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brand-st-05-cCap. 35: FERRO EM BRASA

[ … ] Raul não ficou surpreendido quando Teresa se ajoelhou à sua frente trazendo nas mãos um embrulho com cerca de setenta centímetros de comprimento. Ao abri-lo, deparou com uma caixa em couro que tinha na tampa o mesmo símbolo que Teresa exibia no piercing do umbigo: uma elipse longa, aberta nos extremos, em que se inscreviam as iniciais RM [ … ]. A caixa era um estojo, e alojado nele encontrava-se um ferro de marcar gado: um belo objecto, com o cabo em raiz de nogueira, uma haste em aço inoxidável, e na ponta o mesmo design que estava gravado na tampa. Raul tirou o ferro do lugar: lá estava a elipse, lá estavam as iniciais do seu nome [ … ]. Gravadas ao longo da haste, podiam ler-se as palavras Made in the USA by Unionized Labor. Um ferro de marcar gado, pensou Raul; e a sua única propriedade a que se podia chamar gado estava ali mesmo, ajoelhada à sua frente, perscrutando-lhe o rosto.

– Este ferro – disse Raul – és tu a dizer-me que não passas duma cabeça de gado.

– E acaso sou mais do que isso? – perguntou Teresa. – Acaso desejo ser mais do que isso?

Teresa, implacável Teresa. Lúcida, consistente, intransigente Teresa. Incapaz de um eufemismo.

[ … ]

– Tens a certeza? – perguntou Raul. – É isto que queres?

– Há muito tempo que tenho a certeza, meu senhor.

– Não podia ser uma tatuagem? Seria permanente na mesma, e dar-me-ia um prazer igual.

– Perdoa, meu senhor – disse Teresa – mas desta vez não é do teu prazer que se trata.

Raul ergueu uma sobrancelha:

– Nem do teu, espero?!

– Não, meu senhor – disse Teresa. – Do meu, ainda menos. Posso contar-te uma coisa? Quando foi o incêndio no Luna Rossa… O Ettore e eu tínhamos combinado que no dia seguinte eu ia fazer uma tatuagem, um “T” de “Tedeschi”. Mas houve o incêndio, e tudo mudou. Anos mais tarde, quando começou a parecer-me possível voltar a ter um senhor, veio-me um pressentimento, uma certeza, sei lá, que se isso acontecesse ele me marcaria a fogo. Essa certeza manteve-se sempre, mas começou a estar cada vez menos presente no meu espírito… até ao incêndio do Red Moon, que trouxe tudo de volta. E agora esse senhor és tu. Falei em pressentimento, mas exprimi-me mal, não é bem isso: é como se essa marca já estivesse invisível no meu corpo desde o Luna Rossa e tivesse chegado agora a altura de a tornar visível. Uma tatuagem seria uma falsificação, um sucedâneo.

E para ti, pensou Raul, um sucedâneo é tão desprezível como um eufemismo…

– O teu domínio queima, meu senhor – prosseguiu Teresa. – Sempre senti isso. Um bocado de tinta aguada não me designaria como coisa tua. Mas uma marca a fogo no meu corpo transformar-nos-ia [ … ].

Mais um risco a correr, portanto, pensou Raul. Todas as fichas numa jogada. Porque não me pedes antes que arrisque a minha vida? Arriscá-la-ia por ti, de bom grado.

– Já pensaste na dor que vais sofrer? – perguntou.

– Há meses que penso nela, meu dono, e morro de medo. Mas o medo não é importante.

– Vai ser muito, muito pior que qualquer chicote. Estás preparada para isto?

– Não, meu senhor, mas estarei na altura. [ … ]. Para mim, ser marcada pela tua própria mão seria a maior felicidade do mundo. Quando Manfredi mandou marcar a Chiara…

– A Chiara está marcada a fogo?

