos amigos, tivemos medo que nos gozassem ou que se afastassem de nós. Posso contar-te um segredo? Ele às vezes bate-me com uma vergasta, e eu deixo… Não ficas a pensar mal de nós?

– Claro que não, minha querida – respondeu Teresa. – O Raul também me vergasta algumas vezes, e castiga-me fisicamente doutras maneiras. Eu não tenho nenhum prazer em ser castigada, mas tenho um prazer enorme em poder sê-lo. Compreendes isto?

– Não sei, acho que nesse ponto somos um pouco diferentes. Eu tenho prazer em ser vergastada, pelo menos pelo Miguel. Com outro homem, nunca experimentei. Mas pensando bem, agora que falamos nisso, acho que o meu prazer maior é o direito que ele tem de me vergastar. É, é isso. Nisso somos parecidas, tu e eu.

– E o Miguel, gosta de te castigar?

– Acho que gosta um bocadinho, como eu, mas agora começo a pensar se o prazer maior dele não será ter esse direito… E o teu namorado? Também gosta de te fazer doer?

– Talvez seja como o teu: gosta, mas isso para ele não é o principal.

Ana calou-se de novo, a ganhar coragem, e disse finalmente:

– O nosso maior problema, meu e do Miguel, é não sabermos como se fazem as coisas.

Teresa franziu o sobrolho, intrigada:

– Como se faz o quê?

Ana pareceu um pouco atrapalhada:

– Não sei… Deve haver regras… Sabe, o que se faz na cena BDSM… Não conhecemos ninguém nesse meio a não ser a si, e a Teresa não corresponde nada às imagens que vemos nos media… De modo que não sabemos as regras, nem a maneira correcta de vestir… Espero que isto não fosse um abuso, mas tenho falado de si ao Miguel e ele diz que um dia gostava de a conhecer e ao seu namorado.

Ana trazia uma saia comprida de renda preta sobre outra opaca e mais curta. Tinha uma T-shirt preta sem mangas, muito decotada, e sobre esta, uma blusa preta transparente de mangas compridas. Não trazia as unhas nem os lábios pintados de preto, nem piercings visíveis, nem a profusa joalharia de prata, própria do visual gótico: apenas uns brincos de prata compridos que lhe chegavam aos ombros. Nos pés trazia umas sandálias pretas de tiras, com uns saltos altíssimos.

– Diz-me uma coisa, Ana – perguntou Teresa. – Esse teu modo de vestir corresponde mais ao teu gosto ou ao gosto do Miguel?

– Não sei bem… Devia ser ao do dele, não devia? Mas acho que é ao dos dois. Ou então talvez seja mais uma questão do que achamos apropriado ao nosso lifestyle.

Teresa sorriu um pouco da expressão em inglês:

– E que maneira de vestir acham vocês apropriada para o vosso lifestyle?

– De preto, acho eu… Mas ele, não é só por causa das regras que se veste de preto, é porque gosta mesmo. Do que ele não gosta é de usar adornos, nem enfeites, nem penteados esquisitos. É roupa preta, barba feita, cabelo à escovinha, e já está. É o estilo dele.

– Posso dar-te um conselho? – perguntou Teresa.

– Até agradeço.

– Não te vistas para nenhum lifestyle. Não há lifestyles. Quer dizer, havê-los, há, mas são pura diversão, não passam disso. Os estilos de vida, somos nós que os fazemos. Não há uma maneira apropriada para mulheres como nós se vestirem. Veste-te como ele gostar de te ver, nem que seja de cor-de-rosa bebé, ou de vestidinho às pintinhas. Se tu também gostares, tanto melhor, mas isso não é importante: o importante é o que ele gosta. Outra coisa, e esta é mesmo importante: não há regras. Ou melhor, só há uma regra, que é respeitar o outro. Se sentires que o Miguel não te ama ou não te respeita, larga-o. Mas se ele te ama e respeita, então não há regras. Isto é mesmo muito importante. Conta-lhe esta conversa e vê o que ele pensa.

Ana ficou pensativa.

– Posso falar-lhe de si e do seu namorado? – perguntou.

– Não precisas de dizer meu namorado – disse Teresa. – Podes dizer meu dono ou meu senhor, que eu não me importo. E claro que podes falar de nós ao Miguel.

– Obrigada – disse Ana, à despedida. – Ele vai gostar de ter tudo isto em que pensar. E eu também vou ter que pensar, especialmente nessa questão do respeito.

Quando Teresa contou a Raul esta conversa, ele sugeriu-lhe que convidasse Ana e Miguel para lanchar no Majestic no fim da semana seguinte. No dia do encontro, Agosto estava a meio, e o tempo estava muito quente. Raul e Teresa chegaram propositadamente atrasados para que Ana e Miguel os vissem chegar: Raul de jeans e T-shirt pretos e cabelo curto, num estilo muito semelhante ao de Miguel; Teresa compareceu descalça, sem calcinhas e sem soutien: sem nada sobre o corpo que não fosse um vestido comprido em tons de rosa, lilás e branco, que deixava adivinhar à transparência os mamilos escuros, e só não deixava ver o triângulo da púbis por esta se encontrar depilada. Ana estava toda de preto: top atado nas costas com atilhos, mini-saia justa, meias de rede e sandálias de salto muito alto. Via-se que tinha feito um esforço especial para exprimir a sua condição de namorada submissa. Depois das apresentações, o diálogo entre os dois homens consistiu em pouco mais que uma troca de ideias gerais. Já Ana quis saber tudo, particularmente o significado dos pés nus de Teresa, se ela costumava andar assim na rua, que distância tinha percorrido desta vez, se lhe tinha custado muito.

– Não ando muitas vezes descalça na rua – disse Teresa. – O Raul só me costuma dar essa ordem em ocasiões especiais, como hoje. Em casa, sim, tenho que andar sempre descalça.

– Em casa, e na Fundação de Serralves – interrompeu Raul.

– Em Serralves?! – exclamou Ana – Porquê?!

– Por capricho meu – explicou Raul. – Mas também porque me seduz a variedade de texturas no chão da casa e nos jardins. E além disso há qualquer coisa naquele ambiente que parece que o exige.

– É verdade – disse Miguel. – Nunca me tinha ocorrido, mas é verdade.

– Mas não te custou vir descalça até aqui? – insistiu Ana.

– Nem por isso – respondeu Teresa. – Deixámos o carro no parque dos Poveiros: lá dentro o chão está fresco. O passeio cá fora é branco, não aquece muito. Só me podia ter queimado um bocado ao atravessar a rua, que é de alcatrão preto e fica muito quente… o truque é aproveitar as faixas brancas da passadeira, que não queimam. Aqui na Rua de Santa Catarina o chão é claro, não aquece muito. Com as texturas é mais difícil, algumas são muito ásperas, é preciso estar habituada… a única coisa a que nunca me habituei é o olhar das pessoas. Ainda fico embaraçada…

Miguel olhou para ela estreitando os olhos, e a seguir para Ana.

– Pois a mim, o que me daria prazer – disse ele – seria precisamente ver a Ana assim embaraçada.

Raul olhou atentamente para os dois. Ana estava vermelha e olhava para as mãos, mas um leve sorriso bailava-lhe nos lábios.

– Olhe, Miguel, não sei quais são os termos do seu compromisso com a sua namorada – disse Raul. – Não sei se o seu compromisso o autoriza a fazer-lhe este tipo de exigências, nem se a obriga a obedecer-lhes…

– Autoriza-o, sim, e a mim obriga-me – interrompeu Ana. – O Miguel é que talvez ainda não se tenha apercebido. São coisas de homem, de cavalheiro…

Foi a vez de Miguel enrubescer; e Teresa riu-se ao ver que Raul também tinha corado.

– Um cavalheiro um bocado obtuso, pelos vistos – respondeu Miguel. – Andei a ver a net e os fóruns e convenci-me que numa relação como a nossa havia convenções a respeitar: roupa preta, cabedal, todas as mulheres de saltos altos… A Ana e eu nunca fomos a um clube sadomasoquista: mas se a Ana fosse vestida, por exemplo, como a Teresa está agora, deixavam-nos entrar?

– Depende do clube – disse Raul. – Numa grande cidade europeia pode haver clubes centrados em certos fetiches, e aí teriam que se conformar a eles; mas aqui no Porto não temos dimensão para essas especializações. Num clube daqui, todos estariam a par do que esta indumentária da Teresa significa.

Miguel ficou calado por alguns instantes.

– Confesso que uma submissa descalça me diz mais que uma de saltos altos – disse por fim. – Isto não é de agora, sempre foi assim, mas parecia-me que isso não era… como hei-de dizer… ortodoxo…

– Não há regras nem ortodoxias – disse Raul. – Só a vontade do dono conta.

– Mas continuo a gostar de ver a Ana de preto, e de minissaia justa.

– Não há regras – repetiu Raul. – Se o Miguel tem esse direito sobre a Ana…

– Claro que tem – disse Ana em tom decidido.

Miguel olhou para ela como se a estivesse a ver pela primeira vez e quisesse fixar-lhe as feições.

– Claro que tenho… – murmurou para si mesmo.

E em voz alta disse:

– Ana, o que vais fazer agora é isto: vais lá dentro aos lavabos, deitas no caixote do lixo os sapatos e as meias, e voltas para aqui. No caminho para cá, passas pelo balcão e pedes um fino para esta mesa. Ou dois, se o Raul também quiser.

– Com todo o gosto – disse Raul.

Ana fez menção de objectar, mas, antes que tivesse tempo de o fazer, o namorado acrescentou:

– Ah, e já agora deixas lá ficar também as calcinhas.

Ana ficou um momento sentada, a olhar para as mãos. Depois, de rompante, levantou-se:

– Está bem.

Dirigiu-se para dentro do café, de cabeça levantada, para cumprir o que lhe tinha sido ordenado. E já que se sentia embaraçada, e não queria ceder ao embaraço, fez questão de ir até ao fundo do café por uma das duas coxias que correm entre as mesas e regressar pela outra, de modo a que todos os presentes lhe vissem bem, primeiro a mini-saia, e depois os pés descalços.

Romance (Excerto # 19)

Cap. 31: SEIS VERGASTADAS E MAIS UMA

Desde que Teresa se tinha habituado a dançar para Raul depois de jantar, mostrando-lhe os progressos que fazia nas aulas, estava-se a tornar mais frequente Raul jantar sozinho, servido por Teresa e Milena. Isto evitava que Teresa tivesse que mudar de roupa duas vezes, e por outro lado dava lugar a uma competição lúdica entre as duas para ver quem organizava o serviço mais requintado. Esta competição levou a tais extremos de formalismo que não raras vezes acabavam as duas, acompanhadas por Raul, perdidas de riso perante uma invenção protocolar particularmente absurda. Mas se o protocolo excessivo e barroco do jantar era puro divertimento, as danças de Teresa perante Raul eram, pelo contrário, um assunto muito sério. Nestas danças, Teresa não estava limitada ao formato da dança do ventre e usava por isso de uma liberdade que não podia exercer nas aulas. Por vezes dançava vestida, outras nua ou meia nua; por vezes fazia dança do ventre, outras dança livre ou dança jazz; outras ainda inspiravam-se em gestos e estilos populares de todos os continentes. Dava-lhe especial prazer, dançando nua, fazer com que a atenção de Raul se concentrasse nas suas mãos ou nos seus braços; ou pelo contrário, estando completamente vestida, pôr em evidência as partes mais íntimas do corpo.
Na noite que se seguiu à da experiência com o vibrador, Teresa apareceu com a parte inferior do corpo coberta de panos transparentes, sobrepostos de modo a formar uma saia multicolor: carmim, vermelhão, siena queimado, laranja, roxo, amarelo indiano. A cinta era tão baixa que, se Teresa não estivesse depilada, lhe deixaria à mostra parte dos pelos púbicos. Logo de início, Raul notou uma rigidez que não era habitual nos movimentos de Teresa: os movimentos habituais estavam lá todos – o ondular dos músculos da barriga, o rolar das ancas, o sacolejar para os lados e para a frente, as órbitas descritas em forma de oito, o tremer dos seios e dos quadris – mas tudo muito controlado, muito deliberado, muito preso, sem a desenvoltura de que Teresa começava a ser capaz. A que se poderia dever esta regressão?
A resposta tornou-se óbvia quando Teresa deu por terminada a primeira fase da dança, que era feita com os pés assentes no chão e sem sair do sítio, e tentou fazer uma pirueta. Nesse momento, Raul ouviu o som surdo de alguma coisa mole mas pesada a cair no chão; e viu um dos pés nus de Teresa a dar um pontapé involuntário nas bolas ben-wa que acabavam de lhe cair da vagina.
– Anda cá – disse Raul. – Senta-te no meu colo.
Com Teresa ao colo, titilando-lhe distraidamente um dos mamilos, Raul começou a fingir que lhe ralhava:
– Com que então, experiências! Quem te mandou fazer isso? Deve ter sido a tua professora de pompoar, ou então a de dança do ventre, porque eu não me lembro de te ter dado essa ordem…
Teresa corou:
– Não foi ninguém… Foi ideia minha…
Raul riu-se de novo e deu-lhe uma pequena palmada de baixo para cima num dos seios, de modo a fazê-lo saltar.
– Suponho – especulou – que quando um senhor quer ter uma escrava com ideias, tem que se sujeitar a que algumas delas não sejam muito boas. E esta não foi muito boa, pois não?
– Pois não, meu senhor. Desculpa.
Raul deu-lhe uma palmada no rabo, desta vez com força, e ordenou:
– Então vai lá lavar as bolas e depois vem dançar para mim como deve ser.
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa, pondo-se de pé com um movimento álacre e esfregando o sítio onde tinha levado a palmada.
E de facto, depois de voltar e de pôr a música outra vez no início, soltou os quadris e dançou tão bem e tão fluentemente como habitualmente o fazia. Introduziu nesta dança, porém, um movimento que Raul reconheceu da noite anterior: aquele gesto peculiar de retraimento e entrega em que o corpo parece ansiar precisamente por aquilo de que foge. Era o movimento com que tinha reagido ao vibrador, e Raul gostou tanto que sugeriu a Teresa que o mostrasse à professora na aula e pedisse a sua opinião. Teresa assim fez: além de mostrar o movimento (para o qual a professora imediatamente inventou uma série de variações que treinou com as alunas), contou-lhe o episódio humilhante das bolas ben-wa caídas no chão e pontapeadas. Em vez de a censurar, porém, a professora aprovou a tentativa, dizendo à turma que algumas das melhores dançarinas do ventre eram pompoaristas; mas que se alguma aluna quisesse tentar o que Teresa tinha tentado, o melhor era preparar-se para treinar muito tempo até conseguir.

[ … ]

Desde esse dia, Teresa começou a treinar todos os dias em frente ao espelho. Teve que reaprender tudo a partir das técnicas mais elementares, ao mesmo tempo que progredia sem as bolas nas técnicas mais avançadas. Já conseguia introduzir na vagina a primeira bola ben-wa, embora ainda tivesse que ajudar a segunda com o dedo, e a certa altura já era capaz de as segurar tempo suficiente para sair de casa por curtos períodos com elas postas.
Tudo isto, junto com a dor quase diária da depilação eléctrica, começou a fazer com que a consciência que Teresa tinha do seu corpo se começasse a centrar na sua zona genital.
– Às vezes quase sinto o desejo – confidenciou uma vez a Raul – de não ser para ti mais do que uma cona, um buraco ao teu dispor.
A estas palavras, Raul abraçou-a.
– É um desejo teu que não vou satisfazer muitas vezes, mas compreendo-te bem: também eu, por vezes, desejaria libertar-me desta carga de humanidade e não ser mais que um falo… Não é possível, felizmente, caso contrário seríamos puros vegetais; ou se nos restasse alguma consciência, a vida seria um inferno.
– Bem sei – respondeu Teresa. – Mas às vezes…
– Sim, às vezes… – respondeu Raul. – Mas o que não pode ou não deve ser realizado, pode muitas vezes ser representado: e tu agora vais dançar a tua coninha para mim.
E Teresa, rindo, fez precisamente o que ele mandava.

[ … ]

À noite, em casa, Teresa manteve o vestido branco para jantar com Raul e se sentar depois aos pés dele. Antes de se irem deitar, Raul perguntou-lhe:
– Vamos tentar ir hoje um bocadinho mais longe com o vibrador?
– Meu senhor querido, sou tua… Só te peço que me amarres como da outra vez, senão ainda passo pela vergonha de tentar fugir.
Diga-se em abono de Teresa que em momento algum daquela noite se debateu seriamente contra as cordas que a sujeitavam; mas várias vezes se lhe acendeu nos olhos a mesma luz de loucura que Raul tinha visto uns dias antes. Mas o vibrador entrou mais fundo; manteve-se ligado mais tempo; e o período de recuperação que se seguiu foi mais rápido e mais fácil. Terminado o exercício, Teresa serviu Raul mais uma vez com a boca: como se fosse intenção dele que nestas noites o vibrador fosse, para o sexo dela, a última memória.
Poucos dias depois, Raul quis ir mais longe.
– Preciso de te amarrar? – perguntou.
– Não, meu querido – respondeu-lhe Teresa. – Acho que desta vez não vai ser preciso.
Quase foi preciso, mas Raul nunca o soube. Raul penetrou Teresa várias vezes com o vibrador ligado, mas ela, embora se debatesse e desse abundantes sinais de aflição, não chegou àquela fronteira de quase loucura aonde tinha sido preciso ir buscá-la nas outras noites: não só se manteve neste mundo sem ajuda, como chegou a um grau de excitação sexual em que Raul raramente a tinha visto.
Assim que Raul pousou o vibrador, penetrou-a duma vez; e assim que a penetrou, ela explodiu num orgasmo grandioso, sem ter tempo sequer de pedir licença. Com Raul ainda rígido dentro dela, Teresa começou, assim que se sentiu capaz, a aplicar as técnicas de pompoar que já dominava; e ao senti-lo quase a gozar, gozou também, desta vez com autorização. Por muito tempo ficaram abraçados; mas depois de apagarem as luzes, depois de os corações pararem de bater com tanta força e os pulmões de respirar com tanto esforço, Teresa entendeu chegada a altura de confessar:
– Tive um orgasmo sem licença, meu senhor.
– Sim, minha escrava, tiveste – respondeu Raul.
– Mereço um castigo.
– Mereces, sim.
– Meu senhor querido, não quero ser castigada. Tenho medo.
– Quem te garante que o castigo vai ser severo? – disse Raul. Provavelmente já sofreste pior às minhas mãos, sem merecer. E desta vez mereces, não mereces?
– Sim, meu senhor, mereço – respondeu Teresa, num murmúrio. – Por isso é que vai ser pior que qualquer outro castigo. E vais castigar-me, não vais?
– Sim, vou. Amanhã, às seis da tarde, no quarto dos castigos. Seis vergastadas fortes. Avisa a Milena que a essa hora não estamos para ninguém.
– Sim, meu dono – disse Teresa.
Quis virar-se para o outro lado, para que Raul não se desse conta das lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Era o primeiro castigo premeditado que recebia: nunca tinha acontecido com Ettore, e muito menos, nos seus anos de puta, com os seus clientes, que iam e vinham e faziam o que lhes ocorresse no momento. Acabou por não virar as costas a Raul: ele saberia entender as suas lágrimas. Quando ele se voltou para a sua posição de dormir, Teresa abraçou-se a ele por trás e ficou a ouvir-lhe a respiração. O que sentiu ela antes de adormecer? Prazer, nenhum. Medo, certamente: um pouco. Tristeza, também, e melancolia. Esperança, porque lhe parecia que estava a ser conduzida pelo caminho certo. O que não sentia de todo era revolta.

[ … ]

– Traz-me um chá e uma torrada ao escritório – pediu.
Quando Teresa entrou com o chá, Raul agradeceu-lhe e disse-lhe que depois a chamava. Chamou-a às seis em ponto, para lhe ordenar que se despisse e que o esperasse no quarto dos castigos. Teresa, a tremer, obedeceu; e ele chegou logo a seguir, ordenando-lhe que se debruçasse com o rabo empinado sobre a banca do lado direito das colunas, onde já uma vez a tinha amarrado para a punir.
– Hoje não te vou amarrar – disse Raul. – São só seis vergastadas. Quero que as contes tu própria em voz alta: se não contares alguma, essa não vale. Por cada vez que abandones a posição recebes uma vergastada a mais. Está tudo claro?
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa.
Ouviu os passos de Raul, que se colocava por trás dela, e ouviu o silvo no ar quando ele tomou o peso à vergasta. Subitamente, um novo silvo, e uma dor insuportável. Gemeu, e depois de ter gemido começou a sentir que um estranho silêncio se erguia entre eles. De que estava Raul à espera?
– Escrava… – ouviu-o murmurar.
E subitamente lembrou-se: tinha que contar as vergastadas.
– Uma! – exclamou em voz alta, grata pelo tempo que lhe tinha sido concedido.
Nova vergastada:
– Duas!
A terceira foi a pior até ao momento; Teresa contorceu-se toda, mas não levantou os pés do chão. Contou, com a voz embargada:
– Três.
Era uma crueldade ou uma gentileza ele não a ter amarrado? Teresa não sabia. A quarta vergastada atingiu-a muito em cima, quase na cinta, mas a quinta acertou-lhe na prega entre as coxas e as nádegas, provocando-lhe uma dor atroz que a levou a deitar-se para o chão.
– Quatro! Cinco! – contou.
– Sim, cinco – disse Raul calmamente. Mas ganhaste mais uma porque saíste da posição. Volta para o teu lugar.
Teresa voltou para a banca do castigo.
– Seis! – gritou.
E pensar que com esta, tivesse ela tido um pouco mais de coragem, podia estar o castigo terminado! Com as pernas a tremer obrigou-se a ficar onde estava, de nádegas empinadas, aguardando a última vergastada, a pior, a menos necessária; e quando ela veio foi quase com alívio que rouquejou:
– Sete!
Sete, finalmente. Teresa endireitou-se dirigiu-se para o lavatório instalado num canto da sala, lavou a cara, secou-se, e virou-se para o espelho de corpo inteiro que ali tinha sido colocado, virando-se de maneira a poder ver as marcas que tinha nas nádegas. Eram de um vermelho rosado, apenas mais escuro nos sítios em que se cruzavam. Este tinha sido o pior de todos os castigos, não por ser o mias doloroso, porque tinha sido um castigo verdadeiro: a punição duma falta cometida. Olhou para Raul, que estava com a vergasta na mão, à espera. Claro, ainda faltava a conclusão. Teresa deu um passo para Raul, beijou-lhe a mão que segurava a vergasta, beijou a própria vergasta e disse as palavras rituais:
– Obrigada, meu senhor, pelo castigo que me deste.
Isto, em voz alta; mas a seguir, ainda de joelhos, enquanto ele se afastava para pendurar a vergasta, repetiu, numa voz tão baixa que ele não a chegou a ouvir:
– Obrigada, meu querido…

Romance (Excerto # 11)

Final do Capítulo 29


O intervalo estava a chegar ao fim, a aula que ia dar a seguir era a última. Ligou para o telemóvel de Teresa:

