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Archive for the ‘Histórias de Mariana’ Category

Eram oito da noite de sexta-feira e Mariana estava a pôr a mesa para Ricardo. Só para ele, porque hoje ia servi-lo sem participar na refeição como se fosse uma criada. Quanto a ela, já tinha comido: uma salada com cubos de queijo, pão torrado e um molho à base de iogurte magro.

Ricardo, calculava Mariana, devia estar neste momento a sair do seu gabinete em Heidelberg e a fazer-se à estrada num carro alugado, para estar com ela o mais cedo possível. Ia chegar cansado e sem jantar, depois de um dia de trabalho duro e de duas ou três horas a conduzir na Autobahn.

Não valia a pena cozinhar-lhe uma ceia completa, ele ficava sempre sem apetite quando viajava. Em vez disso Mariana preparou tostas, uma tábua de queijos e uma tacinha com framboesas e abriu uma garrafa de vinho, que deixou num aparador a respirar. A seguir dispôs velas aromáticas na sala, deixou a caixa de fósforos à mão, subiu a temperatura no termóstato, ligou o dispositivo de aquecer as toalhas na casa de banho e preparou os óleos para a massagem que tencionava dar ao amante se ele não se agarrasse logo a ela e não a arrastasse para a cama.

Tomou duche antes de tomar banho, como as gueixas; lavou a cabeça, enrolou o cabelo molhado numa toalha, meteu-se na banheira com sais aromáticos, enxugou-se, amaciou o corpo com um creme perfumado, secou e escovou o cabelo.

Tinha-se depilado toda de manhã. Quando o dono lhe ordenara que fizesse isto, tinha protestado, mas agora estava a gostar de se ver lisa como uma menina impúbere.

Pintou as unhas dos pés e das mãos com a mistura de vernizes de que ele gostava: metade transparente, um quarto cor de rosa pálido, um quarto branco-pérola. Vestiu-se e maquilhou-se como ele tinha dito que queria: saia comprida e rodada em tons de terra e laranja, semi-transparente, sem calcinhas; corpo nu da cinta para cima; cinto de fantasia; bijutaria profusa nos pés, nos pulsos, no pescoço, nas orelhas e sobre o peito; um pouco de rouge, muito pouco, na cara; baton cor de framboesa nos lábios e nos mamilos. Pôs umas chinelas, para usar até ao momento em que ele tocasse à campainha de baixo: Ia recebê-lo como ele tinha mandado, com os pés nus em sinal de respeito; mas também, em sinal do mesmo respeito, com eles limpos.

Quando a campainha tocou guardou as chinelas e foi-se pôr à porta do apartamento para ele não ter que esperar no patamar. Ao sentir-lhe os passos abriu-lhe a porta; lá vinha ele, arrastando o seu velho trolley de viagem azul. Na mão esquerda trazia um ramo de rosas vermelhas atadas com um fio de ráfia: devia ter-se picado nelas ao sair do carro ou ao tocar à campainha, porque trazia um arranhão entre o polegar e o indicador que ainda ressumava perolazinhas de sangue.

Mariana franqueou-lhe a entrada, fechou a porta atrás dele e, mal lhe dando tempo a pousar o trolley, lançou-se-lhe ao pescoço. Ricardo correspondeu apaixonadamente a este beijo, atrapalhado apenas por ter só um braço livre; com o outro mantinha afastado dela o ramo das rosas, para que não a picassem. Quando ele por fim lhe entregou o ramo Mariana levou-o ao nariz, aspirou-lhe o perfume, e ajoelhou com um gesto natural e gracioso para beijar a mão do amante.

– Anda para a sala. Tens fome?

– Não tenho muita…

Mas depois de tirar o casaco e de ir à casa de banho sentou-se à mesa. Mariana, ajoelhada, pousava a cabeça nas coxas dele beijava-lhe a mão quando ele a acariciava. Só se levantou uma vez, para lhe servir o vinho. Duas tostas, dois cubos de queijo, algumas framboesas que ele ia comendo ou dando a comer à amante, e meio copo de Barolo: a isto se resumiu a refeição de Ricardo.

– Estás cansado, meu querido.

– Um pouco. Preciso de tomar um duche.

– Senta-te no sofá, eu dispo-te.

Ricardo fechou os olhos e deixou-se despir como um menino ensonado. A meio do duche Mariana foi ter com ele para acabar de o ensaboar. No fim ajudou-o a secar e levou-o de novo para a sala.

– Deita-te no sofá. Vou dar-te uma massagem para te tirar essa tensão dos ombros.

– Se fizeres isso ainda adormeço aqui mesmo e depois não te sirvo para nada – respondeu ele com um sorriso.

– Não faz mal. Deita-te. Espera, vou pôr aí uma toalha.

Mariana tirou todos os ornamentos que trazia no corpo e pôs-se nua para ter mais liberdade de movimentos. À massagem que deu ao dono com as mãos acrescentou umas carícias com os seios e com o sexo depilado que o fizeram ronronar como um gato.

– Hmmm, tão bom…

A previsão que Ricardo tinha feito de adormecer não se cumpriu completamente. Terminada a massagem rolou do sofá para cima do tapete, pôs-se de barriga para cima, fechou os olhos e estendeu os braços como uma criança a pedir mimo:

– Vem cá, minha escrava…

Mariana trepou para cima dele, montou-o e começou a acariciar-lhe o pénis ainda flácido com a vulva acetinada e húmida. Ricardo sorriu, consolado:

– Tão bom…

A erecção que tinha tido lugar intermitentemente desde que Ricardo tinha entrado em casa de Mariana não tardou a estabelecer-se de novo com renovada pujança, e Mariana empalou-se nela com um suspiro de prazer.

Começou então uma noite memorável, com Mariana a movimentar vigorosamente os quadris, para cima e para baixo, para a frente e para trás, para os lados, em círculos, e com Ricardo a erguer-se ao encontro dela, mais fundo, mais fundo.

Por vezes ela inclinava-se toda para trás para conseguir o ângulo que mais a excitava, mas o pénis dele estava tão retesado que lhe doía ao ser vergado para baixo. Então puxava-a com força para si de modo a sentir-lhe os seios contra o peito; ela soprava como um gato assanhado mas obedecia, e deixava pender a cabeça para a frente de modo a poder acariciá-lo também com os cabelos.

Ricardo sentia o orgasmo quase a chegar mas, fosse pelo cansaço que sentia, fosse por estar por baixo, ou fosse ainda pela dor que Mariana lhe provocava quando se inclinava para trás, a excitação em que estava só crescia sem se resolver num desenlace. Por vezes o cansaço dos músculos levava-o a ficar passivo enquanto Mariana dançava por cima dele, mas logo o desejo, louco, o obrigava a acelerar e ampliar as estocadas que dava na amante.

Mariana veio-se. E veio-se outra vez. E veio-se outra e outra, tantas vezes que não as pôde contar, tantas vezes que a certa altura já não tinha orgasmos separados, tinha um único orgasmo que continuava e continuava e parecia nunca mais acabar.

Por fim – depois, quando olharam para o relógio, viram que passava das quatro da manhã – Ricardo deu um urro cavernoso, e num último, prodigioso arranque esvaiu-se todo dentro dela, que arquejava «dá-me, dá-me tudo» e se veio também pela última vez nessa noite.

Nem se lavaram. Conseguiram ir os dois, aos tropeções, da sala para o quarto, onde se deitaram em cima da cama e adormeceram imediatamente. Quando acordaram tinham, ele o pénis quase em carne viva, ela a vagina em idêntico estado, e no tapete sobre o qual tinham feito amor vieram a encontrar uma pequena mancha de sangue que nunca vieram a saber se era dele ou dela.

Mariana acordou tarde e viu o amante ainda adormecido ao seu lado. Durante a noite tinham arranjado maneira de puxar o edredon para cima deles, e ainda bem porque a casa estava um pouco fria. Começou preguiçosamente a dar pequenos beijinhos na cara de Ricardo e viu como mesmo a dormir o rosto dele se adoçava num ligeiro sorriso. Depois pousou a cabeça no travesseiro e deixou-se ficar numa deliciosa indolência até o ver acordar e espreguiçar-se.

Esta visão deu-lhe vontade, como que por contágio, de se espreguiçar também e de bocejar longamente.

– Tens fome, meu querido?

– Mais que fome, estou esfaimado. Se não me dás de comer, como-te a ti.

– Então deixa-me tomar duche primeiro, depois tomas tu enquanto eu te preparo o pequeno-almoço.

Ricardo ainda fechou os olhos por uns minutos. Depois levantou-se, vestiu o roupão, calçou os chinelos de quarto e dirigiu-se para a casa de banho, de onde Mariana estava a sair embrulhada numa toalha.

Ao enxugar-se – vigorosamente, como era seu costume – reparou que lhe doía ao esfregar o pénis com a toalha, apesar de esta ser invulgarmente fofa e macia. A pele estava muito vermelha e sensível. Tinham sido horas seguidas de fricção no corpo da amante, e ainda bem que ela estava depilada e macia, porque aquele tempo todo a roçá-lo com os pelos púbicos teria sido mais do que poderia aguentar.

Quando entrou na sala de roupão e chinelas, Mariana já estava vestida, com uma saia preta pelos tornozelos e uma blusa de seda branca. A mesa estava posta e da cozinha vinha um cheiro bom de café e torradas com manteiga.

– Senta-te. Vai bebendo o sumo, que eu já te trago o resto.

À porta da cozinha estavam umas chinelas.

– Vou calçar-me. A tijoleira da cozinha está muito fria. Posso?

– Sim, hoje podes, mas só na cozinha.

Um ruído de louça e talheres a remexer, um súbito aroma a ovos fritos a a bacon, e lá vinha Mariana com um cesto enorme de torradas.

– Vai comendo enquanto estão quentes.

Sentou-se em frente ao dono para beber o sumo de laranja e depois levantou-se, com uma torrada na mão para ir de novo à cozinha. Quando regressou trazia uma travessa de ovos mexidos com bacon e salsichas, e mais torradas. Pôs música a tocar no leitor de CD’s (a sonata de violino e piano «Primavera», de Beethoven), e sentou-se a comer. Por vezes dava-lhe na boca um pedacinho de torrada, ou ele a ela. Serviu muesli misturado com iogurte de cereja, que comeu com um apetite igual ao do amante. Por fim foi à cozinha buscar o café.

– Queres mais?

– Só se for mais café.

– Então vou buscá-lo quente, não bebas esse.

Ficaram mais de meia hora à mesa, a beber café, a pegar nas mãos um do outro e a conversar de coisas sem importância. Quando viram as horas era quase uma da tarde.

– Ai… Ainda vou ter que arrumar isto tudo…

– Eu ajudo-te.

– Não, vai-te vestir.

Ricardo vestiu as suas calças de bombazina cor de mel e uma camisa de flanela aos quadrados, com uma T-shirt por baixo. Não demorou muito a vestir-se e a calçar as peúgas: ainda teve tempo de arrumar a sala e o quarto e fazer a cama enquanto Mariana terminava de lavar a louça e limpar a cozinha.

De tarde foram passear em Brugges, ao longo dos canais. Pararam em frente ao edifício gótico da Câmara Municipal, viram as montras nas ruas centrais, fizeram algumas compras num supermercado. O Equinócio da Primavera já tinha passado, a hora tinha mudado, os dias estavam mais longos e estava sol, mas não se demoraram na rua: depois de lancharem numa confeitaria voltaram para o apartamento de Mariana, onde ficaram sentados a ouvir música e a conversar enquanto lhes apeteceu.

– Daqui a pouco vou fazer o jantar – disse Mariana, abraçando o amante e dando-lhe um beijo. – Queres tomar alguma coisa antes?

– Sim, meu amor. Tens um whisky?

– Já to vou dar. Deixa-te estar sentado.

Mas em vez de se dirigir para o armário das bebidas Mariana meteu-se no quarto, de onde emergiu uns minutos depois com um vestido que Ricardo não lhe conhecia: cintado, preso aos ombros por alças, com uma saia pelos tornozelos muito rodada, e todo às riscas verticais em vários tons de rosa. Na sua versão original devia ter um forro, mas era fácil de ver que Mariana o tinha tirado e que não trazia nada por baixo.

– Gostas do meu traje de escrava?

– Muito. Vestiste-o para me servires o whisky?

– O whisky e não só. Mas espera, primeiro vou-te calçar os chinelos.

Os chinelos de Ricardo estavam no armário da entrada. Mariana foi-os buscar, ajoelhou-se e descalçou o dono, beijando-lhe cada um dos pés depois de tirar a respectiva peúga e antes de lhe pôr o chinelo. Concluída esta tarefa pôs música no leitor de CD’s – Shepherd Moons, da cantora irlandesa Enya – trouxe um tabuleiro que enganchava no sofá, e sobre este pôs um naperon, um copo de cristal e um cinzeiro.

– Um cinzeiro? – admirou-se Ricardo

– Sim. Hoje vais fumar. E não discutas.

A seguir tirou duma gaveta um estojo de cabedal para dois charutos, uma caixa de fósforos e um aparelho de cortar as pontas, e pousou tudo no tabuleiro ao lado de Ricardo. O estojo continha dois Cohibas.

– Não tinhas mais em que gastar o teu dinheiro? – ralhou Ricardo.

Mariana riu-se, foi ao armário das bebidas, tirou uma garrafa de whisky por abrir e mostrou o rótulo ao amante

Cigar? – disse ele. – Não conhecia essa marca.

– Na loja disseram-me que era muito bom. E que era o ideal para acompanhar um bom havano.

Ricardo riu-se e preparou-se para abrir a garrafa, mas a amante deteve-o:

– Não. Tu não fazes nada. Eu sirvo.

Obediente, Ricardo recostou-se no sofá e ficou a contemplar com um olhar de ternura a sua escrava que se esforçava, ajoelhada, por abrir a garrafa. Depois de o ter conseguido deitou no copo dois dedos de whisky, cortou as pontas a um dos charutos, meteu-o na boca e acendeu-o, rolando-o entre os dedos como tinha visto o dono fazer. Ricardo viu-a sugar as bochechas para dentro para puxar o fumo, exactamente como fazia qundo lhe chupava o sexo, e com um brilho nos olhos acariciou-lhe o cabelo.

Levadas a bom termo todas estas tarefas Mariana sentou-se no chão aos pés de Ricardo e começou a contar-lhe todos os pormenores da sua mais recente exposição. De vez em quando levantava-se, animada, e ia buscar um quadro que se tinha esquecido de lhe mostar antes, ou fotografias de outros quadros, que lhe ia dispondo sobre os joelhos para ele ver. Entusiasmada, explicava-lhe as novas técnicas que tinha aprendido desde a última visita: as tintas, os betumes, os vernizes, as areias coloridas, as espátulas, os pincéis, as folhas e as bagas recolhidas no bosque e coladas na tela.

Ao esmorecer da conversa Ricardo inclinou-se para a frente, segurou-lhe o queixo e beijou-a ternamente nos lábios.

– Agora vou-te possuir, minha escrava.

– Sim…

Mariana num instante se pôs nua, o vestido saía pela cabeça e ela não trazia mais nada sobre o corpo.

– Deita-te aqui no sofá – disse Ricardo. Quando a viu deitada ajoelhou-se sobre o tapete, debruçou-se sobre ela e começou a cobri-la de beijos, começando nos ombros, subindo ao pescoço, aos olhos, às orelhas e à comissura dos lábios, e descendo aos seios. Por longos minutos não fex mais nada além de lhe lamber e chupar os mamilos enquanto lhe insinuava a mão entre as coxas. Mariana começou logo a abrir um pouco as pernas, ou melhor, as pernas abriam-se-lhe por si próprias, sem que ela sequer o notasse. Sem pressa nenhuma Ricardo foi descendo com os lábios ao longo do corpo dela, às vezes voltando para cima em direcção aos seios e ao pescoço, mas indo sempre um pouco mais abaixo de cada vez que descia. Meteu-lhe a língua no umbigo, beijou-lhe os flancos do sovaco à anca, explorando-lhe com a língua os espaços entre as costelas, e ao lamber-lhe o monte de Vénus depilado sentenciou:

– Sim, estás mesmo macia, com a língua é que se nota…

… e depois, cruelmente, começou de novo a subir-lhe pelo corpo acima.

Se a boca que Mariana tinha entre as pernas tivesse voz, teria gritado de frustração. Mas não por muito tempo, porque de repente Ricardo afastou-lhe as coxas com as mãos e beijou-lhe o sexo como se lhe beijasse a boca, para logo moderar este ímpeto e começar a procurar-lhe com os lábios e a língua todas as dobras e minúsculas refegas. A língua procurava, dardejante, o botão do amor, para logo o abandonar e tentar insinuar-se no interior da vagina ou para lamber todo o comprimento da vulva.

Quando começou a chupar-lhe o clítoris mais vigorosamente, como se o quisesse sugar e engolir, ouviu-a dizer:

– Meu senhor… Posso-me vir?…

Ricardo nunca tinha imposto a Mariana que pedisse autorização para ter orgasmo e agora ela própria, sem que ele entendesse bem porquê, inaugurava esta regra.

– Não, minha escrava, não podes.

Mas continuou a beijá-la até já não poder distinguir se os sons que ela fazia eram de prazer ou de sofrimento. Por fim, cansado, parou, e começou a percorrer com os lábios e a língua o caminho oposto ao que tinha feito antes até lhe chegar de novo à boca, que beijou, enleando a língua na dela apaixonadamente. Só então se levantou, devagar, mantendo a boca unida á dela e esperando até ao último segundo para a largar.

– Espera um pouco – disse, e dirigiu-se para o quarto.

Saiu de lá pouco depois, competemente nu, e trazia na mão uma fita vermelha que Mariana reconheceu imediatamente: era a prenda que ela lhe tinha dado por ocasião dum encontro anterior, também em Brugges.

– Dá cá as mãos.

Mariana estendeu-lhe as mãos com os pulsos cruzados. Ricardo atou-as rapidamente com uma ponta da fita, mandou-a esperar, foi ao trolley buscar a máquina fotográfica e começou a ordenar-lhe que assumisse poses: de joelhos, posternada, exibindo as marcas e as equimoses da vergasta, de pé, com os braços erguidos, mostrando os pulsos amarrados… Mariana acedia a tudo, obediente, meiga, apaixonada. Ricardo apercebeu-se nela dum estado de espírito invulgar: um dengue, uma excitação, um roçar-se por ele como que por acaso, uma intensidade, uma atenção ardente ao momento vivido…

– Não me deixaste ter orgasmo… Meu amor…

Isto disse Mariana a certa altura, baixando os olhos, num momento em acabava de se ajoelhar e mostrava à objectiva os pulsos atados. E Ricardo sentia nela, por baixo da mansidão e da obediência, o fogo larvar dum desejo que se satisfazia na insatisfação.

Quando acabou de a fotografar, não a desamarrou: mandou-a deitar de costas no tapete e amarrou a outra ponta da fita de seda ao cano do aquecimento, no ponto em que este saía do chão. Estendido sobre ela sem lhe fazer peso, voltou a beijá-la e começou a percorrer-lhe o corpo com as mãos numa carícia firme como se faz aos animais.

– Meu senhor…

– Diz.

– Vais possuir-me?

– Vou, sim, minha escrava.

– Queria pedir-te…

Ricardo apertou-lhe o seio esquerdo e chupou-lhe o mamilo antes de a encorajar a continuar:

– Querias pedir-me…

– Queria pedir-te que fosses meigo. Estou tão dorida de ontem…

Ricardo deu uma risada:

– Vou ser meigo, sim. Até porque eu também estou dorido, tenho tudo em carne viva…

Mariana já tinha as pernas abertas: Ricardo penetrou-a numa carícia longa e, sem chegar a ir até ao fundo, começou a mover dentro dela a ponta do pénis, beijando-a ao mesmo tempo profusamente nos lábios e nos seios. Com as mãos amarradas, Mariana não o conseguia abraçar, por isso o envolvia com as coxas, acariciando-lhe com os calcanhares a barriga das pernas e a parte de trás dos joelhos.

– E desta vez posso vir-me, meu senhor?

– Não, minha escrava, não podes. Ocupa-te só do meu prazer.

