Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘agradecer o castigo’

Cap. 33: NO LIMITE

Nas semanas seguintes, Ana e Miguel tornaram-se frequentadores do Justine, primeiro na companhia de Raul e Teresa, depois, muitas vezes, sozinhos. Conversando com as pessoas que conheceram, depressa se aperceberam que o compromisso absoluto de Raul e Teresa era muito mais radical do que era costume no meio. Não era uma questão de mais submissão ou menos submissão, mais dor ou menos dor, mas daquilo em que cada um centrava os seus desejos e a sua ideia de felicidade. Antes de frequentarem o Justine, Ana e Miguel pensavam que, quando uma pessoa submissa encontrava uma pessoa dominante, a história tinha chegado mais ou menos ao fim: pouco mais restava do que serem felizes para sempre. Verificavam agora que isto estava longe de ser o caso: era difícil encontrar o dominante certo para o submisso certo, e no Justine, como em qualquer outro lugar, não faltavam corações partidos. Aprenderam também a tolerância, uma vez que os centros do desejo eram quase tantos como as pessoas à sua volta: para uns a moda e o fetiche, para outros a dor física ou a humilhação, para outros a restrição de movimentos, para outros a entrega – que não era a mesma coisa que dádiva; alguns praticavam a monogamia mais estrita, outros viam a expressão máxima do domínio na cedência a terceiros do submisso ou da submissa, sem lhe permitir qualquer escolha quanto à identidade, quanto ao número, ou quanto ao sexo, da pessoa ou pessoas a quem temporariamente servia.

Quase sempre os centros do desejo eram múltiplos, o que tornava tudo ainda mais complicado. Miguel e Ana estavam convencidos que eram o dominante certo para a submissa certa, mas nem por isso deixaram de beneficiar do convívio que tiveram com outros frequentadores do bar. Não os surpreendeu a adesão quase fanática de todos a uma ética muito rígida e muito simples que se exprimia na máxima “safe, sane and consensual”: uma regra como esta era necessária num meio em que se cruzavam personalidades e desejos tão diversos, e era uma boa base para que a comunidade pudesse organizar uma rede informal mas eficaz de protecção mútua contra predadores e psicopatas.

Raul e Teresa eram menos assíduos. Quando ia ao Justine, Teresa costumava levar, enfiado na vagina, o primeiro óvulo de controlo remoto que Raul tinha adquirido. O óvulo mais recente, operado por telemóvel, nunca era usado no Justine e raramente noutros lugares: só algumas vezes, quando Teresa ia às compras ou encontrar-se com amigos e familiares. No Justine, Teresa estava sempre consciente que, estivesse a fazer o que estivesse – a falar com outros frequentadores do clube, a arranjar-se nos lavabos, a trazer uma bebida ao dono, a qualquer momento se poderia desencadear no interior do seu corpo, sem aviso, aquela vibração que para a sua sensibilidade continuava a misturar sofrimento e prazer. Miguel perguntou a Raul onde podia adquirir um aparelho semelhante, e passados poucos dias Ana passou também a usar um óvulo na vagina; mas para ela a sensação era de puro prazer.

Ana e Miguel não se tratavam por “meu senhor” ou “minha escrava”; perante terceiros, ele referia-se a ela como “a Ana” – ou, no Justine, “a trilby” – e ela a ele como “o meu Dono”. Descontadas estas formalidades, que não eram importantes, a sua relação parecia encaminhar-se numa direcção semelhante à de Raul e Teresa. Isto preocupava um pouco o par mais velho, que se sentia responsável e sabia que nem todas as relações de domínio e submissão se conformam a modalidades tão exigentes como a que tinham escolhido para si próprios. Preocupava-os a possibilidade de os dois jovens fazerem uma escolha que mais tarde um ou outro não pudesse suportar. Por isso viam com bons olhos a maneira como eles se iam integrando na comunidade: assim podiam conhecer outras formas de domínio e submissão e construir por si próprios a que mais se adaptava às suas necessidades particulares.

Um assunto que discutiam muito era o que aconteceria se as necessidades de um deixassem alguma vez de corresponder às do outro.

– Mas não correspondem? – perguntava sempre Raul.

– Correspondem – respondia sempre Ana ou Miguel. – Mas se não correspondessem, como era?

– Em teoria prevaleceriam as necessidades do Miguel – preconizava Teresa, radical como sempre.

– Mas na prática – prevenia Raul – têm que ter algo em comum para que os desejos de um possam enriquecer os do outro. É este o vosso caso, parece-me, e por isso não vejo porque se preocupam. Teriam razão para se preocuparem, por exemplo, se para um de vós uma coisa qualquer tivesse um valor simbólico ou erótico muito grande, que a tornasse indispensável, e para o outro essa coisa fosse absolutamente insuportável.

– Mas por outro lado – disse Teresa durante uma destas conversas – se aquilo que o senhor exige não for de todo insuportável para a escrava, esta dificuldade até pode ser uma coisa boa: pode ser uma forma de tornar a escrava mais escrava. É como os meus pés nus: no imaginário do Raul os pés nus sempre foram um símbolo importante de humildade e submissão. Agora já o são também no meu imaginário, que por isso mesmo está mais rico: já faziam antes parte dele, mas tinham outro significado, diferente e mais limitado. Este significado não se perdeu, apenas se lhe acrescentou o que Raul lhe deu. Claro que andar descalça é muitas vezes um grande sacrifício, e por vezes, em público, quase morro de vergonha. Mas para mim vale a pena: uma escrava que não esteja preparada para fazer sacrifícios grandes não merece o nome de escrava.

[ …]

Raul sorriu levemente, fez-lhe uma pequena festa no rosto e virou-lhe as costas para ir pousar o chicote na banca. Depois voltou com cordas para lhe amarrar os pulsos e os tornozelos aos quatro cantos do rectângulo formado pelas colunas. Teresa deixou-se amarrar docilmente; fechou os olhos e começou a murmurar repetidamente “amo-te, amo-te, amo-te”, como se a repetição infinita desta verdade fosse o mantra que a ia proteger na provação que a esperava.

– Agora vou-te vendar – disse Raul. – Posso?

Para não interromper o “amo-te, amo-te, amo-te” que continuava a dizer baixinho, Teresa limitou-se a acenar que sim. Se estivesse em estado de achar graça a alguma coisa, teria sorrido por ele ter pedido permissão para a vendar quando não precisava de permissão para nada do que estava a fazer. Continuou a dizer baixinho “amo-te, amo-te, amo-te” enquanto tentava prever ao fim de quantas chicotadas começaria a gritar.

