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Archive for the ‘Contos eróticos’ Category

– Não sei se me poderás domar…

Esta frase, meio desafio e meio apelo, dissera-lha a noiva no dia em que a pedira ao pai, no ano longínquo de 1959. Tal como ele, Helena pertencia a uma das famílias mais proeminentes da vila, mas não faltara quem o tentasse dissuadir do enlace. As comadres, sempre ciosas dos bons costumes, viam na filha do notário uma liberdade nos modos, uma sensualidade no olhar e nos movimentos, que lhes despertavam as piores suspeitas.

– Sabe muito… – rosnavam.

– Passa a vida no café…

E se alguém lhes objectasse que Helena, quando entrava no café da vila, ia sempre acompanhada pelas suas colegas do Magistério Primário, não desarmavam:

– Já foi vista a fumar, em Braga… Também o pai, é do reviralho, deve ensinar-lhe essas liberdades.

O pai de Helena, tal como o de Bernardo, estava, com efeito, conotado com a oposição a Salazar; mas enganava-se quem supusesse que ao seu liberalismo político correspondia um igual liberalismo de costumes. Pelo contrário, inquietava-se com o comportamento da filha e com os zunzuns de cujos ecos se apercebia.

Não assim os Santaclara, salazaristas fiéis, no que respeita os filhos homens. Como proprietários rurais, excediam em fortuna a família de Helena somada à de Bernardo; mas nunca nenhum deles, apesar de várias gerações terem passeado por Coimbra a sua bravata, se tinha chegado a formar. E se o filho mais velho participava na administração das propriedades familiares, já o mais novo, Leandro, empregava o seu tempo em caçadas e arruaças, nos bordéis do Porto, e na perseguição às moças da terra.

Mas disto tudo, no seu regresso a Coimbra depois de pedir Helena ao pai, Bernardo só pensava nas palavras da noiva. Porque precisaria Helena de ser domada? Nada nela indicava uma natureza selvagem, apenas uma natural vivacidade que a ele o atraía. Adolescente ainda, Bernardo tinha visto no circo um homem que tirava, com um chicote comprido, o cigarro da boca de outro; e não descansara enquanto não aprendera a manejar esta arma com a mesma destreza. Começara por procurar o próprio artista, que, depois de o avisar que o chicote que usava era uma arma letal, não se recusara a vender-lhe um dos que tinha de reserva nem a dar-lhe as primeiras lições. Depois tivera que se ensinar a si próprio, treinando horas infinitas até transformar o chicote de três metros numa extensão do seu próprio braço e dos seus próprios dedos. Ao falar em ser domada, Helena fizera com que se estabelecesse no espírito do noivo uma ligação incómoda entre esta expressão e aquilo que nunca passara, para ele, duma habilidade de circo e de um desporto.

Nem pensou no chicote quando as cartas de Helena começaram a rarear e a apresentar um certo tom de desafio ou menosprezo. Mas veio-lhe imediatamente ao espírito quando alguém veio propositadamente a Coimbra para o avisar que Helena era vista frequentemente no café com Leandro e que este se gabava junto dos amigos de se ter já gozado dela.

– Não gozou, não… Eu conheço a Helena.

– Também penso assim – respondeu-lhe o amigo. – Mas também sei como ela é insatisfeita com a vida da aldeia, e como gosta do perigo. E o Leandro é perigoso que chegue para a atrair… Anda a dizer que se apareceres por lá a desafiá-lo te enfia, desculpa, uma bala nos cornos.

Nesse mesmo dia Bernardo despiu a capa e batina, envergou o fato com que viajava entre a vila e Coimbra e meteu-se no automóvel que o pai lhe tinha oferecido por completar com distinção o terceiro ano de Direito. Chegado à vila, perguntou por Helena. Estava no café. E acompanhada de Leandro, conforme Bernardo verificou ao entrar, de chicote na mão, neste estabelecimento.

– Com que então, gozaste-te da minha noiva – disse Bernardo.

– Eu nunca disse isso – defendeu-se Leandro, enquanto Helena olhava para ele como se o visse pela primeira vez.

– E enfiavas-me uma bala nos cornos… Tens aí com quê?

– Eu nunca disse isso…

– Se não tens, arma-te e anda ter comigo cá fora. Helena, já para o meu carro.

Leandro estava armado, com efeito, mas nunca se tinha servido do revólver para outra coisa que não fosse tiro ao alvo: latas, garrafas, cães  vadios e uma vez, bêbedo, um relógio de parede no café. Saiu para a praça com a arma na mão, nauseado com a ideia de ser obrigado a um duelo. Quando viu que Bernardo não tinha à vista mais que o chicote, apontou tão atabalhoadamente que o tiro foi atingir um dos bebedouros do jardim central, fazendo com que um repuxo de água se erguesse no ar e encharcasse os circunstantes.

Bernardo, por sua vez, só tinha utilizado o chicote em alvos inanimados, mas manteve o sangue-frio suficiente para enrolar o chicote no braço direito de Leandro e puxar, fazendo-o largar a arma. Depois, de cada vez que o outro se baixava para a apanhar aplicava-lhe um golpe nas costas que o desequilibrava e lhe rasgava a roupa, tingindo-a de sangue a pouco e pouco. Quando se cansou deste jogo, fez com que a ponta do chicote se enrolasse na pistola e puxou-a para si, segurando-a na mão esquerda.

– Não dispares, Bernardo! Não o mates! Não te desgraces, homem! – ouviu gritar de todos os lados.

Mas não era sua intenção matar Leandro. Com um golpe final de chicote retalhou-lhe a face esquerda, cortando tão fundo que lhe deixou os dentes à vista.

– Levem esse desgraçado ao hospital para o coserem, antes que sangre como um porco – ordenou. – Duma bela cicatriz já não se livra.

E enquanto os colegas de farra do adversário, que não o tinham defendido antes, se precipitavam agora para o socorrer, Bernardo voltou-lhes as costas e dirigiu-se ao automóvel onde Helena o esperava, encolhida no extremo do banco corrido. Tomou a estrada alcatroada que conduzia para fora da vila, virando logo a seguir para o caminho de terra batida que levava a uma das quintas da família. Helena, que sabia a casa abandonada e meio em ruínas, arriscou uma pergunta:

– Também me vais chicotear?

– Com este chicote? Não. Retalhava-te toda.

Ao chegar ao portão meio coberto de silvas, parou o carro e tirou o bolso um canivete suíço, que abriu numa lâmina com dentes como uma serra.

– Descalça-te e vai cortar uma vergasta naqueles bambus.

– Descalça porquê?

– Por penitência.

– Quer dizer que ainda me queres?

– Veremos. Vai lá.

No interior poeirento da casa, Helena sentiu-se tão incapaz de recusar o abraço de Bernardo como seria incapaz de recusar o castigo. Quando sentiu a mão dele levantar-lhe o vestido e insinuar-se-lhe entre as coxas, abriu um pouco as pernas; mas ele só lhe afastou as calcinhas para o lado para se certificar que estava molhada e para introduzir o dedo até onde foi possível.

– Bom. Ainda estás virgem.

– Perdoa… – murmurou Helena.

– Por estares virgem?

– Por te ter levado a pensar que….

– E virgem vais continuar, até casarmos.

Mas mandou-a despir para o castigo. Tomada duma vertigem, Helena obedeceu. Quando ele terminou, mandou-a vestir e levou-a para casa. À ansiedade dos pais dela respondeu com a exigência de que a fizessem examinar por uma parteira para determinar se estava virgem. À saída da mulher, chamou-a de parte, passou-lhe discretamente para a mão uma nota de quinhentos escudos e murmurou-lhe ao ouvido:

– A quem lhe perguntar, Dona Ermelinda, conte o que viu, mas não tudo o que viu. Está-me a entender?

A mulher acenou que sim. As vergastadas no corpo de Helena ficariam em segredo. Mas Bernardo sabia que ela daria a entender a toda a gente, por alusões e silêncios, que ele não era homem para sofrer vexames.

Faltava combinar o casamento. A sós com Helena, Bernardo ordenou:

– Quando fores combinar a data com o padre, vais confessar-te. Vais pedir-lhe a absolvição pelo escândalo que provocaste e vais pedir-lhe que te dê a penitência de casar descalça.

– Descalça, Bernardo? Vou morrer de vergonha!

– Não vais. Quando chegar o dia, já toda a vila se terá habituado à ideia. Ou pensas que a modista vai guardar segredo, como o padre?

– Está bem… Mas vou de branco, não vou? Isso ainda mereço…

– De branco, e de flor de laranjeira.

Na noite de núpcias, antes de a penetrar, Bernardo avisou:

– Vai doer.

– Tanto melhor – respondeu Helena. E depois de ele gozar nela:

– Tua escrava… Meu Senhor.

Agora, passados mais de cinquenta anos, recordando isto tudo, Bernardo sorriu. Quase todas as personagens desta história tinham já morrido: Leandro, a parteira, o padre, a modista, os pais de Helena. A própria Helena, seu único amor. E a ele poucos meses restavam de vida: se se cumprisse a promessa do médico, em breve se juntaria a ela.

Durante décadas, os filhos e os netos tinham encarado com naturalidade o hábito de Helena andar sempre descalça em casa. E os vergões da vergasta, frequentemente renovados, tinham permanecido o seu segredo de amantes.

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Cap. 38: VAIVÉM

[ … ] Depois da aula, em casa, Teresa serviu o almoço a Raul; à tarde viu um filme, sentada aos pés dele, sem saber o que aconteceria a seguir. À noite, Milena serviu o jantar sozinha porque Teresa recebera ordem de se arranjar com especial cuidado para o jantar.

– Fica de seios nus, mas não os maquilhes – disse Raul. – Põe os teus rubis.

Para acompanhar o jantar, Raul escolheu Mozart: a Sinfonia nº 38, o Concerto de Piano nº 23 e Eine Kleine Nachtmusik. Terminada a comida e a música, ordenou a Teresa que fosse buscar Ana, que estaria à sua espera, a casa de Miguel.

– Veste o teu casaco mais quente por cima do tronco nu, põe um cachecol e um gorro, mas não te calces. Deixa aqui a Ana, volta para casa do Miguel e fica à disposição dele até ele te mandar para casa.

Atordoada, Teresa nem sequer foi capaz de dizer “sim, meu senhor”, mas também não pensou em desobedecer. Estava desvendado o mistério: ia ser emprestada a outro homem; o seu dono, o seu senhor querido, de quem pensara ser a única escrava, ia servir-se doutra mulher; e não sabia qual das duas coisas lhe doía mais. Foi ao quarto de banho e arranjou-se para sair, sempre com aquele “sim, meu senhor,” que não dissera, a soar-lhe aos ouvidos como um mantra. Agasalhou-se, pegou nas chaves do Smart, desceu ao estacionamento, entrou no carro e foi onde Raul a enviara.

A própria Ana lhe abriu a porta, muito agasalhada mas, tal como Teresa, com os pés nus.

Durante o percurso não falaram. Cada uma estava perdida na contemplação do futuro imediato: iam ser cedidas, iam ser traídas. Não: traídas, não. Ambas se davam conta, mais agudamente que nunca, que Raul e Miguel não lhes pertenciam. Talvez tenha passado pela cabeça de Ana revoltar-se; mas, ao ao ver a expressão de Teresa – pálida, orgulhosa e decidida a obedecer custasse o que custasse – resolveu-se a orientar o seu comportamento pelo dela. Teresa entrou com o carro na garagem subterrânea e acompanhou Ana até à porta do apartamento para a entregar a Raul.

– Entra, Ana – disse este. – E tu, Teresa, podes ir. Obedece ao Miguel em tudo.

Sim, meu senhor, pensou Teresa. Fez o segundo percurso até casa de Miguel num estado de perturbação ainda maior do que tinha feito o primeiro. Já não contemplava apenas o seu futuro próximo, mas o presente que se desenrolava atrás de si, entre Raul e Ana. Sim, meu senhor. Estariam estas palavras, neste momento, a ressoar também na cabeça de Ana? Ou, mil vezes pior, estariam a sair-lhe dos lábios, dirigidas a Raul? Apertou o volante com as mãos até os nós dos dedos lhe ficarem brancos: Não, não era possível. Tudo, menos isso.

Miguel recebeu-a à porta. Ajudou-a a tirar o casaco, pegou-lhe no cachecol e no gorro, que arrumou, e quando a viu nua da cinta para cima não fez qualquer comentário.

– Anda comigo – disse.

O aquecimento central não era tão eficiente aqui como no apartamento de Raul, mas a temperatura não era demasiado desconfortável, nem para os pés nus, nem para o tronco nu de Teresa. Seguiu Miguel para o quarto, onde ele lhe ordenou que acabasse de se despir e tirasse as jóias.

Teresa obedeceu prontamente e em silêncio. Miguel encostou-se à ombreira da porta a vê-la tirar a saia e as jóias.

– Anda cá – disse Miguel.

Teresa avançou até ficar de pé a meio metro dele, que lhe tomou as mãos para as aquecer por um momento entre as suas e depois a beijou na boca, que ela não abriu mas também não fez força para manter fechada.

– Despe-me – disse ele.

Teresa começou por lhe tirar a T-shirt preta e arrumou-a nas costas duma cadeira. Como devo agir, pensou Teresa, com um homem que não é o meu senhor, mas a quem tenho que obedecer? Não lhe beijaria os pés, a não ser que ele lho ordenasse, nem lhe daria quaisquer outras mostras duma humildade que não sentia em relação a ele; mas obedeceria em tudo, e esforçar-se-ia o mais que pudesse para lhe dar prazer. Ajoelhou-se para o descalçar: as sapatilhas eram difíceis de tirar, tinham muitos cordões e era preciso fazer força. Ainda de joelhos, desapertou-lhe o cinto e as calças. Miguel ajudou-a a tirar-lhas, levantando alternadamente os pés; ela endireitou-as e arrumou-as junto com a T-shirt. As cuecas tinham uma mancha húmida que as tornava transparentes. Ajoelhou-se para lhas tirar, mas desta vez não se voltou a erguer: atirou as cuecas para junto da outra roupa e só então olhou para o membro erecto à sua frente. Era diferente do de Raul, mais comprido e mais fino, e completamente a direito. Como não tinha sido circuncidado, a glande era mais vermelha e parecia molhada.

– Chupa-me o pénis.

Sim, meu senhor, disse ela intimamente a Raul; não te deixarei ficar mal. Tomou na boca este pénis que não conhecia: havia de usar as carícias que Raul lhe tinha ensinado, ou as que tinha aprendido nos seus anos de puta? Qual destas opções honraria melhor o seu senhor? A primeira, claro: Raul tinha emprestado a Miguel a sua própria escrava, não uma puta qualquer apanhada na rua. Miguel gemeu de prazer com esta carícia, que ela continuou até ele lhe ordenar que se deitasse na cama e abrisse bem as pernas, entre as quais se ajoelhou para lhe ver o sexo. Viu os anéis de titânio que o transfixavam, fê-los oscilar um a um com a ponta do dedo e suspirou:

– Se eu pudesse, mandava fazer o mesmo à Ana…

Passou-lhe a mão lentamente pelo ventre, pelas ancas, beijou-lhe os seios, e finalmente ordenou:

– Estás seca, masturba-te um pouco.

Teresa enrubesceu até ao peito, mas obedeceu. Se estivesse com Raul, não estaria seca; estaria já quase à beira dum orgasmo. Mas Miguel tinha direito a que ela lhe apresentasse uma vagina bem lubrificada, que ele pudesse penetrar à vontade. Começou a acariciar o clítoris, imaginando que eram os dedos de Raul, até que ficou pronta a ser possuída. Miguel pôs um preservativo, deitou-se sobre ela, penetrou-a sem brutalidade – mas também sem uma ternura excessiva que só a humilharia – e começou a mover-se dentro dela. Teresa não teve qualquer dificuldade em usar as técnicas do pompoar, que se estavam a tornar automáticas para ela. Os movimentos dele tornaram-se mais rápidos e vigorosos e a respiração mais ofegante. E foi neste momento que Teresa sofreu a maior humilhação da sua vida:

– Vem-te agora – disse Miguel.

