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Archive for the ‘Pessoal’ Category

Hoje estou um bocado cruel

Depois de ter posto a minha protagonista feminina em Milão, apaixonada, num apartamento de luxo, com um emprego fabuloso, e um Mini Cooper S da BMW na garagem, acabo agora de a colocar numa rampa escorregadia que a vai levar a um bordel em Amesterdão, viciada em heroína e quase destroçada.
Como se isto fosse pouco, matei o amor dela num incêndio.
Mas deixei-lhe alguns bons amigos… e tenho à espera dela um amor novo… Afinal não sou assim tão mau.

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Florbela Espanca começa o seu soneto Escrava com as seguintes palavras: “Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor”. Ao longo da minha vida várias mulheres me chamaram “meu dono” e “meu senhor”. A primeira que me chamou “meu Deus” foi a dunya: A primeira e a única, porque depois dela não tive outra escrava. E numa fase da vida em que tomei a decisão de nunca mais procurar activamente uma escrava, é improvável que alguma mulher me volte a chamar “meu dono” ou “meu senhor” – e muito menos “meu Deus”: uma coisa que descobri durante a minha relação com a dunya foi que esta forma de tratamento me desagradava e perturbava seriamente.

Duvido que me seja possível explicar todas as razões deste meu desagrado. Se eu acreditasse em Deus, poderia ver nestas palavras uma blasfémia e um sacrilégio, mas não acredito n’Ele. Uma razão que posso explicar é a seguinte: desde que me lembro tenho a noção profundamente enraizada de que todos os seres humanos são imperfeitos, incluindo eu próprio. Esta noção influencia praticamente todas as minhas atitudes em relação aos outros e a mim próprio, e leva-me a não esperar demasiado de ninguém. Como raramente me iludo, raramente sofro desilusões; e perdoar, para mim, não é especialmente difícil.

Não exijo a ninguém a perfeição. Exijo, sim, o aperfeiçoamento constante; mas mesmo isto só a mim próprio e a quem está directamente sob a minha autoridade. E aqui está uma das coisas que me incomodavam nas palavras da dunya: ao chamar-me “meu Deus” estava, ou a exigir-me a perfeição, ou a declarar-me perfeito. E isto, a meu ver, não era expressão de respeito, mas da mais profunda falta dele, porque equivalia a uma negação da minha humanidade. E se é na minha humanidade, com a sua inerente imperfeição, que eu centro a minha dignidade e o meu orgulho, então tanto me insulta quem pretender fazer de mim mais que humano como menos que humano.

Quando disse à dunya que a expressão “meu Deus” me incomodava e me fazia sentir mais diminuído do que homenageado, foi a vez dela de se ofender. Disse-me que com essa expressão estava a exprimir algo de muito verdadeiro e profundamente sentido, e que se eu lha proibisse estaria a negar-lhe uma forma de exteriorização da qual tinha verdadeira necessidade. Que essa necessidade lhe vinha dum sentimento de reverência, de veneração, de adoração que não conseguia guardar inteiramente dentro de si.

De modo que começámos os dois a tentar descobrir quando e em que circunstâncias essa expressão tinha mais tendência a vir-lhe à boca. Descobrimos que nunca a usava nem sentia vontade de usar quando saíamos juntos; nem quando ela me limpava o chão, me fazia a comida ou me passava a roupa a ferro, mesmo que o fizesse toda nua, ou só de avental, sentindo o meu olhar sobre ela; e mesmo na cama, quando eu a possuía, ou na sala, quando eu a vergastava, era muito raro ela dizer “meu Deus”.

Descobrimos que estas palavras lhe costumavam vir à cabeça e à boca numa situação muito específica: quando estava a meus pés, perante o meu sexo descoberto, tomando-o nas mãos ou na boca.

– Afinal o teu Deus não sou eu – acabei por lhe dizer. – É o meu pénis.

Ela achou que isto talvez fosse verdade; e eu achei que se o fosse isto não me desagradaria tanto. Pelo contrário, até me agradaria: não sei se isto se passa com outros homens, mas confesso que tenho uma forte tendência para sentir que o meu pénis, quando erecto, é a única parte de mim que é perfeita. Ousarei dizê-lo? Ouso: há algo em mim que acredita que o meu pénis erecto é a minha parcela de divindade.

Não vale a pena chamar para aqui as várias culturas e religiões espalhadas pelo mundo em que o culto do falo é um elemento importante. Nem me interessam as explicações sociológicas ou antropológicas deste facto. É uma realidade para a qual só quero olhar do ponto de vista do meu imaginário e dos meus afectos: e aqui este culto encontra uma profunda ressonância.

Que também a encontra nalgumas mulheres, provou-mo a dunya. E nos meus leitores e leitoras? Será que alguém que me está a ler já esteve envolvido em algo de semelhante a esta “adoração do falo”? Aguardo com muito interesse os vossos testemunhos e opiniões, quando mais não seja para saber que não estou sozinho.

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A editora Bico de Pena acaba de me informar que as minhas “Histórias de Mariana” não se enquadram no seu projecto editorial, nem mesmo na colecção Pena de Galo, que é especificamente dedicada a textos eróticos.

O remédio é tentar por outro lado. Infelizmente não sou jogador de futebol, nem pivot da televisão, nem namorado de nenhuma actriz de telenovela, nem cometi nenhum crime que me desse direito a tempo de antena (como bater num juiz ou subornar um árbitro), o que asseguraria à partida que fosse o que fosse que eu escrevesse seria publicado. Portanto tenho que ir pelo caminho mais difícil.

Acabo de enviar uma proposta de publicação, acompanhada de um excerto, a uma porção de editoras. Se está por aí alguém que tenha lido as “Histórias de Mariana” e gostado, porque não mandar um mail às editoras que conhece (e às que não conhece) a dizer isso mesmo? E já agora, pedir aos amigos com gostos semelhantes que façam também uma forcinha…

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Já aqui falei do blogue da sarinha: é o Abri a Porta, e merece uma longa visita. Quem é a sarinha? É uma menina que, nas suas próprias palavras, está longe de ser submissa, o que não a impede de ser uma “spankee” entusiástica nem de se ter dado como escrava ao namorado, por quem está apaixonada. Gosto dela por uma infinidade de razões: pelo apurado sentido da observação e do ridículo que a leva a rejeitar tudo aquilo no BDSM que é pré-formatado, pela frescura das suas abordagens, pela perspicácia com que detecta os poseurs, pela alegria com que se diverte à custa deles… A sarinha não gosta lá muito de guiões nem de liturgias impostas de fora. Pelo que escreve, parece-me senhora de um temperamento exuberante e irreprimível, o que provavelmente faz com que mereça umas palmadas no rabo várias vezes por dia… mas isto é assunto dela e do dono dela.

Pois a sarinha fez-me um elogio que me deixou desconcertado. Foi num comentário na versão WordPress deste blogue. Disse-me que o meu blogue era muito fashion e perguntou-me como conseguia.

Ora bem: até agora nunca na minha vida ninguém tinha chamado fashion a nada que eu tivesse feito. Fashion?! Mas eu nunca tive a intenção de ser fashion!

(Por esta altura lembrei-me das páginas finais do Peter Pan de J.M. Barrie, quando o Capitão Hook, que toda a vida se tinha esforçado por fazer tudo segundo as normas da good form, descobre ao lutar com Peter Pan que este tem good form sem nunca se ter esforçado por isso; pior, que tem good form precisamente porque nunca se esforçou por isso; e comecei a fazer uma ideia do que a sarinha queria dizer).

