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Archive for the ‘Traduções’ Category

Autor: Polly Peachum

Tradução: Vanderdecken

A minha história é difícil mas muito menos difícil do que as vidas de outras pessoas e não é diferente em nada das vidas de milhões de mulheres cujos sentimentos de submissão, se os têm, são uma coisa sem importância para elas. E contudo muitas destas mulheres, numa variedade quase infinita de circunstâncias, estão infelizes, confusas, sem saber o que fazer – e eu não estou. Paradoxalmente, descobri como pôr em prática as minhas convicções feministas, como fazer delas um elemento real e prático da minha vida, durante estes últimos anos, que passei como escrava de um homem. As premissas teóricas básicas do feminismo, tal como eu as vejo, são que as mulheres são tão capazes como os homens; que as mulheres deviam ter tantos direitos, opções e responsabilidades como os homens; e que é profundamente errado alguma coisa acontecer ou não acontecer a uma mulher apenas por ser mulher. O feminismo, tal como o tenho vivido durante estes seis anos, está ligado às partes da minha personalidade mais afectadas pelas atitudes mais sexistas da cultura em que cresci. A minha transformação em feminista praticante (por oposição às que apenas acreditam nos ideais feministas) envolveu que eu aprendesse a acreditar que as lições que aprendi em criança – que eu era inferior, incapaz de realizar alguma coisa importante, que as minhas opiniões não eram significantes nem valiosas, especialmente comparadas com as dum homem – não são verdadeiras e que aprendesse a agir em consequência.

Trabalho como adjudicatária no campo da alta tecnologia; uma carreira extremamente arriscada e competitiva. Não tenho segurança no emprego, não sei de onde virá o próximo contrato ou projecto, e contudo sou muito bem-sucedida no que faço. Uma parte da razão por que consigo contratos é porque tenho confiança na minha capacidade de os conseguir. Embora trabalhe num campo técnico em que predominam os homens, não acredito que os homens que competem comigo sejam melhores do que eu. Não parto do princípio que são eles que vão ficar com os contratos em vez de mim. E geralmente não ficam. A minha confiança nas minhas próprias capacidades permite-me perseverar num ambiente onde muitos outros desistem em desespero com a elevada taxa de rejeições inerente a este tipo de trabalho. Esta confiança não me vem inteiramente das minhas leituras feministas, as quais, embora tenham estabelecido as bases, nunca poderiam, dada a minha história pessoal e a minha expectativa de falhar, ser postas em prática, mas também do apoio e estímulo que o meu senhor me deu. Ele acreditou desde o princípio na minha capacidade de fazer coisas excepcionais. Sabia que o que me estava a deter não era a minha falta de capacidade mas as minhas miseráveis expectativas. Ajudou-me a olhar para mim própria como uma mulher forte e competente. Também me ensinou a ter êxito e a não ignorar ou considerar sem importância êxitos passados. Sinto-me agora mais forte, mais competente, e simplesmente melhor em relação a mim mesma do que alguma vez me senti, e espero que estes sentimentos continuem a crescer por muito tempo.

A minha experiência de viver um relacionamento de troca de poder e o meu conhecimento doutros sadomasoquistas também me forneceram uma capacidade importante que me dá um sentimento crescente de domínio sobre mim própria e sobre o meu ambiente. Adquiri uma profunda compreensão do facto de que o poder é uma parte de todas as relações, sejam elas profissionais, políticas ou pessoais, e uso este conhecimento todos os dias para satisfazer mais completamente os meus ideais feministas no plano pessoal e profissional.

A maior parte das pessoas não tem consciência do papel que as transacções de poder desempenham nas suas vidas. Não se dão conta de quando estão a deitar fora poder ou de quando ele lhes está a ser retirado. Quando o estão a tirar a outra pessoa, muitas vezes também não se dão conta disso. Cegas às trocas de poder que ocorrem na vida de todos os dias, as pessoas baseiam muitas vezes as suas acções e decisões em pressupostos falsos que ignoram uma parte importante da realidade. Como os dominantes e os submissos estão constantemente a lidar directa e conscientemente, nos seus relacionamentos primários, com as realidades do poder, pode ser às vezes chocante para eles que as outras pessoas não se apercebam desta dinâmica tão claramente como eles. Esta consciência das dinâmicas de poder interpessoais mudou profundamente a minha vida: agora sei lidar com a maior parte das pessoas. Consigo aperceber-me de como as situações se vão desenvolver e portanto consigo prever quando é realista desistir e quando é realista insistir.

Estas competências que estou a desenvolver têm-me ajudado com frequência. Uma vez, por exemplo, um administrador para quem eu estava a fazer um projecto apreciava claramente as minhas capacidades e competência, mas de vez em quando insistia que eu tinha feito algum erro óbvio quando isso não tinha acontecido. Dei-me conta, pela maneira como estas cenas se desenrolavam (ele teimava sempre que tinha razão e começava sempre por se recusar a considerar quaisquer provas que mostrassem que os seus pressupostos eram incorrectos) que eu estava a fazer um trabalho bom demais para que ele se sentisse confortável e que sentia a necessidade de me corrigir de vez em quando para poder dizer a si mesmo que ainda era ele quem mandava no projecto. O facto de compreender esta dinâmica de poder subjacente permitiu-me fazer duas coisas. Uma foi oferecer resistência mínima e ceder nos casos em que a sua convicção de que tinha razão não prejudicasse o trabalho; isto permitia-lhe sentir outra vez que era ele que mandava no projecto. Mas quando o erro que ele estava a fazer pudesse ter um forte impacte no êxito do projecto, eu fazia calmamente finca-pé apesar da sua cólera crescente e das suas acusações de que eu estava a perder faculdades, e continuava a apontar-lhe os factos até ele acabar por entender aonde eu queria chegar. No fundo este homem era racional e eu, sabendo isto, tinha a paciência de esperar que a tempestade emocional passasse e a racionalidade regressasse ao debate.

Se eu não conhecesse as maneiras que as pessoas têm de usar o poder sem saber que o estão a usar, ou se não soubesse porque o fazem, o comportamento deste administrador podia ter accionado o meu botão da integridade pessoal (Como ousa ele não confiar em mim; como ousa ele duvidar da minha palavra neste ponto!), eu talvez tivesse abandonado o projecto e decidido, se o meu senhor permitisse, nunca mais voltar. Mas por saber o que se estava a passar na cabeça dele tornou-se desnecessário indignar-me. Assim, estranhamente, a minha natureza submissa ajudou-me a ultrapassar limitações emocionais que me tinham sido impostas anteriormente pela minha história pessoal.

A relação da minha história pessoal com a minha sexualidade é em grande parte obscura. Temos que compreender que, embora abundem as teorias – muitas delas disparatadas – sobre as razões para as necessidades sexuais específicas de um indivíduo, nenhuma destas teorias provou ser válida na generalidade. E portanto, inevitavelmente, é fútil tentar medir as necessidades sexuais duma mulher por um padrão arbitrário, que nunca foi provado, do que constitui a “normalidade” psicológica. Ainda pior e menos humano é imaginar que as necessidades sexuais de um indivíduo têm algum significado político generalizável. O Dr. Ronald Moglia, director do programa de doutoramento em sexualidade humana na Universidade de Nova Iorque, diz numa entrevista em Different Loving: The World of Sexual Domination and Submission, “Há tantas coisas que não sabemos sobre como se formam os nossos desejos sexuais. As pessoas interpretam muitas vezes politicamente os comportamentos sexuais. Muitos dos nossos comportamentos s resultam das nossas aprendizagens socioculturais, e certamente, nas mulheres, esta é uma força poderosa. Mas pegar nesta observação e aplicá-la a pessoas que agem duma forma masoquista − ou doutra forma qualquer – leva-me a questionar até que ponto estas observações são científicas, até que ponto são politicamente enviesadas, e o que é que [esses teóricos] teriam a dizer sobre a correcção política da mulher sádica e a incorrecção política da mulher masoquista.” Apesar disto, a hostilidade da sociedade convencional, e de muitas feministas, contra as mulheres submissas é avassaladora.

Esta é uma das ironias dolorosas de ser uma mulher submissa. Mesmo depois de nos debatermos contra toda a confusão emocional e toda a ambiguidade política engendradas numa mulher com desejos fortes de submissão, e de termos atingido finalmente algum nível de resolução interior, continuamos a enfrentar o ódio e o desprezo vindos de muitas das pessoas com quem temos que viver e funcionar. A hostilidade parece inevitável por parte duma sociedade convencional que nunca pensou no assunto e mete no mesmo saco o sadomasoquismo com a zoofilia e a pederastia como sendo coisas completamente inaceitáveis – afinal é a mesma sociedade convencional que se espoja no racismo e no sexismo enquanto nega ambos e que está a destruir o nosso planeta rapidamente e sem pensar. A hostilidade de muitas feministas famosas, contudo, é muito mais difícil de suportar.

Porque é que tantas feministas doutrinárias, incluindo muitas com acesso fácil aos media, são tão hostis às mulheres submissas? As suas explicações centram-se, como mencionei acima, na ideia de que os relacionamentos em que as mulheres submissas se envolvem promovem o domínio cultural dos homens e que as imagens de mulheres submissas, nos media eróticos e noutros lados, promovem a violência contra as mulheres. Em Powers of Desire: The Politics of Sexuality, a ensaísta Jessica Benjamin escreve, “O perigo foi sempre que as mulheres e outras vítimas de violência fossem consideradas culpadas ou se culpassem a si próprias por a terem ‘provocado’. Isto levou a uma atitude de contra-culpabilização: qualquer discussão sobre dominação erótica ou sobre violência racional na qual a participação é voluntária ou fantasiada aparece a muitas pessoas como uma desculpa para a violência masculina em geral.” Mas a primeira objecção – de que os relacionamentos dominante-submissa promovem o domínio masculino na sociedade em geral – mesmo que fosse verdade (e eu não acredito que o seja) leva à negação da importância das experiências positivas de submissas como eu quando vivemos as nossas identidades sexuais. Quanto à segunda objecção – como outras semelhantes levantadas desde há séculos por censores e reaccionários de toda a espécie – é totalmente desprovida de base em quaisquer dados honestos e está completamente desacreditada.

Suspeito que por trás de toda esta preocupação com o significado político das minhas actividades e das actividades das minhas irmãs submissas e com o nosso bem-estar pessoal se esconde uma fome baixa e vil de poder. Há algo de incrivelmente arrogante e assustadoramente III Reich numa argumentação do género “Uma vez que a minha opinião pessoal desta forma de sexualidade é que ela seria terrivelmente errada para mim e me causaria mal, então também é terrivelmente errada para todas as outras pessoas e devia ser atacada e reprimida.”

O feminismo, para mim, foi sempre no seu âmago uma tentativa de dar às mulheres a liberdade de fazerem as suas próprias escolhas, e não de lhes tirar esta liberdade para o seu próprio bem. Já me bastou que a sociedade patriarcal me fizesse isso; os teóricos da vitimização e as feministas anti-pornografia deste mundo que tentam privar-me do direito de escolher livremente o tipo de sexualidade e de estilo de vida que me podem fazer mais feliz não são melhores. Pelo contrário: uma vez que de certa maneira se apropriaram do feminismo para o perverter, são ainda piores. Essas pessoas, na sua tentativa de definir e controlar pessoas como eu que não correspondem ao seu modelo de heterossexual idade saudável, estão apenas, na sua necessidade de controlar e dar forma aos destinos dos outros, a repetir os vícios do patriarcado, e eu não estou disposta, de certeza, a trocar a minha liberdade, que tanto me custou a conquistar, em relação ao poder masculino pela subjugação a algo que é para mim igualmente odioso e ofensivamente errado: o poder feminino. Quero que o feminismo me ajude a atingir os meus objectivos de liberdade de escolher e de procurar a felicidade – e não que me impeça de os atingir.

Em última análise, creio que a pressão que as mulheres submissas sentem da parte de certas feministas radica num mal-entendido fundamental da parte destas sobre a natureza efémera do seu poder. Há apenas 25 anos, a discussão sobre o feminismo e os seus significados práticos era quase só académica. Hoje, contudo, através da agitação ideológica nos meios académicos e duma capacidade recém-descoberta de influenciar os media e alguns políticos abordando-os com o tipo de jargão que os impressiona, as feministas conseguem exercer alguma influência no debate político e mesmo dispor de algum poder político. Algumas começaram logo a usar este poder para reprimir a sociedade, como nas campanhas, bem-sucedidas nalguns lugares, para proibir materiais eróticos e pornográficos com o pretexto de promoverem a violência contra as mulheres. Nestas campanhas aliam-se alegremente à Direita Religiosa e a outros reaccionários extremistas, que têm uma agenda repressiva bem mais substancial do que a de algumas ideólogas feministas inchadas de auto-importância.

O que estas feministas não compreendem é que, quando a voga momentânea de que gozam tiver passado, quando os académicos e os políticos tiverem perdido o interesse nelas e passado à fascinação seguinte, a Direita Religiosa ainda cá estará, mais poderosa do que nunca por ter enganado e conseguido o apoio de algumas feministas. É desta Direita Religiosa, e não dos sadomasoquistas, que realmente vem a ameaça a longo prazo contra a emancipação das mulheres. Se eles atingirem os seus objectivos, então todas nós, mulheres, incluindo as suas aliadas feministas de hoje, encontrar-nos-emos, ou às nossas filhas, entregues a uma escravidão inteiramente involuntária.