No gemido que Mariana soltou misturava-se um imenso lamento com um prazer novo, um prazer que ela não conhecia. Começou a mover as ancas e a tentar controlar os músculos da vagina de maneira a apertar e a chupar o sexo do amante, a dar-lhe o parzer que ele lhe exigia e ao qual tinha obviamente todo o direito, a erguer os seios de encontro ao peito dele para o acariciar brandamente, até que o sentiu acelerar os movimentos e ejacular dentro dela com um gemido que parecia, também ele, um lamento.

Admirou-se por não sentir frustração nem ressentimento por não ter gozado, mas sim uma enorme vontade de continuar a servir. «Serei na verdade assim tão fêmea e tão escrava?», pensou; e quando o dono rolou de cima dela para o chão começou a chegar-se para ele, a acariciá-lo com as pernas e com os pés, já que tinha as mãos amarradas. Todo o corpo dela era movimento, e todos os seus movimentos iam no sentido de se chegar ao dono, de o acariciar, de lhe suplicar um toque ou uma palavra. Lembrou-se de ter dito uma vez a Ricardo que ele a tinha «desligado»; pois bem, agora estava «ligada», com toda a sua energia de fêmea apaixonada a fluir-lhe no corpo e todos os sistemas a funcionar em alerta máximo.

– Desamarra-me, meu senhor…

Assim que Ricardo a desamarrou Mariana começou a fazer-lhe festas e beijá-lo por todo o corpo

– Estou tão louca… Não me deixaste ter orgasmo, e estou tão louca…

– É, estou intrigado com uma coisa… Porque é que me pediste autorização? Eu por mim era capaz de nunca me ter lembrado de to proibir– disse Ricardo..

– Não sei o que é que me deu. Disseste-me muitas vezes que uma escrava não tem direito ao prazer, se calhar foi por isso.

– Disse, e tu concordaste. Mas fizeste bem em lembrar-me … De hoje em diante tens que pedir sempre autorização.

Mariana revirou os olhos e fez uma careta, logo desmentida pela grinalda de beijos com que cobriu o peito do amante:

– Oh, não, o que é que eu fui dizer! – exclamou, numa aflição fingida. – O que pode uma pobre escrava fazer para servir o seu senhor, se ele até até a proíbe de se vir?

– Uma pobre escrava, não sei, mas se esta rica escrava que aqui está está assim tão empenhada em servir o seu senhor, pode muito bem ir para a cozinha, por exemplo, e fazer o jantar para ele, que está cheio de fome…

Mariana, a rir-se, começou a bater com os seus pequenos punhos no peito de Ricardo

– Cafajeste… sem vergonha… Escravidão é escravidão, não é?!

– Pois é… – disse Ricardo.

E quando viu Mariana levantar-se quase de um salto, vestir o roupão, entregar-lhe o dele e dirigir-se à cozinha, acrescentou:

– E descalça, se fazes favor. Não quero cá essa história de tijoleira fria, como de manhã. Lugar de fêmea é descalça na cozinha.

Mariana deteve-se o tempo suficiente para lhe deitar a língua de fora, mas afastou com o pé as chinelas que estavam no chão à saída da sala.

De dentro da cozinha levantou a voz:

– Tenho aqui Quiche Lorraine, é só pôr no micro-ondas. Queres?

– Pode ser, gosto bem de quiche. E o vinho de ontem ainda deve estar bom, era uma pena deitar fora uma garrafa quase inteira.

Ao pôr a mesa, ao servir o jantar, durante a refeição, Mariana continuou a exibir o comportamento que tanto intrigava e encantava Ricardo. A todas as oportunidades havia um seio a roçar um braço, ou então apenas um sorriso, um suspiro, um baixar de olhos, um rubor…

– Anda cá, escrava.

– Para quê?

– Anda cá. Levanta a saia.

Quando Mariana chegou junto dele Ricardo introduziu-lhe a mão entre as coxas.

– Estás toda molhada…

– Pois estou… Não me deixaste vir, patife…

– Não estás bem?

– Estou bem, estás farto de saber que estou mesmo muito bem… Não sei como é que isto me pode dar tanto prazer… Mas se daqui a pouco eu entrar em combustão espontânea, já sabes porque foi. Nunca te devia ter pedido autorização.

– É… Pela boca morre o peixe… Mas não te preocupes: amanhã não vai acontecer o mesmo porque vais ter castigo em vez de sexo.

– Está bem… Podes castigar-me, mas também quero sexo.

– Também, o quê?

– Eu sei, não tenho quereres. Vou dizer doutra maneira: também gostava que o meu senhor possuísse a sua escrava. Está bem assim?

– Melhor. Mas ao castigar-te também estou a possuir-te, não te esqueças. Em todo o caso, o castigo amanhã é por ser o nosso último dia. Quero deixar-te marcas que durem até ao próximo encontro.

– Sim, meu querido, também quero ficar marcada. Mas para as marcas nunca desaparecerem o melhor era eu fazer uma tatuagem…

– E hás-de fazê-la, com as minhas iniciais.

Antes de responder, Mariana bebeu um gole de vinho.

– Hmmm, isso deixa-me louca… Louca para ser possuída outra vez pelo meu senhor…

– Primeiro vamos acabar de jantar. E desconfio que mesmo depois disso vais ter um bocado de trabalho para me provocar outra erecção.

O jantar foi rápido, e Mariana arrumou a cozinha num instante. Quando regressou à sala encontrou Ricardo sentado no sofá. Sem hesitação nem preliminares ajoelhou-se no tapete à frente dele, afastou-lhe para os lados as abas do robe e tomou-lhe o sexo na boca. Assim que sentiu bem rijo, atirou o roupão para cima do sofá deitou-se de costas no tapete:

– Anda…

Entre o momento em que saiu da boca da amante e o momento em que se colocou entre as coxas dela em posição de a penetrar, Ricardo quase perdeu a erecção: Mariana teve que o chupar de novo para que ele finalmente lhe penetrasse a vagina – com o pénis um pouco flácido, mas que uma vez dentro dela recuperou a rigidez dos embates anteriores. Estavam ambos bastante doridos, mas mesmo assim Ricardo possuiu Mariana sem hesitação ou demora, indo e vindo nela até que a viu ficar vermelha: primeiro a cara e depois o pescoço, o peito e os seios. Viu-a abrir a boca como se fosse gritar, ouviu-lhe a rápida e forte inalação de ar, cavalgou-lhe o frenesim urgente dos quadris e finalmente assistiu, empolgado, ao gozo da sua escrava: um orgasmo sumptuoso, uma convulsão sísmica que lhe soltou todas as energias acumuladas no corpo e na alma desde que ele a tinha mandado deitar no sofá duas horas antes.

O dia seguinte amanheceu com bom tempo. Algumas nuvens, poucas, juntavam-se ocasionalmente e faziam chover umas raras gotas de água. Ricardo e Mariana foram passear para junto do canal e dos moinhos de vento: ele de calças castanhas com vinco, pullover cor de mel, casaco de cabedal castanho escuro e chapéu de feltro, ela de saia comprida, blusa de seda e casaquinho vermelho. Almoçaram num pavilhão com vista para o canal, conversando sobre o fim de semana que projectavam passar em Paris quando o tempo estivesse um pouco mais quente.

Lá fora a relva estava húmida e muito verde.

– Apetecia-me descalçar-me e correr nesta relva – disse Mariana.

– E a mim apetecia-me mandar-te descalçar.

– Mas não posso, estou de collants e não posso tirá-los diante de toda a gente.

– De collants?! Na presença do teu dono?! Vais mas é já ao quarto de banho para os tirar, e de castigo não voltas a calçar-te hoje.

Mariana ainda alegou o frio, o incómodo, as pessoas à volta; mas acabou por obedecer, um pouco embaraçada no princípio, mas pouco tempo depois corria o jardim descalça com a singeleza impudente duma criança à solta. Ricardo não voltou a permitir-lhe que se calçasse nem no jardim, nem no caminho de casa. E se no jardim o espectáculo duma senhora bem vestida mas de pés nus pareceu banal a quem o viu, o mesmo não se passou percurso que mais tarde fizeram de braço dado nas ruas cheias de gente. Mas o garbo altivo de Ricardo desarmava os olhares e, comunicando-se a Mariana, convertia-lhe o pejo em euforia.

Jantaram pelo caminho. Quando entrou em casa Mariana levava os pés gelados. Mas antes de ir tomar um duche quente ainda se apresentou diante de Ricardo com uma bacia de água quente para lhe lavar os pés cansados, lhe calçar os chinelos, lhe servir uma bebida e lhe acender um charuto.

Depois de tomar duche não se vestiu, envolveu-se em véus transparentes e dançou para ele, tirando-os um a um.

Ricardo assistia beberricando o seu whisky e puxando uma fumaça ocasional. Só os olhos a rir denotavam a atenção com que seguia todos os movimentos da sua amada.

– Vem cá.

– Sim, mas ainda me deves um castigo – disse Mariana.

E Ricardo viu que sem ele notar ela tinha ido ao quarto buscar a vergasta vermelha e lha tinha posto ao alcance da mão.

(Publicado no Blogger a 20/09/06)

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Eram nove horas da manhã, e Mariana, mesmo sabendo que Victor não chegava a Lisboa antes das dez e meia, sentia-se já à espera dele. Movia-se lentamente pela casa: hora e meia até ele chegar, mais dez ou quinze minutos para não ser a primeira a chegar ao lugar do encontro. Já tinha escolhido a roupa que havia de levar: era um dia cheio de sol, bom para passar na praia, e o vestido comprido em tons de terra que acabou por vestir tanto a protegeria do calor como do vento.

Quando chegou ao centro comercial o amante já estava à espera dela. O primeiro beijo que trocaram foi, como sempre, tingido de reserva e timidez; como se pedissem um ao outro perdão por uma ofensa que não sabiam bem qual era. Talvez a de terem estado tanto tempo afastados; ou a de não poderem, nesta cidade onde Mariana era conhecida, dar livre curso à ternura. Este constrangimento durou ainda enquanto transferiam de um automóvel para o outro o saco com as toalhas e os fatos de banho, mas depois, a caminho da praia, na intimidade do automóvel, começaram a redescobrir um no outro os traços e os gestos familiares: retoma, reencontro, reconhecimento.

Na praia estava vento, o suficiente para não lhes apetecer tirar a roupa; mas na esplanada abrigada onde tomaram um refresco e comeram uma salada o ar estava morno. De tarde voltaram para a areia. Ou porque o vento tivesse amainado, ou porque se tivessem habituado a ele, ou ainda porque o sol estivesse agora mais quente, puseram-se em fato de banho. Durante uma hora ou duas apanharam sol, conversaram, trocaram uma ou outra carícia discreta. Ainda não eram cinco horas quando Mariana se quis ir embora.

– Arranjei bilhetes para a ópera, e ainda quero ir a casa mudar de roupa.

Representava-se A Flauta Mágica no S. Carlos; Mariana e Victor tinham falado em ir lá, mas entretanto não tinham voltado a mencionar o assunto e ele já não estava a contar com isso. Se Mariana lhe tivesse dito mais cedo que tinha os bilhetes, ou se ele se tivesse lembrado de lho perguntar, não teria acedido em passar o dia na praia e na mata, ou teria trazido uma muda de roupa.

Assim como estava, sem gravata, empoeirado, ia sentir-se pouco à vontade.

– Não faz mal, – disse-lhe Mariana. – Podes tomar um duche em minha casa, e eu escovo-te a roupa. Vais ficar bonito, como sempre.

Victor nunca tinha estado em casa de Mariana. Era um grande apartamento luminoso, todo em vidros, mármores e madeiras claras, e tinha o ar vivido de toda a habitação em que há adolescentes. De momento estavam todos fora, o marido de Mariana no escritório e os rapazes na escola; mas Victor não pôde deixar de se sentir um intruso nesta casa, e tanto mais nervoso quanto mais tempo se demorasse nela. Não se sentiu capaz de beijar Mariana nem de falar com ela, a não ser por alguns constrangidos monossílabos que a deixaram obscuramente decepcionada, como que por uma traição.

Victor lavou-se e vestiu-se rapidamente, com a porta do quarto de banho fechada como se a amante nunca o tivesse visto nu; e só descansou quando se viu de novo na sala, completamente vestido.

Entretanto Mariana também se estava a preparar.

– Como ordena o meu senhor que eu vá vestida? – perguntou, faceira; mas já tinha escolhido um vestido comprido de seda, que pendurava diante do corpo para o amante ver. Era um atavio da maior simplicidade, azul-marinho, não muito decotado, seguro nos ombros por duas finas alças.

– Esse vestido serve – disse Victor, – mas quero que vás toda nua por baixo.

Mariana soltou o leve gemido de excitação que Victor aprendera a conhecer.

– Está bem, – murmurou, mais como quem acede do que como quem obedece; e depois de o beijar na boca desapareceu na direcção do quarto de banho. Quando reapareceu, vestida, maquilhada, penteada, ele levantou-se do sofá para lhe beijar a mão. Ao endireitar-se, desajeitado e nervoso, tocou com a cabeça no espanta-espíritos pendurado no tecto. Um harpejo de campainhas percorreu a sala, tão delicado que mais realçava o silêncio do que o quebrava. Victor ficou interdito por um momento, mas logo se recompôs.

– Estás linda, – disse; e tomando a amante nos braços correu-lhe uma mão exploratória sobre as costas e os quadris.

– Estou nua por baixo, estou – riu-se Mariana ao senti-lo. – Gostava de saber porque é que todos os homens têm esta fantasia. Até as minhas cunhadas… bom, mas não interessa.

Foram para o teatro no automóvel dela. O dele ficou estacionado nas traseiras do prédio, pronto para a viagem de regresso. No vestíbulo não encontraram ninguém que algum deles conhecesse, mas na plateia, tomando lugar na fila mesmo em frente da deles, depararam com um casal conhecido de Marta e do marido. Mariana apresentou-os a Victor: Pedro, Diana. E Victor, que tinha reparado no modo como Marta os tinha cumprimentado – um beijo só, na face – teve o cuidado de cumprimentar Diana do mesmo modo.

– O Gabriel…?

– Não pôde vir. E para não desperdiçar os bilhetes…

– Ah, pois claro. E em todo o caso a Marta vem muito bem acompanhada.

Isto dito pela senhora, que apresentava, não obstante a robustez saudável da figura, uma palidez de lua no semblante. Era uma mulher alta, mais fina de feições do que de corpo, com cabelos negros cortados curtos. Sobre o vestido negro trazia um bolero negro bordado a prata, como um colete de toureiro. Os modos, não obstante uma circunspecção de circunstância, denotavam um temperamento vivo. Enquanto durou a conversa mostrou-se animada e divertida; e os olhos negros chispavam recados na direcção dos amantes.

– Percebeu tudo, – segredou Mariana a Victor quando se sentaram.

Durante toda a primeira parte os dois amantes mantiveram a leveza de coração que tinham experimentado ao longo do dia. A serpente que ameaçava Tamino era um dragão de papel multicolor, e despedia pelas narinas, em vez de fumo e fogo, chispas festivas que evocavam um bolo de aniversário ou um cocktail estival. Mas o que sobretudo os divertiu foi a primeira aparição da Rainha da Noite, num vestido negro bordado a prata que fazia lembrar o de Diana. Impedidos de falar, Victor e Mariana trocaram um sorriso e apertaram a mão um do outro. A avaliar pelo aspecto e pelo vestido, Diana estaria tão bem para o papel como a cantora que agora prometia a Tamino, numa vigorosa ária de coloratura, a mão de Pamina.

Não se pode dizer que os dois amantes se sentissem muito incomodados pela ameaça ao seu segredo que este encontro representava. Pelo contrário, o picante da situação divertia-os e excitava-os. Mais tarde, durante o intervalo, foi com um riso mal contido que Victor segredou a Mariana:

– E mal sabe a tua amiga o que trazes – ou o que não trazes – por baixo do vestido.

– Não tenhas tanta certeza, – disse Mariana. – Olha que as mulheres vêem muito.

E apoiando-se-lhe no braço ousou dar-lhe um beijo, rápido e risonho, na face.

Nem a Flauta Mágica era novidade para Victor, nem o teatro em que se representava o era para Mariana. Ambos sentiam, contudo, que tudo à sua volta era novo. A música, o enredo, as personagens; e por outro lado o edifício, os espectadores, o champanhe no intervalo – tudo se encontrava transmutado e colorido pela aguda consciência que ambos tinham da nudez de Mariana por baixo do vestido. Para Victor era uma tortura não poder correr-lhe a mão pelo flanco; e para ela, que bem se apercebia de para onde a mão do amante lhe puxava, cada movimento dele era um delicioso sobressalto. No palco, na plateia, no teatro todo, não havia com certeza nenhuma outra mulher a quem tão pouco separasse da mais completa nudez: dois sapatos sem meias, um vestido sem forro, uma carteira minúscula.

– Se o vestido se te prendesse em qualquer coisa – segredou-lhe o amante, – e se rasgasse de cima a baixo, ficavas aqui como vieste ao mundo.

Mariana teve um arrepio ao imaginar-se toda nua no átrio do S. Carlos, autora involuntária do espectáculo do ano, exposta ao olhar de todos, desconhecidos, conhecidos, colegas, conhecidos de colegas. Corou, tanto de vergonha como de excitação, e para se recompor um pouco afastou o corpo do do amante. Sentia-se leve, leve, a flutuar no ar, levada por uma imaginação mais embriagadora que o champanhe.

Sentar-se na cadeira para a segunda parte foi um anti-climax, mas também um alívio. No palco, Tamino começava as suas provas de iniciação; e pouco tempo depois a Rainha da Noite, numa ária que Mariana sempre associara aos ralhos das mulheres, jurava vingança sobre Sarastro: “Die Hölle Rache kocht in meinem Herzen”, o inferno da vingança ferve-me no peito.

Um inferno assim exigia uma música que fosse em tudo contrária à natureza, à razão e à sabedoria, uma música em que não houvesse silêncios. Por contraste com este ralho ininterrupto, a mudez iniciática imposta a Tamino ecoava o silêncio dos templos e das bibliotecas, e dos grandes espaços virgens. Pelo menos soava-lhe assim a ela, Mariana, que era mulher mais de calar que de ralhar, e nunca tivera dificuldade em tolerar os silêncios masculinos; e com a ária desaustinada da Rainha da Noite ainda a soar-lhe nos ouvidos sentiu-se capaz de perdoar ao amante o silêncio embaraçado de horas antes.

Mais tarde, no carro, falaram da Rainha da Noite, do silêncio imposto a Papageno e exigido a Tamino, do facto de na ópera o próprio estar calado se exprimir por palavras e por música: “Schweige still… Schweige still…” Passava da meia-noite. Mariana parou o carro nos jardins da Cidade Universitária, meio escondido entre os arbustos, e sem quaisquer preliminares começou a desapertar as calças do amante. Depois, erguendo o vestido, encavalitou-se-lhe ao colo.

– Espera, – disse ele, e começou a tirar as calças e as cuecas de algodão branco. Mariana olhou à volta e viu que os vidros do carro já estavam a começar a ficar embaciados: era impossível que alguém conseguisse ver para dentro, e além disso estavam ambos vestidos da cintura para cima. Sem mais hesitação empalou-se no sexo erecto de Victor e começou a mover-se vigorosamente para cima e para baixo enquanto ele procurava segurar-se numa posição em que não tivesse que se contorcer demasiado.

Os olhos tinham-se-lhes já habituado à luz débil dos candeeiros distantes; e Victor conseguia distinguir no rosto da amante os traços mais vincados: o ricto na boca entreaberta, rosa martirizada; as rugas de concentração no sobrolho; os vincos de sofrimento entre as narinas e a boca. E o queixo erguido, os olhos semicerrados, davam-lhe o ar duma monja em êxtase. Mais uma vez Victor se maravilhou: dizia-lhe a experiência que todas as mulheres são belas no prazer, mas esta era uma beleza absoluta que evocava nele um sentimento de reverência e adoração.

A posição em que Victor se encontrava não era a mais favorável a um clímax rápido. Viu como o rosto e o pescoço da amante escureciam e soube que a uma luz mais intensa esse escurecimento seria um rubor; e num esforço arquejante aumentou o ritmo e a amplitude das estocadas que dava de baixo para cima no ventre empalado da amante. Mas estava cansado, o dia tinha sido longo, e por mais que tentasse não conseguia seguir nem controlar o furor dionisíaco com que ela o cavalgava. Por mais que uma vez saiu sem querer de dentro dela, com um ruído molhado de sucção, e então era a azáfama, a urgência, de procurar de novo a abertura, forçar de novo para baixo o pénis reteso, e pô-lo de novo no lugar, para de novo partirem de novo à desfilada, qual o cavaleiro, qual a montada rebelde, não o saberiam dizer.