O que eu sempre me esforcei por fazer foi:

a) escolher imagens que ilustrassem minimamente (por vezes de forma muito indirecta ou até a contrario) os textos publicados e que não fossem uma repetição infindável da iconografia BDSM; as imagens podem ser escolhidas num ficheiro que tenho com o mesmo nome do blogue, ou posso pesquisá-las nas imagens do Google usando uma das palavras-chave do texto; por exemplo, no a imagem que escolhi para ilustrar a parte do ensaio de Polly Peachum em que ela se refere ao seu senhor como alguém com a vocação de curar foi encontrada digitando “healer” na pesquisa de imagens do Google;

b) escolher cores de texto que condissessem com os tons predominantes das imagens, mas obedecendo à regra das cores escuras sobre fundo claro – isto, em parte, porque na minha idade já não é muito fácil ler letras vermelhas sobre fundo preto e não quero exigir dos meus leitores que façam o que para mim é difícil.

c) encontrar uma forma de formatar textos do WordPress com recursos do Blogger – por exemplo, o Blogger permite-me determinar a cor do texto enquanto o modelo Mistylook do WordPress não tem botão para isso; então eu formato o texto no Blogger, com as cores que quero, copio o texto em HTML e colo-o, também em HTML, no WordPress. Isto funciona quanto às cores; quanto ao tipo de letra e à formatação dos parágrafos não funciona.

Falhanços: não encontro maneira de sair do menu de fontes muito limitado que tanto o Blogger como o WordPress fornecem. O meu post “Acta” foi feito (com muitas alterações) a partir de um documento que eu tinha no Word e que estava numa fonte toda às voltinhas, para ser impresso num papel tipo pergaminho antes de ser assinado por mim e pela dunya. Gostava de o ter publicado nessa mesma fonte, mas não deu; nem o Blogger, nem o WordPress assumiram essa fonte: ambos a interpretaram como um itálico, e foi assim que ficou.

E pronto, fiquei a saber que sou capaz de fazer uma coisa a que uma leitora que prezo muito chama fashion. Ó p’ra mim, todo inchado!

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close_collarAs condições da tua Escravidão

Pediste-Me que estabelecesse expressamente e por escrito as condições da tua Escravidão. Eis o que decidi:

1. Em princípio a tua Escravidão já é perfeita e não há nada a alterar n’Ela. Mesmo ao direito de deixar de ser escrava, que era o único que tinhas, quiseste renunciar. Cabe-te agora Amar, Servir, Obedecer e Sofrer enquanto tu e Eu formos vivos.

2. Na prática, contudo, ainda há muito que aperfeiçoar. Porque não te empenhas o suficiente; porque Me deixas em exclusivo o cuidado de te fazer escrava e não partilhas esse esforço, ainda há muitos dias em que não és mais escrava do que no anterior. Faltas assim ao teu dever e ao teu compromisso para coMigo.

3. Por vezes és insolente. Por vezes chegas a ser exigente. O teu corpo nem sempre obedece ao teu espírito. O teu Senhor compreende isto e não to leva a mal, mas precisamente porque compreendo é que exigirei de ti cada vez mais.

4. És escrava no teu espírito, que consente; és escrava no teu coração, que ama; és escrava no teu corpo, quando goza; mas ainda não aprendeste a ser cabalmente escrava no teu corpo, quando sofre.

5. Sei que não és masoquista e que a dor física não te dá prazer. Prefiro que assim seja: quando te provoco dor é para te castigar e não para te recompensar; ou então é para Meu prazer e não para o teu.

6. Quando aceitas com submissão a dor que te provoco, sei que estás a sofrer por Mim, e não para teu próprio gozo. É uma dádiva que Me fazes, e Eu tenho perfeita consciência de quão grande ela é.

7. Quando te castigo fisicamente estou a ser generoso. O castigo físico é o menos cruel dos castigos: faz sofrer naquele momento, mas rapidamente termina; as marcas que deixa são no corpo e duram pouco.

8. Por vezes tentas esquivar-te quando és castigada: é o teu corpo a desobedecer ao teu espírito. Isto é indigno de ti e do compromisso que assumiste coMigo. Como esperas obedecer ao teu Senhor se nem a ti mesma obedeces?

9. Quando te deixas amarrar tenho bem consciência do quanto estás a confiar em Mim. É essa confiança que exijo de ti: sei que não sou mau nem estúpido, que me sei controlar, e não te castigarei mais do que mereces e podes suportar.

10. Mas também não te castigarei menos do que mereceres e puderes suportar.

11. O teu Senhor sabe bem o quanto necessitas de ser amada. Mas não te permite que digas “quero ser amada”, porque nem nisso tens querer. O amor duma escrava aceita com gratidão a sua contrapartida, mas nunca a exige.

12. O mais que podes pedir, quando estás perdida de amor e necessitas absolutamente da atenção do teu Dono, é que Ele te possua. E Eu possuir-te-ei ou não, como entender, e permitir-te-ei ou não que tenhas prazer; e tu ficarás feliz porque é assim que deve ser.

13. Entre ser amada explicitamente e ser possuída vai uma enorme ausência repleta de Sofrimento. Por isso te chamo, com inteira propriedade, a Minha “escrava sofredora”, o que quer dizer que Me deves amar como se Eu não te amasse.

14. Se Eu te amo, raramente to direi, ou nunca. Preencherás tu própria este silêncio, dizendo-Me vezes sem conta, sem mentir nem ocultar seja o que for, tudo o que sentes por Mim: desde o amor até à raiva, desde a gratidão ao ressentimento. Apresentar-te-ás perante Mim tão nua de alma e sentimentos como de corpo. Permitirei assim que mitigues o Sofrimento que o Meu silêncio te possa provocar.

15. Também te imponho, frequentemente, o silêncio. Quero que estas ocasiões sejam para ti a oportunidade de dizeres sem palavras o que muitas vezes não pode ser dito através delas.

16. Às vezes ousas lembrar-Me que tens sentimentos. Eu sei que os tens, mas quero que manifestes os que exprimem a tua Escravidão antes de manifestares os outros.

17. Quando o Eu te perguntar se gostarias de alguma coisa, a tua resposta tenderá a ser “sim, se Tu mo ordenares”.

18. A tua Escravidão não é um jogo, nem uma brincadeira, nem uma fantasia, nem um teatro: é a tua condição de vida, a tua realidade assumida.

19. Quero que sejas feliz na tua Escravidão: obedece-Me também nisto. Não representes o papel de escrava: sê escrava.

20. Junto do teu Senhor estás em terreno sagrado: em Minha casa e no Meu automóvel estarás sempre descalça, esteja Eu presente ou não. Também estarás descalça em tua casa sempre que Eu estiver presente.

21. Na rua e noutros lugares ficarás descalça sempre que Eu to ordene, porque os teus pés nus são a Coleira de escrava que determinei para ti. Se a obediência a esta ordem te causar por vezes embaraço, humilhação ou vergonha, e se estes sentimentos te fizerem sofrer, aceitarás este Sofrimento de bom grado porque te vem de Mim.

(Nota: este texto é pura ficção, embora se modele num documento que a minha dunya me dirigiu há alguns anos. O carácter ficcional vem-lhe das alterações que lhe introduzi, desde logo a transformação de um texto em que a escrava se dirigia ao Senhor noutro em que o Senhor se dirige à escrava. Também aparecem nele mencionados sentimentos meus que na altura não manifestei; se eu algum dia, por algum improvável acaso, voltar a ter uma escrava a quem ame, não voltarei a cometer o erro de não o referir. E é ficcional, finalmente, porque o compromisso para toda a vida referido no original acabou por não se realizar.)

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A minha mão aparta os teus cabelos.
É a direita: mão de dono ou mestre
Assim como quem colhe uma flor silvestre.

Evitas os meus olhos. Não queres tê-los
Fixos nos teus. Viras o rosto
E contemplas o chão no lado oposto.

Foges um pouco, indócil, ao meu toque;
Mas os lábios que busco, não mos negas
Na primeira de todas as entregas.

Num gesto mudo, pedes que coloque
No teu pescoço a mão que te domina
Prendendo-a com a cabeça que se inclina.

Sobre o teu ombro uma pressão ligeira
Que tu tão bem entendes. Ajoelhas.
Tens as faces um pouco mais vermelhas.

Olhas para o meu corpo de maneira
Que vês o meu desejo; e então, por fim
Elevas os teus olhos para mim.

(Poema feito para a dunya, a pedido dela, quando tudo não tinha ainda desabado)

(Publicado no Blogger a 19 /01/08 )

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Há coisas na vida que já me resignei a não saber, e uma delas é se as mulheres são naturalmente submissas.