− Onde estás?
− No shopping, a fazer umas compras.
− Falta-te muito?
− Não, já saí do supermercado e agora ando aqui a ver umas lojas.
− Então vai já para casa e espera lá por mim toda nua. Logo que possa vou ter contigo.
− Sim, meu senhor – disse Teresa. – Meu querido…
Raul desligou o telemóvel, mal dedicando um pensamento a quem quer que o tivesse sob escuta. Que lhes fizesse bom proveito. Foi dar a sua aula, saiu imediatamente, meteu-se no carro, parou numa florista e foi para casa, onde presenteou Teresa com um ramo de rosas. Teresa, que já tinha planeado recebê-lo de joelhos, ajoelhou-se para receber as flores. Depois correu para o interior da casa para as pôr numa jarra com água, e voltou para junto de Raul, igualmente apressada, para retomar a saudação planeada no ponto em que a tinha interrompido. Ajoelhando-se de novo, beijou-lhe a mão e disse:
− Aqui estou, toda nua, ao teu dispor. O que queres fazer de mim?
− Segue-me, minha escrava.
Teresa seguiu-o até ao quarto, onde ele, detendo-se, lhe ordenou:
− Agora despe-me.
Teresa começou por lhe tirar a T-shirt. Como ele era mais alto do que ela, teve que se estirar toda para lha fazer deslizar ao longo dos braços, que ele não esticou para cima, mas sim para a frente. A regra, quando ela o despia, era que lhe fosse beijando cada parte do corpo que fosse ficando a descoberta. Teresa obedeceu à regra beijando-lhe os ombros, chupando-lhe um pouco os mamilos, dando-lhe a volta de modo a poder beijar-lhe as costas ao longo da espinha, regressando por fim ao peito. Aproveitou esta oportunidade para o roçar com os seios sempre que pôde, o que, não sendo exigido, dava prazer aos dois. A seguir tirou-lhe os sapatos e as peúgas, beijando-lhe os pés. Por fim tirou-lhe as calças e as cuecas e beijou-lhe o sexo, que tinha segurado entre as mãos postas como que em oração.
− Vem dar-me um duche – disse Raul.
Enquanto ele se dirigia devagar para o quarto de banho, Teresa, numa corrida, deitou no cesto da roupa suja as peúgas, as cuecas e a T-shirt que lhe tinha tirado, e dispôs outras, lavadas, na cadeira ao lado da cama. No quarto de banho pôs o duche a correr, ajustou a temperatura da água e convidou Raul a subir para a banheira, onde começou por lhe molhar o corpo todo. Para o ensaboar teve que subir também para a banheira, e apesar de ter tomado duche meia hora antes também se molhou e ensaboou.
− Deixa-me esfregar-te, meu senhor…
E começou a esfregá-lo, não com as mãos, mas com o corpo todo, abraçando-se a ele pela frente e por trás, ajoelhando-se para lhe chupar o pénis ou para lhe lavar os pés. Raul aceitava estas homenagens serenamente, como algo que lhe era plenamente devido, mas nem por isso deixava de sopesar ocasionalmente um seio da sua escrava, ou de lhe introduzir dois dedos entre as coxas para a fazer sobressaltar. Teresa, atenta ao seu dever, não se queria excitar demais. Depois de passar o chuveiro por si própria e por ele, secou-se a si própria à pressa e a ele com todos os cuidados. Só uma coisa a desgostava ligeiramente: depois do seu primeiro duche tinha passado por todo o corpo um creme perfumado e amaciador, que agora se escoara pelo ralo da banheira.
− Meu dono… − disse. – Eu tinha passado creme no corpo… Queria estar toda macia para ti… Esperas agora um pouco que passe outra vez?
− Pois sim, minha escrava – consentiu Raul. – Mas antes acompanha-me ao quarto para me ajeitares as almofadas e me deixares confortável.
− Sim, meu senhor – disse Teresa, com um sorriso aberto. – Às tuas ordens.
Raul estendeu-se no meio da cama de barriga para cima. Teresa aproveitou o pretexto de o pôr confortável para se roçar levemente nele; mas, quando o viu de sexo completamente erecto, escapou-se, rindo:
− Vou pôr creme…
Raul apoiou a cabeça na almofada, sorriu ligeiramente, descontraiu-se e esperou até ficar com o pénis de novo flácido. Teresa, ao entrar, sorriu-lhe; depois, ajoelhando-se no seu catre, aos pés da cama, começou a beijar-lhe os pés, depois os tornozelos, subindo-lhe lentamente, com os lábios e com a língua, pelas pernas acima. Por vezes detinha-se neste progresso e voltava um pouco atrás, para logo depois recomeçar. Ao chegar-lhe às coxas subiu para cima da cama e ficou de gatas por cima dele, baloiçando para os lados os seios pendentes de modo a afagá-lo com os mamilos. Deteve-se por muito tempo a beijar-lhe o sexo, que encontrou de novo erecto. “Não estás menos pronto do que eu,” pensou, “mas se não me deres outra ordem vamos ter os dois que esperar”. Raul não lhe deu outra ordem, e assim Teresa continuou a trepar por ele acima, lentamente, lentamente, voltando atrás de vez em quando, quando ele menos esperava. Porque se submeteria ele, sendo Senhor, a esta tortura, sabendo que a podia fazer cessar a qualquer momento com uma simples ordem? Talvez soubesse que a sua escrava, ao torturá-lo, se estava a torturar ainda mais a si própria.
− Continua assim, minha escrava.
“Sim, escrava dele,” pensou. Um ser aberto, sem resistências que tivessem que ser vencidas, pronto para dar e receber qualquer prazer a qualquer momento, capaz de submeter o seu senhor à tortura da espera, mas só ao preço de a sofrer em dobro. Estava pronta. Como estava pronta! Mas primeiro havia os mamilos dele a beijar, as mãos dele a levar aos lábios, o ventre dele a acariciar com os seios, o rosto dele a encher de beijos…
− Mais devagar, escrava.
Mais devagar, mas essa palavra, escrava, a penetrá-la como uma lança, como um falo erecto, a fazer com que dentro dela tudo andasse mais depressa, tudo se precipitasse, tudo reclamasse um desenlace.
− Mais devagar…
E ela, devagar, chegava-lhe finalmente aos lábios, beijava-lhos com fúria, enrolava a língua na dele, acariciava com o sexo o sexo dele, sem ousar empalar-se como lhe exigia o corpo, aguardando uma ordem, apenas uma ordem que do mesmo passo a trespassasse e libertasse.
Mas a ordem não veio. Em vez dela veio uma estocada poderosa, dada por ele de baixo para cima com um movimento súbito dos quadris. Tanto bastou para que ela sentisse, eminente, um orgasmo que se anunciava avassalador. E pediu:
− Meu senhor, posso vir-me?
E Raul respondeu:
− Não.
Não?! Como não?! Como deter a avalanche que já se desprendia, a onda que já se agigantava?! Mas Teresa deteve-a, nunca veio a saber como. Numa escala qualquer que encontrou dentro de si, fez com que o prazer que sentia encontrasse um patamar onde pudesse ficar imóvel, sem subir nem descer, mudando de natureza, tornando-se em parte dor, em parte exaltação, mas continuando a ser algo de desmedido, de sublime. Sem perder um átomo desta estranha volúpia, abraçou o amante, sentiu como ele se movia dentro dela, como se derramava, como arquejava num orgasmo talvez igual ao que lhe negara. Manteve o amante dentro de si enquanto ia ficando flácido. Sentia que a vagina se lhe contraía e distendia como se afinal o orgasmo proibido lhe estivesse a vir, embora sem a sensação correspondente. Beijou Raul, como sempre o beijava depois do amor, mas estes beijos tinham uma urgência diferente. Acariciou-o, mas as carícias eram outras, mais vívidas. Disse-lhe que o amava, e isto era tão verdade como das outras vezes, ou ainda mais. Em vez da frustração inicial começava a sentir outra coisa igualmente intensa, mas agora da ordem da esperança; a excitação sexual era agora, por acréscimo, cerebral. Talvez nem sequer sentisse o desejo de enlaçar o corpo noutro corpo, mas sim de flutuar para sempre neste paraíso novo a que não sabia dar nome. Este estado de exaltação manteve-se enquanto tomou duche com Raul, enquanto se vestiu e arranjou para ir almoçar com ele, e continuou depois durante o resto do dia e para lá dele. Ao sair não pediu, como era norma, que ele lhe permitisse calçar-se, mas sim que a deixasse ir descalça, ao que ele acedeu.
Almoçaram no restaurante da Fundação de Serralves. Visitaram o Museu. Nalguns lugares do jardim o chão era um áspero e magoou um pouco os pés de Teresa. Quando chegaram a casa ela serviu-lhe o jantar, sentou-se-lhe aos pés enquanto ele lia, serviu-lhe um whisky, acendeu-lhe um charuto. Conversaram bastante, mas nenhum dos problemas práticos que tinham a resolver veio sequer à baila. À meia-noite foram-se deitar. Antes de adormecer, Teresa deu-se conta que aquele talvez tivesse sido um dos dias mais felizes da sua vida.

Podemos estar vulneráveis. Podemos estar em perigo. Podemos estar em situações concretas que tornem mais fácil a outros tirar partido de nós. Mas enquanto formos capazes de tomar decisões e de orientar por elas, sem tergiversar, a nossa vida e os nossos actos, então, por mais frágeis que possamos estar, somos fortes.

Autor: Polly Peachum

Tradução: Vanderdecken

A minha história é difícil mas muito menos difícil do que as vidas de outras pessoas e não é diferente em nada das vidas de milhões de mulheres cujos sentimentos de submissão, se os têm, são uma coisa sem importância para elas. E contudo muitas destas mulheres, numa variedade quase infinita de circunstâncias, estão infelizes, confusas, sem saber o que fazer – e eu não estou. Paradoxalmente, descobri como pôr em prática as minhas convicções feministas, como fazer delas um elemento real e prático da minha vida, durante estes últimos anos, que passei como escrava de um homem. As premissas teóricas básicas do feminismo, tal como eu as vejo, são que as mulheres são tão capazes como os homens; que as mulheres deviam ter tantos direitos, opções e responsabilidades como os homens; e que é profundamente errado alguma coisa acontecer ou não acontecer a uma mulher apenas por ser mulher. O feminismo, tal como o tenho vivido durante estes seis anos, está ligado às partes da minha personalidade mais afectadas pelas atitudes mais sexistas da cultura em que cresci. A minha transformação em feminista praticante (por oposição às que apenas acreditam nos ideais feministas) envolveu que eu aprendesse a acreditar que as lições que aprendi em criança – que eu era inferior, incapaz de realizar alguma coisa importante, que as minhas opiniões não eram significantes nem valiosas, especialmente comparadas com as dum homem – não são verdadeiras e que aprendesse a agir em consequência.

Trabalho como adjudicatária no campo da alta tecnologia; uma carreira extremamente arriscada e competitiva. Não tenho segurança no emprego, não sei de onde virá o próximo contrato ou projecto, e contudo sou muito bem-sucedida no que faço. Uma parte da razão por que consigo contratos é porque tenho confiança na minha capacidade de os conseguir. Embora trabalhe num campo técnico em que predominam os homens, não acredito que os homens que competem comigo sejam melhores do que eu. Não parto do princípio que são eles que vão ficar com os contratos em vez de mim. E geralmente não ficam. A minha confiança nas minhas próprias capacidades permite-me perseverar num ambiente onde muitos outros desistem em desespero com a elevada taxa de rejeições inerente a este tipo de trabalho. Esta confiança não me vem inteiramente das minhas leituras feministas, as quais, embora tenham estabelecido as bases, nunca poderiam, dada a minha história pessoal e a minha expectativa de falhar, ser postas em prática, mas também do apoio e estímulo que o meu senhor me deu. Ele acreditou desde o princípio na minha capacidade de fazer coisas excepcionais. Sabia que o que me estava a deter não era a minha falta de capacidade mas as minhas miseráveis expectativas. Ajudou-me a olhar para mim própria como uma mulher forte e competente. Também me ensinou a ter êxito e a não ignorar ou considerar sem importância êxitos passados. Sinto-me agora mais forte, mais competente, e simplesmente melhor em relação a mim mesma do que alguma vez me senti, e espero que estes sentimentos continuem a crescer por muito tempo.

A minha experiência de viver um relacionamento de troca de poder e o meu conhecimento doutros sadomasoquistas também me forneceram uma capacidade importante que me dá um sentimento crescente de domínio sobre mim própria e sobre o meu ambiente. Adquiri uma profunda compreensão do facto de que o poder é uma parte de todas as relações, sejam elas profissionais, políticas ou pessoais, e uso este conhecimento todos os dias para satisfazer mais completamente os meus ideais feministas no plano pessoal e profissional.

A maior parte das pessoas não tem consciência do papel que as transacções de poder desempenham nas suas vidas. Não se dão conta de quando estão a deitar fora poder ou de quando ele lhes está a ser retirado. Quando o estão a tirar a outra pessoa, muitas vezes também não se dão conta disso. Cegas às trocas de poder que ocorrem na vida de todos os dias, as pessoas baseiam muitas vezes as suas acções e decisões em pressupostos falsos que ignoram uma parte importante da realidade. Como os dominantes e os submissos estão constantemente a lidar directa e conscientemente, nos seus relacionamentos primários, com as realidades do poder, pode ser às vezes chocante para eles que as outras pessoas não se apercebam desta dinâmica tão claramente como eles. Esta consciência das dinâmicas de poder interpessoais mudou profundamente a minha vida: agora sei lidar com a maior parte das pessoas. Consigo aperceber-me de como as situações se vão desenvolver e portanto consigo prever quando é realista desistir e quando é realista insistir.

Estas competências que estou a desenvolver têm-me ajudado com frequência. Uma vez, por exemplo, um administrador para quem eu estava a fazer um projecto apreciava claramente as minhas capacidades e competência, mas de vez em quando insistia que eu tinha feito algum erro óbvio quando isso não tinha acontecido. Dei-me conta, pela maneira como estas cenas se desenrolavam (ele teimava sempre que tinha razão e começava sempre por se recusar a considerar quaisquer provas que mostrassem que os seus pressupostos eram incorrectos) que eu estava a fazer um trabalho bom demais para que ele se sentisse confortável e que sentia a necessidade de me corrigir de vez em quando para poder dizer a si mesmo que ainda era ele quem mandava no projecto. O facto de compreender esta dinâmica de poder subjacente permitiu-me fazer duas coisas. Uma foi oferecer resistência mínima e ceder nos casos em que a sua convicção de que tinha razão não prejudicasse o trabalho; isto permitia-lhe sentir outra vez que era ele que mandava no projecto. Mas quando o erro que ele estava a fazer pudesse ter um forte impacte no êxito do projecto, eu fazia calmamente finca-pé apesar da sua cólera crescente e das suas acusações de que eu estava a perder faculdades, e continuava a apontar-lhe os factos até ele acabar por entender aonde eu queria chegar. No fundo este homem era racional e eu, sabendo isto, tinha a paciência de esperar que a tempestade emocional passasse e a racionalidade regressasse ao debate.

Se eu não conhecesse as maneiras que as pessoas têm de usar o poder sem saber que o estão a usar, ou se não soubesse porque o fazem, o comportamento deste administrador podia ter accionado o meu botão da integridade pessoal (Como ousa ele não confiar em mim; como ousa ele duvidar da minha palavra neste ponto!), eu talvez tivesse abandonado o projecto e decidido, se o meu senhor permitisse, nunca mais voltar. Mas por saber o que se estava a passar na cabeça dele tornou-se desnecessário indignar-me. Assim, estranhamente, a minha natureza submissa ajudou-me a ultrapassar limitações emocionais que me tinham sido impostas anteriormente pela minha história pessoal.

A relação da minha história pessoal com a minha sexualidade é em grande parte obscura. Temos que compreender que, embora abundem as teorias – muitas delas disparatadas – sobre as razões para as necessidades sexuais específicas de um indivíduo, nenhuma destas teorias provou ser válida na generalidade. E portanto, inevitavelmente, é fútil tentar medir as necessidades sexuais duma mulher por um padrão arbitrário, que nunca foi provado, do que constitui a “normalidade” psicológica. Ainda pior e menos humano é imaginar que as necessidades sexuais de um indivíduo têm algum significado político generalizável. O Dr. Ronald Moglia, director do programa de doutoramento em sexualidade humana na Universidade de Nova Iorque, diz numa entrevista em Different Loving: The World of Sexual Domination and Submission, “Há tantas coisas que não sabemos sobre como se formam os nossos desejos sexuais. As pessoas interpretam muitas vezes politicamente os comportamentos sexuais. Muitos dos nossos comportamentos s resultam das nossas aprendizagens socioculturais, e certamente, nas mulheres, esta é uma força poderosa. Mas pegar nesta observação e aplicá-la a pessoas que agem duma forma masoquista − ou doutra forma qualquer – leva-me a questionar até que ponto estas observações são científicas, até que ponto são politicamente enviesadas, e o que é que [esses teóricos] teriam a dizer sobre a correcção política da mulher sádica e a incorrecção política da mulher masoquista.” Apesar disto, a hostilidade da sociedade convencional, e de muitas feministas, contra as mulheres submissas é avassaladora.

Esta é uma das ironias dolorosas de ser uma mulher submissa. Mesmo depois de nos debatermos contra toda a confusão emocional e toda a ambiguidade política engendradas numa mulher com desejos fortes de submissão, e de termos atingido finalmente algum nível de resolução interior, continuamos a enfrentar o ódio e o desprezo vindos de muitas das pessoas com quem temos que viver e funcionar. A hostilidade parece inevitável por parte duma sociedade convencional que nunca pensou no assunto e mete no mesmo saco o sadomasoquismo com a zoofilia e a pederastia como sendo coisas completamente inaceitáveis – afinal é a mesma sociedade convencional que se espoja no racismo e no sexismo enquanto nega ambos e que está a destruir o nosso planeta rapidamente e sem pensar. A hostilidade de muitas feministas famosas, contudo, é muito mais difícil de suportar.

Porque é que tantas feministas doutrinárias, incluindo muitas com acesso fácil aos media, são tão hostis às mulheres submissas? As suas explicações centram-se, como mencionei acima, na ideia de que os relacionamentos em que as mulheres submissas se envolvem promovem o domínio cultural dos homens e que as imagens de mulheres submissas, nos media eróticos e noutros lados, promovem a violência contra as mulheres. Em Powers of Desire: The Politics of Sexuality, a ensaísta Jessica Benjamin escreve, “O perigo foi sempre que as mulheres e outras vítimas de violência fossem consideradas culpadas ou se culpassem a si próprias por a terem ‘provocado’. Isto levou a uma atitude de contra-culpabilização: qualquer discussão sobre dominação erótica ou sobre violência racional na qual a participação é voluntária ou fantasiada aparece a muitas pessoas como uma desculpa para a violência masculina em geral.” Mas a primeira objecção – de que os relacionamentos dominante-submissa promovem o domínio masculino na sociedade em geral – mesmo que fosse verdade (e eu não acredito que o seja) leva à negação da importância das experiências positivas de submissas como eu quando vivemos as nossas identidades sexuais. Quanto à segunda objecção – como outras semelhantes levantadas desde há séculos por censores e reaccionários de toda a espécie – é totalmente desprovida de base em quaisquer dados honestos e está completamente desacreditada.

Suspeito que por trás de toda esta preocupação com o significado político das minhas actividades e das actividades das minhas irmãs submissas e com o nosso bem-estar pessoal se esconde uma fome baixa e vil de poder. Há algo de incrivelmente arrogante e assustadoramente III Reich numa argumentação do género “Uma vez que a minha opinião pessoal desta forma de sexualidade é que ela seria terrivelmente errada para mim e me causaria mal, então também é terrivelmente errada para todas as outras pessoas e devia ser atacada e reprimida.”

O feminismo, para mim, foi sempre no seu âmago uma tentativa de dar às mulheres a liberdade de fazerem as suas próprias escolhas, e não de lhes tirar esta liberdade para o seu próprio bem. Já me bastou que a sociedade patriarcal me fizesse isso; os teóricos da vitimização e as feministas anti-pornografia deste mundo que tentam privar-me do direito de escolher livremente o tipo de sexualidade e de estilo de vida que me podem fazer mais feliz não são melhores. Pelo contrário: uma vez que de certa maneira se apropriaram do feminismo para o perverter, são ainda piores. Essas pessoas, na sua tentativa de definir e controlar pessoas como eu que não correspondem ao seu modelo de heterossexual idade saudável, estão apenas, na sua necessidade de controlar e dar forma aos destinos dos outros, a repetir os vícios do patriarcado, e eu não estou disposta, de certeza, a trocar a minha liberdade, que tanto me custou a conquistar, em relação ao poder masculino pela subjugação a algo que é para mim igualmente odioso e ofensivamente errado: o poder feminino. Quero que o feminismo me ajude a atingir os meus objectivos de liberdade de escolher e de procurar a felicidade – e não que me impeça de os atingir.

Em última análise, creio que a pressão que as mulheres submissas sentem da parte de certas feministas radica num mal-entendido fundamental da parte destas sobre a natureza efémera do seu poder. Há apenas 25 anos, a discussão sobre o feminismo e os seus significados práticos era quase só académica. Hoje, contudo, através da agitação ideológica nos meios académicos e duma capacidade recém-descoberta de influenciar os media e alguns políticos abordando-os com o tipo de jargão que os impressiona, as feministas conseguem exercer alguma influência no debate político e mesmo dispor de algum poder político. Algumas começaram logo a usar este poder para reprimir a sociedade, como nas campanhas, bem-sucedidas nalguns lugares, para proibir materiais eróticos e pornográficos com o pretexto de promoverem a violência contra as mulheres. Nestas campanhas aliam-se alegremente à Direita Religiosa e a outros reaccionários extremistas, que têm uma agenda repressiva bem mais substancial do que a de algumas ideólogas feministas inchadas de auto-importância.

O que estas feministas não compreendem é que, quando a voga momentânea de que gozam tiver passado, quando os académicos e os políticos tiverem perdido o interesse nelas e passado à fascinação seguinte, a Direita Religiosa ainda cá estará, mais poderosa do que nunca por ter enganado e conseguido o apoio de algumas feministas. É desta Direita Religiosa, e não dos sadomasoquistas, que realmente vem a ameaça a longo prazo contra a emancipação das mulheres. Se eles atingirem os seus objectivos, então todas nós, mulheres, incluindo as suas aliadas feministas de hoje, encontrar-nos-emos, ou às nossas filhas, entregues a uma escravidão inteiramente involuntária.

Trago o meu gatinho macho todas as manhãs para o jardim-selva seguramente aninhado nos meus braços, porque o ar livre, que em tempos foi o paraíso natural dos gatos, se transformou, com a expansão da SIDA felina e da leucemia felina, num ambiente mortal. Do mesmo modo, temo que a luxuriante selva sadomasoquista na qual me sinto tão em casa se torne rapidamente demasiado perigosa para passearmos nela. Neste momento, o meu amado podia ser julgado pelas coisas que me faz, em quase todas as jurisdições do país, mesmo sem eu apresentar queixa. Se eu protestasse e dissesse que amo e encorajo o que ele me faz, esse protesto talvez fosse ignorado, e esta acusação totalmente injusta poderia seguir o seu curso. E a rápida deslocação para a direita actualmente em curso na política americana, com a concomitante pressão para punições cada vez mais draconianas – combinada com a atenção mediática que está a ser dada aos crimes contra as mulheres – é um péssimo presságio. Deste modo, nós, as mulheres submissas, somos muito menos iguais do que os outros e temos menos direitos perante a lei, como os homossexuais nalgumas jurisdições. Ao contrário do que acontece com as mulheres que se satisfazem com vidas sexuais convencionais, o corpo duma submissa não lhe pertence, e ela não pode escolher o que lhe acontece; nem pertence completamente ao seu senhor; pertence ao Estado, que pode ditar o que pode e não pode ser feito com ele, de acordo com definições de violência influenciadas por aquelas que, como mulheres, nos deviam estar a ajudar e a apoiar, e não a tentar reprimir-nos! Se nós, submissas, nos recusarmos a substituir os nossos maravilhosos, ricos, violentos jardins por aquilo que seria, do nosso ponto de vista, o equivalente a um minigolfe, somos ameaçadas, no caso de esta escolha ser descoberta, com medidas punitivas aplicadas àqueles que amamos. E os esforços de algumas que ousam chamar-se feministas vão todos no sentido de tornar esta situação ainda mais intolerável. Que escolha tenho eu, que escolha têm outras mulheres submissas como eu, que não seja rejeitar totalmente uma ideologia que exige a nossa lealdade mas trai a nossa confiança e ignora os nossos pedidos de tolerância e apoio? Embora eu seja uma mulher que há-de sempre apoiar a causa das mulheres em toda a parte, poderá em breve vir o tempo triste em que terei vergonha de me chamar feminista, especialmente se este termo continuar a tornar-se sinónimo, para mulheres como eu, de “opressora”.

 

Autor: Polly Peachum

Tradução: Vanderdecken

Quando conheci online o meu senhor estava à espera de ser manipulada. Contava com bazófia e exibicionismo, mascarando um ego profundamente inseguro, tal como tinha encontrado em tantos homens que tinha conhecido ou com quem tinha tido relacionamentos. Ele tinha-me dito numa das suas primeiras mensagens electrónicas que tinha a vocação de curar, que ajudava pessoas infelizes a melhorar emocionalmente. Com efeito, quando começámos a falar, ele deixou bem claro que, embora se sentisse atraído por mim, me encarava mais como alguém que podia ser ajudado do que como uma potencial companheira para a vida. Nesse tempo ele tinha uma escrava com quem era feliz, e embora esse relacionamento tenha terminado mais tarde (ele tinha decidido terminar várias relações dominante-submissa anteriores que tinha achado insatisfatórias por várias razões), ele não estava “à pesca de escravas” nem a tentar adicionar-me a qualquer espécie de harém sadomasoquista. Ele ajudava as pessoas numa base informal, segundo disse, sem cobrar nada pelos seus serviços, porque tinha uma paixão por essa missão, uma vocação. Isto tudo soava-me demasiado vago e New Age. Senti a mesma suspeita que sentiria por alguém que anunciasse ser um bruxo ou que podia comunicar com os mortos. Assumi que esta pretensa terapia não era mais do que um escape para o ego dele. E consequentemente decidi testá-lo.