– Está, sim, meu senhor. Foi marcada nos Estados Unidos, o Avvocato não quis ser ele a fazê-lo…

Nos dias que se seguiram, Raul teve que decidir o que faria. Marcar uma escrava com um ferro em brasa era uma ideia que sempre se tinha situado, para ele, no campo da fantasia. Neste campo, dava-lhe prazer. Mas agora era chamado a considerar essa ideia como uma possibilidade real [ … ]. Agora que tinha que decidir, tinha que se interrogar. A questão menos importante era se a perspectiva lhe dava prazer: admitia que sim, mas era um prazer sem o qual podia bem passar, e enormemente desproporcional à dor de Teresa. Traria este acto algum benefício para Teresa, para ele próprio, ou para os dois? Se o trouxesse, seria enorme; mas também o custo seria enorme, se o acto se revelasse desastroso. Tinha ele a coragem necessária? [ … ] O processo era seguro? Estava sujeito a consequências indesejadas? Que precauções exigia? Como se executava na prática? Raul ignorava isto tudo, e não ia marcar Teresa a ferro quente sem estar completamente seguro do que fazia.

[ … ].

Ao mesmo tempo que se entregava a esta introspecção, Raul procurava obter toda a informação objectiva que o pudesse ajudar. O primeiro elemento desta informação, encontrou-o logo na embalagem do ferro: uma folha de instruções pormenorizada, que contemplava não só a utilização do instrumento em animais, mas também em seres humanos. Na Internet, a informação que encontrou era incompleta e contraditória: não podia fiar-se nela. Não podia perguntar a um médico, por razões óbvias. [ … ]. Telefonou a Manfredi, que confirmou a importância que este ritual teria para Teresa. Compreendia as dúvidas de Raul, simpatizava com elas, mas só podia ajudar na vertente prática: queria Raul que ele, Manfredi, lhe aparecesse no Porto acompanhado por um especialista de confiança? Raul respondeu que sim, mas que se reservava, até ao último minuto, a escolha de abortar a operação.

Of course – respondeu Manfredi [ … ].

Entretanto, a vida prosseguia. Menos de uma semana depois de regressar do Brasil, Teresa voltou às aulas de pompoar. Muitas colegas suas estavam já adiantadas nos exercícios com vibrador, mas Teresa voltou atrás por recomendação da professora, e na primeira aula fez exercícios sem instrumentos e com bolas ben-wa. Achou esta precaução exagerada: nessa tarde, quando chegou a casa, introduziu na vagina o vibrador ligado. Para sua surpresa, sentiu um pouco de dor, devida talvez ainda à colocação dos piercings; mas aquele outro sofrimento que tanto se parecia com prazer tinha desaparecido quase por completo. Se consigo meter este, pensou, mais facilmente meterei o óvulo, que é mais pequeno… Tomou uma decisão: no dia seguinte, antes de sair para a aula de dança do ventre, introduziu na vagina o óvulo de controlo remoto. Entregou o controlo a Ana e pediu-lhe que carregasse algumas vezes no botão, o mais possível de surpresa, enquanto a lição durasse [ … ].

– Quando é que chega o homem do gado? – perguntou Ana depois da aula.

– O quê? – disse Teresa.

– Poça! Gado rachado, como nós as duas. O americano que marca gado rachado.

Teresa não pôde deixar de se rir da formulação escolhida por Ana.

– Chega amanhã de manhã, via Newark. Vai o Raul buscá-lo com o Avvocato.

– O Avvocato está cá? Gostava de o conhecer.

– Chega logo à noite, com a Chiara.

– E tu, estás preparada?

– Quem é que pode dizer que está preparado para uma coisa destas? – disse Teresa. – Claro que não estou preparada: estou aterrorizada. Mas o que manda não é o meu terror, é a minha vontade.

– A tua? – disse Ana. – Não é a do teu dono?

– A minha vontade subjuga-se à do meu dono [ … ]; mas se a minha vontade não fosse mais forte que o meu medo, pensas que poderíamos levar isto por diante?

[ … ].

O americano chamava-se Zebediah Pyke. Vinha de sapatilhas, blusão e boné de baseball; só o rosto, talhado a machado, e a pele curtida, faziam lembrar [um cowboy]. Trazia uma quantidade enorme de bagagem, muito mais do que seria de esperar para uma estadia de quatro dias. Reconheceu imediatamente Manfredi e saudou-o com um “Hi, Orrie” que deixou o Avvocato imperturbável.