As teorias, conheço-as todas mas não acredito em nenhuma. Falarei portanto das mulheres que conheço pessoalmente: umas autoritárias e dominantes; outras comprometidas ideologicamente com o feminismo e a igualdade entre os sexos; outras ainda – a maioria – indecisas e contraditórias; e outras, finalmente, possuídas pela paixão de obedecer e servir.

Olho para estas mulheres e todas elas, com excepção das feministas doutrinárias, me parecem «naturais». Mas há uma coisa em que as submissas se distinguem das outras: a intensidade com que vivem a sua escolha.

Não se trata aqui de paixão ideológica, mas de algo muito diferente. As submissas não teorizam, vivem. Não é que não sejam inteligentes: são-no tanto como as outras, ou mais, e usam essa inteligência com uma lucidez que por vezes chega a ser arrepiante. Mas é uma inteligência que tem tudo em consideração, até o mistério; e nunca conheci nenhuma submissa que não reconhecesse e celebrasse o mistério da sua natureza.

Uma amiga minha, muito activa no meio BDSM, diz-me repetidamente que aconteça o que acontecer – saldem-se~as suas experiências e relações futuras em êxitos ou em fracassos – «baunilha» é que nunca mais. Ouço-a e fico maravilhado perante alguém que – coisa rara nos tempos que correm – sabe exactamente o que quer.

Outra boa amiga – em cujo vocabulário não entram, de resto, expressões como «BDSM» ou «baunilha» – põe as coisas de modo diferente. Exprime-se em termos duma epifania, duma iluminação súbita, duma descoberta. Para ela há, muito nitidamente, o «antes« e o «depois». Houve uma vida dita «normal», depois houve o contacto com um mundo de possibilidades centradas no obedecer e no servir; e agora há a convicção inabalável de pertencer a este mundo.

De onde vêm estas mulheres? De que mundos, de que vidas, de que experiências? Sabe-se que para cada acção há uma reacção igual e oposta: tratar-se-á aqui duma reacção aos excessos doutrinários do feminismo radical? A hipótese é tentadora mas pouco convincente, até porque não faltam zonas de intersecção entre certas formas de submissão e certas correntes feministas (veja-se a este respeito a reacção inicial de Andrea Dworkin, que mais tarde mudou de ideias, à História de O). Mais plausível é tratar-se duma reacção à morte do amor romântico anunciada esta semana pela revista Time: Hollywood já não conta histórias de amor; Humphrey Bogart já não se despede, de coração partido, de Ingrid Bergman; Rhett Butler já não beija apaixonadamente Scarlett O’Hara. No mundo de hoje o amor romântico já não tem lugar: quem ama serve, quem ama está preso, e poucos querem servir ou estar presos.

E contudo…

E contudo lembro-me do amor cortês na Idade Média. Olho para as submissas, tão belas e tão nobres na sua servidão, e lembro-me do amor cortês. Os temas estão lá todos: o serviço, a abnegação, muitas vezes a não-consumação ou a consumação adiada do amor físico. A diferença é que hoje quem está sentado no trono é um homem e quem está de joelhos perante ele é uma mulher. É justo.

Porque são apaixonadas; porque mantêm acesa uma chama que não se pode, não se deve apagar; porque vão ao fundo de si próprias e não têm medo do que lá encontram; porque são as guardiãs do Mistério neste tempo de máquinas e simplismos – por tudo isto, quero prestar hoje a minha homenagem à «d», à «k», à «a», à outra «a», à «i» e a todas as outras submissas e escravas com quem tenho aprendido tanto.

(Publicado no Blogger a 27/08/07)

(Publicado no Blogger a 27/08/o7)

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Um olhar triste

Hoje, na rua, cruzei o olhar com uma mulher triste.

Triste na expressão; não parecia tensa, nem preocupada, nem deprimida, nem infeliz: apenas triste.
Achei-a muito bela.
Será que gosto de mulheres tristes? Talvez, um pouco. Mas também gosto de mulheres alegres; e destas gosto tanto mais, quanto a alegria que sinto nelas vem de dentro, como uma luz suave.
Há mulheres aparentemente tristes que são felizes. Talvez seja destas que gosto mais. E às vezes penso que a minha maior felicidade poderia estar em dar a uma mulher uma felicidade assim.
Ou em trabalhar para isso.
Também há mulheres alegres que são infelizes. A estas, admiro-as muito, mas não me imagino apaixonado por elas. É que além de as admirar, sinto pena delas, e não é possível amar alguém de quem se tem pena.
Pelo menos para mim não é possível.
Mulheres alegres e ao mesmo tempo felizes? Não sei se as há, não sou capaz de ver assim tão fundo no coração humano. Mas se as há, devem ser como as crianças: muito fáceis de amar, mas impossíveis de desejar.

(Publicado no Blogger a 29/03/07)

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serchukEstavas deitada no chão aos meus pés, toda nua, como já se ia tornando costume. Quando eu te disse «dá a barriga» ficaste um pouco admirada, talvez por eu nunca antes te ter feito esta exigência. Mas percebeste imediatamente do que se tratava: é o que eu digo sempre à tua gatinha quando chego a tua casa e ela se começa a rebolar no chão a pedir festas.
Com uma risadinha, também tu te rebolaste e ficaste de barriga para cima, com as pernas e os braços no ar; e eu, sentado no sofá, inclinei-me para a frente e comecei a fazer-te festas no umbigo, nas mamas, no pescoço. E comecei também a fazer-te festas com os pés: tinha-os um pouco frios e soube-me bem metê-los entre as tuas coxas, aninhá-los na tua coninha tão quentinha.
Ainda murmurei:
– Dá a barriga, minha escrava.
E tu ronronavas, ronronavas…

(Publicado no Blogger a 25/12/06)

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art-psamathe-leightonDizias: «não me submeto, entrego-me.» E falavas duma entrega que era como um empréstimo ou uma procuração, quando eu estava a falar duma dádiva.

Dizias: «disto tenho a certeza: sou e serei sempre uma submissa.» Depois de dizeres que não te submetias. Não, minha querida. Se eu quiser ir pala sombra e tu também, vamos os dois pela sombra. Mas se eu quiser ir pelo sol e tu pela sombra, a minha vontade prevalece e vamos pelo sol: submetes-te, sim, e submetes-te todos os dias, a todas as horas e em todas as coisas.

«Mas eu quero ser uma escrava perfeita», dizias tu. «A vontade duma escrava perfeita coincide sempre com a do seu Senhor, por isso não é necessário submeter-se.» As escravas, minha querida, não são clonadas dos seus Senhores. Têm existência própria, felizmente, e vontade própria. Como têm vontade própria serão sempre, felizmente, escravas imperfeitas. Por mim, não trocaria esta imperfeição por nada deste mundo: se o Senhor não tivesse vontade própria que prevalecesse sobre a da sua escrava, ou se a escrava nao tivesse vontade própria que se subordinasse à do seu Senhor, não haveria domínio nem submissão.

Dizias: «não aceito sofrer e nunca sofri. Tudo o que alguma vez fiz me deu prazer, mesmo o que me fez gritar ou chorar.» Talvez; mas um dia vais encontrar um Senhor que te vai ensinar a sofrer. Vai-te ensinar que as chicotadas só são contadas a partir do momento em que deixam de dar prazer a quem as recebe.

Dizias: «nunca fui e nunca serei castigada.» E eu respondo-te agora: uma escrava é castigada sempre que merece, e à vezes sem merecer. Se nunca o foste, sê-lo-ás muitas vezes no futuro.

Dizias: «um Senhor que castiga é um Senhor cruel, e eu odeio a crueldade.» Minha querida, mesmo que me odeies por isso eu sou cruel. Também sou terno, e a minha ternura não é de mentira; mas não te iludas: se eu fosse o teu Senhor teria muitas vezes prazer em fazer-te sofrer, e em ultrapassar o prazer que tu própria tivesses.

Dizias: «não há castigos, nem punições: há práticas.» E eu contradigo: não há práticas, há punições. E acrescento: não há práticas, há recompensas.