Sem realmente acreditar que ele me podia ajudar emocionalmente (nunca ninguém na minha vida tinha sido capaz de me ajudar – todos os êxitos e todo o crescimento que eu tinha conseguido tinham sido apesar das pessoas à minha volta, não por causa delas), apresentei-lhe, embora não me desse completamente conta que era isto que estava a fazer, um desafio. Em resposta à sua mensagem terapêutica disse-lhe em substância, e de um modo bastante cínico, “Está bem, Sr. Terapeuta, esteja à vontade para me dar todo o tratamento que quiser, mas não espere de mim resultados prodigiosos.” Muito mais tarde o meu senhor contou-me como se tinha divertido com esta minha afirmação “petulante” e como soube imediatamente, mesmo antes de começarmos, com que rapidez eu havia de mudar de ideias. Como é que ele sabia isto sobre mim? Tendo lido cuidadosamente todas as minhas mensagens, e tendo uma vasta experiência com as pessoas, já sabia que eu era inteligente, motivada e muito sincera no meu desejo de submissão. Também já conhecia por esta altura muitos dos meus problemas e pancadas: as realidades que eu não estava a enfrentar, as coisas que eu estava a assumir sobre a vida e que não estavam a resultar, os meus medos e os meus pontos sensíveis.

O dar-me conta, como me dei rapidamente, de que ele sabia tanto sobre mim foi apenas uma das descobertas extraordinárias que eu havia de fazer sobre ele ao longo dos anos. À medida que a dinâmica senhor-amante-escrava ia sendo adicionada à dinâmica terapeuta-paciente, comecei a ver que tudo o que ele tinha dito sobre si próprio, incluindo aquelas coisas que tinham que ser gabarolice porque eram boas demais para ser verdade, era exacto e genuíno. Ele tinha realmente uma imensa confiança em si próprio e uma atitude positiva em relação ao que empreendia, atitude esta que era capaz de transmitir às pessoas que estava a tentar ajudar. Assumia realmente a responsabilidade por tudo o que fazia, e cumpria sempre a sua palavra. Se dissesse que me ia telefonar às sete da tarde de terça-feira, fazia-o. Tinha uma personalidade absolutamente estável que era imune a variações de humor e invulnerável à síndroma da conversão (depois de ler esta frase o meu senhor disse com o seu humor sardónico habitual – ele tem-se na conta dum Oscar Levant dos nossos tempos – “Outra maneira de dizer que sou um fanático”). Tinha uma força emocional enorme e maturidade completa e uma ausência desconcertante de botões emocionais. Não ficava avassalado quando aconteciam coisas terríveis na sua vida, nem ficava exageradamente zangado ou perturbado por qualquer coisa que eu fizesse. O melhor de tudo é que não se levava a si mesmo ou a qualquer coisa na sua vida demasiadamente a sério, e constantemente fazia humor com tudo isso – uma coisa de que um egoísta a fazer o papel do Senhor Lorde Dominante Omnipotente Do Universo é totalmente incapaz. Estes fortes traços de personalidade permitiram ao meu senhor ser razoavelmente bem-sucedido, e por vezes muito bem-sucedido, em tudo o que empreendeu. Em cinco décadas de vida foi escritor e editor de jornais e revistas; escritor de livros; fotógrafo, actor e músico; proprietário de um pequeno negócio; dirigente sindical e activista de direitos humanos. Para além deste trabalho pago, arranjou sempre tempo para aconselhar quem o procurasse a pedir ajuda e, a maior parte das vezes, para os ajudar a efectuar mudanças pessoais profundas. Finalmente, é desde há décadas um feminista convicto e já se batia pelos direitos das mulheres muito antes de se ter tornado moda que os homens falassem a favor deles.

Passaram-se seis longos e maravilhosos anos, e estou extraordinariamente feliz com a escolha que fiz e com o rumo que a minha vida tomou em consequência dela. Se me fosse dada outra vez a oportunidade de decidir tornar-me uma escrava sabendo o que sei hoje, faria exactamente a mesma escolha. Olhando cuidadosamente para mim própria tal como sou hoje e para a pessoa que era antes de me tornar uma submissa life-style, posso afirmar que as minhas experiências como submissa melhoraram imensamente a minha vida e nalguns aspectos viraram-na do avesso. Sem a orientação experiente do meu senhor, não acredito que nada disto fosse possível. Há seis anos eu estava incapaz de sair do pântano que eu própria tinha feito. Estava muito obesa e continuava a ganhar peso. Embora tivesse um emprego razoavelmente interessante, o meu próprio apartamento e um namorado, estava sem saber o que fazer da vida. Estava profundamente insatisfeita comigo mesma e sentia-me impotente, incapaz de mudar uma vida que era perfeitamente funcional mas estava encravada em ponto morto. Tinha as minhas pequenas satisfações, coisas que me davam prazer, mas a maior parte destas tinham-se tornado vícios. Bebia quase seis cervejas todas as noites a acompanhar os meus jantares enormes. Depois de meses deste auto-abuso corporal mal conseguia arrastar-me para fora da cama todas as manhãs e ir trabalhar. Muitas vezes telefonava a dizer que estava doente e sentia-me tremendamente culpada por isto. Comprava todas as revistas de moda e beleza assim que saíam e passava horas a olhar com inveja as belas manequins e a sonhar que me parecia com elas. Tal como comer e beber, a tentativa de me conformar aos ideais de beleza da sociedade era uma das maneiras que eu tinha de evitar o verdadeiro problema: os aspectos estéreis, irrealizados, da minha vida. Estranhamente, considerava-me feliz.

Agora tudo mudou. Perdi o peso que precisava de perder seguindo um plano de alimentação e de exercício saudável e lento (nem lhe chamaria uma dieta – era tão moderado e inclusivo). A maior parte das vezes já não sinto a compulsão de comer demais. Já não bebo demais, nem procuro um escape na bebida. Hoje em dia raramente leio uma revista de moda, pois as mulheres retratadas nelas já não me parecem tão atraentes ou desejáveis de imitar – pelo contrário, muitas vezes dou por mim a pensar, quando olho para um desses sacos de ossos grotescos e pesadamente maquilhados que estas revistas tanto gostam de promover como o pináculo da atracção, que é uma pena essas pobres modelos esquálidas não se parecerem um pouco mais comigo! Já não estou insatisfeita com a minha carreira: faço acontecer coisas. Raramente sofro emboscadas de resultados inesperados devidos à minha acção inconsciente, como antigamente sofria com regularidade. Já não faço por ignorar o efeito das minhas acções no meu ambiente social ou de trabalho. Os meus esforços subterrâneos para sabotar a minha própria vida acabaram. Acredito que não estou a tentar evitar ou ignorar nenhum aspecto da minha vida. Mais importante: quem sou e o que sou já não são mistérios obscuros para mim. Descobri quem sou, o que quero da vida, e cada dia aprendo mais sobre como o obter. Já não deixo ninguém pôr-me o pé em cima, e consigo fazer coisas – como exprimir zanga a pessoas estranhas – que eram inconcebíveis para mim há seis anos. A minha emoção de fundo deixou de ser de depressão ligeira para se tornar de felicidade e paz comigo mesma. Já não estou à procura de um lugar na vida; cheguei a casa.

Apesar de o meu senhor me ter ajudado a curar e a crescer, a maior parte do trabalho fi-lo eu própria. Mas o que me permitiu desenvolver o meu poder de mudar a vida em aspectos tão importantes e positivos, quando tanta gente passa tantos anos em terapias formais sem obter estes resultados espectaculares, foi o facto de eu estar finalmente a fazer o que nasci para fazer, a fazer o que necessito de fazer na minha vida. Estou a viver e a experimentar, de modo positivo, sadio e inofensivo, as fantasias que tive durante anos de violação e cativeiro, perda de controlo, sofrimento erótico e degradação. Depois de anos a tentar compreender exactamente porque é que consegui o que consegui, concluí que quando alguém descobre o lugar a que pertence ou encontra alguma coisa que realmente adora fazer, muitos comportamentos negativos, incluindo hábitos arreigados, podem ser abandonados, porque não passam de sintomas duma profunda insatisfação com a vida.

Estou convicta que me tornei uma submissa apesar das minhas circunstâncias e experiências, e não por causa delas. Tenho o género de currículo que transforma as pessoas em inválidos emocionais, não em submissas sexuais. O meu pai era um alcoólico que morreu antes de eu atingir a puberdade. Enquanto foi vivo, ora abusou de mim física e emocionalmente, ora me estragou com amor e atenção. Depois de ele morrer passei meses a chorar todas as noites de solidão até adormecer. Por pior que ele fosse, foi a única pessoa na minha família que me fez sentir especial e amada. (Estou consciente que a minha vida adulta recria nalguns aspectos o meu relacionamento com o meu pai. Também estou consciente que para mim esta recriação é saudável e que a minha sexualidade envolve muitos aspectos que ultrapassam em muito esta representação infantil).

Pouco depois da morte do Papá, a minha mãe arrastou-me para fora do sistema público de educação e enviou-me para um colégio católico. O efeito de a minha família passar a vida a mudar de um lado para o outro e eu ter que ir para uma escola nova em cada ano, somado ao choque recente de ter perdido o meu pai, teve o seu efeito em mim, e por essa altura eu tinha-me transformado numa criança insegura, pateticamente tímida. Ficava parada contra a parede do recreio a ver as outras crianças brincar e inventava fantasias que me magoavam sobre a razão por que nunca era convidada a participar na diversão. Convenci-me que era muito estúpida; que era muito desajeitada. A minha família era demasiado pobre. Eu era uma estranha. Não era tão boa como os outros.

E além disso havia as freiras. Peguem numa criança que já é insegura à partida, com um sentido de si própria muito inadequado, e entreguem-na nas mãos de um bando amargo e meio louco de abusadoras emocionais, e vejam o sangue correr!

Durante estes anos de tortura a minha mãe recorreu a um emprego mal pago de professora para sustentar uma família com seis membros. A sua exaustão e a sua desilusão com a vida tornaram-na emocionalmente distante e impediram-na de notar sequer a minha infelicidade. Embora eu fosse uma criança dotada intelectual e criativamente, desenvolvi um sentimento de mim própria que continha elementos quase avassaladores de inferioridade e derrota. Sentia-me impotente, sentia que quase toda a gente em meu redor era mais poderosa ou mais inteligente do que eu, que não era capaz de fazer nada, que era incompetente para tratar da minha vida simplesmente porque era uma mulher como a minha mãe. Embora uma parte de mim soubesse que os meus colegas do sexo masculino não eram, em quase nenhum caso, mais inteligentes do que eu, considerava as minhas próprias ideias e opiniões sem valor em comparação com as deles, e era encorajada a isto pelas minhas professoras. Os meus extensos recursos criativos foram postos ao serviço de inventar razões para os pensamentos dos rapazes serem sempre melhores do que os meus.

A minha saída do colégio católico, terrivelmente ferida, deixou-me desarmada para enfrentar a puberdade e a minha primeira experiência sexual: uma violação aos catorze anos. E com esta admirável introdução ao mundo maravilhoso do sexo no meu currículo, passei a minha adolescência e a maior parte dos meus vinte anos tão frígida como o Pólo Norte. A literatura feminista que comecei a ler por essa altura deu-me esperanças idealizadas sobre como mas coisas deviam ser – sobre a maneira como eu, uma mulher jovem e forte, devia agir e sentir – mas não estava em posição de pôr estes ideais em prática. Não tinha um currículo de êxitos sobre o qual pudesse construir. Mas ainda estava viva muito lá no fundo, com um cerne inabalável de optimismo, uma esperança estúpida e constante de que tudo acabaria bem. É como se eu tivesse dentro de mim uma estrutura metafórica de aço, crua e sem forma, mas apesar de tudo incapaz de ceder. Sei que consegui manter um lugar dentro de mim ao abrigo das coisas horríveis que a vida tinha posto no meu caminho, ao abrigo das crueldades da vida. Nesse lugar eu era feliz, nesse lugar eu tinha esperança duma vida melhor, e nesse lugar vivi as minhas fantasias sexuais mais íntimas e mais preciosas.

(Continua)

Autor: Polly Peachum
Tradução: Vanderdecken

Não sei se fui sempre submissa, mas algumas das minhas memórias mais antigas, começando nos cinco anos de idade, envolvem actos e pensamentos submissos. Eu era a menina que queria sempre servir as outras crianças com quem brincava. Lembro-me de brincadeiras em que empurrava as minhas irmãs num carrinho de brincar até ao ponto da exaustão, pensando o tempo todo em quão confortáveis elas estavam e como se estavam a divertir graças ao meu esforço. Adorava poder servi-las. Com os meus pais sentia algo de semelhante mas muito mais intenso. Ficava radiante quando eles me davam tarefas para os ajudar na vida da casa, e aceitava a maior parte dos castigos, quando eles vinham, com obediência e sem os pôr em questão. Ser punida comportava para mim, mesmo nessa idade, um frémito distintamente erótico. Estava a ser corrigida fisicamete por alguém mais forte e mais sábio do que eu, e isto era não só correcto e justo mas também terrivelmente excitante.

Ao crescer, comecei a ter fantasias explicitamente eróticas de submissão: inventava histórias em que era uma cativa ou uma criada, forçada a fazer coisas extremamente embaraçosas e a suportar punições dolorosas administradas por alguém mais velho e mais forte do que eu. Estas fantasias excitavam-me: nunca me fizeram sentir má ou culpada. Julgo que assumi que todas as crianças tinham sonhos em que eram perseguidas nuas na arena de um circo por enxames de abelhas que tentavam introduzir-se nos seus rabos enquanto a multidão se ria à gargalhada duma situação tão vergonhosa e dolorosa.

Por volta dos nove anos de idade comecei a tentar envolver as crrianças com quem brincava em jogos de senhor-escrava, nos quais eu, naturalmente, era sempre a escrava. Mas apesar de a maior parte dos miúdos adorarem a novidade de serem os senhores, de mandarem em alguém para variar, raramente encontrei companheiros de brincadeira que continuassem a gostar do jogo depois de o terem jogado algumas poucas vezes. Eu, é claro, seria capaz de o jogar o dia inteiro se eles cooperasem, e sentia um enorme prazer em obedecer às exigências cada vez mais extravagantes do meu Senhor ou Senhora. Paradoxalmente, quando por volta dos treze anos aprendi finalmente alguns factos sobre o sexo, os constantes e poderosos temas sadomasoquistas que tinham imbuído a minha infância recuaram para segundo plano. Talvez isto se devesse ao facto de eu estar demasiado ocupada em aprender o que fazer numa saida com um rapaz; talvez ao facto de eu, uma leitora voraz, ter descoberto aos treze anos a literatura feminista, literatura que sugeria fortemente que não era apropriado ter fantasias nesta direcção. Fosse qual fosse a razão, as minhas tendências submissas tornaram-se, durante a puberdade, muito menos conscientes do que antes, emergindo apenas à noite como acompanhamento da masturbação. Mas mesmo nessas ocasiões eu não associava estas fantasias à minha pessoa ou às minhas necessidades: eram apenas uma coisa que eu fazia enquanto me masturbava.

Durante anos as minhas fantasias e tendências sexuais ficaram por examinar, pelo menos por mim própria. Aos 17 anos uma conhecida mais velha do que eu deu-me um exemplar da “História de O”, o romance sadomasoquista clássico do século XX, dizendo simplesmente “acho que vais achar isto interessante”. Devorei o livro, que se transformou na base das minhas fantasias nos anos seguintes, mas abafei todas as especulações sobre o porquê de ela me ter dado aquele livro. Não queria, simplesmente, pensar nisso. Olhando para trás, esta negação parece-me ao mesmo tempo divertida e compreensível. Tentem imaginar uma adolescente precoce a ter aulas na faculdade e a viver com dois rapazes dez anos mais velhos do que ela. Como uma verdadeira filha dos anos 70, o seu currículo icluía uma disciplina de Estudos Femininos ministrada por uma lésbica e uma disciplina de sexualidade humana estilo “beijinhos e abraços” durante a qual o sadomasoquismo foi mencionado de passagem durante uma conversa de cinco minutos sobre variações e fetiches para nunca mais ser trazido à baila. E no entanto esta adolescente volta para casa todas as noites e passa 40 a 60 minutos de joelhos no chão de madeira, aos pés duma cama, massajando os pés do seu companheiro de quarto, um jovem politicamente correcto, ecologicamente consciente e sensível aos papéis sexuais, até ele adormecer! E o tempo que ela gasta a fazer isto é a parte mais arrebatadora, excitante e íntima do seu dia. Uma vez mais, de um modo limitado e socialmente aceitável, encontrava-me em posição de reviver aqueles momentos de infância que me tinham dado tanto prazer. Mas a submissão sexual continuava a não ser algo que eu relacionasse comigo própria. Pura e simplesmente não pensava nela – a não ser como fantasia nocturna.

Nao fiz mais nada em relação às minhas fantasias até seis anos mais tarde, quando, aos 23 anos, tentei dar mais tempero a um relacionamento de cinco anos contando ao meu namorado episódios da “História de O” enquanto fazíamos amor. Ele ficou tao excitado com estas histórias que, para minha grande delícia, me surpreendeu dias depois amarrando-me os braços a um gancho no tecto do dormitório. Depois deu-me uma sova com uma vergasta que tinha cortado lá fora, degradou-me, e tentou realizar sexo anal comigo. Esta primeira experiência genuína de submissão forçada arrebatou-me até ao mais fundo de mim, mas na manhã seguinte quando o meu namorado viu as nódoas negras nas minhas ancas e nádegas ficou absolutamente horrorizado. A culpa que sentiu por ter feito aparecer aquelas marcas no corpo da sua amada impediu-o de alguma vez voltar a fazer comigo algo de tão “doentio”, apesar da minha afirmação que tinha adorado.

O conhecimento da minha relação com a submissão pode ter estado a subir lentamente do meu inconsciente para o meu consciente durante aqueles anos, mas foi necessária uma experiência catalítica, uma espécie de epifania, para me confrontar com o facto que sou uma submissa. Tinha quase 30 anos e andava com LuAnn, uma mulher com quem tinha trabalhado durante nove meses. LuAnn era uma leitora ávida de ficção popular e tinha-me chamado a atenção para os livros da série “Vampiros” de Anne Rice. Ao lê-los fui fortemente afectada e atraída pelos relacionamentos de poder entre um vampiro e as suas vítimas escolhidas – na realidade entre um vampiro com séculos de idade e experiência e uma jovem protegida sua, recentemente humana. No meu estilo habitual de leitura, que é levar tudo à minha frente, acabei por ler tudo o que Anne Rice alguma vez tinha escrito, e acabei por tropeçar nos seus romances eróticos, escritos sob o pseudónimo A.N. Roquelaure. Foi nessa altura, quando comecei a ler as aventuras de conto de fadas erótico de Beauty, que acorda de um sono profundo por meio duma violação e duma sessão de palmadas, que também eu acordei do meu sono pessoal para fazer a conexão essencial: esta sou eu. Eu sou como esta personagem de conto de fadas. Sou uma submissa, e não há nada que queira mais do que ser escrava de alguém! Bingo. Tocaram as campainhas. As trompas soaram. As luzes piscaram. Ali estava eu. Mas onde? Estava maluca e não sabia? Mas aquilo não me parecia maluquice. Parecia-me certo.

Nesse tempo eu não fazia ideia de quão poucas pessoas encaram o sadomasoquismo como aceitável para terceiros, muito menos para si próprias. Magoou-me a sério dar-me conta. como me dei rapidamente, que LuAnn estava totalmente impreparada para aceitar a minha auto-descoberta. Fiquei subitamente isolada, não sabia de todo para onde havia de me virar para encontrar pessoas que partilhassem os meus novos interesses, ou sequer como encontrar alguém que não sentisse repulsa pelos meus sentimentos. Tal como muitas outras pessoas nas minhas circunstâncias – só mais tarde me apercebi de quantas – procurei alívio na Internet. Sozinha no meu apartamento, aprendi a ligar um modem a um computador e descobri o mundo das comunicações online. Também encontrei rapidamente, graças à surpreendente ajuda do meu ex-namorado, as áreas mais desviantes nos sites de contactos e alguns serviços comerciais que podia subscrever. Aqui comecei a encontrar outros submissos e dominantes. Deixei mensagens longas sobre a minha sexualidade e numa questão de horas comecei a receber numerosas respostas e mensagens electrónicas. Conheci várias pessoas e cheguei a “jogar” com algumas delas por computador. Aprendi que o tipo de submissão que eu queria – imersão total, life-style – não era o que todas as pessoas envolvidas em sexo sadomasoquista querem. De facto, a grande maioria das pessoas que encontrei online pareciam satisfazer-se com um pouco de S&M com os seus parceiros no quarto ou ao fim de semana para voltarem a uma relação convencional entre iguais depois destas “sessões” relativamente breves. Eu, por outro lado, tinha a certeza que não queria nada que não fosse uma escravidão absoluta e sem fim.

Procurei entre as pessoas que encontrava online pela minha contraparte dominante: alguém que quisesse dominar e controlar tanto como eu queria ser dominada e controlada. Acabei por encontrá-lo – ou melhor, ele encontrou-me. Depois duma longa correspondência, numerosos telefonemas, e vários encontros que duraram vários dias, fiquei encantada quande ele me deu a oportunidade de me entregar a ele em escravidão. Embora ele me pudesse ter ordenado que me tornasse sua escrava, e eu teria obedecido instantaneamente, ele queria que esta escolha fosse minha – e a minha última decisão livre. Pensei cuidadosamente no assunto durante várias semanas, e até ao segundo em que ele me disse que era tempo de decidir considerei a ideia de que tinha uma escolha e ainda podia recuar. Embora não quisesse recuar e tudo em mim clamasse pela experiência da escravidão, eu ainda me dava bem conta de que até ao momento em que me desse a ele tinha o poder de continuar livre. Não sofri nenhuma lavagem ao cérebro; ele não tentou persuadir-me de nada. Pelo contrário, eu tinha estado activamente à procura dele ou de alguém como ele. Foi uma decisão minha, e foi a melhor (e última) decisão que alguma vez tomei.

(Continua)

A primeira resposta que dou a esta pergunta, aquela que me ocorre instintivamente e quase sem pensar, é “não”. Um Senhor que imagine que só por ser Senhor é superior à sua escrava, ou um “Dom” que se iluda e pense que só por ser “Dom” é superior à sua submissa, não passa de um tolo; e portanto, em vez de ser superior é-lhe provavelmente inferior.

Isto que escrevi acima é a resposta simples. Não deixa de ser basicamente a minha opinião, mas não posso dar-me por satisfeito com ela. É que para lá da resposta simples há outras bem mais complexas.

Uma das melhores amigas com quem me correspondo na net refere com insistência a sua necessidade de se entregar a alguém por quem possa sentir não só respeito, mas também admiração. Sente a necessidade de ver no seu Dono um ser superior, não só a ela própria, mas também aos seres humanos em geral. Não vou dizer que esta minha amiga está a visar alto demais, pela simples razão que sempre admirei quem visa alto. Mas aí está: se por qualquer volta da vida viesse a acontecer eu tornar-me Senhor desta minha amiga e ela minha escrava, haveria logo à partida um ponto em que eu a consideraria, se não superior a mim, pelo menos minha igual.

Não é que eu acredite na igualdade de todos em relação a todos. Pelo contrário, acredito firmemente que o homem que pensa é superior ao que não pensa, o que sente superior ao que não sente, o que lê superior ao que não lê, o que vive superior ao que apenas sobrevive, o que é útil aos outros superior ao que lhes é nocivo. A questão é que em todos estes pontos a escrava e a submissa têm exactamente o mesmo direito/dever de se aperfeiçoarem que têm o Senhor e o “Dom”.