Hi, Zeb – respondeu. – This is Raul Morgado. Raul, o Zeb chama-me Orrie porque o meu nome próprio é Orazio.

Isto era novidade para Raul, que simpatizou com o à-vontade de Zeb.

Hi, Raul – disse o americano, pronunciando “Rol”; e apertou-lhe a mão com firmeza.

[ … ].

No apartamento, passaram à conversa séria. Primeiro: sabia Teresa o que estava planeado e no que consistia? Então que o descrevesse pelas suas próprias palavras. Consentia nesse procedimento? Consentia em que a marca lhe fosse aplicada por Raul, apesar de aconselhada em contrário? Sabia que o processo era extremamente doloroso? Teresa respondeu que sim a tudo, e Zeb pediu-lhe que assinasse um documento nesse sentido. Quanto a Raul, Zeb tinha sido informado que ele se reservava o direito de abortar o procedimento até ao último minuto; mas, caso o fizesse, teria que o pagar na mesma por inteiro. Estava de acordo? Raul respondeu que sim. Zeb faria todos os esforços para que Raul adquirisse a competência necessária para marcar a sua escrava; mas se no fim não o considerasse competente, marcá-la-ia ele próprio, ou sairia sem se responsabilizar pelo que acontecesse a seguir. Estava Raul também de acordo com isto?

Raul pediu um momento para falar a sós com Teresa e retirou-se com ela para o escritório [ … ]. Quando regressaram à sala, Raul perguntou se podia ver a marca de Chiara.

– Mostra – disse Manfredi à mulher.

A Dottoressa Chiara Manfredi era uma senhora elegante de meia-idade, com o cabelo louro cortado à pajem, deixando a nuca a descoberto; naquele dia, trazia blusa de seda, saia pelo joelho, um pouco travada, e sapatos rasos: era em tudo uma profissional discreta, uma académica respeitada. Sem hesitar nem perder o aprumo, desapertou um fecho ao lado da saia e tirou-a pelos pés, desvendando umas calcinhas brancas rendadas. Quando as baixou, Teresa compreendeu porque nunca lhe tinha visto a marca: eram apenas duas pequenas iniciais, OM, em estilo cursivo e sem bordadura. Estavam inscritas na púbis depilada, onde qualquer biquíni reduzido as esconderia. Era uma marca bonita, um pouco em relevo e apenas mais rosada do que a pele em redor; e o lugar em que estava gravada também era bonito: um monte-de-vénus mais saliente e rechonchudo do que a magreza de Chiara faria prever.

A um sinal de Manfredi, Chiara vestiu-se de novo. Zeb perguntou se podia ver o ferro [ … ]. Ainda bem que a elipse era aberta nas pontas e que o arco do R era também aberto. Isto reduzia o risco de que a pele não queimada viesse agarrada quando o ferro fosse retirado [ … ]. O tamanho da marca limitava os lugares onde podia ser aplicada: com dez centímetros de largura e sete de altura, teria que ser nas nádegas. O melhor lugar seria a parte de cima, um pouco abaixo dos rins, mas este não era um lugar discreto: seria visível quando Teresa usasse um biquíni ou qualquer peça de roupa muito decotada atrás.

– Não me importa a discrição – respondeu Raul. – Uma marca é para se ver. Vamos marcá-la aí.

[ … ].