Trago o meu gatinho macho todas as manhãs para o jardim-selva seguramente aninhado nos meus braços, porque o ar livre, que em tempos foi o paraíso natural dos gatos, se transformou, com a expansão da SIDA felina e da leucemia felina, num ambiente mortal. Do mesmo modo, temo que a luxuriante selva sadomasoquista na qual me sinto tão em casa se torne rapidamente demasiado perigosa para passearmos nela. Neste momento, o meu amado podia ser julgado pelas coisas que me faz, em quase todas as jurisdições do país, mesmo sem eu apresentar queixa. Se eu protestasse e dissesse que amo e encorajo o que ele me faz, esse protesto talvez fosse ignorado, e esta acusação totalmente injusta poderia seguir o seu curso. E a rápida deslocação para a direita actualmente em curso na política americana, com a concomitante pressão para punições cada vez mais draconianas – combinada com a atenção mediática que está a ser dada aos crimes contra as mulheres – é um péssimo presságio. Deste modo, nós, as mulheres submissas, somos muito menos iguais do que os outros e temos menos direitos perante a lei, como os homossexuais nalgumas jurisdições. Ao contrário do que acontece com as mulheres que se satisfazem com vidas sexuais convencionais, o corpo duma submissa não lhe pertence, e ela não pode escolher o que lhe acontece; nem pertence completamente ao seu senhor; pertence ao Estado, que pode ditar o que pode e não pode ser feito com ele, de acordo com definições de violência influenciadas por aquelas que, como mulheres, nos deviam estar a ajudar e a apoiar, e não a tentar reprimir-nos! Se nós, submissas, nos recusarmos a substituir os nossos maravilhosos, ricos, violentos jardins por aquilo que seria, do nosso ponto de vista, o equivalente a um minigolfe, somos ameaçadas, no caso de esta escolha ser descoberta, com medidas punitivas aplicadas àqueles que amamos. E os esforços de algumas que ousam chamar-se feministas vão todos no sentido de tornar esta situação ainda mais intolerável. Que escolha tenho eu, que escolha têm outras mulheres submissas como eu, que não seja rejeitar totalmente uma ideologia que exige a nossa lealdade mas trai a nossa confiança e ignora os nossos pedidos de tolerância e apoio? Embora eu seja uma mulher que há-de sempre apoiar a causa das mulheres em toda a parte, poderá em breve vir o tempo triste em que terei vergonha de me chamar feminista, especialmente se este termo continuar a tornar-se sinónimo, para mulheres como eu, de “opressora”.

 

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Autor: Polly Peachum

Tradução: Vanderdecken

Quando conheci online o meu senhor estava à espera de ser manipulada. Contava com bazófia e exibicionismo, mascarando um ego profundamente inseguro, tal como tinha encontrado em tantos homens que tinha conhecido ou com quem tinha tido relacionamentos. Ele tinha-me dito numa das suas primeiras mensagens electrónicas que tinha a vocação de curar, que ajudava pessoas infelizes a melhorar emocionalmente. Com efeito, quando começámos a falar, ele deixou bem claro que, embora se sentisse atraído por mim, me encarava mais como alguém que podia ser ajudado do que como uma potencial companheira para a vida. Nesse tempo ele tinha uma escrava com quem era feliz, e embora esse relacionamento tenha terminado mais tarde (ele tinha decidido terminar várias relações dominante-submissa anteriores que tinha achado insatisfatórias por várias razões), ele não estava “à pesca de escravas” nem a tentar adicionar-me a qualquer espécie de harém sadomasoquista. Ele ajudava as pessoas numa base informal, segundo disse, sem cobrar nada pelos seus serviços, porque tinha uma paixão por essa missão, uma vocação. Isto tudo soava-me demasiado vago e New Age. Senti a mesma suspeita que sentiria por alguém que anunciasse ser um bruxo ou que podia comunicar com os mortos. Assumi que esta pretensa terapia não era mais do que um escape para o ego dele. E consequentemente decidi testá-lo.

Sem realmente acreditar que ele me podia ajudar emocionalmente (nunca ninguém na minha vida tinha sido capaz de me ajudar – todos os êxitos e todo o crescimento que eu tinha conseguido tinham sido apesar das pessoas à minha volta, não por causa delas), apresentei-lhe, embora não me desse completamente conta que era isto que estava a fazer, um desafio. Em resposta à sua mensagem terapêutica disse-lhe em substância, e de um modo bastante cínico, “Está bem, Sr. Terapeuta, esteja à vontade para me dar todo o tratamento que quiser, mas não espere de mim resultados prodigiosos.” Muito mais tarde o meu senhor contou-me como se tinha divertido com esta minha afirmação “petulante” e como soube imediatamente, mesmo antes de começarmos, com que rapidez eu havia de mudar de ideias. Como é que ele sabia isto sobre mim? Tendo lido cuidadosamente todas as minhas mensagens, e tendo uma vasta experiência com as pessoas, já sabia que eu era inteligente, motivada e muito sincera no meu desejo de submissão. Também já conhecia por esta altura muitos dos meus problemas e pancadas: as realidades que eu não estava a enfrentar, as coisas que eu estava a assumir sobre a vida e que não estavam a resultar, os meus medos e os meus pontos sensíveis.

O dar-me conta, como me dei rapidamente, de que ele sabia tanto sobre mim foi apenas uma das descobertas extraordinárias que eu havia de fazer sobre ele ao longo dos anos. À medida que a dinâmica senhor-amante-escrava ia sendo adicionada à dinâmica terapeuta-paciente, comecei a ver que tudo o que ele tinha dito sobre si próprio, incluindo aquelas coisas que tinham que ser gabarolice porque eram boas demais para ser verdade, era exacto e genuíno. Ele tinha realmente uma imensa confiança em si próprio e uma atitude positiva em relação ao que empreendia, atitude esta que era capaz de transmitir às pessoas que estava a tentar ajudar. Assumia realmente a responsabilidade por tudo o que fazia, e cumpria sempre a sua palavra. Se dissesse que me ia telefonar às sete da tarde de terça-feira, fazia-o. Tinha uma personalidade absolutamente estável que era imune a variações de humor e invulnerável à síndroma da conversão (depois de ler esta frase o meu senhor disse com o seu humor sardónico habitual – ele tem-se na conta dum Oscar Levant dos nossos tempos – “Outra maneira de dizer que sou um fanático”). Tinha uma força emocional enorme e maturidade completa e uma ausência desconcertante de botões emocionais. Não ficava avassalado quando aconteciam coisas terríveis na sua vida, nem ficava exageradamente zangado ou perturbado por qualquer coisa que eu fizesse. O melhor de tudo é que não se levava a si mesmo ou a qualquer coisa na sua vida demasiadamente a sério, e constantemente fazia humor com tudo isso – uma coisa de que um egoísta a fazer o papel do Senhor Lorde Dominante Omnipotente Do Universo é totalmente incapaz. Estes fortes traços de personalidade permitiram ao meu senhor ser razoavelmente bem-sucedido, e por vezes muito bem-sucedido, em tudo o que empreendeu. Em cinco décadas de vida foi escritor e editor de jornais e revistas; escritor de livros; fotógrafo, actor e músico; proprietário de um pequeno negócio; dirigente sindical e activista de direitos humanos. Para além deste trabalho pago, arranjou sempre tempo para aconselhar quem o procurasse a pedir ajuda e, a maior parte das vezes, para os ajudar a efectuar mudanças pessoais profundas. Finalmente, é desde há décadas um feminista convicto e já se batia pelos direitos das mulheres muito antes de se ter tornado moda que os homens falassem a favor deles.

Passaram-se seis longos e maravilhosos anos, e estou extraordinariamente feliz com a escolha que fiz e com o rumo que a minha vida tomou em consequência dela. Se me fosse dada outra vez a oportunidade de decidir tornar-me uma escrava sabendo o que sei hoje, faria exactamente a mesma escolha. Olhando cuidadosamente para mim própria tal como sou hoje e para a pessoa que era antes de me tornar uma submissa life-style, posso afirmar que as minhas experiências como submissa melhoraram imensamente a minha vida e nalguns aspectos viraram-na do avesso. Sem a orientação experiente do meu senhor, não acredito que nada disto fosse possível. Há seis anos eu estava incapaz de sair do pântano que eu própria tinha feito. Estava muito obesa e continuava a ganhar peso. Embora tivesse um emprego razoavelmente interessante, o meu próprio apartamento e um namorado, estava sem saber o que fazer da vida. Estava profundamente insatisfeita comigo mesma e sentia-me impotente, incapaz de mudar uma vida que era perfeitamente funcional mas estava encravada em ponto morto. Tinha as minhas pequenas satisfações, coisas que me davam prazer, mas a maior parte destas tinham-se tornado vícios. Bebia quase seis cervejas todas as noites a acompanhar os meus jantares enormes. Depois de meses deste auto-abuso corporal mal conseguia arrastar-me para fora da cama todas as manhãs e ir trabalhar. Muitas vezes telefonava a dizer que estava doente e sentia-me tremendamente culpada por isto. Comprava todas as revistas de moda e beleza assim que saíam e passava horas a olhar com inveja as belas manequins e a sonhar que me parecia com elas. Tal como comer e beber, a tentativa de me conformar aos ideais de beleza da sociedade era uma das maneiras que eu tinha de evitar o verdadeiro problema: os aspectos estéreis, irrealizados, da minha vida. Estranhamente, considerava-me feliz.

Agora tudo mudou. Perdi o peso que precisava de perder seguindo um plano de alimentação e de exercício saudável e lento (nem lhe chamaria uma dieta – era tão moderado e inclusivo). A maior parte das vezes já não sinto a compulsão de comer demais. Já não bebo demais, nem procuro um escape na bebida. Hoje em dia raramente leio uma revista de moda, pois as mulheres retratadas nelas já não me parecem tão atraentes ou desejáveis de imitar – pelo contrário, muitas vezes dou por mim a pensar, quando olho para um desses sacos de ossos grotescos e pesadamente maquilhados que estas revistas tanto gostam de promover como o pináculo da atracção, que é uma pena essas pobres modelos esquálidas não se parecerem um pouco mais comigo! Já não estou insatisfeita com a minha carreira: faço acontecer coisas. Raramente sofro emboscadas de resultados inesperados devidos à minha acção inconsciente, como antigamente sofria com regularidade. Já não faço por ignorar o efeito das minhas acções no meu ambiente social ou de trabalho. Os meus esforços subterrâneos para sabotar a minha própria vida acabaram. Acredito que não estou a tentar evitar ou ignorar nenhum aspecto da minha vida. Mais importante: quem sou e o que sou já não são mistérios obscuros para mim. Descobri quem sou, o que quero da vida, e cada dia aprendo mais sobre como o obter. Já não deixo ninguém pôr-me o pé em cima, e consigo fazer coisas – como exprimir zanga a pessoas estranhas – que eram inconcebíveis para mim há seis anos. A minha emoção de fundo deixou de ser de depressão ligeira para se tornar de felicidade e paz comigo mesma. Já não estou à procura de um lugar na vida; cheguei a casa.

Apesar de o meu senhor me ter ajudado a curar e a crescer, a maior parte do trabalho fi-lo eu própria. Mas o que me permitiu desenvolver o meu poder de mudar a vida em aspectos tão importantes e positivos, quando tanta gente passa tantos anos em terapias formais sem obter estes resultados espectaculares, foi o facto de eu estar finalmente a fazer o que nasci para fazer, a fazer o que necessito de fazer na minha vida. Estou a viver e a experimentar, de modo positivo, sadio e inofensivo, as fantasias que tive durante anos de violação e cativeiro, perda de controlo, sofrimento erótico e degradação. Depois de anos a tentar compreender exactamente porque é que consegui o que consegui, concluí que quando alguém descobre o lugar a que pertence ou encontra alguma coisa que realmente adora fazer, muitos comportamentos negativos, incluindo hábitos arreigados, podem ser abandonados, porque não passam de sintomas duma profunda insatisfação com a vida.

Estou convicta que me tornei uma submissa apesar das minhas circunstâncias e experiências, e não por causa delas. Tenho o género de currículo que transforma as pessoas em inválidos emocionais, não em submissas sexuais. O meu pai era um alcoólico que morreu antes de eu atingir a puberdade. Enquanto foi vivo, ora abusou de mim física e emocionalmente, ora me estragou com amor e atenção. Depois de ele morrer passei meses a chorar todas as noites de solidão até adormecer. Por pior que ele fosse, foi a única pessoa na minha família que me fez sentir especial e amada. (Estou consciente que a minha vida adulta recria nalguns aspectos o meu relacionamento com o meu pai. Também estou consciente que para mim esta recriação é saudável e que a minha sexualidade envolve muitos aspectos que ultrapassam em muito esta representação infantil).

Pouco depois da morte do Papá, a minha mãe arrastou-me para fora do sistema público de educação e enviou-me para um colégio católico. O efeito de a minha família passar a vida a mudar de um lado para o outro e eu ter que ir para uma escola nova em cada ano, somado ao choque recente de ter perdido o meu pai, teve o seu efeito em mim, e por essa altura eu tinha-me transformado numa criança insegura, pateticamente tímida. Ficava parada contra a parede do recreio a ver as outras crianças brincar e inventava fantasias que me magoavam sobre a razão por que nunca era convidada a participar na diversão. Convenci-me que era muito estúpida; que era muito desajeitada. A minha família era demasiado pobre. Eu era uma estranha. Não era tão boa como os outros.