Assim, a minha amiga, como tantas outras escravas e submissas, está perante um dilema: para que a pessoa a quem se entregam lhes seja superior, têm elas que ser inferiores; para serem inferiores têm que prescindir do seu crescimento como seres humanos; crescimento este que é precisamente o que as torna dignas de serem amadas e possuídas em pleno.

A única solução que encontro para este dilema é a seguinte: o Senhor e a escrava têm de crescer juntos; cada um deles tem que admitir que não é perfeito e admitir além disto, o que é difícil, que o outro também não; e cada um deles tem que fazer tudo o que estiver ao ser alcance para que o outro se transforme de verdade num ser superior. Um deles fará isto pela maneira como domina, o outro fá-lo-á pela maneira como se submete; mas a um nível muito profundo estarão os dois a fazer precisamente o mesmo. Aquilo que nenhum deles tem o direito de fazer é diminuir-se a si próprio ou a diminuir o outro.

Hoje fartei-me de escrever e não correu mal, mas não se tratou de nada que sirva para publicar no blog. A jeito de compensação deixo-lhes esta imagem, de que espero que gostem:

CAPÍTULO 3

Durante este tempo Zima e as escravas núbias tinham preparado tudo para o banho do Príncipe, desde as finas esponjas que lhe haviam de acariciar as partes mais sensíveis, até às toalhas de seda para o secar e aos vaporizadores que lhe hão-de perfumar o corpo. Duas massagistas núbias estão a postos com luvas de crina nas mãos; Todos esperam pelo Senhor. Mas este tem tempo, experimenta uma alegria inédita em descansar nos braços do seu jovem escravo, e é com alguma relutância que se entrega por fim nas mãos das negras.

O banho durou uma hora bem medida, durante a qual as núbias banharam o corpo de Príncipe com água fresca e perfumada. De todos os lados se derramavam sobre o seu corpo jorros cristalinos de água. Cada parte do corpo foi cuidadosamente acariciada pelas esponjas, os dedos ágeis das negras deslizavam e dançavam sobre ele e insinuavam-se por toda a parte sem perderem nada do seu desembaraço, mostrando toda a proficiência de que eram capazes. E as partes mais íntimas eram objecto de uma especial atenção: uma tomava-lhe o sexo na mão, outra derramava água sobre ele, puxando o prepúcio para trás de modo a que nenhuma pregazinha ficasse esquecida. A seguir chega o momento de o secar; as toalhas delicadas deslizam sobre a pele com a mesma volúpia e requinte nos detalhes.

Por fim o Khan é aspergido com os perfumes mais preciosos. Põe-se de pé, em toda a beleza da sua poderosa masculinidade, no meio deste enxame de jovens mulheres que se afadigam em o cumular de todos os cuidados e discretas carícias, tudo isto com a mansidão e com os movimentos ondeantes e lascivos que caracterizam as orientais. Todos os seus gestos se assemelham a poses ou às figuras duma sensual dança dos véus como as que com tanta frequência encantam os viajantes europeus.

Apesar de todos os pequenos toques excitantes o Príncipe mantém-se insensível, sem sinais visíveis de excitação. Estas mãos que o acariciam parecem-lhe capazes de proporcionar muito prazer, e consente em que estes afagos tão sábios lhe percorram deliciosamente o corpo, mergulha mesmo em toda a espécie de sonhos sensuais, mas está saciado e os seus nervos já não lhe obedecem à vontade. As sensações deliciosas proporcionadas por estas mãos não lhe fazem erguer o membro adormecido.

A cerimónia do banho chegou finalmente ao seu término. Hassan, envolto de novo na sua toga de seda, dirige-se na companhia de Zima, Ali e Achmed a uma outra sala onde está servida uma refeição magnífica. A noite já caiu completamente e por isso a sala está iluminada. Lustres sumptuosos espalham uma luz suave que, amortecida por véus, faz com que o compartimento permaneça numa encantadora penumbra. Num canto ardem incensos variados que enchem o aposento com um aroma penetrante. Os assentos são almofadas ao estilo persa e estão dispostos à roda de tamboretes sobre os quais se encontram taças de ouro e pesados pratos de porcelana cheios de iguarias. O Príncipe janta com excelente apetite, servido por Zima e pelos dois rapazes, todos os três completamente nus. O Senhor está contente com os seus escravos; a sua boa disposição é prova disto e o seu bom humor leva-o a dirigir palavras amáveis aos seus servidores: uma honra de que eles tinham ambicionado ser dignos.

Depois do jantar o Príncipe estende-se sobre um divã, e Zima senta-se no chão ao lado dele, à maneira oriental, com as pernas debaixo do corpo.

Ali traz um narguilé aceso e coloca-o sobre a cabeça da jovem. O longo tubo de borracha desaparece por trás no seu cabelo exuberante e reaparece à frente entre as coxas. O rapaz estende ao Khan, que se põe numa posição adequada a fumar, a boquilha; este saboreia a ilusão de que o fumo que inala atravessa o corpo da bela Zima, o que constitui para ele um novo e atraente prazer. Ali senta-se no chão e o Khan despenteia-lhe com a mão os caracóis castanhos; o rapaz, nu, brinca ingenuamente com o seu pequeno pénis. Achmed estendeu-se ao longo do outro lado do divã. Todos os três oferecem, na sua sensualidade, na sua lascívia bizantina, um quadro encantador que lembra as noites opulentas da velha Babilónia.

Subitamente ergue-se lentamente uma tapeçaria que até agora parecia cobrir uma parede, mas na realidade escondia um grande cenário magnificamente iluminado. Neste palco movem-se músicos de ambos os sexos com instrumentos raros. Todas as mulheres estão meias nuas, com brincos de ouro nas orelhas, pulseiras nos braços e nos tornozelos radiando o brilho de pedras preciosas. Os tamborins misturam os seus sons com os das castanholas, flautas e banjos. É oferecido ao Príncipe o espectáculo de uma dança, a fim de lhe permitir relaxar o corpo e o espírito e de ao mesmo tempo lhe entreter a vista. A pouco e pouco vão desfilando, em ordem regular, numerosas bailarinas nuas, uma banda de cobre a apertar-lhes o ventre de modo a pô-lo melhor em evidência; seguram com as mãos fitas de cor clara e deixam admirar as formas nuas dos seus corpos graciosos. Os cabelos soltos sombreiam maravilhosamente a brancura de leite dos ombros nus. Dispostas aos pares, dançam ao som dos instrumentos, torcendo e curvando os corpos flexíveis do modo mais sensual e lascivo. Os seus gestos e os seus olhares convidam a um amor muito carnal; entre as coxas, que de vez em quando erguem no ar, um botãozinho rosado atrai o olhar como um íman atrai o aço; notam-se nestes botõezinhos de carne dilatações e contracções que elas, na sua falta de pudor, não tentam esconder. O amor é para elas um deus e todos os meios são bons para trazer os incrédulos à adoração deste deus.

Por fim, sem fôlego, rodam uma última vez sobre si próprias e caem nos braços umas das outras, apertam-se em abraços apaixonados, beijam-se na boca e palpam reciprocamente com as mãos as carnes frementes.

Num repente abre-se a fila – e surge no centro uma odalisca de atrevida beleza: é a doce Haischa, mal florescem nela dezoito primaveras. Um vestido em damasco de seda, com mil flores bordadas em cores suaves, cujas pregas volumosas caem numa ordem harmoniosa, acrescenta à sua beleza um encanto indefinível. A firmeza elástica dos seios reverbera através do brocado de caxemira que lhe cobre o peito, decorado com pérolas de âmbar cinzento. As mãos brancas mal sobressaem das longas mangas de gaze que lhe velam como uma névoa os braços roliços. Executa uma dança andaluz, acompanhando-se com castanholas, os seus pés ligeiros mal tocam no chão, a seda dos seus vestidos flutua à sua volta e envolve-a como uma auréola cintilante, enquanto os seus grandes olhos, húmidos de amor e negros como a noite, lançam um longo olhar à beleza viril do Khan, em intenção de quem se dá a todas as fantasias da sua improvisação. O coração bate-lhe no peito, o peito, arfando, move-se sob a seda. A música vai ficando mais rápida, o corpo da jovem alonga-se num último esforço e cai nos braços das companheiras, vencida pela volúpia. O Príncipe, apesar da sua impassividade momentânea, não se pode impedir de aplaudir. Haischa agradece-lhe com um longo olhar e com um gesto de graciosa submissão.

(Publicado no Blogger a 14/05/08 )

Soneto

Ela chegou, chegou-se a mim e disse
Que tinha vindo para ser escrava.
E eu respondi-lhe que era uma tolice
Aquela frase que ela murmurava.

Lembrei-lhe a triste história de Belkiss…
E ela, sem dar ouvido ao que escutava,
Fechou os olhos e, num beijo, disse
Que tinha vindo para ser escrava…

E eu, num gesto de pura maluquice,
Ao vê-la assim, tão cheia de meiguice,
Abri os braços para a que chegava…

Sem pressentir que, por desgraça minha,
Do meu destino ia ficar rainha
Quem tinha vindo para ser escrava.

Onestaldo de Pennafort

Outra noiva

Leitora, se vais casar e gostavas de ser levada como no post abaixo, mas não podes porque quem manda não deixa e a mãezinha tinha um chilique, sugiro esta alternativa mais discreta. Os pés nus são um símbolo ambíguo: para o teu noivo podem indicar submissão e respeito, para os familiares e convidados podem representar uma opção romântica, um sonho antigo, ou qualquer outra coisa que lhes queiras dizer.






(Publicado no Blogger a 17/04/08 )

Preparativos

Hoje é dia de Ele vir.

Ontem depois do trabalho fui à esteticista e à cabeleireira. A mocinha queria cortar-me o cabelo mais curto. Pelos ombros, disse ela. O que é que estas mocinhas sabem de alguma coisa? O meu Senhor gosta dos meus cabelos compridos…

– Não – disse eu à mocinha. – É só acertar nas pontas.

E hoje a manhã toda vai ser para me preparar. Começo nua. Nem sequer me visto para tomar o pequeno-almoço. Para quê? Corto com uma tesoura, o mais curto que posso, os pelos do púbis. Deito-os ao lixo. Terá ficado algum caído no chão?

Aproveito este pensamento para aspirar a casa toda. Já a aspirei ontem, mas não faz mal. Olho à volta: está tudo arrumado.

Meto o cabelo numa touca impermeável e vou tomar duche. Lavo-me toda com champô para bebés. Primeiro lavo-me entre as pernas: meto o dedo na vagina e no ânus, o mais fundo que posso, para me lavar por dentro. A seguir lavo-me toda: começo nos ombros, nos sovacos, vou descendo, limpo bem o umbigo, volto a lavar-me entre as pernas, e assim até aos pés, dedo a dedo.

Enxugo-me. Tiro a touca e prendo o cabelo atrás em rabo-de-cavalo. Pego numa gilette nova, no gel de barbear d’Ele, num espelho de mão, e sento-me na borda da banheira para me rapar entre as pernas. Estou concentrada. Não tenho pressa. Trabalho minuciosamente, cantarolando. Quando me dou conta do que estou a trautear, sorrio: é um fado, a Rua do Capelão. No fim lavo-me de novo da cinta para baixo, seco-me e ponho a toalha no cesto da roupa suja. Daqui a pouco, quando tomar banho outra vez, vou utilizar uma toalha lavada; mas também essa irá para a roupa suja logo a seguir.

Quero claridade. Tenho as janelas abertas, as cortinas corridas para os lados. Se do prédio em frente me virem nua pela casa, pois que vejam. É altura de fazer a cama – muito bem feita para Ele a desfazer – e de pôr a mesa, embora esteja certa de que Ele não vai querer comer. Desimpeço a mesinha junto ao sofá e ponho nela um tabuleiro: a garrafa de whisky, um copo, um cinzeiro, a caixa humidificadora com os charutos d’Ele. Abro a tampa e vejo o higrómetro: 70% de humidade, como Ele gosta. Ao lado, a guilhotina de cortar as pontas e uma caixa de fósforos nova.

Ponho música a tocar. Recomeço a cuidar de mim. Encho a banheira com água muito quente e sais de banho e entro nela muito devagar para não me escaldar. Fecho os olhos. Respiro fundo os vapores perfumados. Fico assim a enlanguescer, a acalmar, e pouco a pouco vou fazendo com que o coração me bata mais compassado. Quando a música pára de tocar saio da banheira, seco-me e arrumo rapidamente a casa de banho.

Passo por todo o corpo um creme perfumado. Ponho umas gotas de perfume atrás das orelhas. As unhas das mãos e dos pés estão arranjadas desde ontem com o verniz meio transparente de que Ele gosta. Pinto os lábios de cor-de-rosa escuro e os mamilos da mesma cor.

Sento-me diante do espelho, desprendo o cabelo e começo a escová-lo. Vou contando: cem passagens da escova a todo o comprimento. Para me aproximar mais do espelho abri as pernas. Vejo o meu sexo lisinho. Não é como o duma criança, o sexo duma criança é só uma rachinha e do meu espreitam os lábios da vulva, como duas pétalas rosadas. Com quarenta anos de idade nunca tinha visto bem o meu sexo.

Estou molhada. Perco a conta. Recomeço.

O cabelo está liso e brilhante. Prendo-o com ganchos para Ele depois desprender. Enfeito-me com tudo o que tenho que tenha pedras vermelhas: os brincos de turmalinas que me caem quase até aos ombros, o colar e a pulseira do mesmo conjunto. Ponho ao pescoço um fio de ouro com um pendente de rubis. Outra pulseira, esta só de ouro. Um fio de ouro à volta da cinta, uma pulseira em metal dourado, que comprei de propósito, no antebraço, um enfeite de tornozelo com campainhas.

Estou pronta. Só falta a saia, ou melhor, as saias; mas essas, só as ponho no último segundo, quando ele já me tiver dado o toque no telemóvel a dizer que está a chegar. Sento-me no sofá toda nua, com um livro, à espera.

Ainda é cedo. Leio o meu livro. De vez em quando olho para as saias para ver se não me esqueci de as pôr à mão. Quando o telemóvel toca, arrumo o livro na estante e começo a vestir-me. Primeiro a saia azul forte, transparente, debruada a ouro na fímbria. Por cima, a saia carmim. Vejo-me ao espelho: vista à transparência a saia de baixo parece violeta. Por cima de tudo uma saia dum vermelhão muito aberto, quase cor-de-laranja. Todas as três são abertas de lado até à cintura e eu disponho as aberturas de modo a quase coincidirem. Por um momento quase tenho pena de ter rapado o sexo, a sombra do púbis ficaria bonita à transparência. Mas não, estou a pensar mal: as saias são três, não se conheceria nada. É melhor assim, como Ele ordenou.

A campainha toca. É Ele. Abro a porta de baixo e entreabro a de cima. Estou pronta. Sinto o meu próprio cheiro de fêmea. Se o meu Senhor me penetrasse logo ao transpor da porta, sem sequer um beijo de saudação, entraria por mim dentro sem o menor entrave.

(Publicado no Blogger a 19/08/07)

Um olhar triste

Hoje, na rua, cruzei o olhar com uma mulher triste.

Triste na expressão; não parecia tensa, nem preocupada, nem deprimida, nem infeliz: apenas triste.
Achei-a muito bela.
Será que gosto de mulheres tristes? Talvez, um pouco. Mas também gosto de mulheres alegres; e destas gosto tanto mais, quanto a alegria que sinto nelas vem de dentro, como uma luz suave.
Há mulheres aparentemente tristes que são felizes. Talvez seja destas que gosto mais. E às vezes penso que a minha maior felicidade poderia estar em dar a uma mulher uma felicidade assim.
Ou em trabalhar para isso.
Também há mulheres alegres que são infelizes. A estas, admiro-as muito, mas não me imagino apaixonado por elas. É que além de as admirar, sinto pena delas, e não é possível amar alguém de quem se tem pena.
Pelo menos para mim não é possível.
Mulheres alegres e ao mesmo tempo felizes? Não sei se as há, não sou capaz de ver assim tão fundo no coração humano. Mas se as há, devem ser como as crianças: muito fáceis de amar, mas impossíveis de desejar.

(Publicado no Blogger a 29/03/07)

art-psamathe-leightonDizias: «não me submeto, entrego-me.» E falavas duma entrega que era como um empréstimo ou uma procuração, quando eu estava a falar duma dádiva.

Dizias: «disto tenho a certeza: sou e serei sempre uma submissa.» Depois de dizeres que não te submetias. Não, minha querida. Se eu quiser ir pala sombra e tu também, vamos os dois pela sombra. Mas se eu quiser ir pelo sol e tu pela sombra, a minha vontade prevalece e vamos pelo sol: submetes-te, sim, e submetes-te todos os dias, a todas as horas e em todas as coisas.

«Mas eu quero ser uma escrava perfeita», dizias tu. «A vontade duma escrava perfeita coincide sempre com a do seu Senhor, por isso não é necessário submeter-se.» As escravas, minha querida, não são clonadas dos seus Senhores. Têm existência própria, felizmente, e vontade própria. Como têm vontade própria serão sempre, felizmente, escravas imperfeitas. Por mim, não trocaria esta imperfeição por nada deste mundo: se o Senhor não tivesse vontade própria que prevalecesse sobre a da sua escrava, ou se a escrava nao tivesse vontade própria que se subordinasse à do seu Senhor, não haveria domínio nem submissão.

Dizias: «não aceito sofrer e nunca sofri. Tudo o que alguma vez fiz me deu prazer, mesmo o que me fez gritar ou chorar.» Talvez; mas um dia vais encontrar um Senhor que te vai ensinar a sofrer. Vai-te ensinar que as chicotadas só são contadas a partir do momento em que deixam de dar prazer a quem as recebe.

Dizias: «nunca fui e nunca serei castigada.» E eu respondo-te agora: uma escrava é castigada sempre que merece, e à vezes sem merecer. Se nunca o foste, sê-lo-ás muitas vezes no futuro.

Dizias: «um Senhor que castiga é um Senhor cruel, e eu odeio a crueldade.» Minha querida, mesmo que me odeies por isso eu sou cruel. Também sou terno, e a minha ternura não é de mentira; mas não te iludas: se eu fosse o teu Senhor teria muitas vezes prazer em fazer-te sofrer, e em ultrapassar o prazer que tu própria tivesses.

Dizias: «não há castigos, nem punições: há práticas.» E eu contradigo: não há práticas, há punições. E acrescento: não há práticas, há recompensas.

Mais importante do que isso: não há práticas, há símbolos. E estes, para não serem mentirosos, têm que significar alguma coisa real: amor antes de mais, e acessoriamente ternura, alegria, tristeza, submissão, revolta, orgulho, humildade… Tudo o que se faz entre Senhor e escrava, como tudo o que se faz entre qualquer par de amantes, tem um sentido, tem um significado, tem antecedentes e tem consequências.

Dizias: «se fosse tua escrava nunca aceitaria beijar a vergasta, porque isso para ti é um castigo.» Acrescentavas: «é um limite absoluto.» E explicavas-me todos os teus outros limites absolutos. E eu sorria, porque se fosses minha escrava eu não aceitaria a maior parte desses limites «absolutos». Não aceitaria, certamente, os que me parecessem triviais ou arbitrários. Aceitaria os que coincidissem com os limites da tua escravidão, e isto significa que no momento em que transgredíssemos algum, fosse por erro meu ou teu, a tua escravidão estaria terminada.

Beijarias a vergasta, sim. Fá-lo-ias quando o gesto fosse meramente simbólico e se destinasse a exprimir submissão, mas também o farias quando fosse, realmente, um castigo.

Perguntavas-me que conhecimentos tenho. Das práticas, do BDSM, muito menos que tu, certamente. Do resto, que é o que importa, suficientes para ser o teu mestre.

Publicado no Blogger a 24/09/06

Qual preferem?

Vila do Conde 1956

Esta fotografia foi tirada pela cineasta Agnès Varda, que a intitulou Sophia Loren au Portugal.

Paris 2006

50 anos de diferença entre esta fotografia e a que se vê acima… Repare-se no donaire da portuguesa e no contraste que faz com a falta de à-vontade da modelo profissional.

(Publicado no Blogger a 13/09/06)

Boca de mulher

……..A boca exige
……….a boca pede
……………… beijos.
……….

……….A boca desdenhosa
……….a boca sofrida
………a boca invadida
……….suplicante
……….mas sempre
…………………terna.
……….

……….A boca indefesa
……….vulnerável
……….ferida aberta
……….a boca
………………….pede.
……….

……….A boca oferece
………………..volúpias.
……….

……….A boca macia
……….a boca terna
……….
……………………geme
……….
………….sorri
…………….treme
……………….fala
………………….cala
…………………….suspira.

(Publicado no Blogger a 30/08/06)

ZAUBERFLÖTTE

Eram nove horas da manhã, e Mariana, mesmo sabendo que Victor não chegava a Lisboa antes das dez e meia, sentia-se já à espera dele. Movia-se lentamente pela casa: hora e meia até ele chegar, mais dez ou quinze minutos para não ser a primeira a chegar ao lugar do encontro. Já tinha escolhido a roupa que havia de levar: era um dia cheio de sol, bom para passar na praia, e o vestido comprido em tons de terra que acabou por vestir tanto a protegeria do calor como do vento.

Quando chegou ao centro comercial o amante já estava à espera dela. O primeiro beijo que trocaram foi, como sempre, tingido de reserva e timidez; como se pedissem um ao outro perdão por uma ofensa que não sabiam bem qual era. Talvez a de terem estado tanto tempo afastados; ou a de não poderem, nesta cidade onde Mariana era conhecida, dar livre curso à ternura. Este constrangimento durou ainda enquanto transferiam de um automóvel para o outro o saco com as toalhas e os fatos de banho, mas depois, a caminho da praia, na intimidade do automóvel, começaram a redescobrir um no outro os traços e os gestos familiares: retoma, reencontro, reconhecimento.

Na praia estava vento, o suficiente para não lhes apetecer tirar a roupa; mas na esplanada abrigada onde tomaram um refresco e comeram uma salada o ar estava morno. De tarde voltaram para a areia. Ou porque o vento tivesse amainado, ou porque se tivessem habituado a ele, ou ainda porque o sol estivesse agora mais quente, puseram-se em fato de banho. Durante uma hora ou duas apanharam sol, conversaram, trocaram uma ou outra carícia discreta. Ainda não eram cinco horas quando Mariana se quis ir embora.

– Arranjei bilhetes para a ópera, e ainda quero ir a casa mudar de roupa.

Representava-se A Flauta Mágica no S. Carlos; Mariana e Victor tinham falado em ir lá, mas entretanto não tinham voltado a mencionar o assunto e ele já não estava a contar com isso. Se Mariana lhe tivesse dito mais cedo que tinha os bilhetes, ou se ele se tivesse lembrado de lho perguntar, não teria acedido em passar o dia na praia e na mata, ou teria trazido uma muda de roupa.

Assim como estava, sem gravata, empoeirado, ia sentir-se pouco à vontade.

– Não faz mal, – disse-lhe Mariana. – Podes tomar um duche em minha casa, e eu escovo-te a roupa. Vais ficar bonito, como sempre.

Victor nunca tinha estado em casa de Mariana. Era um grande apartamento luminoso, todo em vidros, mármores e madeiras claras, e tinha o ar vivido de toda a habitação em que há adolescentes. De momento estavam todos fora, o marido de Mariana no escritório e os rapazes na escola; mas Victor não pôde deixar de se sentir um intruso nesta casa, e tanto mais nervoso quanto mais tempo se demorasse nela. Não se sentiu capaz de beijar Mariana nem de falar com ela, a não ser por alguns constrangidos monossílabos que a deixaram obscuramente decepcionada, como que por uma traição.

Victor lavou-se e vestiu-se rapidamente, com a porta do quarto de banho fechada como se a amante nunca o tivesse visto nu; e só descansou quando se viu de novo na sala, completamente vestido.

Entretanto Mariana também se estava a preparar.

– Como ordena o meu senhor que eu vá vestida? – perguntou, faceira; mas já tinha escolhido um vestido comprido de seda, que pendurava diante do corpo para o amante ver. Era um atavio da maior simplicidade, azul-marinho, não muito decotado, seguro nos ombros por duas finas alças.

– Esse vestido serve – disse Victor, – mas quero que vás toda nua por baixo.

Mariana soltou o leve gemido de excitação que Victor aprendera a conhecer.