Mais importante do que isso: não há práticas, há símbolos. E estes, para não serem mentirosos, têm que significar alguma coisa real: amor antes de mais, e acessoriamente ternura, alegria, tristeza, submissão, revolta, orgulho, humildade… Tudo o que se faz entre Senhor e escrava, como tudo o que se faz entre qualquer par de amantes, tem um sentido, tem um significado, tem antecedentes e tem consequências.

Dizias: «se fosse tua escrava nunca aceitaria beijar a vergasta, porque isso para ti é um castigo.» Acrescentavas: «é um limite absoluto.» E explicavas-me todos os teus outros limites absolutos. E eu sorria, porque se fosses minha escrava eu não aceitaria a maior parte desses limites «absolutos». Não aceitaria, certamente, os que me parecessem triviais ou arbitrários. Aceitaria os que coincidissem com os limites da tua escravidão, e isto significa que no momento em que transgredíssemos algum, fosse por erro meu ou teu, a tua escravidão estaria terminada.

Beijarias a vergasta, sim. Fá-lo-ias quando o gesto fosse meramente simbólico e se destinasse a exprimir submissão, mas também o farias quando fosse, realmente, um castigo.

Perguntavas-me que conhecimentos tenho. Das práticas, do BDSM, muito menos que tu, certamente. Do resto, que é o que importa, suficientes para ser o teu mestre.

Publicado no Blogger a 24/09/06

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– Terias que ser minha escrava – disse ele.

Dúnia não hesitou:

– Sempre fui tua escrava…

No outro extremo da ligação telefónica fez-se um longo silêncio. Por fim ouviu-se a voz dele, mais grave, e com um laivo de ternura (ou seria respeito?) que Dúnia nunca lhe tinha ouvido antes:

– Dás-te conta do que estás a dizer? Sabes o que implica ser escrava de um homem como eu?

Tudo o que Dúnia sabia era que o adorava como a um Deus, que já tinha sofrido muito por ele e que estava disposta a sofrer muito mais, contanto que ele nunca a deixasse: não era isso ser escrava? Mas reuniu forças para responder:

– Não sei… Mas não me importo, faz de mim o que quiseres.

Então ele explicou-lhe: era ele ter todos os direitos sobre ela e ela nenhuns sobre ele – nem sequer sobre si própria; era estar sempre disponível para ele, com todas as aberturas do seu corpo; era contentar-se com qualquer migalha de amor que ele lhe atirasse; era obedecer-lhe em tudo – não só no que lhe desse prazer a ela, mas também, e principalmente, no que mais lhe custasse fazer e no que mais lhe parecesse arbitrário e sem sentido; era estar pronta a ser punida quando lhe desagradasse e a não ser recompensada quando lhe agradasse; e era sobretudo nunca mais se pertencer a si própria.

– Só terás um direito: o de deixares de ser minha escrava quando quiseres.

Dúnia ouviu isto tudo sem verdadeiramente ouvir, aturdida por uma sensação de volúpia que a fazia como que dissolver-se nas palavras pausadas que lhe chegavam pelo telefone e das quais se destacava, como um farol no nevoeiro, a palavra amor. A palavra amor na voz dele.

– Compreendes bem o que eu te estou a dizer, Dúnia?

– Sim, compreendo…

– E consentes em tudo?

– Sim…

– Então diz: sim, meu senhor.

Foi a vez de Dúnia fazer um longo silêncio. Se esta exigência lhe era tão doce, porque é que lhe custava tanto obedecer-lhe? Por fim conseguiu dizer:

– Sim, meu senhor.

Teve medo que ele não tivesse ouvido o murmúrio final, e que a mandasse repetir tudo. Mas não, ele nada lhe exigiu, parecia aguardar que ela continuasse a falar. Dúnia respirou fundo e acrescentou:

– Vamo-nos encontrar? Meu Senhor.

– Sim, estou aí dentro de hora e meia ou duas horas, depende do trânsito. Espera por mim de saia ou vestido, não te quero ver de calças. Sem nada por baixo. E descalça.

Dúnia admirou-se:

-Descalça porquê?

– Porque eu to ordeno – respondeu ele com um sorriso na voz. – Não chega?

E logo, num tom mais sério, sem lhe dar tempo a responder:

– Por três razões: porque eu to ordeno, porque uma mulher descalça é sempre bela, e porque os pés nus são um símbolo de submissão muito antigo, e que me diz muito. Espera-me descalça, é importante.

Mal desligou, Dúnia pôs-se a preparar tudo. Só hora e meia! Talvez nem isso: de Heidelberg, onde ele vivia, a Freiburg, onde vivia ela, pelas auto-estradas alemãs, leva-se uma hora no máximo. Mas talvez ele precisasse de tempo para se arranjar, e com isso lhe desse oportunidade de arrumar a casa, comprar flores, velas e comida, preparar o jantar, lavar-se, perfumar-se, vestir-se, enfeitar-se…

Uma hora e meia depois Dúnia tinha tudo pronto e estava à espera, vestida com uma saia larga de algodão castanho que lhe dava pelo tornozelo, com um top de alças de côr alaranjada e calçada com umas chinelas havaianas enfeitadas com missangas de cores quentes – certamente era isso que ele tinha querido dizer quando lhe tinha ordenado que o esperasse descalça, não era? Não tinha que ser descalça mesmo, com certeza, e as chinelas eram tão lindas…

A campainha da porta sobressaltou-a. Pegou no intercomunicador. Era ele.

– Sobe.

Com o coração a bater descompassado, Dúnia abriu a porta do apartamento, que deixou encostada, e pôs-se à espera, atenta ao barulho do elevador. Sentiu-o arrancar e depois parar, arrancar de novo. Estava a subir! No momento em que ouviu o som das portas a abrir-se pensou em correr até ao quarto e descalçar-se. Porque é que não se tinha descalçado? Agora não havia tempo, ele estava aí, estava à porta. Recuou para a sombra, para onde ele não a visse logo.

Sentiu-o mexer na porta:

– Está aberta, entra!

Ele entrou. Trazia um pequeno saco que devia trazer uma muda de roupa e alguns artigos de toilette. Estava mais magro? Sim, estava mais magro. Ela é que tinha engordado: de repente sentiu-se uma matrona balofa e pesada à beira dele, e ao ver que ele a olhava de cima a baixo sentiu-se ruborizar.

– Estás mais bonita, Dúnia.

Mais bonita, ela? Com aqueles pneus? Como podia ele achá-la bonita? Mas antes que tivesse tempo de se convencer completamente que estava feiíssima, ouviu-o dizer:

– Desobedeceste-me. Tinha-te dito que me esperasses descalça.

– Era mesmo preciso? Estou praticamente descalça. Não são bonitas estas chinelas? – e lançou-lhe os braços ao pescoço para o beijar.

Ele abraçou-a e retribuiu-lhe o beijo: ao princípio com ternura, depois, logo a seguir, com avidez e paixão. Era este, então, o sabor da boca dele! Dúnia tinha esperado tão longamente por estes braços, por esta boca, e agora bebia dela, insaciável. Colada contra ele, sentiu-lhe a erecção mesmo através do sobretudo grosso. «Ele deseja-me!» E abraçou-se a ele com mais força.

Mas cedo, demasiado cedo, sentiu que ele a afastava e pousava a sacola no chão.

– Ajoelha-te.

As mãos dele nos ombros dela confirmavam a ordem. Um pouco contrafeita, ajoelhou-se no chão do hall de entrada, sobre o tapete; para que ele não lhe visse a cara virou a cabeça para o lado e para baixo e apertou a face esquerda contra o corpo dele, só para lhe sentir a dureza do pénis por baixo da roupa.

– Beija-me a mão.

Beijar-lhe a mão? Não era assim que Dúnia tinha imaginado este primeiro encontro, mas não lhe custou obedecer. Ser escrava era isto? Não era muito difícil, pelo contrário. As mãos dele eram bonitas, delicadas, com dedos finos, quase de mulher – mas quando a agarraram pelos braços para a pôr de pé, a força que exerceram era a dum homem.

Depois de a apertar contra si e de a beijar de novo, ele pediu-lhe que lhe indicasse a casa de banho. Era à direita do hall. A porta a seguir dava para a cozinha, e passada esta estava-se na sala. Dúnia pegou-lho no sobretudo, no chapéu, nas luvas e no cachecol e pendurou tudo no armário da entrada.

