Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for the ‘Opinião’ Category

Violência Doméstica

A decência mais elementar exige que nos saibamos pôr no lugar do outro. Isto exige alguma imaginação. Quando me dizem que não posso imaginar um certo sofrimento porque nunca passei por ele, estão-me a negar esta imaginação e a não querer que cumpra o dever moral de me pôr no lugar da outra pessoa. No limite, estão a exigir-me que seja um psicopata: alguém que se caracteriza por não compreender que os outros também existem e também sofrem.

Portanto não me vou desculpar pelos exercícios de imaginação que vou fazer neste artigo. É certo que não sou mulher, nem nunca fui vítima de violência doméstica, mas é precisamente nesta situação que me vou tentar imaginar.

Uma mulher vê-se sozinha e sem defesa perante um homem violento e descontrolado. Pelo decurso dos minutos ou horas antecedentes, sabe que vai ser agredida fisicamente – só não sabe com que gravidade. Pode ser que fique tudo por um par de estalos. Pode ser que inclua murros, pontapés e pauladas, em partes do corpo normalmente cobertas pela roupa. Ou pode incluir o nariz partido, equimoses na cara, lábios rebentados, dentes quebrados. Pode levar a dias, semanas ou meses de hospital.

Pode levar à morte.

E é aqui que eu tento pôr-me no lugar dessa mulher e pergunto a mim mesmo o que é que ela sente. Isto depende, é claro, do modo de ser de cada uma: há mulheres que numa situação destas ficam de tal maneira dominadas pela ira que nem conseguem sentir medo ou dor: se puderem defender-se, defendem-se, e se tiverem acesso a qualquer coisa que possa servir de arma são até capazes de matar o agressor – que não merece outra coisa.

Outras ficam tão paralisadas pelo terror que não reagem: tentam cobrir com os braços as partes mais vulneráveis do corpo, choram, pedem ao homem que pare, são capazes até, naquele momento, de pedir perdão pelo que não fizeram.

Duma coisa tenho a certeza: nenhuma mulher tem prazer nisto. Haverá quem não concorde com esta afirmação, a começar pelas minhas amigas baunilha com quem converso. São unânimes em dizer que um episódio destes releva do mais puro horror, no que concordo com elas; e são quase unânimes em que o essencial deste horror não está necessariamente na dor física sofrida, mas no descontrolo e na imprevisibilidade da situação; mas quase todas têm histórias a contar duma empregada que tiveram, ou das mulheres da aldeia onde passaram a infância, que apresentam como exemplo da mentalidade do «quanto mais me bates, mais eu gosto de ti» ou, ainda mais chocante, «o meu homem não deve gostar de mim porque nunca me bate».

As minhas amigas baunilha – mulheres urbanas da classe média ou média alta – sabem que no seu próprio grupo social há mulheres vítimas de violência doméstica. Compreendem e aprovam que algumas destas mulheres aguentem esta situação até as circunstâncias da vida lhes permitirem separarem-se dos seus agressores; mas não lhes passa pela cabeça que esta separação não tenha lugar logo que possível. O que elas não compreendem é a a mentalidade do «quanto mais me bates» de que falam. E só encontram uma explicação para ela: muitas mulheres pobres, rurais, dependentes ou iletradas gostam de ser vítimas de violência doméstica.

Quanto a mim, as minhas amigas estão enganadas.

Este meu juízo releva mais da imaginação do que da experiência: cresci em meio urbano, nunca assisti a situações de violência doméstica, e nunca nenhuma mulher me fez o tipo de confidências que as minhas amigas baunilha me dizem que já ouviram muitas vezes. Que autoridade tenho, eu, portanto, para falar?

Eu nunca tive esta experiência; mas as minhas amigas baunilha nunca tiveram a experiência que eu tive muitas vezes: a de falar com submissas ou escravas que aceitam, desejam, e muitas vezes necessitam absolutamente de sofrer, e/ou de serem humilhadas, às mão de um Dominante ou de um Senhor. E isto em graus que podem ir do ligeiro ao extremamente severo. O que diferencia estes desejos e estas práticas de situações de violência doméstica é, pela minha experiência, o facto de se tratar de processos controlados. Este controlo pode ser exercido, em situações extremas, pela própria submissa ou escrava (através, por exemplo, dum safeword), mas geralmente é exercido pelo dominante. O que interessa é que há sempre um controlo. E é isto que faz toda a diferença: ao ser castigada, a submissa sente-se segura, ao contrário da vítima de violência doméstica.