– Está bem, – murmurou, mais como quem acede do que como quem obedece; e depois de o beijar na boca desapareceu na direcção do quarto de banho. Quando reapareceu, vestida, maquilhada, penteada, ele levantou-se do sofá para lhe beijar a mão. Ao endireitar-se, desajeitado e nervoso, tocou com a cabeça no espanta-espíritos pendurado no tecto. Um harpejo de campainhas percorreu a sala, tão delicado que mais realçava o silêncio do que o quebrava. Victor ficou interdito por um momento, mas logo se recompôs.

– Estás linda, – disse; e tomando a amante nos braços correu-lhe uma mão exploratória sobre as costas e os quadris.

– Estou nua por baixo, estou – riu-se Mariana ao senti-lo. – Gostava de saber porque é que todos os homens têm esta fantasia. Até as minhas cunhadas… bom, mas não interessa.

Foram para o teatro no automóvel dela. O dele ficou estacionado nas traseiras do prédio, pronto para a viagem de regresso. No vestíbulo não encontraram ninguém que algum deles conhecesse, mas na plateia, tomando lugar na fila mesmo em frente da deles, depararam com um casal conhecido de Marta e do marido. Mariana apresentou-os a Victor: Pedro, Diana. E Victor, que tinha reparado no modo como Marta os tinha cumprimentado – um beijo só, na face – teve o cuidado de cumprimentar Diana do mesmo modo.

– O Gabriel…?

– Não pôde vir. E para não desperdiçar os bilhetes…

– Ah, pois claro. E em todo o caso a Marta vem muito bem acompanhada.

Isto dito pela senhora, que apresentava, não obstante a robustez saudável da figura, uma palidez de lua no semblante. Era uma mulher alta, mais fina de feições do que de corpo, com cabelos negros cortados curtos. Sobre o vestido negro trazia um bolero negro bordado a prata, como um colete de toureiro. Os modos, não obstante uma circunspecção de circunstância, denotavam um temperamento vivo. Enquanto durou a conversa mostrou-se animada e divertida; e os olhos negros chispavam recados na direcção dos amantes.

– Percebeu tudo, – segredou Mariana a Victor quando se sentaram.

Durante toda a primeira parte os dois amantes mantiveram a leveza de coração que tinham experimentado ao longo do dia. A serpente que ameaçava Tamino era um dragão de papel multicolor, e despedia pelas narinas, em vez de fumo e fogo, chispas festivas que evocavam um bolo de aniversário ou um cocktail estival. Mas o que sobretudo os divertiu foi a primeira aparição da Rainha da Noite, num vestido negro bordado a prata que fazia lembrar o de Diana. Impedidos de falar, Victor e Mariana trocaram um sorriso e apertaram a mão um do outro. A avaliar pelo aspecto e pelo vestido, Diana estaria tão bem para o papel como a cantora que agora prometia a Tamino, numa vigorosa ária de coloratura, a mão de Pamina.

Não se pode dizer que os dois amantes se sentissem muito incomodados pela ameaça ao seu segredo que este encontro representava. Pelo contrário, o picante da situação divertia-os e excitava-os. Mais tarde, durante o intervalo, foi com um riso mal contido que Victor segredou a Mariana:

– E mal sabe a tua amiga o que trazes – ou o que não trazes – por baixo do vestido.

– Não tenhas tanta certeza, – disse Mariana. – Olha que as mulheres vêem muito.

E apoiando-se-lhe no braço ousou dar-lhe um beijo, rápido e risonho, na face.

Nem a Flauta Mágica era novidade para Victor, nem o teatro em que se representava o era para Mariana. Ambos sentiam, contudo, que tudo à sua volta era novo. A música, o enredo, as personagens; e por outro lado o edifício, os espectadores, o champanhe no intervalo – tudo se encontrava transmutado e colorido pela aguda consciência que ambos tinham da nudez de Mariana por baixo do vestido. Para Victor era uma tortura não poder correr-lhe a mão pelo flanco; e para ela, que bem se apercebia de para onde a mão do amante lhe puxava, cada movimento dele era um delicioso sobressalto. No palco, na plateia, no teatro todo, não havia com certeza nenhuma outra mulher a quem tão pouco separasse da mais completa nudez: dois sapatos sem meias, um vestido sem forro, uma carteira minúscula.

– Se o vestido se te prendesse em qualquer coisa – segredou-lhe o amante, – e se rasgasse de cima a baixo, ficavas aqui como vieste ao mundo.

Mariana teve um arrepio ao imaginar-se toda nua no átrio do S. Carlos, autora involuntária do espectáculo do ano, exposta ao olhar de todos, desconhecidos, conhecidos, colegas, conhecidos de colegas. Corou, tanto de vergonha como de excitação, e para se recompor um pouco afastou o corpo do do amante. Sentia-se leve, leve, a flutuar no ar, levada por uma imaginação mais embriagadora que o champanhe.

Sentar-se na cadeira para a segunda parte foi um anti-climax, mas também um alívio. No palco, Tamino começava as suas provas de iniciação; e pouco tempo depois a Rainha da Noite, numa ária que Mariana sempre associara aos ralhos das mulheres, jurava vingança sobre Sarastro: “Die Hölle Rache kocht in meinem Herzen”, o inferno da vingança ferve-me no peito.

Um inferno assim exigia uma música que fosse em tudo contrária à natureza, à razão e à sabedoria, uma música em que não houvesse silêncios. Por contraste com este ralho ininterrupto, a mudez iniciática imposta a Tamino ecoava o silêncio dos templos e das bibliotecas, e dos grandes espaços virgens. Pelo menos soava-lhe assim a ela, Mariana, que era mulher mais de calar que de ralhar, e nunca tivera dificuldade em tolerar os silêncios masculinos; e com a ária desaustinada da Rainha da Noite ainda a soar-lhe nos ouvidos sentiu-se capaz de perdoar ao amante o silêncio embaraçado de horas antes.

Mais tarde, no carro, falaram da Rainha da Noite, do silêncio imposto a Papageno e exigido a Tamino, do facto de na ópera o próprio estar calado se exprimir por palavras e por música: “Schweige still… Schweige still…” Passava da meia-noite. Mariana parou o carro nos jardins da Cidade Universitária, meio escondido entre os arbustos, e sem quaisquer preliminares começou a desapertar as calças do amante. Depois, erguendo o vestido, encavalitou-se-lhe ao colo.

– Espera, – disse ele, e começou a tirar as calças e as cuecas de algodão branco. Mariana olhou à volta e viu que os vidros do carro já estavam a começar a ficar embaciados: era impossível que alguém conseguisse ver para dentro, e além disso estavam ambos vestidos da cintura para cima. Sem mais hesitação empalou-se no sexo erecto de Victor e começou a mover-se vigorosamente para cima e para baixo enquanto ele procurava segurar-se numa posição em que não tivesse que se contorcer demasiado.

Os olhos tinham-se-lhes já habituado à luz débil dos candeeiros distantes; e Victor conseguia distinguir no rosto da amante os traços mais vincados: o ricto na boca entreaberta, rosa martirizada; as rugas de concentração no sobrolho; os vincos de sofrimento entre as narinas e a boca. E o queixo erguido, os olhos semicerrados, davam-lhe o ar duma monja em êxtase. Mais uma vez Victor se maravilhou: dizia-lhe a experiência que todas as mulheres são belas no prazer, mas esta era uma beleza absoluta que evocava nele um sentimento de reverência e adoração.

A posição em que Victor se encontrava não era a mais favorável a um clímax rápido. Viu como o rosto e o pescoço da amante escureciam e soube que a uma luz mais intensa esse escurecimento seria um rubor; e num esforço arquejante aumentou o ritmo e a amplitude das estocadas que dava de baixo para cima no ventre empalado da amante. Mas estava cansado, o dia tinha sido longo, e por mais que tentasse não conseguia seguir nem controlar o furor dionisíaco com que ela o cavalgava. Por mais que uma vez saiu sem querer de dentro dela, com um ruído molhado de sucção, e então era a azáfama, a urgência, de procurar de novo a abertura, forçar de novo para baixo o pénis reteso, e pô-lo de novo no lugar, para de novo partirem de novo à desfilada, qual o cavaleiro, qual a montada rebelde, não o saberiam dizer.

Só mais tarde, passado o frenesim, quando já elanguesciam abraçados, se deram conta de que estavam a ser vistos. Um automóvel tinha estacionado em frente deles e, encostado a ele, um homem de calças escuras e camisa branca masturbava-se olhando na direcção dos amantes.

– Deixa-o – disse Victor. – Dali para aqui não consegue ver grande coisa.

Mas Mariana, rindo-se, tocou a buzina e acendeu os faróis. O homem compôs-se, entrou no carro e arrancou. Mas era tarde, Marta tinha que ir para casa, e Victor tinha ainda que ir para o Porto. Despediram-se no parque de estacionamento junto ao prédio dela. Victor ficou sentado no carro até ela entrar no prédio. Depois de ver apagar-se a luz do átrio, deu a volta à chave de ignição, arrancou, e procurou o caminho para a Segunda Circular. «Na primeira área de serviço vou tomar um café duplo», pensou. «Ainda são trezentos quilómetros até ao Porto.»

Publicado no Blogger a 23/08/06

Oásis

Naquele jardim secreto em que és a minha escrava,
O meu deslumbramento, quando te revejo,
É, como a dor, pungente, e enorme como um beijo
Que começa no fundo do tempo e não acaba.

Ali, envolta em véus translúcidos de linho,
Danças, obediente à voz do meu desejo.
Depois trazes baixelas, pratas, nozes, queijo
E serves-me descalça a fruta, o pão e o vinho.

Ó meu amor querido! Os teus pés nus! Os seios
Que descobres e dás à minha mão de dono!
O teu corpo que se abre em flor à minha frente!

Tu és a água e és a sede; os nós, os veios,
A seiva, a fonte fresca, a boca que abandono
Para beber da taça funda do teu ventre.

Vanderdecken

(Publicado no Blogger a 19/07/06)

Vilancete

Descalça vai para a fonte

Leonor pela verdura;
Vai formosa e não segura.

Traz uma bata estampada
Por sobre a saia de ganga,
T-shirt de meia manga,
Rosa no pé tatuada.
Tem a sola habituada
A pisar a pedra dura.
Vai formosa e não segura.

Dois garrafões transparentes
Que foram de água do Luso
Têm agora por uso
Ser bilhas sobressalentes.
Com estes recipientes
Parte em busca de água pura.
Vai formosa e não segura.

A mãe grita-lhe da porta:
“Vais sair nesse preparo?!”
Mas que cause ou não reparo
A ela pouco lhe importa.
Mesmo descalça recorta
Uma bonita figura.
Vai formosa e não segura.

(Publicado no Blogger a 11/03/06)

Os gostos não se explicam, não é?

Pois … mas o facto é que nem por isso deixamos de procurar explicação para eles.

Gosto de mulheres descalças porque os pés nus são de há muito um sinal de submissão e respeito. Moisés tirou as sandálias no cimo do monte Sinai, os muçulmanos descalçam-se para entrar na mesquita … sinal de submissão, portanto.

Mas também, paradoxalmente, sinal de liberdade: que o digas tu, leitora, de cada vez que chegas a casa exausta e atiras com os sapatos para o outro canto da sala. Que o digam todos aqueles – e conto-me entre eles – que sempre que podem tiram os sapatos, na praia ou no jardim público.

Sinal de sensualidade, também: o prazer de sentir sob os pés, ora uma textura, ora outra, a areia fina grossa da praia, a poeira fina do caminho, a pedra rugosa ou lisa do passeio, o mármore, a madeira, a carpete …

Andar descalço, diz-nos John Updike, é uma maneira mais discreta de fazer nudismo. Acho que tem razão: expor ao ar e ao vento partes do corpo que habitualmente andam tapadas, ainda que sejam só os pés, é uma forma de contacto com a natureza – com a Mãe Terra, dirão os mais místicos – que nos recorda que somos algo mais que o software instalado nos nossos cérebros.

Mas a principal razão por que gosto de ver uma mulher descalça não é nenhuma destas, é outra muito mais simples: uma mulher descalça é mais bela. Não, eu não disse «mais bonita»: disse «mais bela». Não é a mesma coisa.

Portanto, leitora, se hoje te apetece ficar mais bonita, uma das maneiras de o fazeres é calçar uns bonitos sapatos. E se os que tens em casa não te satisfazem, pega no teu cartão de crédito e vai comprar aquele par – tu sabes quais são, são aqueles que viste na montra e não compraste porque custavam uma pipa de massa.

Mas se o teu objectivo de hoje é a beleza; se queres ser hoje Ishtar e Afrodite; se queres que hoje sejam lançados por ti ao mar, como por Helena, mil navios – então, querida leitora, deixa para outro dia os tais sapatos, e descalça-te.

(Publicado no Blogger a 18/11/05)

Mulher

da-n-s-07-sk

O passo descalço
Seguro e meigo
Sobre a terra.

As ancas como as velas
De um navio
No regresso.

O canto, a dor, o riso,
O choro
A completude
Da fêmea.
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(publicado no Blogger a 19/10/05)

A uma Doce Amiga

Quero que sejas como o mar
Como a água salgada do mar
Que se abre à proa que a sulca e a envolve
E se fecha depois
Mas que tem segredos e naufrágios.

Quero que sejas como a terra
Depois da chuva morna
Ressumando
Que ergue para o céu as árvores e os homens
Mas oculta tesouros e histórias.

Quero que sejas a espera
A longa espera
Do prisioneiro que não sabe
Quando virá a liberdade ou da mulher
Que vigia na praia
A silenciosa espera
Atroadora

Quero que sejas a fundura
Dos poços e das grutas
Onde habitam as imagens
Do medo
Mas donde brotam
As águas puras.

(Publicado no Blogger a 18/10/05)

OS QUATRO DEUSES

Dedicado à Eva, à Ró e à Kris, três Mulheres superiores.

Allegro con brio

“Eu agora era o Gino”.

Marta não pôde deixar de sorrir com a formulação escolhida pelo amante, mais própria das brincadeiras infantis do que do jogo de amor a que neste momento se entregavam. Gino era um dos papéis que Miguel gostava de representar quando faziam amor: um jovenzinho sedutor, mediterrâ­nico na compleição, um efebo trigueiro, delicado de ossos mas com a musculação bem definida de um atleta. Nada disto, é claro, tinha grande seme­lhança com o corpo real deste quarentão já um pouco pesado que se debruçava sobre ela, sorrindo-lhe: mas os gestos do adolescente estavam lá todos, os modos, as infle­xões de voz. Marta não teve dificuldade em ver Miguel tal como ele se lhe propunha à imaginação: os olhos e os cabelos muito pretos e brilhantes sobre a pele tisnada, os cí­lios longos, femininos, o sorriso impudente. E imaginou-o noutros tempos, sob um sol siciliano ou grego, coroado de louros, triunfante no dardo e na corrida: que prémio lhe poderia ela dar senão o seu próprio corpo de mulher madura?

Estavam os dois num pinhal à beira-mar. Para lá chegar tinham percorrido de carro um longo caminho de terra batida. À distância conseguiam ouvir o marulhas das ondas na praia semi-deserta, frequentada apenas por alguns raros pescadores; mas aqui entre as árvores não havia o perigo de serem surpreendidos, e gozavam o luxo de se estenderem nus ao sol, sobre a areia das dunas. A areia estava entremeada de ramos secos, aguçados, e de plantas espinhosas; e Marta, que mesmo nua calçava as sandálias quando precisava de se deslocar uns metros, admirava-se da inconsciência com que Gino caminhava descalço entre os espinhos. Que as roupas se lhes enchessem de palhas e pólen pouco a incomodava, ou a ele. Uma vez tinham chegado a ir à ópera depois de passarem a tarde na mata; e se ela, que morava em Lisboa, tinha podido passar por casa para mudar de roupa, ele tinha ido com as mesmas calças desportivas e o mesmo blusão com que se tinha deitado na erva.

Entre as árvores que rodeavam a clareira havia dois ou três pinheiros mansos, e dos arbustos desprendia-se um perfume agreste que poderia bem ter sido o mesmo quatro mil anos antes: e nus como estavam, sem roupas que os situassem na História, quem os poderia distinguir de um outro par de amantes que milénios antes tivesse procurado o mesmo lugar? Até a comida que tinham trazido com eles poderia ter alimentado esse outro par: pão escuro de trigo, queijo de cabra, uvas passas, vinho tinto, mel.

Assim como Gino era fisicamente diferente de Miguel, também Marta se sentia diferente na sua presença. O seu pequeno corpo grácil e delicado, fino e flexível na cintura, doce e arredondado nas linhas da silhueta, parecia tornar-se-lhe seco e anguloso como o de uma sibila na sua caverna; e o rosto expressivo parecia-lhe endurecido como o de quem passou toda a vida na praia, mulher e mãe de marinheiros, augurando naufrágios.

Gino era egoísta e sôfrego no amor; quando ele a abraçou Marta preparou-se para a sua investida de jovem macho, “espera, espera um pouco, deixa-me pôr esta toalha por baixo,” e ele, “sim, amor, sim,” mas sempre o sexo erecto como um aríete a bater-lhe às portas do corpo, uma cega cabeça de carneiro a exigir entrada. E estes cegos embates, afinal, ao lado, em cima, em baixo; o breve momento de pânico ao senti-los próximos da outra entrada, “não, por aí não, por aí não quero”; os pequenos lábios do sexo esmagados como pétalas, os pelos repuxados – afinal estes embates, e depois a abrupta transposição de um umbral ainda meio seco, impreparado, e por via desta impreparação tão definido como o hímen de uma virgem; os embates cegos, o abrupto romper por ela adentro como uma nova desfloração; toda esta refrega inábil acabava sempre afinal por dar lugar a um deslizar tão macio e tão suave como a mais macia penetração pelo mais suave dos amantes. Virginação e desvirginação no mesmo acto.

Ei-lo agora, Gino, já dentro de Marta, indo e vindo nela sem impedimento nem atrito. O cabelo revolto é nele o que mais invoca o adolescente, e precisa de ser cortado: já faz caracóis na nuca e sobre as orelhas, e algumas madeixas desordenadas colam-se-lhe à testa com o suor. Com um gesto terno Marta acaricia-lhe a face, num convite mudo a que descanse um pouco: que lhe pouse a cabeça sobre os seios, que modere o ímpeto. Depois ajeita o corpo debaixo do dele, flecte os joelhos, planta os pés no chão e prepara-se para encontrar em si própria, na sua resistência ao embate, o espírito do êxtase; já que não será ele, decerto, amante inábil e sôfrego, a fazê-lo descer sobre os dois.

Sempre que Miguel se lhe representa sob a forma de Gino Marta sabe que lhe compete a ela assegurar o seu próprio prazer. Para Gino, encontrar-se dentro dela, por cima dela, face a face, é maravilha suficiente e sempre nova; e não lhe ocorre que esta simples, maravilhosa circunstância a possa deslumbrar menos do que a ele. Mas este entusiasmo ingénuo é o que o torna querido ao coração de Marta. Na sofreguidão de Gino, no suspiro triunfal com que se lhe acolhe ao corpo, sente Marta a devoção de um jovem acólito pela Deusa longamente desejada.

Gino não é um homem do mundo; não tem no amor o apuro que num homem do mundo é afeição e respeito, mas também frieza e cálculo. Um amante mais experiente seria capaz de gerir tempos e ritmos, posições e ângulos de ataque, com sabedoria e crueldade, num jogo de dádiva e negação que lhe prolongasse o prazer e lho tornasse, à míngua de desenlace assegurado, insuportável. Mas de tais refinamentos contaremos mais tarde: em Gino seriam deslocados e talvez obscenos.

Marta não queria que o amante tivesse um orgasmo demasiado rápido, e sabia que fizesse ela o que fizesse o pénis que com tanta sofreguidão lhe procurava o fundo do corpo se manteria firme e erecto, ligeiramente curvado para cima, reteso e duro como o dum adolescente. Podia mudar de posição, ajeitar o corpo como entendesse, que ele seguir-lhe-ia sempre os movimentos e permaneceria dentro dela, cravado nela, inextricável. Por exemplo: um movimento das nádegas para trás, um recuo, um retrair do ventre, e Gino já não consegue penetrá-la tão fundo como quer. A pressão maior faz-se agora sobre a entrada da vagina e o movimento faz-se agora ao longo dos pequenos lábios, roçando-lhe o clitóris. Só falta segurá-lo, impedi-lo de recuperar aquele outro ângulo de ataque que lhe pede o desejo imaturo.

Marta vê perpassar na expressão do amante um trejeito de contrariedade: ainda bem, desexcitou-se um pouco, retardou o orgasmo. Para se fazer perdoar, beija-lhe a boca, e remexe-lhe o cabelo como a um miúdo travesso. Depois deixa de tentar controlá-lo: vem-lhe o orgasmo, explosão incerta, e já não lhe é possível saber o que é liberdade e o que é restrição nos movimentos dele. Livre de toda a referência à areia, ao mar, ao mundo, o ventre de Marta não é agora mais do que o lugar virtual de todas as posições que o sexo de Gino poderá ocupar no seu vai-vem frenético. Eis Marta perfeitamente móvel, já que nenhum constrangimento a detém; perfeitamente imóvel, já que nenhuma força a propele; ei-la em liberdade. Agora dá-se toda ao amante, que livremente a penetra, como quer, até onde quer, e se esvai nela em prazer e em riso, como um fauno à solta, triunfante.

Andante – Scherzo

Mas um gesto basta, uma palavra, um capricho, uma subtil modulação no estado de espírito dos amantes, ou então uma mudança de cenário, para que Gino desapareça e em seu lugar surja um dos outros: Baltazar, por exemplo. Num quarto de hotel, claro e arejado. Sentado como um Buda na poltrona ao lado da cama, fresco do duche, cheirando a água de Colónia, a pele amaciada com cremes, calçado com chinelos de pelica e envolto num largo roupão vermelho e branco, Baltazar assiste à actividade doméstica de Marta, que se move pelo quarto arrumando roupas, alisando a cama.

Neste papel Miguel representa-se gordo e meio calvo, um sibarita polido que nunca se esquece de lhe beijar a mão. A pele bronzeada, lisa, esticada como que por uma pressão interior, tem a cor e o brilho discreto do couro antigo. No Miguel dos outros dias a gordura é apenas sugerida pela ligeira curva da barriga: mas este pouco basta para que Marta, de si magra e graciosa, consiga visualizar as largas pregas de carne, a vastidão da pele de Baltazar. Marta habita um mundo onde a magreza e a forma física são de rigor; e custa-lhe a admitir a correspondência metafórica entre a compleição física de Baltazar e uma qualquer faceta real da personalidade de Miguel. Mas na sua repulsa há também fascínio, e de resto Baltazar é tudo menos grosseiro: o corpo está sempre macio e perfumado, os cabelos aparados, as unhas arranjadas. Não se trata aqui de desleixo, mas de uma sensualidade inerte que radica na presença insolente da carne. Junto dele Marta sente-se mais alta, mais esguia, quase sem seios, a pele da face repuxada sobre os ossos: como se lhe competisse a ela compensar com uma magreza de manequim a corporalidade insolente do amante.

As mãos de Baltazar emergem-lhe das mangas enormes, de mandarim. No corpo redondo e sem pelos, na quietude perfeita, há qualquer coisa de oriental; mas Marta associa-o mais a uma certa ideia que tem de Itália, de Roma, do Vaticano. Às vezes trata-o por Monsignore ou Senatore, ou traduz-lhe o nome para Baldassare.

O amante faz-lhe sinal para que se aproxime; depois beija-lhe a mão polidamente e pede-lhe com um gesto que lhe acaricie o peito glabro em que a gordura fez crescer dois seios quase femininos na forma e no tamanho. Marta começa por se despir e descalçar; o roupão e as chinelas de cetim ficam no chão, abandonados. Entreabre-lhe o roupão e começa a beijar-lhe os mamilos de homem, que mesmo erectos mal chegam a sobressair das aréolas; e estas intumescem-se-lhe sob os dedos como pequenas tâmaras castanhas. Baltazar inicia então um jogo de imitação que consiste em retribuir à amante todas as carícias, uma a uma, gesto a gesto. Marta entra no jogo, e procura no corpo dele todas as partes onde quer ser acariciada; e como cada gesto seu é fielmente reflectido nos dele, acaba por ter a sensação de estar a acariciar-se a si mesma por interposta pessoa. Afaga-lhe e beija-lhe os mamilos, e em resposta sente-lhe os dedos curtos nas pontas dos seios, e depois os lábios sinuosos, sensuais. Para melhor o acariciar senta-se-lhe ao colo; põe-lhe a mão na cintura; depois desce-lhe à curva da anca: sob a pequena mão de Marta o flanco de Baltazar é uma massa de carne elástica e consistente, que só uma larga carícia permite abarcar em toda a superfície. A textura e a firmeza da pele fazem lembrar a Marta os luxuosos sofás de couro nos clubes ingleses; e por um momento tem a fantasia de estar num desses sofás, toda nua, embebendo-o com os fluidos que lhe começam a escorrer do corpo.