Só mais tarde, passado o frenesim, quando já elanguesciam abraçados, se deram conta de que estavam a ser vistos. Um automóvel tinha estacionado em frente deles e, encostado a ele, um homem de calças escuras e camisa branca masturbava-se olhando na direcção dos amantes.

– Deixa-o – disse Victor. – Dali para aqui não consegue ver grande coisa.

Mas Mariana, rindo-se, tocou a buzina e acendeu os faróis. O homem compôs-se, entrou no carro e arrancou. Mas era tarde, Marta tinha que ir para casa, e Victor tinha ainda que ir para o Porto. Despediram-se no parque de estacionamento junto ao prédio dela. Victor ficou sentado no carro até ela entrar no prédio. Depois de ver apagar-se a luz do átrio, deu a volta à chave de ignição, arrancou, e procurou o caminho para a Segunda Circular. «Na primeira área de serviço vou tomar um café duplo», pensou. «Ainda são trezentos quilómetros até ao Porto.»

Publicado no Blogger a 23/08/06

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Mariana estava à espera do amante em Bruxelas, na estação de caminhos-de-ferro. Depois de alguns minutos viu-o surgir-lhe apressado de entre os outros passageiros. Vinha embrulhado numa grande gabardina mal abotoada, batida por um vento que parecia soprar só sobre ele; e Mariana lembrou-se que sempre tinha sido assim, que em havendo vento o cabelo dele era o que mais depressa se despenteava, as suas roupas as que mais esvoaçavam, o seu guarda-chuva o que mais dificilmente se segurava aberto.

Assim que Victor a viu, pousou a maleta, tomou-a nos braços e beijou-a longamente na boca.

– Hmmm, – fez Mariana, e procurou enroscar-se nele tanto quanto as grossas roupas de Inverno o permitiam.

Quando pararam para respirar, Mariana sorriu para Victor:

– Meu querido… Que bom…

– Este foi um beijo de namorado, – respondeu ele. – Agora vou dar-te um beijo de dono.

E assim fez. Quem estivesse a olhar para eles não notaria a diferença, mas eles notavam, ou pensavam que notavam. Era um jogo que tinham inventado meses antes, e agora “um beijo de namorado”, “um beijo de dono”, “um beijo de escrava” eram parte do seu vocabulário amoroso.

Para Mariana era uma deliciosa embriaguês poder beijar Victor assim em público, no anonimato de uma cidade distante, como nunca o tinha podido fazer em Lisboa. No mesmo dia em que tinham inventado este jogo, Mariana tinha dito a Victor que gostaria que um dia ele se lhe derramasse sobre o corpo, em vez de dentro dela, para ela ver.

– Nunca viste?

Mariana corara:

– De frente, não…

Ele sorrira-lhe um sorriso de assentimento; depois tinha-a beijado ainda mais profusamente do que de costume.

– Presta atenção, Mariana. Este beijo foi um beijo de namorado, ou de dono?

– De namorado…

– Não, foi de dono. De namorado é assim:

E dava-lhe um novo beijo, em nada diferente do anterior:

– Já percebeste?

Mariana ria e entrava no jogo:

– Acho que sim… Agora dá-me outro de dono, para eu ter a certeza.

– Sim… Mas a seguir dás-me tu um de escrava.

Mariana rira e obedecera, mas misturada no riso ia alguma tristeza, porque este jogo lhe lembrava que todos os beijos que dava a Victor eram de escrava. Uns dias depois, numa carta, lançara o desafio para um novo jogo: “Também eu sou capaz de te dar beijos de dona.”

– Veremos. – Respondera Victor ao telefone.

Agora que estava de novo nos seus braços, embrulhados os dois em várias camadas de roupa de Inverno, entregava-se de novo toda nos beijos que dava a Victor. E talvez fosse esta a resposta dele ao desafio: um longo beijo, terno mas firme, carregado de desejo; outorgado sem vergonha nem hesitação mas com uma ténue ponta de reserva, como que a dizer-lhe que o melhor estava para vir. Um beijo, ainda, de namorado.

– Agora beija-me tu, – disse Victor no fim.

Mariana obedeceu com toda a ternura de que era capaz naquele momento, mas uma pequena gargalhada de felicidade e malícia brincava-lhe no fundo do peito. Era a hora de saída dos empregos; à volta deles uma multidão apressada dividia-se como uma torrente à volta duma rocha, atenta apenas aos horários e aos relógios.

– E agora um beijo de dona. Daqueles que também tu és capaz de dar.

Como descrever a paixão que Mariana pôs neste beijo? Sabia que estava a ser testada: com um pequeno soluço de sofreguidão colou-se toda a Victor, tentando fazê-lo seu, sorvê-lo todo, incorporá-lo todo e para sempre dentro de si.

– Ui, – disse ele por fim. – Se fosse há vinte anos, um beijo assim, e os nossos pais obrigavam-nos a casar. Mas não foi um beijo de dona, foi um beijo de escrava.

E para mostrar a diferença deu-lhe ele um beijo de dono, este sim, fundo, insolente, impiedoso, como ela nunca seria capaz de lhe dar.

Era verdade: o beijo dela tinha sido de escrava. Mas que arrogância a dele em dizê-lo! Não interessa: Mariana estava feliz. Abraçou-se a Victor ainda mais estreitamente, o corpo todo contra o dele, seios, tórax, ventre, sentindo-lhe a erecção mesmo por baixo das roupas grossas; e que lhe importava a ela que os seus beijos fossem de dona, de namorada ou de escrava, desde que nunca mais terminassem?

Foram para Brugges no pequeno automóvel utilitário que ela tinha comprado para as suas deslocações na Bélgica. Contrariamente ao que era hábito, Mariana pediu a Victor que conduzisse. Antes de sentar ao lado dele tirou o casacão comprido e estendeu-o no banco de trás; e depois de saírem da cidade subiu a saia, abrindo ligeiramente as pernas num convite a que ele a acariciasse. Victor depressa verificou que ela não trazia calcinhas. Nem soutien, de resto, como era evidente pelo cair do pullover.

– Vês como te obedeço? – Disse-lhe Mariana.

– Vejo como me serves, meu amor.

Victor não se importava, antes pelo contrário, que Mariana tivesse mais prazer em servi-lo do que em obedecer-lhe; e não era necessário dizer que a vontade de servir implicaria sempre um dever de obediência.

– Levanta a camisola, – ordenou; e quando ela lhe fez a vontade pôs-lhe a mão por dentro da roupa e tomou-lhe um mamilo entre os dedos.

Assim a foi acariciando, alternando os toques no corpo dela com os gestos necessários à condução. Quando a largava era para lhe falar numa voz velada do que tinha sido o seu dia a dia durante o tempo em que tinham estado separados. Mas a conversa acabava sempre por recair no que fariam um ao outro quando chegassem a casa; e quando se davam conta de que tinham voltado a este assunto riam-se da impaciência que os consumia, tão pouco própria da sua idade e do seu conhecimento do mundo.

No átrio de entrada do seu apartamento, a primeira coisa que Mariana fez foi tirar os sapatos e as meias. Descalçar-se logo que entrava em casa com o dono era para ela já um gesto automático, e fazia-o sempre sem hesitar e sem esperar que lhe fosse ordenado; mas nunca sem se lembrar daquele dia no Algarve: De agora em diante, será para ti impensável – uma falta de respeito – ficares calçada quando estiveres sozinha comigo.

Depois de tirarem os casacos, e do primeiro beijo dentro de casa; e depois de ela se lhe ter ajoelhado aos pés, e de ele a ter erguido para a beijar de novo na boca – a primeira ordem de Victor a Mariana foi que vestisse uma saia rodada.

– E põe o aquecimento mais forte.

Pôr uma saia rodada sim, pensou Mariana. Mas por agora ainda não. Não estaria Victor cansado da viagem? Não quereria tomar nada?

– Quero-te a ti, e sem demora, – respondeu ele. – Oh, e um copo de água, pode ser da torneira; mas isso pode esperar até estares apresentável para mo servires.

Mariana sentiu que a excitação que lhe tinha vindo a crescer durante a viagem diminuía um pouco; ou melhor, que era substituída por uma excitação diferente, mais cerebral, e temperada por uma ténue ansiedade. Decidida ainda a não obedecer depressa demais, aproximou-se de Victor e abraçou-o:

– Sim, meu querido. Já vou mudar de roupa. Senta-te. Podes pôr música se quiseres.

Victor apertou-a nos braços e olhou-a fundamente nos olhos, sorrindo-lhe um sorriso cúmplice. Sem demasiada pressa de ser obedecido, começou a beijá-la nos olhos, na face, nas comissuras dos lábios. Mariana nunca tinha tido um amante que a beijasse tanto, nem que se satisfizesse tanto com beijá-la. E embora em relações anteriores não fosse dada a exageros neste tipo de manifestação amorosa, acolhia agora com avidez os beijos de Victor. Os beijos à volta da boca começaram a parecer-lhe uma tortura de Tântalo: porque não a beijava ele a sério, boca contra boca, língua contra língua? Tentou fazer-lho ela a ele, mas ele, mais alto e mais livre de movimentos, esquivou-se sem dificuldade. E sorria-lhe com os olhos, impudente, cruel.

Por fim, quando Mariana se sentia prestes a gritar de frustração, sentiu-o descer sobre ela como um predador sobre a presa, os lábios esmagando os dela, a língua abrindo-lhe a boca e invadindo-a sem pedir licença, apaixonadamente, longamente. Um beijo de dono.

– Agora vai, minha escrava. Vai fazer o que eu te mandei.

Antes de a largar levantou-lhe ainda a saia. Por um segundo acariciou-lhe as nádegas nuas; e por fim Mariana, corada, sem fôlego, dirigiu-se ao quarto com o seu passo rápido de mulher pequena. Despiu-se rapidamente, lavou-se no quarto de banho, penteou-se, e pôs uma saia preta de algodão até aos pés, muito rodada. Por baixo vestiu as calcinhas e o soutien que tinha escolhido antes de sair de casa, duas peças minúsculas em renda preta. As calcinhas agradavam-lhe especialmente por terem a cinta alta e serem decotadas sobre a anca, de modo que lhe alongavam as pernas.

Hesitou em pôr uma blusa transparente, mas decidiu escolher uma que fosse opaca: queria que o soutien fosse uma surpresa para o amante.

Foi assim vestida que entrou na sala. Victor estava sentado no sofá.

– Anda cá, – chamou-a.

Mariana curvou-se para o beijar na boca e quando ele lhe puxou pela mão sentou-se ao lado dele. A casa estava a aquecer rapidamente, e nem mesmo Mariana, friorenta como era, sentia qualquer desconforto em encontrar-se vestida com roupas de Verão e descalça sobre os ladrilhos da sala. E de resto tudo na sala era agora aconchego, as luzes veladas, as persianas corridas para baixo, o tapete felpudo diante do sofá.

Dieu, qu’on est bien, cantava Brel no leitor de CD’s.

– Tens fome? – perguntou Mariana.

Victor não tinha fome, mas ela sim.

– Estou cheia de preguiça, – disse-lhe, dengosa. – Posso pedir-te uma coisa, meu amor?

Victor riu-se e disse que sim.

– Podias trazer-me um iogurte. Mas quero que mo dês na boquinha.

Na cozinha Victor tirou um iogurte do frigorífico, abriu-o e misturou-lhe uma colher de mel, como sabia que Mariana gostava. A brancura opaca do iogurte misturou-se com a transparência acastanhada do mel para dar um creme esbranquiçado e translúcido. Depois, sentado no sofá ao lado dela, começou a dar-lho às colheres, dizendo-lhe como se diz às crianças:

– Come, come tudo, vamos lá; agora é um Porsche a entrar na tua garagem; e agora é um comboio a entrar na estação: vem de Heidelberg, e eu venho nele. Agora… agora é o meu sexo a entrar na boquinha do teu corpo.

–Mmmm! – Dizia Mariana. – Que bom!

E quando ele terminou sentou-se-lhe ao colo, de frente para ele, com a saia levantada e as pernas escanchadas de modo a sentir-lhe a excitação. Sob os joelhos sentia a cobertura do sofá, macia mas enrugada, e entre as coxas as calças grossas que Victor tinha vestidas. Quanto a ele, meio preso entre ela e as costas do sofá, tinha a liberdade de movimentos apenas suficiente para lhe passar as mãos pelo corpo, acariciando-lhe as costas e a nuca e descendo-lhe pelos flancos até aos quadris. A carícia tão depressa era leve como firme; mas nunca tão vigorosa e impaciente como a que ela lhe fazia a ele por sobre a roupa, com o sexo todo, girando as ancas num movimento redondo e largo.

– Sim, meu amor, – ouviu-o dizer. – Dança para mim.

Victor tinha-lhe posto as mãos por baixo da saia e acariciava-lhe as barrigas das pernas, as solas dos pés. Mariana esfregou-se sobre a erecção do amante, numa vigorosa dança do ventre, até que lhe sentiu as mãos por baixo da blusa: era altura de se despir, a blusa e a saia antes do soutien e das calcinhas. Mas antes disso queria despi-lo a ele.

Para lhe desabotoar a camisa não precisava de sair da posição em que estava; mas quando quis tirar-lhe os sapatos e as calças teve de se sentar ao lado dele no sofá. Preparava-se para lhe pegar numa perna e atravessá-la sobre os joelhos de modo a poder descalçá-lo quando outra ordem a deteve:

– Assim não. De joelhos dá-te mais jeito.

Mariana sorriu. Tinha sido apanhada a fazer batota e foi com uma pequena risada que se ajoelhou aos pés do amante, que lhe retribuiu com um sorriso. Victor trazia umas botas forradas, com solas de borracha, próprias para a chuva e para a neve. As peúgas eram grossas, de lã, tão apertadas que custaram um pouco a sair. Depois de o descalçar Mariana pegou-lhe num dos pés e ergueu-o até aos lábios para lho beijar.

– Sim, meu amor, – disse Victor; mas quando ela ia fazer o mesmo ao outro pé ele fez força para baixo e não deixou.

– Vou-te ensinar uma coisa, minha escrava.

– O quê? – murmurou Mariana indistintamente, a boca colada aos pés dele.

Mas Victor entendeu-a:

– Isto: de futuro, quando me beijares os pés, não mos levantes do chão; baixa-te tu até eles.

Mariana riu-se:

– Está bem.

Não era uma mulher humilde, como já tinha feito notar ao amante; pelo contrário, era orgulhosa; mas uma boa parte desse orgulho, punha-o em ser uma escrava perfeita, como também lhe tinha dito. Inclinando-se até ao chão beijou-lhe os pés, terna e aplicadamente; depois ergueu-se sobre os joelhos e puxou-lhe as calças para baixo. As cuecas eram uns calções de popeline às riscas, abertos à frente e sem botões. O melhor era deixar-lhas vestidas: entrever-lhe o sexo semi-erecto a espreitar de entre as sombras do púbis era mais excitante do que tê-lo já, todo nu e exposto, à sua frente.

Foi com algum divertimento que notou o gesto discreto com que ele procurou tapar-se. Por pudor? Talvez; mas Victor nunca fora especialmente dado a esta virtude, pelo menos na presença dela. Ou por vontade de vê-la nua primeiro?

A ordem que se seguiu confirmou a segunda hipótese:

– Agora despe-te tu, minha escrava. Toda nua. Mas primeiro serve-me o copo de água que te pedi.

Na cozinha Mariana aproveitou para ajeitar as roupas descompostas. Os ladrilhos brancos estavam frios, mas não tanto que os não pudesse suportar. Vestida para o servir, trouxe-lhe a água, que ele bebeu de um trago. Depois de lhe tirar da mão o copo vazio começou a despir a blusa, de pé à frente dele, atenta a que ele lhe visse bem o soutien: as rendas, as transparências, os brilhos acetinados, a florzinha vermelha bordada entre as copas. Victor sorriu-lhe, agradado:

– Ah, puseste um soutien. E preto, ainda por cima. Mas acho que gosto mais do que tinhas posto quando tomei posse de ti: aquele cinzento com as florzinhas cor-de-rosa.

Mariana também achava que o outro soutien era mais bonito do que este; mas as calcinhas deste conjunto ficavam-lhe melhor.

– Não concordas?

Victor continuou a olhá-la atentamente enquanto ela tirava a saia. E com efeito: à minúscula flor vermelha no soutien, entre os seios de Mariana, respondia outra, ligeiramente maior, nas cuecas, no ponto exacto em que as rendas transparentes deixavam ver o início dos pelos púbicos; e tudo em harmonia com os cabelos negros, as sobrancelhas carregadas, os olhos brilhantes de Mariana.

Assim ficaram os dois, aparentemente esquecidos de que tinham começado a despir-se para fazer amor. Sentada aos pés do dono Mariana conversava e ria; de vez em quando levantava-se cheia de vivacidade para lhe mostrar uma fotografia ou um quadro, para pôr outro CD no leitor, ou simplesmente para o beijar na boca.

O sofá era fundo, o tapete macio, o aquecimento eficaz. Dois candeeiros, dispostos em diagonal em cantos opostos da sala, davam uma meia-luz velada e quente. A excitação de Mariana e Victor não era menos intensa agora do que quando tinham começado; mas tinha perdido toda a urgência, e era agora algo para ser gozado lentamente mais do que imediatamente resolvido. Victor acariciava a face e os cabelos da amante, encantado com ela e tonto de felicidade.

– Anda cá, – disse-lhe por fim.

Mariana foi-se-lhe sentar de novo ao colo: desta vez atravessada sobre os joelhos dele, virando-se de modo a que ele não tivesse que lhe desapertar o soutien às cegas. Com a mão esquerda Victor procurou-lhe o sexo: as calcinhas eram tão exíguas que não foi preciso tirar-lhas, e bastou afastar-lhe para o lado a tira de tecido entre as pernas para lhe poder acariciar o sexo nu.

Mariana, por sua vez, procurou com a sua pequena mão quase de criança o sexo do dono e acariciou-lho devagar, como ele gostava. Sentiu-o macio e confortável sob os dedos, quente do sangue que o enchia; e rijo como não tinha deixado de estar desde que se tinham beijado na estação, mas a essa rigidez não correspondia o vigor de movimentos e de gestos com que tinha entrado em casa dela pouco antes. Perscrutou-lhe o rosto: viu-lhe os olhos a começarem a raiar-se de vermelho, as olheiras a despontar.

– Estás cansado, meu querido? Da viagem?

– Um pouco. E o dia também não foi muito bom. Mas isto passa: agora estou contigo.

– Espera um pouco. Vou-te fazer um chá e vamos conversar.

Enquanto Victor tomava o chá preto que Mariana tinha preparado ao gosto dele – muito forte e sem açúcar nem leite – foram conversando sobre as suas vidas quotidianas, os filhos, os afazeres profissionais, os colegas, os problemas, os projectos. Durante o tempo que esta conversa durou, Mariana não parou de acariciar ao de leve o sexo de Victor, sentindo-o ficar alternadamente mais duro ou um pouco mais flácido conforme a atenção se lhe ia focando mais na carícia ou na conversa. Enquanto Mariana preparava o chá e uns biscoitos para o acompanhar, Victor tinha posto o seu robe de cetim vermelho escuro, mas ela tinha-se deixado ficar nua.

Victor bebeu várias chávenas de chá – chávenas de chá, nem menos de três, nem mais de trinta, costumava dizer a mãe de Marta – mas quase não tocou nos biscoitos. Mariana sabia que esta falta de apetite era nele sinal de cansaço, e depois de ele lhe entregar a chávena ordenou-lhe:

– Agora vais tirar o robe, tomar um duche e deitar-te no sofá, para a tua escrava te dar uma massagem.

Quando Victor começou o duche, Mariana juntou-se a ele:

– Deixa-me lavar-te.