Começou a gritar logo à primeira, um berro agudo e ensurdecedor que dificilmente se acreditaria que pudesse ficar confinado entre as paredes do quarto, ou sequer da casa. Esta chicotada atingiu-a obliquamente nas nádegas, marcando um traço que ia da parte superior da esquerda à inferior da direita. A segunda atingiu-a horizontalmente e um pouco mais acima, arrancando-lhe um grito tão forte como o primeiro. Das que se seguiram, nenhuma correspondia a nada que ela pudesse ter imaginado ser capaz de suportar. Mais do que todas as outras, doeram-lhe as que a atingiram no rego entre as nádegas e as coxas; mas por esta altura já se tinha cansado de gritar. Os primeiros gritos que soltara tinham sido emitidos num soprano cristalino, mas pouco a pouco foram enrouquecendo até se tornarem urros que quase nada tinham de humano. E mesmo estes acabaram por dar lugar a arquejos de aflição, entremeados de rosnidos de fera encurralada.

O chicote não fazia um silvo tão agudo como o da vergasta, e o som que fazia ao contactar com a carne não era tão seco. Mas a dor era inconcebivelmente maior, maior do que qualquer punição que Teresa já tivesse recebido.

Quanto tempo durou isto? Não é possível contá-lo, nem em segundos, nem em minutos, nem em número de golpes desferidos. Teresa só soube que o seu tormento tinha terminado quando Raul lhe tirou a venda. Olhou à sua volta, espantada: o quarto era o mesmo, o mundo não tinha mudado. Quando Raul lhe libertou os tornozelos, esfregou os pés um no outro, tentando restaurar a circulação. Depois, quando ele lhe libertou os pulsos, as mãos voaram-lhe para onde tinham estado antes de ele a amarrar: cruzadas em frente ao sexo, escondendo-o, tapando-o, negando-o ao olhar e ao desejo do macho. Raul não lhe ordenou que descruzasse as mãos: pôs-se em frente dela, olhou-a nos olhos – que ela não conseguiu furtar aos dele – disse-lhe “amo-te” e foi de novo buscar o chicote.

Teresa bem sabia para que era agora o chicote, era para ela o beijar: e nesse momento sentiu-se invadir por uma tal revolta, que numa fracção de segundo, na sua imaginação, saiu dali, vestiu-se, fez a mala, chamou um táxi, foi para o aeroporto e regressou ao seu apartamento no Corso Magenta. Mas na realidade, o que fez foi ajoelhar-se e beijar o chicote, sem que Raul precisasse de lho ordenar. Depois levantou os olhos para o dono e viu-o imóvel, de pé, à espera. À espera de quê? Que mais que queria ele ainda? Que ela lhe dissesse o que disse, é claro:

– Obrigada, meu dono.

No momento em que estas palavras lhe saíram da boca aconteceu uma coisa que a fez sentir ódio por si mesma: enrubesceu, os lábios entreabriram-se, os quadris rodaram num círculo imperceptível, como se tivessem vontade própria, e sentiu-se a ficar molhada. Este ódio por si própria, assim como veio, assim desapareceu; a vergonha a que ele deu lugar também teve a vida curta; a excitação, essa sim, permaneceu – e com ela surgiu-lhe na alma um sentimento de orgulho que a levou a repetir:

– Obrigada, meu senhor. Amo-te. Faças de mim o que fizeres, hei-de amar-te sempre.

Esta expressão de submissão não lhe amainou de todo a revolta: uma coisa era aceitar, por sua deliberada vontade, a dor que ele lhe quisesse dar, outra era responder-lhe com uma reacção involuntária do corpo. Mas não, estava a ser injusta: o acto de vontade tinha vindo antes, tinha sido responsabilidade sua; e se o corpo estava de acordo com a vontade, não merecia censura. Rola os quadris, escrava, entreabre a boca, semicerra os olhos, pensou Teresa. Afasta as pernas. Deixa que a cona se molhe. Tens direito a tudo isso: fui eu, enquanto mulher livre, que to dei.

[ … ]

Nem fazer segredo, nem fazer alarde, pensou Teresa. Era este o princípio que ela e Raul tinham adoptado. Numa aula de dança, em que está presente apenas um número limitado de pessoas, vestir-se como de costume não seria fazer alarde, tapar-se toda é que seria fazer segredo. Já o tinha feito uma vez, não ia fazê-lo de novo. Vamos lá ver o que acontece, pensou, e apresentou-se na aula com uma saia vermelha de cintura baixa que lhe deixava a descoberto quase todas a zonas do corpo onde tinha sido chicoteada.

O que aconteceu foi espanto, repulsa, solicitude e indignação. Não serviu de muito explicar que tudo se tinha passado com o seu consentimento: somente nalguns casos a indignação deixou de ser contra Raul e passou a ser contra ela. Em algumas das mulheres presentes, porém, a indignação foi mais convencional que sentida; houve as que ficaram um momento pensativas e não disseram nada; e Ana, é claro, ficou fascinada, querendo saber tudo, se tinha doído muito, se tinham feito amor depois, se ela própria seria capaz de suportar o mesmo, se Miguel quereria alguma vez, ou poderia, castigá-la assim.

– Se o Miguel te fizesse isto, suportavas?

– Claro que suportava! – respondeu Ana.

– Não sabes o que dói… – disse Teresa. – Dói mesmo muito, e parece que dura séculos.

– Não interessa, suportava e agradecia – respondeu Ana.

Teresa ficou sem saber se tamanha certeza lhe vinha do auto-conhecimento, dalguma necessidade antiga, ou apenas da extrema juventude, que não teme nada. Dançou particularmente bem nesse dia; se isto a fez subir ou descer na consideração das colegas, nunca chegou a sabê-lo.

[ … ]

Era um Setembro quente, mais quente do que tinha sido Agosto. Nestes primeiros dias do mês, Teresa tinha sido punida quase diariamente com uma variedade de instrumentos, uns mais dolorosos do que outros, mas o chicote que lhe causara a dor maior e as marcas mais fundas não voltara a ser usado. Cada punição confirmava o que Teresa já sabia: que a expectativa a excitava um pouco; que a experiência, enquanto durava, lhe tirava toda a excitação; e que se voltava a excitar, confirmando-se como escrava de Raul de um modo cada vez mais inegável, no momento em que se ajoelhava para beijar o chicote e para agradecer o castigo. Teresa compreendia e aprovava a intenção, que adivinhava em Raul, de transformar esta confirmação em rotina: não bastava que o “obrigada” e o “amo-te” que proferia ritualmente fossem verdade, como de facto eram: era preciso que se tornassem inevitáveis, automáticos, evidentes, a tal ponto que a sua eventual omissão se tornasse, ela sim, uma mentira.