É ela que o puxa para a cama. O jogo de representações a que se entregam é tão sugestivo que se Miguel, no papel de Baltazar, se deitasse agora por cima de Marta, ela sentir-lhe-ia o peso ficcional como uma realidade física. Com Baltazar é sempre ela que fica por cima, sinuosa, envolvente, ligeira, movendo-se sobre ele em todas as direcções até se lhe empalar no sexo entumescido – mais curto e mais grosso, parece-lhe, e mais escuro, do que o falo nervoso e jovem de Gino. Desta vez, num impulso, sopra-lhe ruidosamente no umbigo, como se faz aos bebés, para os fazer rir. Baltazar exibe uma bela dentadura branca num sorriso; deixa-se acariciar, mimar, despir; e o seu grande corpo nu e sem pelos, de barriga para o ar, todo aos refegos, exprime uma beatitude de bebé satisfeito. Nestas alturas o desejo de Baltazar por ela deixa de ter – pelo menos em comparação com o de Gino – foco, definição, objecto ou urgência; mas nem por isso é menos intenso. A erecção torna-se-lhe menos firme e é a parte superior do corpo que se lhe enrubesce, como a de uma mulher no auge da excitação.

Marta, a quem as mulheres não atraem, tem contudo prazer nesta faceta feminina do amante. A redondeza de Baltazar lembra-lhe a forma esférica, perfeita, do andrógino de Platão. E talvez por isso gosta de fazer amor com ele como as mulheres o fazem – imagina-o ela – umas com as outras. Beija-o, acaricia-o, esfrega-se nele suavemente; e gosta especialmente de roçar levemente o sexo no dele numa carícia que não obriga a nada. Como quem dá um beijo com outros lábios. E com efeito: em casa dos pais de Marta havia uma criada analfabeta que por pudor ou poesia chamava à vagina a boca do corpo. É com os lábios ternos desta boca que Marta aflora a ponta do sexo de Baltazar; mas só por um momento, para não perder o controle e não dar por si a esfregar-se violentamente nele. Para melhor se controlar afasta-se ligeiramente, sem deixar de lhe beijar a face, de lhe acariciar o pescoço e o peito.

Cada um sente ainda no sexo a memória do outro – a memória ainda presente de um outro sexo material e vivo, aquiescente, faminto; e a certeza de que o contacto se restabelecerá em breve transforma o afastamento num prazer mais pungente. Entretanto Marta entrega-se aplicadamente aos beijos, às carícias, debruçada sobre o corpo do amante. Os seios pendem-lhe ternamente sobre a pele bronzeada. E pouco a pouco recomeça a aproximar o sexo do sexo dele. Baltazar é de todos, logo seguido de Jorge, o que mais profusamente a beija quando fazem amor; e Marta tem de novo a sensação de que ele estaria disposto a prolongar indefinidamente o rosário de beijos que lhe dá, de modo a fazer deles, não um preliminar do amor, mas a sua própria substância. E ama-o por isso. Mas não deixa de se dar conta da sua própria excitação, em breve irresistível; e repara também no pénis do amante, ao léu, reteso e virado impudicamente para cima. Como o de um bebé-homem que se prepara para fazer xixi, num arco glorioso e cristalino, no próprio momento em que se lhe muda a fralda. E este ponteiro endurece ou desintumesce ao sabor das carícias que ela lhe faz no peito ou na cara.

Chegou o momento de Marta se deixar penetrar. Por um momento beija o pénis do amante. Só por um ou dois segundos: o prazer de lhe ejacular na boca oferece-o ela algumas vezes aos outros três – por vezes até a Gino, que o aceita com alegria e gratidão – mas nunca a Baltazar. Assim que este sente no sexo a tensão dolorosa de uma erecção completa puxa-a para cima de si e ajeita-a segurando-lhe as ancas, meio agachada. Marta baixa os quadris sobre o falo erecto e começa a executar um movimento de vai-vem que rapidamente ganha em rapidez e amplitude. Mas agora é Baltazar que assume o controlo. À brusquidão sôfrega dos movimentos dela responde ele com um discreto, cruel retraímento, um afastar do corpo que lhe torna os movimentos mais lentos e mais suaves. Não é um movimento débil, pelo contrário: mas a sua força está toda na amplitude, não na rapidez. Marta sente-lhe as mãos nos quadris, sujeitando-a, prendendo-a; e dá largas à sua ânsia num lançar para trás da cabeça, num furioso sacudir dos ombros e dos cabelos, num arquejo impaciente. Se o amante lho permitisse inclinar-se-ia toda para trás, vergando-lhe o pénis dolorosamente para baixo: poderia assim sentir no ponto exacto a forte pressão da glande que o corpo lhe reclama. Baltazar compreende-a bem, mas não lhe faz a vontade. Os olhos, fixos nos dela, estão mais serenos e mais trocistas do que nunca, atentos a todas as expressões de sofrimento ou de gozo.

Marta, que ainda há pouco tratou Gino com a mesma crueldade, acolhe sem protesto esta privação. Mas não sem luta. Suada, macerada, desgrenhada, os cabelos pretos e compridos caídos sobre os olhos; um ricto de esforço na expressão; nos cantos da boca dois vincos de dor ou de prazer; selvagem, concentrada, montada no amante como um apache em guerra, lá vai Marta à desfilada atrás de uma apoteose que tarda, que tarda. A inércia obstinada de Baltazar frustra-a para além do suportável. Sabe muito bem que toda esta contenção tem um objectivo, mas não quer saber de objectivos: quer simplesmente correr até ao fim do fôlego, sem cuidar de saber que género de desenlace vai encontrar na meta; e ele, ele, em vez de se lançar com ela, honestamente, na mesma nobre cavalgada – prossegue, com uma ponderosa determinação que a exaspera, um objectivo.

Um objectivo: a própria palavra é pedestre e vil. O ritmo é, contudo, inexorável, e Marta sente que o seu prazer não vai tardar: há nos movimentos do amante uma força que o convoca, uma força latente. É ela que permite a Baltazar passar-lhe todo o comprimento do pénis pelo clitóris, vagarosamente, sem perder a erecção; e permite-lhe também tocar-lhe na zona da vagina em que ela mais quer ser tocada. Mas só quando entende fazê-lo, e só com a pressão e a duração que entende. Se Marta fosse mulher de dizer impropérios cobriria agora o amante dos piores. Em vez disso chora; e o orgasmo que a assola, quando finalmente vem – convocado só por ele, ordenado só por ele – cai sobre ela como um vasto crepúsculo, enorme e incompreensível como uma calamidade. Como orgasmo é muito mais intenso do que aquele que teria resultado momentos antes, se tal lhe tivesse sido permitido, da sua própria acção; e Marta acolhe-o com um grito prolongado; mas é um grito tanto de revolta como de prazer, e o sorriso com que agradece ao amante não obsta a que lhe molhe o peito com lágrimas de cólera.

Allegro marziale

Gino e Baltazar são seres estivais, muitas vezes suscitados pelo mar ou pela praia. Já Leonardo costuma surgir em ambientes outonais, sugerido às vezes pela chuva lá fora, outras pelo sol dourado de Outubro a entrar no quarto. Leonardo tem afinidades com as adegas de pedra, com o calor das lareiras, com as mesas robustas onde os queijos, os pães e os presuntos despertam apetites saudáveis. Mas também gosta das mesas sensuais que a amante lhe apresenta: mesas requintadas, com vinhos velhos, velas festivas, grandes guardanapos de linho; com morangos, uvas, mirtilos, framboesas; e com foie gras, caviar, champanhe.

Dos amantes virtuais de Marta ele é o que mais raramente se manifesta. Anuncia-se geralmente por uma larga gargalhada, por um atirar para trás da melena, ou por uma ordem peremptória dada num tenor viril – traços estes que nunca deixam de a surpreender porque correspondem, em Miguel, a uma zona habitualmente oculta da sua natureza.

O nome pôs-lho ela num fim de Verão. Tinham combinado ir à praia, à Figueira, mas o tempo ameaçava chuviscos e resolveram antes visitar Conímbriga. Miguel estava de calções e sandálias, revelando as pernas grossas, torneadas. Os pés pareciam tão sólidos como as lages antigas da estrada. “Se em vez de calções trouxesses um daqueles saiotes,” disse-lhe Marta, “serias um perfeito legionário.” E com efeito: com o rosto escanhoado, as pernas nuas, o cinto largo de couro, as grossas sandálias bem assentes no chão, Miguel tinha um ar de militar antigo. Mesmo o cabelo desgrenhado acabava por não destoar: conjugado com um certo gesto muito dele, um atirar para trás da cabeça, tornava-se juba de leão, penacho de guerreiro.

Depois, no quarto do hotel, exigira de imediato vê-la nua; e aceso o desejo, cevara-lho na carne tão prontamente mostrada; e tudo isto sem hesitação, com uma autoridade tão alegre e tão inocente que quaisquer objecções se encontraram desarmadas à partida.

“ O que tu fazes é devassar-me toda. E deitas-te a mim como um leão sobre a presa. Patife. Ainda por cima deixas-me toda excitada,” disse-lhe ela no fim. E mais tarde, deitados os dois a conversar, recapitulando com palavras e risos o amor que acabavam de fazer, o nome tinha surgido de repente:

“É, meu amor: exactamente como um leão. Devias chamar-te… sei lá, Leónidas, Leopoldo… não: Leonardo. Leonardo, o legionário.”

Foi a Leonardo que coube cumprir uma promessa que Miguel fizera a Marta, em Heidelberg. Estavam os dois na cama em casa dele. Tinham feito amor longamente e agora estavam a conversar, cansados e felizes. Ele, que não sabia estar com ela sem lhe tocar, acariciava-lhe a abertura do ânus. “Da próxima vez que estivermos juntos hei-de possuir-te por aqui.” Marta não respondeu. A razão por que ele a queria possuir por trás sabia-a ela, e não podia deixar de estar de acordo: não se tratava tanto do prazer físico que ele pudesse obter, mas sim de deixar claro que nenhuma parte do corpo dela lhe podia estar vedada.

Mas no encontro seguinte, em Brugges, Miguel não cumpriu a promessa. Nem depois, no dia em que tomou formalmente posse dela.

Mas desta vez sim. Era Outono. Ao chegar de Heidelberg entrou no apartamento de Marta com a voz vibrante e a passada firme de Leonardo. Passearam toda a tarde, e quando chegaram casa Marta preparou uma refeição com queijo, fruta, caviar dinamarquês e vinho tinto. O duche tomaram-no juntos. Jantaram sentados aos topos de uma mesa de vidro, embrulhados em robes; e o deslizar do tecido descobria-lhes por vezes, a ela um seio nu, a ele o topo das coxas. O trajo informal contrastava com o requinte da mesa: Marta tinha-se esmerado na escolha das louças e dos talheres, no dispôr das velas e dos guardanapos, no arranjo das flores.

Depois de jantar foram os dois para o sofá; e pouco a pouco, entre beijos e carícias, resvalaram para o tapete do chão. Quase sem notar tinham acabado por ficar nus; e agora colavam-se um ao outro, a todo o comprimento do corpo. O leitor de CD’s tocava o primeiro andamento de “Os Planetas”: Marte, o portador da guerra. As mãos de Leonardo percorriam as costas de Marta da nuca ao fundo das nádegas, devassando-a, e os dedos introduziam-se-lhe entre as coxas, separando-as, espremendo-as; e por fim acariciando-lhe o sexo ao longo dos grandes lábios, dos pequenos lábios, à volta do clitóris.

Os pequenos movimentos suaves e redondos que Marta fazia com os quadris foram-se tornando cada vez mais convulsivos. Leonardo inclinou-se para lhe beijar o sexo; e até nisto era diferente dos outros, de Baltazar por exemplo: enquanto este a titilava com pequenas estocadas da língua, Leonardo sorvia-lhe o clitóris juntamente com uma parte dos pequenos lábios, como se os quisesse beber; e a língua devassava-lhe a taça do sexo, ao longo da vulva, à boca da vagina. Foi assim que Marta se veio, sem um gemido, só com a respiração arquejante e os movimentos sacudidos dos quadris a traír-lhe a turbulência dos sentidos.

Quando Leonardo lhe olhou para a cara viu-lhe os olhos cheios de lágrimas.

“O que tu me fazes,” disse Marta. “As coisas que tu me fazes.”

Sem uma palavra Leonardo começou a beijar-lhe a cara e os olhos, debruçado sobre ela. Já não estavam colados um ao outro; mas Marta sentia-lhe ainda o falo insatisfeito e erecto, passeando-lhe sobre as coxas, sobre o ventre. Assim que o teve ao seu alcance pegou-lhe com as suas pequenas mãos; e sem o largar começou a beijar o corpo do amante, primeiro o peito, os mamilos, depois o ventre ligeiramente arredondado, por fim as coxas. A música continuava a tocar. O primeiro andamento chegara ao fim e um trilar de campaínhas anunciava o segundo: Vénus, o portador da paz.

Quando Marta tomou na boca o sexo do amante sentiu mais uma vez como mudavam as carícias que ele lhe fazia com as mãos. De firmes e determinadas – carícias de Leonardo, mãos de dono – tormavam-se agora hesitantes; e no suspiro que acompanhou esta mudança ia todo um mundo de rendição e de abandono. Durante muito tempo continuou a beijá-lo, a chupá-lo, disposta a retribuir o prazer que ele lhe tinha dado. Mas ao fim de algum tempo sentiu que o pénis se lhe tornava menos duro e que ele a puxava pelos ombros: “Anda cá.”

De novo colados um ao outro, coxas contra coxas, os seios dela contra o peito dele, a mão de Leonardo veio insinuar-se-lhe por entre as pernas, acariciar-lhe o sexo, o rego entre as coxas, e por fim, por longos minutos, insistentemente, o ânus. Mão de dono, de novo. “Quando estiveste em Heidelberg prometi-te que te havia de possuir por aqui,” disse-lhe ele num murmúrio rouco. “Vai ser agora. Se consentires.”

Marta escondeu a cara no ombro do amante. “Sim,” respondeu, numa voz quase inaudível. E enquanto ele se dirigia à casa de banho deitou-se de barriga para baixo, o rosto escondido na curva do cotovelo. Ao regressar Leonardo abriu uma pequena caixa de vaselina – a mesma que tinha utilizado na visita anterior para a possuir entre os seios – e lubrificou-lhe a abertura anal. Depois fez o mesmo a si próprio e apontou-lhe-lhe o pénis firmemente à entrada do ânus; passou-lhe o braço à volta do corpo e começou a acariciar-lhe o clitóris ao mesmo tempo que forçava a entrada a pouco e pouco. A lubrificação revelou-se eficaz; a penetração deu-se mais facilmente do que ambos esperavam; e ao fim de pouco tempo Marta ousou mesmo mexer os quadris como quando ele a penetrava pela outra abertura. A mão que lhe acariciava o sexo parecia-lhe agora, absurdamente, mais devassadora do que o falo que se lhe movia nas entranhas. Na fantasia de Marta Leonardo tornou-se de novo um legionário, um centurião, e ela própria um tenro escravozinho capturado, à falta de mulheres, para serviço dos oficiais. E talvez a fantasia dele estivesse a ser a mesma: a mão dele não se limitava a titilar-lhe o clitóris com as pontas dos dedos, mas abarcava-lhe o conjunto todo da vulva como quem toma o peso a um jovem pénis e respectivos testículos. Mas Leonardo não se fantasiava a fazer amor com um rapazinho. Se agarrava o sexo todo da amante era porque assim o sentia melhor; e era sem ambiguidade um sexo de mulher. A frescura e a redondeza das nádegas de Marta, a resiliência com que lhe amorteciam os embates violentos, as sonoras palmadas do pélvis, sugeriam-lhe não um rapazinho, mas as formas calipígias das mulheres do Sul, cântaros à cabeça, robustas, meneando as ancas sob um sol antigo.

Marta sentiu que os movimentos do amante se aceleravam, que a respiração lhe rouquejava, e que ele se lhe esvaía no fundo das entranhas. Na posição em que estava não podia vê-lo, só podia imaginar de memória as feições descompostas, a adoração e o riso; mas ouviu-lhe a respiração arquejante e as palavras desconexas e o quase grito que era quase uma oração. Ela própria não teve orgasmo; e talvez por isso soube-lhe bem que o amante se não retirasse imediatamente de dentro dela, que se deixasse ficar até que a progressiva flacidez do sexo operasse por si só a separação inevitável.

“Como estás?” perguntou-lhe ele por fim.

“Estou bem. Foi um pouco estranho. Estou contente.”

A música ia agora no quarto andamento: Júpiter, o portador da alegria. E depois de os amantes se virarem um para o outro, de se voltarem a acariciar, de conversarem e rirem, ela ainda lhe disse em voz baixa: “Quero dizer-te uma coisa: isto que me fizeste hoje – podes fazer-mo mais vezes, se quiseres.”

Adagio

E finalmente havia Jorge. Muito velho, muito alto, muito magro, e com uma pele de pergaminho, branca como a de um monge irlandês que há anos não saísse da sua biblioteca. Nos momentos de intimidade doméstica Jorge nunca escolhia um roupão como o de Baltazar, nem a nudez insolente de Leonardo ou Gino, mas um robe de algodão cinzento que era como um hábito monástico. Os pés grandes e ossudos, muito brancos, sobressaiam do cinzento escuro da orla.

Jorge era o asceta. Aparecia por vezes quando Marta e Miguel trabalhavam na mesma sala, absortos nas suas tarefas mas comprazidos com a presença pressentida um do outro. Por vezes Marta via-o levantar os olhos do livro que estava a ler e sorrir-lhe um sorriso tranquilo. Os olhos que a olhavam por cima dos óculos em meia-lua começavam já a ser olhos de homem velho, aquosos, e de um verde mais claro do que os de Miguel. Quando sorria de certa maneira, ou quando a luz do dia lhe incidia mais directamente sobre a face, chegavam a parecer azuis, e Marta lembrava-se da beleza emaciada de certos velhos, da sua pele quase transparente, do seu olhar de meninos. Para Jorge ficar completo só faltava a Marta imaginar a cabeleira ainda comprida e ainda desgrenhada, mas já muito branca e muito rala, deixando entrever o rosado do couro cabeludo.

Faziam amor quase só quando ela se lhe sentava ao colo, feiticeira, com gestos de menina. Os anos que ele acrescentava, no seu papel de Jorge, à sua própria idade, tirava-os ela à sua: vinte ou vinte e cinco anos para cada lado somavam cinquenta de diferença, e davam-lhes a deliciosa sensação de viverem uma relação incestuosa de avô e neta. Quando estava com Jorge Marta gostava de se vestir com uma blusa branca e uma saia curta de colegial, ou então, mais confortavelmente, com uma T-shirt do rato Mickey e umas peúgas de lã. Jorge tomava-a nos braços inesperadamente fortes e interrogava-a sobre as pequenas coisas do dia a dia. Enquanto falava com ela procurava-lhe com a mão ossuda o espaço entre as coxas. Depois masturbava-a; e ela abafava os soluços de excitação escondendo a cara no ombro dele.

Por vezes estendia-se por cima dela, quase cego, e tacteava-a como se só com as mãos lhe fosse possível reconhecê-la com suficiente certeza. Marta guiava-lhe o pénis semi-erecto para o lugar exacto. Esta semi-erecção mal bastava para a penetração inicial, mas uma vez transposto o primeiro portal tornava-se tão firme como a de um jovem. Jorge demorava sempre muito tempo a ter orgasmo, ou nem chegava a tê-lo; os seus movimentos eram por vezes débeis, e frequentemente tinha necessidade de descansar a cabeça no travesseiro, de modo que o tempo que demorava não significava para ela qualquer garantia acrescida de atingir o seu próprio climax.

Podia assim acontecer que nem um nem outro se viessem, e que o amor começado se lhes transformasse a pouco e pouco numa longa sessão de mimos e carícias – até que, quem sabe, Leonardo surgisse de repente, ou Baltazar, ou Gino, e a derrubasse de costas e se derramasse nela. Mas em vez disto podiam simplesmente adormecer os dois; ou podia Jorge começar a acariciá-la ou a beijá-la ternamente no sexo já dorido, tão ternamente e com tanta paciência que Marta acabava finalmente por encontrar o orgasmo, um orgasmo intenso, sereno, sem lágrimas.

Outras vezes podiam estar os dois sentados no sofá, talvez a ler ou a escrever. No leitor de CD’s podia estar a tocar, por exemplo, o quinto andamento de “Os Planetas”: Saturno, o portador da velhice. A mão de Marta insinuava-se então no roupão cinzento de Jorge e procurava-lhe o sexo flácido; e ele sorria-lhe, apertava-lhe a coxa, conversava com ela. Porque era sobretudo de palavras o amor que faziam. De todos os avatares de Miguel, Jorge era o único a ter perfeita consciência de como é perigoso misturar sexo e literatura; mas também era ele que mais prontamente corria, e a fazia correr, este risco. No panteão de Marta era ele o guardião dos labirintos e das ficções: todos os outros, incluindo Miguel, derivavam dele a vida que os animava. Geralmente a conversa retomava um qualquer assunto iniciado durante o dia, e em breve estavam os dois tão empenhados nela que Marta se admirava quando o sexo do amante lhe endurecia na mão como se tivesse uma vida independente da dos órgãos da fala.

Foram assim ganhando o hábito de se masturbarem enquanto conversavam, geralmente tão pouco interessados na conclusão da carícia como na da conversa; e foi nestas sessões que ele a contagiou com a sua predilecção por Edgar Allan Poe, Wilkie Collins, Stevenson. Por vezes contava-lhe histórias em que o maravilhoso ingénuo se unia à perversidade extrema; e se Marta chegava entretanto a um orgasmo, no caso de Jorge acontecia frequentemente que a erecção lhe desaparecia tão gradualmente como tinha aparecido, perdida nos labirintos de palavras em que os dois se tinham embrenhado.

Coda.

Gino, Baltazar, Leonardo, Jorge. Quatro nomes, quatro deuses em que o homem de Marta se compendi­ava para melhor se definir e para melhor a amar. Nenhum deles tinha a complexidade de Miguel: mas desde quando são os deuses tão complexos como os homens que os criaram? Marta dava-se conta que ao representar estes papéis o amante se lhe representava como se via a si próprio e como queria, ou temia, que ela o visse. Por ser Jorge, Leonardo, Baltazar ou Gino, o amante de Marta não deixava de ser Miguel: antes pelo contrário. Todos eles eram ficções, mas nenhum deles era mentira.

E de resto ela própria, Marta, se tinha durante muito tempo representado ao amante através de Mariana; e longe de com isso perder identidade, ganhara-a. Nas representações do amante, como na sua, ia uma dádiva. E nos lugares que ela amava – fosse no Algarve, num quarto branco de adobe, sentindo entrar pela porta o cheiro das alfarrobas; ou no Verão de Roma, num hotel de Roma, com varanda sobre a dolce vita de Roma; ou num pinhal à beira-mar, sobre uma manta, banhada nos últimos calores de um sol de Outono; ou ainda no Inverno, acolhida aos labirintos de uma biblioteca famosa – quando Miguel estava com ela eram estas representações que o completavam, e lhe conferiam a verdade que era a dele, e que o lugar exigia.


(Publicado no Blogger a 22/08/05)

Pensemos numa mulher moderna : inteligente, elegante, segura de si, financeiramente independente, profissionalmente realizada, cidadã dum país democrático. Imaginemos essa mesma mulher aos pés do homem que ama, beijando-lhos ; ou amarrada, possuída, constrangida ; ou torcendo-se de dor sob a vergasta, sabendo que no fim vai agradecer o castigo e abrir o corpo a quem lho aplicou.