E isto leva-me a especular sobre aquelas mulheres a quem as minhas amigas baunilha consideram «primitivas», «ignorantes» e sujeitas a uma tradição injusta que lhes fez uma «lavagem ao cérebro». Serão mesmo assim tão estúpidas, primitivas, influenciáveis e ignorantes? Por mim, tenho dificuldade em presumir a estupidez dos outros como primeira explicação para o que não compreendo.

Talvez o caso seja outro. Talvez a mesma tradição primitiva que dá aos homens, em certos contextos sociais, o direito de bater às mulheres estabeleça, nos mesmos contextos, mecanismos de controlo social que limitem esse direito. Talvez as mulheres que dizem aquelas frases, que tanto indignam as minhas amigas, se possam dar ao luxo de as dizer porque se sentem de alguma maneira seguras.

Se esta minha hipótese estiver correcta, então talvez estas mulheres, que habitam um mundo tão diferente do meu, não sejam tão estúpidas, ignorantes e alienadas como as minhas amigas as consideram; e talvez os homens que lhes batem não sejam sempre bestas enlouquecidas. Talvez uns e outras mereçam da nossa parte algum respeito.

Read Full Post »

Ouçamos o que nos diz uma escrava: «não aceito ser humilhada». Tentemos entendê-la. Ela tem um Senhor, e ama-o. Define a sua escravidão em três palavras: servir, obedecer, sofrer. É assim que ela sabe e quer amar; e como o seu ideal de amor é infinito, sente como uma imperfeição qualquer limite à sua capacidade de servir, de obedecer ou de sofrer.

Ouçamos o Senhor desta escrava. Ele ama-a, e respeita-a, e nunca perdoaria a si próprio se a humilhasse. As modalidades do seu amor por ela são o domínio e a posse: é assim que ele sabe e quer amá-la. Exige dela que o sirva na perfeição, que lhe obedeça com dedicação e inteligência, que aceite e agradeça o sofrimento que ele lhe provoca. Usa o direito que tem de a punir para a consolar de não ser perfeita. Se a castiga sem ela ter cometido qualquer falta, está-lhe a dizer com cada golpe de vergasta: «és minha, tenho este direito sobre ti, e como o tenho, exerço-o». Ela, que quer ser dele, compreende, aceita e agradece o castigo – e porque se sente possuída, sente-se amada.

Se a castiga por uma falha dela no seu dever de servir e obedecer, está a dizer-lhe: «sei bem, meu amor, que não és perfeita; sei também o quanto queres sê-lo; exijo-te que te aproximes sempre mais da perfeição, mas não te exijo que chegues lá. Ninguém chega lá. Vê: serviste-me mal, ou obedeceste-me mal, ou talvez até me tenhas desobedecido de propósito; mas agora vais saber sofrer bem. Fica sabendo que te amo tanto na tua imperfeição como amaria um anjo».

Com outra escrava, com outro Senhor, tudo isto que estou a escrever seria diferente. Mas mantenhamo-nos com estes dois.

Como poderia este Senhor humilhar esta escrava? Humilharia a sua escrava, certamente, se desprezasse a sua dádiva de serviço, obediência e sofrimento. Se a aceitasse sem lhe dar valor, como se fosse coisa pouca. Quando esta escrava diz que não aceita ser humilhada, está a pedir ao seu Senhor que dê à sua dádiva o valor que ela tem, e que é imenso. Uma escrava tem muito poucos direitos: mas este, tem-no, certamente.

Humilharia a sua escrava, também, se não soubesse reconhecer a diferença entre um limite alegado e um limite real. O limite alegado está aquém do limite real (também por isto ela se sente imperfeita). Ao levá-la-la a ultrapassar um limite alegado, estará no seu direito de Senhor, e não estará a humilhar a sua escrava, mas sim a honrá-la. Se a levar além do que ela quer fazer, continua no seu direito: toda a verdadeira escrava sabe e aceita que faz parte da sua condição fazer muitas vezes o que não quer, e muitas vezes não fazer o que quer. Mas se o seu Senhor a levar além do que ela pode fazer, isso será uma humilhação que deixará feridas, talvez incuráveis.