Uma noite, Raul colocou um banco almofadado entre as duas colunas, mandou-a sentar e atou-lhe os pulsos aos capitéis, esticando-lhe os braços. Para dar folga às cordas, bastaria a Teresa pôr-se de pé, mas ele apertou-lhe um cinto aos quadris e atou-o com cordas a duas argolas na base das colunas. Agora ela já não poderia aliviar a tensão dos braços, mesmo que quisesse; mas mesmo assim Raul esticou as cordas ainda mais. Teresa ainda tinha os pés assentes no chão, mas ele amarrou-lhe os tornozelos, fê-la levantar as pernas e amarrou as pontas das cordas às mesmas argolas a que tinha amarrado os pulsos: Teresa tinha agora os braços e as pernas no ar, as nádegas assentes no banco, e o sexo arreganhado, todo à vista. Foi nesta posição que ele a vergastou, assentando-lhe os golpes na pele fina do interior das coxas, na parte de baixo das nádegas, e sobretudo na vulva. Teresa já tinha desistido de comparar dor com dor: já tinha aprendido que a punição que dói mais era sempre a que estava a sofrer no momento. Entregou-se toda à dor; ou, melhor dizendo, não foi preciso entregar-se, porque a dor se apoderou dela como sempre, totalmente, sem deixar lugar para qualquer outra sensação ou pensamento.

[ … ]

Dias depois, teve mais uma sessão de depilação eléctrica, e temia que a esteticista lhe visse as marcas da vergasta. De facto ainda as tinha, mas não sentiu a vergonha que teria sentido uns meses antes. A esteticista, quando as viu, comentou que a senhora afinal estava habituada a dores piores do que as que ela lhe provocava; para além disto não teve qualquer reacção, a menos que por reacção se contasse o especial cuidado com que a tratou. As pessoas nunca são quem julgamos, pensou Teresa, ao dar-se conta de que não sabia a que atribuir aquela vaga simpatia da esteticista: entrariam ali todos os dias mulheres com marcas de vergasta no sexo? Todas as semanas? Todos os anos? Ou teria sido ela a primeira, destinada talvez a ser também a última? Teria esta jovem tranquila visto alguma vez marcas semelhantes noutros contextos, noutros corpos, quem sabe se no seu próprio? Quantos mundos existem à nossa volta, diferentes uns dos outros, diferentes daquele que julgamos estar a ver?

[ … ]

De tarde vestiu uma saia que tanto servia para andar na rua como para dançar. Na parte superior do corpo pôs um choli que, ao contrário dum top rígido, permitiria que os seios lhe oscilassem sem terem que ficar nus, escandalizando as outras alunas. Na aula, prestou atenção a todas as instruções da professora, de modo a que todos os movimentos fossem exactos e perfeitos mas ao mesmo tempo fluidos e soltos.

– Hoje dançou muito bem – disse-lhe a professora. – Houve momentos em que pareceu inspirada.

Antes de ir lanchar com Ana, Teresa queria passar pelas colegas e pela professora uma folha em que elas pusessem os endereços para lhes poder enviar os convites para o casamento. Recolhida a folha, verificou que algumas a tinham passado adiante sem escrever nada: estavam no seu direito. No dia seguinte de manhã, depois da aula de pompoar, passou outra folha e ficou contente porque desta vez todas as colegas escreveram os seus endereços. Esta aula foi a primeira em que as alunas usaram vibradores; mas, ao contrário do que Teresa chegara a temer, desligados. O objectivo era ver se eram capazes de sugar o vibrador para dentro da vagina e de o expulsar sem usar outros músculos além dos que tinham estado a exercitar nas aulas anteriores. Teresa não foi das que tiveram mais dificuldade, mas o esforço foi tão grande que, ao saber que mais tarde se esperaria dela e das colegas que sugassem e expulsassem o vibrador dezenas de vezes seguidas, duvidou que tal fosse possível.

Teresa sempre tinha exercido uma profissão, e isto tinha-lhe alargado o mundo. Até puta fui, pensava por vezes, cada vez com menos amargura mas talvez com mais melancolia. Depois decidira dedicar-se inteiramente a Raul, mas sempre com uma réstia de medo que esta opção a confinasse a uma estreiteza de vida que não desejava. Verificava agora que o amor e o sexo, a obediência e o serviço prestados a um senhor, podem constituir uma ocupação a tempo inteiro, exigindo organização, disciplina e um treino intenso e difícil. Não se sentia menos digna como escrava do que se tinha sentido quando era uma mulher de carreira no mundo do jornalismo e da moda; tinha passado, pelo contrário, dum estatuto virtual para um estatuto real que a fazia sentir-se mais presente no mundo.

Foi assim, serena e segura de si como uma matriarca antiga, que assistiu à assinatura dos últimos papéis e ao cumprimento das últimas formalidades que conferiam à sua irmã Carolina a propriedade da empresa que tinha fundado. Também Carolina teve neste dia o seu acesso a um mundo ligeiramente diferente: abandonava o proletariado, tornava-se senhora de si e não tinha ninguém a quem prestar contas. E se não se deu conta que por este caminho tão diferente tinha chegado exactamente ao mesmo ponto que a irmã, já a esta o facto não passou despercebido. O Mundo é com efeito prodigioso e vário.

Anúncios

Read Full Post »

Ouçamos o que nos diz uma escrava: «não aceito ser humilhada». Tentemos entendê-la. Ela tem um Senhor, e ama-o. Define a sua escravidão em três palavras: servir, obedecer, sofrer. É assim que ela sabe e quer amar; e como o seu ideal de amor é infinito, sente como uma imperfeição qualquer limite à sua capacidade de servir, de obedecer ou de sofrer.

Ouçamos o Senhor desta escrava. Ele ama-a, e respeita-a, e nunca perdoaria a si próprio se a humilhasse. As modalidades do seu amor por ela são o domínio e a posse: é assim que ele sabe e quer amá-la. Exige dela que o sirva na perfeição, que lhe obedeça com dedicação e inteligência, que aceite e agradeça o sofrimento que ele lhe provoca. Usa o direito que tem de a punir para a consolar de não ser perfeita. Se a castiga sem ela ter cometido qualquer falta, está-lhe a dizer com cada golpe de vergasta: «és minha, tenho este direito sobre ti, e como o tenho, exerço-o». Ela, que quer ser dele, compreende, aceita e agradece o castigo – e porque se sente possuída, sente-se amada.