E ela teve o orgasmo que não tencionara ter, um orgasmo intenso que a obrigou a abraçar Miguel, a colar-se a ele apaixonadamente, a procurar-lhe a boca e a língua como procurava a boca e a língua de Raul; e tudo isto desencadeado por duas pequenas sílabas, uma ordem seca dada por outro homem. Já sabia que o seu corpo obedecia a Raul sem intermediação da sua vontade, e tinha orgulho em tê-lo treinado para isto; mas nunca imaginara que este treino o fizesse obedecer assim a outro homem. Quem era ela, a quem o seu próprio corpo não obedecia? Em que se estava ela a transformar? Passara os últimos meses a transformar-se, deliberada e metodicamente, na escrava de Raul; mas nunca tinha sido sua intenção tornar-se no seu próprio ser uma escrava, obediente por reflexo a certas ordens, dadas num certo tom fosse por quem fosse. Não tinha sido ela a transformar-se nisto; tinha sido Raul que a transformara. Sentiu uma indignação que lhe subia ao peito, logo cancelada pelas palavras que tantas vezes dissera, e não em vão: sou tua, faz de mim o que quiseres. Se estava a transformar-se, não no que planeara, mas no que Raul queria, isto não podia ser senão justo. Era humilhante, esta obediência reflexa a outro homem; mas não a fazia escrava dele: fazia-a, sim, mais escrava de Raul. Virou a cara para não ver Miguel, mas sentiu com agrado as suas carícias. Ficou-lhe grata quando ele, pudicamente, foi tomar duche sozinho e lhe permitiu que fizesse o mesmo. Já não o encontrou no quarto, onde vestiu a saia e pôs as jóias. Foi encontrá-lo na sala, já vestido, e sentiu vergonha dos seus seios nus como não tinha sentido ao entrar. Miguel deu-lhe um beijo leve na boca, a que ela correspondeu, e disse:

– Podes ir, o Raul telefonou. Não entres na garagem: espera à porta do prédio. Tranca o carro. Abre-o só para deixar entrar a Ana.

Mas Miguel ajudou-a rapidamente a vestir-se e deu-lhe um beijo à despedida, desta vez na cara.

Ao ficar sozinho com Ana, Raul pegou-lhe na mão e conduziu-a à sala.

– Entra, Ana. Põe-te à-vontade. Dá cá o casaco.

Ana tirou os agasalhos, que ele entregou a Milena para que os arrumasse.

– Dá uma volta para eu te ver – disse Raul.

Ana rodou sobre si mesma e voltou-se de novo para ele.

– Estou bem? – perguntou.

Estava linda, pensou Raul. Não estava de seios nus, como Teresa, mas sim com um top que lhe descobria o umbigo. A saia, preta e um pouco transparente, tinha a cinta muito descaída, e caía em pregas largas até aos tornozelos. Todos os adornos eram de prata, e o cabelo estava cuidadosamente penteado de modo a parecer que o não estava.

– Senta-te – disse Raul.

Ana sempre tinha visto Teresa sentada no chão, nunca no sofá, mas sentiu um certo acanhamento que a impedia de fazer o mesmo. Ia sentar-se na borda do sofá quando Raul lhe disse:

– Podes sentar-te no chão. Queres tomar alguma coisa?

Ana acenou que não. Raul pegou-lhe na mão, sentou-se no sofá, muito perto dela, e perguntou-lhe:

– Sabes para o que estás aqui?

– Para fazer tudo o que o senhor mandar – disse Ana.

– Então anda comigo, minha querida.

Quando chegaram ao quarto, Ana quis dar-se algum tempo. Não se sentia pronta para se despir já, como uma puta; e tinha necessidade de falar, de se justificar.

– O senhor vai-me possuir?

– Sim, querida, vou-te possuir – respondeu Raul, pronto a dar-lhe o tempo de que ela precisasse.

– Sabe, o Miguel é o único homem a quem me submeti até hoje… Já não era virgem quando comecei com ele, mas nunca tinha sido submissa de ninguém.

– E agora vai difícil obedecer-me.

– Um pouco – respondeu Ana. – Mas com o senhor sou capaz. Foram o senhor e o Miguel que decidiram sozinhos, não foram? A Teresa não entrou nessa decisão…

– Fomos nós sozinhos – respondeu Raul.

Esta resposta tornava tudo mais fácil. Se Teresa tivesse conspirado contra ela…

– Estão no seu direito… – murmurou. – Quer que me dispa agora?

Raul mandou-a tirar só o top. Ana tinha os seios um pouco mais pequenos que os de Teresa, de forma cónica, e com as aréolas dum rosado muito claro que quase não fazia contraste com a pele. Tapou-se com as mãos, mas logo se destapou, como se tapar-se fosse uma falta. Raul sorriu:

– Uma escrava não tem direito ao pudor, não é, minha querida?

– É verdade… – murmurou Ana, corando.

Raul mandou-a tirar a saia e deitar-se na cama, onde ficou apoiada sobre um cotovelo, olhando para ele enquanto ele se despia. Raul era o homem mais velho que Ana já tinha visto nu: não soubera o que esperar, mas afinal era um homem como os outros, mais atraente que muitos. A primeira carícia que ele lhe fez, entre o pescoço e o ombro, fê-la estremecer; mas devolveu-lha, tocando-lhe no peito; e beijou-o timidamente na boca. Raul deitou-se de costas, cruzou as mãos sob a nuca e disse:

– Anda tu por cima, Ana. Mostra-me o que sabes fazer.

Ana tinha a certeza que sabia fazer tudo. A experiência que tinha com homens era muito pouca, limitava-se quase só a Miguel. Sabia dar prazer a Miguel, e portanto devia ser capaz de dar o mesmo prazer a Raul. Pôs-se de gatas por cima dele, deixando pender os colares e as correntes, e começou a beijá-lo nos olhos, nas orelhas, na boca, nos mamilos… Quando estendeu a mão para lhe agarrar no pénis, ele disse que não, ainda não… Ainda não, porquê? Miguel gostava… Mas obedeceu e continuou a beijá-lo, progredindo devagar até lhe chegar ao sexo depilado, tão confortável de meter na boca. Quando começou a chupá-lo, sentiu a mão dele entre as pernas, que abriu para lhe dar espaço.

Raul começou por lhe tactear os lábios exteriores da vulva, de comissura a comissura, primeiro de um lado e depois do outro. A seguir, percorreu a fenda entre eles e, quando chegou ao extremo desta, continuou a acariciá-la entre as pernas, no rego entre a vulva e o ânus. Regressando à vulva, mais fina e mais comprida que a de Teresa, separou-lhe com os dedos os lábios exteriores e começou a afagar-lhe os interiores, que eram nela muito rosados e um pouco proeminentes. O toque de Raul era duma delicadeza extrema: Ana nunca tinha sido acariciada neste lugar por uma mulher, mas imaginava que seria assim, e era muito bom… Por um momento perdeu a concentração, mas ouviu Raul, que lhe dizia:

– Ana, presta atenção, não pares…

Não podia parar de chupar Raul. Estava ali para o servir: tinha sido essa a ordem, muito clara, que Miguel lhe dera. Mas como podia ela ignorar aqueles dedos que se lhe insinuavam pelos folhos da vulva, lubrificados pelos sucos da vagina? Raul descobria-lhe agora o pequeno capuz que lhe escondia o clítoris; este já tinha a pontinha de fora, mas Raul, com infinitos cuidados, afastou o capuz para trás de maneira a descobri-lo mais, e começou a titilar com movimentos rápidos o botãozinho que tinha deixado a descoberto. Ana não sabia o que queria, se queria que ele continuasse a fazer isto por toda a eternidade ou que a penetrasse e possuísse sem delongas. Mas sabia o que Miguel havia de querer: que ela se concentrasse e continuasse, até ordem em contrário, a chupar o melhor que soubesse o pénis de Raul. A ordem em contrário não se fez esperar muito:

– Vem agora, minha querida. Empala-te em mim.

Ana assim fez, com um pequeno gemido. Coleou por Raul acima, deitou-se sobre ele com as pernas abertas, pegou-lhe no pénis para o apontar exactamente à abertura da vagina, e baixou-se sobre ele, sentindo como ele a enchia por dentro. Os movimentos de Raul dentro dela foram, ao princípio, quase imperceptíveis: queria dar-lhe oportunidade de mostrar do que era capaz; e ela, que não queria outra coisa, começou a combinar o que sabia que agradava a Miguel com o que sabia de pompoar.

Raul, deliciado, reteve o orgasmo. Começou a acariciar Ana nas nádegas e nas costas, beijando-lhe a boca, os mamilos, o pescoço sempre que ela se inclinava o suficiente para lhe chegar ao alcance dos lábios. Viu-lhe corar o rosto e o peito, ouviu-lhe a respiração transformar-se num gemido e logo a seguir num arquejo; sentiu como os músculos da vagina se apertavam, já não como no pompoar, mas num tremor involuntário; e esvaiu-se dentro dela com três estocadas fortes, ouvindo-a exclamar:

– Sim, Miguel, sim, vem-te em mim, meu querido!

Mais tarde, com ela estendida sobre ele, escondendo o rosto na curva do braço, ouviu-a dizer:

– Que vergonha, Raul… Chamei-lhe Miguel…

Raul riu-se, obrigou-a a encará-lo e respondeu:

– Tolinha… Pensas que isso me ofendeu? Pelo contrário, até me lisonjeou. Mas agora vá, toca a lavar e a vestir, que tens o teu dono à espera.

Teresa parou o Smart à porta do prédio. Alguém devia ter coordenado as coisas muito bem, porque não passaram mais do que uns segundos até Ana aparecer. Um grupo de rapazes e raparigas, à conversa ali perto, devem ter ficado um pouco admirados ao vê-la dirigir-se para o carro toda agasalhada, mas descalça. Teresa ligara o aquecimento: esperou que Ana se ajeitasse com o cinto de segurança e arrancou: a quinta vez que fazia o mesmo percurso nessa noite. Ao princípio não disseram nada, embora por vezes Ana desse a impressão de querer dizer alguma coisa. Por fim, não se conteve:

– Como te tratou o Miguel?

Teresa não compreendeu: queria Ana saber se Miguel a tinha tratado bem? Que importância tinha isso? Não eram ambas escravas?

– Não é isso – disse Ana. – O que é que ele te chamou? Chamou-te minha escrava?

– Não – disse Teresa, elucidada. – Chamou-me sempre Teresa.

Teresa gostou de sentir Ana relaxar ao seu lado, como que aliviada de um peso.

– E o Raul – perguntou. – Chamou-te minha escrava?

– Não, chamou-me Ana e minha querida. E eu também não lhe chamei meu senhor.

Teresa envolveu-se toda no prazer desta resposta: Raul fizera com Ana o que quisera, mas não lhe chamara minha escrava.

– Também me chamou tolinha…

Então puseram-se as duas a rir, em paroxismos tais que Teresa teve que parar o carro até recuperar o controlo sobre si mesma. Tolinha… e de cada vez que uma delas dizia esta palavra, a outra respondia:

– Cala-te, não me faças rir.

E assim foram até casa de Miguel, onde Teresa esperou que Ana entrasse, gelando de novo os pés.

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Arminda tinha a chave do apartamento da filha, mas raramente lá ia sem ela lá estar, e nunca sem autorização. Um dia, Joana pediu-lhe que passasse por lá e lhe levasse uma pasta que lá tinha; depois, quando jantassem as duas, poderia entregar-lha, evitando assim que ela tivesse ir a casa primeiro.

– Depois de jantar ainda vais para a Faculdade?

– Tenho que ir – respondeu Joana. – Há uma coisa que tem que ficar pronta ainda hoje.

Arminda pegou na pasta e já vinha a sair quando uma curiosidade súbita a levou a voltar para trás e ir espreitar o quarto. E viu, sobre a cama, uma vergasta. Era vermelha, revestida dum tecido que parecia o das velas dos barcos. O punho era de cabedal preto, em tiras entrançadas. Na ponta tinha outra tira de cabedal, dobrada sobre si própria. Estava atada a meio com uma fita de seda preta que formava um laço e a identificava como um presente.

O laço foi o que mais a chocou.

Conduziu o carro até casa tentando controlar o batimento do coração, concentrando-se no trânsito, tentando imaginar toda a espécie de explicações inocentes para o que tinha visto; mas não conseguiu imaginar nenhuma.

– Ouve lá – disse à filha, mal ela lhe entrou em casa. – O que é aquilo que estava em cima da tua cama?

Joana nem se deu ao trabalho de perguntar à mãe com que direito lhe tinha ido meter o nariz no quarto.

– É uma vergasta, mãe – respondeu serenamente.

– Que é uma vergasta, sei eu. O que não sei é o que está a fazer uma vergasta em cima da tua cama. Foi o Rui que ta deu?

– Não, mãe; eu é que a vou dar ao Rui.

Arminda retirou-se de rompante para a cozinha. A filha seguiu-a e começou a ajudá-la em silêncio.

– Nunca pensei que o Rui tivesse essa tara de ser vergastado. Nem nunca pensei que uma filha minha se prestasse a essas poucas-vergonhas.

Joana suspirou. Não devia ter deixado a vergasta tão à vista, mas a verdade é que nem sequer se lembrara. Alguma vez teria que ter esta conversa, mas não esperava tê-la tão cedo; e era muito difícil.

– O Rui não gosta de ser vergastado, mãe. Quem vai ser vergastada, sou eu.

Pronto, está dito, pensou; agora, seja o que Deus quiser.

Arminda voltou-se para ela, desvairada:

– Eu, nunca! Nunca, ouviste?! Nunca admitiria que o teu pai me pusesse um dedo em cima!

– Nem ele o faria, mãe.

– Lá nisso, tens tu razão! O fulano pode ser uma besta e um sacana, mas nunca me tocou!

– Ao passo que o Rui, que está longe de ser uma besta ou um sacana, é perfeitamente capaz de me dar meia dúzia de vergastadas no rabo.

A Arminda, no estado emocional em que estava, estas palavras da filha pareceram dum cinismo atroz. Remeteu-se a um espesso silêncio, que só foi quebrado quando a filha lhe disse que Rui lhe tinha proposto viverem juntos e ela aceitara.

– Ai sim? Felicidades – respondeu Arminda, secamente.

Joana suspirou e tentou conciliar a mãe.

– O pai nunca te bateu, e ainda bem. Tu nunca o admitirias. A mim, também não. E se calhar, algumas vezes, fez mal em não me dar umas palmadas.

Arminda voltou-lhe as costas e encolheu os ombros, recusando aplacar-se. As palmadas de que a filha precisara em criança, tinha-lhas dado ela; mas com uma criança é diferente, pensou.

– Até amanhã, mãe – disse Joana ao sair.

– Até amanhã.

Só muito depois é que ocorreu a Arminda que as palmadas que dera à filha, por justas e necessárias que fossem, tinham sido dadas a uma criança que não se podia defender, e que nunca tinha consentido nelas; mas que Joana, adulta, não só se sabia defender muito bem, como era competente para dar o seu consentimento. Nessa noite não dormiu, consumida por uma ira tumultuosa contra a filha, contra Rui e contra si própria.

Voltou a nunca se encontrar com Rui nas tertúlias semanais, mas desta vez não ocultou às suas amigas a animosidade que nutria contra ele e a filha: só lhes ocultou, por muito tempo, o motivo dessa animosidade. Rui, por seu lado, começou a aparecer com menos frequência, por vezes acompanhado de Joana, que algumas amigas da mãe conheciam desde criança. Nunca deram mostras de retribuir a amargura de Arminda; nunca revelaram o seu motivo, nem fingiram que não o conheciam; nunca deixaram que as outras senhoras pensassem que ela tinha ciúmes; e nunca permitiram que alguém lhe atribuísse as culpas pela desavença. Arminda não tinha razão, mas tinha as suas razões, que eles compreendiam; não tencionavam voltar atrás nas suas decisões pessoais – que não disseram quais eram – mas esperavam que um dia Arminda as aceitasse e se reconciliasse com eles. Em suma: a cabra que havia em Joana aflorava cada vez menos à superfície, e as amigas da mãe não sabiam se deviam atribuir isto a hipocrisia ou à influência de Rui.

Os meses seguintes foram dedicados, por parte de Joana, à minuciosa aprendizagem dos ritos e das regras da sua nova condição. Nesta aprendizagem encontrava, por vezes, prazeres novos e imprevistos; mas também humilhações que lhe seriam insuportáveis senão tivesse decidido, teimosamente, levar até às últimas consequências a experiência iniciada e o compromisso assumido. Descobrira, com surpresa, que o castigo físico a afectava pouco: não lhe dava prazer, mas só era difícil de suportar enquanto durava. Submeteu-se a ele desde o início e nunca recusou deixar-se manietar para o sofrer. Custou-lhe muito mais submeter-se a actos que a humilhavam ou embaraçavam, sobretudo perante terceiros. Também lhe custou muito a habituar-se a ordens ou a regras cujo propósito não compreendesse e às que lhe parecessem caprichosas ou fúteis. Rui nem sempre se explicava:

– Basta que seja este o meu prazer – dizia, por vezes, quando ela o questionava.

Joana começou a compreender que qualquer ordem ou regra, mesmo que aparentemente não tivesse sentido nem propósito, servia ao menos para lhe lembrar que estava sujeita ao prazer de Rui.