É difícil para um senhor distinguir entre o que a sua escrava não quer fazer e o que ela não pode fazer – e tanto mais difícil quanto é certo que ela própria pode não saber distinguir. Mas aí a responsabilidade é dele, e não dela.

A escrava tem dignidade; e como tem dignidade, tem vontade; e como tem vontade, tem querer. E tanto tem querer, que quis fazer uma dádiva de si própria; tanto tem querer, que quer ser perfeita. E a beleza terrível da sua escravidão está nisto: ela tem querer, mas não tem quereres.

E é por isso que há momentos em que o senhor respeita a sua escrava tanto mais, quanto mais a humilha. A humilhação é respeito quando ele lhe proíbe quereres; quando lhe proíbe caprichos; quando lhe proíbe certos pudores. São momentos em que é direito dele, e talvez dever dele, humilhá-la; mas não são estas as humilhações que ela tem em mente quando diz «não aceito ser humilhada».

São estas, também, as humilhações que a escrava pode evitar humilhando-se ela antes, num jogo em que ambos – ela e o seu Senhor – encontrarão o mais requintado dos prazeres.

Mencionei acima a «beleza terrível» da escravidão desejada. É terrível porque infunde terror: e não só o infunde na escrava, como em todos à volta, incluindo o seu Senhor. Saiba o Senhor maravilhar-se com tamanha beleza; saiba ele sentir, sem lhe ceder, o terror que esta beleza infunde: saberá assim respeitar a sua escrava; e se entender que deve humilhá-la, saberá fazê-lo só na medida em que esta humilhação eleva os dois.

Read Full Post »

Fragilidade não é fraqueza

Podemos estar vulneráveis. Podemos estar em perigo. Podemos estar em situações concretas que tornem mais fácil a outros tirar partido de nós. Mas enquanto formos capazes de tomar decisões e de orientar por elas, sem tergiversar, a nossa vida e os nossos actos, então, por mais frágeis que possamos estar, somos fortes.

Read Full Post »

Tua escrava. Tua cadela. Tua criada. Tua puta. Quantas de vocês, submissas, já disseram isto! E quantos de vocês, dominantes, já ouviram isto!

A escrava diz “escrava” para dizer “sou tua”, e o senhor diz “escrava para dizer “és minha”. A escrava diz “cadela” porque encontra nesta palavra a metáfora duma fidelidade absoluta que não pede nada em troca, e o senhor diz “cadela” porque vê na escrava um ser perfeitamente incapaz duma traição. A escrava diz “criada” porque sente prazer em servir, e o senhor diz “criada” porque o seu prazer em ser servido é maior do que a sua conveniência.

(Não é pela vantagem de encontrar as camisas passadas a ferro que o senhor gosta de ver a escrava passar-lhas; podia passá-las ele próprio, ou pagar a uma empregada; mas a delícia de ver a escrava fazê-lo enquanto o dono se finge desatento… e ela a saber muito bem que ele está só a fingir…)

E quando diz “tua puta” a escrava está a pedir ao senhor que tire prazer do seu corpo.

Tão nobre é a escrava, como a cadela, como a criada, como a puta. Duas destas palavras, é certo, podem ser usadas como insultos; mas não entre um senhor e uma escrava que se amam. Entre estes são palavras de amor.

Read Full Post »

Durante muito tempo vivi a minha orientação sexual de dominante sem a compartilhar com ninguém que não fossem aquelas mulheres, tão ingénuas como eu era, com quem me relacionei desta forma. Só quando descobri a Internet é que verifiquei que há muita gente a fazer muitas das perguntas que eu e elas fazíamos; e que há muita gente a encontrar, não só as mesmas respostas, mas respostas que nunca nos tinham ocorrido.

Uma questão que sempre se me pôs é a que dá o título a este artigo, por isso não me surpreendi quando a vi aparecer recorrentemente nos foruns e nos blogues. Quero referir-me em particular a duas mulheres que me disseram isto mesmo: “Eu quero ser a escrava perfeita.” (não estavam a falar em relação a mim.) Disseram-no as duas em contextos diferentes e com significados diferentes, mas em ambos os casos ficou subentendido o que elas não disseram explicitamente: “Eu quero encontrar o Senhor perfeito.”