Se a castiga por uma falha dela no seu dever de servir e obedecer, está a dizer-lhe: «sei bem, meu amor, que não és perfeita; sei também o quanto queres sê-lo; exijo-te que te aproximes sempre mais da perfeição, mas não te exijo que chegues lá. Ninguém chega lá. Vê: serviste-me mal, ou obedeceste-me mal, ou talvez até me tenhas desobedecido de propósito; mas agora vais saber sofrer bem. Fica sabendo que te amo tanto na tua imperfeição como amaria um anjo».

Com outra escrava, com outro Senhor, tudo isto que estou a escrever seria diferente. Mas mantenhamo-nos com estes dois.

Como poderia este Senhor humilhar esta escrava? Humilharia a sua escrava, certamente, se desprezasse a sua dádiva de serviço, obediência e sofrimento. Se a aceitasse sem lhe dar valor, como se fosse coisa pouca. Quando esta escrava diz que não aceita ser humilhada, está a pedir ao seu Senhor que dê à sua dádiva o valor que ela tem, e que é imenso. Uma escrava tem muito poucos direitos: mas este, tem-no, certamente.

Humilharia a sua escrava, também, se não soubesse reconhecer a diferença entre um limite alegado e um limite real. O limite alegado está aquém do limite real (também por isto ela se sente imperfeita). Ao levá-la-la a ultrapassar um limite alegado, estará no seu direito de Senhor, e não estará a humilhar a sua escrava, mas sim a honrá-la. Se a levar além do que ela quer fazer, continua no seu direito: toda a verdadeira escrava sabe e aceita que faz parte da sua condição fazer muitas vezes o que não quer, e muitas vezes não fazer o que quer. Mas se o seu Senhor a levar além do que ela pode fazer, isso será uma humilhação que deixará feridas, talvez incuráveis.

É difícil para um senhor distinguir entre o que a sua escrava não quer fazer e o que ela não pode fazer – e tanto mais difícil quanto é certo que ela própria pode não saber distinguir. Mas aí a responsabilidade é dele, e não dela.

A escrava tem dignidade; e como tem dignidade, tem vontade; e como tem vontade, tem querer. E tanto tem querer, que quis fazer uma dádiva de si própria; tanto tem querer, que quer ser perfeita. E a beleza terrível da sua escravidão está nisto: ela tem querer, mas não tem quereres.

E é por isso que há momentos em que o senhor respeita a sua escrava tanto mais, quanto mais a humilha. A humilhação é respeito quando ele lhe proíbe quereres; quando lhe proíbe caprichos; quando lhe proíbe certos pudores. São momentos em que é direito dele, e talvez dever dele, humilhá-la; mas não são estas as humilhações que ela tem em mente quando diz «não aceito ser humilhada».

São estas, também, as humilhações que a escrava pode evitar humilhando-se ela antes, num jogo em que ambos – ela e o seu Senhor – encontrarão o mais requintado dos prazeres.

Mencionei acima a «beleza terrível» da escravidão desejada. É terrível porque infunde terror: e não só o infunde na escrava, como em todos à volta, incluindo o seu Senhor. Saiba o Senhor maravilhar-se com tamanha beleza; saiba ele sentir, sem lhe ceder, o terror que esta beleza infunde: saberá assim respeitar a sua escrava; e se entender que deve humilhá-la, saberá fazê-lo só na medida em que esta humilhação eleva os dois.

Read Full Post »

Cap. 31: SEIS VERGASTADAS E MAIS UMA

Desde que Teresa se tinha habituado a dançar para Raul depois de jantar, mostrando-lhe os progressos que fazia nas aulas, estava-se a tornar mais frequente Raul jantar sozinho, servido por Teresa e Milena. Isto evitava que Teresa tivesse que mudar de roupa duas vezes, e por outro lado dava lugar a uma competição lúdica entre as duas para ver quem organizava o serviço mais requintado. Esta competição levou a tais extremos de formalismo que não raras vezes acabavam as duas, acompanhadas por Raul, perdidas de riso perante uma invenção protocolar particularmente absurda. Mas se o protocolo excessivo e barroco do jantar era puro divertimento, as danças de Teresa perante Raul eram, pelo contrário, um assunto muito sério. Nestas danças, Teresa não estava limitada ao formato da dança do ventre e usava por isso de uma liberdade que não podia exercer nas aulas. Por vezes dançava vestida, outras nua ou meia nua; por vezes fazia dança do ventre, outras dança livre ou dança jazz; outras ainda inspiravam-se em gestos e estilos populares de todos os continentes. Dava-lhe especial prazer, dançando nua, fazer com que a atenção de Raul se concentrasse nas suas mãos ou nos seus braços; ou pelo contrário, estando completamente vestida, pôr em evidência as partes mais íntimas do corpo.
Na noite que se seguiu à da experiência com o vibrador, Teresa apareceu com a parte inferior do corpo coberta de panos transparentes, sobrepostos de modo a formar uma saia multicolor: carmim, vermelhão, siena queimado, laranja, roxo, amarelo indiano. A cinta era tão baixa que, se Teresa não estivesse depilada, lhe deixaria à mostra parte dos pelos púbicos. Logo de início, Raul notou uma rigidez que não era habitual nos movimentos de Teresa: os movimentos habituais estavam lá todos – o ondular dos músculos da barriga, o rolar das ancas, o sacolejar para os lados e para a frente, as órbitas descritas em forma de oito, o tremer dos seios e dos quadris – mas tudo muito controlado, muito deliberado, muito preso, sem a desenvoltura de que Teresa começava a ser capaz. A que se poderia dever esta regressão?
A resposta tornou-se óbvia quando Teresa deu por terminada a primeira fase da dança, que era feita com os pés assentes no chão e sem sair do sítio, e tentou fazer uma pirueta. Nesse momento, Raul ouviu o som surdo de alguma coisa mole mas pesada a cair no chão; e viu um dos pés nus de Teresa a dar um pontapé involuntário nas bolas ben-wa que acabavam de lhe cair da vagina.
– Anda cá – disse Raul. – Senta-te no meu colo.
Com Teresa ao colo, titilando-lhe distraidamente um dos mamilos, Raul começou a fingir que lhe ralhava:
– Com que então, experiências! Quem te mandou fazer isso? Deve ter sido a tua professora de pompoar, ou então a de dança do ventre, porque eu não me lembro de te ter dado essa ordem…
Teresa corou:
– Não foi ninguém… Foi ideia minha…
Raul riu-se de novo e deu-lhe uma pequena palmada de baixo para cima num dos seios, de modo a fazê-lo saltar.
– Suponho – especulou – que quando um senhor quer ter uma escrava com ideias, tem que se sujeitar a que algumas delas não sejam muito boas. E esta não foi muito boa, pois não?
– Pois não, meu senhor. Desculpa.
Raul deu-lhe uma palmada no rabo, desta vez com força, e ordenou:
– Então vai lá lavar as bolas e depois vem dançar para mim como deve ser.
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa, pondo-se de pé com um movimento álacre e esfregando o sítio onde tinha levado a palmada.
E de facto, depois de voltar e de pôr a música outra vez no início, soltou os quadris e dançou tão bem e tão fluentemente como habitualmente o fazia. Introduziu nesta dança, porém, um movimento que Raul reconheceu da noite anterior: aquele gesto peculiar de retraimento e entrega em que o corpo parece ansiar precisamente por aquilo de que foge. Era o movimento com que tinha reagido ao vibrador, e Raul gostou tanto que sugeriu a Teresa que o mostrasse à professora na aula e pedisse a sua opinião. Teresa assim fez: além de mostrar o movimento (para o qual a professora imediatamente inventou uma série de variações que treinou com as alunas), contou-lhe o episódio humilhante das bolas ben-wa caídas no chão e pontapeadas. Em vez de a censurar, porém, a professora aprovou a tentativa, dizendo à turma que algumas das melhores dançarinas do ventre eram pompoaristas; mas que se alguma aluna quisesse tentar o que Teresa tinha tentado, o melhor era preparar-se para treinar muito tempo até conseguir.