A mesa na sala já estava posta com dois lugares.

– Queres beber alguma coisa, meu querido?

Ele sentou-se no sofá.

– Quero, minha escrava – respondeu ele. – Traz-me um copo de água. Tenho sede.

E quando ela, meio atordoada pela naturalidade com que ele lhe tinha chamado escrava, se começava a afastar em direcção à cozinha, acresentou:

– E descalça-te para mo servires.

Era mesmo verdade, então, que ele a queria descalça. Depois de deixar as chinelas no quarto, Dúnia foi à cozinha para deitar água num copo. Depois levou-o para a sala e ia entregar-lho, mas ele não lhe pegou.

– Serve-me de joelhos. Quando me servires alguma coisa deves fazê-lo sempre de joelhos.

Desta vez Dúnia não achou tão estranho ajoelhar-se diante dele, talvez porque nessa posição lhe era mais fácil entregar-lhe o copo. À medida que bebia a água em pequenos goles ele acariciava-lhe os cabelos. Ela, na posição em que estava, não podia mais do que beijar-lhe as mãos. Às vezes tentava soerguer-se para o beijar na boca, mas ele não lho consentia: em vez disso inclinava-se ele e, puxando-a pelos cabelos, punha-lhe o rosto a jeito para a beijar.

Conversaram assim durante algum tempo, ele sentado no sofá, ela de joelhos diante dele, beijando-lhe as mãos e ouvindo as regras por que de futuro se regeria. Estava calor, Dúnia tinha posto o aquecimento no máximo: a meio da conversa ele teve que despir o pullover para ficar em mangas de camisa.

Durante o jantar Dúnia experimentou pedir-lhe que lhe permitisse calçar-se, o que ele recusou tranquilamente mas com firmeza. No fim da refeição ela pôs a tocar um CD de Loreena McKennit que ele lhe tinha oferecido meses antes pelos anos, quando ainda eram apenas bons amigos; e enquanto ele o ouvia sentado no sofá ela levantou a mesa e arrumoun rapidamente a cozinha. Por fim foi ajoelhar-se aos pés dele (sem que ele lho ordenasse, desta vez) e recomeçou a beijar-lhe as mãos. Desta vez, porém, ele não se mostrou tão esquivo: não só não a proibiu de se levantar como a puxou para cima, beijando-lhe a boca e metendo-lhe a mão no decote para lhe rolar os mamilos entre os dedos. Os seios estavam nus por baixo do top, tal como ele tinha ordenado. Os dedos dele apertavam-lhe os mamilos com força, fazendo-lhe doer: como teria ele adivinhado que era isso que ela queria?

Também as nádegas estavam nuas por baixo da saia, como a mão exploradora dele não tardou muito a confirmar. Quando sentiu a mão dele a tocá-la no sexo húmido, ela quis-lhe desapertar as calças: ele consentiu mas obrigou-a a continuar de joelhos. Tinha o pénis um pouco curto mas bastante grosso, curvado para cima, e circuncidado.

– Posso beijá-lo? – perguntou Dúnia.

– Sim, mas pede como deve ser.

– Posso beijá-lo, meu Senhor?

– Começa por beijá-lo, sim. Depois vou ensinar-te a lambê-lo e a chupá-lo a meu gosto: aprende bem, porque tenciono possuir-te muitas vezes pela boca. Mas primeiro põe-te nua.

Dúnia era suficientemente pudica para nunca ter tirado a parte de cima do bikini na praia, porém não tanto que nunca nenhum namorado a tivesse visto nua. Mas nunca assim, nunca como lhe estava agora a ser exigido: o normal, para ela, era ir descartandoa roupa à medida que as carícias iam progredindo, ou então despir-se sozinha na casa de banho e dar meia dúzias de passos apressados para a cama, cobrindo-se logo com os lençóis. Despir-se assim, na sala, pelas suas próprias mãos, perante um homem sentado e vestido que não parava de olhar para ela com um pequeno sorriso indecifrável – isso ela nunca o tinha feito. Tinha mesmo que ser?

– Tem mesmo que ser, minha escrava. Quero que te dispas para mim.

Dúnia deu um suspiro, pôs os olhos no chão para ele não a ver ruborizar e tirou o top, ficando com os seios à mostra. Tinha os mamilos rosados e as aréolas muito claras. Lentamente, sentindo os olhos dele postos nela, dobrou o top e colocou-o sobre uma das cadeiras da sala.

– Anda cá, Dúnia…

Ainda de olhos baixos, aproximou-se dele, que lhe pôas as mãos nos ombros, a fez ajoelhar e começou a beijá-la na boca, acariciando-lhe os seios ao mesmo tempo.

– Continua…

Levantou-se para tirar a saia, mas antes que o fizesse ele deteve-a:

– Primeiro solta os cabelos.

Dúnia começou a tirar um por um os ganchos e alfinetes que lhe prendiam o cabelo e a pousá-los na mesinha baixa ao lado do sofá. Os seios nus oscilavam a cada movimento. Dúnia queria virar-se de costas para os esconder, mas o olhar dele prendia-a. À medida que o cabelo se lhe espalhava pelos ombros também o rubor se lhe espalhava pelo rosto e pelo peito sardento.

– Já está…

– Agora o resto – disse ele.

Dúnia desatou a fita com que a saia se apertava e tirou-a por baixo, equlibrando-se ora num pé, ora noutro. Dobrou a saia à frente do corpo, adiando assim o momento em que ele lhe veria o fundo do ventre. Quando teve de se virar para pousar a saia na cadeira sentiu os olhos dele como uma queimadura sobre as nádegas brancas e redondas. Sem tirar os olhos do chão virou-se de novo para ele com as mãos a tapar o sexo.

– Agora despe-me a mim.

Dúnia inclinou-se sobre ele para lhe desabotoar e despir a camisa. Ele sorriu-lhe, beijou-a ao de leve e ordenou-lhe:

– Beija-me os mamilos.

Dúnia não sabia que os homens também gostavam de ser beijados nos mamilos, nenhum dos seus namorados anteriores lho tinha alguma vez pedido; mas aplicou-se com prazer nesta tarefa até ele lhe ordenar que continuasse a despi-lo. Ajoelhou-se, e ia desapertar-lhe o cinto quando ele lhe segurou os pulsos, a beijou, e disse:

– Não, minha escrava, assim não. Primeiro os sapatos.

Era inverno lá fora, e nevava. As botas almofadadas de camurça preta eram difíceis de tirar, tal como as grossas peúgas verdes, iguais às usadas pelo exército suíço. Dúnia teve que fazer força. Depois soergueu-se para lhe desapertar o cinto e puxar as calças para baixo. Por fim, as cuecas, molhadas à frente, junto ao elástico, pelo líquido que a excitação dele produzira.

– Beija-o agora, escrava.

Lentamente, humildemente, com a palavra escrava a ecoar-lhe nos ouvidos, Dúnia inclinou a cabeça em direcção ao sexo erecto do seu Senhor. Sabia que mais tarde ele a acompanharia ao quarto e se deitaria com ela na cama limpa e perfumada, já preparada para os receber; mas neste momento tudo o que queria era ficar assim a servi-lo, eternamente de joelhos.

(Publicado a 03/08/06)

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Ou: Mistérios da Alma Feminina

Ela aceita que ele a ignore. Aceita que ele a convoque sem aviso. Aceita ser criada dele. Aceita que ele lhe proíba o orgasmo. Aceita que ele a amarre. Aceite que ele a use. Aceita que ele a vergaste. Aceita que ele a canse toda a noite quando tem que trabalhar no dia seguinte. Aceita que ele tenha outras escravas. Aceita que ele a entregue a outros homens. Até já aceitou, em teoria, que ele a marque com um ferro em brasa.
Só não aceita que ele lhe escolha a roupa.