Mas o que mais lhe custou, de longe, a ponto de quase a fazer desistir, foi perder o direito de escolher as suas próprias roupas. Não é que Rui tivesse mau gosto, mas tinha um gosto diferente do dela; e ao transitar lentamente do seu estilo, que era o da profissional competente, para o estilo boémio construído por Rui, sentia que estava a perder identidade. Quando confessou isto a Rui, ele respondeu:

– Essa identidade que estás a perder é falsa; essa mulher não és tu.

Quando Joana ouviu isto, a cabra veio à superfície:

– E tu é que sabes quem eu sou, suponho?! A identidade que me deres é que é verdadeira?!

– Se não for verdadeira – respondeu Rui, placidamente – havemos ambos de nos dar conta disso, e bem depressa. Estaremos a tempo de construir outra. O que te posso garantir, é que essa outra não obedecerá a qualquer convenção pré-fabricada.

– E a tua vontade? E o teu prazer?

– Serão determinantes, é claro – disse Rui. – Não serás só o que já és, serás também o resultado da educação que eu te der.

Por muito brutais que estes propósitos parecessem a Joana, tinha que reconhecer que a primeira coisa que dissera a Rui – que dissera à mãe, para ser mais exacta – é que precisava de quem a educasse.

Este mesmo período foi, para Arminda, de lenta reconciliação com a filha. Por mais que o não quisesse ver, não podia deixar de notar que Joana andava melhor: mais serena, mais feliz, mais segura de si e menos agressiva. Mantinha a animosidade contra Rui: em parte por teimosia, em parte por ciúmes, em parte pela ideia de incesto que a relação, irracionalmente, lhe sugeria; mas também porque não conseguia suportar a ideia de ver a filha maltratada e humilhada às mãos de um homem de quem fora amiga e que sempre se lhe apresentara como gentil e inofensivo.

– E é mesmo gentil, mãe – dizia-lhe Joana. – Gentil, honesto e justo. Inofensivo não é, certamente: mas quanto a isto, foi ele que te iludiu, ou tu que te iludiste?

Foi muito a custo, e ao fim de muita insistência, que Arminda aceitou encontrar-se com a filha e com Rui em casa deste. Não se surpreendeu por Joana a receber descalça: numa das raras ocasiões em que, vencida pela curiosidade, sondara a filha sobre pormenores da sua vida, ela contara-lhe o que os pés nus simbolizavam e as ordens que tinha de nunca se calçar em casa. Recordava-se da tendência que Joana tivera, em criança e adolescente, de se descalçar sempre que podia; e de como ela tinha reprimido esta tendência, a ponto de a filha ter interiorizado a sua aversão a andar descalça e se ter habituado, como ela, a nunca sair da cama sem enfiar os pés nuns chinelos. Agora, ao obedecer a Rui, Joana estava finalmente a desobedecer à mãe; e esta não deixou de se aperceber deste facto.

Arminda cumprimentou Rui com alguma distância, distância esta que ele respeitou, embora deixasse claro que estava na disposição de a transpor. A casa pareceu-lhe decorada totalmente à homem: não notou a mão da filha em nenhum pormenor. Na sala, Rui convidou-a a sentar-se no sofá.

– Fica aqui com o Rui, mãe – disse Joana. – Eu vou buscar uma bebida.

Quando Joana regressou com três copos de vinho branco num tabuleiro, Arminda deu-se conta, de repente, que sempre tinha sido ela a servir a filha à mesa, e que mantivera este hábito mesmo depois de ela se tornar adulta. Rui agradeceu e fez sinal com os olhos a Joana que se sentasse no sofá ao lado da mãe, que ficaria assim entre os dois.

– Tenho uma notícia a dar-te, Arminda – disse Rui. – Vou casar com a Joana.

Arminda, que era cada vez mais contra o casamento como instituição e não desejava ver a filha mais presa a Rui do que já estava, não ficou contente com a notícia.

– E para que é que vão casar? – perguntou. – Não estão bem como estão? Para que querem vocês um papel passado?

– O papel não é importante – disse Rui. – O que é importante, para mim, é ter alguém a quem deixar o que é meu. Se eu morresse agora, iria tudo para os meus sobrinhos do Canadá, que mal conheço, e a Joana ficava a ver navios. Acho que tenho o direito de deixar as minhas coisas à pessoa de quem gosto.

Contra isto não havia argumentos, pensou Arminda. E a naturalidade com que Rui tinha falado em gostar de Joana… Sentiu um impulso de simpatia para com ele, mas logo o reprimiu: nunca fora interesseira e não queria sê-lo agora. Mas Joana não tinha nada o ar de se estar a sacrificar por dinheiro. Pelo contrário: ao olhar para ela, Arminda notou-lhe um ar resplandecente que a levou a perguntar, tomada duma súbita suspeita:

– Por acaso não estarás grávida?

Joana deu uma risada franca, como Arminda não lhe ouvira havia muito tempo:

– Grávida, mãe?! Não, está descansada. Por enquanto, o Rui e eu queremos ser só dois.

E se a filha estivesse grávida, que mal teria isso? Com um filho em casa, pensou Arminda, não se poderia entregar tão livremente a jogos eróticos que a mãe nem queria imaginar.

– Vê lá, não adies muito. Olha que já não és uma criança, e o tempo passa.

– Terei isso em conta – disse Rui.

Está a informar-me, pensou Arminda, que a decisão será dele. O impulso de simpatia que sentira começou a desvanecer-se. Mas também me está a informar que está disposto a dar à Joana o que ela sempre quis. O ex-marido de Joana nunca quisera filhos, e esta tinha sido uma das causas do divórcio.

– E vou deixar de trabalhar – disse Joana. – Já apresentei o meu pedido de exoneração.

Ah, não. Isto, não. Deitar fora anos de estudo e de formação profissional?! Abortar uma carreira que mal começara?! Ficar na dependência dum homem?!

– E o que és que vais fazer? Vais passar o resto da vida a estupidificar no meio dos tachos e das panelas?

– Ora, ora, mãe – disse Joana. – Sabes muito bem que nunca gostei do meu trabalho; e sabes que hoje em dia, no nosso país, para uma pessoa da minha idade, não há carreiras, só há empregos, e precários ainda por cima. Tu vais-te reformar quando fizeres sessenta anos; eu reformo-me aos trinta, é tudo. E não vou estupidificar, vou viajar com o Rui pelo mundo todo.

Durante o jantar, Arminda não parou de oscilar entre sentimentos contraditórios. Pedro, um homem trabalhador e pacato, que parecera ter todas as condições para fazer a filha feliz, fizera-a profundamente infeliz; Rui, que parecia ter tudo para a destruir e anular, fazia-a resplandecer; a filha parecia que estava a deitar fora tudo o que a geração de Arminda tinha conquistado para as mulheres, e no entanto dava mais a sensação de estar a ganhar terreno que a perdê-lo. Tudo isto era demasiado para ela assimilar rapidamente, mas teria que o assimilar sob pena de ficar isolada num mundo que deixara de compreender. Não é por aí que vou ficar velha, decidiu; e foi a partir desta decisão que começou a dar o benefício da dúvida a Rui e à filha.

Recomeçou a comparecer na tertúlia nos mesmos dias que Rui. As amigas foram convidadas para o casamento. A pouco e pouco, foi-lhes permitido que se apercebessem da natureza da relação entre Rui e Joana, e isto deu lugar a semanas de debate.

– Se é assim que eles querem, deixá-los – decidiu por fim a mais velha, que era madrinha de Joana.

É claro que não foram felizes para sempre. Tiveram doenças, tiveram conflitos, tiveram que enfrentar a velhice; dos dois filhos que Rui fez a Joana, um deu-lhes problemas muito graves durante a adolescência; e Rui, quando morreu, deixou na vida muitas pontas soltas que Joana teve de atar sozinha. Por outro lado, enquanto viveram, nunca se arrependeram de terem decidido ser senhor e escrava. Se morrer sem arrependimento é a única vitória possível do homem sobre a vida e sobre os deuses, a vida deles foi um êxito total.

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Quando Rui propôs a Joana que fizessem exames médicos para poderem ter sexo sem preservativo, ela viu nisto a vontade dele de dar estabilidade à sua relação. Ficou contente mas não quis mostrar este agrado; e a cabra que havia nela fê-la perguntar:

– Porquê? Queres fazer-me algum menino, é?

Rui ignorou o sarcasmo:

– Se alguma vez te quiser fazer um menino, informo-te primeiro. Para já, o que quero é criar as bases para que haja uma confiança absoluta entre nós.

Joana não tinha nada contra fazerem análises, pelo contrário; a reacção que tivera viera-lhe duma vontade súbita de espicaçar Rui, e o facto de ele não se deixar espicaçar desarmou-a. Ficou ela de marcar a data para as análises, de preferência numa clínica onde poucas pessoas os conhecessem, e passaram a outros assuntos.

Joana viu nesta conversa uma para abordar uma questão em que andava a pensar:

– Posso perguntar-te uma coisa? O que querias tu dizer quando disseste à minha mãe e às amigas dela que da tua porta para dentro, só admitias uma escrava?

– Queria dizer isso mesmo – respondeu Rui. – Deixei-as pensar que aquilo era retórica para as calar, é claro, mas a ti digo-te que lhes estava a dizer a verdade sobre a minha orientação sexual.

– Não dás nada essa ideia – disse Joana.

– Não? Tens a certeza?

Joana corou, o que a fez zangar-se consigo mesma. Lembrou-se que nos primeiros dias da sua relação com Rui, ainda antes de o ter seduzido, ele lhe tinha dado a entender que não gostava muito de a ver de calças; e desde então ela passara a usar saias ou vestidos com cada vez maior frequência. Era a primeira vez que mudava a sua maneira de vestir por causa da vontade de um homem, ademais tão vagamente expressa. Quando se zangava consigo, Joana descarregava sempre noutra pessoa, e foi o que fez agora:

– Claro que tenho a certeza. Não te estou a ver a mandar numa mulher. Pelo contrário: até me parece que a minha mãe tem razão quando diz que te deixas dominar facilmente.

Rui sorriu:

– E tem razão, a tua mãe. Deixo-me dominar com a maior das facilidades quando o que está em jogo não me interessa. Com os mais fracos que eu, sou muito dócil: é uma ironia que me diverte. Mas também te quero fazer uma pergunta: que querias tu dizer quando confessaste à tua mãe que eras uma cabra e precisavas de dono? Também te devo dizer que não dás nada essa ideia.

– Como, não dou? Ainda há bocado…

– Ah, sim – disse Rui. – Há bocado, com efeito. Só tenho duas perguntas: porque diabo queres tu deixar de ser uma cabra, admitindo que o és? E se é isso que queres, porque diabo não o fazes sozinha? Para que precisas tu de um dono?

– E tu, para que diabo precisas tu duma escrava?

– Eu nunca disse que precisava duma escrava. Já precisei, já tive, e agora estou bem como estou. O que eu disse foi que só aceitava uma mulher em minha casa na qualidade de escrava; mas estou perfeitamente disposto a aceitar a alternativa mais provável, que é ficar sozinho.

Joana calou-se, olhando para baixo com os punhos cerrados. Como uma miúda birrenta, pensou Rui. Por fim, sem deixar de olhar para baixo, respondeu:

– Preciso de dono porque estou farta de lidar com homens que não respeito. Tu és o primeiro a quem respeito desde há muito tempo.

– Sim – sorriu Rui. – Ainda agora foste muito respeitosa para mim.

– Não é disso que se trata – disse Joana. – Não é por ser ocasionalmente sarcástica que preciso de dono: é porque sou mesmo uma cabra, e estou farta disso.

Rui ficou silencioso por tanto tempo que Joana pensou se não teria dito alguma coisa que o fizesse zangar. Mas disse, por fim:

– Olha, Joana. Há muitas espécies de dono, e nada garante que eu seja o dono de que precisas. Se alguma vez levar uma escrava para minha casa, nada garante que possas ser tu: podemos ter noções muito diferentes do que é uma escrava.

– Não me estou a oferecer como tua escrava – disse Joana.

– Nem eu como teu dono – disse Rui. – Pelo menos, ainda não. E pode ser que eu queira uma escrava já feita, e não uma a quem ainda seja preciso educar.

– E eras tu que me educavas?

– Dizes que és uma cabra, não dizes? Então, para continuar com metáforas de animais, terias que passar de cabra a cadela: isto seria uma educação. Seria também um esforço enorme e muito demorado, e eu teria de estar disposto a fazê-lo.

– Então não estás disposto.

– Posso vir a estar, mas teria de contar com a tua colaboração. Já não tenho idade para perder tempo com meninas que pensam que querem ser escravas.

Joana voltou um pouco atrás na conversa:

– Cadela, dizes tu? O que quer dizer isso, cadela?

– Quer dizer que quando eu te fizer sinal tens que vir com o rabo a abanar, mesmo que uns minutos antes eu to tenha feito pôr entre as pernas.

– Isso não vai ser nada fácil – disse Joana. – Nada fácil, mesmo.

– Não vai ser? – disse Rui – Já estás a pressupor que vamos tentar? Tem calma: primeiro vamos ver se a nossa relação resulta noutros planos, ao mesmo tempo que vemos se aquilo em que estamos a pensar é viável. Para já, vou-te dar três palavras para meditar, e um dia destes peço-te a tua reacção.

– Que palavras?

– Servir, obedecer, sofrer – disse Rui.

– Se é isso, posso dizer-te já…

– Não podes nada – disse Rui. – Podes dizer-me quando eu te perguntar.

Fizeram os exames médicos, esperaram pelos resultados, voltaram a fazê-los e esperaram de novo. Joana recomeçou a tomar a pílula. Começaram a ter relações sexuais sem preservativo, o que implicava já um primeiro compromisso, que era a fidelidade recíproca. Não se falou, porém, em viverem juntos. Veio o divórcio de Rui e resolveu-se a partilha dos bens, o que lhe permitiu remodelar uma casa que herdara, um pouco degradada e muito desconfortável: não o fizera antes para que a ex-mulher não pudesse dizer que o tinha feito com dinheiros comuns. Joana acompanhou esta remodelação, que foi completa: demolição de paredes internas, rearranjo das divisões, isolamento térmico e acústico, caixilharias novas, janelas com vidros duplos ou triplos, climatização, transformação em jardim do matagal nas traseiras.

A obra mais difícil foi na cave, onde o chão foi rebaixado um metro para aumentar a altura. Rui manteve as paredes em pedra tosca, mas revestiu o tecto com material isolante e instalou aquecimento a partir do soalho.

Joana, vendo que Rui não media despesas, perguntou à mãe:

– Como é que o Rui pode fazer aquelas obras todas com a pensão dele? Com a reforma antecipada, não pode ter ficado a receber muito.

– O Rui não depende da pensão – respondeu Arminda. – Com o que herdou, pode viver muito bem dos rendimentos.

Isto explicava uma decisão de Rui que Joana tinha considerado excêntrica: a de organizar a vida em função das temporadas de ópera do S. Carlos, do Scala, do Met, do Teatro del Liceo em Barcelona, do Covent Garden, do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e de festivais como o de Glyndebourne e Bayreuth. Esta agenda incluía lugares tão remotos como Manaus ou Sidney e exigia bem mais que doze viagens por ano – o que chegava para não o deixar estupidificar. Comprava os bilhetes pela Internet com meses de antecedência, tal como as viagens e o alojamento.

– Compro sempre a dobrar – explicara. – Para o caso de ter companhia.

A companhia, embora ele não o dissesse expressamente, seria ela; se os afazeres profissionais não a deixassem ir, seria algum amigo ou amiga; ou em último caso iria ele sozinho, assumindo o prejuízo. Só uns dias depois desta conversa é que Joana notou que ele nem sequer tinha posto a hipótese de ela, podendo, não querer ir; e que ela própria também não a tinha levantado. Eis-me, portanto, a obedecer, concluiu. O curioso é que nunca era claro se o que ele lhe solicitava era uma sugestão, um pedido ou uma ordem; nem se a resposta dela era anuência ou obediência; mas era claro, em contrapartida, que Joana fazia tudo o que Rui queria como nunca fizera com ninguém. Servir, obedecer, sofrer, pensou. Sobre o obedecer, começava a estar elucidada; e, se quisesse ser honesta consigo própria, teria que reconhecer que também estava a aprender alguma coisa sobre o servir. Na cama, embora Rui lhe desse mais prazer do que qualquer outro homem lhe tinha dado, tornara-se óbvio desde o primeiro dia que o único prazer que contava era o dele; e ela, não só aceitara isto, como se sentira feliz por aceitá-lo. Restava o sofrer: sobre isto, Joana não fazia a menor ideia do que sentia, e não saberia responder se Rui a interrogasse.

Rui tinha erigido na cave duas grossas colunas de madeira, esculpidas com baixos-relevos eróticos.

– Mandei-as fazer na Índia – explicou.