E além disso havia as freiras. Peguem numa criança que já é insegura à partida, com um sentido de si própria muito inadequado, e entreguem-na nas mãos de um bando amargo e meio louco de abusadoras emocionais, e vejam o sangue correr!

Durante estes anos de tortura a minha mãe recorreu a um emprego mal pago de professora para sustentar uma família com seis membros. A sua exaustão e a sua desilusão com a vida tornaram-na emocionalmente distante e impediram-na de notar sequer a minha infelicidade. Embora eu fosse uma criança dotada intelectual e criativamente, desenvolvi um sentimento de mim própria que continha elementos quase avassaladores de inferioridade e derrota. Sentia-me impotente, sentia que quase toda a gente em meu redor era mais poderosa ou mais inteligente do que eu, que não era capaz de fazer nada, que era incompetente para tratar da minha vida simplesmente porque era uma mulher como a minha mãe. Embora uma parte de mim soubesse que os meus colegas do sexo masculino não eram, em quase nenhum caso, mais inteligentes do que eu, considerava as minhas próprias ideias e opiniões sem valor em comparação com as deles, e era encorajada a isto pelas minhas professoras. Os meus extensos recursos criativos foram postos ao serviço de inventar razões para os pensamentos dos rapazes serem sempre melhores do que os meus.

A minha saída do colégio católico, terrivelmente ferida, deixou-me desarmada para enfrentar a puberdade e a minha primeira experiência sexual: uma violação aos catorze anos. E com esta admirável introdução ao mundo maravilhoso do sexo no meu currículo, passei a minha adolescência e a maior parte dos meus vinte anos tão frígida como o Pólo Norte. A literatura feminista que comecei a ler por essa altura deu-me esperanças idealizadas sobre como mas coisas deviam ser – sobre a maneira como eu, uma mulher jovem e forte, devia agir e sentir – mas não estava em posição de pôr estes ideais em prática. Não tinha um currículo de êxitos sobre o qual pudesse construir. Mas ainda estava viva muito lá no fundo, com um cerne inabalável de optimismo, uma esperança estúpida e constante de que tudo acabaria bem. É como se eu tivesse dentro de mim uma estrutura metafórica de aço, crua e sem forma, mas apesar de tudo incapaz de ceder. Sei que consegui manter um lugar dentro de mim ao abrigo das coisas horríveis que a vida tinha posto no meu caminho, ao abrigo das crueldades da vida. Nesse lugar eu era feliz, nesse lugar eu tinha esperança duma vida melhor, e nesse lugar vivi as minhas fantasias sexuais mais íntimas e mais preciosas.

(Continua)

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Autor: M’Ahmed ben Chérif Effendi

Tradução: Vanderdecken

Zima dirige-se de novo ao Príncipe e diz:

− Permite, Amo e Senhor, que vistamos as nossas roupas de modo a que esta virgem sofra ainda mais com a sua nudez.

A um aceno de concordância do Khan desaparecem os três para logo voltarem completamente vestidos. Zima traz um vestido de seda negra bordado a prata que lhe realça as linhas do corpo esbelto. Os dois rapazes conservam os calções vermelhos debruados a prata, mas o bolero foi substituído por um colete russo justo à cintura.

Desceram vários degraus, conduzidos por Zima até chegarem a um corredor longo e sombrio com paredes nuas, mal iluminado por tochas fumarentas. De súbito param diante duma porta maciça em madeira de carvalho, fechada por grossos fechos de ferro. Zima bateu três vezes com a pesada aldraba de ferro. Este lugar provocava um medo angustiante, e o eco abafado da aldraba sob as abóbadas despertava sonhos sangrentos. Quase se podia acreditar que se viam ainda os vestígios das várias torturas que numerosos infelizes tinham sofrido ao longo de muitos anos. Uma velha com feições descarnadas e aspecto temeroso apareceu para abrir a porta. Ao ver Zima cumprimentou-a tomando na mão manchada de henna a mãozinha da jovem e beijando-a com reverência. A seguir, sem dizer palavra, conduziu o pequeno grupo a uma cave escura cuja porta fechou depois de pedir licença aos visitantes.

Esta câmara, que na sua desolação esquálida contrastava singularmente com o luxo dos andares superiores, recebia um pouco de luz natural por uma fresta estreita; uma lamparina a óleo iluminava o compartimento com uma chama bruxuleante. Vários objectos pendiam das paredes húmidas; alguns bancos e uma banheira em pedra constituíam o parco mobiliário desta tumba. E no meio, atada a um pesado bloco de madeira, gritava e debatia-se uma jovem.

As cordas que a prendem firmemente entram-lhe pela carne e obrigam-na à imobilidade. A garganta está presa por uma banda de ferro que lhe pesa sobre os ombros como uma canga. Por debaixo dos sovacos correm-lhe cordas finas que lhe deformam os seios e os friccionam até fazer sangue. Uma tábua presa com fios de cânhamo fixa-lhe os braços ao bloco; pelo mesmo sistema tem imobilizadas as articulações das mãos. Uma tira de couro cravejada por dentro com picos de aço rodeia-lhe a cintura. As pernas estão presas ao bloco da mesma maneira que os braços, e os pés apoiam-se numa tabuazinha recurva com pregos de ponta arredondada, que não ferem mas provocam dores excruciantes.

Esta jovem é Alifa, a escrava rebelde que mereceu esta punição devido a inúmeros delitos. O castigo foi adiado para este dia para servir o prazer do Khan, como outrora os Césares gozavam o martírio dos cristãos. A sua punição é ainda aumentada pela vergonha que o olhar dum homem sobre a sua carne virgem representa.

Este espectáculo transforma o Príncipe; sem saber porquê, fica repleto dum ódio profundo contra a jovem indefesa exposta perante ele. Desperta nele toda a crueldade do Hindu, os seus lábios contraem-se num sorriso maldoso: assim é o tigre quando se prepara para se lançar sobre a presa. Hassan odeia esta jovem!

– Cadela de escrava! – brama, depois de ter apreciado calado este quadro sinistro por algum tempo. – Metes nojo! Pois bem! Agora vais sofrer para expiar os teus erros!

– Piedade! – suspira a infeliz entre lágrimas. – Os meus membros doem-me, o meu peito sangra… Poderoso Senhor, pela tua mãe, sê misericordioso! Manda-me soltar! Piedade!

– Vais ser torturada – responde ele.

Com um esforço sobre-humano a jovem procura romper os laços que a prendem, mas eles enterram-se-lhe ainda mais na carne. A dor é avassaladora, um grito de partir o coração rompe-lhe da garganta e ela desfaz-se em soluços. As lágrimas diminuem pouco a pouco e o seu olhar suplicante dirige-se de novo para o Príncipe. Mas este permanece inamovível, e um sorriso sardónico paira-lhe nos lábios cerrados. Atemorizada, Alifa baixa os olhos e sofre em silêncio…

– Olha para mim! – ruge o Khan ao mesmo tempo que mostra à escrava o seu pénis posto a nu. Alifa enrubesce e baixa de novo os olhos, mas Hassan, no cúmulo da cólera, ordena às duas negras que têm Alifa a seu cargo:

– Peguem nos chicotes e chicoteiem esta cadela na barriga pelo tempo que for preciso até ela olhar para o meu sexo!

Os golpes silvam no ar e estalam na barriga branca da jovem. Esta nova tortura arranca-lhe novos gritos de dor. Depois do terceiro golpe, procura erguer o olhar para o Príncipe, mas debalde, porque o pudor a obriga a baixar de novo as pálpebras. Os golpes continuam a chover, e de novo, por várias vezes, ela se esforça por contemplar o membro de Hassan, mas sempre sem êxito. Por fim aparece um fino fio de sangue nos vergões do chicote e ela desmaia…

As negras revivem-na com uma massagem e dão-lhe a sorver uma bebida retemperadora. Como ela continuava de cabeça baixa, prenderam-lhe um peso aos cabelos compridos para lhe puxar a nuca para trás e obrigar a pobre a olhar em frente. Com o rosto vermelho de vergonha, ainda não ousa obedecer; pouco a pouco, porém, vai-se habituando, e ao ser ameaçada com um ferro em brasa decide finalmente olhar para o Khan, a quem o olhar temeroso dirigido às suas partes sexuais excita em alto grau. E a jovem vê pela primeira vez na vida como o membro de um homem se vai endireitando lentamente, aos arrancos, até ficar direito e rijo.

Olha agora com espanto, esquecendo as dores que sente, este membro comprido que se move para cima e para baixo, endurece, passa de vermelho a roxo e se dilata ao ponto de parecer quase a explodir… Por fim Hassan, que receia um orgasmo demasiado rápido, cobre-se de novo com a sua camisa de seda e senta-se num banco.

Ordena que a desamarrem; uma ideia diabólica passa-lhe pela mente. Quando Alifa se sente livre a sua primeira reacção é pôr as mãos a esconder o sexo, num movimento instintivo ditado pelo seu pudor virginal.

– Tira as mãos! – ordena o Príncipe.

A jovem não obedece e mantém-se na mesma posição: imediatamente silvam dois chicotes de couro que lhe atingem os braços, e a dor obriga-a a obedecer ao desejo do Khan. Este chama as duas negras e dá-lhes instruções em voz baixa. Estas compreendem: tomam nas mãos as vergastas e põem-se à espera. O Príncipe ergue-se, deita fora a camisa de seda e dirige-se a Alifa todo nu. Ao ver aproximar-se de si este homem ávido, ela apressa-se a fugir: o Khan persegue-a e ela corre por toda a sala para escapar ao amplexo que a ameaça. Mas ao escapar tem que passar pelas negras, que a cada passagem a atingem com os chicotes nos ombros, nas coxas e no rabo. E o Príncipe persegue-a sem querer a sério apanhá-la. A escrava urra de dor a cada golpe do chicote, e os seus gritos originam, estas abóbadas subterrâneas, um eco assustador.

De repente, no fim das suas forças, pára, vira-se e dá ao Khan, antes que ele tenha tempo de se defender, uma sonora bofetada na cara. Ao receber este insulto inaudito ele fica desconcertado, pasmado, durante um momento; mas logo a cólera e a fúria lhe fazem perder a cabeça; com mãos trémulas agarra num chicote, prende a jovem pela garganta, atira-a ao chão e vergasta-a sem piedade.

Quando ele, esgotada por agora a sua cólera, termina, as negras ajudam a jovem a levantar-se e mergulham-na totalmente na banheira cheia de água gelada.

A infeliz sente-se finalmente melhor; bebe ainda um cordial, e depois de algum tempo de sossego vai-se recompondo cada vez mais. Contudo, arde-lhe o corpo todo, os membros doem-lhe horrivelmente, e julga sentir dentro de si um fogo que a consome; mas não ousa queixar-se porque teme uma nova punição: pois não duvida que os seus sofrimentos ainda não chegaram ao fim, e que o rude selvagem que a contempla com olhos ávidos e cruéis ainda não está saciado. E o Khan odeia-a agora com todo o ódio dum homem insultado. Ditará a sangue frio, para obter vingança, as penas mais terríveis.

– Pede perdão – rosna ele. – Diz que me queres, cadela miserável!

As negras sopram à jovem, para que ela obedeça ao seu Senhor, as palavras que deve dizer, e acompanham estas palavras com vergastadas.

– Poderoso Senhor – soluça ela – perdoa… à tua ínfima escrava o ultraje que ela cometeu contra ti… Desejo-te, meu amado, gostaria… de sentir o teu corpo sobre o meu… gostaria que o teu sexo penetrasse em mim… Sou uma cadela miserável… que não deseja mais nada que servir-te… Sei que sou indigna de ti… O teu membro é belo… é vermelho… é grosso… Quando se introduzir em mim há-de rasgar-me toda…

Este discurso continua ainda por muito tempo, sempre ditado pelas negras, que a cada hesitação abatem as vergastas sobre os braços nus de Alifa. A jovem está vermelha de vergonha por ter que dizer tais palavras; um tremor nervoso apodera-se de todo o seu corpo e apercebe-se do tormento que ainda a espera. Momentos de rancor surdo alternam no seu espírito com o mais profundo abatimento. Dá-se conta da sua impotência e quereria defender-se, desejaria não deixar macular a sua pureza virginal diante de tantos olhos; as palavras que diz doem-lhe na boca, e crê sentir um vento de loucura a percorrer-lhe o espírito.

Depois de um curto intervalo é obrigada a fazer um novo discurso que ultraja ainda mais o seu pudor. É constrangida a acompanhar as palavras de gestos e a mostrar as partes do corpo a que se refere.

– Olha para os meus seios, meu Amo, ainda são pequenos… mas são firmes como o mármore e têm bicos rosados… que apontam para ti… Observa os meus pés, poderoso Senhor, estão vermelhos dos tormentos que sofreram para te dar prazer… Vê a minha barriga tão branca… Aqui, entre as minhas coxas, meu Amo, está um lugar encantador. Onde quero que penetres.