[ … ]

Desde esse dia, Teresa começou a treinar todos os dias em frente ao espelho. Teve que reaprender tudo a partir das técnicas mais elementares, ao mesmo tempo que progredia sem as bolas nas técnicas mais avançadas. Já conseguia introduzir na vagina a primeira bola ben-wa, embora ainda tivesse que ajudar a segunda com o dedo, e a certa altura já era capaz de as segurar tempo suficiente para sair de casa por curtos períodos com elas postas.
Tudo isto, junto com a dor quase diária da depilação eléctrica, começou a fazer com que a consciência que Teresa tinha do seu corpo se começasse a centrar na sua zona genital.
– Às vezes quase sinto o desejo – confidenciou uma vez a Raul – de não ser para ti mais do que uma cona, um buraco ao teu dispor.
A estas palavras, Raul abraçou-a.
– É um desejo teu que não vou satisfazer muitas vezes, mas compreendo-te bem: também eu, por vezes, desejaria libertar-me desta carga de humanidade e não ser mais que um falo… Não é possível, felizmente, caso contrário seríamos puros vegetais; ou se nos restasse alguma consciência, a vida seria um inferno.
– Bem sei – respondeu Teresa. – Mas às vezes…
– Sim, às vezes… – respondeu Raul. – Mas o que não pode ou não deve ser realizado, pode muitas vezes ser representado: e tu agora vais dançar a tua coninha para mim.
E Teresa, rindo, fez precisamente o que ele mandava.

[ … ]

À noite, em casa, Teresa manteve o vestido branco para jantar com Raul e se sentar depois aos pés dele. Antes de se irem deitar, Raul perguntou-lhe:
– Vamos tentar ir hoje um bocadinho mais longe com o vibrador?
– Meu senhor querido, sou tua… Só te peço que me amarres como da outra vez, senão ainda passo pela vergonha de tentar fugir.
Diga-se em abono de Teresa que em momento algum daquela noite se debateu seriamente contra as cordas que a sujeitavam; mas várias vezes se lhe acendeu nos olhos a mesma luz de loucura que Raul tinha visto uns dias antes. Mas o vibrador entrou mais fundo; manteve-se ligado mais tempo; e o período de recuperação que se seguiu foi mais rápido e mais fácil. Terminado o exercício, Teresa serviu Raul mais uma vez com a boca: como se fosse intenção dele que nestas noites o vibrador fosse, para o sexo dela, a última memória.
Poucos dias depois, Raul quis ir mais longe.
– Preciso de te amarrar? – perguntou.
– Não, meu querido – respondeu-lhe Teresa. – Acho que desta vez não vai ser preciso.
Quase foi preciso, mas Raul nunca o soube. Raul penetrou Teresa várias vezes com o vibrador ligado, mas ela, embora se debatesse e desse abundantes sinais de aflição, não chegou àquela fronteira de quase loucura aonde tinha sido preciso ir buscá-la nas outras noites: não só se manteve neste mundo sem ajuda, como chegou a um grau de excitação sexual em que Raul raramente a tinha visto.
Assim que Raul pousou o vibrador, penetrou-a duma vez; e assim que a penetrou, ela explodiu num orgasmo grandioso, sem ter tempo sequer de pedir licença. Com Raul ainda rígido dentro dela, Teresa começou, assim que se sentiu capaz, a aplicar as técnicas de pompoar que já dominava; e ao senti-lo quase a gozar, gozou também, desta vez com autorização. Por muito tempo ficaram abraçados; mas depois de apagarem as luzes, depois de os corações pararem de bater com tanta força e os pulmões de respirar com tanto esforço, Teresa entendeu chegada a altura de confessar:
– Tive um orgasmo sem licença, meu senhor.
– Sim, minha escrava, tiveste – respondeu Raul.
– Mereço um castigo.
– Mereces, sim.
– Meu senhor querido, não quero ser castigada. Tenho medo.
– Quem te garante que o castigo vai ser severo? – disse Raul. Provavelmente já sofreste pior às minhas mãos, sem merecer. E desta vez mereces, não mereces?
– Sim, meu senhor, mereço – respondeu Teresa, num murmúrio. – Por isso é que vai ser pior que qualquer outro castigo. E vais castigar-me, não vais?
– Sim, vou. Amanhã, às seis da tarde, no quarto dos castigos. Seis vergastadas fortes. Avisa a Milena que a essa hora não estamos para ninguém.
– Sim, meu dono – disse Teresa.
Quis virar-se para o outro lado, para que Raul não se desse conta das lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Era o primeiro castigo premeditado que recebia: nunca tinha acontecido com Ettore, e muito menos, nos seus anos de puta, com os seus clientes, que iam e vinham e faziam o que lhes ocorresse no momento. Acabou por não virar as costas a Raul: ele saberia entender as suas lágrimas. Quando ele se voltou para a sua posição de dormir, Teresa abraçou-se a ele por trás e ficou a ouvir-lhe a respiração. O que sentiu ela antes de adormecer? Prazer, nenhum. Medo, certamente: um pouco. Tristeza, também, e melancolia. Esperança, porque lhe parecia que estava a ser conduzida pelo caminho certo. O que não sentia de todo era revolta.