Para essa tarde, Zeb ia necessitar de um espaço onde se pudesse acender um fogareiro. Depois de verificar que o apartamento de Raul dispunha de um terraço adequado no último andar, quis saber se o mesmo existia no lugar onde ele pensava marcar Teresa. Raul telefonou à Baronesa e ela assegurou-lhe que o Justine dispunha dum pequeno espaço nas traseiras e de um fogareiro. A questão seguinte, disse Zeb, era onde amarrar Teresa: teria que ficar perfeitamente firme e imóvel [ … ]. Raul levou-o ao quarto dos castigos e mostrou-lhe o móvel que mandara fazer: uma mesa de comprimento igual à altura de Teresa e largura igual à das suas ancas, com aros de latão a toda a volta e uma ranhura funda na espessura do tampo. Tal como as outras peças de mobiliário, estava aparafusada ao chão. Milena foi despachada para comprar a fita de embalagem autocolante que era necessária para a primeira lição de Raul: como prender a sua escrava de modo a que ficasse perfeitamente imóvel. Enquanto esperavam, Teresa, meio perdida num nevoeiro de apreensão, só prestou atenção a Chiara, quando esta contou como tinha sido marcada. Tinha sido num rancho perto de Houston. Tinham-na levado para um telheiro e amarrado a uma banca de barriga para cima. Zeb interrompeu para dizer que essa era a sua posição preferida para marcar a fogo uma mulher, porque era aquela em que era mais fácil e mais rápido prestar-lhe os primeiros cuidados depois de a marcar. Orazio, continuou Chiara, decidira vendar-lhe os olhos. Depois tinha-se sentado junto dela, falando-lhe baixinho ao ouvido, chamando-lhe nomes ternos, fazendo-lhe perguntas sobre recordações passadas. Chiara não conseguia deixar de pensar no ferro em brasa, mas, quando Manfredi insistia nas perguntas, tinha que fazer um esforço para lhe responder: só isto a tinha impedido de se entregar ao pânico. A dor tinha sido a pior que jamais sofrera, mas tinha passado; e a marca era tão bonita, não era? Teresa reconhecia vagamente que a marca era bonita; mas aquela dor terrível, que já tinha passado para Chiara, estava ainda seu no futuro [ … ]. Não duvidava, nem da sua coragem, nem da de Raul. Chegado o momento, tinha a certeza que Zeb autorizaria que o seu dono a marcasse pela sua própria mão; acreditava apaixonadamente que o que se ia fazer era o melhor para Raul e para si própria; mas não se podia impedir de ficar ensimesmada como um soldado na trincheira, nas horas que antecedem o ataque.

Quando Milena chegou com a fita autocolante, Zeb pediu-lhe que começasse a preparar o braseiro, tarefa esta em que Chiara se propôs ajudar. A Raul, a Teresa e ao Avvocato, pediu que o seguissem até ao quarto dos castigos e levassem o ferro. Pediu ainda a Teresa que se despisse e se deitasse na banca de barriga para baixo com as pernas um pouco afastadas. Para o que iam fazer a seguir, não era preciso amarrá-la, mas esta era a posição em que tudo ia acontecer. Antes de mais nada, Raul tinha que aprender a pegar no ferrol: os dedos firmemente à volta do cabo de madeira, segurando-o virado para baixo. Raul pôs-se do lado em que queria marcar Teresa, que era o esquerdo, e segurou o ferro por cima dela com a haste em posição vertical. Não, disse Zeb: o ferro tem que ficar perpendicular à pele e não ao tampo da mesa. Raul que reparasse: ali, onde ele queria a marca, o corpo dela tinha um declive.

Raul aproximou o ferro da nádega de Teresa, mas Zeb disse que era demasiado perto. Se parasse o ferro ali, Teresa sofreria inutilmente, porque sentiria a queimadura com antecedência. Devia pôr o ferro em posição um pouco acima, aí a quatro polegadas. Quatro polegadas era o quê? Dez centímetros? Raul tentou executar à letra as instruções de Zeb, que não pareceu insatisfeito com o primeiro resultado. Manfredi, que os estava a observar, reparou que o americano estava tão atento às expressões e à linguagem corporal de Raul como ao seu desempenho. Está à procura de sinais de nervosismo excessivo, pensou. Mas em parte estava enganado: Zeb estava também atento a sinais de nervosismo insuficiente. Se os notasse em Raul, abortaria o processo da mesma maneira que o abortaria por nervosismo a mais.

Depois de treinar duas ou três vezes o posicionamento inicial, era altura de treinar o contacto entre o ferro e a carne. Primeiro o movimento, que tinha que ser rápido, preciso, uniforme e em linha recta. Depois a pressão adequada: firme, mas não exagerada. Não, assim não chegava. Não, assim era demais. Assim estava bem, podia repetir. Depois, a duração: três segundos no mínimo, no máximo cinco.

– E como é que decido entre três e cinco? – perguntou Raul.