Com estas palavras abre as coxas, coagida pelas negras, curva o corpo para trás e mostra o lugar de que fala.

– Vê também, Senhor, o meu rabo redondo e carnudo; pertence-te, embora não seja digno de te servir… Se quiseres, há-de abrigar o teu membro poderoso, e hás-de vir-te dentro dele.

Ao acabar de dizer estas palavras a jovem baixa a cabeça e desfaz-se em soluços…

– Está bem – responde o Khan. – Vais provar que é verdade o que disseste.

O Khan ergue-se e aproxima-se da jovem; acaricia-lhe as maçãs do rosto, mete-lhe um dedo entre os lábios, percorre-lhe o cabelo com a mão, ergue-lhe os braços e titila-lhe os sovacos. Depois desce, apalpa-lhe a barriga e chega finalmente ao lugar mais secreto, no qual tenta introduzir um dedo. Ao sentir este contacto, Alifa solta um grito e cobre o rosto com ambas as mãos, chorando lágrimas amargas. Estes soluços, porém, não incomodam o Khan, antes lhe fazem recrudescer a paixão. Afaga com a mão o rabo da escrava e belisca-lhe lascivamente as nádegas. Estes actos de concupiscência enchem a jovem de vergonha, e de novo as lágrimas lhe correm copiosas…

– Mostra a cara! – ordena o Khan, e como Alifa não obedece esbofeteia-a com força, mas debalde… A excitação dele cresce; belisca-a cruelmente nas coxas e enterra-lhe as unhas nos braços brancos.

O Khan observa-a em silêncio durante um momento, e depois continua a apalpá-la. As suas mãos passeiam-se pela carne da donzela sem que esta profira uma queixa ou uma palavra.

– Tens que te habituar – ralha uma das negras. – Se este magnânimo Senhor não te possuir, talvez sejas violada e chicoteada já amanhã por cem homens. Não sejas tão arrogante e deixa-te conquistar, víbora!

A jovem fixa com olhos espantados ambas as megeras, que lhe introduziram na alma a semente de um novo terror.

É-lhe concedido um pouco de sossego. Deita-se a um canto sobre o chão de pedra nua cuja frescura contribui para acalmar um pouco a ardência que lhe queima a carne. O Khan senta-se ao seu lado e fuma um cigarro. No fundo dos seus olhos cinzentos arde-lhe uma chama de luxúria; consome a donzela com o olhar. Quer possuí-la. Dá conhecimento deste desejo a Zima, e esta dá instruções às negras para que preparem tudo no compartimento vizinho para o sacrifício que o Príncipe quer oferecer ao deus Eros. As núbias lançam-se ao trabalho. Alifa continua estendida no chão, respirando com força, a cara virada para a parede e a mão colocada entre as nádegas para esconder o rabo. Apesar das dores, o seu pudor ainda oferece resistência. O jovem Ali não descia os olhos dela nem por um minuto; o seu membro viril levanta-se furioso.

Finalmente as duas megeras regressam: está tudo pronto. Cada uma delas toma um braço da jovem para a conduzir a um quarto espaçoso, mobilado com simplicidade e sem luxo. O Khan, Zima e Ali seguem-nas. Uma carpete espessa no chão, dois divãs de veludo verde, algumas poltronas baixas forradas a seda: é este todo o mobiliário. As paredes são simplesmente brancas, e uma lamparina fumarenta, pendente do tecto, ilumina a câmara com uma luz fraca.

Chegadas aqui, as duas negras largam a jovem e retiram-se. Só ficam o Khan, Zima, Ali e Alifa. Esta deixa-se cair sobre um divã e segura a cabeça com as mãos. Tem a noção do que lhe vai acontecer e sente nos lábios um gosto amargo. Neste momento teria recebido a morte com alegria. Tudo o que sofreu até agora lhe parece trivial em comparação com o sacrifício do seu corpo a este homem que odeia, cuja face brutal e cruel a enche de medo; já não ouve nem vê nada, está tão imersa em si mesma que não se dá conta do mundo exterior. De súbito ergue a cabeça e vê diante de si o Príncipe todo nu: o seu sexo erecto aponta para ela a cabeça vermelha.

Um pouco mais longe está o rapaz, também ele nu, e o seu membro está igualmente duro. Todos têm o olhar dirigido para ela, que observa a cena de olhos arregalados. O seu peito ergue-se e desata aos soluços. Chegou o momento em que o seu corpo virginal há-de ser conspurcado, primeiro por este selvagem, depois pelo rapaz que ainda mal pode ser chamado um homem.

– Alifa – diz o Príncipe – vou tomar posse de ti. Estás a ver o meu sexo: pois bem, ele vai penetrar no teu ventre!

No seu desespero avassalador a jovem encontra um pouco de coragem e brada:

– Não! Mil vezes não! Não me haveis de ter, hei-de defender-me!

Nos lábios do Khan aparece um sorriso sardónico. Aproxima-se lentamente da sua vítima, e esta recua alguns passos para logo começar a correr, perseguida por Hassan, à volta da sala… Agacha-se, pega numa almofada e atira-a à cara do Khan. Este carrega sobre ela, que tenta escapar mas passa junto de Ali, que estende a perna e faz com que ela caia no chão. O Khan pega-lhe logo pelos braços; ela arranha-o e defende-se – debalde! Ele arremessa-a com rudeza para cima de um divã e cai sobre ela. Desesperada, ela repele-o e fecha as pernas com toda a força. Sente o grosso membro do seu perseguidor, ora sobre a barriga, ora sobre as coxas. Com as mãos procura afastar o rosto do homem, que aproxima os lábios dos dela cheio duma aterradora concupiscência. Agarra-o pelo bigode e puxa-o para trás. Mas ele põe os braços à volta dela e puxa-a irresistivelmente contra o seu peito. –

O peito dela toca no dele; ele deposita um beijo nos seus lábios húmidos e morde-lhos com voluptuosidade. Aperta-a cada vez mais – até quase a sufocar. O membro duro embate-lhe no ventre. Agora quer possuí-la completamente. Segurando sempre o torso da jovem entre os seus braços musculosos, ele ergue-se um pouco e força um joelho entre as coxas dela, contra o seu monte de Vénus. Ela debate-se até que as pernas cedem, cansadas, e os joelhos do Khan descem até tocarem finalmente no divã. Um estertor fundo rompe-lhe da garganta; está vencida e sente-se enfraquecer. Com um movimento súbito, recua, e consegue apoiar-se de lado sobre a anca; com isto o Príncipe perde o terreno que tinha ganho, pois com este movimento as suas pernas saíram da posição conquistada. Furiosamente aperta-a ainda mais e comprime o membro erecto contra o corpo dela. Mas é tarde demais, e ela será a vencedora nesta luta desigual. No paroxismo da sua ânsia o Príncipe já não consegue conter-se, e um jacto de esperma derrama-se sobre o corpo virginal de Alifa.

Ele levanta-se, fora de si, segura-a pelos cabelos e começa a bater-lhe sem piedade. Chovem sobre ela os murros e os pontapés. Por fim acalma-se e permite que ela se levante também. Apesar da sua exaustão, paira nos lábios da jovem um sorriso de triunfo; pega numa almofada e seca com ela o esperma que lhe alagou as coxas.

Mais uma vez o mosquito venceu o leão, a escrava fraca conseguiu defender-se do homem robusto; este sente-se melindrado; a sua força esgotou-se, o seu pénis está flácido. No seu coração já só habita o ódio, misturado com a ira. Há-de vingar-se desta mulher que o humilhou, a ele, o Príncipe Hassan-Khan, o chefe temido e respeitado de todo um clã!

– Cadela – rosna ele. – Não cheguei a possuir-te, mas vai possuir-te este rapaz que aqui vês; Eu mesmo o ajudarei, e o seu membro há-de livrar-te dessa virgindade que defendes com tanta paixão.

Ao ouvir estas palavras o rapaz levanta-se; o seu membro ergue no ar a cabeça vermelha, os seus olhos relampejantes trespassam o corpo da escrava. Só espera um sinal do seu Senhor para se lançar sobre ela. Por fim o Príncipe dá a ordem. De um salto fica o rapaz junto da jovem, que deita ao chão no seu ímpeto; segura-a pelo pescoço com os braços e deita-se com todo o corpo sobre ela…

O Príncipe e Zima apressam-se para junto deles; esta segura os braços de Alifa, Hassan ocupa-se das pernas, que afasta com um impulso poderoso e mantém assim abertas. O corpo do jovem está agora entre as coxas da escrava. As pernas desta já não se podem fechar e isto permite ao Príncipe largar-lhe os pés para apontar o membro do rapaz. Este começa por fim a penetrar nela. Um grito de alegria rompe da garganta de Ali – e um soluço abafado da boca de Alifa. O rapaz está a rasgá-la, ela sente o membro que se vai introduzindo aos arrancos, cada impulso dele para diante é uma dor para ela. Subitamente parece que todo o seu ventre dá de si, apodera-se dela uma dor avassaladora, e passada esta não sente quase nada. Só o entrar e sair do membro lhe lembra a realidade do que está a acontecer. Deixa-se possuir, imóvel, desta vez derrotada. Não experimenta qualquer prazer, só a domina uma impressão bizarra. Os seus olhos fecham-se, dos seus lábios escapa uma respiração sibilante. Finalmente derrama-se um líquido aos borbotos no seu ventre e ela desperta do seu meio sono ao sentir-se inundada.

Neste momento sai-lhe um último soluço da garganta. O esperma de Ali traz-lhe à consciência a realidade completa. Compreende que tudo acabou e chora ainda pelo ultraje feito ao seu corpo. Tudo terminou. Com um último beijo entre os seios dela, o jovem afasta-se dela e levanta-se.

Alifa está livre, Zima largou-lhe os braços, e o Khan está de pé diante dela a olhá-la com uma expressão trocista. Ela foge para o outro extremo da sala e volta a chorar. A escrava Alifa perdeu a virgindade: nada de importante.

Agora o Khan quer também possuir a jovem. Desta vez são tomadas todas as medidas para que toda a resistência da escrava seja em vão. Como o Príncipe já não está excitado é preciso primeiro provocar-lhe uma erecção suficiente. Zima e Ali encarregam-se disto. Finalmente, quando os nervos do Príncipe se encontram de novo suficientemente atiçados, ele dirige-se a Alifa e obriga-a a apertar-lhe o pénis com a mão. Finalmente chegou o momento.

– Cadela – brada-lhe o Khan. – Não quiseste que eu te tivesse pela frente; agora vais ver, vou gozar no teu rabo, víbora!

O Khan aproxima-se e começa por lhe titilar com o membro o buraco do rabo. Alifa solta um berro e imediatamente cai sobre ela uma correia de couro. O Príncipe ri-se. Num repente, com um movimento brusco, dá uma estocada tão forte com o pénis que Alifa dá um uivo ensurdecedor. Tem o corpo todo em fogo e da testa caem-lhe gotas de suor frio enquanto o Khan se move para a frente e para trás no rabo dela. O seu membro grosso sente-se fortemente apertado nesta abertura estreita e o seu prazer é extraordinário, mas por muito tempo o esperma não vem. Este dia cheio de excessos esgotou-lhe a força viril.

Recua para descansar um pouco, mas logo se volta a introduzir com o mesmo movimento brusco no rabo da jovem.

Contudo não consegue ejacular; começa a mover-se desmesuradamente, descansa a face sobre a cabeça da escrava e acelera o movimento… nada acontece, só o suor lhe sai do corpo por todos os lados. A respiração torna-se-lhe arquejante.

Por fim o prazer está próximo, ele sente-o chegar, os seus movimentos tornam-se ainda mais rápidos. Sente um titilar lascivo no membro viril, acredita que tudo terminou, e contudo ainda não. Então o membro dilata-se, cresce no rabo de Alifa e deita um jacto de esperma. O prazer é demasiado: o Khan perde o domínio de si, aperta Alifa com os dois braços contra o peito. Fica deitado sobre o corpo dela, sem se mexer, com um tremor nos membros e os nervos exaustos…

De quando em quando o seu membro ainda palpita um pouco e deixa sair uma gota de esperma. O Príncipe não se move e não se aparta do abraço. Parece encontrar um novo prazer neste prolongamento da sua união. Também Alifa permanece sem emitir um som ou fazer um movimento; o seu sacrifício está acabado e é irreversível; já tudo lhe aconteceu, está definitivamente vencida. A sua carne já não lhe pertence, e ela entrega-a sem se queixar, quase sem um lamento no coração. Só subsiste ainda nela uma amarga aversão aos prazeres da carne, mas esta aversão há-de desaparecer com os novos amplexos, no harém do Khan há-de acabar por perdê-la… Um espasmo generalizado torce-lhe os músculos, parece que um anel de ferro lhe comprime a cabeça, está febril.

O Khan já não é a fera cruel que era ainda há pouco; cobre Alifa de beijos ternos, envolve-a em carícias suaves e palavras amáveis. Já não é uma vítima do amor que tem diante de si, já não é uma cadela que ele despreza, mas sim uma mulher que através da entrega do seu corpo – involuntária, é certo, mas entrega mesmo assim – lhe proporcionou um prazer sem medida. Toma-a nos braços e deita-a ternamente no divã; ainda lhe beija as pálpebras, a testa, os seios. E durante um momento os seus lábios prendem-se entre as coxas brancas e firmes.