Victor fechou os olhos, suspirou de contentamento e entregou-se nas mãos da amante, que o ensaboou e enxaguou três vezes da cabeça aos pés sem lhe descurar nenhuma prega do corpo. De cada vez, depois de o enxaguar, Mariana ajoelhava-se diante dele e tomava-lhe o sexo na boca enquanto ele, de olhos fechados, ia relaxando o corpo e murmurava:

– Sim, minha querida… Meu amor… Minha escrava…

No fim secou-o com uma grande toalha felpuda que tinha posto previamente a aquecer no radiador: não com os movimentos vigorosos com que ele se esfregaria se fosse ele próprio a secar-se, mas com o cuidado e com a ternura com que se seca um bebé depois do banho.

– Agora vai deitar-te no sofá, de barriga para baixo.

De regresso à sala, Victor viu que Mariana tinha posto outro toalhão sobre o sofá. Deitou-se de bruços em cima dela e esperou com os olhos fechados, a cabeça apoiada sobre o antebraço, que Mariana pegasse no frasco de óleo para para bebé que utilizava para o massajar. Sentiu Mariana ajoelhar-se no sofá com uma perna de cada lado do corpo dele: o sexo dela sobre a sua pele era uma carícia complexa que combinava a macieza das mucosas húmidas com a relativa aspereza dos pelos púbicos. Também o calor do corpo feminino contrastava com a frescura do óleo quando ela lhe derramou sobre os ombros uma pequena porção. Depois as mãos dela, pequeninas, quase infantis, ternas, mas fortes e firmes a procurar-lhe os nódulos de tensão nos músculos do pescoço e dos ombros.

Victor soltou um suspiro de prazer e abandonou-se às mãos de Mariana.

A seguir foram os braços, músculo a músculo, e as mãos, dedo a dedo, desfazendo pacientemente tensões; e à medida que a amante lhe massajava cada membro, Victor sentia que essa parte do corpo lhe ficava como que mais pesada, abandonada à força da gravidade que a puxava de encontro à superfície mole mas firme do sofá.

As costas foram exploradas vértebra a vértebra, numa carícia que por vezes o magoava um pouco, e só por via dessa ligeira dor é que Victor não era vencido pela sonolência que o tomava. Mariana moveu o corpo em direcção dos pés de Victor de maneira a deixar-lhe as nádegas livres para as massajar, mas antes de começar esta fase inclinou-se sobre ele e passou-lhe pelas costas, repetidamente, os bicos dos seios ao mesmo tempo que lhe dava pequenos beijos nos ombros e na nuca, numa carícia tão leve como o bater de asas duma borboleta.

As nádegas foram trabalhadas primeiro com movimentos circulares, depois amassadas como que a fazer pão, e por fim repetidamente percorridas com um longo e vigoroso deslizar de ambas as mãos, do alto das coxas até aos rins, que não foram poupados a uma série de pancadas dadas com as arestas das mãos como golpes de karate.

Para tratar das pernas do amante Mariana teve que o cavalgar de novo, sentando-se sobre as nádegas dele, mas desta vez virada para os pés. Victor tinha as coxas e as pernas duras, musculadas e muito tensas. Foi necessário que ela as acariciasse, que as beliscasse músculo a músculo, as amassasse e por fim lhes batesse com os punhos fechados, com toda a força, numa rápida chuva de golpes entremeados de beijos e carícias.

– Estás a gostar?

– Sim… É bom…

– Estavas tão tenso… Estás a ficar melhor?

Victor sentia-se flutuar. Às solas dos pés, dedicou-lhes Mariana quase tanto tempo como tinha dedicado a tudo o resto, insinuando os dedos finos por todas as reentrâncias e relevos

Mas vem sempre um momento em que as lentidões mais lânguidas e aconchegadas dão lugar a frenéticas urgências: os beijos que os amantes trocavam agora, cada vez mais ávidos, deixavam para trás as outras carícias, que se mantinham suaves e lentas; e finalmente Mariana sentiu que não podia esperar mais. Tentou mudar de posição, acabar de despir o amante e sentar-se-lhe ao colo com as coxas abertas, de modo a empalar-se nele; mas ele, com sábia crueldade, prendeu-a pela cintura, obrigou-a a manter-se na posição em que estava e continuou a acariciar-lhe o sexo. Mariana não queria esta carícia cheia de delongas: não queria este prazer vazio, este orgasmo que se aproximava sem que ela o pudesse evitar ou retribuir. O clímax, quando lhe veio, veio-lhe entre risos e lágrimas. Durante todo o tempo que lhe durou, e depois durante o refluxo, Victor apertou-a nos braços, cobrindo-a de beijos, consolando-a.

Mariana sentia-lhe a erecção contra a coxa e começou a roçar-se meigamente contra ele.

– Sim, meu amor, – disse-lhe Victor quando a viu de novo sorridente. – Quero vir-me assim, contra o teu corpo. Como me convidaste a fazer no outro dia, lembras-te?

E mais tarde, enquanto ela, toda aninhada nele, o beijava ternamente, segredou-lhe ao ouvido:

– Vou possuir-te agora entre os seios. Dás-mos, meu amor? Dás-me os teus seios?

Dava; certamente que dava. Pois não se tinha dado já toda, de corpo e alma?

A uma ordem dele tirou as calcinhas e deitou-se de costas no tapete, em frente do sofá. Mariana considerava-se uma mulher com experiência e mundo, e era-o de facto, mas nunca tinha visto o esperma a jorrar dum pénis. O contentamento que sentia vinha da oportunidade de ver com os olhos um fenómeno que até aí só tinha conhecido por senti-lo dentro do corpo. E vinha também de poder servir o amante sem reservas, de sentir que ele se lhe entregava todo, finalmente. Seguiu-o com os olhos enquanto ele se dirigia, com os shorts ainda vestidos, à mala que tinha trazido e voltava para junto dela com uma pequena lata de vaselina na mão. Para não lhes doer, disse ele.

– Mas isto não dói, – disse Mariana.

– A ti, não, mas pode-me doer a mim.

Mariana nunca tinha tido na cama um homem tão delicado de pele. Parecia uma mulher ou uma criança, e das mais mimosas. Viu-o tirar da lata, com as pontas dos dedos, uma porção de vaselina e sentiu uma ténue impressão de frio quando ele começou a espalhar-lha nas faces interiores dos seios. Depois sentiu-se requebrar sob as mãos quentes que lhe deslizavam, lúbricas, por todo o peito. Quando ele se lhe deitou por cima apertou os seios com as mãos, tentando criar para ele um canal tão fácil como o de que ele se servia habitualmente, mas mais apertado se possível.

Levantando a cabeça podia ver em primeiro plano a glande rosada que lhe avançava em direcção à cara e se lhe recolhia de novo entre os seios, num vaivém cada vez mais rápido. Vista assim de perto a abertura na ponta parecia tão larga como uma mangueira de jardim, e Mariana fantasiou toda uma torrente que jorrando dela a havia de avassalar. Para assistir mais confortavelmente a esta erupção estendeu o braço para o sofá e pegou numa almofada, que pôs por baixo da nuca.

Victor levou largos minutos a atingir o orgasmo. Mariana sentiu-o antes de o ver, um jacto cremoso e quente que lhe atingia o peito e o pescoço, e depois, expandida a maior força, um fluido branco que se derramava em borbotos cada vez mais débeis. Logo que o amante parou de se mover Mariana limpou-se com um lenço de papel.

– Não porque os teus fluidos me incomodem, meu senhor; pelo contrário. Mas não vale a pena sujar o tapete. Não te importas?

– Não me importo que te limpes com o lenço, mas a mim quero que me limpes com a tua boca.

Mariana riu-se. Depois de se limpar inclinou-se sobre Victor e começou a lamber-lhe e a chupar-lhe o sexo, delicadamente. Mas não deixou por isso de o lavar como era seu costume depois de fazerem amor – quando o sentia preguiçoso demais para tomar duche – com um toalhete perfumado e água morna.

Com isto começaram uma conversa longa, lânguida e bastante tonta sobre os cheiros e os sabores do sexo.

– A que sabe então o meu esperma?

– Hmmm… Deixa ver… A pêssegos. E a minha cona?

– A caviar.

– Não vale, essa tiraste-a da Dona Flor!

– Então sabe a bacalhau.

– Estúpido! Diz-me a que é que sabe a minha cona, ou então começo a fazer-te cócegas até te obrigar a pedir misericórdia!

– Está bem, agora a sério. A tua cona… A tua coninha querida… sabe à água da chuva, durante uma tempestade de Verão, a escorrer-me pela cara.

E esta conversa conduziu-os, em devido tempo, a um renovar do desejo; e este desejo levou a que de novo fizessem amor; mas o amor que fizeram dessa vez pertence a outra história.

Debaixo deles o espesso tapete beige titilava-lhes os corpos. À volta, se estendessem a mão, sentiriam o ladrilho que revestia o chão; e no calor da sala a frescura deste toque era um conforto. O sofá onde tinham estado antes era cor de tabaco, e erguia-se-lhes diante dos olhos como uma montanha. Nas paredes brancas, os quadros de Mariana: nus femininos, alguns auto-retratos, naturezas mortas, pintadas com cores fortes e pinceladas vigorosas.

E um retrato a óleo de Victor numa cervejaria famosa de Bruxelas, sentado a uma mesa de madeira cor de mel. No retrato aparecia ligeiramente corado, vestido com uma T-shirt preta: a única indicação de que era Inverno lá fora era o grosso sobretudo pendurado num canto, juntamente com as luvas, o cachecol e o boné de tweed. Sobre a mesa um cinzeiro de latão vazio, um candeeiro Tiffany aceso, uma base de copos em cartão e o amarelo cádmio duma caneca de cerveja. Uma gota de líquido escorrera para a mesa.

Via-se que tinha acabado de pousar a caneca, e que estaria talvez a cumprimentar alguém que tivesse acabado de chegar. O olhar com que olhava para fora do quadro tinha a mistura de ironia e ternura que lhe era peculiar. O cabelo era uma melena romântica, revolta e comprida. Os lábios estavam húmidos da cerveja; e por baixo do nariz tinha uma réstia de espuma, branca e translúcida, da cor do esperma que Mariana lhe tinha visto sair aos borbotos do sexo entumescido.

(Publicado no Blogger a 20/08/06)

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I’ve been your slave baby
Ever since I been your babe.
I’ve been your slave
Ever since I been your babe,
But before I be your doll
I’ll see you in your grave
.

Billie Holiday

salome_by_franz_von_stuck_19062“Quero que escolhas um nome,” disse Miguel. “Será o teu nome de escrava.”

Marta tardou em responder. A conversa de hoje continuava outras anteriores; a fantasia que convocava tinham-na já várias vezes vivido, e tinham achado nela um prazer intenso, a que só uns laivos de constrangimento davam um tempero acre; mas para além do prazer e do constrangimento visitava-os um outro sentimento mais misterioso e raro, vizinho das lágrimas e do riso, a que que não sabiam dar outro nome que não fosse alegria.

Hoje tinham passado a tarde no jardim da Sereia. Quando vinham a Coimbra era sempre com encontro marcado, quando as profissões e os deveres familiares lho permitiam, abandonando ela a sua galeria de arte em Lisboa, e saindo ele de Braga, da Universidade onde ensinava. Os arruamentos de saibro do jardim pareciam-lhes agora mais estreitos do que no seu tempo de estudantes, as árvores mais desgrenhadas, com ramos esgalhados e folhas carcomidas. Estavam os dois abraçados num banco, em frente ao lago central do jardim. Noutros bancos enlaçavam-se jovens pares de namorados, da idade que tinha sido a deles quando aqui vinham quase diariamente.

“Às vezes dou a mim mesma o nome de Mariana,” disse Marta por fim. “Numas coisas que escrevo. Coisas minhas. Mas também pode servir para – ”

Miguel apertou-lhe a mão com mais força.

“Mariana. Fica-te bem.” O nome dizia bem com os olhos dela, com os modos dela. De agora em diante Miguel chamar-lhe-ia Mariana quando quisesse que lhe respondesse a escrava.

Marta escondeu o rosto no ombro do amante. “Sim, meu amor” murmurou; e ficou à espera que ele a chamasse desde já pelo seu novo nome, sabendo que qualquer resposta que desse a essa chamada seria já como que uma genuflexão. Mas nas horas que se seguiram ele tratou-a sempre por Marta, ou então pela infinidade de nomes carinhosos que só não são ridículos no léxico dos namorados; e ela acreditou que a conversa no jardim tinha sido apenas mais uma de muitas, uma excitante fantasia de palavras em que ele lhe falava de a amarrar e possuir, ou de lhe ordenar gestos impensáveis, nudezes impossíveis: como caminhar pelas ruas com um vestido transparente, sem soutien nem calcinhas, ou então descalça como há vinte anos as ciganas.

E depois, no restaurante em Coimbra, e na Figueira da Foz, no hotel, foi sempre pelo nome dela que continuou a tratá-la, e também na cama, quando fizeram amor. Foi só a meio da noite que ele, sentindo-a acordada a seu lado, lhe pôs num seio uma mão proprietária e a chamou pelo seu novo nome: “Vem cá, Mariana.”

“Sim, meu amor,” respondeu ela, com o coração a bater-lhe mais depressa. “Estou aqui.” O abraço com que se enlaçaram foi igual aos outros, talvez mais firmes as mãos de Miguel no corpo dela, ou mais meiga – mas não o era sempre? – a boca dela na dele. Quando, ao fim das primeiras carícias, serve-me, amor, beija-me, Mariana, ela se deitou ao comprido por cima dele, ele começou a roçar-se contra ele, nudez sobre nudez; e durante este tempo não parou de lhe falar nem de lhe exigir que falasse.

“Como te chamas?”

“Marta; a tua Marta.”

“Sim; a minha Marta; mas também a Mariana. Diz: sou a Mariana.”

“Sou a Mariana, meu amor.”

“E eu quem sou, Mariana?”

Marta, ou agora talvez Mariana, soltou um longo gemido. Era tão difícil falar, assim excitada, a excitação cortava-lhe a voz, e para mais ter que dizer aquelas palavras, palavras que se lhe enovelavam na garganta, refractárias.

“És o meu amante. O meu amor. O meu – o meu senhor.”

“E tu, o que és?”

“Ooooh, meu amor, meu querido. Sabes bem que sou tua, toda tua.”

“És minha o quê?”

“Oooh, meu amor. A tua escrava, meu querido. A tua escrava. Se tu assim o queres. Toda tua, meu amor.” E contra a macieza de Mariana a o corpo dele tinha a inamovível dureza da lei, como bastão ou ceptro ou espada simbólica.

“Ouve-me bem,” disse-lhe ele, numa voz entrecortada pela excitação e também por uma certa incredulidade perante o que estava ousando dizer. “A Marta é a minha amada; e a minha amante; e tu, Mariana –”

Mariana era talvez uma ficção, mas correspondia a alguma coisa que em Marta era real, e ela bem o sabia.

“Ou não sabes?” Perante a aquiescência muda de Marta, Miguel prosseguiu: “Tu, Mariana, és a minha serva, a minha escrava. Pertences-me completamente. Os meus direitos sobre ti são todos, os teus sobre mim nenhuns.”

Mariana podia pensar que tudo aquilo era um jogo, uma fantasia; e era-o talvez, de facto, no que dizia respeito a Marta. Mas Mariana era realmente propriedade de Miguel; não se tratava aqui dum papel representado para dar prazer quer a um, quer a outro.

Excitada como estava, Mariana mal estava em condições de ouvir o dono, e muito menos de lhe acompanhar o discurso; mas isto não a impediu de compreender – fosse com o cérebro ou com o coração, ou com o sangue que lhe afluía ao rosto e ao peito e ao ventre – a medida exacta do que se lhe exigia; e por isso o seu sim foi quase um soluço, e o beijo com que o acompanhou quase uma súplica.

E enquanto durou aquele abraço Mariana foi ouvindo e repetindo, sempre às portas de um orgasmo que durante todo o tempo lhe foi negado, as condições da sua escravidão: primeiro os seus direitos, que eram nenhuns, depois os seus deveres, que eram servir e obedecer. Obedecer absolutamente, tanto no que lhe desse prazer como no que lhe causasse sofrimento ou repugnância. O corpo de Mariana não lhe pertencia a ela, mas a ele, que tinha o direito de se servir dele quando e como quisesse; e não só pela vagina, mas também pela boca e pelo ânus. E ela repetia, desviando o olhar, como uma menina no colégio obrigada a pedir desculpa: o meu corpo é propriedade tua, podes possuir-me quando quiseres, pela vagina, pela boca, pelo ânus. São teus os meus seios, as minhas coxas, as minhas mãos, mas também a minha vontade; e a minha sensibilidade; e a minha inteligência. Tu és o meu dono, o meu senhor, o meu amo. Só a tua vontade conta, e o teu prazer. Tens todos os direitos sobre mim, e eu nenhum sobre ti. Só me compete obedecer-te, e servir-te, e não tenho nenhum direito. Nem ao prazer: uma escrava não tem direito ao prazer.

Acreditaria Marta completamente naquilo que estava a dizer? Certamente que não, como poderia? Mas Mariana sim; e Mariana era parte dela, inseparável, criada por ela, posta por ela ao serviço de Miguel; uma vez convocada à realidade da existência e da acção nunca regressaria, sem deixar traço da sua passagem, ao limbo ficcional que ocupara no mundo secreto de Marta.

Nos meses que se seguiram a esta jura Marta encontrou-se várias vezes com o amante: quase sempre na sua própria pessoa mas também por vezes na de Mariana. Depois houve um arrefecimento na relação entre os dois, um período de frustrações, desconsolos, desilusões e silêncios. Mariana, anunciou Marta uma vez, foi-se embora para não voltar. No mesmo encontro em que lhe fez este anúncio disse-lhe que tinha havia vários dias uma prenda para ele, mas que no estado em que estava a sua relação não fazia sentido dar-lha.

Foi por esta altura que decidiram os dois, por diferentes razões mas concertadamente, passar um ou dois anos fora de Portugal e das suas famílias. Marta foi para Brugges, trabalhar com uma amiga que tinha uma galeria de arte e estava disposta a ceder-lhe um pequeno apartamento com atelier; e Miguel para Heidelberg para concluir a sua tese de doutoramento.

O seu primeiro encontro depois disto foi em casa dela, em Brugges. Miguel ia dominado por um sentimento de contrição, porque o afastamento que tinha começado em Portugal devia-se em primeiro lugar a ele, e porque durante o primeiro mês em Heidelberg tinha mantido um silêncio vergonhoso, a ponto de lhe suscitar a ela um ultimato, ama-me ou deixa-me. Mas no abraço com que Marta o recebeu viu-se que não queria desculpas nem explicações; e também ele não gostaria de lhas dar, porque ou os actos subsequentes as confirmariam, e não seriam necessárias, ou as contradiriam, e seriam mentirosas.

Mentirosos não foram os corpos, certamente; porque nessa noite, quando Miguel a ia penetrar, ouviu-a dizer claramente, como raras vezes antes: “Sou tua, possui-me.” E na explosão do orgasmo foi como se todas as penas passadas e todas as palavras que tinham ficado por dizer se libertassem também; de modo que quando olharam um para o outro no seu habitual e sempre novo maravilhamento souberam ambos que já não havia, de parte a parte, explicações a dar nem desculpas a pedir, e que todas as dívidas estavam saldadas. No dia seguinte passearam pela cidade ao longo dos canais e na praça do Mercado, e visitaram, num recanto discreto de um jardim, uma estátua de rapariga, personagem, vá lá saber-se até que ponto ficcional, duma canção de Jacques Brel.

(E nós, de quantas outras ficções, além bem entendido da nossa, somos personagens? Porque se a ficção se faz bronze, como na estátua de Marieke, não é menos certo que se faz carne; a tal ponto que o nosso trabalho maior de cada hora – e nenhum humano escapa a esta lei – consiste nesta encarnação.)

