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Archive for the ‘Leituras’ Category

Os grandes clássicos da literatura, sobretudo os que foram escritos no Séc. XIX, não costumam ser associados ao erotismo e muito menos ao bdsm – sobretudo se, como no caso de “Jane Eyre”, não contiverem uma única cena de sexo ou sequer qualquer referência a partes do corpo que não andassem à época, normalmente cobertas.

Eu próprio, ao ler este romance pela primeira vez e pela segunda, não me dei conta de nada que fosse além do mais estrito decoro vitoriano. Só quando me chamaram a atenção para o subtexto erótico é que decidi relê-lo a essa luz, e foi como se o lesse pela primeira vez: numa história que é basicamente, à superfície, a da Gata Borralheira (Cinderela para os meus leitores brasileiros), encontram-se nas entrelinhas, nas alusões, nos pequenos sinais em código que surgem em todas as páginas, todos os elementos dum romance erótico.
Se partirmos do princípio que o que estamos a ler é a narrariva duma relação amorosa e erótica entre uma mulher extremamente submissa e um homem extremamente dominante, o livro adquire um brilho, um interesse e uma verdade ainda mais pronunciados do que tem numa leitura mais convencional.
Existe uma tradução portuguesa, que nunca li, que tem por título “O Grande Amor de Jane Eyre”. Não sei se na tradução se mantêm todos os sinais em código presentes no original: por exemplo, não sei se “my master” está traduzido por “meu patrão ou “meu senhor”; mas é impossível que não se mantenham alguns. Em todo o caso, para quem tiver gosto pela leitura dos grandes clássicos e paciência para a sua extensão, fica aqui o meu conselho de leitura.
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Literatura erótica que seja boa literatura não é coisa que se encontre todos os dias. Esta narrativa de Fleur Reynolds tem como cenário a cidade de Palmyra, no que hoje é a Síria, no ano 260 depois de Cristo; relata o percurso duma jovem e bela sacerdotisa na descoberta dos seus desejos mais recônditos e recomenda-se tanto a quem gosta de ficção erótica na sua vertente domínio masculino / submissão feminina, como a quem gosta de ficção histórica em cenários exóticos.

A editora chama-se «Black Lace» e, embora o seu slogan seja «ficção erótica escrita por mulheres para mulheres», garanto pessoalmente que pelo menos este título pode ser lido por homens com gosto e proveito. Comprei o meu exemplar através da Amazon.co.uk, mas provavelmente também poderá ser adquirido através da Amazon.com ou em Portugal através da FNAC.
Boas leituras!


(Publicado no Blogger a 23/02/07)

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O que ando a ler

É um romance em forma de diário. A autora chama-se Mariyah Saalih. Nasceu no Reino Unido, de pais tunisinos, e vive nos Estados Unidos. O tempo e lugar da acção é a Arábia Saudita no início do século XX e a história é a duma jovem ocidentalizada que consegue, por curiosidade e espírito de aventura, ser admitida temporariamente num harém tradicional, onde vive a vida de qualquer odalisca. Um excerto para aguçar o apetite:

Supposedly, it was forbidden to talk amongst ourselves about what took place in the bedchamber between the Master and his night companions. Fortunately, the girls ignored this rule, and my journal writing benefitted greatly from these morning discussions. They often discussed and compared the most intimate details of encounters and it took me a while to grasp the meaning of words used to describe various goings on. Phrases such as, lady position, moist embrace, making the sword dance, and lazy man, each had a special meaning and were new to me.

At first I thought the girls were exaggerating and embellishing their stories with wild immagination, but I have learned that it was not so. The Master was most inventive and varied in his ways with women, and so were the girls with their Master.

Many who are oposed to slavery will have to forgive me for writing this, though some, no doubt, will understand. To many, I know it will sound trite and condescending, but it was the truth. Although the women were his slaves and lived daily under his whim, they understood and accomodated, even enjoyed, this relationship with him and lived contentedly with it, rarely lamenting their position or openly wishing for something else. Even those indifferent at times to his advances served graciously.

I saw emotions that swept through love and respect, boredom and enthusiasm, but never through fear and hatred. In their small world, defined by the four walls of the harem and Sheik Ali’s callings, this was what life had to offer, and they grasped it gladly. They saw nothing extraordinary in their presence and purpose in a slave harem – it was their vocation, their duty and their purpose – just as I understood the terms of my commitment and had no complaint.