Com isto começa a entrar qualquer coisa de novo e insuspeitado no coração da escrava: esta ternura e esta bondade fazem com que a sua ira se comece a desvanecer e sente-se presa – não de amor, mas de uma simpatia, um certo bem-querer a este homem que há poucos momentos ainda era o seu verdugo. O seu estado de espírito sofre uma singular transformação e desta hora em diante ela dedica a este homem o seu corpo, porque este corpo o faz tão amável!

O Khan levanta-se por fim, vira-se para Zima e diz-lhe:

– Já que desflorei esta jovem, tenho, segundo as regras desta casa, que a comprar. Pois bem, compro-a, e com ela o jovem Ali. Será a Huri graciosa que adulará os nossos desejos e servirá o nosso prazer, o meu e o de Ali. Ali, de hoje em diante ela pertence-te como me pertence a mim. Podes servir-te dela e tirar prazer dela como e quando quiseres.

O rapaz lança-se aos pés do seu Senhor e agradece-lhe comovido.

– Poderoso Senhor – diz ele. – Fico agradecido pela felicidade que recebo das tuas mãos; o meu corpo pertence-te como o duma escrava. Permite-me só que me sirva agora desta jovem. Quero-a tanto, meu Amo, que não posso mais esperar, permite, suplico-te, que eu a tome como tu acabas de a tomar!

O Khan nega por enquanto ao seu jovem escravo esta permissão, pois quer dar à jovem algum sossego. De resto ele próprio começa a sentir, depois desta longa sucessão de desvarios, algum cansaço; deseja sossegar o quanto antes os seus membros cansados numa cama macia.

(Continua)

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Autor: Polly Peachum
Tradução: Vanderdecken

Não sei se fui sempre submissa, mas algumas das minhas memórias mais antigas, começando nos cinco anos de idade, envolvem actos e pensamentos submissos. Eu era a menina que queria sempre servir as outras crianças com quem brincava. Lembro-me de brincadeiras em que empurrava as minhas irmãs num carrinho de brincar até ao ponto da exaustão, pensando o tempo todo em quão confortáveis elas estavam e como se estavam a divertir graças ao meu esforço. Adorava poder servi-las. Com os meus pais sentia algo de semelhante mas muito mais intenso. Ficava radiante quando eles me davam tarefas para os ajudar na vida da casa, e aceitava a maior parte dos castigos, quando eles vinham, com obediência e sem os pôr em questão. Ser punida comportava para mim, mesmo nessa idade, um frémito distintamente erótico. Estava a ser corrigida fisicamete por alguém mais forte e mais sábio do que eu, e isto era não só correcto e justo mas também terrivelmente excitante.

Ao crescer, comecei a ter fantasias explicitamente eróticas de submissão: inventava histórias em que era uma cativa ou uma criada, forçada a fazer coisas extremamente embaraçosas e a suportar punições dolorosas administradas por alguém mais velho e mais forte do que eu. Estas fantasias excitavam-me: nunca me fizeram sentir má ou culpada. Julgo que assumi que todas as crianças tinham sonhos em que eram perseguidas nuas na arena de um circo por enxames de abelhas que tentavam introduzir-se nos seus rabos enquanto a multidão se ria à gargalhada duma situação tão vergonhosa e dolorosa.

Por volta dos nove anos de idade comecei a tentar envolver as crrianças com quem brincava em jogos de senhor-escrava, nos quais eu, naturalmente, era sempre a escrava. Mas apesar de a maior parte dos miúdos adorarem a novidade de serem os senhores, de mandarem em alguém para variar, raramente encontrei companheiros de brincadeira que continuassem a gostar do jogo depois de o terem jogado algumas poucas vezes. Eu, é claro, seria capaz de o jogar o dia inteiro se eles cooperasem, e sentia um enorme prazer em obedecer às exigências cada vez mais extravagantes do meu Senhor ou Senhora. Paradoxalmente, quando por volta dos treze anos aprendi finalmente alguns factos sobre o sexo, os constantes e poderosos temas sadomasoquistas que tinham imbuído a minha infância recuaram para segundo plano. Talvez isto se devesse ao facto de eu estar demasiado ocupada em aprender o que fazer numa saida com um rapaz; talvez ao facto de eu, uma leitora voraz, ter descoberto aos treze anos a literatura feminista, literatura que sugeria fortemente que não era apropriado ter fantasias nesta direcção. Fosse qual fosse a razão, as minhas tendências submissas tornaram-se, durante a puberdade, muito menos conscientes do que antes, emergindo apenas à noite como acompanhamento da masturbação. Mas mesmo nessas ocasiões eu não associava estas fantasias à minha pessoa ou às minhas necessidades: eram apenas uma coisa que eu fazia enquanto me masturbava.

Durante anos as minhas fantasias e tendências sexuais ficaram por examinar, pelo menos por mim própria. Aos 17 anos uma conhecida mais velha do que eu deu-me um exemplar da “História de O”, o romance sadomasoquista clássico do século XX, dizendo simplesmente “acho que vais achar isto interessante”. Devorei o livro, que se transformou na base das minhas fantasias nos anos seguintes, mas abafei todas as especulações sobre o porquê de ela me ter dado aquele livro. Não queria, simplesmente, pensar nisso. Olhando para trás, esta negação parece-me ao mesmo tempo divertida e compreensível. Tentem imaginar uma adolescente precoce a ter aulas na faculdade e a viver com dois rapazes dez anos mais velhos do que ela. Como uma verdadeira filha dos anos 70, o seu currículo icluía uma disciplina de Estudos Femininos ministrada por uma lésbica e uma disciplina de sexualidade humana estilo “beijinhos e abraços” durante a qual o sadomasoquismo foi mencionado de passagem durante uma conversa de cinco minutos sobre variações e fetiches para nunca mais ser trazido à baila. E no entanto esta adolescente volta para casa todas as noites e passa 40 a 60 minutos de joelhos no chão de madeira, aos pés duma cama, massajando os pés do seu companheiro de quarto, um jovem politicamente correcto, ecologicamente consciente e sensível aos papéis sexuais, até ele adormecer! E o tempo que ela gasta a fazer isto é a parte mais arrebatadora, excitante e íntima do seu dia. Uma vez mais, de um modo limitado e socialmente aceitável, encontrava-me em posição de reviver aqueles momentos de infância que me tinham dado tanto prazer. Mas a submissão sexual continuava a não ser algo que eu relacionasse comigo própria. Pura e simplesmente não pensava nela – a não ser como fantasia nocturna.

Nao fiz mais nada em relação às minhas fantasias até seis anos mais tarde, quando, aos 23 anos, tentei dar mais tempero a um relacionamento de cinco anos contando ao meu namorado episódios da “História de O” enquanto fazíamos amor. Ele ficou tao excitado com estas histórias que, para minha grande delícia, me surpreendeu dias depois amarrando-me os braços a um gancho no tecto do dormitório. Depois deu-me uma sova com uma vergasta que tinha cortado lá fora, degradou-me, e tentou realizar sexo anal comigo. Esta primeira experiência genuína de submissão forçada arrebatou-me até ao mais fundo de mim, mas na manhã seguinte quando o meu namorado viu as nódoas negras nas minhas ancas e nádegas ficou absolutamente horrorizado. A culpa que sentiu por ter feito aparecer aquelas marcas no corpo da sua amada impediu-o de alguma vez voltar a fazer comigo algo de tão “doentio”, apesar da minha afirmação que tinha adorado.

O conhecimento da minha relação com a submissão pode ter estado a subir lentamente do meu inconsciente para o meu consciente durante aqueles anos, mas foi necessária uma experiência catalítica, uma espécie de epifania, para me confrontar com o facto que sou uma submissa. Tinha quase 30 anos e andava com LuAnn, uma mulher com quem tinha trabalhado durante nove meses. LuAnn era uma leitora ávida de ficção popular e tinha-me chamado a atenção para os livros da série “Vampiros” de Anne Rice. Ao lê-los fui fortemente afectada e atraída pelos relacionamentos de poder entre um vampiro e as suas vítimas escolhidas – na realidade entre um vampiro com séculos de idade e experiência e uma jovem protegida sua, recentemente humana. No meu estilo habitual de leitura, que é levar tudo à minha frente, acabei por ler tudo o que Anne Rice alguma vez tinha escrito, e acabei por tropeçar nos seus romances eróticos, escritos sob o pseudónimo A.N. Roquelaure. Foi nessa altura, quando comecei a ler as aventuras de conto de fadas erótico de Beauty, que acorda de um sono profundo por meio duma violação e duma sessão de palmadas, que também eu acordei do meu sono pessoal para fazer a conexão essencial: esta sou eu. Eu sou como esta personagem de conto de fadas. Sou uma submissa, e não há nada que queira mais do que ser escrava de alguém! Bingo. Tocaram as campainhas. As trompas soaram. As luzes piscaram. Ali estava eu. Mas onde? Estava maluca e não sabia? Mas aquilo não me parecia maluquice. Parecia-me certo.

Nesse tempo eu não fazia ideia de quão poucas pessoas encaram o sadomasoquismo como aceitável para terceiros, muito menos para si próprias. Magoou-me a sério dar-me conta. como me dei rapidamente, que LuAnn estava totalmente impreparada para aceitar a minha auto-descoberta. Fiquei subitamente isolada, não sabia de todo para onde havia de me virar para encontrar pessoas que partilhassem os meus novos interesses, ou sequer como encontrar alguém que não sentisse repulsa pelos meus sentimentos. Tal como muitas outras pessoas nas minhas circunstâncias – só mais tarde me apercebi de quantas – procurei alívio na Internet. Sozinha no meu apartamento, aprendi a ligar um modem a um computador e descobri o mundo das comunicações online. Também encontrei rapidamente, graças à surpreendente ajuda do meu ex-namorado, as áreas mais desviantes nos sites de contactos e alguns serviços comerciais que podia subscrever. Aqui comecei a encontrar outros submissos e dominantes. Deixei mensagens longas sobre a minha sexualidade e numa questão de horas comecei a receber numerosas respostas e mensagens electrónicas. Conheci várias pessoas e cheguei a “jogar” com algumas delas por computador. Aprendi que o tipo de submissão que eu queria – imersão total, life-style – não era o que todas as pessoas envolvidas em sexo sadomasoquista querem. De facto, a grande maioria das pessoas que encontrei online pareciam satisfazer-se com um pouco de S&M com os seus parceiros no quarto ou ao fim de semana para voltarem a uma relação convencional entre iguais depois destas “sessões” relativamente breves. Eu, por outro lado, tinha a certeza que não queria nada que não fosse uma escravidão absoluta e sem fim.

Procurei entre as pessoas que encontrava online pela minha contraparte dominante: alguém que quisesse dominar e controlar tanto como eu queria ser dominada e controlada. Acabei por encontrá-lo – ou melhor, ele encontrou-me. Depois duma longa correspondência, numerosos telefonemas, e vários encontros que duraram vários dias, fiquei encantada quande ele me deu a oportunidade de me entregar a ele em escravidão. Embora ele me pudesse ter ordenado que me tornasse sua escrava, e eu teria obedecido instantaneamente, ele queria que esta escolha fosse minha – e a minha última decisão livre. Pensei cuidadosamente no assunto durante várias semanas, e até ao segundo em que ele me disse que era tempo de decidir considerei a ideia de que tinha uma escolha e ainda podia recuar. Embora não quisesse recuar e tudo em mim clamasse pela experiência da escravidão, eu ainda me dava bem conta de que até ao momento em que me desse a ele tinha o poder de continuar livre. Não sofri nenhuma lavagem ao cérebro; ele não tentou persuadir-me de nada. Pelo contrário, eu tinha estado activamente à procura dele ou de alguém como ele. Foi uma decisão minha, e foi a melhor (e última) decisão que alguma vez tomei.

(Continua)

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Texto: Polly Peachum.
Tradução: Vanderdecken.

Uma vida assim, obviamente, não pode ser vivida sem ser examinada. As perguntas que as mulheres submissas se fazem, os colóquios interiores a que se entregam, surgem do mar cultural que as rodeia: as perguntas das submissas são em forma invertida as acusações que a sociedade lhes faz. Mas serão estas acusações justas, ou corporizam mitos em que a maior parte das pessoas acredita simplesmente porque lhes parecem a coisa mais simples e mais óbvia? Os próprios mitos têm que ser examinados. Será que aquilo que a sociedade assume sobre as submissas condiz com as experiências de vida pessoais das submissas? Os motivos daqueles que divulgam mitos e atitudes negativas sobre a sexualidade submissa têm também que ser examinados por qualquer mulher submissa que procure a sua própria aceitação das suas necessidades.

A mulher submissa mítica é fraca, incapaz de tomar decisões ou sem disposição para o fazer, porque nâo quer suportar os fardos normais e as responsabilidades que os outros adultos suportam, ou por por causa duma necessidade patológica de depender do dominante. Diz-se dela e do dominante que têm um relacionamento particularmente doentio e co-dependente.