(Publicado no Blogger a 31/07/06)

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Estavas a viver em … digamos, em Brugges, como a personagem da minha ficção que te retrata. E eu vivia, digamos, em Heidelberg. Combinámos um fim de semana em Paris: eu marquei o hotel e um espectáculo, e encontrámo-nos na Gare de L’Est.
Gostaria de poder dizer a quem lê este post que te apeaste descalça do comboio, mas não apeaste – julgo recordar-me, de resto, que não to tinha ordenado. Nem me cumprimentaste beijando-me a mão, e isso lembro-me de o ter querido.

Trazias uma saia larga e comprida – não, não era a vermelha, essa vestiste-a no dia seguinte – e não trazias soutien. O hotel não era longe e a bagagem não era muita: fomos a pé. Subimos logo para o quarto. Tomámos duche, vestimos os roupões – às vezes éramos assim pudicos, e ambos gostamos do toque do cetim – e saciámos no corpo um do outro a nossa fome de meses. Depois saímos e começámos a andar até à Pigalle, que era longe: mas ainda era de dia e nós não tínhamos pressa. Lembro-me que a cidade nos pareceu bastante suja – por essa altura o nosso termo de comparação não era Portugal – mas não nos importámos porque estávamos na disposição de ter prazer em tudo. Subimos na galhofa o Boulevard Magenta, percorremos Rochechouart aos beijos. Perto do Moulin Rouge entrámos num pequeno bar onde se tocava jazz e depois continuámos até ao fim do Boulevard de Clichy.

De repente deu-nos a pressa. Tínhamos que ir para o hotel, já, já. Tomámos um táxi, subimos ao quarto, despimo-nos à pressa e não quisemos saber, nem do teu robe cor de pérola, nem do meu robe vermelho. Os dois nus, eu Senhor e tu escrava, recomeçámos o nosso ritual de beijos e carícias. Partilhando a cama connnosco tinha eu posto a vergasta que tu já conhecias, aquela com o punho e a ponta em cabedal negro e revestida a seda vemelha em todo o comprimento.

Era linda, a vergasta, não era? Mais tarde, muito depois de nos separarmos, vim a usá-la na Dúnia, e mais tarde ainda, talvez te interesse saber, deitei-a fora. As saudades que tive quando a deitei fora, tive-as de ti.

Nessa noite não usei a vergasta nem fiz contigo nada que não pudesse ser feito por um casal baunilha. (Não sabes o que é um casal «baunilha»? Eu também não sabia, nessa altura. É um casal em que não há domínio nem submissão, ou em que o domínio e a submissão são impostos por um ao outro por meio de violências, chantagens e mentiras. Só mais tarde vim a aprender isto, quando aprendi o que era o BDSM. Também não sabes o que é o BDSM? Deixa lá, não é importante, éramos BDSM sem o sabermos ou então nunca o fomos: as palavras são só palavras e o que havia entre nós era outra coisa. Sem violências nem chantagens nem mentiras: do primeiro ao último dia e mesmo para além deste).

No dia seguinte fomos passear pela cidade. Nessa altura, sim, levaste a tua saia vermelha até aos pés e uma T-shirt ou blusa de seda cinzenta, forrada à frente para não se verem os seios. Por cima trazias um casaquinho branco. Andámos nos jardins do Louvre e nas Tuilleries, na Place de la Concorde, e quando atravessámos a ponte para a margem esquerda exigi-te que te descalçasses, o que fizeste entre risos e corando um pouco. Nessa figura percorreste comigo um pouco do Boulevard Saint-Germain, depois voltámos à esquerda em direcção ao rio.

Nas imediações do Museu d’Orsay, numa esplanada, almoçámos; durante o almoço permiti que te calçasses o tempo suficiente para entrares no restaurante, ires à casa de banho e virares a blusa de trás para a frente de modo a que se te vissem os seios à transparência. Protestaste um pouco, mas sabias muito bem que tu própria tinhas mencionado logo de manhã essa possibilidade… e de qualquer modo, com o casaquinho branco vestido mal se notava, como mal se notavam os teus pés nus por baixo da saia comprida.

Sentados nos degraus do museu, tirámos fotografias um ao outro e pedimos que no-las tirassem. Ainda tenho uma das tuas, sentada nos degraus, descalça, com o casaquinho branco pousado ao teu lado. Estás a rir e fazes menção de tapar a cara com a mão, como uma japonesinha envergonhada.

Depois não sei se visitámos o museu ou não. Tantas vezes o visitei sem ti, e não consigo lembrar-me se o visitei contigo! Lembro-me que andámos a fazer tropelias ao longo do Sena: pisaste descalça a ponte de la Concorde, as pontes des Invalides, Alexandre III, de l’Alma… Eu tirava-te fotografias quando havia poucas pessoas à nossa volta e consentias, a medo, em tirar o casaco e exibir-me os seios sob a blusa.

Como fomos parar ao Arco do Triunfo, não sei. Talvez tenhamos ido de metro, não me lembro. Descemos os Champs Élysées a todo o comprimento, a pé, sem que eu te autorizasse a calçares as socas; atravessámos de novo a praça de la Concorde e, ao entrarmos na rua de Rivoli, exigi-te que tirasses de novo o casaco, o que fizeste com uma espécie de orgulho. É curioso como nunca te enganavas a distinguir uma ordem dum pedido, embora dados pelas mesmas palavras e no mesmo tom de voz.

A maior parte das pessoas que se cruzavam connosco fingiam que não te viam os seios à transparência, mas houve um senhor – lembras-te? – que não conseguiu conter um pequeno movimento de surpresa que te fez corar (e a mim me deliciou).

Senti, porém, pouco depois, que tinha chegado a altura de te deixar calçar e de permitir que vestisses a blusa na posição habitual. As sombras começavam a alongar-se. Comemos por ali, magret de canard acompanhado a Châteauneuf-du-Pape, e metemo-nos num taxi para irmos ao hotel mudar de roupa. Tínhamos bilhetes para o Crazy Horse que imaginávamos, não sei porquê, que ficava na zona de Pigalle. Afinal ficava na zona de l’Étoile, não muito longe da Avenue Foch, por cujas transversais tínhamos andado nesse dia ou havíamos de andar no seguinte – não me lembro de mais do que isto – a ver nas montras peças de design de Issey Myake e doutros monstros sagrados.

No Crazy Horse bebemos vodka com sumo de laranja. Achaste graça ao nome em inglês da mistura, screwdriver, chave de parafusos, e durante um bocado não nos cansámos de fazer uns trocadilhos bastante pueris sobre as diversas acepções da palavra. Outra coisa que te divertiu imenso foi o trajo das bailarinas num dos números, uns vestidos transparentes iguais ao teu, com a diferença que não tinham forro. Tinhamo-lo comprado em Brugges; era roxo e caía em pontas assimétricas até quase ao tornozelo. As bailarinas estavam nuas por baixo dos vestidos, como tu, mas nelas isso era visível e em ti não.

Na rua, e depois no táxi, estavas perdida de riso e de tesão. Durante todo o percurso para o hotel beijei-te e masturbei-te, e as tuas mãos não pararam de me tentar desabotoar as calças. O motorista guiava, aparentemente impassível, mas a toda a velocidade e cortando todas as esquinas. Depois de nos deixar no hotel arrancou bruscamente, com um chiar de pneus: quem diria que nós os dois íamos conseguir escandalizar um motorista de táxi parisiense!

No quarto tiraste o forro ao vestido, calçaste de novo os sapatos de salto alto com que tinhas saído, e fizeste para mim um Crazy Horse que não ficou atrás do outro. As fotografias que te tirei nessa altura, já não as tenho, devolvi-tas, mas lembro-me tão bem delas, do teu riso aberto, da pose provocante…

Depois despimo-nos, deitámo-nos, trocámos os beijos e as carícias que o coração nos pedia – e então saiste da cama e foste, pela primeira vez desde que eras minha escrava, buscar por tua iniciativa a vergasta, que me entregaste com um beijo. Sei que nessa noite mal dormimos; sei que te puni e possuí; sei que choraste e riste e que dissemos um ao outro todas as loucuras que se podem dizer, para não falar nas que fizemos; só não me lembro por que ordem fizemos isso tudo ou por que fórmula, se a houve.

