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Archive for the ‘Novo romance’ Category

Vendo-se ao espelho enquanto fazia a barba, Miguel interrogava-se de onde lhe vinham aqueles sonhos – logo a ele, que se orgulhava de ser um homem moderno e progressista, sensível, respeitador das mulheres e incapaz de um gesto de agressão. Miguel era um feminista convicto. No gabinete de arquitectura de que era sócio tinha conseguido que se instituísse um sistema de quotas de modo a incluir mais mulheres. Ainda bem que na faculdade de Arquitectura a cultura dominante ia no sentido da igualdade entre os sexos (entre os sexos não: entre os géneros – corrigia-se Miguel, que mesmo nos seus monólogos interiores era escrupulosamente rigoroso). Se assim não fosse não seria ele, simples professor contratado, que teria estatuto ou autoridade para mudar a situação.

E Letícia, que pensaria ela destas coisas? Miguel conhecia Letícia desde o ano em que os pais dele se tinham separado e em que a tia Margarida tinha vindo viver com a irmã. Letícia tinha dez anos e era filha duma amiga íntima de Margarida. Na superioridade dos seus catorze anos, Miguel pouco ligara à miúda escanzelada que lhe entrava pela casa dentro em visitas cada vez mais frequentes e prolongadas, que em nada se destacava a não ser por umas medalhas em campeonatos de pingue-pongue, e que nada tinha de notável a não ser o facto de andar sempre de saias e de no tempo quente a mãe dela estar sempre a mandá-la calçar.

Incomodava-o, sim, que a sua própria mãe e a sua própria tia se referissem a Letícia, meio a brincar, como “a tua prima,” e à mãe dela como “tia Berta” – sobretudo tendo em conta que sempre fora encorajado a tratar a tia por “Margarida” e a mãe por “Maria João.”

À miúda, podia ao menos tratá-la pela alcunha que ele próprio inventara: Chica Cegonha, depois abreviada para “Chica.” Com o tempo, as “tias” Margarida e Maria João, e por fim a própria Berta, tinham começado a tratá-la pela alcunha, da qual nunca tinham conhecido a versão completa. E mesmo agora, depois de se ter transformado em adolescente e em mulher, de ter estudado e começado a trabalhar, de ter comprado a sua própria habitação e de ter mostrado a sua capacidade de levar uma vida independente e regrada, Letícia continuava a ser “Chica” para a mãe, para as amigas da mãe e para o filho das amigas.

Em dezoito anos de convivência, Miguel nunca tinha fantasiado uma relação amorosa com Letícia – ou pelo menos não mais do que tinha fantasiado, durante as convulsões hormonais da adolescência, com todas as raparigas e mulheres que conhecia. Miguel não gostava muito destas fantasias, nem compreendia o prazer que lhe vinha de se imaginar uma espécie de sultão com poder absoluto sobre o seu harém. O amor não devia ser uma questão de poder, dizia-lhe sempre a mãe, com a concordância expressa da tia Margarida e da “tia” Berta. O amor devia ser uma reciprocidade, uma troca entre soberanos, um dar e receber – um negócio calculado ao milímetro, ou pelo menos assim parecia a Miguel, para que nenhuma das partes ficasse em vantagem. O rapaz concordava com estes sentimentos, é claro, embora às vezes perguntasse a si próprio se não haveria equilíbrio possível fora desta rigorosa simetria. E à noite, quando se encontrava sozinho na cama, não havia simetria, nem razoabilidade, nem justiça que resistissem ao chamamento urgente da sua imaginação inflamada. Miguel deitava-se provido de um lenço; e este lenço, enrolado à volta do pénis, transformava-se no sexo húmido e macio duma odalisca, e Miguel esvaía-se nele uma vez, duas vezes, ou mais, antes de adormecer. Uma odalisca obediente a quem Miguel podia exigir tudo e de quem obtinha tudo.

Depois, com o início de uma série de namoros, estas e outras fantasias tinham dado lugar à realidade. Todas as sucessivas namoradas de Miguel se pareciam umas com as outras, e com Maria João: sérias, idealistas, politizadas, ambiciosas. O sexo com elas era perfeitamente aceitável e não deixava por satisfazer nenhuma necessidade que tivesse que ser compensada à noite, com recurso ao lenço. Também Letícia tinha tido vários namorados ao longo dos anos, e Miguel tinha conhecido alguns deles: rapazes sérios, inteligentes, urbanos, sensíveis, que mereciam quase sempre – tal como, de resto, as namoradas de Miguel – a aprovação sem reservas das três mulheres mais velhas.

Miguel olhou-se ao espelho e desejou, não pela primeira vez, ter um nariz menos aquilino, um olhar menos penetrante e um cabelo menos rebelde. “Pareço uma coruja,” pensou. E sorriu ao recordar-se da indignação que esta comparação tinha provocado na Diana – a namorada com quem tinha ficado mais tempo, quase dois anos.

– Qual coruja? – exclamara ela. – O que tu tens é um ar altivo, como um falcão. Coruja agora, que ideia…

– Pronto, está bem – rira-se ele. – Coruja ou milhafre é a mesma coisa.