Ora eu não acredito, nem em escravas perfeitas, nem em Senhores perfeitos; e isto pela simples razão que não acredito em seres humanos perfeitos. Acredito, sim, em relacionamentos perfeitos entre Senhor e escrava – relacionamentos estes cuja perfeição não só admite, como requer, a imperfeição de ambos. Não se pode aperfeiçoar o que já é perfeito, e para mim a perfeição num relacionamento consiste no aperfeiçoamento constante e perpétuo, quer do Senhor, quer da escrava.

Escravas perfeitas e Senhores perfeitos só existem na literatura. Na “História de O”, por exemplo: no início da narrativa, O é uma escrava imperfeita que tem um relacionamento imperfeito com um Senhor imperfeito, e no fim transformou-se na escrava perfeita que tem com um Senhor perfeito um relacionamento perfeito. Não quero dizer mal da “História de O”: pelo contrário, entendo que se trata de uma obra literária de primeiríssimo plano e do maior clássico da literatura erótica do século XX. Além disso é uma obra que transformou a minha vida e também, tenho a certeza, a vida de muitas outras pessoas. Mas isto não impede que seja uma obra de ficção, e o que é perfeito na ficção raramente é perfeito na vida.

A arte da narrativa tem grandes dificuldades. Entre elas conta-se a necessidade de adequar o enredo à caracterização das personagens, de fazer com que tanto um como a outra sejam plausíveis (pelo menos dentro das convenções da própria narrativa); e, se for uma obra extensa, um romance, a necessidade de fazer com que as personagens evoluam duma maneira consistente, quer com o enredo, quer com as suas características básicas. Nada disto é fácil, e tudo isto é conseguido brilhantemente na “História de O”. Podemos falar aqui de perfeição, mas é de perfeição literária que se trata. A perfeição do vivido é outra coisa.

No início da narrativa, O é uma escrava imperfeita. Há regras a que não consegue obedecer. Está proibida de olhar os Senhores nos olhos, mas fá-lo. Merece ser punida e é punida. No fim, contudo, já atingiu a perfeição. Já não merece ser punida. É claro que o continua a ser, mas é-o sem outra razão para além da vontade arbitrária do Senhor. A punição deixou de corresponder à necessidade ética de corrigir comportamentos e passou a corresponder à necessidade estética de exprimir a perfeição atingida.

Como é que se chega a esta perfeição? Primeiro, pelo treino; e logo a seguir pela exclusão deliberada de um factor de perturbação e complicação, que é o amor. Num dos momentos cruciais do romance, Sir Stephen diz a O: “Você confunde amor com obediência. Você obedecer-me-á sem me amar e sem que eu a ame.” Quando li esta frase pela primeira vez senti um misto de excitação e perturbação, e nunca mais deixei de reflectir sobre ela. Não é que não a tivesse compreendido: pelo contrário, compreendi muito bem o seu cabimento na lógica da narrativa. Mas a lógica da narrativa não é a lógica da vida, e muito menos a da vida que eu quero viver: nesta, o amor não é uma irrelevância, nem um obstáculo à perfeição, mas sim a própria perfeição.

Voltando à vida real e às minhas conhecidas a quem me referi acima: ambas relacionam, embora de maneira diferente, a noção de perfeição com a de castigo e com a de obediência. Uma sustenta que não pode ser castigada, pelo menos fisicamente, porque nada do que um dominante lhe faça está para além do que consegue suportar; a outra diz que uma escrava perfeita não pode ser castigada porque a sua vontade estará de tal maneira sintonizada com a do seu Senhor que a desobediência se torna impossível, e o castigo, consequentemente, desnecessário. A razão por que a noção de obediência desagrada a ambas é basicamente a mesma: num relacionamento entre um Senhor perfeito e uma escrava perfeita, a vontade de um coincide necessariamente com a do outro; logo, a escrava fará sempre de livre vontade tudo aquilo que o Senhor quer que ela faça; logo, o Senhor nunca precisará de invocar qualquer dever de obediência por parte da escrava.