Quanto a Miguel e a Marta: tão enlaçados quanto lho permitiam as várias camadas de roupa – e há nestes abraços de Inverno, apesar da inacessibilidade dos corpos, um não sei quê de aconchego que falta aos de Verão – respiraram a humidade do ar, a iminência da chuva, e curvaram a cabeça sob o tecto de nuvens, tão baixo e tão pesado. A água que saturava o ar, que pendia sobre eles, que lhes corria sob os pés, lavava tudo: tudo à volta deles era lavado e fresco, sem uma sugestão de poeira ou fermentação de matéria viva. Je t’aimais tant, diriam talvez um dia Miguel e Marta um ao outro, ou um do outro, entre les tours de Brugges et Ghent. Mas ao caminhar sobre a relva molhada neste jardim da Flandres o que lhes vinha à recordação eram os seus passeios em Portugal, à beira-mar, a secura ríspida das urzes, os arbustos que os protegiam dos olhares indiscretos; e do amor que faziam ao ar livre sob os pinheiros mansos e as azinheiras; e fez-lhes falta o ar mediterrânico que fora a pátria primeira dos seus encontros, com os seus perfumes acres, com a sua poeira estival que lhes sujava os pés e secava as gargantas.

Numa dessas vezes, numa mata cerrada que dava, como uma imensa varanda, sobre a Costa da Caparica (estavam os dois nus sobre uma manta, e Marta, sentada na mesma posição que o modelo de Déjeuner sur l’Herbe, dispunha sobre uma toalha o piquenique que tinha preparado), deram por alguém que se movimentava por entre os arbustos. Um voyeur, também aqui, apesar de não terem visto casas nas proximidades nem outros automóveis além daquele em que tinham vindo. Era um homem atarracado, de meia idade, talvez mais novo do que eles, vestido com umas calças escuras de fazenda e uma camisa branca, e rondava-os de gatas, como um soldado enviado a espiar o inimigo. Para o enxotar bastou um gesto e um riso, e nem foi preciso vestirem-se; mas pouco depois foram-se embora, perdida a vontade de fazer amor.

E agora aqui, em Brugges, nesta Europa húmida e fria que lhes dava, sem sequer parecer aperceber-se da sua existência, toda a privacidade de que necessitavam, riam-se destas aventuras. E recordavam os vestidos estivais de Mariana, compridos e rodados, que Marta tinha trazido na bagagem para vestir quando também aqui fosse Verão.

“Lembras-te daquele meu cinzento, quase branco? Era esse que eu trazia quando me obrigaste a andar descalça na rua pela primeira vez. E do outro, cor de açafrão, que levei a Sesimbra? E da saia azul aos godés?”

Para sairem da chuva e do frio entraram num café, tão aquecido que logo nos primeiros segundos tiveram que despir os agasalhos. As janelas eram vitrais coloridos; tudo, desde os rostos vermelhos dos clientes aos braços roliços das empregadas, sugeria aconchego; e por todo o lado se espalhava o cheiro mole da cerveja.

Mais tarde, no apartamento, sentados os dois no sofá, sentiram como estavam longe de casa. Durante algum tempo não falaram; e os próprios gestos de ternura que trocavam pareciam afectados pelo que Miguel tinha a dizer. Por fim, quando à força de abraços e beijos se dissipou este estranho constrangimento, as palavras surgiram:

“Marta,” disse Miguel, apertando-a nos braços. “Hoje vou tomar posse de ti como minha escrava. Aqui e agora.” E tomava posse dela não só para aquele dia, mas para sempre, e de verdade. Dizendo isto o amante olhava-a nos olhos, e a voz não lhe tremia. “Põe-te nua para me ouvires; e ajoelha-te.”

Marta tirou o vestido, as meias, e a roupa interior que tinha posto para o receber. Era um conjunto em rendas e cetim, dum cinzento pálido quebrado apenas por uma discreta bordadura de florzinhas cor-de-rosa. Depois ajoelhou-se-lhe aos pés, toda nua. Nada disto, para dizer a verdade, a perturbava sobremaneira. Mas as palavras do amante, ditas assim – num momento de ternura e aconchego em que nenhum dos dois tinha, para justificar a sua fantasia de domínio e submissão, a desculpa duma avassaladora excitação sexual – tinham um significado especial, que ela bem entendeu. Pela primeira vez desde que se assumia como seu senhor, Miguel dirigira-se explicitamente a ela, Marta, e não a Mariana. Pois bem, se o que ele desejava era desfazer ambiguidades, também ela o queria, mesmo que para tal deixasse de haver solução de continuidade na sua servidão. Abraçada a ele numa aquiescência muda, beijando-o no peito, ouvia-lhe a cadência estranhamente formal das palavras. A voz adquiria agora ressonâncias de bronze, como se todos os sinos em todas as torres de Brugges tivessem sido convocados em seu reforço:

“São Meus os teus cabelos negros, para que Me deleite neles quando quiser. São Meus os teus olhos, para que Me estejam sempre atentos. São Minhas as tuas lágrimas. É Minha a tua boca, para que Me sorria e Me beije, e para que se abra ao Meu corpo. É Meu o teu riso, como é teu o Meu; e o teu amor, e o Meu amor, também. São Minhas as tuas mãos, para que Me dispam e vistam, para que Me lavem, Me acariciem, Me preparem a comida e Ma ponham na mesa. São Meus os teus seios, para que todos os dias a sua beleza se descubra aos Meus olhos; e para que na sua brandura repouse o Meu cansaço. São Meus os teus braços, mais do que tudo o resto, porque enquanto fores Minha nunca Me hão-de mentir. São Meus os teus quadris, que tão bem sabem dançar para Mim. É Meu o teu sexo, e o teu botão de amor, para que Eu o beije e dedilhe, e todas as aberturas do teu corpo, para que Eu as penetre quando quiser e como quiser. São Minhas as tuas nádegas, Minhas para acariciar ou castigar. São Meus os teus pés, para correres para Mim quando Eu te chamar, e para que descalços afirmem a tua escravidão.”

Marta ouvia tudo isto e consentia em tudo, apesar dos assomos de inquietação e revolta que lhe surgiam do peito; mas não conseguiu encontrar em si própria as palavras de aceitação que ele agora lhe exigia, palavras reflexas das dele em que se reconhecesse escrava e se entregasse como tal. Quando o dono, perante o seu silêncio obstinado, lhe tocou experimentalmente o sexo e o encontrou molhado, ela sentiu mais alívio do que humilhação pela displicência do gesto, como se o seu próprio corpo a dispensasse de falar.

Não tinha tido qualquer relutância ou hesitação em se despir quando ele lho ordenou, nem em se ajoelhar diante dele, nem em beijar-lhe longamente os pés; só as palavras lhe custavam. Quando ele insistiu em que confirmasse por palavras o discurso do corpo só foi capaz de dizer:

“Para quê, meu amor? Se eu já te disse que sim?”

A meio da noite Miguel despertou-a com uma carícia: “Acorda, meu amor. Vira-te para mim.” Obediente e amorosa, abriu-se para que ele a penetrasse; mas não sem que ao mesmo tempo lhe perguntasse, coquette:

“E se agora a tua escrava não quiser?”

“Mas se tu não tens querer,” ousou ele responder, fazendo-a arquejar de surpresa e excitação. E antes que ela pudesse retorquir já a tinha penetrado com um único, fácil movimento; mas depois, em vez de começar a mover-se no ancestral vai-vém dos amantes, ficou imóvel dentro dela, trespassando-a com o sexo rígido, sujeitando-lhe os pulsos, interrogando-a:

“Quem sou eu, Marta?”

“O meu senhor.”

“Quem?”

“O meu senhor. O meu dono.”

“E tu, quem és?”

“A tua escrava.”

“Mais alto.”

“A tua escrava.”

“Mais alto: quem és tu?”

“A tua escrava! A tua escrava! A tua escrava!”

Miguel bem ouviu o que havia de revolta neste grito. Mas momentos depois, quando Marta repetiu num murmúrio as mesmas palavras, a revolta tinha refluído como uma maré, e em seu lugar ouvia-se o que podia ser ternura, ou talvez um outro sentimento que ele não soube definir: “A tua escrava. Só a tua escrava, meu amor.”

“E eu o teu senhor.” Com estas palavras Miguel recomeçou a mover-se dentro dela e a encorajá-la: “Anda. Goza. Goza muito, meu amor. Sente o meu corpo no teu, sente tudo; o teu prazer, olha, é uma maré que sobe; é o mar que te enche, meu amor, que te avassala, é uma onda, assim, meu amor querido, uma onda quente que te inunda, vem-te agora, agora. Dá-me o teu prazer, não mo recuses; não me recuses nada.”

E enquanto a ela o rosto e o peito se lhe coloriam de vermelho, e a respiração lhe vinha em arquejos ansiosos e um longo gemido se lhe escapava da garganta, também a ele lhe veio um orgasmo, mas um orgasmo sem ejaculação, intenso, perfeito, insuportável. Miguel gritou e riu de prazer e frustração, e sentiu naquele momento que morria, que nunca poderia sobreviver a que aquele tanto fosse tão pouco. Mas não saiu de dentro da amante: pôs-se a acariciá-la e a beijá-la, exausto mas ainda erecto, insatisfeito, movendo-se ainda dentro dela em suaves movimentos que a espantaram, como podia ele continuar a possuí-la sem interrupção, depois de ter tido um orgasmo tão forte e tão bonito. Mas sim, era verdade, os movimentos do amante começavam de novo a ganhar em amplidão e vigor, e ela, sim, meu amor, possui-me, agora só para ti, só para o teu prazer. E juntava as pernas, apertava-o, movia-se debaixo dele numa dança do ventre sensual. Tudo isto, porém, a excitava a ela tanto como a ele, e quando ele finalmente ejaculou numa torrente de riso e de triunfo também ela explodiu num segundo orgasmo.

“Tenho um pedido a fazer-te,” disse Miguel a Marta por fim, antes de adormecerem. “Não é uma ordem, é um pedido.”

“Diz, meu querido.”

“É que nunca te arrependas de ser minha escrava. E se um dia deixares de o ser nunca te arrependas de o ter sido.”

“Oh, meu amor. Não, nunca me vou arrepender.” Se é que se podia dizer nunca. Marta não era nada que não tivesse escolhido ser, e nunca aceitara nada que não fosse de olhos abertos. E não sentia nada em relação a isto a não ser orgulho. “Posso ter algumas inibições com certas palavras; mais do que com os actos, como sabes; mas não, não me arrependo de nada. E tu?”

“Não, não me arrependo. Mas às vezes também fico inibido.”

Convencida ou não, Marta não pôde deixar de lhe dar um último abraço: “Boa noite, meu querido. Meu senhor. Dorme bem.”

No dia seguinte, quando se despediram na estação, entregou-lhe um pequeno embrulho. Era a prenda que tinha para ele da outra vez: agora já lha podia dar. Mas só queria que ele a abrisse quando chegares a casa. Durante toda a viagem Miguel procurou dominar a curiosidade. Que prenda seria aquela, tão difícil de dar que tivera de aguardar o momento perfeito? Mas há ocasiões, pensou, em que um senhor que se respeite não pode deixar de obedecer à sua escrava.

Em casa abriu a prenda: era uma fita de seda vermelha, igual a uma que se descrevia numa das histórias que costumava contar à amante: com uma fita assim atara uma das suas personagens os pulsos da amante antes de a possuir sobre o tampo de uma mesa.

Não se pode dizer que Marta vivesse a sua escravidão com a mesma serenidade com que Mariana a tinha vivido. É certo que uma vez, perante uma vacilação do amante, repetiu-lhe que tudo o que tinha aceite, tinha aceite de livre vontade e de olhos abertos. E num outro encontro, em Heidelberg, teve a iniciativa de lhe dizer que ser escrava dele era um privilégio. Mas mais tarde, num telefonema, disse-lhe com alguma condescendência na voz que era tudo um jogo, uma fantasia – o que, sendo verdade, falseava tudo. “Se eu sou tua, tu também és meu.” E numa irada missiva, depois de um encontro que por culpa dele correu mal: “Amo-te, mas o meu amor por ti não me cega nem me faz submissa.”

Um amor lúcido, uma submissão voluntária: eis o que Miguel continuava a exigir de Marta. Também ele era dela, também ele lhe tinha feito presente de si próprio, e alegremente; por isso eram um do outro; nisso tinha ela razão; mas ela que não se iludisse: dos dois só ele era senhor e só ela era escrava. Isto mesmo lho disse numa carta, que ela guardou ou destruiu mas nunca mais mencionou. E disse-lhe também que a única liberdade que lhe consentia estava em deixar de o amar. Mais tarde, em Brugges, lembrou-lhe estas cláusulas, e também que já uma vez, naquele mesmo apartamento, tinha tomado posse dela: “Consentes que renove agora essa posse?”

“Sim,” disse Marta.

“Então ouve-me bem: disseste e escreveste várias vezes que a tua escravidão era um jogo. É verdade: não tenho, nem quero ter, qualquer meio de ta impor. Mas não é uma brincadeira, nem algo que dependa das tuas decisões.”

“Eu sei.”

“E disseste que era uma fantasia, uma ficção. Também é verdade. Mas não é uma mentira. É a nossa ficção, e exprime a nossa verdade.”

“Eu sei, meu amor.”

“Agora põe-te nua.”

Quase nua já ela estava, apenas um robe de cetim por cima da pele. Sem qualquer hesitação obedeceu ao amante, que não parou de a acariciar. Depois, sem que ele lho tivesse ordenado, ajoelhou-se-lhe aos pés e beijou-lhos: carinhosamente, prolongadamente, como lhe tinha dito dias antes, pelo telefone, que tinha vontade de os beijar. Mas quando ele lhe pediu de novo que se lhe entregasse pelas suas próprias palavras, voltou a recusar: “Já me entreguei, estou aqui, de joelhos.”

E, inclinando-se, recomeçou a beijar-lhe os pés. A pouco e pouco foi-lhe subindo pelas pernas acima, primeiro os tornozelos, depois as barrigas das pernas e os joelhos. Miguel tinha umas pernas robustas e hirsutas; e Marta, cuidadosa e lenta, parecia empenhada em que cada centímetro quadrado de pele recebesse o seu quinhão de beijos. Só quando chegou aos joelhos é que começou a apressar-se: a meia dúzia de beijos que lhe deu no interior das coxas foram displicentes em comparação com os outros, como se estivesse agora impaciente por chegar ao fim deste percurso.

E com efeito: Miguel recordava-se de poucas vezes em que Marta lhe tivesse dado, de tão bom grado como hoje, o mais íntimo dos beijos; e com uma vontade tão evidente de o levar ao clímax. Mas deu-se conta apesar dos esforços da amante não ia lá chegar. A vibrante erecção com que tinha começado começava já a esmorecer; e antes que a perdesse deitou-se por cima dela e procurou-lhe a outra boca do corpo.

“Mostra-me o teu rosto,” pediu, numa voz velada pela excitação; e Marta, que lhe beijava o peito, interrompeu a carícia para o olhar nos olhos. Perdido nos olhos da amante, Miguel deu graças a Deus por ter feito do Homem o único animal que consegue copular cara a cara. E no mesmo ritmo com que a penetrava começou a recitar, rouco e arquejante, uma ladaínha:

“Se o meu amor fosse o Sol havia de te escurecer o corpo todo sem nunca te queimar; se fosse o vento havia de dançar à tua volta com as folhas das árvores, sem te tocar. Se fosse …”

Marta largou um gemido que parecia de dor.

“ Se fosse um rio,” continuou Miguel. “Havia de transbordar das margens, e crescer até te beijar os pés. Se fosse a chuva …”

“Sim, meu amor, diz: se fosse a chuva …”

“Se o meu amor por ti fosse a chuva, havia de te vir cantar nas vidraças. A chamar-te para vires dançar nua, na varanda.”

O gemido de Marta era agora um som ininterrupto e os dedos cravavam-se-lhe como garras nas costas do amante, que continuava a falar com voz rouca:

“E havia de te lavar o corpo e os cabelos; e a lua havia de se reflectir na tua pele molhada; e a cidade havia de ficar iluminada por dois luares: o da lua, e o do teu corpo.

“Sim, meu amor, sim. Diz-me. Diz-me tudo. Quero dançar nua na varanda. Dançar para ti. Nua. Na varanda.”

“Ahhh! … Se o meu amor fosse o mar … ah, se fosse o mar! Havia de te envolver nas ondas até tu perderes o pé; e depois havia de te embalar como a um bebé, e depositar-te na areia, salva, com um beijo. E se fosse o cume duma montanha, um pico coberto de neve, havia de capturar o último raio de sol e reflecti-lo nas tuas janelas.”

“Ah! Que bom, meu amor!”

“E se o meu amor por ti fosse um cabritinho, havia de te seguir mansamente, ao sacrifício, para que te alimentasses dele.”

“E se fosse um tigre?”

“Se fosse um tigre! Se fosse um tigre, ah! Aí havia de te despedaçar a carne e os ossos … comer-te … e beber-te … e tu havias de lhe circular nas veias … nas minhas veias de fera … alimentar-me os músculos … os olhos … o cérebro …”

“Sim, meu amor. Meu amor, meu tigre, meu leão. Sou a tua presa, consome-me; consome-me toda, meu querido.”

Miguel já não conseguia falar. Todas as suas forças, todas as sensações que era capaz de experimentar estavam agora dedicadas a um só fim, a uma só urgência, ao impulso irresitível que o obrigava a correr à desfilada para dentro do corpo de Marta. Viu como a amante enrubescia, ouviu-lhe os arquejos desesperados, os ais aflitivos, os esfaimados sins do orgasmo; e por fim também ele soltou a voz, o riso e o sémen numa só libertação, finalmente, finalmente. Depois deixou-se ficar dentro dela, como era seu hábito, beijando-lhe a boca, os olhos e a face, até que da lenta deflação que ia seguir-se resultasse uma suave retirada; e entretanto continuava a mover-se dentro dela num vai-vem quase imperceptível, um gentil arremedo das vigorosas estocadas com que momentos antes a tinha possuído. Durante longos minutos nenhum dos dois falou, contentando-se com trocar beijos e sorrisos; mas por fim, quando já Miguel tinha rolado para cima dos lençóis, e depois de encontrarem uma posição confortável – com a cabeça dela no peito dele – começaram de novo a conversar.

“Sabes, meu querido?” disse Marta. “De que é que eu tive vontade? Quando estavas quase a vir-te tive vontade de te pedir que o fizesses na minha boca. Mas depois inibi-me… Porque é que me inibi?”

“Hmmmm … não sei … por pudor, talvez; por esse teu pudor lindo. Como tudo em ti é lindo.” Mas também era lindo o impudor daquela confissão. Para Miguel a confissão equivalia quase ao acto; e sentia-se feliz por ser cada vez mais livre de se servir da amante como entendesse, e com o seu pleno aval e acordo. Mas como podia ele, como pode qualquer pessoa ser digna de tamanha confiança? “Meu amor, minha escrava,” disse para si mesmo; e abraçou-se a ela com força.

Pela noite fora ainda fizeram amor mais uma vez; entretanto acariciaram-se, beijaram-se, foram à cozinha e ao quarto de banho, beberam água e sumos de fruta; e conversaram sobre todos os assuntos do mundo. Lá para o fim da pausa, no momento em que os corpos lhes recomeçavam a despertar, Miguel ainda disse a Marta que ainda tinha, em Heidelberg, a vergasta que ela lhe tinha oferecido, e que um dia havia de a trazer. Não porque tivesse qualquer prazer em causar-lhe dor – mas porque, tendo sobre ela todos os direitos, tinha também o de a castigar fisicamente; e um direito como este só existe se for realmente exercido. Marta, abraçada a ele, ouvia-o; e sem dizer nada apertou-o ainda mais nos braços, como se com esse abraço quisesse proteger-se, ou protegê-lo.

Quando se levantaram, ia alta a manhã, Marta vestiu o robe e num movimento quase instintivo procurou os chinelos que tinha deixado aos pés da cama. Mas Miguel fez-lhe sinal que não. Não era a primeira vez que ele a proibia de se calçar; mas pela primeira vez desde a sua chegada a Brugges obedeceu-lhe sem relutância. Não se calçou nem mesmo para lhe preparar e servir o pequeno almoço, apesar dos ladrilhos frios que revestiam o chão da cozinha. Depois tomou banho e vestiu-se: blusa branca de seda; saia preta, rodada, de algodão indiano, suficientemente comprida para lhe cobrir os pés nus; arrecadas de ouro nas orelhas. Só pôs meias e sapatos quando chegou o momento de o levar ao comboio.

No cais, ao dizer-lhe adeus, Miguel chamou-lhe “minha escrava de amor”; e a ela, a quem a palavra escrava nunca tinha deixado de doer um pouco, desta vez não lhe doeu. “Adeus, meu senhor,” respondeu sorrindo. E assim que o viu entrar na carruagem virou as costas e afastou-se, para não prolongar a despedida.