Como é o caso com muitas crenças populares sobre pessoas e coisas, a crença na mulher submissa fraca é muitas vezes o exacto oposto da realidade. De facto, a maior parte das pessoas seriam incapazes de manter uma relação de submissão life-style a tempo inteiro, por mais que a desejem, simplesmente porque não têm a força de personalidade que isto exige. A maior parte das pessoas, quando pensam numa submissa, formam a imagem duma pessoa sem vontade própria, um capacho que pode ser pisado por qualquer um e não apenas um dominante em particular. A verdade é que, apesar de existirem certamente submissas que são fracas e correspondem à imagem do capacho, também há muitas pessoas fracas envolvidas em relações convencionais. Existem pessoas auto-destutivas – ponto final. Algumas são atraídas pelo sadomasoquismo, a maior parte não, mas todas elas irão até onde for preciso para encontrar a confirmação de que não têm qualquer valor.

Estas pessoas fracas constituem uma minoria entre as submissas conscientes, e são especialmente raras em relacionamentos life-style permanentes devido a um conjunto de razões inter-relacionadas. A mais importante destas é que as pessoas envolvidas em submissão life-style tendem a levar muito a sério a sua sexualidade e a dos seus parceiros potenciais. Isto dá lugar a uma longa e cuidadosa avaliação, tanto por parte da submissa como do dominante, antes que uma união, especialmente uma união permanente, se forme. Seria terrivelmente difícil para uma pessoa fraca ou auto-destrutiva esconder estas tendências de um dominante experiente, uma vez que sinais de uma auto-estima patologicamente baixa são uma das primeiras coisas que um dominante experiente procura detectar – para a evitar – numa submissa que está a aprender a conhecer (os dominantes saudáveis evitam relacionar-se com submissas auto-destrutivas porque estão interessados numa verdadeira troca de poder, e o poder é uma moeda que uma submissa auto-destrutiva não tem em quantidade suficiente para trocar). Um relacionamento bem sucedido de submissão life-style requer uma medida de força e de dádiva altruista para a qual uma pessoa obcecada com ver confirmado o sentido negativo que tem de si mesma não tem energia e na qual não está interessada. Uma obediência absolutamente sincera, do género que reverbera na alma quando o acto exigido é executado, é uma coisa rara e, mesmo para quem tem um talento natural, extremamente difícil de cultivar. Só uma mulher que tenha uma boa noção dos seus pontos fortes e uma opinião positiva das suas capacidades será capaz de aprender a obediência no grau e na forma requeridos numa relação sadomasoquista absoluta de senhor-escrava. Só uma personalidade muito forte e muito teimosa será capaz de perseverar quando as coisas se tornam difíceis: quando não quer obedecer ou quando as ordens são dadas de forma humilhante, talvez até à frente de terceiros a quem ela gostaria de impressionar com a sua independência.

Outra característica do estereótipo da submissa fraca é considerar-se que as submissas “escapam” para um relacionamento life-style a fim de evitar as responsabilidades da vida adulta e a necessidade de tomar decisões que elas comportam. Não posso falar em nome de todas as submissas life-style, mas eu certamente não entrei voluntariamente numa relação de escravidão para toda a vida com o fim de me livrar da necessidade de tomar decisões. Tinha 30 anos de idade, vivia independentemente havia doze anos, tomando as minhas próprias decisões, e não tinha a menor dificuldade em cuidar de mim própria antes de me envolver com o meu senhor. Pelo contrário, o que foi particularmente difícil para mim foi renunciar a tomar decisões. Estava habituada a tomar decisões nas minhas relações pessoais. Estava habituada a viver no meio de possoas que gostavam que eu tomasse decisões, e tinha-me habituado a confiar no meu próprio critério. Confiar noutra pessoa para tomar decisões sobre o nosso relacionamento, para não falar em decisões sobre mim própria, que fossem tão boas como as minhas ou melhores, foi muito difícil de conseguir, e só uma longa relação com alguém que é realmente tão competente como eu me permitiu sossegar o espírito nesta área.

(Relacionada de perto com a imagem da submissa como capacho está a imagem do dominante como um predador manipulativo, egoista e fraco que tira vantagem dos mais fracos do que ele: uma pessoa que não consegue construir um relacionamento com alguém que lhe seja igual. É verdade que alguns homens são atraídos a um papel dominante por razões de insegurança pessoal, por acreditarem que a única maneira que têm de atrair e conservar uma mulher é dominando-a; mas um dominante life-style bem sucedido faz o que faz a partir duma fonte de auto-confiança que lhe diz que o que está a fazer é profundamente certo: que é essa a sua vocação. É a imagem, no outro lado do espelho, da sensação que a submissa tem de estar finalmente “em casa”. Os membros mais experientes das comunidades BDSM distinguem com facilidade entre um pretenso dominante que age por todas as razões erradas e o artigo genuíno. Uma pessoa insegura que não é realmente dominante dá muitas pistas que podem ser facilmente nterpretadas por uma submissa experientes, tal como um dominador experiente consegue detectar uma mulher com problemas graves de auto-estima a tentar passar por submissa.)

Uma questão crucial sobre nós próprias que a maior parte das submissas tem que ter em consideração, e que é particularmente importante para uma feminista, é saber se nós, no nosso desejo egoista de satisfação sexual bizarra, estamos a perpetuar a violência contra as mulheres. O sexo sadomasoquista é encarado muitas vezes como uma forma de violência ritualizada: impessoal, brutal, desumanizante e objectificante. Dizem que perpetua a hostilidade contra as mulheres e que compromete o paradigma duma relação de amor e intimidade. É visto por muitos como algo que amplia as desigualdades de poder entre homens e mulheres e promove uma forma de sexo que é fria e emocionalmente distante. Estas ideias são de vária ordem e convém examiná-las uma a uma.

Será que uma submissão consciente tem alguma coisa a ver com a desigualdade entre os sexos? Não me parece. Na Internet há secções onde qualquer um pode pôr anúncios a solicitar sexo sadomasoquista. Tipicamente, as pessoas que colocam estes anúncios mencionam a sua orientação dominante ou submissa. A maior parte destas mensagens é colocada por homens submissos que procuram mulheres dominantes. (Esta informação nao é definitiva, é claro. Há muitos factores que influenciam a disposição de procurar publicamente parceiros sexuais. Mas a realidade reflectida na Internet não sustenta a ideia de que os papéis desempenhados no sexo sadomasoquista reforçam os estereótipos sexuais – como não a sustenta nenhuma outra informação disponível.).

De acordo com Different Loving: The World of Sexual Dominance and Submission (3), “Muitos sexólogos aderem tradicionalmente à opinião de que os homens têm mais probabilidades do que as mulheres de terem fantasias sexuais sádicas… que as mulheres têm mais probabilidade do que os homens de terem fantasias sexuais masoquistas. Nenhuma prova, anedotal ou outra, sustenta estas conjecturas. Pelo contrário, o grupo mais numeroso nas comunidades [sadomasoquistas] é constituído por homens submissos e o generalizado interesse masculino pela submissão é um fenómeno observável.” Uma parte da crença de que a submissão feminina perpetua papéis sexuais estereotipados e promove a violência conta as mulheres radica sem dúvida numa confusão sobre a violência. Os que acreditam no mito da perpetuação afirmam que quando uma pessoa atinge outra com força suficiente para causar dor, o acto físico em si, independentemente de a pessoa atingida o ter pedido à outra e tirar dele grande satisfação, isto é violência no mesmo sentido que uma violação, um assalto ou um caso de abuso doméstico. Nem a intenção da pessoa “abusada” nem a do “abusador” são tidas em conta. Mas então, e a mulher submissa que erotiza a dor e os actos de força? Se estas são coisas que ela quer, que a afirmam de dia para dia e a elevam por vezes ao êxtase, podem ser comparadas seja de que maneira for à violência brutal infligida à força a uma vítima desesperada e involuntariamente impotente?

A crença de que as submissas tomam parte em relacionamentos que são impessoais e desumanizantes é particularmente aterradora. Os que acreditam nisto tendem a ser indivíduos que não têm qualquer experiência com submissas ou com relacionamentos sadomasoquistas. Um pouco de experiência com estas pessoas ensiná-los-ia que quem está envolvido em relacionamentos sado-masoquistas de longo prazo tende a ser alguém com uma considerável experiência sexual convencional e considera esta experiência insuficiente em termos de intimidade e de intensidade na comunicação pessoal (eu, por exemplo, tive um pequeno número de relacionamentos curtos, um relacionamento de 12 anos com um homem e outro de dois anos com uma mulher antes de me tornar uma sadomasoquista activa). As mulheres submissas chegam geralmente à conclusão que o sexo sadomasoquista permite uma intimidade profundamente vivida e um sentimento de proximidade que o sexo convencional está longe de proporcionar. A “não-consensualidade consensual” que é um elemento central nos relacionamentos sadomasoquistas conscientes requer um nível de honestidade profundo, e até radical, entre dominante e submissa para poder funcionar com êxito. Qualquer sadomasoquista bem sucedido aprendeu a praticar esta honestidade superdesenvolvida de um modo quase instintivo. Uma submissa que não esteja disposta a partilhar o que realmente sente ou que seja activamente desonesta quando o chicote a atinge ou a humilhação começa é geralmente alguém que um dominante experimentado evitará, e é alguém que em todo o caso tenderá a falhar como submissa (do mesmo modo, um dominante que seja desonesto e não-comunicativo torna-se perigoso e tende a falhar). A confiança e a honestidade, pedras angulares da intimidade, podem existir numa relação sexual convencional, mas nada na dinâmica destas relações as exige em grau elevado a qualquer dos participantes. Mas como estas qualidades são obrigatórias para qualquer praticante bem sucedidos num relacionamento sadomasoquista consciente, a impessoalidade numa tal relação torna-se simplesmente impossível. Do mesmo modo, a desumanização, embora possa ser usada por um dominante como uma técnica destinada a produzir fervor erótico numa submissa durante o sexo, condena qualquer relacionamento sadomasoquista a um fim prematuro se reflectir a atitude real de um ou dos dois participantes.

Contudo, apesar de ser esta a realidade duma mulher submissa, muito mais quente e aconchegada do que os leigos suspeitam, tão exigente em termos de auto-confiança e força emocional, tão requintadamente satisfatória, muitas submissas debatem-se, por vezes de modo recorrente, com a questão de saber se os seus gostos sexuais e sociais reflectem uma patologia grave, talvez relacionada com algum abuso físico ou sexual de que tenham sido vítimas na infância. Eu própria, com certeza, me debati com esta ideia.

Alguém que conhece muito bem os meus gostos e atitudes deu-me uma vez um botão em que se lê “Fui reduzida a ISTO!” Gosto muito deste botão, mas gostaria de o modificar um pouco de modo a fazê-lo dizer “Sempre quis ser reduzida a ISTO!”, uma vez que esta formulação descreve tao bem a história da minha vida.

(3) Gloria G. Brame, William D. Brame e Jon Jacobs, Different Loving: Exploration of the World of Sexual Dominance and Submission (Nova Iorque: Villard 1993). Não tenho conhecimento de qualquer tradução portuguesa deste livro.

(Continua)

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(1. Nota do tradutor: o texto que se segue não é ficcional, mas sim
um ensaio autobiográfico da autoria de Polly Peachum, e é o primeiro de dois que eu tinha prometido traduzir para apresentar neste blog. Pessoalmente considero-o de leitura obrigatória para quem encara as questões de domínio e submissão sexual como algo inseparável dos afectos e dos projectos de vida, bem como quem se interessa pelas suas implicações filosóficas, psicológicas e morais. Devido à sua extensão publico-o em várias partes).

(2. Nota dos editores do site Diferent Loving:
Depois de ter sido contactada por uma conhecida escritora feminista da Terceira Vaga que tinha lido algum do seu trabalho no newsgroup da USENET alt.sex.bondage, Polly Peachum escreveu “Violência no Jardim” para incluir numa colectânea de ensaios feministas da Terceira Vaga. O objectivo declarado do livro era demonstrar que uma mulher pode ser feminista ao mesmo tempo que vive uma vida incompatível com os princípios feministas tradicionais. Embora a editora do livro tenha gostado muito do artigo e o tenha considerado uma das peças mais fortes da colecção, decidiu, influenciada por outras feministas doutrinárias, não o incluir porque a vida e as ideias que ele descreve são demasiado controversas (ou “doentias”, na expressão de uma das suas colaboradoras) e atrairiam a atenção dos media para este ensaio em particular e não para o livro em geral. Pelos vistos, as mulheres cujos estilos de vida se parecem com o de Polly não são dignas de atenção, para já não falar de serem dignas de defesa, por parte das feministas tradicionais.)


.. O locus da fantasia dum homem com sorte não contém robots;
.. duma mulher com sorte, não contém predadores; chegam à idade adulta
.. sem violência no jardim.
……………………… ………………………………….. Naomi Wolf

Temos um gato doméstico, e por isso todas as manhãs, a título de mimo especial, carrego nos braços o nosso tigrezinho cinzento enquanto passeio pela selva caótica a que os nossos vizinhs erradamente chamam o seu jardim. Enquanto levo ao colo o meu gato ao longo de um trilho boerdejado com flores quase trinta centímetros mais altas do que eu, passando por uma massa escura de pinheiros, e para trás à roda da magnólia e dum canteiro de tomates que faz por sobreviver, dou por mim muitas vezes a devanear sobre quem ou o quê poderá estar escondido na vegetação, a olhar para mim com olhos esfaimados. Na minha imaginação “sem sorte”, o jardim sombrio e fértil está povoado de predadores. Por trás de cada arbusto, esgueirando-se fora de vista dentro das sombras, está alguém mais forte e mais brutal do que eu, alguém que me quer subjugar e curvar-me à sua vontade, alguém que quer torturar-me ou humihar-me cruelmente só para me ver corar, choramingar ou gritar de dor.