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Os 50 anos de A história de O

Konstantin Gavros (*)
La Insignia. Brasil, janeiro de 2004.

Um incontrolável estranhamento nos assalta ao nos depararmos com o nome de uma personagem que se resume a uma insignificante letra “O”. E a primeira reação que temos, ao empreender a leitura, é de que esse signo vazio, esse círculo vazado e tão inexpressivo, esse antinome é a designação correta para uma mulher sem passado, sem história, suspensa em meio a um universo de prazeres que nos perturbam e incomodam, escrava – por sua livre escolha – dos desejos de outrem.

No entanto, a verdade é que não há equivalência entre o nome “O” e o zero – ou qualquer outro conceito que expresse passividade -, ainda que a autora não nos conceda, em momento algum, a descrição física de sua personagem; e ainda que a palavra “não” inexista no vocabulário de O.

De fato, não se pode confundir submissão com passividade. E, nesse sentido, a beleza e a sensualidade de O residem exatamente em suas seguidas ações, exercitando uma crescente submissão por sua própria vontade, buscando um amor cujo fulcro ela descobriu na obediência – uma descoberta que a faz despertar para o fato de que “as correntes e o silêncio, que deveriam amarrá-la no fundo de si mesma, estrangulá-la, sufocá-la, ao contrário, libertavam-na de si mesma.”

Há uma sugestiva semelhança entre essa personagem – que se oferece como uma dádiva irrestrita e permanente – e sua criadora, Pauline Réage. Não se trata, como tentaram alguns, de estabelecermos um paralelo entre a vida sexual da escritora e o universo sadomasoquista que ela desenha em A história de O. Mas trata-se de perceber como a senda percorrida por O – na qual, gradativamente, ela arranca de si as amarras que lhe foram impostas pela sociedade, até alcançar o âmago da sua libido, prostituindo-se a ponto de se sentir “consagrada” – é semelhante a de Réage. Nascida Anne Desclos, no seio de uma família conservadora e católica, ela assumiu, na maturidade, o pseudônimo de Dominique Aury, com o qual se tornaria a respeitada tradutora e editora da casa Gallimard, transformando-se, finalmente, por devoção a seu amante, Jean Paulhan, na escritora Pauline Réage. O périplo dessa instigante mulher, empreendido sob o silêncio e o quase anonimato, é a jornada dos que ousam explorar, sem limites, o seu interior, o que lhe permitiu subjugar os valores artificiais que Anne Desclos aprendera e, dissecando sua libido, dar vida não somente a O, mas também a si mesma, transmutando-se em Réage.

A história de O é, assim, o romance da depuração, no qual autora e personagem se encontram para responder a uma questão essencialmente humana e, portanto, essencialmente erótica: “Por que tanta doçura misturava-se nela ao terror ou por que o terror lhe era tão doce”? A submissa O encontrou sua resposta. E creio que Anne Desclos igualmente, pois, do contrário, o processo de auto-análise teria se interrompido na persona de Dominique Aury.

À parte a censura e as perseguições dos moralistas, A história de O se consagrou como o romance que trouxe à luz do século XX, em 1954, as pulsões sexuais que os preconceituosos repudiam como invenções doentias do marquês de Sade ou perigosas patologias. O livro tornou-se, com o passar dos anos, um símbolo da possibilidade de concretização de uma vasta parcela das nossas fantasias sexuais, corroborando e dando forma aos instintos que buscam na dor, no sofrimento e na humilhação – aplicando-os ou submetendo-se a eles – uma forma radical de prazer.

Desmistificando as práticas sadomasoquistas – tão antigas quanto o animal humano -, Pauline Réage concedeu grandeza e respeitabilidade a todos os que buscam prazer sexual na submissão e na dor: “(…) As partes do corpo mais constantemente ofendidas e que tinham se tornado mais sensíveis pareciam-lhe ao mesmo tempo mais belas, e como que enobrecidas; a boca que se fechava sobre sexos anônimos, os bicos dos seios constantemente acariciados por muitas mãos e os caminhos do ventre entre as coxas abertas, estradas abertas pelo prazer. Admirava-se de que ao ser prostituída viesse a ganhar em dignidade, e no entanto tratava-se de dignidade. Sentiu-se como que iluminada por dentro e via, no seu modo de andar, a calma, e no rosto, a serenidade e o imperceptível sorriso interior que se advinha nos olhos das reclusas.” De fato, com a delicada O, Réage demonstrou que, apesar de nos parecer paradoxal, há uma insuperável auto-estima em atender às exigências da libido.