(Publicado a 18/01/06)

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Me perdoe
Se o quadradismo de meus versos
Vai de encontro aos intelectos
Que não usam coração
Como expressão
.

Vinícius de Moraes

kn-11-lA verdadeira história de Mariana e Miguel só começou vinte anos depois de Marta e ele se terem conhecido em Coimbra, onde frequentavam o mesmo curso na Universidade.

Nesse tempo tanto um como outro tinham outros amores. Ao de Marta tinham-lhe os pais, professores de Grego no liceu, posto o nome de Ulisses. Era um jovem atlético, musculoso, com lábios sensuais e longas pestanas, que impunha a todos os lugares em que se encontrasse uma presença carnal e morna. A pele era macia e acetinada, e tinha uma cor de pão ligeiramente torrado; e numa época em que quase todos os rapazes usavam barbas e bigodes, Ulisses apresentava-se perfeitamente escanhoado, a sombra azul da barba misturada com o corado saudável da face. Tinha sempre raparigas à sua volta; e a robustez física de que fazia alarde alargava-se – pelo menos a acreditar nas confidências que ele próprio fazia, indiscriminadamente, a amigos e amigas, – à firmeza e às dimensões do membro viril.

E contudo havia alguma coisa de ambíguo, de demasiado óbvio, na sua virilidade. Uma parte de Marta achava-o demasiadamente belo, demasiadamente sensual e seguro de si; e muitos anos mais tarde havia de dizer a Miguel, numa noite de insónia e reminiscência: “Sim, o Ulisses era bonito; mas olha que tu também eras; já nessa altura eras um bonito homem.”

Depois de Coimbra, Marta tinha mantido contacto com Ulisses durante o tempo suficiente para assistir à sua decadência física e moral; mas Miguel, que nunca mais o tinha visto, lembrava-se apenas do jovem que podia ter servido de modelo a Louis David. Marta achava isto um disparate; mas Miguel achava Ulisses parecido com o guerreiro nu, em primeiro plano no quadro, que segurava um dardo nas pontas dos dedos, delicadamente, como se o sangue e o suor da guerra, a paixão das mulheres, lhe fossem de todo alheias.

Ulisses era, além do mais, requintado; e era-o mais do que convém quando se tem vinte anos. Sabia escolher um vinho, um filme, uma mulher, e nunca lhe faltava a palavra certa para exprimir o seu desdém pelas imperfeições dos outros; fossem estas de inteligência, de maneiras, de gosto, ou – as mais imperdoáveis – de beleza física. As farpas que atirava tinham por alvo os ingénuos, os mal vestidos, os desajeitados, os feios; e lançava-as com a leveza de quem não dá importância às feridas que provoca, mas só à elegância do lançamento.

A relação de Marta com Ulisses não durou muito tempo, nem deixou nela marcas profundas. Marta nunca chegou a ter grandes ilusões acerca do namorado, e cedo se apercebeu dos seus defeitos maiores: vaidade, superficialidade, preguiça, hedonismo. Quanto a ela, só o seu sentido de humor e a sua ausência de vaidade lhe permitiram suportar por algum tempo a displicência com que ele a tratava. Falta de vaidade, porém, não implica falta de dignidade ou de amor-próprio, e o namoro acabou por se esgotar sem ruído e sem recriminações, por desinteresse recíproco.

Diferente era a relação de Miguel com a Lena: uma paixão escancarada pelas ruelas da Alta. Quem os conhecia conhecia-os juntos, a Lena e o Miguel. Lena – como de resto também Miguel – era uma estrela menor no pequeno firmamento da Faculdade: se não pela beleza, como Ulisses, pelo êxito académico e pela panache intelectual.

Nem Miguel nem Marta eram promíscuos por natureza, e não se sentiam especialmente atraídos pela ideia de trair os respectivos parceiros. Mas a época era avessa a compromissos sentimentais; e nos meios em que se moviam a liberdade de costumes era uma forma indispensável de afirmação política, e só o ciume era tabu. Miguel tinha com Lena longas conversas a este respeito, das quais concluíam sempre que nenhum dos dois tinha o direito de usufruir do outro em exclusivo. Quanto a Marta, não precisou de discutir o assunto com Ulisses: bastou-lhe assistir à sucessão de casos em que ele se foi envolvendo, quase semana a semana, enquanto mantinha a sua ligação com ela.

Enquanto Lena e Ulisses se espalhavam pelo mundo no exercício da sua liberdade, Marta e Miguel ficavam entregues a si mesmos, e cada vez mais um ao outro. Estudavam juntos, conversavam, passeavam, e um dia, inevitavelmente, naturalmente, sem se interrogarem demasiado sobre o sentimento que os unia, foram para a cama juntos. Depois fizeram-no outra vez, e outra; e apesar de os seus encontros nunca terem passado de esporádicos, foi nessa altura que começaram a conhecer-se e talvez a amar-se.

Entretanto terminaram os cursos. Começaram a trabalhar. Viajaram. Depois, cada um para seu lado, casaram; encontraram-se ainda algumas vezes, e acabaram por se perder de vista.

Quando voltaram a encontrar-se – para um almoço, uma reunião de curso convocada por um antigo condiscípulo – tinham já filhos crescidos; e no momento em que se viram todo o seu passado desabou de súbito sobre eles: tanto o que realmente fora como, e não com menos peso, o que poderia ter sido. É de espantar que ao sentarem-se à mesa lado a lado, e só poderia ter sido lado a lado, não tivesse saltado entre os dois uma chispa de paixão, ofuscando os restantes convivas. Nesse dia trocaram endereços.

Mais tarde encontraram-se, em Coimbra. Era no Verão. Marta levava um vestido decotado, todo às flores, e Miguel pensou que ela não trazia soutien. Almoçaram frugalmente num restaurante perto da Universidade e foram sentar-se no jardim da Sereia, num banco entre as árvores. Falaram do passado, da profissão, das famílias, dos filhos. Tocaram-se nas mãos, olharam-se nos olhos. Depois desceu sobre eles um silêncio: não de embaraço, mas de expectativa. O Verão ia muito seco, mas dentro do jardim as árvores estavam carregadas de sombras e a fonte barroca desfazia-se sob os líquenes que lhe comiam a pedra. O banco de madeira começava a decompor-se; e tudo ressumava a mesma humidade, discreta como um choro contido.

“Agora vou-te beijar,” disse Miguel, de súbito.

Assim que ele a abraçou, sem hesitação nem timidez, Marta reconheceu-lhe o toque das mãos; e era o mesmo de há vinte anos, leve como o de quem não põe limites à ternura, ou firme e assertivo, como quem naturalmente se assenhoreia do que é seu.

Abraçaram-se até doer, beijando-se no banco do jardim como um par de jovens namorados. Beijos na boca, prolongados ou breves, copiosos, nos olhos, na face, nos lábios: como se na eternidade deste momento nada mais fosse necessário para os contentar do que estes abraços e estes beijos. Beijos em grinalda, disseram, quando foi preciso dizer alguma coisa. Beijos em cascata. Depois foram passear para o Jardim Botânico, que não é longe, e que também é poiso de namorados; e aí, sentados noutro banco, falaram dos seus amores de juventude: de como já nessa altura a sua primeira fome era sempre de beijos, de como a sua intimidade era entremeada de ficções e fantasias.

“Uma das coisas que me lembro mais vezes são as histórias que tu me contavas,” disse Marta. “Tantas histórias. E eu fascinada a ouvir-te. Raparigas orientais, sultões e haréns, sedas, perfumes…”

“Histórias de senhores e escravas, se bem me lembro. E essas coisas, sabes, ainda hoje me dizem muito.

”Eu sei,” disse Marta, e abraçou-se de novo a ele. Tinham sido jovens naquele tempo, e agora que voltavam a encontrar-se o que tinham diante de si era o começo da velhice.

Depois, num impulso, quiseram ir à praia. Uma das propensões que ambos conservavam desde a juventude era a de adoradores do sol – capazes, já no princípio dos anos setenta, quando em Portugal ainda não se falava de nudismo como prática viável, de caminhar quilómetros ao longo da costa para exporem o corpo todo aos raios solares. Tanto um como o outro sentiam, sem que o soubessem exprimir ou disso fizessem grande caso, que qualquer vestuário que se use, por reduzido que seja, nos domínios do sol, do mar e do vento, profana sempre qualquer coisa de sagrado.

Meteram-se no carro e foram para a Figueira da Foz. Durante o trajecto Mariana não parou de tocar em Miguel, de lhe pegar na mão ou, se ele se soltava para conduzir, de lhe acariciar o joelho e a coxa. Atravessaram a cidade sem parar, subiram a serra da Boa-Viagem, e no caminho encontraram uma vereda que levava à praia. Só à chegada se deram conta de uma dificuldade: no porta-bagagens havia uma toalha esquecida, mas nem um nem outro tinham trazido fato de banho. Tiveram por isso que caminhar por muito tempo sobre a areia mole até encontrarem um recanto onde pudessem ficar à vontade. Marta estendeu-se ao sol, vestida apenas com as suas cuequinhas brancas de renda, e Miguel, que ao princípio conservara os shorts de algodão, acabou depois por tirá-los e ficar nu. Conversaram e beijaram-se, tomaram-se do sol, e acariciaram-se; mas não fizeram amor – a não ser que já esteja a fazer amor quem mata uma fome antiga de beijos e carícias. Não tinha sido ainda para isso que se tinham encontrado: não precisaram de palavras para o saber.

O caminho de regresso pela areia mole deixou-os exaustos. Quando estavam quase a chegar à vereda que os havia de levar ao carro Miguel deu por falta dos sapatos e teve de voltar atrás por eles. Não tinham levado nem uma garrafa de água: quando voltaram ao carro aquecido pelo sol estavam desidratados; e quando quiseram rir-se de si mesmos e da sua pequena aventura no deserto, a voz e o riso sairam-lhes da garganta como um murmúrio ressequido.

Num café à beira da estrada beberam água a grandes goles e os corpos, hidratados, puderam de novo produzir a necessária porção de suor e lágrimas e saliva. Agora podiam falar, e talvez ocasionalmente, conforme as palavras ditas, ver nos olhos um do outro um ressumar de lágrimas. Foi a partir desse momento que souberam com certeza absoluta que no encontro seguinte se iam tornar amantes.

E com efeito: mais tarde, quando a época balnear já tinha passado, passaram um fim de semana na praia. Não tiveram dificuldade em alugar um apartamento com vista para o mar. De manhã e ao fim da tarde já fazia frio, e a maior parte das lojas e cafés estavam fechados. As horas de sol passavam-nas na areia, na praia mais deserta que puderam encontrar. Desta vez tinham trazido fatos de banho mas o adiantado da época permitiu-lhes ficar nus, abrigados numa reentrância da areia. Nunca pararam de se beijar, como se com esta infinita sucessão de beijos pudessem recuperar o tempo que tinham passado longe um do outro. É por vezes assim que se mitiga o choro no peito antes que chegue aos olhos: talvez proviesse daí o sufoco, a vertigem, o esvaimento desses beijos.

Comeram iogurtes, fruta e sanduiches, que Marta preparou na altura. Numa garrafa traziam a água que lhes serviu para beber e para lavar as mãos. Enlaçaram-se em cima da toalha, ele por cima, penetrando-a com alguma dificuldade enquanto lhe beijava a boca; e entremearam as carícias com risos e gracejos, exorcisando o desconforto do lugar, a areia que se insinuava por todos o lados, a possibilidade de serem surpreendidos por algum passante inocente ou voyeur experimentado, e exibindo um ao outro, com alguma melancolia, as marcas que a idade já lhes ia deixando nos corpos.

No apartamento tomaram duche um de cada vez, pudicamente. Marta vestiu o seu roupão de cetim branco e calçou uns chinelos do mesmo tecido. Depois de comerem ficaram algum tempo à conversa diante do televisor. Deitaram-se como um casal com anos de convívio, ela em camisa de noite, os chinelos arrumados ao lado da cama, ele em pijama às riscas. O visível prazer que encontravam nesta pacatez partilhada despertou-lhes de novo o riso: os dois namorados aventurosos que se tinham enlaçado na praia deserta revelavam-se afinal dois velhos amantes ciosos do seu conforto. “Meu amor quarentão,” dizia Marta. “Meu amante serôdio.”

Depois abraçaram-se, colaram a boca um à do outro, e começaram mais uma das intermináveis séries de beijos de que nunca, mesmo anos depois, haviam de se cansar. Das bocas e das faces os beijos passaram aos corpos. A camisa de noite de Marta tinha botões à frente; Miguel abriu-os para lhe beijar os seios. Os mamilos eram de um cor-de-rosa escuro e tinham a falsa transparência das framboesas que ela lhe tinha servido de tarde, na praia. As mãos dele percorriam-lhe o corpo, devassando-lhe os seios, as coxas e as nádegas com a mesma liberdade insolente de havia vinte anos.

Quando a camisa de noite se tornou um empecilho Marta tirou-a por sobre a cabeça. Depois foi a vez das roupas dele; e quando se encontraram os dois despidos puxaram os lençóis de novo para cima, num estranho acesso de pudor; como se não tivessem estado também nus na praia, poucas horas antes, à vista de quem passasse. E também esta inconsistência lhes foi ocasião de riso: riam-se de si próprios, das suas fragilidades, das histórias absurdas que inventavam a propósito dos incidentes do dia.

Debaixo das roupas da cama Miguel inclinou-se sobre ela. Marta enterneceu-se quando ele a cobriu com o lençol, como que para a proteger da devassa dos seus próprios olhos. Sob a carícia dele sentiu que as coxas se lhe começavam a afastar como se tivessem vontade própria; mas durante muito tempo tudo o que ele fez foi beijá-la, de novo na boca e nos seios, mas agora também nas coxas e no ventre e por fim, deliciosamente, no sexo. Timidamente, aflorou-lhe ela também com os lábios a ponta do pénis, como lhe tinha feito apenas uma vez no tempo dos seus amores juvenis; mas Miguel, concentrado em beijá-la, mal pareceu aperceber-se de como ela lhe retribuía a carícia.

Marta começou a mover-lhe os lábios ao longo do sexo, a explorar-lhe a glande com a ponta da língua. À medida que a sua própria excitação progredia ia-se sentindo mais afoita, e queria ouvi-lo gemer como ela própria não se conseguia impedir de o fazer. Finalmente sentiu-o reagir: da cabeça que se lhe aninhava entre as coxas subiu-lhe até aos ouvidos um gemido que lhe pareceu meio de prazer, meio de protesto, e aquele beijo dele, tão sábio e tão firme, transformou-se numa carícia vaga e trôpega, como se a boca com que lhe explorava as dobras do sexo tivesse perdido o norte, embriagada, distraída.

Subitamente Miguel estendeu-se por cima dela e procurou-lhe a boca. Marta não tinha muita vontade de provar nos lábios do amante os sabores do seu próprio corpo; mas não teve tempo nem presença de espírito para recusar o beijo que ele lhe pedia, agora que lhe sentia o falo erecto e urgente às portas da vagina, penetrando-a de um movimento só. Miguel estava apoiado sobre os cotovelos e sorria-lhe; por vezes baixava a cabeça para lhe beijar a boca, ou desviava-lhe o cabelo dos olhos e da face, desejoso de a olhar. Quando quis penetrá-la mais fundo, passou-lhe os braços por detrás dos joelhos e ergueu-lhos quase até aos ombros, batendo o ventre contra o dela, trás, trás, trás, com um ruído seco de palmadas. E depois, quando precisou de descansar os braços e se lhe deitou todo estendido sobre o corpo suado, o ruído dos embates mudou, platch, platch, platch, como quem bate com a mão aberta num pano encharcado.

De repente Miguel saiu de dentro dela. “Anda tu por cima, agora.”

Por um minuto Marta gozou a sensação de ter o amante imobilizado; mas depois também teve prazer no movimento que ele começou a fazer para cima com os quadris, num vai-vem que era amplo e vigoroso e contudo não lhe retirava a ela o domínio dos seus próprios movimentos. Sentiu que ele a puxava para si, mas libertou-se-lhe do abraço e foi-se levantando a pouco e pouco até ficar sentada sobre ele.

O que Marta mais desejava neste momento era inclinar-se toda para trás, vergando para baixo o pénis do amante de modo a senti-lo duro e firme no ponto exacto em que o queria. Mas viu-lhe o trejeito de dor, ouviu-lhe o “não” murmurado e sentiu-lhe as mãos na cintura, puxando-a, impedindo-a de se inclinar mais para trás do que já estava; e para se compensar desta limitação redobrou a rapidez e o vigor com que o cavalgava, mais rápido, mais forte, mais fundo.

E Miguel, o que sentia ele? Antes de mais uma dor, o pénis erecto demais, repuxado para baixo como um ramo de árvore prestes a quebrar-se; mas sentia também, nos quadris, uma vontade urgente de soltar o corpo e o ventre até que se tornassem independentes da mente e da vontade; e finalmente, nas mais duras e mais fundas raízes do corpo, os chamamentos de um orgasmo que se lhe anunciava do lado de lá da dor e do desconforto. Da dor que o obstruía, que se lhe antepunha, que era preciso que terminasse. E o que ele ouvia eram os suspiros e os arquejos de Marta, e os seus próprios, os sons dos corpos batendo um no outro, as palavras desconexas, meu amor, minha querida, assim, assim é bom. E também os carros na rua, as ondas no mar, o vento nas janelas, e tudo isto se integrava, por uma alquimia inexplicável, nos sons do amor e do prazer.

Mas o que Miguel via, o que ele via nesta hora prodigiosa, era uma imagem de beleza absoluta: sentada sobre ele, cavalgando-o como uma amazona furiosa, a cintura fina, o ventre liso, os seios juvenis raiados de veias azuladas, Marta tinha inclinado para trás a cabeça. Os cabelos negros, desgrenhados como os de uma feiticeira, combinavam-se com o preto das sobrancelhas e das pestanas para lhe endurecer os traços do rosto, e era um rosto de índia, de matriarca; um totem, uma máscara africana. E via-lhe ainda, maravilhado, a boca meio aberta num ricto de sofrimento; os olhos fechados num esforço de concentração; os dois vincos fundos, como parêntesis, dos dois lados da boca; o rubor que lhe tingia as faces e o pescoço do mesmo cor-de-rosa escuro dos mamilos.

Do pescoço sobressaía-lhe o cordame reteso dos tendões e das veias. Miguel teve a certeza de que nunca em toda a história do mundo uma mulher tinha sido tão perfeitamente bela como Marta no momento do prazer; e viu na imagem que tinha diante dos olhos a justificação da sua própria existência neste momento. A dor que o desexcitava, a certeza de estar cada vez mais longe do orgasmo que o corpo há tão longos minutos lhe pedia, nada disso tinha importância comparado com a contemplação que desejaria eterna deste corpo, destes seios, deste rosto de deusa agonizante. Quis largar-lhe a cintura, deixá-la inclinar-se para trás à sua vontade; mas não conseguiu, não era possível, a dor ia acabar por torná-lo flácido, tão incapaz de ter prazer como de o dar à amante. Para se manter erecto abraçou-a; depois puxou-a para si até lhe sentir os seios sobre o peito e rolou para cima dela sem a largar.

Marta não teve orgasmo; teve-o Miguel, tanto mais intenso quanto mais difícil e mais dolorosamente perseguido. Os primeiros gemidos com que o prazer dele se anunciou pareceram de aflição aos ouvidos de Marta; mas o que se lhes seguiu foi um rugido, um grito exultante como ela nunca tinha ouvido a nenhum outro homem com quem tivesse feito amor; e no momento em que ele se lhe desfez em sémen dentro da vagina também a respiração se lhe desfez num riso solto, meu amor meu amor minha querida, uma girândola festiva de beijos e palavras e suspiros: e Marta viu naquele orgasmo dele, tão solto e confiante, tão bonito, tão mais de mulher que de homem, uma dádiva e uma entrega.