(Publicado no Blogger a 27/07/06)

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…Mas também tu me fazes falta. Penso em mim sentado a ler na poltrona preta, e tu no sofá a fingir que dormias, cada vez mais zangada por eu não falar contigo nem te levar a sair.
De vez em quando levanto os olhos do livro e olho-te com um meio sorriso, divertido por pensares que não te estou a dar atenção quando estou quase totalmente concentrado em ti… Se pressinto que vais abrir os olhos, apago o sorriso e ponho-me a ler.

Às vezes dás-te conta disto: viras-me as costas num só movimento, dás de ombros furiosamente e comunicas-me, com toda a expressividade de que uma coluna vertebral pode ser capaz, que não estás a achar graça nenhuma à brincadeira.

Até que por fim te chamo:

– Dúnia…

Silêncio. Chamo de novo:

– Dúnia…

Viras-te para mim como se estivesses a acordar:

– Que queres?

Fazes beicinho como uma menina amuada mas eu, cheio de vontade de te beijar a boca, corrijo-te:

– Que queres, o quê?

Fazes um suspiro teatral, pões na voz toda a exasperação que podes:

– Pronto, está bem: que queres, meu Senhor? Peste…

– Primeiro, que me cumprimentes como deve ser. Depois, que me sirvas um whisky.

– É, mas não me ligas nenhuma…

Ligo-te mesmo muito, mas digo:

– Pois não… Também, não tenho nada que te ligar, és apenas a minha escrava.

Ainda repetes «peste» em voz baixa, depois levantas-te com deliberada lentidão, e de sobrolho franzido, diriges-te para mim. Quando eras mais nova praticavas desporto, agora és uma mocetona robusta e os teus passos nada têm de etéreo. Gosto de ti assim.

Ajoelhas, chamas-me «peste» de novo, beijas-me os pés e continuas a beijar-mos, com vagares infinitos, à espera que eu pense que te esqueceste da segunda parte da minha ordem. Eu, que não tenho pressa, acaricio-te longamente os cabelos. Por fim permito-te uma pequena vitória e repito a ordem:

– O whisky, Dúnia…

– Sim, meu Senhor.

Levantas-te devagar, diriges-te ao armário, tiras a garrafa e um copo de cristal, deitas a quantidade correcta, sem gelo. Quando caminhas de novo na minha direcção a tua expressão dura e fechada dissipa-se num momento e abres-te toda num sorriso luminoso. É então que compreendo – pela milésima vez – que estavas a jogar o mesmo jogo que eu e que por cada vitória que te permiti me permitiste outra a mim.

Ajoelhas-te de novo para me servir. Ficas aos meus pés enquanto bebo o whisky e recomeço a leitura. Não passa muito tempo antes que me estejas a beijar o sexo e a tentar trepar por mim acima; nem muito tempo depois disso sem que me perguntes meigamente se não quero possuir a minha escrava.

Quero, é claro. Pouco tempo depois estamos na cama, só com o candeeiro mais pequeno aceso; a luz é avermelhada e pouco mais forte que a duma vela. Daqui a pouco, quando me pedires autorização para te vires, acho que to vou permitir.

(Publicado no Blogger a 25/07/06)

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Bayadère

Ainda tenho a tua écharpe transparente…
Costumavas pô-la à volta dos quadris quando dançavas para mim de seios nus, ou a cobrir os seios quando punhas aquela tua saia preta de seda; era uma saia rodada e comprida, com uma textura encarquilhada… Ainda a tens?

Às vezes dançavas nua, as mais das vezes semi-nua, mas sempre descalça, como as odaliscas nos haréns. Tinhas braceletes, colares, brincos, anéis, numa profusão que não mostravas a mais ninguém – logo tu, sempre tão sóbria em público – mas que exibias para mim com aquele teu sorriso descarado que se abria mais quando eu te chamava serigaita.

O teu corpo pequeno e escuro, a cinta fina como nunca vi mais nenhuma, os pulsos e os tornozelos quase de criança, a agilidade de gata, a liberdade com que rebolavas as ancas – essas, sim, largas, de mulher feita – naquele movimento que segue as linhas de um oito deitado, símbolo do infinito, o mesmo movimento que tantas vezes fizeste, escarranchada sobre mim, com o meu pénis a doer de tesão dentro de ti, e eu: dança, dança, escrava, dança para mim

… e tu, sim, danço para ti, e lançavas a cabeça para trás, balançando os cabelos como uma égua no cio balança a crina.

A écharpe, ainda a tenho…

(Publicado no Blogger a 17/07/06)

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De gatas

Trezentos quilómetros até Lisboa. Encontro no parque de estacionamento dum centro comercial para deixar o meu carro e transferir a maleta para o teu. E depois um passeio até à outra margem.

Uma zona de pinhal – ou seriam outras árvores? – de onde era possível avistar, muito em baixo, o mar. A Caparica, disseste-me. Ou seria Sesimbra? Foi há tanto tempo…
Entrámos a pé pelo pinhal dentro até chegarmos a uma pequena clareira longe da estrada onde dispuseste o piquenique: iogurtes, fruta, tostas, queijo, e as framboesas que se tornaram parte do nosso ritual. Toalhas de praia para nos deitarmos. A roupa ficou pendurada pelos arbustos, e nós no nosso «Déjeuner sur l’Herbe» que em pouco tempo se transformou, perdoa-me o trocadilho, num outro tipo de esplendor na relva…
De súbito, um ruído, uma coisa esbranquiçada entrevista por entre o mato: um mirone. Como quem não quer a coisa, seguimos-lhe os movimentos: um círculo completo à nossa volta, num raio de pelo menos seis metros, entre vegetação espinhosa – FEITO INTEIRAMENTE DE GATAS!
Quase quarenta metros de gatas, e depois outros quarenta, até que, perdidos de riso, resolvemos dar a conhecer ao homem que tínhamos dado por ele.
Depois fomos a tua casa tomar duche, mudar de roupa e jantar. À noite fomos ver «Il Trittico». Tu nua por baixo do vestido («Porque é que todos os homens têm essa fantasia?», perguntaste-me). Apresentaste-me a um casal que conhecias: «Um amigo do Porto». Cumprimentaste só com um beijinho, e eu segui-te o exemplo.
A caminho do S. Carlos para o lugar onde estava o meu carro paraste e fizemos amor dentro do teu. Lembras-te do escrúpulo que tinhas de não fazer amor em tua casa nem na minha? E na aversão que tinhas a hotéis?
(Mas dois anos depois, em Paris… De novo nua por baixo do vestido… Dois screwdrivers no Crazy Horse, tu que praticamente não bebes… Eu a masturbar-te no banco de trás do taxi… Aí, no quarto do hotel, deste-me a tua versão – muitíssimo melhorada, minha querida – de certa parte do espectáculo a que tínhamos assistido).
Da margem Sul para tua casa; em tua casa, enquanto me mostravas os quadros; a caminho do S. Carlos; no meio do espectáculo; no intervalo; no teu carro de novo; e já no parque de estacionamento, enquanto mudávamos as coisas para o meu – não sei quantas dúzias de vezes, quando um de nós murmurava ao ouvido do outro as palavras «de gatas» era quanto bastava para nos desmancharmos os dois de riso.

(Publicado no Blogger a 08/11/05)

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Bela no prazer

Estavas em cima de Mim. Eu tinha chegado cansado: acabara de trabalhar às oito, tinha conduzido 500 km para vir ter contigo, de noite, pelas auto-estradas de quatro países. Tinhas-Me recebido a meio da noite em tua casa, tinhas-Me dado de comer – mas Eu, quando estou cansado, tenho pouca fome – tinhas-Me assistido no duche e massajado, e agora estavas toda nua em cima de Mim.
Contra as Minhas ordens, tinhas-te erguido de modo que os teus seios já não tocavam o Meu peito. Não estavas deitada em cima de Mim, estavas sentada. O Meu Sexo erecto, vergado para baixo pelo teu movimento, doía-Me. E Eu puxava-te para Mim, para aliviar a tensão e para sentir a carícia do teu corpo e dos teus cabelos.

O teu ventre dançava, em liberdade total, envolvendo o Meu Sexo. E Eu, encantado, olhava o teu rosto: um ricto de prazer, sempre tão parecido com a dor, torcia-te as feições. Nunca me pareceste tão bela como naquele momento.

