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Archive for the ‘Poesia’ Category

Soneto

Ela chegou, chegou-se a mim e disse
Que tinha vindo para ser escrava.
E eu respondi-lhe que era uma tolice
Aquela frase que ela murmurava.

Lembrei-lhe a triste história de Belkiss…
E ela, sem dar ouvido ao que escutava,
Fechou os olhos e, num beijo, disse
Que tinha vindo para ser escrava…

E eu, num gesto de pura maluquice,
Ao vê-la assim, tão cheia de meiguice,
Abri os braços para a que chegava…

Sem pressentir que, por desgraça minha,
Do meu destino ia ficar rainha
Quem tinha vindo para ser escrava.

Onestaldo de Pennafort
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Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Uma pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso:

Um encolhido ousar; uma brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento;

Esta foi a celeste fermosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.

Luís Vaz de Camões

(Publicado no Blogger a 01/08/06)

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Estrofe XI

Aqui, sob a ramagem, com um pão,
Uma jarra de vinho, um manuscrito
De versos –
E contigo cantando junto a mim –
Paraíso bastante é o deserto.

branca


Omar Khayyám

branca

branca

branca

(Tradução minha a partir da versão em inglês de E. Fitzgerald dos «Rubáyiát»)

branca

branca

(Publicado no Blogger a 20/07/06)

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Branco e Vermelho

A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.

Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser suspenso,
Nao sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso …
Que delícia sem fim!

Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distância reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)

Na areia imensa e plana,
Ao longe, a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte,
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana …
A inútil dor humana!
Marcha, curvada a fronte.

Até ao chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Os seus magros perfis;
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.

A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Pavidamente gemem,
A cada golpe gemem,
Que os desiquilibra.

Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem,
Soergue-os o terror …
Até que enfim desmaiem,
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor …

E ali fiquem serenos,
De costas e serenos …
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas frontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!

A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.

Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa …
Tudo vermelho em flor …

Camilo Pessanha, Clépsidra

(Lindo, não é?)

(Publicado no Blogger a 17/11/05)

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Escrava

Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor,
Eu te saúdo, olhar do meu olhar,
Fala da minha boca a palpitar,
Gesto das minhas mãos tontas de amor!
Que te seja propício o astro e a flor,
Que a teus pés se incline a Terra e o Mar,
Plos séculos dos séculos sem par,
Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor!
Eu, doce e humilde escrava, te saúdo,
E, de mãos postas, em sentida prece,
Canto teus olhos de oiro e de veludo.
Ah! esse verso imenso de ansiedade,
Esse verso de amor que te fizesse
Ser eterno por toda a eternidade!…

Florbela Espanca

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Tarde Demais

Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar…

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!…
E a minha boca morta grita ainda:
Por que chegaste tarde, ó meu Amor?!…

Florbela Espanca

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Piececitos Descalzos

Juan Peña “El Lebrijano”

Pregonero, pregonero,
publíqueme usted un pregón,
las pisadas de esta gitana
suenan en mi corazón
y se silba con el viento
a mi barita de mimbre.
de dónde vienes gitana
y hacia dónde te diriges.

Vengo, vengo,
vengo de andar por mi madre,
voy por agua hasta la fuente
y no quiero más compaña
que no pueda ver la gente.
Que te equivocas gitanita,
que el mundo ya está vacío,
no existe más que tú y yo
y lo que aquí ha sucedido.

Llegamos hasta la fuente
que brotaba de la roca
bebimos agua y después
yo le fui secando su boca.
pregonero, pregonero,
dígale usted a los gitanos
que el mundo ya está en la luna y que la tengo en mis manos.

Sonó más honda la fuente,
cómo sonó más honda la fuente.
Sonó más honda la fuente,
y se apagó el horizonte,
palabritas y suspiros
rebotaban por el monte,
que rebotaban por el monte, mientras la estuve mirando
dormía como una niña, sus piececitos descalzos.

Pregonero, pregonero,
pregonero, pregonero,
apague usted sus pregones
que no suenen mis silencios
mientras se acaba la noche,
que mientras se acaba la noche,
mientras despertaba el sol,
sueño que le estoy comprando zapatitos de charol

Llegamos hasta la fuente
que brotaba de la roca
cómo bebimos agua y después
le fui secando su boca.
cómo le fui besando su boca,
cómo le fui besando su boca,
Ay bebimos agua y después
cómo le fui besando su boca.

(Com o meu agradecimento a apuleius, que encontrou este flamenco e mo enviou)

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