Good question – respondeu Zeb. – Viu a marca de Chiara? Quando a fiz, mantive o contacto por três segundos. Se quer que a sua escrava fique com uma marca mais nítida e mais escura, deve manter o contacto por quatro ou cinco segundos; but let me have another look at the iron.

Revirou o ferro nas mãos, medindo com os olhos todos os espaços entre as linhas, e concluiu:

– Quatro segundos é melhor. Com cinco, podíamos ter problemas ao retirar o ferro.

[ … ].

Quando Zeb se deu por satisfeito, passou à lição seguinte: como amarrar Teresa. O objectivo, explicou, era segurá-la de modo a que lhe fosse de todo impossível mover as nádegas, mas de modo também a que fosse possível libertá-la instantaneamente em caso de necessidade.

– E de onde pode provir essa necessidade? – perguntou Raul.

A necessidade podia provir de Teresa entrar em estado de choque. Se isto acontecesse, seria preciso prestar-lhe os primeiros socorros adequados. Se estes não resultassem, o que era muito improvável, seria preciso prestar-lhe os cuidados médicos que ele, Dr. Zebediah Pyke, diplomado pela Harvard Medical School, e membro da American Medical Association, estava habilitado e equipado para prestar.

– Equipado? – perguntou Raul. – Quer dizer que tem medicamentos nessa maleta?

– Medicamentos e outras coisas, tudo documentado de modo a passar na alfândega na mais absoluta legalidade. Don’t worry.

– Mas se a Teresa entrar em choque…

– Não vou entrar em estado de choque nenhum – disse Teresa, com tão absoluta segurança que ninguém ousou acrescentar uma palavra a este pronunciamento.

– Continuemos – disse Raul por fim.

Zeb ordenou que Teresa mantivesse os braços cruzados a fazer de almofada. Nesta posição, atou-lhe os antebraços um ao outro com duas voltas de corda rematadas por um simples laço. Usou os mesmos laços de puxar pela ponta para lhe prender os cotovelos e os pulsos a dois aros de latão. Qualquer pessoa poderia desamarrar Teresa em segundos, ou ela própria em minutos. Raul e Manfredi acharam este sistema demasiado frágil para imobilizar completamente uma pessoa, mas não disseram nada. Zeb explicou que nesta fase não lhe interessava a imobilidade completa de Teresa, mas sim definir a sua posição: o importante era que os nós pudessem ser desfeitos instantaneamente.

– Não vou mesmo entrar em estado de choque – disse Teresa.

Raul e o Avvocato, que a conheciam, começaram a acreditar nela, mas Zeb prosseguiu como se ela não tivesse falado. Atou-lhe os tornozelos com a mesma desenvoltura com que lhe tinha atado os pulsos; bastaria que ela se debatesse um pouco para ficar livre. Atou-lhe a parte superior de cada coxa ao aro de latão mais próximo, e depois a parte inferior, junto ao joelho.

Fourteen granny knots – disse Zeb, como que falando consigo mesmo – Catorze lacinhos. Conte-os você mesmo, Orrie. Quantos são?

Orazio Manfredi obedeceu conscienciosamente e concluiu:

They’re fourteen alright, Zeb.

Very well – disse o Dr. Zebediah Pyke. – Se eu der a ordem de desatar, não pense noutra coisa que não seja em desatá-los, e depressa. Comece pelos braços. OK?

That’s OK, Zeb.

O que verdadeiramente ia segurar Teresa era a fita adesiva. Zeb começou por lhe prender a cintura, dando várias voltas por cima e por baixo da banca. Depois prendeu-lhe a pélvis, as coxas e os ombros, por baixo dos braços. Quando Zeb lhe mostrou o X-acto que tinha pousado na banca, Raul compreendeu que as ranhuras no rebordo eram para que a fita ficasse em falso e fosse possível cortá-la num segundo. Com Teresa assim amarrada, Zeb quis que Raul repetisse o treino com o ferro.

– Sente a diferença? – perguntou.

Raul sentia uma diferença, com efeito. A inclinação da pele era agora ligeiramente diferente. Também a consistência da carne, assim amarrada, era outra: era preciso um pouco mais de força.