É um devaneio maravilhoso, arrebatador, e eu vivo uma versão dele, menos feral, na minha vida quotidiana. Vivo a minha vida como uma escrava a tempo inteiro no contexto duma relação sadomasoquista heterossexual. Sei que para muitas pessoas isto pode fazer-me parecer uma vítima auto-destrutiva, viciada em abuso. Esta perspectiva não é correcta nem justa. Os meus devaneios da selva (e a minha realidade concreta) representam a realização de desejos sexuais que são para mim de longe mais positivos – embora radicalmente diferentes – daquilo que a maior parte das pessoas considera saudável ou mesmo são de espírito.

Nao estou sozinha em ter esta espécie de sonhos. De acordo com um estudo mencionado por Naomi Wolf em The Beauty Myth, (1), o Dr. E. Hariton conclui que 49% das mulheres americanas estudadas têm fantasias de submissão. Como eu, sonham ser capturadas, batidas, chicoteadas, controladas e usadas como um brinquedo. Mas como a dominação sexual, a submissão e o sadomasoquismo em geral são olhados com horror e repulsa pela sociedade convencional, muitas pessoas com fantasias de submissão, mulheres ou homens, ficam-se pela fantasia. Eu, porém, fiz a escolha de tornar as minhas fantasias realidade, e ao fazê-lo realizei os sonhos que mais acalentava. Acredito que sou uma das pessoas mais felizes e realizadas que conheço. Tenho a certeza que devo a minha felicidade a um simples facto: prossegui e abracei os meus desejos mais profundos em vez de os ignorar. Transformei-me na pessoa que acredito que estive sempre destinada a ser, na pessoa que tinha necessidade de ser. Sou razoavelmente livre de conflitos internos, estou razoavelmente em paz comigo própria, e sinto-me vibrantemente viva. Aceitei a minha paixao pela submissão como a escolha saudável, afirmativa e maravilhosa que ela é para mim. Nos seis anos durante os quais tenho vivido este sonho, nao lametei uma única vez a minha escolha nem amaldiçoei os meus desejos perversos. De facto, considero-me uma das pessoas mais afortunadas que existem.

Suspeito que muitas mulheres me encaram como um instrumento oprimido, enganada por um homem para fazer o que as mulheres têm feito peos homens desde tempos imemoriais na maior parte das culturas: servir, obedecer, estar à sua disposição sexualmente. Eu vejome, por contraste, como um ser humano consciente, inteligente e intrépido que ousou fazer o que poucas muleres tentam: corri um risco enorme, rejeitei quase tudo o que a sociedade me dizia que tinha que aceitar para ser feliz, e prossegui deliberadamente aquilo que eu sabia no íntimo que me faria mais feliz. E tive êxito.

O meu êxito foi conseguido com dificuldade e isso torna-o ainda mais precioso para mim. Nenhuma mulher nesta cultura é educada com os outros a dizer-lhe que ser escrava é uma coisa boa. Nenhuma é encorajada a tornar-se empregada doméstica ou elogiada pela sua subserviência. Se formos uma criança com desejos destes, aprendemos a escondê-los dos nossos pais. Quando crescemos, aprendemos a escondê-los dos nossos companheiros de brincadeira. E se atingimos a puberdade, como eu a atingi, num tempo de crescimento da consciência feminista, até podemos aprender a escondê-los de nós próprias. Mas no cômputo final, uma pessoa esconder de si própria os seus verdadeiros desejos sexuais nunca funciona. Como o proverbial cêntimo falso, a nossa sexualidade regressa sempre de qualquer terra remota para onde a tenhamos banido e tem, mais tarde ou mais cedo, que ser tida em conta e resolvida, mesmo que a decisão resultante deste processo seja ter consciência do que nos motiva mas não agir de acordo com isso.

Muitas mulheres que, como eu, passaram para lá das fantasias e são submissas activas debatem-se com a contradição aparente entre estes desejos e o que a sociedade em geral – incluindo algumas feministas doutrinárias – nos diz que é bom para a nossa saúde mental e emocional. Resolver esta contradição é essencial para o nosso sentido de dignidade e de humanidade. O que os sadomasoquistas fazem, pensam e desejam será tão errado como tantos exigem que seja? E se assim é, porque é que o desejamos tão intensamente?

Os conflitos emocionais e intelectuais que uma submissa tem que resolver enquanto aprende a aceitar-se tal como é envolvem uma gama de temas que vão além da pergunta “estarei doente?” Há perguntas como “tenho que reprimir parte da minha personalidade para ser uma submissa?” “Tenho alguma vez o direito de me zangar?” “Como posso orgulhar-me de mim própria enquanto mulher e feminista se estou sempre às ordens do meu dono?” “Estarei, no meu desejo de gratificação sexual, a perpetuar a violência contra as mulheres?” “O que acontece se me for ordenado que faça alguma coisa que verdadeiramente tema ou odeie e seja incapaz de fazer?” “Posso acreditar que os meus desejos estão certos, mas como posso eu viver com o ódio de outras mulheres pelo que eu represento ou – ainda pior – com o seu dó de mim?”

A realidade da minha vida é profundamente chocante para a maior parte das pessoas. Entre as submissas activas, pertenço ao raro subgrupo que vive o sonho 24 horas por dia, absolutamente e completamente, sem intervalos, momentos de descanso ou tempo para respirar. Na subcultura sadomasoquista, esta opção é chamada “lifestyle submission“(2). Desde o momento em que me entreguei a outra pessoa, tomei a minha escravidão muito a sério. Ela é tão real para mim como se tivesse cobertura legal, talvez mais real, porque nas sociedades em que a escravatura é ou foi legal houve sempre escravos que se recusaram a considerar-se propriedade de outrem. Embora não exista nenhum tribunal que sancionasse o direito de propriedade que o meu senhor tem sobre mim, considero a nossa relação senhor-escrava muito mais vinculativa do que qualquer documento, porque decidimos os dois que assim seria. Quando me dei ao meu senhor, foi com o entendimento explícito que eu não teria o direito de terminar a relação por mais que no futuro desejasse fazê-lo. No nosso acordo, só ele é que tem o direito de dissolver o vínculo de propriedade, e isto continuará assim não importa o quão infeliz a relação me possa tornar. Nunca em seis anos me senti infeliz a ponto de querer terminar. Porém, se alguma vez no futuro me sentir assim, o meu senhor prometeu-me que me observará cuidadosamente e à nossa relação e que tentará por um longo período resolver as dificuldades a fim de determinar se ir-me embora é realmente a melhor solução para mim. Se, depois de muitos meses de observação cuidadosa, ele estiver convencido que a minha infelicidade com ele ou com a relação é uma condição permanente que não pode ser remediada por nenhum dos dois, libertar-me-á. Mas não me libertará imediatamente da minha escravidão em relação a ele só por eu ter formulado esse desejo. Não posso ir-me simplesmente embora: se o fizesse, tanto eu como ele sabemos que ele teria o todo o direito de me ir buscar por quaisquer meios que entendesse, uma vez que eu lhe pertenço realmente e absolutamente, e não apenas quando é conveniente para mim pertencer-lhe.

Embora relacionamentos como o meu não sejam caso único, em muitas outras relações de poder que observei o casal não leva este aspecto da propriedade ao extremo a que nós o levámos. O conceito nestes relacionamentos é que a escrava está continuamente a dar a sua escravidão ao senhor. Esta “dádiva” é constantemente renovada em cada momento e pode ser cancelada a qualquer momento se ela assim quiser. Este acto significaria provavelmente o fim do relacionamento, mas finalmente ambos os intervenientes querem que a escrava tenha a palavra final, o veto final e, em última análise, o poder absoluto. Para mim, um relacionamento como este seria uma fraude, do mesmo modo que o jogo infantil de “brincar aos pais e às mães” é uma imitação irreal e inconsequente duma família verdadeira com as suas responsabilidades morais e obrigações legais. Eu nunca consentiria numa falsa escravidão como esta. Sim, certamente, nada me impede de pegar no nosso gatinho, meter-me no carro e ir-me embora para nunca mais regressar voluntariamente, mas a verdade é que nunca, em caso nenhum, farei isto. Comprometi-me a ser a escrava deste homem por tanto tempo quanto ele queira, e este compromisso, esta decisão de me dar, é sagrado para mim. Numa cultura em que os casamentos, o sacerdócio e outros compromissos supostamente permanentes e sagrados são quebrados com a mesma facilidade com que mudamos de ideias sobre a roupa que vamos vestir para ir trabalhar, muitas pessoas acham difícil compreender ou acreditar neste conceito de dedicação absoluta; não acreditam que ele possa realmente funcionar. Mas eu sei que sou uma pessoa capaz de ser fiel a um tal compromisso, e o meu senhor também o sabe, e isto é o que interessa. As opiniões dos outros sobre a realidade da minha escravidão têm tanto efeito nela como um enxame de mosquitos suicidas tem na capacidade de uma fogueira se manter acesa. O efeito dos mosquitos, se têm algum, é – numa medida muito pequena – alimentar as chamas da minha dedicação.

A minha vida com o meu senhor é controlada de modo muito apertado. Tenho que tentar obedecer a cada ordem que me seja dada, e nas raras vezes em que desobedeço sou severamente punida. As minhas acções não me pertencem, a não ser nas poucas ocasiões em que o meu proprietário me permite agir livremente (por exemplo, foi ele que me deu permissão de escrever para esta publicação; se não ma tivesse dado vocês não estariam a ler isto). Os meus sonhos nao me pertencem, nem os meus pensamentos: tenho que os revelar ao meu senhor quando ele o exige.

Todo o dinheiro que ganho é imediatamente entregue ao meu senhor, e é ele que decide como e quando ele é gasto. Do mesmo modo, todo o meu antigo património, tudo o que eu dantes chamava meu, pertence-lhe agora a ele. Tenho que obter autorização para todas as acções importantes e para muitas acções menores. Por exemplo, se quiser comprar uma roupa nova ou assinar um novo contrato de trabalho (como consultante de alta tecnologia faço trabalho para vários clientes), tenho que obter a sua permissão. Em casa, e muitas vezes noutros lugares, se quiser usar a casa de banho tenho mais uma vez que pedir autorização. Não me é permitido sair da cama sem autorização; de facto, sou amarrada à cama todas as noites por uma corda presa a uma coleira. Se for convidada para jantar ou para uma bebida por alguém com quem trabalho, tenho que pedir permissão, e muitas vezes são-me dadas ordens sobre o tipo e quantidade de comida e bebida que posso consumir. O meu proprietário exige que eu faça a maior parte do trabalho doméstico, que faça exercício regularmente, e que venha imediaraente quando ele me chama, esteja eu envolvida no que estiver. Palmadas, vergastadas e outras formas de “abuso” físico são um elemento recorrente da minha vida.

Embora esteja vinculada pelas muitas regras que governam o meu comportamento, a minha vda de todos os dias parecese à superfície com a da maior parte das pessoas. Mantenho a minha sexualidade completamente escondida no trabalho, e embora um colega mais perspicaz possa por vezes dar-se conta de que o meu parceiro é “controlador” isto é o máximo a que as coisas chegam. Só nos assumimos como senhor e escrava perante outros sadomasoquistas ou perante aqueles poucos entre os nossos amigos em quem confiamos. Embora isto não seja assim para o meu senhor, tenho descoberto que as únicas pessoas com quem quero realmente fazer amizade são cada vez mais as que partilham as minhas práticas sexuais. A submissão é uma parte tão importante da minha vida que as amizades em que esse aspecto tem que ser escondido me parecem incompletas, quase desonestas. O meu senhor assume-se perante os membros da sua família mais próxima; eu não me assumo perante os da minha, principalmente porque estou afastada deles e não tenho confiança neles. Deixei para trás a minha família e os meus amigos quando me mudei de um extremo para o outro do país para viver com o meu senhor, e desde então, infelizmente, adquiri muitos conhecidos mas poucos amigos íntimos (é difícil que chegue encontrar bons amigos quando temos toda a humanidade por onde escolher; quando temos apenas uma pequena fracção dela, a procura de pessoas simpáticas demora muito mais). Embora esteja activamente à procura de novos amigos, já me resignei à ideia que isto vai levar anos, se não décadas.

Apesar de estar à procura de amigos entre outros sadomasoquistas, suspeito que por fim as amizades que vier a formar serão com pessoas sexualmente convencionais que tenham a compreensão e a compaixão necessárias para me aceitarem tal como sou. As pessoas mais fora do convencional que encontro são muitas vezes uma desilusão porque acabamos por verificar que a única coisa que temos em comum é o que fazemos para obter excitação erótica, e isto é muito pouco para formar a base duma amizade.