Para muitas pessoas as duas imagens não podem ser sobrepostas. A primeira releva da modernidade, da liberdade, da justiça, do progresso, da razão ; a segunda do atavismo, da opressão, da ignorância, do abuso e da tirania, quando não da patologia psicológica ou social. Para participar numa cena como a descrita, um homem tem que ser um sádico sem escrúpulos, um sociopata perigoso, um criminoso psicótico, um monstro ; e uma mulher, para participar voluntariamente nessa cena, tem que ser igualmente um monstro : monstruosamente passiva, desprovida de dignidade, patologicamente dependente.

E contudo elas existem. E não são monstros : as que conheci até agora foram, quase sem excepção, invulgarmente inteligentes, eticamente exigentes, sensíveis nos relacionamentos, criativas e fortes nas convicções. Personalidades fortes, originais, e por isso muito diferentes entre si.

O que pode fazer duma destas mulheres uma escrava? Uma propensão especial para o masoquismo e para o sofrimento? Nunca conheci uma escrava que não quisesse ser feliz. Uma convicção inabalável de que os homens são intrinsecamente superiores ás mulheres e por isso merecem toda a deferência por parte destas? Deixem-me rir : o mito da superioridade masculina está morto e enterrado há várias décadas, e nem a escrava mais dedicada e submissa acredita nele. Quando muito acreditará na superioridade do seu Senhor sobre todos os outros homens, e portanto sobre ela própria ; mas iria jurar que mesmo isto não é sempre o caso.

Nunca notei, além disto, que a decisão de uma mulher se submeter completamente a um homem (ou a outra mulher) tivesse alguma coisa a ver com o seu carácter mais introvertido ou mais extrovertido, com a sua filosofia mais espiritual ou mais materialista, com as suas opções políticas mais progressistas ou mais conservadoras. Mas notei sempre um fundo de alegria existencial e de auto-confiança : lamúria não é com elas.

Numa relação Senhor/escrava há um aspecto moral – ou, se quisermos, kármico – que é inescapável : tudo o que a escrava dá tem um retorno. Retorno este que lhe virá do seu Senhor, se ele o souber dar, ou de outro lado se ele o não souber. A opção pela dádiva de si pode ser, e nalguns casos é, uma opção moral.

Por outro lado, a relação Senhor/escravo é a mais brutalmente assimétrica de entre todas as relações humanas. Mas assimetria não é sinónimo de desequilíbrio : desequilibrada, mesmo que quase simétrica, é por exemplo uma relação de abuso conjugal. Pelo contrário, o equilíbrio na assimetria é o equilíbrio mais satisfatório, porque não é estático, mas dinâmico. A opção duma mulher (ou dum homem) pela escravidão pode também ser, e nalguns casos é, uma opção estética.

Mas nada disto corresponde ao essencial da questão. O essencial da questão não é a opção moral, quer da escrava, quer do Senhor ; nem a opção estética ; mas sim, na minha opinião, o puro gozo de jogar o jogo de amor mais difícil e complexo, mais sério e apaixonante que é possível entre dois seres humanos.

Não me interpretem mal : eu escrevi «jogo», não escrevi «brincadeira». No tipo de relação a que me refiro joga-se, sim, e joga-se com paixão, alegria e empenho ; mas joga-se nada menos que a felicidade e o sentido da vida de (pelo menos) duas pessoas. Não é brincadeira nenhuma.

No cerne desta complexidade está a dinâmica senhor/escravo, observada desde há séculos por artistas (pensemos nas «Bodas de Fígaro», de Mozart, ou no filme «O Criado», de Joseph Losey) e estudada desde há décadas por sociólogos e psicólogos. Consiste nisto esta dinâmica : o escravo acaba sempre, numa certa medida, por ser senhor do seu Senhor, e o Senhor acaba sempre por ser Escravo do seu escravo. Isto, é claro, apenas em aspectos parcelares e acessórios da relação : descontando algum caso extremo, o senhor verdadeiro continua a ser o Senhor nominal e o escravo verdadeiro continua a ser o escravo nominal.

A inversão de papéis verifica-se sempre, independentemente da vontade de qualquer dos dois intervenientes. Na ópera de Mozart o criado conspira para adquirir o poder, no filme de Losey não conspira, ou conspira apenas para servir melhor : o resultado é o mesmo. Mesmo que o Senhor não queira, e que o próprio escravo o tente evitar a todo o custo, há sempre aspectos da relação em que o Senhor acaba por estar ao serviço do escravo. Gerir esta dinâmica de modo a que a relação não se inverta globalmente, por um lado ; e que as suas manifestações particulares contribuam para o êxito, e não para o fracasso, da relação, é um desafio fascinante e é a principal arma de que Senhor e escrava dispõem para impedir que a sua relação caia na rotina e no entorpecimento.

Qualquer Senhor digno desse nome sabe, ou pressente, a verdade do que acabo de escrever. Sabe que a sua escrava quer ser feliz e merece ser feliz ; sabe que provavelmente não é superior à sua escrava, nem em inteligência, nem em conhecimento, nem em beleza, nem em força de vontade, nem em generosidade ; pode quando muito aspirar a sê-lo em sabedoria, já que vai ter a responsabilidade de a guiar : mas nem isso está garantido à partida.

Um Senhor que se preze sabe ou pressente o imenso valor da dádiva que recebe, e sabe que tem que dar em troca algo de valor comparável ; sabe ou pressente que lhe compete a ele, mais do que à sua escrava, assegurar o equilíbrio perfeito na mais assimétrica de todas as relações ; e sabe que o jogo que joga com ela é um jogo em que, ou os dois ganham, ou os dois perdem. E se perdem, perdem tudo.

Um Senhor verdadeiro exige da sua escrava que o sirva, submetendo-se completamente – e exige-o com todo o direito. Mas também sabe, embora por motivos óbvios não o diga, que também ele a serve, dominando-a.

Por isso a prioridade absoluta de um verdadeiro senhor é a felicidade e a realização pessoal da sua escrava. Não é o seu próprio prazer (esse é a prioridade dela). Não é a sua carreira, nem o trabalho, nem o dinheiro, embora tudo isso seja importante. Não é o poder político nem a posição social. É, repito, a felicidade e a realização pessoal da sua escrava. Esta prioridade não torna o Senhor mais indulgente, é claro, nem menos exigente, nem mesmo menos cruel ; pelo contrário, torna-lhe claro que quando castiga e faz sofrer a sua escrava não está necessariamente a exercer um direito, pode estar em vez disso, ou além disso, a cumprir um dever.

E aqui peço de novo para não ser mal interpretado: o direito da escrava é à felicidade, não é ao prazer. Como a minha primeira escrava me escreveu uma vez, e como eu depois disso sempre disse às outras, uma escrava não tem direito ao prazer. Nada impede que o Senhor lho dê, e intensíssimo, e frequente, mas neste campo a decisão é dele e só dele. A escrava, pelo contrário, não tem qualquer poder de decisão : está sempre ao serviço do prazer do seu Dono, e de facto não tem sequer outra razão de existir.

Uma das principais diferenças entre uma relação Senhor/escrava e uma relação «normal» está nisto: um cônjuge, um amante, um namorado, tendem a ir prestando cada vez menos atenção ao seu parceiro. É compreensível, é humano, é natural : o mundo em que vivemos, competitivo, materialista, fatigante, fatigado e descrente, não se compadece com paixões avassaladoras e muito menos com paixões eternas. Numa relação «normal» os amantes podem dar-se ao luxo da desatenção – pagando um preço, é claro. Esse preço é a rotina, a morte em vida, o desamor. Uma escrava, pelo contrário, sabe que tem que estar sempre atenta ao seu Senhor : às suas palavras, às suas ordens, aos seus desejos, aos seus estados de espírito. Caso não esteja sempre atenta pode ser punida, às vezes severamente. O Senhor, pelo seu lado, sabe que é responsável pela felicidade e pela realização pessoal de outro ser humano : também ele tem que estar sempre atento à sua escrava.

Numa relação Senhor/escrava o desamor não é uma opção. Consequentemente, num mundo em que cada vez mais a norma é o desamor, a relação Senhor/escrava é, no sentido rigoroso da palavra, anormal. Ainda bem. É esse o seu grande título de nobreza e o nosso grande motivo de orgulho.


(Publicado no Blogger a 16/08/05)

CAMPOS ELÍSIOS

Felizmente a exposição tinha terminado. Mariana tinha levado para casa os quadros que tinham ficado por vender (poucos, felizmente), e o galerista tinha ficado de entregar os outros aos respectivos compradores. Para já, não estava com vontade de recomeçar a pintar. Brugges, no fim da Primavera, estava florida e verdejante. As trovoadas dos últimos dias estavam a dar lugar a dias cada vez mais luminosos e Mariana aguardava, numa feliz e serena expectativa, a sexta-feira, dia em que tinha combinado com Ricardo encontrar-se com ele em Paris, na Gare de l’Est.

Ricardo tinha marcado um quarto num hotel muito próximo da estação. O comboio dele tinha chegado cerca de meia hora antes do dela, e logo que se apeou Mariana viu o amante no cais, aproximando-se dela e sorrindo. Abraçaram-se, ela erguendo-se um pouco na ponta dos pés para lhe chegar aos lábios, ele inclinando um pouco a cabeça. O beijo demorou muito tempo, tanto quanto o necessário para preencher os meses de ausência precedentes; no fim, Ricardo acariciou os cabelos e a face de Mariana e deu-lhe a mão a beijar, o que ela fez num movimento rápido depois de olhar à volta e ver que ninguém parecia estar a reparar neles.

Mariana trazia uma saia comprida e rodada, ao estilo do que com o tempo se tinha tornado o seu traje de escrava; e, de acordo com o mesmo código, não trazia soutien, como Ricardo verificou, agradado, ao passar-lhe a mão pelas costas; mas não vinha descalça, trazia os pés enfiados numas socas que a faziam parecer mais alta.

Saíram da estação por uma porta lateral, a que ficava mais perto do hotel. No quarto, demoraram a desfazer as malas porque havia sempre mais um beijo ou uma carícia que interrompia a tarefa. Ricardo tirou da mala a vergasta vermelha que levava sempre quando ia ver Mariana e colocou-a bem visível sobre a escrivaninha. Para limpar o suor e o pó da viagem tomaram um duche rápido, um de cada vez, e vestiram os roupões de cetim que tinham trazido e que já faziam parte do seu ritual – o dela branco-marfim, o dele vermelho escuro com riscas verticais cor de creme.

Os roupões, de resto, pouco ocultavam. A Ricardo, sentado na pequena poltrona do quarto, as abas abriam-se dos lados, descobrindo-lhe as coxas. Mariana, ao ajoelhar à frente do amante, pôde ver-lhe o sexo já meio erecto, ao mesmo tempo que lhe mostrava no decote bambo os seios nus.

Pouco tempo gastaram em carícias, porém. Mariana mal tinha aflorado com os lábios o sexo do dono, e Ricardo mal tinha sopesado os seios oferecidos da sua escrava, quando esta se levantou, despiu o robe e se deitou de costas sobre a cama:

– Vem…

– Sim, minha escrava.

E deitou-se sobre ela para lhe beijar a boca e para logo a seguir a penetrar com uma única estocada que a magoou um pouco.

– Vou vir-me já, minha escrava, não vou aguentar.

– Sim, meu querido, vem-te já, dá-me tudo.

Mas apesar da rapidez com que Ricardo atingiu o orgasmo, Mariana também teve o seu, apesar de nada ter feito por isso e de ter dedicado todos os seus movimentos ao prazer do amante.

Assim ficaram uns minutos, parados, trocando beijos, Ricardo descansando sobre Mariana, o sexo ainda a desintumescer dentro dela, como gostavam os dois.

Da conversa que tiveram na sesta não conto, porque foi igual a todas as que os meus leitores experimentaram na mesma situação. Direi apenas que conversaram entre beijos e carícias, e que passado algum tempo o sexo de Ricardo começou a endurecer e a crescer de novo dentro de Mariana; que esta, sentindo-o, rolou para cima do amante e começou a encorajá-lo com pequenos movimentos rotativos dos quadris; e que desta vez o amor que fizeram se prolongou o suficiente para lhes deixar os corpos macerados e exaustos de prazer.

Por fim sentiram fome; mas, como não lhes apetecia comer em público num restaurante e o hotel não tinha room service, voltaram a lavar-se, vestiram-se e desceram à rua. Nas imediações da Gare de l’Est há ainda pequenas mercearias, lojas de fruta e padarias: compraram pão, fruta, queijo, patés, água e vinho e fizeram um piquenique a dois no quarto enquanto iam desfazendo as malas e arrumando as roupas nos cabides. Ricardo tirou da mala a vergasta que Mariana já conhecia, uma vara flexível, muito bonita, revestida a seda vermelha com a ponta e o punho em cabedal preto, e colocou-a em lugar visível sobre a secretária.

Arrumado o quarto e tomada a refeição, desceram e foram passear para a rua. Começaram a andar na direcção de Pigalle: era longe, mas não tinham pressa, ainda era de dia e o tempo estava bom. Comparada com Brugges e com Heidelberg, Paris pareceu-lhes bastante suja, mas na disposição em que estavam de ter prazer em tudo essa sujidade não foi para eles incómodo. Subiram o Boulevard Magenta divertindo-se como dois adolescentes com tudo o que viam, percorreram Rochechouart aos beijos, passaram o Moulin Rouge e ao anoitecer estavam sentados à mesa, de mãos dadas, num pequeno bar onde uma banda jazz tocava clássicos dos anos quarenta. Já era de noite quando prosseguiram a caminhada até ao fim do Boulevard de Clichy.

De repente deu-lhes a pressa. O corpo de cada um deles pedia o do outro, colado contra si a todo o comprimento. Tinham que ir para o hotel, já, já, sem demora. Tomaram o primeiro táxi que viram, pagaram exageradamente ao motorista, subiram ao quarto e despiram-se atabalhoadamente um ao outro. Por fim, nus, recomeçaram o ritual de beijos e carícias que tinham iniciado no táxi. Nessa noite Ricardo não amarrou Mariana, nem usou nela a vergasta, limitou-se a possui-la uma vez sem contemplações nem piedade, e depois outra vez, com ternura e cruel requinte, no intervalo duma conversa de travesseiro que durou pela noite fora.

No dia seguinte, logo de manhã, foram os dois passear pela cidade. O tempo estava de primavera, um pouco fresco mas com uma promessa de calor para a tarde. As nuvens que no dia anterior tinham visto durante a viagem tinham-se reduzido a uns poucos farrapos muito brancos atrás dos quais o sol raramente se escondia. A luz – a luz era a luz de Paris, inconfundível com a de qualquer outra cidade, uma luz que tinge tudo em que toca dum cinzento nacarado quase branco. Ricardo trazia um blusão de cabedal preto sobre uma T-shirt branca e uns jeans, Mariana uma saia vermelha até aos pés e um top translúcido de seda cinzenta, forrado à frente. Por cima trazia um casaquinho branco e nos pés as socas do dia anterior. Tomaram o Metro para a Place de la Concorde, andaram nos jardins do Louvre e nas Tuilleries, observando os parisienses e os turistas que bebiam refrescos nas esplanadas ou tiravam fotografias junto às fontes.

Subitamente, a meio da ponte de La Concorde, Ricardo exigiu que Mariana se descalçasse, o que ela fez prontamente e entre risos, mas corando um pouco e olhando à volta a ver se alguém reparava. Ele próprio guardou as socas da amante no saco que trazia a tiracolo, tirando-lhe assim a possibilidade de se calçar de novo sem pedir primeiro; Mariana mostrou-se um pouco mais envergonhada do que já estava, mas não se opôs e passado uns minutos estava de novo risonha e descuidada, pendurando-se animadamente no braço de Ricardo enquanto percorriam um pouco do Boulevard Saint-Germain para depois voltar à esquerda de novo em direcção ao rio.

Nas imediações do Museu d’Orsay, numa esplanada, almoçaram; durante o almoço Ricardo permitiu que Mariana se calçasse o tempo suficiente para entrar no restaurante e ir à casa de banho, mas ao mesmo tempo ordenou-lhe que virasse o top de trás para a frente de modo a que o forro ficasse atrás e se vissem os seios à transparência. Mariana protestou um pouco contra esta exigência do seu dono, mas ele sorriu: sabia muito bem que o protesto era um pró-forma, que se ela própria não tivesse mencionado logo de manhã essa possibilidade que o top oferecia não seria ele a dar-se conta dela… e de qualquer modo, com o casaquinho branco vestido mal se notava, como mal se notavam os pés nus por baixo da saia comprida.

Antes de entrarem no museu estiveram os dois sentados nos degraus da entrada lateral, a comer gelados. Nesta posição a saia vermelha de Mariana subia-lhe um pouco pelos tornozelos acima, revelando os pés nus; e Ricardo mandou-a tirar o casaco. Um turista consentiu em fotografá-los juntos: Ricardo sentado um degrau acima de Mariana, as sacolas e os casacos pousados, o top dela mais transparente na fotografia do que parecia ao vivo. Mariana aparece risonha e um pouco envergonhada, a tapar a boca com a mão.

– Posso calçar-me? Não me vão deixar entrar descalça no museu…

– Vamos ver – respondeu Ricardo.

– Mas ao menos visto o casaco…

– Está bem.

À entrada os funcionários mostraram a mais gaulesa das indiferenças perante o traje da visitante. As socas ficaram no vestiário, dentro de um dos sacos, e Mariana descobriu, como havia de confessar mais tarde, que não há maneira mais íntima nem mais confortável de percorrer um museu do que fazê-lo assim, de pés nus sobre o chão polido.

Bem mais áspero era o pavimento na rua. Sobre as pontes de La Concorde, des Invalides, Alexandre III, de l’Alma, Ricardo fotografava Mariana, sempre em movimento, caminhando em direcção a ele ou de perfil, porque se ficasse parada a saia comprida lhe ocultaria os pés. Mariana vestia o casaco sempre que chegava a um lugar com muita gente, não queria mostrar os seios à transparência sob o top cinzento, mas Ricardo estava sempre a ordenar-lhe que o tirasse e ela obedecia, um pouco corada mas sem que isso lhe custasse por aí além.

Por fim habituou-se aos olhares que atraía (poucos e discretos, para dizer a verdade), ou esqueceu-se de sentir vergonha, ou começou a sentir prazer na liberdade do corpo sob o céu primaveril. Atravessou a Place de La Concorde de braço dado com o dono e começou a ver com ele as montras dos antiquários e dos joalheiros na Rue de Rivoli, tão à vontade na sua nudez que foi ele que se lembrou, quando as sombras se começaram a alongar, de a mandar vestir o casaco e de lhe devolver as socas.

Jantaram por ali num pequeno restaurante. Comeram magret de canard e beberam vinho da Borgonha, um Châteauneuf du Pape que devolveu a Mariana, pouco habituada ao álcool, a animação que crepúsculo lhe tirara. A refeição foi rápida porque Ricardo tinha bilhetes para o Crazy Horse e ainda precisavam de ir ao hotel mudar de roupa. Mariana tinha um vestido roxo transparente, com um forro opaco da mesma cor, que tinha comprado numa boutique em Brugges durante um passeio com Ricardo. Calçou umas sandálias prateadas de salto alto, vestiu umas cuequinhas minúsculas de renda lilás e não pôs soutien porque Ricardo não lho autorizou. Com aquele vestido e aquelas sandálias não podia usar dourados: pôs um discreto colar de pérolas, uns brincos de prata, e uma pulseira de escrava também de prata. Ricardo trocou os sapatos desportivos por uns pretos, vestiu umas calças com vinco, uma camisa azul clara e um casaco de cabedal castanho-escuro.

Na recepção do hotel pediram que lhes chamassem um táxi. Ricardo imaginava que o Crazy Horse ficava na zona de Pigalle, nas imediações do Moulin Rouge, mas o táxi levou-os em vez disso para a zona de l’Étoile, não muito longe da Avenue Foch, dos hotéis de luxo e das embaixadas. Um arrumador vestido de smoking conduziu-os aos seus lugares – não em mesas, como tinham imaginado, mas num anfiteatro, com pequenas superfícies à frente das poltronas para os espectadores pousarem as bebidas. O palco era muito mais pequeno do que parecia na televisão, mas, como puderam ver ao longo do espectáculo, dispunha de condições técnicas dignas de qualquer grande sala.

Bonsoir, Monsieur-Dame. Vous désirez?

Two screwdrivers, please – respondeu Ricardo em inglês.

Parfaitement, Monsieur.

Mariana quis saber o que era um screwdriver:

– Isso não quer dizer chave de parafusos?

– Sim, mas também quer dizer vodka com sumo de laranja – respondeu Ricardo. Só não pedi vodka-orange porque não quis falar com este fulano na língua dele.

– Ora aí está uma boa regra – comentou Mariana.

Bebeu um trago e perguntou:

– Porque é que um vodka-laranja se chama chave de parafusos?

Because it makes you screw like crazy after you drink it.

Mariana engasgou-se de riso:

– Isso é uma promessa?

– Não, é uma lei da natureza. Logo vais ver.

O espectáculo centrava-se nos efeitos de luz sobre os corpos nus das bailarinas pelos quais o Crazy Horse é famoso, mas incluía também números de cabaret, de ilusionismo, de acrobacia e de comédia. Ao ver um dos números Ricardo e Mariana tiveram dificuldade em conter o riso porque as bailarinas vinham cobertas por uns vestidos transparentes iguais o dela, só com a diferença de não terem forro e de elas estarem completamente nuas por baixo.

Por esta altura já Ricardo e Mariana tinham bebido o seu segundo e último screwdriver. Quando o espectáculo terminou pouco depois, saíram os dois abraçados para a rua, onde tinha começado a chuviscar. Enlaçaram-se sem querer saber da chuva, Mariana colou-se toda ao seu dono, ao seu amante, com os braços à volta do pescoço dele e um pé no ar, na pose clássica dum beijo cinematográfico.

Só depois trataram de arranjar táxi. No banco traseiro do carro, perdidos de riso e de tesão, caíram um sobre o outro. Ricardo ordenou a Mariana que se soerguesse no banco e tirou-lhe as calcinhas, que guardou no bolso do casaco. Depois pôs-lhe a mão direita entre as coxas de modo a que o motorista não visse e começou a acariciar-lhe o sexo, que encontrou alagado.

Mariana teve que se conter para não gemer de prazer. O motorista olhava para eles de vez em quando pelo espelho retrovisor, aparentemente imperturbável, mas era impossível que não se desse conta. Com a sua mão pequenina procurou a saliência nas calças de Ricardo: em parte porque não cabia em si de impaciência, em parte porque o queria distrair da concentração que ele punha em masturbá-la. Um orgasmo ali, num táxi, com o motorista a ver e a ouvir tudo, não podia ser!

O carro seguia a toda a velocidade, cortando as esquinas, às vezes derrapando um pouco, e desmentindo assim a aparente impassibilidade do chauffeur. Depois de os deixar no hotel e receber o preço da corrida o homem arrancou bruscamente, com um chiar de pneus que exprimia o que pensava de semelhantes passageiros. Ricardo e Mariana conseguiam cada vez menos conter o riso: quebrar o cool dum taxista parisiense não é façanha para qualquer um.

Atravessaram assim o átrio do hotel, hílares e abraçados, perante o ar de divertida tolerância do concierge, sem reparar que as calcinhas de Mariana estavam meio caídas do bolso de Ricardo. No quarto, depois de se terem arranjado os dois e de Ricardo ter vestido o roupão, Mariana fechou-se na casa de banho para emergir uns minutos depois com as mesmas sandálias, as mesmas jóias e o mesmo vestido que tinha levado à rua – mas desta vez sem o forro opaco.

– Agora vai haver outra vez Crazy Horse – anunciou.

Ricardo não resistiu a pegar na máquina fotográfica e registar o riso solto da sua escrava, a cabeça lançada para trás, o corpo visto à transparência por baixo do vestido. Capturou-a encostada à porta numa pose de vamp, no meio do quarto a dançar o Charleston, junto à janela a olhá-lo por cima do ombro com os olhos semicerrados. Depois fotografou-a a despir-se: primeiro a tirar os brincos – um dos gestos mais excitantes que uma mulher pode fazer; depois as outras jóias. Ao tirar as sandálias, Mariana atirou-lhe um beijo:

– Pronto, aqui tens de novo a tua escrava descalça.

Ricardo sorriu:

– Ai é? Então amanhã vou querê-la descalça o dia inteiro.

– Julgas que não sou capaz? Eu sou capaz de tudo.