E com efeito as imagens copiavam as dos templos hindus.

– Para que são as colunas? – perguntou Joana.

– Para amarrar uma mulher, por exemplo. Para a punir.

Joana deu uma volta lenta a cada uma das colunas, passando os dedos pela madeira esculpida.

– E pensas que serei eu essa mulher?

– Não faço ideia. Depende de alguma vez vivermos juntos ou não. Podes ser tu ou pode ser outra, mas continuo a dizer que o mais provável é não ser nenhuma. E enquanto andar contigo tenciono ser-te fiel.

Porque não lhe disse Joana, naquela altura que aquela mulher nunca seria ela? Porque se calou? Eis-me com o rabo entre as pernas, pensou; não demorou muito. Continuou a tocar aquelas imagens profusas de mulheres com os seios generosos e redondos e de homens com grandes falos erectos, unidos em todas as posições imagináveis; subiu as escadas com Rui; depois, ao caminharem em direcção ao carro, deixou que ele a abraçasse, e até se chegou mais a ele, sorrindo-lhe, e dizendo a si própria: e agora até estou com o rabo a abanar.

Esta visita à cave de Rui obrigou Joana a pensar na última das palavras que ele lhe tinha proposto para meditar: a palavra sofrer. Tratava-se aqui, como ela compreendia muito bem, de sofrimento físico provocado intencionalmente por outra pessoa. Nunca tivera, nem as tinha agora, fantasias sexuais com a ideia de ser punida fisicamente. Por outro lado, nunca partilhara a vertigem de pânico e revolta com que muitas mulheres encaravam a simples menção desta possibilidade. Teria medo, sim, da violência, do descontrolo; mas se estes elementos fossem retirados da equação, deixando isolada a dor física, verificava, com alguma surpresa, que era capaz de considerar friamente a hipótese de a sofrer.

Uma noite, quando estavam a fazer amor, Rui proibiu-a de ter orgsmo. Joana nunca tinha imaginado que esta ordem pudesse ser dada, e muito menos obedecida, mas deu por si a reprimir o orgasmo que se aproximava, e a conseguir evitá-lo por pouco. Surpreendente foi o prazer que teve nisto, que se prolongou pelo resto da noite e por todo o dia seguinte: uma excitação sexual surda e permanente, que nunca aumentava nem diminuía, nem exigia desenlace. Passou semanas a analisar este prazer inédito, mas não chegou a nenhuma conclusão. Suspeitava que Rui sabia deste prazer e o podia explicar, mas não conversaram sobre ele.

Num fim-de-semana em que tinham ido ao Teatro alla Scala para ver Cecilia Bartoli no papel de Cenerentola, sentaram-se numa esplanada da Galeria Vittorio Emanuele II a fim de comerem qualquer coisa antes do espectáculo. Era um dia quente de Junho, tinham ido com muita antecedência e o sol ainda ia alto. Foi este o momento que Rui escolheu para a inquirir, finalmente, sobre as três palavras que a convidara, meses antes, a considerar.

– Lembras-te delas?

– Lembro – disse Joana. – Servir, obedecer, sofrer.

– E…?

Joana virou a cara:

– Posso fazer isso por ti, se é o que tu queres.

– Já o tens feito – disse Rui.

Joana continuava com a cara virada para o lado.

– Ainda não sofri… – murmurou.

– Mas já me tens servido e obedecido, embora com  moderação. Diz-me: alguma vez tiveste prazer nisso?

Algumas vezes, mas Joana não o quis confessar. Baixou a cabeça, encolheu os ombros, e disse baixinho:

– Não sei…

– Não sabes. Hmmm… Diz-me outra coisa: daquelas três palavras-chave, qual achas que é a mais problemática?

– Não sei – respondeu Joana. – Ainda nenhuma foi problemática para mim.

Rui fez um gesto afirmativo com a cabeça, como que a reconhecer a pertinência da resposta.

– A mais problemática é obedecer – declarou. – É a que dá origem aos maiores mal-entendidos.

Joana sempre achara difícil obedecer a outra pessoa. Admirava-se da relativa facilidade com que obedecia a Rui, mas também era certo que ele nunca lhe pedira nada de difícil. O que ela não sabia era a que mal-entendidos se referia Rui.

– Pensa numa mulher – disse ele. – Numa mulher qualquer. Pensa que se trata duma pessoa com desejos muito fortes e fantasias sexuais muito definidas, mas com inibições e sentimentos de culpa que a impedem de as realizar. Imagina que ela começa a fantasiar com alguém que a obrigue a realizar esses desejos… alguém que lhe permita pensar que não tem culpa, que só está a obedecer, a ser obrigada… não lhe ocorre sequer que lhe possa ser ordenado algo que ela não deseje à partida. Supõe agora que esta mulher encontra um homem como eu, que espera dela obediência; e supõe que a certa altura ele lhe exige alguma coisa que ela nunca previu nem desejou, algo que para ela é doloroso, ou humilhante, ou embaraçoso, e não lhe dá qualquer prazer. E então recusa. Continua a fantasiar com situações em que é obrigada a obedecer, e tem-se sinceramente na conta de submissa; mas o homem pensa que ela está enganada e termina a relação. Qual dos dois achas tu que tem a melhor noção do que é obedecer?

– O homem, é claro – disse Joana.

E corou, porque Rui só uma vez lhe tinha pedido uma coisa que não correspondia a uma fantasia sua; e mesmo dessa vez tinha-lhe proporcionado um prazer cuja existência ela ignorava e que ainda agora não compreendia. Tanto quanto Joana sabia, a mulher hipotética descrita por Rui podia ser ela própria.

– Disseste que estavas disposta a obedecer-me se eu quisesse – disse Rui. – Vamos ver se é verdade: vai lá dentro aos lavabos e deita os sapatos para o lixo.

Joana estava arranjada para ir à ópera. O vestido, dum vermelho acobreado escuro, tinha sido comprado num costureiro da Via della Spiga, numa outra visita a Milão. Na bolsa de mão, minúscula, trazia os brincos, o anel e o colar que tencionava pôr quando estivesse em segurança no interior do teatro. Por ordem de Rui, não trazia calcinhas nem soutien: mas esta ordem não lhe custara a cumprir porque sabia que o vestido tinha sido concebido para ser usado sobre o corpo nu, coisa que ela nunca faria por sua própria iniciativa. Mas esta outra ordem era diferente: não a podia usar como pretexto para fazer o que queria e não ousava; pelo contrário, exigia dela que ousasse o que não queria. Tentou objectar:

– Mas… mas… vou descalça para a ópera?!

– Vais – respondeu Rui placidamente.

– E se não me deixarem entrar?

– Se houver algum problema, eu resolvo-o.

Para esta certeza, não tinha Joana resposta. Como último recurso, usou uma palavra que nunca lhe tinha sido proibida, mas que já lhe soava pouco lícita:

– Mas… mas porquê?!

Rui sorriu levemente antes de responder:

– Por duas razões: a primeira, como te disse, é testar a tua obediência. A segunda é que doravante os teus pés nus serão, aos teus olhos como aos meus, um sinal de humildade e respeito. Se isto não se harmonizar com o que sentes por mim, a minha recomendação é que recuses.

Joana não queria pensar, naquele momento, no que sentia por Rui. Sentia que estava numa encruzilhada: o que decidisse naquele momento determinaria muito do seu futuro, e do futuro dele.

Obedeceu. Na Galeria e na rua, ao atravessar para o teatro, sentiu-se embaraçada quase até à vertigem pelos olhares de curiosidade ou desdém que atraía. Ninguém lhe barrou a entrada no La Scala; e, depois de pôr as jóias, sentiu que atraía menos olhares dentro do teatro do que tinha atraído lá fora.

Isto talvez seja assim, pensou, porque esta gente que aqui está sabe muito bem ver quando um vestido é de luxo e uma jóia verdadeira.

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(Nota: este conto acabou por ocupar treze páginas no Word. Decidi por isso dividi-lo em três partes e publicá-lo aqui três dias seguidos. Espero que gostem.)

– O Rui lá acabou por deixar a mulher – disse Arminda à filha, enquanto punham a louça na máquina.

– Quem é o Rui? – perguntou Joana.

Arminda pôs uma pastilha de detergente na máquina e escolheu o programa.

– Ora, quem é o Rui. Já te falei tantas vezes dele: é o meu colega que costuma aparecer ao almoço… O Rui Tavares, de medicina interna… Aquilo com a mulher já andava muito tremido.

– Ah, já sei: na tertúlia que fazes com as tuas colegas reformadas. Já estou a ver a cena: o homem arranjou outra fulana e saiu de casa. Típico. Não tarda nada, o meu pai faz o mesmo.

– Tomara eu – disse Arminda. – Mas o Rui não saiu por causa de mulher nenhuma. Quer viver sozinho, numa casa em que ninguém mande a não ser ele. Alugou um apartamento, fez a mudança, começou a mobilá-lo, meteu os papéis para o divórcio, e só no fim disto tudo é que nos disse.

Ainda faltava limpar o lava-louças e o fogão, mas Joana deteve-se com o pano na mão para se virar para a mãe:

– E tens a certeza que não foi por causa de outra?

– Se fosse, nós sabíamos. A Carmo e a Lúcia fizeram uns telefonemas e ninguém sabe de nada.

– E não será larilas, esse teu Rui Tavares?

– Só se for, mas não me parece. Com o currículo dele… Mas agora não tem ninguém. O que é estranho é ter sido ele a deixar a mulher, e não ela a ele. Mas sabes como é, ele é que tem o dinheiro… Mas também não é homem para deixar a mulher a passar mal.

Joana, às vezes, não entendia a mãe: estava farta de ver casamentos falhados, a começar pelo seu próprio e pelo da filha; e quando via algum terminar, a primeira coisa que lhe ocorria era organizar outro.

– Já estou a perceber: tu e as tuas amigas estão mortinhas, é por fazer de casamenteiras. Deixem o homem em paz… O que ele quer deve ser sossego.

– É o que ele diz: que já tem idade para aguentar uns meses de celibato, e que tão cedo não quer ver mulher nenhuma dentro de portas. E quando a Carmo começou a insistir demais, ele calou-a logo: mulher, em casa dele, só se fosse uma escrava.

– Bem feito – disse Joana. – Aposto que vos embatucou a todas.

Deram as duas uma última volta à cozinha, até que Joana disse:

– Queres ver um filme que eu trouxe? É com o George Clooney…
O filme, afinal, não era grande coisa, e a certa altura nem a mãe, nem a filha lhe estavam a dar grande atenção. Joana, que tinha ficado a remoer as últimas palavras da mãe, disse por fim:

– Essa coisa da escrava…

– Que escrava? – perguntou Arminda.

– A que o teu amigo disse que deixava entrar em casa. Se calhar era ele o homem para mim: de algum tempo para cá tenho andar a pensar que o que eu preciso, é de dono.

Uma parvoíce destas não merecia resposta, mas Arminda não se conteve:

– Passaste-te de todo, ou quê? Primeiro, o Rui é quase da minha idade. Segundo, é do tipo sonhador e poético, não ia estar para te aturar. E terceiro, depois do que passaste com o Pedro, a última coisa em que devias estar a pensar era em ter dono. Trata mas é de acabar o doutoramento e faz como eu, não penses em homens.

O filme, afinal, começou a ser interessante, e o Clooney era um pedaço de homem. Ficaram as duas absorvidas, mãe e filha, até que começaram a rolar no ecrã os créditos finais. Depois de desligar a televisão e o aparelho de DVD e de ter arrumado o filme, Joana entrou na cozinha, onde a mãe tinha aquecido leite para as duas e aberto um pacote de bolachas.

– Ó mãe, tu sempre és muito ingénua. Conheces-me tão bem, sabes a cabra que eu sou, até para ti…

– Ai, lá isso, és.

– E acreditaste em tudo o que eu te disse sobre o Pedro. A maior parte das sacanices que eu te disse que ele me fez, fui eu que lhas fiz a ele, e tu nem desconfiaste: correste logo em socorro da filhinha.

– É, tens razão, sou uma grande parva – disse Arminda. – Mas se é assim, porque não voltas para ele?

– Isso queria ele. Parece que gosta de levar na cara, o desgraçado. Eu é que nem o quero ver à minha frente. Então o teu amigo chama-se Rui Tavares e é internista, não é?

Arminda pousou a caneca e virou-se para a filha, muito séria:

– É, mas agora sou eu que te digo que o deixes em paz.

Joana sorriu:

– Não tenhas medo, eu sei defender-me.

– Pois é, isso estou eu a ver – disse Arminda. – O meu medo não é por ti, é por ele. Se fizeres mal ao meu amigo, não penses que te perdoo.

Joana levantou-se e beijou a mãe:

– E eu quero lá o teu amigo para alguma coisa? Estou como tu: não quero pensar em homens. Olha, vou para casa. Até amanhã.

– Até amanhã – disse Arminda. – Tranca as portas do carro e guia com cuidado.

Arminda era pediatra a tempo inteiro no hospital de Santo António, o mesmo em que Rui trabalhava. Joana, que não tinha conseguido entrar para Medicina, tirara uma licenciatura enfermagem; mas o trabalho não lhe dava prazer, e por isso continuava a estudar: fizera um mestrado e estava agora a concluir, de forma competente mas sem grande entusiasmo, um doutoramento. O trabalho e a tese quase não lhe deixavam tempo para mais nada, mas quando podia ia a concertos de música clássica ou jazz. Já conhecia de vista os frequentadores mais assíduos da Casa da Música, mas nunca quis travar conhecimento com nenhum; até que um dia, numa das bibliotecas da Faculdade de Medicina, encontrou um deles com uma tarjeta identificadora na lapela: Rui Tavares, médico.

– Conheci o teu amigo Rui – disse mais tarde à mãe. – É muito simpático, e não me parece que seja quase da tua idade. Apresentei-me como tua filha e estivemos a conversar.

– Eu sei – disse Arminda. – Ele disse-me que tomou um café contigo. Diz que te achou doce e sensível, o trouxa. Eu só não o avisei que tivesse cuidado porque não lhe quis pôr ideias na cabeça, mas aviso-te a ti.

Joana não respondeu. Não podia levar a mal à mãe que chamasse trouxa a Rui; ela própria se admirava com o seu comportamento em relação a ele. A ironia estava em que a sua doçura não tinha sido fingida, pelo menos de forma consciente: tinha-se mostrado como realmente era – ou como realmente era junto dele – ou talvez, ainda, como gostaria de ser.

Nos meses que se seguiram, continuou a encontrar-se com Rui para tomar café ou ir a um espectáculo. Porque havia de ir cada um sozinho quando podiam ter companhia? O que sossegava Arminda quanto a estes encontros era que Rui os mencionava quando estava com ela e com as amigas. A filha também não fazia segredo deles; e continuou a não fazer segredo quando ganhou o hábito de ir tomar um copo com Rui depois de irem ao cinema ou a um concerto. Só começou a parecer a Arminda que as coisas estavam a ir longe demais quando estas saídas começaram a ser precedidas de jantares a dois. Rui já não dizia que não queria nada com mulheres e não lhe contava todos os encontros que tinha com Joana, nem esta todos os que tinha com ele; mas, ora por um, ora por outro, lá ia sabendo de quase todos, e se não lhos contavam todos era decerto porque já os tinham como adquiridos.

Uma noite, depois de terem ido à ópera no Coliseu, Joana sugeriu que tomassem um copo em casa dela. Usavam nas suas saídas, alternadamente, os respectivos automóveis, e desta vez tinha-lhe calhado levar o seu. Não chegaram a tomar o tal copo: assim que tiraram os casacos, ela abraçou-se a ele e beijou-o na boca, ao que ele respondeu com entusiasmo. Colada a ele, Joana sentiu-lhe o sexo a intumescer. Levara um vestido muito decotado nas costas, sem soutien, e, quando sentiu a mão dele a insinuar-se por baixo do tecido, afastou-se um pouco e disse:

– Comprei preservativos…

Rui ficou com ela a noite toda. Tinha pedido a aposentação antecipada e não tinha que ir trabalhar na manhã seguinte. Quando Joana se levantou para ir para o hospital de S. João, deixou-lhe um bilhete a dar-lhe um beijo, a dizer-lhe onde estavam as coisas para o pequeno-almoço e a pôr-lhe a casa à disposição. Deixava-lhe uma chave para ele dar quatro voltas na fechadura quando saísse.

À hora de almoço, ele telefonou-lhe para lhe mandar um beijo e marcar novo encontro. Não, nessa noite não podia ser, Joana ia estar de serviço. Na noite seguinte, sim. Jantar? Podia ser, e depois podiam ir ao cinema: havia um filme que ela estava com vontade de ver.

