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Archive for 26 de Março, 2007

Vendo-se ao espelho enquanto fazia a barba, Miguel interrogava-se de onde lhe vinham aqueles sonhos – logo a ele, que se orgulhava de ser um homem moderno e progressista, sensível, respeitador das mulheres e incapaz de um gesto de agressão. Miguel era um feminista convicto. No gabinete de arquitectura de que era sócio tinha conseguido que se instituísse um sistema de quotas de modo a incluir mais mulheres. Ainda bem que na faculdade de Arquitectura a cultura dominante ia no sentido da igualdade entre os sexos (entre os sexos não: entre os géneros – corrigia-se Miguel, que mesmo nos seus monólogos interiores era escrupulosamente rigoroso). Se assim não fosse não seria ele, simples professor contratado, que teria estatuto ou autoridade para mudar a situação.

E Letícia, que pensaria ela destas coisas? Miguel conhecia Letícia desde o ano em que os pais dele se tinham separado e em que a tia Margarida tinha vindo viver com a irmã. Letícia tinha dez anos e era filha duma amiga íntima de Margarida. Na superioridade dos seus catorze anos, Miguel pouco ligara à miúda escanzelada que lhe entrava pela casa dentro em visitas cada vez mais frequentes e prolongadas, que em nada se destacava a não ser por umas medalhas em campeonatos de pingue-pongue, e que nada tinha de notável a não ser o facto de andar sempre de saias e de no tempo quente a mãe dela estar sempre a mandá-la calçar.

Incomodava-o, sim, que a sua própria mãe e a sua própria tia se referissem a Letícia, meio a brincar, como “a tua prima,” e à mãe dela como “tia Berta” – sobretudo tendo em conta que sempre fora encorajado a tratar a tia por “Margarida” e a mãe por “Maria João.”

À miúda, podia ao menos tratá-la pela alcunha que ele próprio inventara: Chica Cegonha, depois abreviada para “Chica.” Com o tempo, as “tias” Margarida e Maria João, e por fim a própria Berta, tinham começado a tratá-la pela alcunha, da qual nunca tinham conhecido a versão completa. E mesmo agora, depois de se ter transformado em adolescente e em mulher, de ter estudado e começado a trabalhar, de ter comprado a sua própria habitação e de ter mostrado a sua capacidade de levar uma vida independente e regrada, Letícia continuava a ser “Chica” para a mãe, para as amigas da mãe e para o filho das amigas.

Em dezoito anos de convivência, Miguel nunca tinha fantasiado uma relação amorosa com Letícia – ou pelo menos não mais do que tinha fantasiado, durante as convulsões hormonais da adolescência, com todas as raparigas e mulheres que conhecia. Miguel não gostava muito destas fantasias, nem compreendia o prazer que lhe vinha de se imaginar uma espécie de sultão com poder absoluto sobre o seu harém. O amor não devia ser uma questão de poder, dizia-lhe sempre a mãe, com a concordância expressa da tia Margarida e da “tia” Berta. O amor devia ser uma reciprocidade, uma troca entre soberanos, um dar e receber – um negócio calculado ao milímetro, ou pelo menos assim parecia a Miguel, para que nenhuma das partes ficasse em vantagem. O rapaz concordava com estes sentimentos, é claro, embora às vezes perguntasse a si próprio se não haveria equilíbrio possível fora desta rigorosa simetria. E à noite, quando se encontrava sozinho na cama, não havia simetria, nem razoabilidade, nem justiça que resistissem ao chamamento urgente da sua imaginação inflamada. Miguel deitava-se provido de um lenço; e este lenço, enrolado à volta do pénis, transformava-se no sexo húmido e macio duma odalisca, e Miguel esvaía-se nele uma vez, duas vezes, ou mais, antes de adormecer. Uma odalisca obediente a quem Miguel podia exigir tudo e de quem obtinha tudo.

Depois, com o início de uma série de namoros, estas e outras fantasias tinham dado lugar à realidade. Todas as sucessivas namoradas de Miguel se pareciam umas com as outras, e com Maria João: sérias, idealistas, politizadas, ambiciosas. O sexo com elas era perfeitamente aceitável e não deixava por satisfazer nenhuma necessidade que tivesse que ser compensada à noite, com recurso ao lenço. Também Letícia tinha tido vários namorados ao longo dos anos, e Miguel tinha conhecido alguns deles: rapazes sérios, inteligentes, urbanos, sensíveis, que mereciam quase sempre – tal como, de resto, as namoradas de Miguel – a aprovação sem reservas das três mulheres mais velhas.

Miguel olhou-se ao espelho e desejou, não pela primeira vez, ter um nariz menos aquilino, um olhar menos penetrante e um cabelo menos rebelde. “Pareço uma coruja,” pensou. E sorriu ao recordar-se da indignação que esta comparação tinha provocado na Diana – a namorada com quem tinha ficado mais tempo, quase dois anos.

– Qual coruja? – exclamara ela. – O que tu tens é um ar altivo, como um falcão. Coruja agora, que ideia…

– Pronto, está bem – rira-se ele. – Coruja ou milhafre é a mesma coisa.

Com essa namorada, recordou-se Miguel, tinha vivido um episódio que ainda hoje o perturbava. Estava com ela na cama e tinha-a penetrado, talvez com mais ímpeto do que habitualmente. Ela arquejara como que de dor; e Miguel tinha diminuído o ritmo, indeciso sobre se devia pedir desculpa. Mas ela tinha-o abraçado com força e tinha-lhe dito que sim, que lhe fizesse doer. Depois de uma hesitação, Miguel tinha-a beliscado nas nádegas, depois nos seios e nos flancos; e perante a reacção dela tinha-se aventurado a dar-lhe algumas palmadas, que lhe tinham soado tão alto que imaginou que se poderiam ouvir nos apartamentos vizinhos. Diana tinha tido um orgasmo que parecera nunca mais terminar; mas minutos depois, quando Miguel quisera falar sobre o acontecido, tinha negado que alguma vez tivesse feito tal pedido. E Miguel nunca mais tinha tido vontade de fazer o mesmo, nem com Diana, nem com ninguém. Mas lembrava-se do episódio com mais frequência e mais aprazimento do que lhe parecia correcto. Nos dias seguintes, enquanto duraram as nódoas negras provocadas pelos beliscões, Diana tinha evitado despir-se diante dele.

Semanas depois o namoro tinha acabado; mas tinha acabado, pensava Miguel, por razões que não tinham nada a ver com beliscões nem com palmadas.

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