Por vezes o melhor é quando dois amantes se reencontram na cama, frescos do duche, lassos do amor, para conversar enquanto o sono não vem. A conversa de travesseiro serviu para falarem de amor, o que na circunstância queria dizer falar de sexo: o que cada um já tinha feito, o que gostaria ou não se importaria de fazer um dia, o que não faria de maneira nenhuma. E foi também durante esta conversa que ficaram delineadas as primeiras das ficções com que ao longo do tempo haviam de se explicar um ao outro: trovador e castelã, édipo e esfinge, cavaleiro e rainha, chefe bárbaro e princesa cativa; e ainda guru e feiticeira, dois velhos mirrados, meio bruxos, procurando conchas numa praia tropical; mas também desde já, e sobretudo, e sempre, Senhor e escrava.

Mas não foi ainda desta vez que inventaram Mariana. Adormeceram falando, que é o mais delicioso dos adormecimentos para amantes apaixonados. Acordaram a meio da noite para que os corpos se unissem de novo; e quando ela se deitou por cima dele na escuridão, beijando-o ternamente, deixando que os cabelos lhe caissem sobre o rosto, a imagem que Miguel teve dela foi a de horas antes, plantada sobre ele, majestosa, totémica, agonizante de esforço. Como se uma árvore poderosa, a Árvore do Mundo, Yggdrasil, estivesse misturando as suas raízes com as dele.

“Sim, minha rainha. Minha deusa. Goza. Goza muito. Goza tudo. Se soubesses como és bela no prazer!” E ao dizer isto sentiu um choro que não era de amargura avolumar-se-lhe no peito, porque as meras palavras não podiam fazer ver à amante a completa verdade da visão que o dominava. Durante todo o tempo não cessou de lhe murmurar palavras de amor e homenagem, deusa, castelã, rainha.

Marta ouvia-lhe estas palavras mais com o coração do que com os ouvidos, que lhe iam ficando surdos aos meros ruídos do mundo; e embora elas lhe enchessem o peito de um éter subtil que a embriagava; e lhe fizessem correr o sangue com mais força, e lhe endoidassem os quadris, não a distraíram tanto que a não deixassem ver a fragilidade exposta com que o amante neste momento se lhe mostrava.

Ninguém tem o direito de se entregar assim a alguém, pensou, eu agora se quisesse podia magoá-lo terrivelmente, podia destruí-lo. E comparou-o com os animais, os gatos e os cães que temos em casa para nosso prazer e companhia. Os animais, esses, olham para nós sem saber que está nas nossas mãos alimentá-los ou bater-lhes, acarinhá-los ou abandoná-los; mas uma pessoa, um ser humano, tem o dever de saber tudo isso, e de se precaver. Foi por isso com um laivo de irritação, mas também com a mais escrupulosa doçura, que Marta possuiu o corpo de Miguel, naquela noite em que se debruçou sobre ele, cobrindo-o todo com os seios e os cabelos.

“Dá-me, dá-me tudo,” disse-lhe, abraçando-o com força. Miguel abriu muito os olhos, encheu o peito com uma golfada de ar, e soltou um longo gemido que a ela lhe soou tão aflito como exultante; e Marta sentiu a ejaculação que a inundava. Mas desta vez o orgasmo maior, o climax de espanto e maravilha, foi o dela, gritado ao mundo sem cuidar que atravessasse paredes, despertasse pássaros, alarmasse vizinhos.

Quando Miguel a beijou encontrou-lhe o rosto molhado. Acendeu a luz, alarmado, e viu que chorava, um choro discreto que lhe corria pelo o rosto sem lho deformar. Os olhos não lhos viu vermelhos, nem as feições distorcidas, apenas um pequeno sorriso entre lágrimas. Sentiu que ela lhe escondia a cara no ombro, molhando-lho também, e tremendo um pouco. Depois o tremor passou. Miguel abraçou-a com força, sem falar, e pôs-se a entristecer ao lado dela, até que o sono os consolou, e o sol da manhã os alegrou de novo.

(Publicado no Blogger a 18/12/05)

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Dedicado à Eva, à Ró e à Kris, três Mulheres superiores.

Allegro con brio

“Eu agora era o Gino”.

Marta não pôde deixar de sorrir com a formulação escolhida pelo amante, mais própria das brincadeiras infantis do que do jogo de amor a que neste momento se entregavam. Gino era um dos papéis que Miguel gostava de representar quando faziam amor: um jovenzinho sedutor, mediterrâ­nico na compleição, um efebo trigueiro, delicado de ossos mas com a musculação bem definida de um atleta. Nada disto, é claro, tinha grande seme­lhança com o corpo real deste quarentão já um pouco pesado que se debruçava sobre ela, sorrindo-lhe: mas os gestos do adolescente estavam lá todos, os modos, as infle­xões de voz. Marta não teve dificuldade em ver Miguel tal como ele se lhe propunha à imaginação: os olhos e os cabelos muito pretos e brilhantes sobre a pele tisnada, os cí­lios longos, femininos, o sorriso impudente. E imaginou-o noutros tempos, sob um sol siciliano ou grego, coroado de louros, triunfante no dardo e na corrida: que prémio lhe poderia ela dar senão o seu próprio corpo de mulher madura?

Estavam os dois num pinhal à beira-mar. Para lá chegar tinham percorrido de carro um longo caminho de terra batida. À distância conseguiam ouvir o marulhas das ondas na praia semi-deserta, frequentada apenas por alguns raros pescadores; mas aqui entre as árvores não havia o perigo de serem surpreendidos, e gozavam o luxo de se estenderem nus ao sol, sobre a areia das dunas. A areia estava entremeada de ramos secos, aguçados, e de plantas espinhosas; e Marta, que mesmo nua calçava as sandálias quando precisava de se deslocar uns metros, admirava-se da inconsciência com que Gino caminhava descalço entre os espinhos. Que as roupas se lhes enchessem de palhas e pólen pouco a incomodava, ou a ele. Uma vez tinham chegado a ir à ópera depois de passarem a tarde na mata; e se ela, que morava em Lisboa, tinha podido passar por casa para mudar de roupa, ele tinha ido com as mesmas calças desportivas e o mesmo blusão com que se tinha deitado na erva.

Entre as árvores que rodeavam a clareira havia dois ou três pinheiros mansos, e dos arbustos desprendia-se um perfume agreste que poderia bem ter sido o mesmo quatro mil anos antes: e nus como estavam, sem roupas que os situassem na História, quem os poderia distinguir de um outro par de amantes que milénios antes tivesse procurado o mesmo lugar? Até a comida que tinham trazido com eles poderia ter alimentado esse outro par: pão escuro de trigo, queijo de cabra, uvas passas, vinho tinto, mel.

Assim como Gino era fisicamente diferente de Miguel, também Marta se sentia diferente na sua presença. O seu pequeno corpo grácil e delicado, fino e flexível na cintura, doce e arredondado nas linhas da silhueta, parecia tornar-se-lhe seco e anguloso como o de uma sibila na sua caverna; e o rosto expressivo parecia-lhe endurecido como o de quem passou toda a vida na praia, mulher e mãe de marinheiros, augurando naufrágios.

Gino era egoísta e sôfrego no amor; quando ele a abraçou Marta preparou-se para a sua investida de jovem macho, “espera, espera um pouco, deixa-me pôr esta toalha por baixo,” e ele, “sim, amor, sim,” mas sempre o sexo erecto como um aríete a bater-lhe às portas do corpo, uma cega cabeça de carneiro a exigir entrada. E estes cegos embates, afinal, ao lado, em cima, em baixo; o breve momento de pânico ao senti-los próximos da outra entrada, “não, por aí não, por aí não quero”; os pequenos lábios do sexo esmagados como pétalas, os pelos repuxados – afinal estes embates, e depois a abrupta transposição de um umbral ainda meio seco, impreparado, e por via desta impreparação tão definido como o hímen de uma virgem; os embates cegos, o abrupto romper por ela adentro como uma nova desfloração; toda esta refrega inábil acabava sempre afinal por dar lugar a um deslizar tão macio e tão suave como a mais macia penetração pelo mais suave dos amantes. Virginação e desvirginação no mesmo acto.

Ei-lo agora, Gino, já dentro de Marta, indo e vindo nela sem impedimento nem atrito. O cabelo revolto é nele o que mais invoca o adolescente, e precisa de ser cortado: já faz caracóis na nuca e sobre as orelhas, e algumas madeixas desordenadas colam-se-lhe à testa com o suor. Com um gesto terno Marta acaricia-lhe a face, num convite mudo a que descanse um pouco: que lhe pouse a cabeça sobre os seios, que modere o ímpeto. Depois ajeita o corpo debaixo do dele, flecte os joelhos, planta os pés no chão e prepara-se para encontrar em si própria, na sua resistência ao embate, o espírito do êxtase; já que não será ele, decerto, amante inábil e sôfrego, a fazê-lo descer sobre os dois.

Sempre que Miguel se lhe representa sob a forma de Gino Marta sabe que lhe compete a ela assegurar o seu próprio prazer. Para Gino, encontrar-se dentro dela, por cima dela, face a face, é maravilha suficiente e sempre nova; e não lhe ocorre que esta simples, maravilhosa circunstância a possa deslumbrar menos do que a ele. Mas este entusiasmo ingénuo é o que o torna querido ao coração de Marta. Na sofreguidão de Gino, no suspiro triunfal com que se lhe acolhe ao corpo, sente Marta a devoção de um jovem acólito pela Deusa longamente desejada.

Gino não é um homem do mundo; não tem no amor o apuro que num homem do mundo é afeição e respeito, mas também frieza e cálculo. Um amante mais experiente seria capaz de gerir tempos e ritmos, posições e ângulos de ataque, com sabedoria e crueldade, num jogo de dádiva e negação que lhe prolongasse o prazer e lho tornasse, à míngua de desenlace assegurado, insuportável. Mas de tais refinamentos contaremos mais tarde: em Gino seriam deslocados e talvez obscenos.

Marta não queria que o amante tivesse um orgasmo demasiado rápido, e sabia que fizesse ela o que fizesse o pénis que com tanta sofreguidão lhe procurava o fundo do corpo se manteria firme e erecto, ligeiramente curvado para cima, reteso e duro como o dum adolescente. Podia mudar de posição, ajeitar o corpo como entendesse, que ele seguir-lhe-ia sempre os movimentos e permaneceria dentro dela, cravado nela, inextricável. Por exemplo: um movimento das nádegas para trás, um recuo, um retrair do ventre, e Gino já não consegue penetrá-la tão fundo como quer. A pressão maior faz-se agora sobre a entrada da vagina e o movimento faz-se agora ao longo dos pequenos lábios, roçando-lhe o clitóris. Só falta segurá-lo, impedi-lo de recuperar aquele outro ângulo de ataque que lhe pede o desejo imaturo.

Marta vê perpassar na expressão do amante um trejeito de contrariedade: ainda bem, desexcitou-se um pouco, retardou o orgasmo. Para se fazer perdoar, beija-lhe a boca, e remexe-lhe o cabelo como a um miúdo travesso. Depois deixa de tentar controlá-lo: vem-lhe o orgasmo, explosão incerta, e já não lhe é possível saber o que é liberdade e o que é restrição nos movimentos dele. Livre de toda a referência à areia, ao mar, ao mundo, o ventre de Marta não é agora mais do que o lugar virtual de todas as posições que o sexo de Gino poderá ocupar no seu vai-vem frenético. Eis Marta perfeitamente móvel, já que nenhum constrangimento a detém; perfeitamente imóvel, já que nenhuma força a propele; ei-la em liberdade. Agora dá-se toda ao amante, que livremente a penetra, como quer, até onde quer, e se esvai nela em prazer e em riso, como um fauno à solta, triunfante.

Andante – Scherzo

Mas um gesto basta, uma palavra, um capricho, uma subtil modulação no estado de espírito dos amantes, ou então uma mudança de cenário, para que Gino desapareça e em seu lugar surja um dos outros: Baltazar, por exemplo. Num quarto de hotel, claro e arejado. Sentado como um Buda na poltrona ao lado da cama, fresco do duche, cheirando a água de Colónia, a pele amaciada com cremes, calçado com chinelos de pelica e envolto num largo roupão vermelho e branco, Baltazar assiste à actividade doméstica de Marta, que se move pelo quarto arrumando roupas, alisando a cama.

Neste papel Miguel representa-se gordo e meio calvo, um sibarita polido que nunca se esquece de lhe beijar a mão. A pele bronzeada, lisa, esticada como que por uma pressão interior, tem a cor e o brilho discreto do couro antigo. No Miguel dos outros dias a gordura é apenas sugerida pela ligeira curva da barriga: mas este pouco basta para que Marta, de si magra e graciosa, consiga visualizar as largas pregas de carne, a vastidão da pele de Baltazar. Marta habita um mundo onde a magreza e a forma física são de rigor; e custa-lhe a admitir a correspondência metafórica entre a compleição física de Baltazar e uma qualquer faceta real da personalidade de Miguel. Mas na sua repulsa há também fascínio, e de resto Baltazar é tudo menos grosseiro: o corpo está sempre macio e perfumado, os cabelos aparados, as unhas arranjadas. Não se trata aqui de desleixo, mas de uma sensualidade inerte que radica na presença insolente da carne. Junto dele Marta sente-se mais alta, mais esguia, quase sem seios, a pele da face repuxada sobre os ossos: como se lhe competisse a ela compensar com uma magreza de manequim a corporalidade insolente do amante.

As mãos de Baltazar emergem-lhe das mangas enormes, de mandarim. No corpo redondo e sem pelos, na quietude perfeita, há qualquer coisa de oriental; mas Marta associa-o mais a uma certa ideia que tem de Itália, de Roma, do Vaticano. Às vezes trata-o por Monsignore ou Senatore, ou traduz-lhe o nome para Baldassare.

O amante faz-lhe sinal para que se aproxime; depois beija-lhe a mão polidamente e pede-lhe com um gesto que lhe acaricie o peito glabro em que a gordura fez crescer dois seios quase femininos na forma e no tamanho. Marta começa por se despir e descalçar; o roupão e as chinelas de cetim ficam no chão, abandonados. Entreabre-lhe o roupão e começa a beijar-lhe os mamilos de homem, que mesmo erectos mal chegam a sobressair das aréolas; e estas intumescem-se-lhe sob os dedos como pequenas tâmaras castanhas. Baltazar inicia então um jogo de imitação que consiste em retribuir à amante todas as carícias, uma a uma, gesto a gesto. Marta entra no jogo, e procura no corpo dele todas as partes onde quer ser acariciada; e como cada gesto seu é fielmente reflectido nos dele, acaba por ter a sensação de estar a acariciar-se a si mesma por interposta pessoa. Afaga-lhe e beija-lhe os mamilos, e em resposta sente-lhe os dedos curtos nas pontas dos seios, e depois os lábios sinuosos, sensuais. Para melhor o acariciar senta-se-lhe ao colo; põe-lhe a mão na cintura; depois desce-lhe à curva da anca: sob a pequena mão de Marta o flanco de Baltazar é uma massa de carne elástica e consistente, que só uma larga carícia permite abarcar em toda a superfície. A textura e a firmeza da pele fazem lembrar a Marta os luxuosos sofás de couro nos clubes ingleses; e por um momento tem a fantasia de estar num desses sofás, toda nua, embebendo-o com os fluidos que lhe começam a escorrer do corpo.

É ela que o puxa para a cama. O jogo de representações a que se entregam é tão sugestivo que se Miguel, no papel de Baltazar, se deitasse agora por cima de Marta, ela sentir-lhe-ia o peso ficcional como uma realidade física. Com Baltazar é sempre ela que fica por cima, sinuosa, envolvente, ligeira, movendo-se sobre ele em todas as direcções até se lhe empalar no sexo entumescido – mais curto e mais grosso, parece-lhe, e mais escuro, do que o falo nervoso e jovem de Gino. Desta vez, num impulso, sopra-lhe ruidosamente no umbigo, como se faz aos bebés, para os fazer rir. Baltazar exibe uma bela dentadura branca num sorriso; deixa-se acariciar, mimar, despir; e o seu grande corpo nu e sem pelos, de barriga para o ar, todo aos refegos, exprime uma beatitude de bebé satisfeito. Nestas alturas o desejo de Baltazar por ela deixa de ter – pelo menos em comparação com o de Gino – foco, definição, objecto ou urgência; mas nem por isso é menos intenso. A erecção torna-se-lhe menos firme e é a parte superior do corpo que se lhe enrubesce, como a de uma mulher no auge da excitação.

Marta, a quem as mulheres não atraem, tem contudo prazer nesta faceta feminina do amante. A redondeza de Baltazar lembra-lhe a forma esférica, perfeita, do andrógino de Platão. E talvez por isso gosta de fazer amor com ele como as mulheres o fazem – imagina-o ela – umas com as outras. Beija-o, acaricia-o, esfrega-se nele suavemente; e gosta especialmente de roçar levemente o sexo no dele numa carícia que não obriga a nada. Como quem dá um beijo com outros lábios. E com efeito: em casa dos pais de Marta havia uma criada analfabeta que por pudor ou poesia chamava à vagina a boca do corpo. É com os lábios ternos desta boca que Marta aflora a ponta do sexo de Baltazar; mas só por um momento, para não perder o controle e não dar por si a esfregar-se violentamente nele. Para melhor se controlar afasta-se ligeiramente, sem deixar de lhe beijar a face, de lhe acariciar o pescoço e o peito.

Cada um sente ainda no sexo a memória do outro – a memória ainda presente de um outro sexo material e vivo, aquiescente, faminto; e a certeza de que o contacto se restabelecerá em breve transforma o afastamento num prazer mais pungente. Entretanto Marta entrega-se aplicadamente aos beijos, às carícias, debruçada sobre o corpo do amante. Os seios pendem-lhe ternamente sobre a pele bronzeada. E pouco a pouco recomeça a aproximar o sexo do sexo dele. Baltazar é de todos, logo seguido de Jorge, o que mais profusamente a beija quando fazem amor; e Marta tem de novo a sensação de que ele estaria disposto a prolongar indefinidamente o rosário de beijos que lhe dá, de modo a fazer deles, não um preliminar do amor, mas a sua própria substância. E ama-o por isso. Mas não deixa de se dar conta da sua própria excitação, em breve irresistível; e repara também no pénis do amante, ao léu, reteso e virado impudicamente para cima. Como o de um bebé-homem que se prepara para fazer xixi, num arco glorioso e cristalino, no próprio momento em que se lhe muda a fralda. E este ponteiro endurece ou desintumesce ao sabor das carícias que ela lhe faz no peito ou na cara.

Chegou o momento de Marta se deixar penetrar. Por um momento beija o pénis do amante. Só por um ou dois segundos: o prazer de lhe ejacular na boca oferece-o ela algumas vezes aos outros três – por vezes até a Gino, que o aceita com alegria e gratidão – mas nunca a Baltazar. Assim que este sente no sexo a tensão dolorosa de uma erecção completa puxa-a para cima de si e ajeita-a segurando-lhe as ancas, meio agachada. Marta baixa os quadris sobre o falo erecto e começa a executar um movimento de vai-vem que rapidamente ganha em rapidez e amplitude. Mas agora é Baltazar que assume o controlo. À brusquidão sôfrega dos movimentos dela responde ele com um discreto, cruel retraímento, um afastar do corpo que lhe torna os movimentos mais lentos e mais suaves. Não é um movimento débil, pelo contrário: mas a sua força está toda na amplitude, não na rapidez. Marta sente-lhe as mãos nos quadris, sujeitando-a, prendendo-a; e dá largas à sua ânsia num lançar para trás da cabeça, num furioso sacudir dos ombros e dos cabelos, num arquejo impaciente. Se o amante lho permitisse inclinar-se-ia toda para trás, vergando-lhe o pénis dolorosamente para baixo: poderia assim sentir no ponto exacto a forte pressão da glande que o corpo lhe reclama. Baltazar compreende-a bem, mas não lhe faz a vontade. Os olhos, fixos nos dela, estão mais serenos e mais trocistas do que nunca, atentos a todas as expressões de sofrimento ou de gozo.

Marta, que ainda há pouco tratou Gino com a mesma crueldade, acolhe sem protesto esta privação. Mas não sem luta. Suada, macerada, desgrenhada, os cabelos pretos e compridos caídos sobre os olhos; um ricto de esforço na expressão; nos cantos da boca dois vincos de dor ou de prazer; selvagem, concentrada, montada no amante como um apache em guerra, lá vai Marta à desfilada atrás de uma apoteose que tarda, que tarda. A inércia obstinada de Baltazar frustra-a para além do suportável. Sabe muito bem que toda esta contenção tem um objectivo, mas não quer saber de objectivos: quer simplesmente correr até ao fim do fôlego, sem cuidar de saber que género de desenlace vai encontrar na meta; e ele, ele, em vez de se lançar com ela, honestamente, na mesma nobre cavalgada – prossegue, com uma ponderosa determinação que a exaspera, um objectivo.