Ao passar por casa, ao fim da tarde, Joana tinha à sua espera, já metido numa jarra com água, um ramo de rosas vermelhas. Sentimentalismo idiota, pensou; este afinal é como os outros. Mas este princípio de decepção passou-lhe quando leu o bilhete: Pedi à florista que não tirasse os espinhos. Espero que gostes. E gosto, pensou Joana. Gosto muito dos espinhos.

– Seduzi o teu amigo – disse Joana à mãe. – Estou a dizer-te isto para que não penses que foi ele.

Arminda sentiu vontade de se atirar à filha e de lhe arranhar a cara toda. Ou então de fazer o mesmo a Rui, que não lhe tinha dito nada. Aquilo parecia-lhe uma espécie de incesto: não sentiria maior revolta se tivesse sido o marido a dormir com a filha. Mas isto era uma idiotice, e é claro que Rui nunca lho poderia dizer: como é que um homem diz a uma mulher, que conhece há anos, que foi para a cama com a filha dela?

Não compareceu ao almoço com as amigas no dia em que Rui costumava ir, nem na vez seguinte. Quando as amigas começaram a achar isto estranho, telefonou a Rui para o telefone fixo. Era verdade, disse ele. Então Arminda descarregou toda a sua raiva: se ele não achava que estava velho para seduzir meninas, se não tinha nojo de si próprio, se não achava que o que tinha feito era uma traição.

– Traição? – disse Rui. – Estás com ciúmes?

Isto fez com que Arminda se calasse e desligasse o telefone. Ciúmes? Como, ciúmes, se entre eles nunca tinha havido, sequer, um desejo fugidio? Rui era livre, Joana era livre, só ela, Arminda, é que não; e por mais que desprezasse o marido, nunca seria capaz de pagar traição com traição. E contudo, era obrigada a reconhecer que Rui não andava longe da verdade. Ciúmes, inveja ou orgulho ferido: a relação entre Rui e Joana depressa seria conhecida, e Arminda não sabia como havia de encarar os amigos quando eles soubessem.

Tanto ela como Rui passaram a comparecer de novo na sua tertúlia, mas, por um acordo tácito, nunca os dois ao mesmo tempo. Quando as amigas lhes perguntavam o que tinha havido entre eles, ambos respondiam que não tinha havido nada; se não se encontravam ao almoço, era porque não calhava.

Joana, por sua vez, lidava com a mãe como se nada se tivesse passado. Não dava pormenores da sua relação com Rui, mas também não evitava o assunto. Às vezes, se viesse a propósito, dizia-lhe que nessa noite dormia em casa dele; e esta naturalidade, que ao princípio era sal esfregado na ferida, acabou por levar Arminda a aceitar como facto consumado a relação entre o amigo e a filha. Foi ela que informou dela as amigas, antes que soubessem por outras vias, e por fim recomeçou a comparecer na tertúlia ao mesmo tempo que Rui. Isto provocou neles e no grupo um certo constrangimento; mas este, à medida que os dois foram aprendendo a tratar-se em público como uma espécie de sogra e genro, e as dinâmicas do grupo se estabilizaram num novo equilíbrio, acabou por se dissipar: a relação entre Rui e Joana estava, por assim dizer, oficializada.

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close_collarAs condições da tua Escravidão

Pediste-Me que estabelecesse expressamente e por escrito as condições da tua Escravidão. Eis o que decidi:

1. Em princípio a tua Escravidão já é perfeita e não há nada a alterar n’Ela. Mesmo ao direito de deixar de ser escrava, que era o único que tinhas, quiseste renunciar. Cabe-te agora Amar, Servir, Obedecer e Sofrer enquanto tu e Eu formos vivos.

2. Na prática, contudo, ainda há muito que aperfeiçoar. Porque não te empenhas o suficiente; porque Me deixas em exclusivo o cuidado de te fazer escrava e não partilhas esse esforço, ainda há muitos dias em que não és mais escrava do que no anterior. Faltas assim ao teu dever e ao teu compromisso para coMigo.

3. Por vezes és insolente. Por vezes chegas a ser exigente. O teu corpo nem sempre obedece ao teu espírito. O teu Senhor compreende isto e não to leva a mal, mas precisamente porque compreendo é que exigirei de ti cada vez mais.

4. És escrava no teu espírito, que consente; és escrava no teu coração, que ama; és escrava no teu corpo, quando goza; mas ainda não aprendeste a ser cabalmente escrava no teu corpo, quando sofre.

5. Sei que não és masoquista e que a dor física não te dá prazer. Prefiro que assim seja: quando te provoco dor é para te castigar e não para te recompensar; ou então é para Meu prazer e não para o teu.

6. Quando aceitas com submissão a dor que te provoco, sei que estás a sofrer por Mim, e não para teu próprio gozo. É uma dádiva que Me fazes, e Eu tenho perfeita consciência de quão grande ela é.

7. Quando te castigo fisicamente estou a ser generoso. O castigo físico é o menos cruel dos castigos: faz sofrer naquele momento, mas rapidamente termina; as marcas que deixa são no corpo e duram pouco.

8. Por vezes tentas esquivar-te quando és castigada: é o teu corpo a desobedecer ao teu espírito. Isto é indigno de ti e do compromisso que assumiste coMigo. Como esperas obedecer ao teu Senhor se nem a ti mesma obedeces?

9. Quando te deixas amarrar tenho bem consciência do quanto estás a confiar em Mim. É essa confiança que exijo de ti: sei que não sou mau nem estúpido, que me sei controlar, e não te castigarei mais do que mereces e podes suportar.

10. Mas também não te castigarei menos do que mereceres e puderes suportar.

11. O teu Senhor sabe bem o quanto necessitas de ser amada. Mas não te permite que digas “quero ser amada”, porque nem nisso tens querer. O amor duma escrava aceita com gratidão a sua contrapartida, mas nunca a exige.

12. O mais que podes pedir, quando estás perdida de amor e necessitas absolutamente da atenção do teu Dono, é que Ele te possua. E Eu possuir-te-ei ou não, como entender, e permitir-te-ei ou não que tenhas prazer; e tu ficarás feliz porque é assim que deve ser.

13. Entre ser amada explicitamente e ser possuída vai uma enorme ausência repleta de Sofrimento. Por isso te chamo, com inteira propriedade, a Minha “escrava sofredora”, o que quer dizer que Me deves amar como se Eu não te amasse.

14. Se Eu te amo, raramente to direi, ou nunca. Preencherás tu própria este silêncio, dizendo-Me vezes sem conta, sem mentir nem ocultar seja o que for, tudo o que sentes por Mim: desde o amor até à raiva, desde a gratidão ao ressentimento. Apresentar-te-ás perante Mim tão nua de alma e sentimentos como de corpo. Permitirei assim que mitigues o Sofrimento que o Meu silêncio te possa provocar.

15. Também te imponho, frequentemente, o silêncio. Quero que estas ocasiões sejam para ti a oportunidade de dizeres sem palavras o que muitas vezes não pode ser dito através delas.

16. Às vezes ousas lembrar-Me que tens sentimentos. Eu sei que os tens, mas quero que manifestes os que exprimem a tua Escravidão antes de manifestares os outros.

17. Quando o Eu te perguntar se gostarias de alguma coisa, a tua resposta tenderá a ser “sim, se Tu mo ordenares”.

18. A tua Escravidão não é um jogo, nem uma brincadeira, nem uma fantasia, nem um teatro: é a tua condição de vida, a tua realidade assumida.

19. Quero que sejas feliz na tua Escravidão: obedece-Me também nisto. Não representes o papel de escrava: sê escrava.

20. Junto do teu Senhor estás em terreno sagrado: em Minha casa e no Meu automóvel estarás sempre descalça, esteja Eu presente ou não. Também estarás descalça em tua casa sempre que Eu estiver presente.

21. Na rua e noutros lugares ficarás descalça sempre que Eu to ordene, porque os teus pés nus são a Coleira de escrava que determinei para ti. Se a obediência a esta ordem te causar por vezes embaraço, humilhação ou vergonha, e se estes sentimentos te fizerem sofrer, aceitarás este Sofrimento de bom grado porque te vem de Mim.

(Nota: este texto é pura ficção, embora se modele num documento que a minha dunya me dirigiu há alguns anos. O carácter ficcional vem-lhe das alterações que lhe introduzi, desde logo a transformação de um texto em que a escrava se dirigia ao Senhor noutro em que o Senhor se dirige à escrava. Também aparecem nele mencionados sentimentos meus que na altura não manifestei; se eu algum dia, por algum improvável acaso, voltar a ter uma escrava a quem ame, não voltarei a cometer o erro de não o referir. E é ficcional, finalmente, porque o compromisso para toda a vida referido no original acabou por não se realizar.)

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Clara teve finalmente que admitir perante si própria que já não se sentia escrava de Lúcio. Mais do que isto: teve que admitir, o que de certa maneira foi ainda mais difícil, que Lúcio já não se sentia seu Senhor. Tornara-se dependente, possessivo e ciumento. Já não dispunha dela com a liberdade de outrora – uma liberdade esplêndida, insolente, que era quase uma displicência; em vez disto agarrava-se a ela com um amor timorato e inquieto.

Ela, por sua vez, sentia-se culpada: culpada de já não se sentir dele por mais que dissesse a si mesma que havia de o ser sempre. Cada vez mais se lembrava das palavras com que tinham selado, meses atrás, o seu pacto: «a tua única liberdade é deixares de ser minha escrava quando quiseres.» Muito bem; lindas palavras; mas para Clara o exercício desta liberdade, a mera admissão de que ela pudesse ser exercida, aparecia como uma traição e um fracasso.

E havia ainda Ricardo. Pensar em Ricardo, como Clara não se conseguia impedir de fazer, era outra deslealdade para com Lúcio. A maior traição, porém, a traição que Clara não perdoava a si própria, era o quadro que a sua imaginação lhe pintava com cada vez maior frequência – sempre inesperado, sempre súbito, sempre indesejado: ela própria aos pés de Ricardo em vez de aos de Lúcio: Ricardo, e não Lúcio, na posição de Senhor – um Senhor verdadeiro, mais atento, mais firme, mais seguro de si, mais exigente.

Culpada, portanto. Sabia-se culpada. Porque não via Lúcio que ela era culpada? Porque não a punia? Porque não se apoderava de novo dela, e a fazia sua, e lhe tirava da cabeça o pensamento indesejado de pertencer a outro?

A relação não terminou com um corte limpo nem repentino. Teve afastamentos e reconciliações, lágrimas, discussões, dias de felicidade quase perfeita. Durante um desses períodos de afastamento, Clara, sem saber se era livre ou não, começou a encontrar-se com Ricardo; e ao fim de alguns destes encontros teria sem dúvida chegado a ir para a cama com ele se ele se tivesse prestado a isso sem que estivessem perfeitamente definidos os seus direitos sobre ela.

– Não podes ter dois donos – disse ele no dia em que ela lhe ofereceu a boca num beijo.

Tão estranho é o coração humano que Lúcio, quando soube dos encontros entre Clara e Ricardo, se ressentiu mais desta infidelidade não consumada do que se teria ressentido da mais tórrida e apaixonada das ligações eróticas. Numa das últimas discussões que tiveram disse à amante, entre desencantado e furioso:

– Finalmente, não és minha escrava.

Clara ainda não estava preparada para admitir esta verdade. Foi buscar o chicote, disse a Lúcio que não a poupasse, e ele de facto não a poupou; mas no fim, perante as lágrimas dela e os vergões em carne viva que lhe cobriam o corpo, continuou a dizer:

– Não, Clara. Já não és a minha escrava.

Dias depois, durante a noite, quando ele tinha acabado de sair de dentro dela, ela murmurou, como tantas vezes antes, «sou tua».

– Pois se és minha – respondeu Lúcio – não te vais entregar ao Ricardo.

Clara não respondeu. Entregar-se a Ricardo era o seu maior desejo, e sobre isto não podia mentir. Além disso não tinha compreendido bem as palavras de Lúcio, que pareciam uma ameaça mas não tinham sido ditas em tom de ameaça. Só compreendeu quando ele continuou:

– Não te vais entregar a ele. Se não te pertences, não te podes entregar a ninguém. Quem te vai entregar ao Ricardo sou eu.

E sem mais palavras, surdo aos pedidos e às perguntas dela, levantou-se, vestiu-se a saiu. Nos dias que se seguiram, Clara não o encontrou nem em casa, nem nos lugares que ele costumava frequentar, e não conseguiu contactá-lo por meio nenhum. Durante este tempo todos os encontros que teve com Ricardo foram para falar de Lúcio, do estado de espírito de Lúcio, do medo que Clara tinha de que ele fizesse «alguma asneira».

Por fim foi Ricardo quem lhe disse:

– O Lúcio telefonou-me.

– Telefonou-te? A ti? Onde é que ele está?

– Está em Itália. Chega amanhã. Quer encontrar-se contigo e quer que eu esteja presente.

Clara ficou sem saber o que pensar. Ao fim de um longo silêncio, perguntou:

– E tu vais?

– Vou. E tu também. Vamos os dois. Mas esta noite dormes comigo.

Nessa noite, quando os corpos dos dois se uniram pela primeira vez, foi como se fossem amantes de longa data, reencontrados ao longo duma longa e penosa ausência. Amaram-se toda a noite com lágrimas e sorrisos, com denodo e temor, com violência e brandura. Mas nem por uma vez ele disse «és minha» ou ela disse «sou tua».

O encontro foi em casa de Lúcio, que os recebeu num compartimento mobilado como uma biblioteca. Convidou Ricardo a sentar-se numa poltrona e fez sinal a Clara que se sentasse no chão, como tantas vezes antes. Quando ela, corando, fez menção de se ajoelhar no seu lugar habitual em frente ao sofá, ele abanou a cabeça e indicou-lhe com o queixo o tapete à frente de Ricardo.

– Aceita um whisky? Um charuto?

– Com todo o gosto – respondeu Ricardo. – Mas só o whisky, por favor.

– Clara, queres servir-nos?

Clara, que já estava ruborizada, enrubesceu ainda mais ao ouvir esta frase que lhe pareceu cheia de segundos sentidos. Ao verter a bebida atrapalhou-se e deitou um pouco por fora de um dos copos. Poucos dias antes este lapso teria sido pretexto para um castigo severo, mas desta vez Lúcio limitou-se a dizer:

– Deixa estar, não faz mal. Depois a empregada limpa.

Parecia não estar com pressa: esperou que ela servisse os dois whiskies e se sentasse de novo no chão aos pés de Ricardo antes de perguntar:

– Diga-me, Ricardo, a Clara alguma vez lhe disse que me pertencia?

– Sim – respondeu Ricardo. – Várias vezes.

– Ah. E alguma vez lhe disse que tinha deixado de me pertencer?

– Não, nunca.

– Nem que lhe pertencia a si?

– Também não. Tanto quanto sei, a Clara considera-se propriedade sua.

Lúcio sorriu levemente.

– Nem nunca lhe disse que desejava ser sua?

– Os desejos da Clara – respondeu Ricardo, pausadamente – não contam.

Lúcio levantou-se do sofá e serviu-se doutro whisky.

– Da última vez que estive com a Clara – murmurou – disse-lhe que não queria que ela se entregasse a si. Queria ser eu a entregar-lha. Ela contou-lhe?

Ricardo assentiu com a cabeça e Lúcio continuou:

-Sabe, Ricardo? Há uma coisa sobre mim de que a Clara provavelmente nunca se deu conta. Não esteve comigo tempo suficiente para isso. Mas é importante que o saibam agora, ela e você.

Ricardo levantou uma sobrancelha e esperou polidamente que Lúcio prosseguisse.

– Sou um jogador, meu caro Ricardo Sempre o fui, desde que me conheço. Não por compulsão, nem por qualquer tendência auto-destrutiva. Pertenço à espécie rara dos que ganham mais do que perdem.

Ricardo inclinou um pouco a cabeça:

– Espécie rara, com efeito.

– Mas mesmo assim aprendi a perder – disse Lúcio, como se o não tivesse ouvido. E acrescentou, perdendo pela primeira vez um pouco da calma com que até então tinha conduzido a conversa:

– Aprendi a perder, e aprendi sobretudo a nunca jogar a feijões. Está-me a entender?

– Não – disse Ricardo. – Lamento, mas não estou a compreender aonde quer chegar.

Lúcio mostrava agora alguns sinais de agitação:

– Aonde quero chegar? Quero chegar aqui: sei que vou perder a Clara, se não a perdi já. Mas não quero que você a ganhe sem pagar um preço. Reflecti muito enquanto estive em Itália, e decidi isto: a Clara, nunca lha darei, mas vendo-lha. Se você a quiser e puder pagar, eu vendo-lha. Aceita?

Sentada no chão, Clara teve um sobressalto violento. Ter-se-ia levantado de repente se Ricardo, com um gesto imperioso, a não tivesse obrigado a ficar quieta.