[ … ]

– Traz-me um chá e uma torrada ao escritório – pediu.
Quando Teresa entrou com o chá, Raul agradeceu-lhe e disse-lhe que depois a chamava. Chamou-a às seis em ponto, para lhe ordenar que se despisse e que o esperasse no quarto dos castigos. Teresa, a tremer, obedeceu; e ele chegou logo a seguir, ordenando-lhe que se debruçasse com o rabo empinado sobre a banca do lado direito das colunas, onde já uma vez a tinha amarrado para a punir.
– Hoje não te vou amarrar – disse Raul. – São só seis vergastadas. Quero que as contes tu própria em voz alta: se não contares alguma, essa não vale. Por cada vez que abandones a posição recebes uma vergastada a mais. Está tudo claro?
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa.
Ouviu os passos de Raul, que se colocava por trás dela, e ouviu o silvo no ar quando ele tomou o peso à vergasta. Subitamente, um novo silvo, e uma dor insuportável. Gemeu, e depois de ter gemido começou a sentir que um estranho silêncio se erguia entre eles. De que estava Raul à espera?
– Escrava… – ouviu-o murmurar.
E subitamente lembrou-se: tinha que contar as vergastadas.
– Uma! – exclamou em voz alta, grata pelo tempo que lhe tinha sido concedido.
Nova vergastada:
– Duas!
A terceira foi a pior até ao momento; Teresa contorceu-se toda, mas não levantou os pés do chão. Contou, com a voz embargada:
– Três.
Era uma crueldade ou uma gentileza ele não a ter amarrado? Teresa não sabia. A quarta vergastada atingiu-a muito em cima, quase na cinta, mas a quinta acertou-lhe na prega entre as coxas e as nádegas, provocando-lhe uma dor atroz que a levou a deitar-se para o chão.
– Quatro! Cinco! – contou.
– Sim, cinco – disse Raul calmamente. Mas ganhaste mais uma porque saíste da posição. Volta para o teu lugar.
Teresa voltou para a banca do castigo.
– Seis! – gritou.
E pensar que com esta, tivesse ela tido um pouco mais de coragem, podia estar o castigo terminado! Com as pernas a tremer obrigou-se a ficar onde estava, de nádegas empinadas, aguardando a última vergastada, a pior, a menos necessária; e quando ela veio foi quase com alívio que rouquejou:
– Sete!
Sete, finalmente. Teresa endireitou-se dirigiu-se para o lavatório instalado num canto da sala, lavou a cara, secou-se, e virou-se para o espelho de corpo inteiro que ali tinha sido colocado, virando-se de maneira a poder ver as marcas que tinha nas nádegas. Eram de um vermelho rosado, apenas mais escuro nos sítios em que se cruzavam. Este tinha sido o pior de todos os castigos, não por ser o mias doloroso, porque tinha sido um castigo verdadeiro: a punição duma falta cometida. Olhou para Raul, que estava com a vergasta na mão, à espera. Claro, ainda faltava a conclusão. Teresa deu um passo para Raul, beijou-lhe a mão que segurava a vergasta, beijou a própria vergasta e disse as palavras rituais:
– Obrigada, meu senhor, pelo castigo que me deste.
Isto, em voz alta; mas a seguir, ainda de joelhos, enquanto ele se afastava para pendurar a vergasta, repetiu, numa voz tão baixa que ele não a chegou a ouvir:
– Obrigada, meu querido…

Read Full Post »

(Início do Capítulo 16)

Dias mais tarde, andando Teresa a arrumar o apartamento, decidiu esvaziar completamente um armário embutido que não tinha arrumado antes e que, estando no escritório, se prestava a que lhe substituíssem as portas por umas de vidro, obtendo assim um espaço que se podia estantear para guardar livros. Encontrou a parte de cima cheia de malas velhas que era preciso deitar fora; e abrindo uma destas deu com um chicote preto, de couro, dos que doem mais. Há quantos anos estaria aquilo ali? O couro estava baço e manchado, mas ainda flexível; e Teresa decidiu que na primeira oportunidade havia de o limpar e restaurar, porque era um lindo objecto, muito decorativo, que ficaria bem na parede do quarto dos castigos.

De noite mostrou-o a Raul, que ficou espantado:

− Eh, pá! Onde foste desencantar isso? Nem me lembrava que ele existisse. É de quando? Do meu tempo de solteiro, seguramente.

− A Isabel alguma vez levou com ele?

− A Isabel? Parece-me que nem nunca o viu. E por falar nela: tem-te telefonado?

− Tem, e eu marco sempre encontros, e falto sempre. Mas deixa lá a Isabel e olha para isto: não é um lindo objecto? Quando eu o limpar e restaurar, vai ficar perfeito.

Passaram mais uns dias. Teresa tinha planeado uma viagem com Carolina a Milão. Na véspera, serviu o jantar a Raul, vestida com o seu uniforme de criada em xadrez cor-de-rosa e branco. Depois de arrumar a cozinha, e quando se preparava para ir mudar de roupa, ele deteve-a:

− Hoje não, meu tesouro. Não te vás vestir. Hoje quero que te ponhas toda nua e me esperes no quarto dos castigos.

Teresa empalideceu. Sem dizer uma palavra, voltou-lhe as costas, foi para o quarto, despiu-se completamente, e foi esperar por Raul no quarto dos castigos: de pé, braços caídos, olhos baixos, sem ousar tocar em nada. Quando Raul chegou, disse-lhe em voz sumida:

− Meu senhor, desculpa, ainda não limpei o teu chicote preto…

− Não faz mal, minha pequenina – respondeu Raul. − Não é esse que estou a pensar usar. Dá-me a mão.

Teresa ergueu a mão direita e Raul atou-lhe o pulso com uma corda de seda negra, dando várias voltas e deixando livre uma ponta com mais de meio metro.

− A outra – disse Raul.

Com a mesma docilidade, e em silêncio, Teresa deixou amarrar o pulso esquerdo. Quando ele a conduziu, puxando-a pelas cordas, à banca abaulada que estava à direita das colunas, debruçou-se sobre ela sem que ele lho ordenasse e ficou com o rabo empinado enquanto ele lhe prendia os pulsos a uma argola perto do chão. Teresa sentia os seios esborrachados contra a superfície de couro, mas tinha a cabeça livre, podendo erguê-la para olhar em frente ou baixá-la para ver os pulsos amarrados à argola, que rebrilhava, limpa por ela própria nessa mesma manhã. Depois sentiu Raul atrás dela, prendendo-lhe os tornozelos, e de lado, passando-lhe à volta da cintura uma correia de couro que depois fixou com cordas a outras argolas de modo a que ela não se pudesse mover para os lados. Depois de a imobilizar completamente, saiu do quarto. Teresa ouviu música vinda de outra parte da casa, não sabia de onde, tocada tão alto que mesmo ali ela a reconheceu: era a Salomé, de Richard Strauss. Não soube quanto tempo ficou à espera: pelo menos tanto quanto durou a abertura da ópera, e o suficiente para ouvir a soprano que uivava por “Jokanaan, Jokanaan”. Quando Raul regressou e fechou a porta atrás de si, a música deixou de se ouvir. Também não ouvirão os meus gritos, pensou. Depois viu-o diante dela, trazendo na mão uma vergasta, que lhe mostrou; era uma vergasta flexível, forrada de seda vermelha e com cabo de cabedal preto.