Dum gesto só tirou o vestido. Sentou-se na cama toda nua ao lado do amante e abraçou-se a ele, que a comia com beijos. Abriu-lhe o roupão para lhe procurar e acariciar o sexo erecto, abriu as pernas à mão que lhe subia pelas coxas e retribuiu-lhe apaixonadamente todos os beijos, lábios com lábios e língua. Mas quando ele a quis montar, disse-lhe:

– Espera.

E saltou agilmente para fora da cama, para junto da secretária onde repousava, esquecida, a vergasta vermelha.

– Toma, meu senhor – disse ao amante, estendendo-lha com ambas as mãos. – Castiga a tua escrava.

Se ao perscrutar a sua amante ajoelhada Ricardo a tivesse visto de olhos baixos, como sugere a convenção, não teria pegado na vergasta que ela lhe oferecia. Mas deparou-se com um olhar directo e frontal que não era desafio nem prece, mas sim confiança e certeza. Levantou-se da cama, mal reparando que ao fazê-lo açoitava sem querer, com o pénis erecto, a face da sua amada. De pé diante dela ordenou:

– Então beija a vergasta.

Depois mandou-a deitar de bruços na cama e começou a açoitá-la nas nádegas. Cada açoite deixava uma marca vermelha escura na pele morena. Mariana estremecia ao ouvir cada silvo e gritava baixinho a cada golpe, virando para Ricardo uns olhos que pareciam perguntar porquê; depois enterrou a cara na almofada e ficou assim, gemendo quando a dor era mais forte. A cada pancada o corpo saltava num espasmo, para logo regressar à posição que lhe tinha sido determinada. Nas nádegas de Mariana os vergões formavam agora um padrão em losangos, vermelhos, ligeiramente salientes. Ricardo passou a alternar as vergastadas que lhe dava nas nádegas com algumas nas costas, até aos ombros que tremiam. Ao fim de uma eternidade terminou o castigo com duas vergastadas nas coxas, uma das quais caiu mesmo na dobra das nádegas e arrancou a Mariana um grito que nem a almofada conseguiu abafar.

Mariana deixou-se estar na mesma posição, com a cara escondida, ouvindo o dono mover-se pelo quarto. Sobressaltou-se apenas quando sentiu um flash, e então virou para a máquina fotográfica o rosto lavado em lágrimas.

– Não me tires fotografias, olha o estado em que tenho a cara.

Mas Ricardo queria uma reportagem completa daquela noite. Fotografou-lhe os olhos macerados, as marcas no corpo, o corpo inteiro. Fotografou-a deitada de bruços, sentada na cama, ajoelhada, beijando o instrumento da sua tortura, símbolo da sua servidão.

Depois desembaraçou-se do roupão, que ainda tinha vestido, e deitou-se de costas todo nu no meio da cama, o pénis rígido e arrogante erguido no ar.

– Anda cá, escrava.

Mariana deitou-se ao lado de Ricardo e começou a beijá-lo na cara, secando as lágrimas com os cabelos, os seus e os dele.

– Meu amor…

Lentamente começou a subir para cima dele, primeiro um beijo na boca, uma carícia no peito com os seios macios, depois uma coxa a cobrir-lhe a perna… Ricardo continuava aparentemente impassível, as mãos cruzadas por baixo da nuca, respondendo só com beijos às múltiplas carícias da amante. Esta, mais afoita minuto a minuto, trepava por cima dele, insinuava-se, beijava-lhe o pescoço e os pequenos mamilos de homem, montava nele por fim, escarranchada, beijava-lhe o sexo com os lábios da vulva e procurava empalar-se nele. Mas ele esquivava-se, fugia-lhe com o corpo e consentia apenas em acariciar-lhe a racha com a ponta do pénis.

Mariana começou então a esfregar-se nele, deslizando o sexo molhado para trás e para diante sobre a grossa, túrgida veia que se estendia da raiz à glande. Mas ele deteve-a:

– Não, minha escrava, assim não. Beija-me com os teus lábios de baixo.

Mariana sentiu vontade de ganir, presa por esta ordem do dono como por uma corrente de aço. Pôs-se a tactear a glande do amante – tão grossa, tão macia! – com os lábios do sexo, com o clítoris, com o vestíbulo e a entrada da vagina, até ao lugar onde teria o hímen se ainda fosse virgem.

Este tormento, este prazer, durou uma eternidade, talvez minutos, talvez horas, até que Ricardo subitamente tirou as mãos da almofada para a virar brutalmente de costas, lhe cruzar os pulsos delicados, segurá-los numa das mãos, deitar-se com todo o seu peso em cima dela, e penetrá-la de um só golpe que a fez vir-se imediatamente. Mas ainda não tinha acabado de se servir dela: as estocadas com que a possuía repetiam-se, vigorosas, o ventre dele contra o dela fazia um ruído molhado de palmadas, os joelhos peludos obrigavam-na a abrir as coxas mais e mais, até que ao primeiro orgasmo se seguiu outro, e outro, Mariana nunca veio a saber quantos, o último dos dela acompanhado pelo único do amante.

Por fim ele descansou sobre ela, ofegante, todo o peso do corpo sobre ela, a cabeça repousada no ombro macio, chamando-lhe meu amor, minha escrava linda, o pénis a ficar flácido sem sair da vagina. Mariana sorria-lhe entre lágrimas, dizia-lhe «descansa, meu amor», beijava-lhe o cabelo e, apesar de ainda estar aprisionada debaixo dele, acariciava-o como podia.

Por fim um dos dois fez um movimento para se ajeitar melhor e o sexo dele, já completamente flácido, saiu de dentro dela sem que o pudessem evitar. Mariana levantou-se para se ir lavar e Ricardo voltou a deitar-se de costas, desta vez com um braço a tapar os olhos e o sexo caído para a esquerda sobre o ventre, esperando que Mariana voltasse com toalhas, água morna e sabonete para o limpar como ele gostava.

– Agora vou-te lavar, meu querido.

– Sim, minha escrava, mas primeiro limpa-me com a boca…

E quando Mariana, cumprida esta ordem, se ia a levantar, Ricardo acrescentou:

– E beija de novo a vergasta.

– Sim, meu senhor querido.

Mariana pegou de novo na vergasta, da qual tinha as marcas no corpo, mais vermelhas ainda do que imediatamente a seguir ao castigo; ajoelhou-se, fechou os olhos e beijou-a. Depois pousou-a sobre a cama e começou a lavar o seu senhor com delicadeza e ternura até o perfume do sabonete predominar sobre os odores do sexo que permaneciam no quarto. Por fim deitou-se ao lado dele, abraçou-o, e começaram os dois a fazer o balanço do dia, Mariana descalça no Museu d’Orsay diante dos quadros de Manet e Ingres, a blusa virada de trás para a frente, as lojas na Rue de Rivoli, o peito de pato e o vinho da Borgonha, o Crazy Horse, as bailarinas de roxo, o taxista…

Ricardo possuiu Mariana ainda uma vez nessa noite, meigamente, docemente; esvaiu-se nela e adormeceram os dois.

O domingo amanheceu com sol e poucas nuvens. Ricardo e Mariana saíram do hotel de manhã. Faltando à promessa que tinha feito na noite anterior, Ricardo autorizou que Mariana saísse calçada do hotel, mas em troca proibiu-lhe o casaquinho branco – felizmente estava calor – e exigiu que o top cinzento fosse de novo usado de modo a que se vissem à transparência os seios da amante, muito redondos e um pouco grandes para o tórax estreito. Também a saia era a mesma do dia anterior, comprida, vermelha e um pouco pesada no cair.

Tomaram o metro para Les Halles, onde mudaram para a linha que os havia de levar à Avenue Georges V. Aí chegados, Ricardo ordenou finalmente a Mariana que se descalçasse, o que ela fez prontamente e de boa vontade. Perdida por cem, perdida por mil: pôs à cintura uma écharpe às franjas que tinha pensado vir a pôr mais tarde pelos ombros, se Ricardo autorizasse, para tapar um pouco os seios. Desceram a avenida em direcção à ponte de l’Alma, onde já tinham estado no dia anterior, e depois viraram pela Avenida do Presidente Wilson. À sua esquerda, do outro lado do rio, ia-se agigantando a torre Eiffel, mas não viraram na sua direcção. Subiram a Avenue d’Iéna com todos os vagares, com a amante de Ricardo vestida de cigana a meter o nariz nas ruas transversais, onde moram os elegantes e os milionários, e a escolher para caminhar as superfícies mais lisas dos passeios.

No Arco do Triunfo descansaram e comeram alguma coisa. Desceram a pé os Campos Elísios, divertidos com todas as coisas que viam, grandes ou pequenas, desde a arquitectura de Barão de Haussmann até às lojas, aos turistas e aos pardais que depenicavam no chão. A luz que inundava tudo parecia-lhes mais viva por contraste com as sombras decentes e discretas do Seizième Arrondissement, por onde tinham andado de manhã. Mariana parecia já não se lembrar, ou não se importar, com os pés descalços nem com os seios semi-nus. Nem mesmo depois de atravessarem a Place de La Concorde em direcção à Rue de Rivoli, onde as pessoas andam muito mais apertadas e se vêem de muito mais perto, e de um senhor de idade com aspecto de dandy ter tido um pequeno sobressalto de surpresa ao ver-lhe o peito, nem depois disto ocorreu à amante de Ricardo tapar-se um pouco mais. Só ao fim da tarde pediu ao dono que a deixasse pôr as socas, quando já estavam na estação do metro de Les Halles prontos a regressar ao hotel; mas não insistiu quando ele recusou.

Teve só um pouco de vergonha quando atravessou o átrio do hotel. No quarto, a primeira coisa que fez foi tomar um duche, mas não conseguiu raspar completamente das solas dos pés a sujidade acumulada durante um dia inteiro a pisar a poeira e o alcatrão das ruas.

Comeram os dois no quarto, de roupão, sentados na cama: pão, queijo iogurtes e fruta. Depois, como não queriam abandonar Paris sem brindar com champanhe, mandaram vir uma garrafa e duas flûtes, capricho este que lhes ficou por um preço exorbitante.

No momento de brindar Mariana quis beijar de novo a vergasta, que tinha ficado abandonada em cima da cama e que as camareiras tinham arrumado sobre a secretária. À noite o amor que fizeram foi já uma despedida: abraçaram-se com força, beijaram-se com ânsia, e não adormeceram antes que o céu começasse a clarear.

TALISMÃ

Victor chegou pontualmente às oito e vinte. Quando dunya ouviu a chave dele na porta, correu do quarto, onde se encontrava, para a sala, que era onde ele lhe tinha ordenado que o esperasse. Sabia que o slap slap apressado dos seus pés nus, impossível de confundir com qualquer outro ruído de passos, podia ser ouvido da entrada, onde Victor estava neste momento a pendurar o sobretudo e o chapéu.

A mesa estava posta para os dois, a comida estava pronta a ser servida e dunya estava vestida como ele tinha ordenado: pés e seios nus, mamilos pintados da cor dos lábios, cabelos soltos; um sarong preto com franjas compridas à roda das ancas, anéis tanto nos dedos dos pés como nos das mãos, bijuteria nos tornozelos, nos pulsos, no pescoço. Ajoelhou-se junto do sofá, virada para a porta da sala, como mandava o ritual, de modo que ele a visse imediatamente ao entrar.

– Baixa os olhos – ouviu-o dizer, ainda do vestíbulo.

Grata por Victor lhe ter lembrado esta regra e um pouco irritada consigo própria por ser preciso lembrar-lha, dunya baixou os olhos. Isto fez com que só visse do seu Senhor, quando ele se aproximou dela, as calças de bombazine pretas e as botas próprias para a neve. Não resistiu a erguer os olhos um pouco para lhe ver a zona da carcela: a protuberância por baixo do tecido denunciava o sexo erecto, e dunya sentiu-se enlanguescer ao ver que o amante tinha ficado excitado só de a ver.

Quis olhá-lo nos olhos e sorrir-lhe, ver a disposição dele, mas conteve-se. Via-lhe as mãos, primeiro a que ele lhe apresentou para beijar, depois a outra, a esquerda, onde ele segurava um pedaço de tecido preto que pareceu a dunya ser de seda ou cetim.

Quando ele se pôs por trás dela, dunya olhou de novo para o chão. Sentiu que ele lhe afastava os cabelos com a mão, viu num relance o tecido preto à frente do rosto.

– Fecha os olhos.

Victor nunca a tinha vendado antes. Porque o faria agora, precisamente agora, quando ela tinha tanto que fazer, o jantar para servir?

– Toca com a testa no chão.

Para obedecer, dunya ficou com o rabo empinado. Sentiu que o amante lhe levantava o sarong, lhe acariciava brevemente as nádegas e lhe inseria um dedo inquisitivo no sexo, que estava molhado.

– Levanta-te.

Com dificuldade, sem ver nada, pôs-se de pé. Victor ajudou-a e conduziu-a na direcção, pareceu-lhe, da mesa de jantar.

– Ajoelha-te. Senta-te sobre os calcanhares. Abre bem as pernas. Levanta a cabeça. Agora fica assim, não te mexas.

A venda estava bem posta e bem firme e não permitia espreitar por baixo. Dunya ouviu o amante a mexer na louça e nos talheres que ela tinha disposto sobre a mesa, dirigir-se à cozinha, mexer nos armários e no fogão. Ouviu os bifes que ela tinha temperado a grelhar na frigideira. Sentiu-o pôr nas travessas o puré, a salada, os bifes. Depois ouviu-o regressar e soube pelo cheiro que trazia a comida para a sala.

Soube que ele se estava a sentar à mesa pelo arrastar da cadeira.

– Chega-te para mais perto de mim.

Dunya obedeceu. Sentiu-o servir-se. Pensou: Vai ser assim, hoje? Até o privilégio de o servir me vai ser tirado? Mas não disse nada. Victor, pelo contrário, não parava de falar entre uma garfada e outra, chamando-lhe minha querida, minha escrava, minha cadela, e de vez em quando acariciava~lhe os cabelos com uma mão distraída. Dunya estava com fome mas não se atrevia a perguntar se podia comer.

– Abre a boca.

Era uma colher pequena, de sobremesa. Tinha puré. Passado algum tempo Victor chegou-lhe aos lábios, com as pontas dos dedos, um pouco de salada e depois, a intervalos, mais salada, pedacinhos de carne, colherzinhas de puré. Para beber, um ou dois goles de vinho, mais nada. Quando o sentiu levantar e o ouviu levar a louça para a cozinha, dunya ainda tinha fome.

Passado algum tempo ele sentou-se de novo

– Abre a boca.

Desta vez era fruta, que ele tinha descascado e partido em bocadinhos pequenos para lhe dar com os dedos. Dunya esticava o pescoço e os lábios na direcção em que lhe parecia estar a mão do dono e recebia em recompensa pequenos pedaços de comida que no fim a deixaram quase saciada, mais pela demora do que pela quantidade. Ora aqui está uma boa maneira de perder peso, pensou.

– Fica como estás.

Nesta parte da sala não havia tapete e os joelhos de dunya começavam a doer-lhe contra o chão de madeira. Mas apesar do desconforto ficou assim por largos minutos, talvez meia hora, talvez uma hora inteira: de joelhos, sentada sobre os calcanhares, a cabeça baixa, só a erguendo, como uma corça sobressaltada, para tentar seguir pelo ouvido o que o amante estava a fazer.

Primeiro ouviu-o a levantar a mesa, a lavar a louça, a arrumar a cozinha – tarefas que lhe competiam a ela, escrava, e que hoje estava proibida de desempenhar. Depois ouviu a água do duche a correr na casa de banho, os armários e as gavetas do quarto a abrir e a fechar. Por fim ouviu os passos de Victor, calçado não já de botas, mas com as babuchas de cabedal macio que trouxera de Marrocos. Com o sentido da audição aguçado pela falta de visão, ouviu como as palmilhas de couro lhe batiam levemente, ao andar, nas solas dos pés, e percebeu por este ligeiríssimo estalar que ele não trazia peúgas.

Sentia-o agora junto dela, quase encostado. Cheirava a sabonete e a dentífrico e trazia o roupão de cetim.

– Levanta-te. Anda comigo.

Com a mão na mão dele, seguiu-o às cegas para a casa de banho.

– Toma. Já tem pasta.

Era a escova de dentes.

– Toma o teu copo.

Dunya bochechou, escovou os dentes, bochechou de novo. Cuspiu a água para o lavatório. Sentiu Victor a abrir a torneira e a lavar a bacia, salpicando-a um pouco.

– Queres ir à sanita?

– Sim – disse dunya, que precisava urgentemente de urinar.

Victor conduziu-a à sanita, depois ao bidé, depois ao lavatório para lavar as mãos, e por fim de novo para a sala, onde a fez ajoelhar no tapete virada para o sofá.

– Apoia os cotovelos na almofada.

Dunya assim fez, e sentiu-o desatar-lhe o nó do sarong, deixando-a nua. A mão dele a acariciar-lhe as nádegas. Uma leve palmada. Outra carícia. Quis perguntar ao amante se ele a ia sodomizar, mas não se atreveu. Dunya nunca tinha sido sodomizada. Tinha ouvido dizer que doía muito.

– Pode doer muito, ou pouco, ou até nada. Depende de como eu fizer. Na altura decidirei – dissera-lhe Victor quando ela tinha ousado perguntar.

Mas quando ele parou de lhe acariciar as nádegas não foi para a sodomizar. De repente, sem aviso, dunya ouviu um silvo que tão bem conhecia e imediatamente sentiu uma dor atroz, como uma queimadura, nas duas bochechas do rabo. Deu um salto no lugar e não conseguiu evitar um grito.

– Quieta.

Dunya pôs-se de novo em posição e afundou a cara nas almofadas do sofá para não gritar. Tinha medo que os vizinhos ouvissem. Victor nunca a tinha punido assim de chofre; habitualmente começava por a acariciar com a vergasta, depois vergastava-a levemente e ia tornando os golpes gradualmente mais fortes.

Mas o pior não era isto, o pior era não ver, não seguir com os olhos os movimentos do amante, não controlar nada.

Uma segunda vergastada, mais acima. Dunya não conseguiu conter as lágrimas e sentiu como lhe empapavam a venda. E uma terceira, muito mais dolorosa, na parte superior das coxas, junto ao vinco das nádegas. Preparou-se para receber uma quarta vergastada, e uma quinta, se era assim que ele se queria servir dela hoje, era assim que ela o queria servir.

Mas não, as vergastadas pararam à terceira. A uma ordem de Victor, levantou a parte superior do corpo e recuou um pouco de modo a dar-lhe espaço entre ela e o sofá. Sentiu-o passar por ela, o cetim do robe roçando-lhe o corpo nu, e sentar-se diante dela com as pernas um pouco abertas.

Ia servir-se dela pela boca, então. Dunya respirou fundo, agora sabia o que fazer. Primeiro, a saudação necessária: inclinou-se para o chão, procurou às apalpadelas os pés do dono e começou a beijá-los lentamente, com um respeito infinito. Para os ver, não dispunha dos olhos, só das mãos, dos lábios e da língua. Por isso se esmerou ainda mais do que de costume em acariciá-los, em beijá-los, em lambê-los por entre os dedos.

Uma carícia dele deu-lhe a entender que a homenagem estava concluída; era altura de começar a dar-lhe outro tipo de prazer. Devagar, começou a beijar o amante pelas pernas acima. Admirou-se por não sentir o menor vestígio de impaciência e por a lentidão lhe ser tão agradável: era por não o ver, comprendeu. Para contemplar o corpo dele só tinha as mãos e os lábios e isto tornava necessário que cada centímetro quadrado de pele fosse acariciado e beijado. E apercebeu-se de que ele também não tinha pressa: a carícia que lhe fazia nos cabelos não era leve por displicência ou arrogância, como a que lhe tinha feito enquanto jantava, mas pelo propósito de não a distrair da sua tarefa.

Era estranho como o corpo dele, sentido com as mãos e com a boca, lhe parecia diferente do corpo visto com os olhos. Havia partes que lhe pareciam mais duras ou mais moles, superfícies mais ásperas e mais macias, refegos de pele mais fundos ou mais planos. A pouco e pouco dunya foi-se entregando toda à exploração do corpo de Victor, os lábios a e língua nos joelhos dele, nas coxas, nas virilhas, por fim no pénis, e as mãos erguidas para o peito como as duma suplicante.

– Agora, escrava.

Dum movimento só dunya engoliu o pénis do dono e começou a mover a cabeça para cima e para baixo, tendo o cuidade de não o tocar com os dentes. A venda, longe de lhe dar a ilusão de estar a chupar um pénis qualquer, permitia-lhe concentrar-se mais do que nunca nas características próprias que faziam do pénis de Victor tão reconhecível para ela como o rosto. E permitia-lhe também concentrar-se nos movimentos e carícias que tinha aprendido com ele e de que sabia que ele gostava: o lento deslizar dos lábios ao longo da haste, os chupões vigorosos na glande, a exploração com a língua da grossa veia de baixo, os movimentos à volta da glande, as pequenas estocadas na abertura da ponta.

Estava cansada, os múscuos do maxilar doiam-lhe, mas não queria parar. Sentiu a mão do dono na nuca e pensou que ele a quisesse acariciar ou forçá-la a engoli-lo ainda mais fundo – mas não, o que ele fez foi retirar-lhe a venda num movimento rápido.

Das luzes da sala, estava apenas aceso o candeeiro com a lâmpada mais fraca – mas que mesmo assim dava luz suficiente para que dunya visse, com os seus olhos habituados à escuridão, o membro viril que tinha diante dos olhos.

E foi como se o visse pela primeira vez. Cada pormenor, cada veia azulada, o rosado escuro e a prodigiosa macieza da glande; a não menos prodigiosa tesão que o arqueava para cima; a grossura invulgar; a cor de mármore; as rugas finíssimas; a pele delicada: o ligeiro pulsar; o modelado subtil das formas – tudo naquele momento contribuía para transformar o pénis de Victor em algo mais real que a realidade – um raio de luz, um ceptro de realeza ou divindade, um talismã.

Dunya sentiu que um êxtase a possuía; e foi neste êxtase que inclinou de novo a cabeça como quem diz uma oração; que o tomou de novo na boca como quem recebe um sacramento; e que o adorou com todo o seu ser até a boca e a garganta se lhe inundarem de luz e de esperma.

(Dedicado à autora do blog Boneca Insuflável)

A Emília andava num desconsolo: por mais que fizesse não conseguia atrair a atenção do Anjinho. por mais olhares que lhe lançasse, por mais vezes que lhe tocasse ao de leve, por mais que ao conversar com ele lhe roçasse no braço, acidentalmente é claro, com a maminha minúscula…

– É isso! – disse a Narizinho, em tarde de confidências. – O nosso mal é que parecemos umas tábuas de engomar, sem peito, nem nada… E olha que o teu Anjinho gosta é de mamas, não é como o meu Escamudo que gosta de mim assim, magra… Agora o teu Anjinho, não me digas que nunca o viste a olhar para a Tia Nastácia.

– Para a Tia Nastácia?! – escandalizou-se a Emília. – Aquela velha gorda?!

– Pois, será velha e gorda, mas manda-me cá umas mamas e um bum-bum, que faz favor! E não é só o teu Anjinho. O Visconde de Sabugosa, ainda no outro dia…

A Emília ficou a empreender naquilo. Também ela tinha reparado nos olhares libidinosos que o Anjinho, o Visconde, e até o Saci lançavam na direcção da Tia Nastácia. E ela própria, Emília, para dizer a verdade, gostaria de se ver com formas um pouco mais … como dizer … arredondadas. Já tinha pensado até em ir consultar o Dr Caramujo para pôr uns implantes de silicone nos seios e nas nádegas, mas tinha um pouco de medo … E por outro lado não queria mudar totalmente a aparência física, vamos que depois não gostava de se ver ao espelho?!

– Tem de ser mesmo silicone? – Perguntou-lhe o Dr Caramujo ao ser informado do dilema. – É que se não, tenho aqui umas próteses insufláveis. Enche de ar, fica grande, esvazia, fica pequeno outra vez.

– E por onde sai o ar? – perguntou a Emília, espantada.

– Por um tubinho igual a este. Sai na parte do corpo que você quiser.

A operação foi um sucesso. A saída do tubinho, em silicone rosado, ficou entre as coxas da Emília, dando a impressão que a boneca, em vez de um clitoris, tinha dois. E o Anjinho, depois de experimentar, nunca mais quis outra coisa: nunca se fartou de soprar no cochicho da menina.