Na vida real, esta perfeição, assim entendida, não me parece nem possível, nem desejável. Imaginemos que dois seres chegavam a este ponto: como poderíamos então distinguir entre o Senhor e a escrava? Numa relação destas faria tanto sentido dizer que ela era escrava dele como dizer que ele era escravo dela. Ambas as afirmações seriam verdadeiras; e ambas seriam falsas. Na “História de O”, a tentativa de excluir o amor acaba por falhar: O e Sir Stephen acabam por se amar. Mas esse amor não resulta numa vida em comum: atingida a perfeição, não têm mais para onde ir e o fim sugerido na história é a morte voluntária de O com a permissão do amante.

E no entanto eu desejo a perfeição. Não a perfeição narrativa, cuja lógica só pode desembocar na morte; mas a perfeição na vida, uma perfeição que tem em conta a humanidade, e portanto a imperfeição, quer do Senhor, quer da escrava. A perfeição neste relacionamento não depende duma impossível perfeição dos seus intervenientes, mas sim do seu lento, constante e infindável aperfeiçoamento. Neste relacionamento perfeito há lugar a castigos: o compromisso inicial pode cobrir todas as contingências futuras, mas estas não podem ser todas previstas e inevitavelmente chegará o dia em que a escrava sentirá: “eu não posso fazer isto, eu não quero fazer isto, eu não posso aguentar isto”. E há lugar a ordens dadas pelo Senhor e obedecidas pela escrava, porque chegará inevitavelmente o momento em que a vontade de um não coincidirá com a do outro; e o compromisso que assumiram é de que nestes casos a vontade do Senhor prevalece. E é neste momento – não nos momentos em que a obediência é tão fácil que nem é sentida como obediência, ou a punição tão fácil de suportar que nem é sentida como punição – que a perfeição do relacionamento se revela ou não. Não é perfeito o relacionamento em que a escrava obedece sempre porque quer sempre obedecer: perfeito, sim, é o relacionamento em que a escrava obedece mesmo quando não quer, e aceita sofrer mesmo o que não tem a certeza de suportar. A vida duma escrava não é fácil.

É esta uma das mensagens de Polly Peachum no ensaio “Violência no Jardim” que estou a traduzir e a publicar neste blogue. É a mensagem de alguém que tem a autoridade de ter vivido aquilo de que fala, a autoridade acrescida de ter reflectido profundamente sobre essa vivência, e a autoridade suprema de ter atingido na sua relação, sem ser ela própria perfeita, um grau de perfeição e exigência muito para lá do que a maioria de nós desejamos ou somos capazes.

Se a escravidão voluntária é um contrato em que uma das partes se compromete a que nunca mais seja tida em conta a sua vontade, é também um contrato em que as duas partes se obrigam a procurar juntas a perfeição, sabendo à partida que nunca a hão-de alcançar. Juntas, mas não exactamente lado a lado: o esforço do Senhor tem que ser um pouco maior; ele tem que ir um pouco mais à frente; porque pode falhar em muitas coisas, mas não no seu dever de guiar a escrava a bom porto. E isto também é difícil.

Read Full Post »

Nunca paramos de aprender

Uma amiga minha, que talvez venha a ler este post, perguntou-me uma vez o que é que eu sabia de domínio e submissão. Estávamos a tomar café. Eu não compreendi muito bem o sentido da pergunta, mas depreendi que ela se estava a referir a “técnicas” e a “práticas” e a “sessões” no contexto de um BDSM estilizado. Tive que lhe responder que sabia muito pouco. Não é que rejeite esta dimensão tão importante nas opções de vida desta minha amiga e de outras pessoas que conheço. Antes pelo contrário: consigo perfeitamente imaginar-me a aprender, por exemplo, as técnicas do “Shibari” e a apaixonar-me pelo que nelas há de criativo e de exigência estética. Acontece simplesmente que tudo isto, podendo embora ter um lugar acessório nos meus gostos e preferências, está muito longe de ser central nas minhas experiências e ideais como Senhor e Dominante.

No reverso da medalha há as pessoas que me felicitam pelo muito que têm aprendido comigo. Estes elogios, apesar de não se referirem aos aspectos técnicos mencionados acima, deixam-me ainda mais constrangido do que a pergunta que a minha amiga me fez, e isto por várias razões. Em primeiro lugar porque muitas vezes se trata de pessoas com quem aprendi tanto ou mais do que elas dizem que aprenderam comigo; em segundo lugar porque tenho a aguda consciência de saber muito menos do que desejaria sobre domínio e submissão, e por isso ainda estou a fazer por aprender; e finalmente porque há coisas que sei hoje que me teriam evitado erros gravíssimos se as soubesse ainda há poucos anos.