− Beija a vergasta – disse Raul, chegando-lha aos lábios.

Teresa beijou a vergasta e ergueu os olhos para Raul, numa interrogação muda. Ele acenou com a cabeça, como se estivesse a responder “sim” a uma pergunta que ela tivesse feito, e colocou-se por trás dela. Teresa esperou pela primeira vergastada, dividida entre o desejo de que ela nunca viesse e o de que viesse já, para terminar tudo mais depressa. Ouviu um silvo, contraiu os músculos todos do corpo, mas o golpe não chegou: Raul estava ainda a experimentar a flexibilidade do instrumento. Mas o segundo silvo culminou numa dor intolerável, numa queimadura que lhe atravessou as nádegas dum lado ao outro. Os olhos rebentaram-lhe em lágrimas logo ao primeiro golpe, a garganta em gritos a partir do terceiro ou quarto; mas nem lágrimas, nem gritos detiveram Raul, e o tormento prolongou-se pela sua já conhecida eternidade. Por fim tudo terminou; Teresa distendeu os músculos, encheu o peito de ar – só para sofrer a mais cruel desilusão quando as vergastadas recomeçaram, desta vez vindas da sua direita. Raul tinha mudado a chibata de uma mão para a outra, era tudo.

Só acreditou que tudo tinha terminado de verdade quando viu Raul à sua frente, pondo-lhe a vergasta ao alcance dos lábios:

− Beija a vergasta, escrava.

Teresa beijou-a.

− Agradece o castigo.

Teresa agradeceu, entre lágrimas:

− Obrigada, meu senhor.

− Diz que me amas.

− Amo-te, meu senhor. Amo-te…

E era verdade. Amava-o com toda a amplitude de um coração que ainda lhe parecia estar a rebentar do castigo.

− Amo-te… − repetiu.

Agora que já não estava perdida na dor e recomeçava a ter a noção das coisas, dava-se conta que já tinha recebido castigos bem mais dolorosos do que aquele, e que havia, sem dúvida, de os receber no futuro. Raul tinha escolhido, da panóplia de instrumentos que ela própria lhe enviara, um dos que doíam menos. Mas durante o castigo não se tinha apercebido desta diferença, e tinha gritado tanto como gritaria se ele tivesse sido mais severo. Em frente dos olhos tinha a braguilha das calças dele. Viu-o desapertar o cinto, abrir os botões das calças e das cuecas, tirar o sexo para fora, e sentiu-o encostar-lhe a ponta aos lábios.

− Abre.

Abriu a boca. Pouco tempo depois de ele a penetrar, deu por si a fazer-lhe as carícias e a repetir os movimentos que ele lhe ensinara: como era isto possível? Mas fez as carícias, repetiu os movimentos, usou a língua, e durante este tempo sentiu uma espécie de orgulho, como se o impensável que ele ousava fosse também uma ousadia dela, um teste, uma prova iniciática que a elevava acima de todas as mulheres. Durante o tempo todo não fechou os olhos: fechou-os só quando ele ejaculou, talvez para se perder no momento, talvez para fechar os sentidos a tudo o que não fosse o esperma que lhe enchia a boca e lhe descia pela garganta.

Por fim deixou pender a cabeça, relaxou o corpo todo, deixou-se cair, enquanto ele metodicamente a desamarrava. Já liberta, não saiu do sítio: foi preciso que ele lhe pegasse na mão, a ajudasse a levantar, a conduzisse para o quarto e para a cama que partilhariam nessa noite, como sempre. No percurso ainda inclinou a cabeça sobre o ombro dele e murmurou que o amava, mas em voz tão baixa que ele não a ouviu.

Read Full Post »

1202Ricardo acabou de desamarrar Dúnia que, ainda meio a soluçar, se chegou muito a ele, e para esconder o rosto lhe molhou o ombro de lágrimas.

Abraçando-a, conduziu-a de novo à sala, onde lhe pegou no queixo para a obrigar a virar-se para ele. Dúnia ofereceu um pouco de resistência mas acabou ceder: então ele começou a beijá-la nos olhos, na boca, na face, nos cantos dos lábios, chamando-lhe minha querida, minha escrava linda, minha menina. Quando a viu serena perguntou-lhe:

– Sofreste muito?

– Sim – respondeu Dúnia. E depois duma pequena pausa acrescentou:

– Sofri por ti…

Ricardo fez que sim com a cabeça, tomou-a nos braços para a beijar de novo e ordenou:

– Agora vira-te para eu ter ver as marcas.

Dúnia obedeceu prontamente, com uma espécie de orgulho a animar-lhe os gestos. Afastou-se do dono um metro ou dois e girou devagar sobre si própria para lhe mostrar as costas e o traseiro. Curiosa, virou a cabeça para trás por sobre o ombro tentando ver as suas próprias nádegas.

– Estão bonitas, as tuas marcas – disse Ricardo.

Ela não concordou nem discordou. O chicote tinha-lhe traçado uns riscos grossos de um lado ao outro do corpo, mais rosados ou mais vermelhos conforme a força com que os golpes tinham sido vibrados. Onde os traços se cruzavam a vermelhidão era mais intensa, da cor da carne viva.

– Agora ajoelha-te.

O orgulho e a alegria de Dúnia esvaíram-se repentinamente e em seu lugar veio-lhe um forte sentimento de angústia e revolta. Sabia a razão daquela ordem. Conhecia o ritual. Ajoelhou.

Ricardo pegou no chicote, que estava caído em cima do sofá, e pô-lo diante dos lábios dela:

– Minha escrava, beija o chicote.

Ela aproximou os lábios… Mas não, não podia. Suplicou:

– Não, isso não. Não me obrigues a fazer isso. Por favor, meu Dono, não me obrigues.

– Beija o chicote, escrava.

Com um movimento violento da cabeça, Dúnia virou a cara para o lado, fechando os olhos para não ver, não ouvir, não estar ali. Ricardo pegou-lhe no queixo, obrigou-a a virar a cara para a frente e, quando viu que ela não abria os olhos, esbofeteou-a com força. Então ela abriu os olhos, atónita e ultrajada, e olhou para ele fixamente num silêncio desafiador.