É a certeza e a coragem de O que nos comovem e nos seduzem. Em sua busca inflexível, sempre movida pelo amor e por um “orgulho insensato”, ela aceita tudo, erigindo um altar à superação de todos os medos, de todos os limites, agarrando-se ao suplício não como uma forma de sublimação de suas frustrações, mas como um dos possíveis caminhos à fruição plena do prazer: “Quando o sofria [o suplício], trairia o mundo inteiro para lhe escapar, e após terminá-lo sentia-se feliz por tê-lo sofrido, tanto mais feliz quanto mais cruel e mais longo tivesse sido.”

Prazer e dor, vida e morte confluem, dessa forma, em um mesmo corpo, em uma mesma vontade, não para dilacerar a consciência dessa apaixonante mulher, mas, ao contrário, para torná-la mais viva, mais resoluta, mais íntegra.

A própria autora nos concede a chave para entendermos o significado desse romance que é um rito de passagem à compreensão de nossas mais fundas pulsões sexuais. No prefácio de seu segundo livro –Retour à Roissy– ela nos alerta que “uma vez que se deslinda a zona fantástica daquela outra, mediante a qual se recuperam as obsessões (sendo a repetição infinita de prazeres e sevícias tão necessária como absurda e irrealizável), tudo se ajusta fielmente, o vivido e o sonhado, tudo se descobre comumente compartido no universo de uma mesma loucura”. É preciso, portanto, superar a ficção, cruzar esse território que é, ao mesmo tempo, sonho e realidade, limite e renascimento, medo e alegria – e investigar o nosso eu. E se tivermos coragem para fazê-lo, talvez possamos descobrir o que Réage concluiu: “Se nos atrevemos a olhá-lo de frente, horrores, maravilhas, sonhos, mentiras, tudo é conjura e liberação.”

Essa O que, ao final da narrativa, emerge indelevelmente marcada nas nádegas, com a cintura adelgaçada, os quadris mais redondos, os seios mais pesados e um anel a lhe perfurar os grandes lábios, essa O transformada pelas torturas, é ela mesma que sussurra para si: “Mas que repouso, que delícia o anel de ferro que fura a carne e que pesa para sempre, a marca que nunca se apagará, a mão de um senhor que sabe apropriar-se sem piedade daquilo que ama.”

Nada é simples quando se trata do amor. E nada é facilmente compreensível quando se trata da sexualidade humana. Em um patamar muito acima dos moralismos e dos preconceitos difundidos pelas religiões, pela mídia e pelos valores pequeno-burgueses, A história de O questiona e acusa todos os que ousam minimizar ou desprezar a riqueza e a complexidade da nossa libido.


(*) Konstantin Gavros é escritor. Assina diariamente o blog A verdade é o sexo, o sexo a verdade. É, também, colunista de Novae.

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Com excepção da obra-prima literária que é a «História de O» e de alguns títulos de A. N. Roquelaure (pseudónimo de Anne Rice), a literatura «BDSM» diz-me geralmente pouco. É um género preso, como quase toda a ficção erótica, a demasiadas convenções; e estas resultam do facto (lamentável) de poucos editores aceitarem uma história que não dê garantias de pôr o leitor a masturbar-se logo à primeira página.
É por isso que quero deixar aqui registada uma excepção: o livro «Fantasies of a Young Submissive» de Rosaleen Young. Trata-se de um conjunto de histórias cuja autora é alegadamente uma submissa no mundo real. Nesta qualidade a narradora, que se apresenta como modelo BDSM profissional, faz preceder cada história por uma qualquer observação auto-biográfica, por uma fotografia sua, ou por um pequeno poema.
Transcrevo aqui um destes, intitulado «Two Women», e que tem por sub-título «Duma Submissa a uma Feminista»:

If you please, ma’am, who am I
That you should fight for me
Against ‘male oppression’ through the years
So women can be free

I know you strove to prove our worth
Great chance you had to take
Pray do not think I disregard
Your struggles for my sake

You clench your fist and stamp your feet
To see me serve and bow
And take such treatment from a man
That you would not allow

If you please, ma’am, calm your rage
Your gift I’ll not ignore
‘Twas choice you gave me and choice I take
As slave to man once more

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