– E já pensou no preço? – perguntou ele, serenamente.

Lúcio bebeu um trago de whisky e mencionou uma quantia que levou Clara a dar outro salto no lugar. Porquê isto? Lúcio era rico, bem mais rico que Ricardo. Nem precisava de dinheiro, nem era ganancioso: disto tinha Clara a certeza. E para Ricardo a quantia pedida era, sem ser ruinosa, significativa. Teria Lúcio tido em conta as circunstâncias do outro?

– Por esse preço não a quero – disse Ricardo, impassível. – Dou-lhe o dobro.

A estas palavras Lúcio ergueu o queixo.

– Peço-lhe que não me insulte. Pedi-lhe um preço por esta mulher, é esse preço que está em discussão.

– Tem razão – disse Ricardo. – Peço desculpa. Estou de acordo com o preço, naturalmente.

E sem mais palavras tirou do bolso o livro de cheques. Enquanto desenroscava a tampa da caneta virou-se para Clara:

– Descalça-te, Clara. Agora és propriedade minha.

Com as lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto, Clara tirou os sapatos de salto muito alto com que Lúcio gostava de a ver e que tinha trazido calçados em homenagem a ele. Viu o cheque mudar de mãos. Aproximou-se de Ricardo, ajoelhou, beijou-lhe a mão.

À despedida, o sorriso que deu a Lúcio foi tanto de agradecimento como de compaixão. Os sapatos, deixou-os com ele.

(Publicado no Blogger a 08/09/07)

Read Full Post »

1202Ricardo acabou de desamarrar Dúnia que, ainda meio a soluçar, se chegou muito a ele, e para esconder o rosto lhe molhou o ombro de lágrimas.

Abraçando-a, conduziu-a de novo à sala, onde lhe pegou no queixo para a obrigar a virar-se para ele. Dúnia ofereceu um pouco de resistência mas acabou ceder: então ele começou a beijá-la nos olhos, na boca, na face, nos cantos dos lábios, chamando-lhe minha querida, minha escrava linda, minha menina. Quando a viu serena perguntou-lhe:

– Sofreste muito?

– Sim – respondeu Dúnia. E depois duma pequena pausa acrescentou:

– Sofri por ti…

Ricardo fez que sim com a cabeça, tomou-a nos braços para a beijar de novo e ordenou:

– Agora vira-te para eu ter ver as marcas.

Dúnia obedeceu prontamente, com uma espécie de orgulho a animar-lhe os gestos. Afastou-se do dono um metro ou dois e girou devagar sobre si própria para lhe mostrar as costas e o traseiro. Curiosa, virou a cabeça para trás por sobre o ombro tentando ver as suas próprias nádegas.

– Estão bonitas, as tuas marcas – disse Ricardo.

Ela não concordou nem discordou. O chicote tinha-lhe traçado uns riscos grossos de um lado ao outro do corpo, mais rosados ou mais vermelhos conforme a força com que os golpes tinham sido vibrados. Onde os traços se cruzavam a vermelhidão era mais intensa, da cor da carne viva.

– Agora ajoelha-te.

O orgulho e a alegria de Dúnia esvaíram-se repentinamente e em seu lugar veio-lhe um forte sentimento de angústia e revolta. Sabia a razão daquela ordem. Conhecia o ritual. Ajoelhou.

Ricardo pegou no chicote, que estava caído em cima do sofá, e pô-lo diante dos lábios dela:

– Minha escrava, beija o chicote.

Ela aproximou os lábios… Mas não, não podia. Suplicou:

– Não, isso não. Não me obrigues a fazer isso. Por favor, meu Dono, não me obrigues.

– Beija o chicote, escrava.

Com um movimento violento da cabeça, Dúnia virou a cara para o lado, fechando os olhos para não ver, não ouvir, não estar ali. Ricardo pegou-lhe no queixo, obrigou-a a virar a cara para a frente e, quando viu que ela não abria os olhos, esbofeteou-a com força. Então ela abriu os olhos, atónita e ultrajada, e olhou para ele fixamente num silêncio desafiador.

– Não queres beijar o chicote, escrava?

Dúnia nunca o tinha visto tão zangado – pálido, com os lábios apertados, as narinas muito abertas, os olhos a faiscar.

– Pois bem, não vais beijar o chicote – disse Ricardo.

Mas acrescentou, antes que ela tivesse tempo de suspirar de alívio:

– Com uma condição.

Dúnia sentiu que tinha mais medo da condição do que do gesto que lhe tinha sido exigido. Timidamente, mansamente, ainda de joelhos, perguntou:

– Que condição, meu Senhor?

A expressão de Ricardo não abrandou.

– Sabes o significado deste beijo. A condição é esta: vais olhar-me bem nos olhos, bem de frente, e dizer-me que esse significado é mentira. Diz-me isso e não beijas o chicote.

Ela baixou os olhos de novo e manteve-se longamente em silêncio sem que ele lhe interrompesse os pensamentos. Por fim disse, em voz sumida:

– Não, não é mentira.

Ricardo não disse nada. Dúnia, depois doutro longo silêncio, repetiu:

– Não é mentira, meu Senhor.

Ao ouvir isto, o Dono apresentou-lhe de novo o chicote; e desta vez ela beijou-o, pondo nesse beijo todo o fervor que antes temera mostrar, e compreendeu então que esse temor tinha sido a causa principal da sua recusa.

– Agora agradece-me o castigo.

Vencida, Dúnia tentou obedecer, mas as palavras não lhe saiam da boca. Ricardo acariciou-lhe o rosto e disse:

– Vá. Repete comigo: “Obrigada, meu Senhor, pelo castigo que me deste.”

Dúnia baixou os olhos, sorriu muito ao de leve, e disse:

– Obrigada, meu Senhor, pela oportunidade que me deste de sofrer por ti.

Ricardo sorriu, encantado pela volta que a sua escrava tinha dado à frase e pela pequenina vitória que esta modificação representava para ela. Inclinou-se, ajudou-a a pôr-se de pé, abraçou-a e ficou mais de um minuto a acariciá-la e beijá-la. Depois sentou-se no sofá e fez-lhe sinal para que se sentasse no chão aos seus pés.

Durante muito tempo ficaram os dois em silêncio com os seus pensamentos. Quando começaram a falar foi como se um dique tivesse rebentado: a conversa prosseguiu pela noite fora. De madrugada, já com os primeiros raios de sol a entrar pela janela, ele possuiu-a sobre o tapete.

(Publicado no Blogger a 29/08/07)

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De repente Dúnia sentiu que não aguentava mais.
– Pára! Pára, meu Senhor, pára!

E num pânico cego rolou sobre a cama, para o mais longe possível, fugindo ao chicote. Nem ela saberia explicar porquê: não era a primeira vez que sofria o chicote – ai, nem de longe – e já tinha tido castigos mais prolongados e mais dolorosos.

Ricardo não conseguiu travar uma última vergastada, que já ia a caminho e aterrou onde ele não queria: no ventre dela, subitamente exposto, subitamente no lugar onde uma fracção de segundo antes tinham estado as nádegas; e nos braços que ela interpusera para se proteger.

Aproximou-se dela, que soluçava:

– Perdoa… Perdoa, meu Senhor, não fui capaz…

Ricardo não disse nada, não perguntou nada. Sentou-a no sofá, sentou-se ao lado dela, abraçou-a e começou a afagá-la e a beijá-la enquanto os soluços se lhe iam acalmando. Só ao fim de longos minutos é que acabou por falar:

– Então? Então que cenas são estas? Tolinha…

Dúnia sorriu por entre as lágrimas e chegou-se mais a ele:

– Não fui capaz… Perdoa-me, meu querido, não fui capaz…

Ricardo recomeçou a acariciá-la e a beijá-la ao mesmo tempo que brincava com ela chamando-lhe nomes:

– Piegas… Coisa mais piegas… Medricas…

Dúnia indignava-se, queria protestar, não era piegas nem medricas, mas ele com os beijos não a deixava falar, e só parou quando a viu soltar uma risada aberta.

– Anda, vai-me fazer o jantar…

E ao vê-la fazer menção de pegar no vestido:

– Não, não te vistas. Quero-te assim nua.

Depois do jantar e da cozinha arrumada sentaram-se os dois no sofá, abraçados. Depois dum longo silêncio, durante o qual os pensamentos de Dúnia passaram em revista tudo o que tinha acontecido naquele dia, Ricardo soltou um leve suspiro, olhou-a nos olhos e disse:

– Vamos recomeçar?

Dúnia tinha chegado a ter esperança de que não recomeçariam. Com o coração na garganta, conseguiu dizer:

– Sim… Sim, meu Senhor.

Ricardo levantou-se e dirigiu-se para o escritório. Para quê? O chicote estava ali…

Mas quando ele regressou não vinha de mãos vazias. Trazia um longo pedaço de corda preta que parecia de seda. Dúnia nunca tinha sido amarrada mas não ousou protestar.

– Dá-me os pulsos – disse ele.

Dúnia deu-lhe os pulsos cruzados. Ricardo atou-os com várias voltas de tal modo apertadas que ela sentiu que nunca se conseguiria libertar. Depois, puxando-a pela corda, conduziu-a ao hall de entrada, onde havia cabides montados nas paredes.

– Não, meu Senhor – disse Dúnia; mas não ofereceu resistência.

Então Ricardo prendeu-a firmemente a um dos cabides e vergastou-a sem piedade. No fim, como era regra, obrigou-a a beijar o chicote e a agradecer de joelhos o castigo. Dúnia agradeceu; mas nunca lhe chegou a dizer que a maior parte da gratidão que sentia era pelas cordas que não a tinham deixado fugir.

(Publicado no Blogger a 28/08/07)

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Hoje é dia de Ele vir.

Ontem depois do trabalho fui à esteticista e à cabeleireira. A mocinha queria cortar-me o cabelo mais curto. Pelos ombros, disse ela. O que é que estas mocinhas sabem de alguma coisa? O meu Senhor gosta dos meus cabelos compridos…

– Não – disse eu à mocinha. – É só acertar nas pontas.

E hoje a manhã toda vai ser para me preparar. Começo nua. Nem sequer me visto para tomar o pequeno-almoço. Para quê? Corto com uma tesoura, o mais curto que posso, os pelos do púbis. Deito-os ao lixo. Terá ficado algum caído no chão?

Aproveito este pensamento para aspirar a casa toda. Já a aspirei ontem, mas não faz mal. Olho à volta: está tudo arrumado.

Meto o cabelo numa touca impermeável e vou tomar duche. Lavo-me toda com champô para bebés. Primeiro lavo-me entre as pernas: meto o dedo na vagina e no ânus, o mais fundo que posso, para me lavar por dentro. A seguir lavo-me toda: começo nos ombros, nos sovacos, vou descendo, limpo bem o umbigo, volto a lavar-me entre as pernas, e assim até aos pés, dedo a dedo.

Enxugo-me. Tiro a touca e prendo o cabelo atrás em rabo-de-cavalo. Pego numa gilette nova, no gel de barbear d’Ele, num espelho de mão, e sento-me na borda da banheira para me rapar entre as pernas. Estou concentrada. Não tenho pressa. Trabalho minuciosamente, cantarolando. Quando me dou conta do que estou a trautear, sorrio: é um fado, a Rua do Capelão. No fim lavo-me de novo da cinta para baixo, seco-me e ponho a toalha no cesto da roupa suja. Daqui a pouco, quando tomar banho outra vez, vou utilizar uma toalha lavada; mas também essa irá para a roupa suja logo a seguir.

Quero claridade. Tenho as janelas abertas, as cortinas corridas para os lados. Se do prédio em frente me virem nua pela casa, pois que vejam. É altura de fazer a cama – muito bem feita para Ele a desfazer – e de pôr a mesa, embora esteja certa de que Ele não vai querer comer. Desimpeço a mesinha junto ao sofá e ponho nela um tabuleiro: a garrafa de whisky, um copo, um cinzeiro, a caixa humidificadora com os charutos d’Ele. Abro a tampa e vejo o higrómetro: 70% de humidade, como Ele gosta. Ao lado, a guilhotina de cortar as pontas e uma caixa de fósforos nova.

Ponho música a tocar. Recomeço a cuidar de mim. Encho a banheira com água muito quente e sais de banho e entro nela muito devagar para não me escaldar. Fecho os olhos. Respiro fundo os vapores perfumados. Fico assim a enlanguescer, a acalmar, e pouco a pouco vou fazendo com que o coração me bata mais compassado. Quando a música pára de tocar saio da banheira, seco-me e arrumo rapidamente a casa de banho.

Passo por todo o corpo um creme perfumado. Ponho umas gotas de perfume atrás das orelhas. As unhas das mãos e dos pés estão arranjadas desde ontem com o verniz meio transparente de que Ele gosta. Pinto os lábios de cor-de-rosa escuro e os mamilos da mesma cor.

Sento-me diante do espelho, desprendo o cabelo e começo a escová-lo. Vou contando: cem passagens da escova a todo o comprimento. Para me aproximar mais do espelho abri as pernas. Vejo o meu sexo lisinho. Não é como o duma criança, o sexo duma criança é só uma rachinha e do meu espreitam os lábios da vulva, como duas pétalas rosadas. Com quarenta anos de idade nunca tinha visto bem o meu sexo.

Estou molhada. Perco a conta. Recomeço.

O cabelo está liso e brilhante. Prendo-o com ganchos para Ele depois desprender. Enfeito-me com tudo o que tenho que tenha pedras vermelhas: os brincos de turmalinas que me caem quase até aos ombros, o colar e a pulseira do mesmo conjunto. Ponho ao pescoço um fio de ouro com um pendente de rubis. Outra pulseira, esta só de ouro. Um fio de ouro à volta da cinta, uma pulseira em metal dourado, que comprei de propósito, no antebraço, um enfeite de tornozelo com campainhas.

Estou pronta. Só falta a saia, ou melhor, as saias; mas essas, só as ponho no último segundo, quando ele já me tiver dado o toque no telemóvel a dizer que está a chegar. Sento-me no sofá toda nua, com um livro, à espera.

Ainda é cedo. Leio o meu livro. De vez em quando olho para as saias para ver se não me esqueci de as pôr à mão. Quando o telemóvel toca, arrumo o livro na estante e começo a vestir-me. Primeiro a saia azul forte, transparente, debruada a ouro na fímbria. Por cima, a saia carmim. Vejo-me ao espelho: vista à transparência a saia de baixo parece violeta. Por cima de tudo uma saia dum vermelhão muito aberto, quase cor-de-laranja. Todas as três são abertas de lado até à cintura e eu disponho as aberturas de modo a quase coincidirem. Por um momento quase tenho pena de ter rapado o sexo, a sombra do púbis ficaria bonita à transparência. Mas não, estou a pensar mal: as saias são três, não se conheceria nada. É melhor assim, como Ele ordenou.

A campainha toca. É Ele. Abro a porta de baixo e entreabro a de cima. Estou pronta. Sinto o meu próprio cheiro de fêmea. Se o meu Senhor me penetrasse logo ao transpor da porta, sem sequer um beijo de saudação, entraria por mim dentro sem o menor entrave.

(Publicado no Blogger a 19/08/07)

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No intervalo, finalmente, Marina não resistiu. A actuação durante a primeira parte tinha-lhe corrido bem. O Rui estava inspirado na guitarra, o Raul e o Quim, nas violas, pareciam ligados por laço invisível: e o público estava repassado daquela concentração, feita de entusiasmo contido, que é a mais perfeita caixa de ressonância para o canto do poeta, ou do cantor.
Sentado a uma mesa, sobre o lado esquerdo da sala, estava um homem que Marina não conhecia – atento mas distante, um pouco frio mas não demasiado, os olhos franzidos numa expressão que ela não saberia dizer se era de ironia ou de atenção. Nos lábios firmes bailava-lhe um ligeiro sorriso que Marina achou ambíguo: mais de indulgência que de troça, em todo o caso. Estava de fato claro, beberricava uma bebida cor de âmbar num cálice de conhaque, fumava charuto e os cabelos começavam a ficar-lhe grisalhos.
Marina não resistiu. À mesa com ele estava um casal que ela conhecia vagamente, gente do Bairro Alto: decoradores, galeristas ou coisa semelhante. Foi-se sentar com eles, a fazer sala e a completar o quarteto.

