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Archive for 8 de Fevereiro, 2009

Violência Doméstica

A decência mais elementar exige que nos saibamos pôr no lugar do outro. Isto exige alguma imaginação. Quando me dizem que não posso imaginar um certo sofrimento porque nunca passei por ele, estão-me a negar esta imaginação e a não querer que cumpra o dever moral de me pôr no lugar da outra pessoa. No limite, estão a exigir-me que seja um psicopata: alguém que se caracteriza por não compreender que os outros também existem e também sofrem.

Portanto não me vou desculpar pelos exercícios de imaginação que vou fazer neste artigo. É certo que não sou mulher, nem nunca fui vítima de violência doméstica, mas é precisamente nesta situação que me vou tentar imaginar.

Uma mulher vê-se sozinha e sem defesa perante um homem violento e descontrolado. Pelo decurso dos minutos ou horas antecedentes, sabe que vai ser agredida fisicamente – só não sabe com que gravidade. Pode ser que fique tudo por um par de estalos. Pode ser que inclua murros, pontapés e pauladas, em partes do corpo normalmente cobertas pela roupa. Ou pode incluir o nariz partido, equimoses na cara, lábios rebentados, dentes quebrados. Pode levar a dias, semanas ou meses de hospital.

Pode levar à morte.

E é aqui que eu tento pôr-me no lugar dessa mulher e pergunto a mim mesmo o que é que ela sente. Isto depende, é claro, do modo de ser de cada uma: há mulheres que numa situação destas ficam de tal maneira dominadas pela ira que nem conseguem sentir medo ou dor: se puderem defender-se, defendem-se, e se tiverem acesso a qualquer coisa que possa servir de arma são até capazes de matar o agressor – que não merece outra coisa.

Outras ficam tão paralisadas pelo terror que não reagem: tentam cobrir com os braços as partes mais vulneráveis do corpo, choram, pedem ao homem que pare, são capazes até, naquele momento, de pedir perdão pelo que não fizeram.

Duma coisa tenho a certeza: nenhuma mulher tem prazer nisto. Haverá quem não concorde com esta afirmação, a começar pelas minhas amigas baunilha com quem converso. São unânimes em dizer que um episódio destes releva do mais puro horror, no que concordo com elas; e são quase unânimes em que o essencial deste horror não está necessariamente na dor física sofrida, mas no descontrolo e na imprevisibilidade da situação; mas quase todas têm histórias a contar duma empregada que tiveram, ou das mulheres da aldeia onde passaram a infância, que apresentam como exemplo da mentalidade do «quanto mais me bates, mais eu gosto de ti» ou, ainda mais chocante, «o meu homem não deve gostar de mim porque nunca me bate».

As minhas amigas baunilha – mulheres urbanas da classe média ou média alta – sabem que no seu próprio grupo social há mulheres vítimas de violência doméstica. Compreendem e aprovam que algumas destas mulheres aguentem esta situação até as circunstâncias da vida lhes permitirem separarem-se dos seus agressores; mas não lhes passa pela cabeça que esta separação não tenha lugar logo que possível. O que elas não compreendem é a a mentalidade do «quanto mais me bates» de que falam. E só encontram uma explicação para ela: muitas mulheres pobres, rurais, dependentes ou iletradas gostam de ser vítimas de violência doméstica.

Quanto a mim, as minhas amigas estão enganadas.

Este meu juízo releva mais da imaginação do que da experiência: cresci em meio urbano, nunca assisti a situações de violência doméstica, e nunca nenhuma mulher me fez o tipo de confidências que as minhas amigas baunilha me dizem que já ouviram muitas vezes. Que autoridade tenho, eu, portanto, para falar?

Eu nunca tive esta experiência; mas as minhas amigas baunilha nunca tiveram a experiência que eu tive muitas vezes: a de falar com submissas ou escravas que aceitam, desejam, e muitas vezes necessitam absolutamente de sofrer, e/ou de serem humilhadas, às mão de um Dominante ou de um Senhor. E isto em graus que podem ir do ligeiro ao extremamente severo. O que diferencia estes desejos e estas práticas de situações de violência doméstica é, pela minha experiência, o facto de se tratar de processos controlados. Este controlo pode ser exercido, em situações extremas, pela própria submissa ou escrava (através, por exemplo, dum safeword), mas geralmente é exercido pelo dominante. O que interessa é que há sempre um controlo. E é isto que faz toda a diferença: ao ser castigada, a submissa sente-se segura, ao contrário da vítima de violência doméstica.

E isto leva-me a especular sobre aquelas mulheres a quem as minhas amigas baunilha consideram «primitivas», «ignorantes» e sujeitas a uma tradição injusta que lhes fez uma «lavagem ao cérebro». Serão mesmo assim tão estúpidas, primitivas, influenciáveis e ignorantes? Por mim, tenho dificuldade em presumir a estupidez dos outros como primeira explicação para o que não compreendo.

Talvez o caso seja outro. Talvez a mesma tradição primitiva que dá aos homens, em certos contextos sociais, o direito de bater às mulheres estabeleça, nos mesmos contextos, mecanismos de controlo social que limitem esse direito. Talvez as mulheres que dizem aquelas frases, que tanto indignam as minhas amigas, se possam dar ao luxo de as dizer porque se sentem de alguma maneira seguras.

Se esta minha hipótese estiver correcta, então talvez estas mulheres, que habitam um mundo tão diferente do meu, não sejam tão estúpidas, ignorantes e alienadas como as minhas amigas as consideram; e talvez os homens que lhes batem não sejam sempre bestas enlouquecidas. Talvez uns e outras mereçam da nossa parte algum respeito.

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