(Publicado no Blogger a 15/10/05)

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Encontro

reverie1A mesa era larga e estavas sentada à minha frente. O teu cabelo preto, longo e frisado, dava-te um ar meio selvagem, meio de madona. Falavas pouco e mantinhas os olhos baixos.

O teu marido falava alto, interrompia todos, contradizia todos. Dirigia às mulheres piropos pesados. Tu parecias não o ouvir.

Mais tarde, estávamos a lançar balões, alguém sugeriu:

– Este é das senhoras.

E logo o teu marido:

– Aqui não há senhoras, há mulheres! A minha mulher não é uma senhora!

(Como pudeste entregar-te assim a um velho? Um homem quase da minha idade…)

Depois, ao caldo verde:

– A minha mulher trata-me por meu senhor!

Olhei para ti. O teu olhar veio ao encontro do meu. Não estavas triste, nem zangada, nem embaraçada, nem nervosa: estavas serena. Fizeste com a cabeça um movimento quase imperceptível de negação. Mal me conheces, mas quiseste que eu soubesse que o que ele estava a dizer era mentira. Porque é que te foi indiferente que os outros acreditassem?

No fim, ao arrumar da louça, cruzaste-te comigo no terraço vazio. Sorriste-me. Foi o teu primeiro sorriso nessa noite.

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kn-11-iÉ assim:
Viro para a minha rua. Os faróis do carro varrem a janela do quarto. Tu estás na sala, mas apercebes-te do clarão.
Estaciono o carro junto ao muro do jardim. Tu, entretanto, foste à janela e viste que era eu. Sabias que era a hora e estás quase pronta.
Saio do carro devagar, a dar-te tempo. Abro a cancela. Subo os degraus para a porta da entrada, com cuidado para não escorregar no gelo. Faço uma pausa. Meto a chave na fechadura. Ouço os teus passos: estás a correr descalça, e não és propriamente levezinha.
Entro. Penduro o casaco. Limpo os óculos, que embaciaram com o calor da casa. Abro a porta da sala.
Estás à minha espera como te ordenei. De joelhos, descalça, seios nus, saia rodada, bijuterias sobre todo o corpo.
Tens a mesa posta. Cheira àquelas comidas alentejanas que tu gostas de fazer. Estou com fome. Mas não me dirijo à mesa, dirijo-me a ti.

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Um olhar triste

Hoje, na rua, cruzei o olhar com uma mulher triste.
Triste na expressão; não parecia tensa, nem preocupada, nem deprimida, nem infeliz: apenas triste.
Achei-a muito bela.
Será que gosto de mulheres tristes? Talvez, um pouco. Mas também gosto de mulheres alegres; e destas gosto tanto mais, quanto a alegria que sinto nelas vem de dentro, como uma luz suave.
Há mulheres aparentemente tristes que são felizes. Talvez seja destas que gosto mais. E às vezes penso que a minha maior felicidade poderia estar em dar a uma mulher uma felicidade assim.
Ou em trabalhar para isso.
Também há mulheres alegres que são infelizes. A estas, admiro-as muito, mas não me imagino apaixonado por elas. É que além de as admirar, sinto pena delas, e não é possível amar alguém de quem se tem pena.
Pelo menos para mim não é possível.
Mulheres alegres e ao mesmo tempo felizes? Não sei se as há, não sou capaz de ver assim tão fundo no coração humano. Mas se as há, devem ser como as crianças: muito fáceis de amar, mas impossíveis de desejar.

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Acabo de eliminar da minha lista de links dois blogs que estão inactivos há muito tempo e que eu só mantinha por puro sentimentalismo: o «Darkness Gate» e o «Boneca Insuflável».
Não o quis fazer, porém, sem tirar deles estas imagens e incluí-las aqui em homenagem às suas autoras:


Darkness Gate



Darkness Gate



Boneca Insuflável

Se a escrava kel e a Boneca Insuflável lerem isto, quero que saibam que lhes sinto a falta e lhes desejo um bom ano onde quer que estejam.

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Bar Justine

Fui ontem conhecer o bar Justine, a convite de alguém com quem tive uma longa e deliciosa conversa. Segundo me disseram, a quinta-feira é dia de pouco movimento, mas mesmo assim conheci algumas pessoas. Gostei da afabilidade com que fui acolhido e do ambiente aberto e tolerante. Não serei um frequentador assíduo porque as minhas circunstâncias não mo permitem, mas espero lá voltar algumas vezes.

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A Minha escrava detesta ser obrigada a andar descalça na rua. Ontem respondeu-Me torto, Eu ordenei-lhe que Me pedisse um castigo, e quando ela Mo pediu Eu disse-lhe que teria de comparecer descalça ao nosso próximo encontro.
Resposta dela, por SMS: «Também quero ser a Tua escrava enquanto formos ambos vivos, mas descalça não».
No mundo não há escravas «mas» nem escravas «não», só há escravas «sim». É claro que ela vai comparecer descalça, e também já sabe que vai ser vergastada por ter usado duas palavras que lhe são proibidas. Claro que também poderá não comparecer…

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Sou um dominador desde que me lembro: comecei a sê-lo nas minhas fantasias, depois estas foram-se tornando realidade. Já na minha primeira adolescência os meus devaneios eram de domínio sobre escravas belas como anjos e sensuais como gatas.
A minha primeira escrava foi também o meu primeiro amor. Não começámos como Senhor e escrava, começámos como qualquer outro par de namorados, descobrindo-nos reciprocamente a pouco e pouco, antecipando o momento em que nos veríamos nus, descobrindo juntos que chegara o momento de fazermos amor pela primeira vez…
Éramos ambos virgens, e nenhum de nós tinha alguma vez ouvido falar em BDSM. Tínhamos lido Sade e Sacher-Masoch, mas nessa época líamos tudo o que tivesse letras. Amar era para nós o suficiente, as confidências que tínhamos a fazer um ao outro eram muitas e o tempo para as fazer nunca chegava. Durante muitos meses não senti a necessidade de falar à minha namorada das fantasias de domínio que continuava a ter.
O que precipitou a conversa foi um pedido dela – vamos pôr-lhe um nome suposto: Sofia – enquanto fazíamos amor: que lhe batesse. Eu ouvi este pedido com algum alvoroço e satisfi-lo com prazer – mas um pouco a medo. Olhando para trás, considerando o quanto éramos jovens, lembrando-me que éramos os dois de esquerda, progressistas, feministas – admiro-me de ter aceite com tão poucas reservas bater na mulher que amava.
E a minha fantasia não era tanto provocar dor, era obter uma submissão consentida.
Mas não é difícil conciliar a fantasia dum homem que quer ter uma escrava com a fantasia duma mulher que quer ser castigada, principalmente se os dois se amarem e quiserem dar prazer um ao outro. Ao princípio havia como que uma troca, eu castigo-te como tu desejas e tu obedeces-me como eu desejo; mas com o tempo cada um aprendeu a integrar na sua fantasia a fantasia do outro.
Foi então que descobrimos a «História de O». Tornou-se a nossa bíblia, o nosso modelo. Fizemos um chicote artesanal, preto, que passei a usar nela regularmente – depois de lhe ter pedido que o usasse em mim uma única vez, para saber a dor que provocava (era intensa). Desenhei e pintei dezenasde retratos da Sofia vestida como O – de corpete apertado, seios nus, saias longas caindo em largas pregas. Íamos de férias ou de fim de semana, e eu inventava recados para a mandar fazer descalça – comprar-me cigarros, por exemplo.
Não sei qual de nós se lembrou pela primeira vez de a amarrar. Sei que foi com ela amarrada que a possuí analmente pela primeira vez. Na minha ignorância, não sabia ainda como fazê-lo sem dor, e a Sofia, que eu amava, andou dias a sentir a dor daquela penetração.
E pensar que ambos tivemos prazer nesse prolongamento!
Foi a minha primeira escrava. Foi o meu primeiro amor. Foi a minha primeira aprendizagem. Nunca a esquecerei, e nunca deixarei de lhe estar grato.

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