A propósito de fontes de aprendizagem, gostaria de recomendar dois sites que incluí recentemente na minha lista de links: o Code d’Odalisque e o Different Loving, que tem como subtítulo “Submissive Women Speak”. No primeiro destes dois sites não encontraremos as questões de domínio e submissão tratadas com a sinceridade, com a clareza de raciocínio e linguagem, nem com a profundidade ética, psicológica, sociológica e sociológica com que as encontramos tratadas no segundo. Mas mesmo assim o “Code d’Odalisque” é um site interessante porque propõe uma abordagem que eu nunca tinha encontrado: diferente, quer do BDSM clássico, quer da perspectiva Goreana, quer da minha própria abordagem. O estilo é civilizado, eu diria mesmo ultra-civilizado, e isto pode desagradar a certos leitores que não aceitam certas afectações como por exemplo um site de língua inglesa adoptar o francês como uma espécie de língua oficial. O “Code d’Odalisque” está para o BDSM clássico como um minuete da corte de Maria Antonieta está para um concerto de heavy metal; mas isto não nos deve cegar para dois méritos muito reais do site: o primeiro está em propor uma ética e um estilo muito definidos, que talvez sejam, quem sabe, a ética e o estilo de que algum dos meus leitores possa estar à procura; o segundo está em que a proposta do “Code d’Odalisque” é facilmente combinável e compatível com outros estilos e outras opções de vida. É uma abordagem que eu nunca adoptaria na totalidade, mas da qual poderia muito bem recolher alguns elementos.

O “Different Loving” é um caso muito mais sério, desde logo porque é produzido por um casal que conseguiu levar uma relação de Senhor/escrava ao seu grau mais absoluto e manter essa relação durante vários anos, com proveito para ambos, através de dificuldades graves em termos financeiros e de saúde. Os textos são geralmente longos, devido ao esforço dos autores para serem exaustivos e considerearem os assuntos em todos os seus aspectos; mas são muito reflectidos, muito bem articulados, e reflectem a tal mistura de honesto estudo e longa experiência que raramente se encontra.

Os autores deste site não propõem a sua opção de vida como a “melhor”: pelo contrário, reconhecem que na maioria dos casos a melhor opção de vida para um dominante e uma submissa será menos radical do que a que eles próprios fizeram. O que nestes textos se faz brilhantemente é desfazer certas confusões, como a que se faz entre entrega e dádiva, entre senhor e dominante, entre escrava e submissa, e sobretudo entre ser e representar.

Numa próxima oportunidade – ou antes, em duas próximas oportunidades – apresentarei neste blog as traduções de dois textos que exemplificam isto. Mas o “Different Loving” tem muito mais que dois textos merecedores de leitura atenta. Por isso o recomendo a quem saiba lê-lo em inglês.

Read Full Post »

Há o BDSM em todas as suas variantes. Há o estilo Gor, que, embora se baseie numa descrição muito coerente e pormenorizada dum mundo de fantasia, no mundo real tem variantes que decorrem, ora dos constrangimentos impostos pela nossa sociedade, ora pelas diferentes interpretações dos textos. Há contratos de vida entre marido e mulher, ou entre velhos amantes, que instituem a submissão, por vezes total, de um ao outro. Há histórias de amor que são histórias de dádiva e escravidão. Há “dominantes” que são misóginos, movidos não pelo amor, nem pela amizade, nem pelo simples e honesto desejo sexual, mas pelo mais intenso ódio às mulheres. Há “submissas” que não são submissas, mas vítimas: inventam desculpas para os seus opressores para assim se desculparem a si próprias pela sua fraqueza. Há “escravas” que o são por egoísmo.

Há homens e mulheres que lutaram durante décadas contra a sua natureza submissa ou dominante, e que acabaram por aceitá-la e por integrá-la nas suas vidas quotidianas, sem fazerem dela nem alarde, nem segredo.

E há uma proposta de vida diferente destas todas, que encontrei aqui: não é exactamente o meu ideal, mas tem muito em comum com ele. E pelo que li tem a vantagem de poder ser combinado e compatibilizado com outras opções… Para já fica o link. Espero que gostem…

Read Full Post »

Older Posts »