O treino da manhã terminou assim. Milena serviu o almoço. Zeb levantou-se algumas vezes para ir ao pátio ver como estava a progredir o braseiro, juntando-lhe eventualmente mais um pouco de carvão. O aço é um mau condutor do calor, o que significa que é difícil aquecer a zona de queima até uma temperatura uniforme. Zeb rejeitou a sugestão de aquecer o ferro nos bicos de gás: umas partes ficariam quentes demais enquanto outras não o ficariam o suficiente. O melhor processo era o braseiro: introduzir a zona de queima no meio das brasas, deixar de fora a maior parte da haste, virar o ferro periodicamente e esperar até que a zona de queima apresentasse uma cor entre o cinzento escuro e o vermelho. Enquanto o ferro aquecia, trouxe para o quarto dos castigos umas almofadas em cabedal muito fino.

– Tome o peso a isto – pediu ele a Raul, passando-lhe para as mãos uma delas.

– É pesada – disse Raul.

Era pesada porque estava cheia de silicone de modo a imitar a consistência do corpo humano. De cada vez que Zeb treinava alguém, destruía várias destas almofadas, e esta era uma das razões por que os seus serviços eram tão caros.

– Estou a ver – disse Raul.

Zeb pediu-lhe que fosse buscar o ferro que estava a aquecer no pátio; Raul que não se apressasse: durante o percurso, o ferro quase não perderia calor. Entretanto prendeu uma almofada à banca e, quando Raul regressou, disse-lhe:

Here’s your female. Agora marque-a.

Raul fez tudo errado. Não pôs o ferro na posição correcta nem à distância certa, aproximou-o numa linha irregular, que tentou corrigir tarde demais; suou, a mão tremeu-lhe, e ao fim dos quatro segundos retirou o ferro com um movimento hesitante, como que a medo.

I’ve seen worse – foi o único comentário de Zeb.

Mas a Raul pareceu-lhe que era impossível pior: a marca que tinha deixado na almofada era uma coisa feia e informe. A ideia de que Teresa pudesse passar o resto da vida com semelhante deformidade no corpo punha-o doente. Enquanto o ferro voltava a aquecer, passou em revista os seus erros. Na almofada havia ainda espaço para mais duas ou três tentativas: a segunda resultou muito melhor do que a primeira, mas ainda assim Zeb teve um defeito a apontar:

– Está a ver aqui a linha indistinta? É onde a sua mão tremeu durante o contacto. Terá que fazer muito melhor para eu o deixar aproximar-se duma mulher a sério.

Quando Raul conseguiu dez marcas perfeitas seguidas, Zeb deu o dia por concluído e explicou-lhe como se limpava o ferro [ … ].

Nessa noite, Raul parecia sentir uma fascinação especial pelas nádegas de Teresa e ela pelas mãos dele, que beijou mais vezes nessa noite do que habitualmente numa semana. Depois de se terem abraçado e beijado longamente, e quando Teresa, já toda aberta e molhada, se preparava para receber na vagina o seu senhor, ouviu-o dizer:

– Dá-me o teu cuzinho, escrava…

Com um gemido que era ao mesmo tempo de ansiedade e frustração, Teresa procurou na mesinha de cabeceira o frasco de gel. Ela própria lubrificou o pénis do dono, mas, quando lhe ofereceu o frasco, ele recusou, dizendo:

– Faz tu, escrava.

Guiando-se só pelo tacto, Teresa aplicou o gel no seu próprio ânus, tendo o cuidado de não se atrapalhar com a pressa: se ficasse mal lubrificada, seria ela a sofrer. A penetração foi dolorosa, como ela esperava, e Raul não lhe acariciou o sexo enquanto a possuía por trás; e contudo, pela primeira vez na vida, sentiu nesta penetração prazer suficiente para a levar a um orgasmo.

– Meu senhor, posso vir-me?

Raul, um pouco surpreendido, autorizou-lhe o clímax e, quando lhe sentiu os primeiros espasmos, esvaiu-se também dentro dela.