Com essa namorada, recordou-se Miguel, tinha vivido um episódio que ainda hoje o perturbava. Estava com ela na cama e tinha-a penetrado, talvez com mais ímpeto do que habitualmente. Ela arquejara como que de dor; e Miguel tinha diminuído o ritmo, indeciso sobre se devia pedir desculpa. Mas ela tinha-o abraçado com força e tinha-lhe dito que sim, que lhe fizesse doer. Depois de uma hesitação, Miguel tinha-a beliscado nas nádegas, depois nos seios e nos flancos; e perante a reacção dela tinha-se aventurado a dar-lhe algumas palmadas, que lhe tinham soado tão alto que imaginou que se poderiam ouvir nos apartamentos vizinhos. Diana tinha tido um orgasmo que parecera nunca mais terminar; mas minutos depois, quando Miguel quisera falar sobre o acontecido, tinha negado que alguma vez tivesse feito tal pedido. E Miguel nunca mais tinha tido vontade de fazer o mesmo, nem com Diana, nem com ninguém. Mas lembrava-se do episódio com mais frequência e mais aprazimento do que lhe parecia correcto. Nos dias seguintes, enquanto duraram as nódoas negras provocadas pelos beliscões, Diana tinha evitado despir-se diante dele.

Semanas depois o namoro tinha acabado; mas tinha acabado, pensava Miguel, por razões que não tinham nada a ver com beliscões nem com palmadas.

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Agora que estou a chegar ao fim das “Histórias de Mariana” resolvi intercalar a escrita dela com a escrita dum novo romance, do qual ainda não tenho o título. O texto que se segue é um prólogo em que é apresentada a principal personagem masculina e uma personagem feminina que também será, provavelmente a principal. É uma narrativa que tem muito menos de auto-biográfico de que a outra e que estará mais organizada quanto ao enredo. Espero que gostem.

Subitamente Miguel deu por si brandindo a vergasta. O punho entrançado era de cabedal verdadeiro, e não lhe escorregava na palma da mão como aconteceria se fosse de material sintético. Miguel não se recordava da última vez que se encontrara naquela situação, mas sabia, como se sabe nos sonhos, que ela não lhe era estranha; pelo contrário, tinha-a vivido muitas vezes e sabia exactamente o que tinha que fazer. Não precisou dos olhos para saber que o punho entrançado que segurava na mão era preto, que o resto do instrumento era feito de um material duro e flexível como bambu e estava coberto de seda vermelha, que a mulher prosternada a seus pés, de quem sentia nos tornozelos o bafo quente e a macieza dos cabelos, era a sua “prima” Letícia, que conhecia desde a adolescência e que sempre lhe tinha sido apresentada pela família como exemplo a seguir.

Olhou para baixo e viu a sua própria mão segurando o instrumento de castigo: os nós dos dedos brancos com a força que fazia, os pelos macios sobre a pele clara. Mais abaixo, o seu próprio sexo erecto e recurvo, erguendo-se de entre os pelos negros do púbis. A abaixo de tudo o corpo de Letícia, as mãos dela voando-lhe sobre as pernas numa carícia ansiosa, o cabelo escuro espraiado sobre os ombros sardentos, a forma dos quadris e das nádegas como o corpo dum violoncelo.

Miguel nunca tinha visto Letícia nua, e surpreendeu-se um pouco com a robustez do corpo, com os músculos que se adivinhavam por baixo da fina camada de gordura feminina. Era uma mulher grande e atlética, muito branca de pele: sem roupa adquiria o porte clássico duma estátua de mármore.

Na lógica do sonho não lhe pareceu estranho estar assim com Letícia a seus pés. Nem lhe pareceu estranho que ela lhe pedisse perdão e castigo (por uma falta que ele se recordava nitidamente ter existido sem se recordar em que tinha consistido).

– Ajoelha-te diante do sofá – ordenou Miguel. – Cruza os braços sobre o assento e pousa neles a cabeça.

O sofá era baixo: para fazer o que Miguel ordenava, Letícia tinha que ficar com o rabo empinado no ar. Obedeceu prontamente, porém – o que não surpreendeu Miguel e lhe pareceu, no sonho, perfeitamente natural. Mas uma parte dele, talvez a parte que começava a acordar, sentiu surpreendeu-se vagamente por não estar surpreendido.

Uma vez, outra vez, Miguel vibrou algumas fortes chibatadas, não só no rabo empinado de Letícia, mas também nas costas, nas coxas e na pele especialmente sensível entre as coxas e as nádegas. Letícia sofreu a maior parte dos golpes apenas com um estremecimento e um gemido, apenas se debatendo e gritando um pouco ao receber os mais dolorosos; mas mesmo assim voltando sempre à posição que lhe tinha sido ordenada para receber a punição até ao fim.

– Agora vira-te para mim – disse Miguel. – E agradece-me.

– Obrigada, meu Senhor – disse Letícia.

E foi quando ela, ainda de joelhos, lhe beijou as mãos, e lhas molhou de lágrimas, que Miguel teve um orgasmo e acordou. Demorou algum tempo a compreender onde estava: na cama, em casa da mãe, no seu antigo quarto de estudante. Que diriam elas, a mãe, a tia, se a empregada lhes contasse que tinha encontrado os lençóis do menino sujos de esperma? E que diria Letícia, que estava a passar o fim-de-semana lá em casa e dormia no quarto ao lado do dele, se soubesse a que perversas fantasias tinha dado azo?

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