– Estão a gostar?
– Muito – disse a galerista.
E o marido:
– Um talento como o seu…
E voltando-se para o companheiro de mesa:
– Esta é a Marina Liebknecht. Viu o nome dela à entrada, certamente. Um enorme talento…
O senhor do fato claro ouviu, sorriu a sua concordância, mas não disse nada sobre o talento de Marina. Sacudiu para o cinzeiro a cinza do charuto, olhou-a bem nos olhos e apresentou-se:

– Prazer em conhecê-la. Chamo-me Castilho, Miguel Castilho.
Durante algum tempo conversaram os quatro. Depois o casal conhecido de Marina saiu e deixou-a sozinha com o seu companheiro de ocasião. O intervalo estava a mais de meio e ela ainda tinha que se ir arranjar para a segunda parte. Por um momento ficou sem nada para dizer; mas de repente, sem que as tivesse pensado ou planeado, vieram-lhe à boca estas palavras:
– Porque é que estava a olhar para mim assim?
– Assim?
– Assim, de cima a baixo. Com menosprezo. Cantei assim tão mal?
Olhando para ele, Marina sentiu (mais do que viu ou ouviu) um secreto borbulhar de divertimento que lhe subia do fundo do peito. Haverá alguma coisa mais masculina, pensou ela, do que este riso silencioso e solto? Sem deixar de a olhar nos olhos, o homem puxou uma baforada do charuto e disse, devagar:
– Menosprezo? Pelo contrário… Acho que poucas vezes na vida prezei alguém ou alguma coisa como te prezo a ti neste momento.
Marina já tinha pouco tempo para se levantar e ir para os bastidores, mas não podia terminar ali a conversa:
– Mas estava a olhar para mim como quem olha para uma coisa… sei lá, para um animal, para uma cabeça de gado… Não me estava a ouvir cantar?
Desta vez o sorriso dele abriu-se, radioso:
– Sim, estava-te a ouvir. Quis fechar os olhos para te ouvir melhor… Mas não consegui despegá-los do teu rosto.
E depois duma curta pausa:
– Nem do teu rosto, nem do resto…
– Ah… – disse Marina.

As respostas prontas e cáusticas que ela tinha sempre preparadas para piropos deste género desertaram-na todas. Não se lembrou de nenhuma. Baixou os olhos e só lhe ocorreu dizer:
– E em que é que pensou ao olhar para mim?
Silêncio. Marina chegou a acreditar que ele nunca lhe ia responder. Quando finalmente levantou os olhos e o olhou no rosto, viu que a expressão trocista tinha dado lugar a algo que talvez fosse curiosidade, ou talvez compaixão ou calculismo.
– Estava a pensar em ti com marcas de vergasta, ajoelhada aos meus pés.
Isto, com o ar mais natural deste mundo, numa voz segura, com uma enunciação exacta. Por um momento Marina esqueceu-se de respirar. Teria sido a indignação que sentiu, súbita e imprevista, que a tinha feito perder o fôlego? Marina sentiu que corava. Ainda bem que estava maquilhada, senão, mesmo na penumbra da sala, todos teriam reparado. Quem era aquele homem, aquele desconhecido? Ela, de joelhos? Diante de um homem? Com marcas de vergasta? Quem se julgava ele? Algum imperador? Algum louco? E quem era ele para a tratar por tu?
Mas não tive forças para me levantar de repente da mesa e fazer uma cena. Nem vontade. A tremer, num doce esvaimento, estendeu a mão e pegou na dele:
– Tenho que me ir embora… O intervalo está no fim…
– Sim – disse ele. – Vai lá arranjar-te.
Levantou-se devagar, sem tirar a mão da dele. Via-se bem que não era um louco – em todo o caso, não mais louco de que todos nós. Todo ele era urbanidade e humor, no fato cor de linho, na gravata de seda, nos sapatos italianos. Marina inclinou-se como que para o cumprimentar com um beijo. E, muito baixinho, pediu-lhe:
– Dê-me uma ordem para eu cumprir.
Miguel voltou a sorrir:
– Uma ordem. Está bem. Quando estiveres lá dentro tira as calcinhas e o soutien. Quero que voltes para a sala sem nada por baixo do vestido.
E Marina obedeceu. Sem saber porquê, mas obedeceu; e pareceu-lhe a coisa mais natural deste mundo. No cubículo que lhe servia de camarim tirou a roupa interior, incluindo uma combinação que tinha posto porque o vestido era ligeiramente translúcido. A seguir, num impulso súbito, tirou também os sapatos, que ficaram no meio do chão, abandonados. É a moda, disse a si própria; muitas colegas minhas cantam descalças. Mas sabia muito bem que não era por ser moda que se estava a descalçar, nem por truque de marketing ou de imagem, nem por homenagem à arte que era a sua.
Tratava-se duma homenagem, sim, porque escondê-lo? Mas era uma homenagem prestada a um ser de carne e osso, a um estranho misterioso e desenvolto que tinha tido a panache de lhe dizer, tratando-a por tu, que a imaginava de joelhos, vergastada, aos seus pés.
Os clientes da casa e os críticos podiam no dia seguinte inventar as razões que quisessem para os pés nus da cantadeira; podiam dizer que ela estava a imitar esta ou aquela colega de ofício – mas iam andar longe da verdade, como sempre. Marina sorriu: a razão dos seus pés nus seria o seu segredo. Seu e d’Ele.

O vestido não tinha sido feito para usar sem soutien. Durante toda a segunda parte, Marina teve que ter cuidado para o decote não resvalar; e apesar de todas as precauções ficou com a certeza de pelo menos uma vez ter deixado à mostra um mamilo (e ela que os tinha grandes e escuros). Mas isso que interessava? O olhar de Miguel queimava: sentado sozinho à mesa, resplandecia de orgulho e de admiração por ela. E Marina sentiu no mais fundo de si que nunca tinha cantado tão bem como naquela segunda parte, nem nunca tinha sido tão fêmea no cantar.

(Publicado no Blogger a 14/08/07)

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serchukEstavas deitada no chão aos meus pés, toda nua, como já se ia tornando costume. Quando eu te disse «dá a barriga» ficaste um pouco admirada, talvez por eu nunca antes te ter feito esta exigência. Mas percebeste imediatamente do que se tratava: é o que eu digo sempre à tua gatinha quando chego a tua casa e ela se começa a rebolar no chão a pedir festas.
Com uma risadinha, também tu te rebolaste e ficaste de barriga para cima, com as pernas e os braços no ar; e eu, sentado no sofá, inclinei-me para a frente e comecei a fazer-te festas no umbigo, nas mamas, no pescoço. E comecei também a fazer-te festas com os pés: tinha-os um pouco frios e soube-me bem metê-los entre as tuas coxas, aninhá-los na tua coninha tão quentinha.
Ainda murmurei:
– Dá a barriga, minha escrava.
E tu ronronavas, ronronavas…

(Publicado no Blogger a 25/12/06)

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«Não há duas mulheres iguais», pensou Vítor, um pouco admirado.
Nem mesmo tratando-se de escravas. Seria de esperar que a condição de escrava simplificasse tudo e uniformizasse tudo, afinal todas as escravas são iguais nos seus direitos, que são apenas dois: o de se tornarem escravas e o de deixarem de o ser, sendo que entremeio não têm nenhuns. Mas não, aqui estava perante ele a sua escrava lassie, a dizer-lhe com o ar mais determinado deste mundo, «não, isso não, isso nunca o poderei fazer».
E isto por causa duma ordem a que nunca nenhuma sua escrava se negara antes, nem mesmo a dúnia, que tinha da vergasta um verdadeiro pavor: a de beijar a vergasta antes e depois do castigo, como sinal de submissão e reconciliação. Recusa tanto mais surpreendente por vir da lassie, uma escrava de cujos limites Vítor pensara até então que já tinha uma ideia muito aproximada. Uma escrava que em muitos aspectos era, das quatro que tinha tido ao longo da vida, a que mais prontamente obedecia às ordens mais difíceis, a que mais dolorosos castigos suportava, a que mais alegremente se humilhava diante dele.

……………………..

Lassie perscrutou o rosto do seu novo dono: como ia ele reagir a esta recusa, a primeira desde o pacto de escravidão que tinham celebrado? Viu-o pôr-se sério, de repente. Depois viu-lhe os olhos atentos, indagadores, que a estudavam e pareciam penetrá-la até ao fundo da alma. A seguir pareceu-lhe ver – mas nisto podia estar enganada – um brevíssimo lampejo de compaixão, logo substituído por uma expressão que lassie conhecia, mas não sabia de onde.
Até que se lembrou: tinha-a visto num filme, no rosto de um samurai que se preparava para o ritual do seppuku. Imediatamente afastou a ideia: é claro que nenhum Senhor se vai suicidar e abrir a barriga com uma espada só porque uma escrava se recusou a obedecer a uma ordem. Mas o que via no rosto de Vítor era a mesma determinação que vira no actor do filme, a mesma imensa saudade pela vida que ia ficar por viver.
– Minha escrava, não tens o direito de recusar.
– Eu sei, não estou a recusar, é que não posso mesmo – disse lassie.
Tratava-se duma insignificância, seguramente, porque sentia ela o coração tão apertado? E o que ia ele fazer, ele, o seu Senhor amado, que intenção tinha ele no coração que lhe punha os olhos daquela maneira, iguais aos do samurai do filme?
– Lassie, minha escrava, sempre que te dou uma ordem estou a arriscar a tua felicidade e a minha. Compreendes isto?
Lassie compreendia, vagamente. Vítor explicou melhor:
– Quando te dou uma ordem estou a apostar que a podes cumprir. Porque se não podes, ou não queres, o único direito que tens é o de deixar de ser minha escrava naquele preciso momento. E eu, a única possibilidade que tenho é libertar-te, mesmo que ao fazê-lo a minha vida deixe de ter sentido.
– A tua vida não vai deixar de fazer sentido só porque eu não quis obedecer a uma insignificância qualquer! – exaltou-se lassie.
– Pois não. Só deixa de fazer sentido se por causa dessa insignificância eu já não te sentir minha.
Lassie encolheu os ombros, irritada.
– Tu pensas que te é impossível cumprir uma ordem que te dei – disse Vítor. – Talvez tenhas razão. Eu penso, e posso estar errado, que consegues. Talvez seja muito difícil para ti, mas impossível não é. É essa a minha aposta. Sei o risco que corro e que te faço correr. A ordem mantém-se: beija a vergasta.
– Não posso…
Por um longuíssimo momento, que pareceu durar horas, Vítor manteve os olhos fixos nos de lassie. Por fim pareceu encontrar qualquer coisa, ela nunca soube o quê, no fundo dela: a expressão com que a olhava suavizou-se de repente e deu lugar a um pequeno sorriso em que a ternura se misturava a um pouco de melancolia.
– Está bem, minha escrava.
E mandou-a, com a voz mais meiga que ela já lhe tinha ouvido, colocar-se em posição de ser punida; de joelhos diante do sofá, os cotovelos e os seios pousados no assento, as nádegas empinadas e nuas. Enquanto esperava pelo castigo, lassie examinou os seus sentimentos. Não se sentia vitoriosa, pelo contrário. Sentia-se como se tivesse acabado de perder alguma coisa, não sabia o quê. Uma parte dela desejava ardentemente que Vítor repetisse a ordem de beijar a vergasta, e dizia a si própria que se ele o fizesse se precipitaria para obedecer. Mas sabia também que aquela ordem não seria repetida nas próximas semanas ou meses, e que talvez nunca mais o fosse.
Quando o castigo finalmente veio – duro, súbito, impiedoso – foi uma libertação e um deslumbramento: lassie entregou-se a ele e perdeu-se nele como um suicida entrega o corpo ao mar.
(Publicado no Blogger a 09/09/06)

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Cryseis era a mulher mais bela que Pedro tinha visto em toda a sua vida.
Esta convicção surgiu-lhe de repente, sem avisar, com a força duma evidência, três semanas depois de terem começado a viver juntos. Já se conheciam havia anos, tinham sido colegas, depois amigos, depois algo mais do que amigos; e Pedro, que sempre tinha considerado Cryseis uma mulher bonita, deu-se conta de repente que bonita e bela são coisas muito diferentes.

Se lhe pedissem para explicar a beleza de Cryseis, Pedro não o saberia fazer. Saberia dizer, sim, porque é que a considerava bonita: o cabelo castanho escuro caído pelos ombros, os olhos brilhantes, a boca carnuda, as feições regulares… uma mulher bonita como tantas outras, bem vestida, bem tratada, com formas um pouco cheias demais para o gosto corrente. Se alguma coisa nela transcendia o comum das mulheres bonitas, era a pele muito clara e muito lisa, com reflexos de pérola nas redondezas dos ombros, dos seios e das nádegas. Pedro apreciava devidamente esta e outras perfeições, porém não a ponto de considerar Cryseis mais do que bonita. Isto, até ao momento em que repentinamente abriu os olhos.

Cryseis não era alta nem magra. Não tinha as pernas invulgarmente compridas. Não dava ares de rapazinho adolescente nem de potro recém-nascido. Dava, sim, ares de mulher; e isto, numa época em que a beleza feminina é desvalorizada a favor da beleza andrógina, leva a que as mulheres verdadeiramente belas sejam muitas vezes invisíveis.

Na relação de Pedro e Cryseis, Pedro sempre tinha sido o parceiro dominante, mesmo quando eram só amigos. Um dia, ainda nessa época, tinham combinado ir ao teatro com outras duas pessoas. Cryseis tinha-se atrasado, fazendo com que os outros só pudessem entar na sala ao intervalo. Depois, em casa de um deles, alguém tinha sugerido meio a brincar que a causadora do atraso devia ser punida com palmadas no rabo.

– Só se for o Pedro a dar-mas – disse Cryseis.

Pedro olhou para ela e viu que ela lhe olhava para as mãos com um certo ar concentrado e atento que ele conhecia muito bem. Pedro ainda não sabia – havia de sabê-lo nessa mesma noite – que era este o rosto de Cryseis nos momentos de excitação sexual; mas sabia que este sobrolho um pouco franzido, este ligeiro entreabrir dos lábios, eram indicações de que ela estava a viver um momento intensamente.

– Então vem cá. Deita-te de bruços sobre os meus joelhos – disse Pedro.

E depois de lhe levantar o vestido assentou-lhe quatro vigorosas palmadas nas nádegas, o que causou ao casal de amigos – que esperavam assistir apenas a um par de palmadinhas simbólicas – um pouco de admiração e embaraço.

Nessa noite Pedro dormiu pela primeira vez na cama de Cryseis. No momento em que ele a penetrou pela primeira vez, ela disse-lhe «sou tua». E algumas semanas mais tarde, num entardecer de Outono, conversando sobre o futuro num banco de jardim:

– Eu sou tua, faz de mim o que quiseres.

Pedro assim fez. Uma das coisas que fez dela foi ordenar-lhe que passasse a usar só saias ou vestidos e se desfizesse de quaisquer peças de roupa que fechassem entre as pernas – com excepção de alguns pares de calcinhas para quando estivesse menstruada.

Mais tarde trocaram os apartamentos em que viviam por um maior. Três semanas depois Pedro descobriu um par de jeans no armário de Cryseis e deitou-o ao lixo, o que provocou a primeira discussão entre eles. A discussão terminou num beijo durante o qual Pedro bebeu as lágrimas de Cryseis, beijo este seguido de palmadas, depois de carícias e suspiros, finalmente duma cópula durante a qual ela foi proibida, pela primeira vez, de ter orgasmo.

No dia seguinte Cryseis comprou uma vergasta. À noite ofereceu-a a Pedro. E foi nesse momento que ele, ao ver na sua amada um olhar tão limpo, tão directo, tão sem medo, um olhar que ele já tinha visto tantas vezes mas a que nunca tinha dado verdadeira atenção – foi nesse momento que Pedro, finalmente, a viu deveras.

(Publicado no Blogger a 18/08/06)

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Encontro

reverie1A mesa era larga e estavas sentada à minha frente. O teu cabelo preto, longo e frisado, dava-te um ar meio selvagem, meio de madona. Falavas pouco e mantinhas os olhos baixos.

O teu marido falava alto, interrompia todos, contradizia todos. Dirigia às mulheres piropos pesados. Tu parecias não o ouvir.

Mais tarde, estávamos a lançar balões, alguém sugeriu:

– Este é das senhoras.

E logo o teu marido:

– Aqui não há senhoras, há mulheres! A minha mulher não é uma senhora!

(Como pudeste entregar-te assim a um velho? Um homem quase da minha idade…)

Depois, ao caldo verde:

– A minha mulher trata-me por meu senhor!

Olhei para ti. O teu olhar veio ao encontro do meu. Não estavas triste, nem zangada, nem embaraçada, nem nervosa: estavas serena. Fizeste com a cabeça um movimento quase imperceptível de negação. Mal me conheces, mas quiseste que eu soubesse que o que ele estava a dizer era mentira. Porque é que te foi indiferente que os outros acreditassem?

No fim, ao arrumar da louça, cruzaste-te comigo no terraço vazio. Sorriste-me. Foi o teu primeiro sorriso nessa noite.

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«Não há duas mulheres iguais», pensou Vítor, um pouco admirado.