– Não queres beijar o chicote, escrava?

Dúnia nunca o tinha visto tão zangado – pálido, com os lábios apertados, as narinas muito abertas, os olhos a faiscar.

– Pois bem, não vais beijar o chicote – disse Ricardo.

Mas acrescentou, antes que ela tivesse tempo de suspirar de alívio:

– Com uma condição.

Dúnia sentiu que tinha mais medo da condição do que do gesto que lhe tinha sido exigido. Timidamente, mansamente, ainda de joelhos, perguntou:

– Que condição, meu Senhor?

A expressão de Ricardo não abrandou.

– Sabes o significado deste beijo. A condição é esta: vais olhar-me bem nos olhos, bem de frente, e dizer-me que esse significado é mentira. Diz-me isso e não beijas o chicote.

Ela baixou os olhos de novo e manteve-se longamente em silêncio sem que ele lhe interrompesse os pensamentos. Por fim disse, em voz sumida:

– Não, não é mentira.

Ricardo não disse nada. Dúnia, depois doutro longo silêncio, repetiu:

– Não é mentira, meu Senhor.

Ao ouvir isto, o Dono apresentou-lhe de novo o chicote; e desta vez ela beijou-o, pondo nesse beijo todo o fervor que antes temera mostrar, e compreendeu então que esse temor tinha sido a causa principal da sua recusa.

– Agora agradece-me o castigo.

Vencida, Dúnia tentou obedecer, mas as palavras não lhe saiam da boca. Ricardo acariciou-lhe o rosto e disse:

– Vá. Repete comigo: “Obrigada, meu Senhor, pelo castigo que me deste.”

Dúnia baixou os olhos, sorriu muito ao de leve, e disse:

– Obrigada, meu Senhor, pela oportunidade que me deste de sofrer por ti.

Ricardo sorriu, encantado pela volta que a sua escrava tinha dado à frase e pela pequenina vitória que esta modificação representava para ela. Inclinou-se, ajudou-a a pôr-se de pé, abraçou-a e ficou mais de um minuto a acariciá-la e beijá-la. Depois sentou-se no sofá e fez-lhe sinal para que se sentasse no chão aos seus pés.

Durante muito tempo ficaram os dois em silêncio com os seus pensamentos. Quando começaram a falar foi como se um dique tivesse rebentado: a conversa prosseguiu pela noite fora. De madrugada, já com os primeiros raios de sol a entrar pela janela, ele possuiu-a sobre o tapete.

(Publicado no Blogger a 29/08/07)

Read Full Post »

Agora que estou a chegar ao fim das “Histórias de Mariana” resolvi intercalar a escrita dela com a escrita dum novo romance, do qual ainda não tenho o título. O texto que se segue é um prólogo em que é apresentada a principal personagem masculina e uma personagem feminina que também será, provavelmente a principal. É uma narrativa que tem muito menos de auto-biográfico de que a outra e que estará mais organizada quanto ao enredo. Espero que gostem.

Subitamente Miguel deu por si brandindo a vergasta. O punho entrançado era de cabedal verdadeiro, e não lhe escorregava na palma da mão como aconteceria se fosse de material sintético. Miguel não se recordava da última vez que se encontrara naquela situação, mas sabia, como se sabe nos sonhos, que ela não lhe era estranha; pelo contrário, tinha-a vivido muitas vezes e sabia exactamente o que tinha que fazer. Não precisou dos olhos para saber que o punho entrançado que segurava na mão era preto, que o resto do instrumento era feito de um material duro e flexível como bambu e estava coberto de seda vermelha, que a mulher prosternada a seus pés, de quem sentia nos tornozelos o bafo quente e a macieza dos cabelos, era a sua “prima” Letícia, que conhecia desde a adolescência e que sempre lhe tinha sido apresentada pela família como exemplo a seguir.

Olhou para baixo e viu a sua própria mão segurando o instrumento de castigo: os nós dos dedos brancos com a força que fazia, os pelos macios sobre a pele clara. Mais abaixo, o seu próprio sexo erecto e recurvo, erguendo-se de entre os pelos negros do púbis. A abaixo de tudo o corpo de Letícia, as mãos dela voando-lhe sobre as pernas numa carícia ansiosa, o cabelo escuro espraiado sobre os ombros sardentos, a forma dos quadris e das nádegas como o corpo dum violoncelo.

Miguel nunca tinha visto Letícia nua, e surpreendeu-se um pouco com a robustez do corpo, com os músculos que se adivinhavam por baixo da fina camada de gordura feminina. Era uma mulher grande e atlética, muito branca de pele: sem roupa adquiria o porte clássico duma estátua de mármore.

Na lógica do sonho não lhe pareceu estranho estar assim com Letícia a seus pés. Nem lhe pareceu estranho que ela lhe pedisse perdão e castigo (por uma falta que ele se recordava nitidamente ter existido sem se recordar em que tinha consistido).

– Ajoelha-te diante do sofá – ordenou Miguel. – Cruza os braços sobre o assento e pousa neles a cabeça.

O sofá era baixo: para fazer o que Miguel ordenava, Letícia tinha que ficar com o rabo empinado no ar. Obedeceu prontamente, porém – o que não surpreendeu Miguel e lhe pareceu, no sonho, perfeitamente natural. Mas uma parte dele, talvez a parte que começava a acordar, sentiu surpreendeu-se vagamente por não estar surpreendido.

Uma vez, outra vez, Miguel vibrou algumas fortes chibatadas, não só no rabo empinado de Letícia, mas também nas costas, nas coxas e na pele especialmente sensível entre as coxas e as nádegas. Letícia sofreu a maior parte dos golpes apenas com um estremecimento e um gemido, apenas se debatendo e gritando um pouco ao receber os mais dolorosos; mas mesmo assim voltando sempre à posição que lhe tinha sido ordenada para receber a punição até ao fim.

– Agora vira-te para mim – disse Miguel. – E agradece-me.

– Obrigada, meu Senhor – disse Letícia.

E foi quando ela, ainda de joelhos, lhe beijou as mãos, e lhas molhou de lágrimas, que Miguel teve um orgasmo e acordou. Demorou algum tempo a compreender onde estava: na cama, em casa da mãe, no seu antigo quarto de estudante. Que diriam elas, a mãe, a tia, se a empregada lhes contasse que tinha encontrado os lençóis do menino sujos de esperma? E que diria Letícia, que estava a passar o fim-de-semana lá em casa e dormia no quarto ao lado do dele, se soubesse a que perversas fantasias tinha dado azo?

Read Full Post »