Um objectivo: a própria palavra é pedestre e vil. O ritmo é, contudo, inexorável, e Marta sente que o seu prazer não vai tardar: há nos movimentos do amante uma força que o convoca, uma força latente. É ela que permite a Baltazar passar-lhe todo o comprimento do pénis pelo clitóris, vagarosamente, sem perder a erecção; e permite-lhe também tocar-lhe na zona da vagina em que ela mais quer ser tocada. Mas só quando entende fazê-lo, e só com a pressão e a duração que entende. Se Marta fosse mulher de dizer impropérios cobriria agora o amante dos piores. Em vez disso chora; e o orgasmo que a assola, quando finalmente vem – convocado só por ele, ordenado só por ele – cai sobre ela como um vasto crepúsculo, enorme e incompreensível como uma calamidade. Como orgasmo é muito mais intenso do que aquele que teria resultado momentos antes, se tal lhe tivesse sido permitido, da sua própria acção; e Marta acolhe-o com um grito prolongado; mas é um grito tanto de revolta como de prazer, e o sorriso com que agradece ao amante não obsta a que lhe molhe o peito com lágrimas de cólera.

Allegro marziale

Gino e Baltazar são seres estivais, muitas vezes suscitados pelo mar ou pela praia. Já Leonardo costuma surgir em ambientes outonais, sugerido às vezes pela chuva lá fora, outras pelo sol dourado de Outubro a entrar no quarto. Leonardo tem afinidades com as adegas de pedra, com o calor das lareiras, com as mesas robustas onde os queijos, os pães e os presuntos despertam apetites saudáveis. Mas também gosta das mesas sensuais que a amante lhe apresenta: mesas requintadas, com vinhos velhos, velas festivas, grandes guardanapos de linho; com morangos, uvas, mirtilos, framboesas; e com foie gras, caviar, champanhe.

Dos amantes virtuais de Marta ele é o que mais raramente se manifesta. Anuncia-se geralmente por uma larga gargalhada, por um atirar para trás da melena, ou por uma ordem peremptória dada num tenor viril – traços estes que nunca deixam de a surpreender porque correspondem, em Miguel, a uma zona habitualmente oculta da sua natureza.

O nome pôs-lho ela num fim de Verão. Tinham combinado ir à praia, à Figueira, mas o tempo ameaçava chuviscos e resolveram antes visitar Conímbriga. Miguel estava de calções e sandálias, revelando as pernas grossas, torneadas. Os pés pareciam tão sólidos como as lages antigas da estrada. “Se em vez de calções trouxesses um daqueles saiotes,” disse-lhe Marta, “serias um perfeito legionário.” E com efeito: com o rosto escanhoado, as pernas nuas, o cinto largo de couro, as grossas sandálias bem assentes no chão, Miguel tinha um ar de militar antigo. Mesmo o cabelo desgrenhado acabava por não destoar: conjugado com um certo gesto muito dele, um atirar para trás da cabeça, tornava-se juba de leão, penacho de guerreiro.

Depois, no quarto do hotel, exigira de imediato vê-la nua; e aceso o desejo, cevara-lho na carne tão prontamente mostrada; e tudo isto sem hesitação, com uma autoridade tão alegre e tão inocente que quaisquer objecções se encontraram desarmadas à partida.

“ O que tu fazes é devassar-me toda. E deitas-te a mim como um leão sobre a presa. Patife. Ainda por cima deixas-me toda excitada,” disse-lhe ela no fim. E mais tarde, deitados os dois a conversar, recapitulando com palavras e risos o amor que acabavam de fazer, o nome tinha surgido de repente:

“É, meu amor: exactamente como um leão. Devias chamar-te… sei lá, Leónidas, Leopoldo… não: Leonardo. Leonardo, o legionário.”

Foi a Leonardo que coube cumprir uma promessa que Miguel fizera a Marta, em Heidelberg. Estavam os dois na cama em casa dele. Tinham feito amor longamente e agora estavam a conversar, cansados e felizes. Ele, que não sabia estar com ela sem lhe tocar, acariciava-lhe a abertura do ânus. “Da próxima vez que estivermos juntos hei-de possuir-te por aqui.” Marta não respondeu. A razão por que ele a queria possuir por trás sabia-a ela, e não podia deixar de estar de acordo: não se tratava tanto do prazer físico que ele pudesse obter, mas sim de deixar claro que nenhuma parte do corpo dela lhe podia estar vedada.

Mas no encontro seguinte, em Brugges, Miguel não cumpriu a promessa. Nem depois, no dia em que tomou formalmente posse dela.

Mas desta vez sim. Era Outono. Ao chegar de Heidelberg entrou no apartamento de Marta com a voz vibrante e a passada firme de Leonardo. Passearam toda a tarde, e quando chegaram casa Marta preparou uma refeição com queijo, fruta, caviar dinamarquês e vinho tinto. O duche tomaram-no juntos. Jantaram sentados aos topos de uma mesa de vidro, embrulhados em robes; e o deslizar do tecido descobria-lhes por vezes, a ela um seio nu, a ele o topo das coxas. O trajo informal contrastava com o requinte da mesa: Marta tinha-se esmerado na escolha das louças e dos talheres, no dispôr das velas e dos guardanapos, no arranjo das flores.

Depois de jantar foram os dois para o sofá; e pouco a pouco, entre beijos e carícias, resvalaram para o tapete do chão. Quase sem notar tinham acabado por ficar nus; e agora colavam-se um ao outro, a todo o comprimento do corpo. O leitor de CD’s tocava o primeiro andamento de “Os Planetas”: Marte, o portador da guerra. As mãos de Leonardo percorriam as costas de Marta da nuca ao fundo das nádegas, devassando-a, e os dedos introduziam-se-lhe entre as coxas, separando-as, espremendo-as; e por fim acariciando-lhe o sexo ao longo dos grandes lábios, dos pequenos lábios, à volta do clitóris.

Os pequenos movimentos suaves e redondos que Marta fazia com os quadris foram-se tornando cada vez mais convulsivos. Leonardo inclinou-se para lhe beijar o sexo; e até nisto era diferente dos outros, de Baltazar por exemplo: enquanto este a titilava com pequenas estocadas da língua, Leonardo sorvia-lhe o clitóris juntamente com uma parte dos pequenos lábios, como se os quisesse beber; e a língua devassava-lhe a taça do sexo, ao longo da vulva, à boca da vagina. Foi assim que Marta se veio, sem um gemido, só com a respiração arquejante e os movimentos sacudidos dos quadris a traír-lhe a turbulência dos sentidos.

Quando Leonardo lhe olhou para a cara viu-lhe os olhos cheios de lágrimas.

“O que tu me fazes,” disse Marta. “As coisas que tu me fazes.”

Sem uma palavra Leonardo começou a beijar-lhe a cara e os olhos, debruçado sobre ela. Já não estavam colados um ao outro; mas Marta sentia-lhe ainda o falo insatisfeito e erecto, passeando-lhe sobre as coxas, sobre o ventre. Assim que o teve ao seu alcance pegou-lhe com as suas pequenas mãos; e sem o largar começou a beijar o corpo do amante, primeiro o peito, os mamilos, depois o ventre ligeiramente arredondado, por fim as coxas. A música continuava a tocar. O primeiro andamento chegara ao fim e um trilar de campaínhas anunciava o segundo: Vénus, o portador da paz.

Quando Marta tomou na boca o sexo do amante sentiu mais uma vez como mudavam as carícias que ele lhe fazia com as mãos. De firmes e determinadas – carícias de Leonardo, mãos de dono – tormavam-se agora hesitantes; e no suspiro que acompanhou esta mudança ia todo um mundo de rendição e de abandono. Durante muito tempo continuou a beijá-lo, a chupá-lo, disposta a retribuir o prazer que ele lhe tinha dado. Mas ao fim de algum tempo sentiu que o pénis se lhe tornava menos duro e que ele a puxava pelos ombros: “Anda cá.”

De novo colados um ao outro, coxas contra coxas, os seios dela contra o peito dele, a mão de Leonardo veio insinuar-se-lhe por entre as pernas, acariciar-lhe o sexo, o rego entre as coxas, e por fim, por longos minutos, insistentemente, o ânus. Mão de dono, de novo. “Quando estiveste em Heidelberg prometi-te que te havia de possuir por aqui,” disse-lhe ele num murmúrio rouco. “Vai ser agora. Se consentires.”

Marta escondeu a cara no ombro do amante. “Sim,” respondeu, numa voz quase inaudível. E enquanto ele se dirigia à casa de banho deitou-se de barriga para baixo, o rosto escondido na curva do cotovelo. Ao regressar Leonardo abriu uma pequena caixa de vaselina – a mesma que tinha utilizado na visita anterior para a possuir entre os seios – e lubrificou-lhe a abertura anal. Depois fez o mesmo a si próprio e apontou-lhe-lhe o pénis firmemente à entrada do ânus; passou-lhe o braço à volta do corpo e começou a acariciar-lhe o clitóris ao mesmo tempo que forçava a entrada a pouco e pouco. A lubrificação revelou-se eficaz; a penetração deu-se mais facilmente do que ambos esperavam; e ao fim de pouco tempo Marta ousou mesmo mexer os quadris como quando ele a penetrava pela outra abertura. A mão que lhe acariciava o sexo parecia-lhe agora, absurdamente, mais devassadora do que o falo que se lhe movia nas entranhas. Na fantasia de Marta Leonardo tornou-se de novo um legionário, um centurião, e ela própria um tenro escravozinho capturado, à falta de mulheres, para serviço dos oficiais. E talvez a fantasia dele estivesse a ser a mesma: a mão dele não se limitava a titilar-lhe o clitóris com as pontas dos dedos, mas abarcava-lhe o conjunto todo da vulva como quem toma o peso a um jovem pénis e respectivos testículos. Mas Leonardo não se fantasiava a fazer amor com um rapazinho. Se agarrava o sexo todo da amante era porque assim o sentia melhor; e era sem ambiguidade um sexo de mulher. A frescura e a redondeza das nádegas de Marta, a resiliência com que lhe amorteciam os embates violentos, as sonoras palmadas do pélvis, sugeriam-lhe não um rapazinho, mas as formas calipígias das mulheres do Sul, cântaros à cabeça, robustas, meneando as ancas sob um sol antigo.

Marta sentiu que os movimentos do amante se aceleravam, que a respiração lhe rouquejava, e que ele se lhe esvaía no fundo das entranhas. Na posição em que estava não podia vê-lo, só podia imaginar de memória as feições descompostas, a adoração e o riso; mas ouviu-lhe a respiração arquejante e as palavras desconexas e o quase grito que era quase uma oração. Ela própria não teve orgasmo; e talvez por isso soube-lhe bem que o amante se não retirasse imediatamente de dentro dela, que se deixasse ficar até que a progressiva flacidez do sexo operasse por si só a separação inevitável.

“Como estás?” perguntou-lhe ele por fim.

“Estou bem. Foi um pouco estranho. Estou contente.”

A música ia agora no quarto andamento: Júpiter, o portador da alegria. E depois de os amantes se virarem um para o outro, de se voltarem a acariciar, de conversarem e rirem, ela ainda lhe disse em voz baixa: “Quero dizer-te uma coisa: isto que me fizeste hoje – podes fazer-mo mais vezes, se quiseres.”

Adagio

E finalmente havia Jorge. Muito velho, muito alto, muito magro, e com uma pele de pergaminho, branca como a de um monge irlandês que há anos não saísse da sua biblioteca. Nos momentos de intimidade doméstica Jorge nunca escolhia um roupão como o de Baltazar, nem a nudez insolente de Leonardo ou Gino, mas um robe de algodão cinzento que era como um hábito monástico. Os pés grandes e ossudos, muito brancos, sobressaiam do cinzento escuro da orla.

Jorge era o asceta. Aparecia por vezes quando Marta e Miguel trabalhavam na mesma sala, absortos nas suas tarefas mas comprazidos com a presença pressentida um do outro. Por vezes Marta via-o levantar os olhos do livro que estava a ler e sorrir-lhe um sorriso tranquilo. Os olhos que a olhavam por cima dos óculos em meia-lua começavam já a ser olhos de homem velho, aquosos, e de um verde mais claro do que os de Miguel. Quando sorria de certa maneira, ou quando a luz do dia lhe incidia mais directamente sobre a face, chegavam a parecer azuis, e Marta lembrava-se da beleza emaciada de certos velhos, da sua pele quase transparente, do seu olhar de meninos. Para Jorge ficar completo só faltava a Marta imaginar a cabeleira ainda comprida e ainda desgrenhada, mas já muito branca e muito rala, deixando entrever o rosado do couro cabeludo.

Faziam amor quase só quando ela se lhe sentava ao colo, feiticeira, com gestos de menina. Os anos que ele acrescentava, no seu papel de Jorge, à sua própria idade, tirava-os ela à sua: vinte ou vinte e cinco anos para cada lado somavam cinquenta de diferença, e davam-lhes a deliciosa sensação de viverem uma relação incestuosa de avô e neta. Quando estava com Jorge Marta gostava de se vestir com uma blusa branca e uma saia curta de colegial, ou então, mais confortavelmente, com uma T-shirt do rato Mickey e umas peúgas de lã. Jorge tomava-a nos braços inesperadamente fortes e interrogava-a sobre as pequenas coisas do dia a dia. Enquanto falava com ela procurava-lhe com a mão ossuda o espaço entre as coxas. Depois masturbava-a; e ela abafava os soluços de excitação escondendo a cara no ombro dele.

Por vezes estendia-se por cima dela, quase cego, e tacteava-a como se só com as mãos lhe fosse possível reconhecê-la com suficiente certeza. Marta guiava-lhe o pénis semi-erecto para o lugar exacto. Esta semi-erecção mal bastava para a penetração inicial, mas uma vez transposto o primeiro portal tornava-se tão firme como a de um jovem. Jorge demorava sempre muito tempo a ter orgasmo, ou nem chegava a tê-lo; os seus movimentos eram por vezes débeis, e frequentemente tinha necessidade de descansar a cabeça no travesseiro, de modo que o tempo que demorava não significava para ela qualquer garantia acrescida de atingir o seu próprio climax.

Podia assim acontecer que nem um nem outro se viessem, e que o amor começado se lhes transformasse a pouco e pouco numa longa sessão de mimos e carícias – até que, quem sabe, Leonardo surgisse de repente, ou Baltazar, ou Gino, e a derrubasse de costas e se derramasse nela. Mas em vez disto podiam simplesmente adormecer os dois; ou podia Jorge começar a acariciá-la ou a beijá-la ternamente no sexo já dorido, tão ternamente e com tanta paciência que Marta acabava finalmente por encontrar o orgasmo, um orgasmo intenso, sereno, sem lágrimas.

Outras vezes podiam estar os dois sentados no sofá, talvez a ler ou a escrever. No leitor de CD’s podia estar a tocar, por exemplo, o quinto andamento de “Os Planetas”: Saturno, o portador da velhice. A mão de Marta insinuava-se então no roupão cinzento de Jorge e procurava-lhe o sexo flácido; e ele sorria-lhe, apertava-lhe a coxa, conversava com ela. Porque era sobretudo de palavras o amor que faziam. De todos os avatares de Miguel, Jorge era o único a ter perfeita consciência de como é perigoso misturar sexo e literatura; mas também era ele que mais prontamente corria, e a fazia correr, este risco. No panteão de Marta era ele o guardião dos labirintos e das ficções: todos os outros, incluindo Miguel, derivavam dele a vida que os animava. Geralmente a conversa retomava um qualquer assunto iniciado durante o dia, e em breve estavam os dois tão empenhados nela que Marta se admirava quando o sexo do amante lhe endurecia na mão como se tivesse uma vida independente da dos órgãos da fala.

Foram assim ganhando o hábito de se masturbarem enquanto conversavam, geralmente tão pouco interessados na conclusão da carícia como na da conversa; e foi nestas sessões que ele a contagiou com a sua predilecção por Edgar Allan Poe, Wilkie Collins, Stevenson. Por vezes contava-lhe histórias em que o maravilhoso ingénuo se unia à perversidade extrema; e se Marta chegava entretanto a um orgasmo, no caso de Jorge acontecia frequentemente que a erecção lhe desaparecia tão gradualmente como tinha aparecido, perdida nos labirintos de palavras em que os dois se tinham embrenhado.

Coda.

Gino, Baltazar, Leonardo, Jorge. Quatro nomes, quatro deuses em que o homem de Marta se compendi­ava para melhor se definir e para melhor a amar. Nenhum deles tinha a complexidade de Miguel: mas desde quando são os deuses tão complexos como os homens que os criaram? Marta dava-se conta que ao representar estes papéis o amante se lhe representava como se via a si próprio e como queria, ou temia, que ela o visse. Por ser Jorge, Leonardo, Baltazar ou Gino, o amante de Marta não deixava de ser Miguel: antes pelo contrário. Todos eles eram ficções, mas nenhum deles era mentira.

E de resto ela própria, Marta, se tinha durante muito tempo representado ao amante através de Mariana; e longe de com isso perder identidade, ganhara-a. Nas representações do amante, como na sua, ia uma dádiva. E nos lugares que ela amava – fosse no Algarve, num quarto branco de adobe, sentindo entrar pela porta o cheiro das alfarrobas; ou no Verão de Roma, num hotel de Roma, com varanda sobre a dolce vita de Roma; ou num pinhal à beira-mar, sobre uma manta, banhada nos últimos calores de um sol de Outono; ou ainda no Inverno, acolhida aos labirintos de uma biblioteca famosa – quando Miguel estava com ela eram estas representações que o completavam, e lhe conferiam a verdade que era a dele, e que o lugar exigia.


(Publicado no Blogger a 22/08/05)

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Ainda não decidi se este episódio é para ficar ou não na versão final. Alguém me quer dar uma opinião?

Para Ricardo este pedido veio no momento menos oportuno. Compreendia a necessidade que Mariana tinha de ser castigada depois de o ter provocado tanto na dança; era ele que não sentia necessidade de o fazer, nem, até àquele momento, vontade. De onde vinha, porém, este acréscimo de excitação ao ouvir o pedido que a sua escrava lhe fazia, este sobressalto quase doloroso no pénis já túrgido e erecto? Inclinou-se para a frente no sofá e olhou Mariana fundamente nos olhos. O que estava a pensar fazer era um risco, podia custar-lhe a confiança e a submissão da mulher que amava; mas se alguma vez podia haver um momento certo para o fazer, esse momento era este.

A bofetada estalou no silêncio da sala. Mariana, atónita, olhou para ele com os olhos muito abertos. Desde que eram senhor e escrava, Ricardo tinha-a punido muitas vezes e de muitas formas, algumas bem mais dolorosas do que a que acabava de sofrer; mas nunca antes a tinha esbofeteado, e num primeiro momento Mariana ficou sem saber o que sentir. Não era só a dor, a dor era o menos: era a sensação de ter sido violada, desrespeitada no mais íntimo de si. Olhou para os olhos de Ricardo e viu-os atentos, concentrados, traindo bem no fundo uma imensa angústia, uma interrogação, um desafio: tudo, excepto arrependimento. Mariana estava na corda bamba, tudo vacilava à sua volta, o momento seguinte podia trazer o fim de tudo ou o princípio de tudo. Chegou a ver-se a si própria, com nitidez, a levantar-se, a vestir-se, a fazer a mala, a sair de casa sem olhar para trás. Mas em vez disso baixou a cabeça e deixou-se ficar em silêncio, sem se atrever sequer a agradecer este castigo como tinha aprendido a agradecer os outros.

Passado um longo momento pousou a cabeça nos joelhos de Ricardo e assim ficou até se atrever a beijar-lhos; e só então Ricardo lhe passou a mão pelos cabelos, como se estivesse à espera desse beijo.

– Dança para mim, minha escrava…

– Sim, meu Senhor..

E subitamente leve, elevada no ar por uma intensa alegria que lhe vinha não sabia de onde, Mariana levantou-se e correu a preparar a dança seguinte.

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