Nem mesmo tratando-se de escravas. Seria de esperar que a condição de escrava simplificasse tudo e uniformizasse tudo, afinal todas as escravas são iguais nos seus direitos, que são apenas dois: o de se tornarem escravas e o de deixarem de o ser, sendo que entremeio não têm nenhuns.

Mas não, aqui estava perante ele a sua escrava lassie, a dizer-lhe com o ar mais determinado deste mundo, «não, isso não, isso nunca o poderei fazer». E isto por causa duma ordem a que nunca nenhuma sua escrava se negara antes, nem mesmo a dúnia, que tinha da vergasta um verdadeiro pavor: a de beijar a vergasta antes e depois do castigo, como sinal de submissão e reconciliação.

Recusa tanto mais surpreendente por vir da lassie, uma escrava de cujos limites Vítor pensara até então que já tinha uma ideia muito aproximada. Uma escrava que em muitos aspectos era, das quatro que tinha tido ao longo da vida, a que mais prontamente obedecia às ordens mais difíceis, a que mais dolorosos castigos suportava, a que mais alegremente se humilhava diante dele.

……………………..

Lassie perscrutou o rosto do seu novo dono: como ia ele reagir a esta recusa, a primeira desde o pacto de escravidão que tinham celebrado? Viu-o pôr-se sério, de repente. Depois viu-lhe os olhos atentos, indagadores, que a estudavam e pareciam penetrá-la até ao fundo da alma. A seguir pareceu-lhe ver – mas nisto podia estar enganada – um brevíssimo lampejo de compaixão, logo substituído por uma expressão que lassie conhecia, mas não sabia de onde.

Até que se lembrou: tinha-a visto num filme, no rosto de um samurai que se preparava para o ritual do seppuku. Imediatamente afastou a ideia: é claro que nenhum Senhor se vai suicidar e abrir a barriga com uma espada só porque uma escrava se recusou a obedecer a uma ordem. Mas o que via no rosto de Vítor era a mesma determinação que vira no actor do filme, a mesma imensa saudade pela vida que ia ficar por viver.

– Minha escrava, não tens o direito de recusar.

– Eu sei, não estou a recusar, é que não posso mesmo – disse lassie.

Tratava-se duma insignificância, seguramente, porque sentia ela o coração tão apertado? E o que ia ele fazer, ele, o seu Senhor amado, que intenção tinha ele no coração que lhe punha os olhos daquela maneira, iguais aos do samurai do filme?

– Lassie, minha escrava, sempre que te dou uma ordem estou a arriscar a tua felicidade e a minha. Compreendes isto?

Lassie compreendia, vagamente. Vítor explicou melhor:

– Quando te dou uma ordem estou a apostar que a podes cumprir. Porque se não podes, ou não queres, o único direito que tens é o de deixar de ser minha escrava naquele preciso momento. E eu, a única possibilidade que tenho é libertar-te, mesmo que ao fazê-lo a minha vida deixe de ter sentido.

– A tua vida não vai deixar de fazer sentido só porque eu não quis obedecer a uma insignificância qualquer! – exaltou-se lassie.

– Pois não. Só deixa de fazer sentido se por causa dessa insignificância eu já não te sentir minha.

Lassie encolheu os ombros, irritada.

– Tu pensas que te é impossível cumprir uma ordem que te dei – disse Vítor. – Talvez tenhas razão. Eu penso, e posso estar errado, que consegues. Talvez seja muito difícil para ti, mas impossível não é. É essa a minha aposta. Sei o risco que corro e que te faço correr. A ordem mantém-se: beija a vergasta.

– Não posso…

Por um longuíssimo momento, que pareceu durar horas, Vítor manteve os olhos fixos nos de lassie. Por fim pareceu encontrar qualquer coisa, ela nunca soube o quê, no fundo dela: a expressão com que a olhava suavizou-se de repente e deu lugar a um pequeno sorriso em que a ternura se misturava a um pouco de melancolia.

– Está bem, minha escrava.

E mandou-a, com a voz mais meiga que ela já lhe tinha ouvido, colocar-se em posição de ser punida; de joelhos diante do sofá, os cotovelos e os seios pousados no assento, as nádegas empinadas e nuas.

Enquanto esperava pelo castigo, lassie examinou os seus sentimentos. Não se sentia vitoriosa, pelo contrário. Sentia-se como se tivesse acabado de perder alguma coisa, não sabia o quê. Uma parte dela desejava ardentemente que Vítor repetisse a ordem de beijar a vergasta, e dizia a si própria que se ele o fizesse se precipitaria para obedecer. Mas sabia também que aquela ordem não seria repetida nas próximas semanas ou meses, e que talvez nunca mais o fosse.

Quando o castigo finalmente veio – duro, súbito, impiedoso – foi uma libertação e um deslumbramento: lassie entregou-se a ele e perdeu-se nele como um suicida entrega o corpo ao mar.

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Victor chegou pontualmente às oito e vinte. Quando dunya ouviu a chave dele na porta, correu do quarto, onde se encontrava, para a sala, que era onde ele lhe tinha ordenado que o esperasse. Sabia que o slap slap apressado dos seus pés nus, impossível de confundir com qualquer outro ruído de passos, podia ser ouvido da entrada, onde Victor estava neste momento a pendurar o sobretudo e o chapéu.

A mesa estava posta para os dois, a comida estava pronta a ser servida e dunya estava vestida como ele tinha ordenado: pés e seios nus, mamilos pintados da cor dos lábios, cabelos soltos; um sarong preto com franjas compridas à roda das ancas, anéis tanto nos dedos dos pés como nos das mãos, bijuteria nos tornozelos, nos pulsos, no pescoço. Ajoelhou-se junto do sofá, virada para a porta da sala, como mandava o ritual, de modo que ele a visse imediatamente ao entrar.

– Baixa os olhos – ouviu-o dizer, ainda do vestíbulo.

Grata por Victor lhe ter lembrado esta regra e um pouco irritada consigo própria por ser preciso lembrar-lha, dunya baixou os olhos. Isto fez com que só visse do seu Senhor, quando ele se aproximou dela, as calças de bombazine pretas e as botas próprias para a neve. Não resistiu a erguer os olhos um pouco para lhe ver a zona da carcela: a protuberância por baixo do tecido denunciava o sexo erecto, e dunya sentiu-se enlanguescer ao ver que o amante tinha ficado excitado só de a ver.

Quis olhá-lo nos olhos e sorrir-lhe, ver a disposição dele, mas conteve-se. Via-lhe as mãos, primeiro a que ele lhe apresentou para beijar, depois a outra, a esquerda, onde ele segurava um pedaço de tecido preto que pareceu a dunya ser de seda ou cetim.

Quando ele se pôs por trás dela, dunya olhou de novo para o chão. Sentiu que ele lhe afastava os cabelos com a mão, viu num relance o tecido preto à frente do rosto.

– Fecha os olhos.

Victor nunca a tinha vendado antes. Porque o faria agora, precisamente agora, quando ela tinha tanto que fazer, o jantar para servir?

– Toca com a testa no chão.

Para obedecer, dunya ficou com o rabo empinado. Sentiu que o amante lhe levantava o sarong, lhe acariciava brevemente as nádegas e lhe inseria um dedo inquisitivo no sexo, que estava molhado.

– Levanta-te.

Com dificuldade, sem ver nada, pôs-se de pé. Victor ajudou-a e conduziu-a na direcção, pareceu-lhe, da mesa de jantar.

– Ajoelha-te. Senta-te sobre os calcanhares. Abre bem as pernas. Levanta a cabeça. Agora fica assim, não te mexas.

A venda estava bem posta e bem firme e não permitia espreitar por baixo. Dunya ouviu o amante a mexer na louça e nos talheres que ela tinha disposto sobre a mesa, dirigir-se à cozinha, mexer nos armários e no fogão. Ouviu os bifes que ela tinha temperado a grelhar na frigideira. Sentiu-o pôr nas travessas o puré, a salada, os bifes. Depois ouviu-o regressar e soube pelo cheiro que trazia a comida para a sala.

Soube que ele se estava a sentar à mesa pelo arrastar da cadeira.

– Chega-te para mais perto de mim.

Dunya obedeceu. Sentiu-o servir-se. Pensou: Vai ser assim, hoje? Até o privilégio de o servir me vai ser tirado? Mas não disse nada. Victor, pelo contrário, não parava de falar entre uma garfada e outra, chamando-lhe minha querida, minha escrava, minha cadela, e de vez em quando acariciava~lhe os cabelos com uma mão distraída. Dunya estava com fome mas não se atrevia a perguntar se podia comer.

– Abre a boca.

Era uma colher pequena, de sobremesa. Tinha puré. Passado algum tempo Victor chegou-lhe aos lábios, com as pontas dos dedos, um pouco de salada e depois, a intervalos, mais salada, pedacinhos de carne, colherzinhas de puré. Para beber, um ou dois goles de vinho, mais nada. Quando o sentiu levantar e o ouviu levar a louça para a cozinha, dunya ainda tinha fome.

Passado algum tempo ele sentou-se de novo

– Abre a boca.

Desta vez era fruta, que ele tinha descascado e partido em bocadinhos pequenos para lhe dar com os dedos. Dunya esticava o pescoço e os lábios na direcção em que lhe parecia estar a mão do dono e recebia em recompensa pequenos pedaços de comida que no fim a deixaram quase saciada, mais pela demora do que pela quantidade. Ora aqui está uma boa maneira de perder peso, pensou.

– Fica como estás.

Nesta parte da sala não havia tapete e os joelhos de dunya começavam a doer-lhe contra o chão de madeira. Mas apesar do desconforto ficou assim por largos minutos, talvez meia hora, talvez uma hora inteira: de joelhos, sentada sobre os calcanhares, a cabeça baixa, só a erguendo, como uma corça sobressaltada, para tentar seguir pelo ouvido o que o amante estava a fazer.

Primeiro ouviu-o a levantar a mesa, a lavar a louça, a arrumar a cozinha – tarefas que lhe competiam a ela, escrava, e que hoje estava proibida de desempenhar. Depois ouviu a água do duche a correr na casa de banho, os armários e as gavetas do quarto a abrir e a fechar. Por fim ouviu os passos de Victor, calçado não já de botas, mas com as babuchas de cabedal macio que trouxera de Marrocos. Com o sentido da audição aguçado pela falta de visão, ouviu como as palmilhas de couro lhe batiam levemente, ao andar, nas solas dos pés, e percebeu por este ligeiríssimo estalar que ele não trazia peúgas.

Sentia-o agora junto dela, quase encostado. Cheirava a sabonete e a dentífrico e trazia o roupão de cetim.

– Levanta-te. Anda comigo.

Com a mão na mão dele, seguiu-o às cegas para a casa de banho.

– Toma. Já tem pasta.

Era a escova de dentes.

– Toma o teu copo.

Dunya bochechou, escovou os dentes, bochechou de novo. Cuspiu a água para o lavatório. Sentiu Victor a abrir a torneira e a lavar a bacia, salpicando-a um pouco.

– Queres ir à sanita?

– Sim – disse dunya, que precisava urgentemente de urinar.

Victor conduziu-a à sanita, depois ao bidé, depois ao lavatório para lavar as mãos, e por fim de novo para a sala, onde a fez ajoelhar no tapete virada para o sofá.

– Apoia os cotovelos na almofada.

Dunya assim fez, e sentiu-o desatar-lhe o nó do sarong, deixando-a nua. A mão dele a acariciar-lhe as nádegas. Uma leve palmada. Outra carícia. Quis perguntar ao amante se ele a ia sodomizar, mas não se atreveu. Dunya nunca tinha sido sodomizada. Tinha ouvido dizer que doía muito.

– Pode doer muito, ou pouco, ou até nada. Depende de como eu fizer. Na altura decidirei – dissera-lhe Victor quando ela tinha ousado perguntar.

Mas quando ele parou de lhe acariciar as nádegas não foi para a sodomizar. De repente, sem aviso, dunya ouviu um silvo que tão bem conhecia e imediatamente sentiu uma dor atroz, como uma queimadura, nas duas bochechas do rabo. Deu um salto no lugar e não conseguiu evitar um grito.

– Quieta.

Dunya pôs-se de novo em posição e afundou a cara nas almofadas do sofá para não gritar. Tinha medo que os vizinhos ouvissem. Victor nunca a tinha punido assim de chofre; habitualmente começava por a acariciar com a vergasta, depois vergastava-a levemente e ia tornando os golpes gradualmente mais fortes.

Mas o pior não era isto, o pior era não ver, não seguir com os olhos os movimentos do amante, não controlar nada.

Uma segunda vergastada, mais acima. Dunya não conseguiu conter as lágrimas e sentiu como lhe empapavam a venda. E uma terceira, muito mais dolorosa, na parte superior das coxas, junto ao vinco das nádegas. Preparou-se para receber uma quarta vergastada, e uma quinta, se era assim que ele se queria servir dela hoje, era assim que ela o queria servir.

Mas não, as vergastadas pararam à terceira. A uma ordem de Victor, levantou a parte superior do corpo e recuou um pouco de modo a dar-lhe espaço entre ela e o sofá. Sentiu-o passar por ela, o cetim do robe roçando-lhe o corpo nu, e sentar-se diante dela com as pernas um pouco abertas.

Ia servir-se dela pela boca, então. Dunya respirou fundo, agora sabia o que fazer. Primeiro, a saudação necessária: inclinou-se para o chão, procurou às apalpadelas os pés do dono e começou a beijá-los lentamente, com um respeito infinito. Para os ver, não dispunha dos olhos, só das mãos, dos lábios e da língua. Por isso se esmerou ainda mais do que de costume em acariciá-los, em beijá-los, em lambê-los por entre os dedos.

Uma carícia dele deu-lhe a entender que a homenagem estava concluída; era altura de começar a dar-lhe outro tipo de prazer. Devagar, começou a beijar o amante pelas pernas acima. Admirou-se por não sentir o menor vestígio de impaciência e por a lentidão lhe ser tão agradável: era por não o ver, comprendeu. Para contemplar o corpo dele só tinha as mãos e os lábios e isto tornava necessário que cada centímetro quadrado de pele fosse acariciado e beijado. E apercebeu-se de que ele também não tinha pressa: a carícia que lhe fazia nos cabelos não era leve por displicência ou arrogância, como a que lhe tinha feito enquanto jantava, mas pelo propósito de não a distrair da sua tarefa.

Era estranho como o corpo dele, sentido com as mãos e com a boca, lhe parecia diferente do corpo visto com os olhos. Havia partes que lhe pareciam mais duras ou mais moles, superfícies mais ásperas e mais macias, refegos de pele mais fundos ou mais planos. A pouco e pouco dunya foi-se entregando toda à exploração do corpo de Victor, os lábios a e língua nos joelhos dele, nas coxas, nas virilhas, por fim no pénis, e as mãos erguidas para o peito como as duma suplicante.

– Agora, escrava.

Dum movimento só dunya engoliu o pénis do dono e começou a mover a cabeça para cima e para baixo, tendo o cuidade de não o tocar com os dentes. A venda, longe de lhe dar a ilusão de estar a chupar um pénis qualquer, permitia-lhe concentrar-se mais do que nunca nas características próprias que faziam do pénis de Victor tão reconhecível para ela como o rosto. E permitia-lhe também concentrar-se nos movimentos e carícias que tinha aprendido com ele e de que sabia que ele gostava: o lento deslizar dos lábios ao longo da haste, os chupões vigorosos na glande, a exploração com a língua da grossa veia de baixo, os movimentos à volta da glande, as pequenas estocadas na abertura da ponta.

Estava cansada, os múscuos do maxilar doiam-lhe, mas não queria parar. Sentiu a mão do dono na nuca e pensou que ele a quisesse acariciar ou forçá-la a engoli-lo ainda mais fundo – mas não, o que ele fez foi retirar-lhe a venda num movimento rápido.

Das luzes da sala, estava apenas aceso o candeeiro com a lâmpada mais fraca – mas que mesmo assim dava luz suficiente para que dunya visse, com os seus olhos habituados à escuridão, o membro viril que tinha diante dos olhos.

E foi como se o visse pela primeira vez. Cada pormenor, cada veia azulada, o rosado escuro e a prodigiosa macieza da glande; a não menos prodigiosa tesão que o arqueava para cima; a grossura invulgar; a cor de mármore; as rugas finíssimas; a pele delicada: o ligeiro pulsar; o modelado subtil das formas – tudo naquele momento contribuía para transformar o pénis de Victor em algo mais real que a realidade – um raio de luz, um ceptro de realeza ou divindade, um talismã.

Dunya sentiu que um êxtase a possuía; e foi neste êxtase que inclinou de novo a cabeça como quem diz uma oração; que o tomou de novo na boca como quem recebe um sacramento; e que o adorou com todo o seu ser até a boca e a garganta se lhe inundarem de luz e de esperma.

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