O relacionamento que tenho com o meu dono tem a capacidade de compensar de muitas maneiras a minha falta de amigos íntimos. Ao contrário das rotinas frias e rígidas que são tantas vezes o destino das escravas na literatura erótica, a nossa vida quotidiana é cheia de rituais íntimos, plenos de amor, combinados com um pouco de sadismo para manter as coisas interessantes. Numa manhã normal sou acordada pelo meu senhor à hora que ele entende que me devo levantar, geralmente entre as 5:30 e as 6:30, mesmo nos fins de semana. Conto-lhe os sonhos que tive durante a noite, e, como geralmente ainda estou meio a dormir depois deste recital, ele deixa-me “flutuar” por uns minutos antes de me desamarrar e de me mandar para a casa de banho. O nosso acordar inclui várias outras actividades que fazemos puramente por prazer: uma luta corpo-a-corpo na cama, uma canção matinal, umas palmadas para acordar ou umas cambalhotas. Depois vou preparar o pequeno-almoço, recolher os jornais e levo o gato para o seu passeio no jardim. Depois de um pequeno-almoço sem pressas, lavo a louça e trato de algumas outras tarefas domésticas. Com esras concluídas, o meu senhor tem uma pequena conferência comigo para discutir o que pretende de mim nesse dia. Durante estas conferências com o meu dono, tal como acontece com todas as nossas conversas, sou autorizada – de facto sou encorajada – a fazer todos os comentários e sugestões que desejar, mas a decisão final sobre as minhas actividades nesse dia compete-lhe a ele. Se estou a trabalhar num contrato, visto-me para ir ter com o cliente ou então vou para o nosso escritório de casa para começar o meu trabalho. Se não trabalhar nesse dia, o que faço depende do que o meu senhor quer que seja feito e também do que eu gostaria de fazer. Posso ir às compras, posso limpar a casa, posso enviar emails aos meus correspondentes electrónicos, ou posso simplesmente sentar-me no sofá com um livro. Tal como os casais convencionais, fazemos férias na montanha ou na praia. A diferença crucial entre o que eu faço num dia normal e o que uma pessoa convencional faz não está no género de actividades, mas no facto de qualquer que seja a actividade eu ter que obter primeiro luz verde do meu senhor. Outra diferença é que quando estou em casa, seja a trabalhar, seja a divertir-me, o meu senhor interrompe-me muitas vezes durante o dia com ordens: dar-lhe o almoço, ir-lhe buscar alguma coisa a outra divisão, ouvi-lo ler-me uma notícia, ter outra conferência de planeamento, curvar-me para ser vergastada, etc. Pode ser qualquer coisa. À noite, depois de as coisas do jantar estarem arrumadas e de eu terminar as minhas tarefas domésticas, fazemos muitas vezes qualquer coisa juntos antes de ir para a cama, tal como ver televisão ou jogar um jogo de cartas ou gamão – ou alguma coisa mais intensamente sadomasoquista. Quando é hora de ir para a cama, participo noutra série de rituais lúdicos. Antes de o meu dono apagar a luz sou amarrada à cama e vendada. Geralmente estou a dormir profundamente ao fim de dez minutos.

A minha vida apertadamente estruturada com a sua pesada carga de trabalho e a necessidade sem fim de obedecer pode parecer intolerável para a maior parte das pessoas, mas eu colho dela muitas recompensas. Estou loucamente apaixonada pelo meu dono e ele por mim: ele compreende as minhas necessidades especiais e preenche-as na perfeição. Neste relacionamento há um nível de intimidade que nunca experimentei em mais nenhum. É tão reconfortante podermos dizer – de facto, sermos obrigados a dizer – os nossos segredos mais íntimos a outra pessoa; outra pessoa sabe tudo isto; não estou sozinha. O meu senhor é um dominante terno e compassivo, e há um a forte componente terapêutica no nosso relacionamento. Ele apoia-me, faz-me crescer, faz-me sentir bem comigo mesma, mas nunca me mente. Tenho confiança absoluta nele. Estou a descobrir que quanto mais tempo vivo com ele e quanto melhor o conheço, mais tempo quero passar com ele.

Independentemente de quão benigno seja este domínio, independentemente de quão eroticizada seja a dor física, permanece a questão, contudo, de saber porque é que alguém se sujeita a violações ultrajantes da sua liberdade pessoal. Parte da explicação é sexual: ao ceder o controlo, ao não ter uma palavra sobre decisões importantes ou triviais que me afectam, sinto continuadamente uma excitação erótica de baixa intensidade. Estou ligeiramente excitada o tempo todo. para além disso, muitos submissos “life-style”, incluída eu, têm uma componente na sua personalidade a que eu dou o nome de “ética de serviço”. Eu desejo profundamente servir. Adoro dar prazer ao meu dono fazendo o que ele manda. Não houve fase nenhuma da minha vida em que eu não tivesse consciência dessa ética de serviço. Para nós, submissas mulheres, a alegria de servir é tão importante como a intimidade: experimentar extremos de dor ou humilhação às mãos do nosso dominante é algo que cria um laço de intensa intimidade. Esta pessoa pode fazer-me seja o que for. Não tenho absolutamente defesas nenhumas contra ele. A minha alma está nua e em exibição diante dele. Esta intimidade é assustadora na sua intensidade. O grau de confiança necessário para a experimentar é prodigioso. Mas qualquer submissa que a tenha sentido num contexto de impotência total descreve-a em termos extáticos, quase místicos. para nós, o preço de admissão em vulnerabilidade e medo vale a pena ser pago em troca de um bilhete para o céu na Terra.

Estas são algumas características da submissão a que eu e outras submissas damos valor. Mas o que uma submissa sente, o que a excita, surpreende muitas pessoas. A entediante resposta convencional, muitas vezes expressa com escárnio, é “chicotes e correntes”, mas para mim as sensações, fantasias e impressões ricamente idiossincráticas que excitam a minha imaginação erótica e trazem ao primeiro plano o meu carácter submisso são praticamente infindáveis na sua variedade. Incluem o cheiro intoxicante a couro novo; a visão de alguém vestido todo de negro; o toque arrepiante do aço frio na minha pele; ver um par de luvas a ser postas devagar; o sabor pungente e humilhante dos meus próprios sucos num par de dedos que me entram à força na boca; sons duros e agudos, como um taco de golfe a bater na bola, que me lembram do som que a madeira ou o couro fazem ao atingir um corpo; a sensação aterradora de um fio de sangue a escorrer pela parte de trás da minha perna; a visão de um homem a bater ritmicamente um pingalim de montar contra a palma da mão; o sabor ácido do medo acompanhado duma louca sensação de sobressalto no estômago; o olhar atento, de águia, que se pode ver na face de certos dominantes; uma bofetada na cara; uma mão na minha garganta, apertando um pouco, ameaçando; a visão duma agulha quando passa através da pele; a sensação única de estar deitada no chão com uma bota a pressionar a minha cabeça; uma consciência intensa, embaraçosa, arrepiante da minha nudez em frente de um grupo de pessoas completamente vestidas; ser forçada a ajoelhar, gatinhar ou prosternar-me; ser forçada a assumir a posição clássica de cabeça contra o chão, com o rabo erguido para expor as nádegas e os órgãos genitais para diversão do meu dominante; a incapacidade de tomar fôlego e a dor na minha boca que vêm de dar prazer oral forçado; o som do riso do meu amado em resposta aos meus gritos de agonia; o abraço apertado duma coleira de aço que se fecha à roda do meu pescoço; o sabor de um chicote de couro que é forçado contra os meus lábios para ser beijado ou lambido. A vida de uma submissa “life-style” é uma fantasmagoria de baixa intensidade – e muitas vezes não tão baixa – de estimulação erótica, intimidade profunda, e uma consciência intensa de que somos especiais.

(1) Traduzido em português com o título “O Mito da Beleza” pela editora Difusão Cultural (Lisboa 1994)

(2) À letra, “submissão como estilo de vida”. Preferi manter o inglês original porque nos meios sadomasoquistas em Portugal e no Brasil o inglês é muito utilizado nas terminologias específicas.

(Continua)

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(Conforme prometi, continuo a publicar a minha tradução da novela de M’Ahmed ben Chérif Effendi.)

A festa terminou. A bela Zima toma de novo posse da atenção do seu Senhor, que durante um momento se tinha desviado para a encantadora Haischa. De novo procura a jovem excitar os sentidos do seu Senhor, reavivar os seus desejos através de práticas cujos segredos ela conhece. Mas acontece o contrário, o Príncipe, excitado pelas danças sugestivas, cai de novo na apatia.

Depois de corrida a cortina do palco, a sala recai na sua penumbra. Os reflexos esverdeados da luz esbatida dão à carne nua um tom pálido. Como Ali está cansado, Zima chama o jovem Achmed e começa a apalpá-lo ao mesmo tempo que se ajoelha perante o Príncipe.

– Poderoso Senhor – diz ela. – Ali já serviu o teu prazer, e agora é Achmed quem solicita a honra de o imitar. Olha, Senhor, para o seu pauzinho que se estica na tua direcção, como está rijo e rosado! Vê o seu cuzinho, esta carne florescente e firme! O que pode este jovem fazer perante ti para acariciar os teus olhos?

Enquanto diz estas palavras vai acariciando o membro do jovem, sobfre quem pousa, brilhante de desejo, o olhar do Príncipe.

– Faz tu! – disse Zima ao jovem; e este tomou o membro imediatamente na mão.

Também Ali se aproximou e penetrou por trás o seu amigo, enquanto este continuava a masturbar-se furiosamente. Ao fim de algum tempo Zima puxou Achmed para si, pegou-lhe no membro e começou a lambê-lo e a acariciá-lo diante dos olhos do Príncipe, em quem isto não teve qualquer efeito e que continuou impassível. Contudo, para dar uma alegria a Achmed, tirou o membro para fora e deu-o ao jovem para brincar. Este lançou-se sobre ele, cobriu-o de beijos ardentes e apertou-o com as duas mãos para o fazer ficar erecto. Mas o Khan repeliu-o de novo; estas brincadeiras tinham durado o suficiente e ele queria algo de novo. Os seus sentidos precisavam de um meio mais forte de se excitarem.

Zima entendeu isto e pôs-se a pensar no que poderia oferecer ao Khan para reavivar o seu desejo. Lembrou-se do seu carácter cruel; sabia que ele era geralmente bondoso mas algumas vezes mau; pensou que tinha encontrado o processo certo e comunicou-lho com as seguintes palavras. (E durante este discurso acendeu-se uma nova chama no olhar do Senhor.)

– Poderoso Senhor, – começou Zima – a tua ínfima escrava conhece os teus gostos e está sempre pronta a satisfazê-los. Preparou para ti um novo espectáculo.

Temos aqui uma jovem extremamente pudica, cujos olhos nunca contemplaram um homem; ao princípio era tímida como uma gazela, mas depois tornou-se muito maldosa. Apesar de ter sido admitida na primeira classe de raparigas, as que estão destinadas ao casamento, tornou-se finalmente necessário excluí-la desse grupo devido ao seu mau carácter. Ela cometeu uma porção de faltas graves e vai expiá-las hoje perante ti. Verás martirizar a sua carne nua, vencerás o seu pudor obrigando-a a contemplar o teu membro viril, e ela sofrerá a vergonha de aparecer nua perante ti.

Faremos com que ela sofra todas as penas que tu determinares. Tu próprio a supliciarás. Se for teu desejo possuí-la, apodera-te dela como quiseres, sem dar atenção aos seus choros e gritos. Ou então outro a tomará, se preferires. Vê-la-ás sofrer; o coração dela sangrará de vergonha, como sangrará o corpo dela sob os golpes do chicote.

Queres tu, Senhor, utilizar esta oportunidade soberana para castigar esta cadela pelos seus malefícios?

O Khan tremia de desejo; toda a sua crueldade felina lhe subiu ao cérebro, e a perspectiva de ver sofrer uma mulher elevou-o ao cume do êxtase. Sem que soubesse o motivo, sentia-se já cheio de cólera contra esta infeliz cuja única culpa era a sua fraqueza.

A partir deste momento decidiu-se o destino da jovem: havia de sofrer centenas de suplícios refinados, que rasgam a carne mas não põem a vida em perigo.

Antes de prosseguir a minha narrativa cumpre-me pedir desculpa ao leitor pela quantidade de pormenores e pelas longas descrições. Mas eu não queria escrever só uma obra literária, mas também uma contribuição para a História do amor sensual. Queria representar as cenas completas na sua particularidade: o Oriente no seu esplendor e na sua degradação. Muitos acreditarão que caio em exagero; mas os que conhecem o Oriente, a verdadeira pátria do amor e da volúpia, sob este Sol resplandecente que derrama sobre os sentidos um fogo devorador, esses serão testemunhas da verdade das minhas descrições. O luxo do Oriente assemelha-se a uma daquelas flores indianas que muitas vezes escondem a morte por trás das suas cores deslumbrantes e dos seus perfumes inebriantes. De resto, em mais nenhum lugar do mundo é o cerimonial do amor mais circunstanciado. Tanto o Árabe como o Indiano amam acima de tudo o prazer dos olhos, é nele que consiste a preparação e o caminho para o amor. Os preliminares são para eles o mais importante, o acto em si dá-lhes pouco prazer. Além disso a mulher é para eles um ser subordinado, uma escrava, um animal; isto explica a notável submissão das suas esposas e escravas.

Acredito portanto que faço bem em não negligenciar os pormenores nesta narrativa. Desta maneira pode o leitor colocar-se completamente no lugar do herói da nossa história.

(Continua)

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