O dia seguinte começou com várias repetições do amarrar e desamarrar de Teresa. Durante a tarde, Raul treinou com o ferro quente, destruindo mais umas tantas almofadas de silicone. As marcas saíram todas perfeitas, apesar de Raul continuar a dar alguns sinais de nervosismo. Agora que tivera tempo para pensar, o Avvocato entendia porque é que Zeb preferia um Raul ligeiramente nervoso a um Raul perfeitamente calmo: é que na hora da verdade não estaria calmo de certeza, e apesar dos nervos teria que fazer bem o seu trabalho. Ao fim da tarde, Zeb deu-se por satisfeito: declarou que ia aproveitar a manhã do dia seguinte para conhecer um pouco o Porto e despediu-se. Às seis da tarde de sábado, alguém o iria buscar para o levar ao Justine, onde daria a Raul um ligeiro treino final antes da cerimónia, que teria lugar às nove e meia. Estariam presentes, como testemunhas: bondarina e o seu Dono; a Baronesa e o seu submisso; kathy e o seu Dono; Ana e Miguel; a professora de dança do ventre de Teresa – que esta, num impulso de última hora, se atrevera a convidar, e que, para sua surpresa, aceitara; Orazio e Chiara Manfredi; e Carolina, que adivinhara que algo do género estava para acontecer e pedira para assistir.

No sábado, a seguir ao almoço, Igor apresentou-se em casa de Raul, acompanhado pelo submisso da Baronesa, para ajudarem a desaparafusar a banca e a pô-la na carrinha alugada. O submisso da Baronesa, apesar do seu aspecto frágil, e o Avvocato, apesar da idade, ajudaram; e pouco depois a banca estava no Justine, aparafusada ao chão no lugar que ocuparia de futuro.

Enquanto Zeb e os convidados não chegavam, Teresa foi o centro das atenções. Igor, bondarina, a Baronesa, Raul, todos a rodeavam e mimavam, arrancando-lhe um débil sorriso ou uma curta frase. Às seis, chegaram o Avvocato e Chiara trazendo Zeb. Às nove, prepararam-se para a chegada dos convidados: competiria a Teresa recebê-los e a cumprimentá-los à porta, toda nua por baixo duma capa comprida, segura no pescoço só por um botão. Às nove e meia, o braseiro, no pátio, estava aceso; e o ferro de marcar gado estava à temperatura certa. Zeb, ao chegar, disse que era seu dever perguntar a Raul se queria Teresa anestesiada. Teresa, muito pálida, acenou que não com a cabeça, e Raul recusou a oferta. Zeb perguntou se podia, nesse caso, dar-lhe um sedativo que não a poria a dormir mas lhe reduziria o medo. Teresa voltou a acenar que não, mas desta vez Raul aceitou. A Baronesa pôs música a tocar – Canto Gregoriano – e os convidados sentaram-se. Teresa dirigiu-se para junto da banca, tirou a capa, que entregou a Chiara, ajoelhou-se nua aos pés de Raul para lhe beijar as mãos e os pés, e ergueu-se de novo. Na sala, ninguém falava. Do outro lado da banca, estava Zeb, e junto ao topo o Avvocato: Teresa fez uma vénia a cada um e disse-lhes “obrigada por tudo” em voz sumida. Depois deitou-se de bruços na banca, onde os três a amarraram e amordaçaram. Zeb procurou-lhe uma veia nas costas da mão. Teresa sentiu a picada e logo depois sentiu-se relaxar: dava-se conta de tudo, mas tudo parecia muito longe.

Os dados estão lançados, pensou Raul. Rien ne va plus.

Chiara dirigiu-se ao pátio, de onde voltou para anunciar que o ferro estava pronto. Teresa não viu o sinal de Zeb: viu Raul sair do seu campo de visão e ouviu-lhe os passos no regresso, rodeando a banca pelo lado oposto. Não viu o ferro, mas imaginou-o, a haste em aço claro, a ponta vermelha-escura. Começou a respirar o mais devagar e o mais profundamente que podia, como lhe ordenava Zeb numa voz calma, quase hipnótica. Sentiu Raul de pé, junto ao seu flanco esquerdo; de onde ele estava, irradiava o calor do ferro, que ela sentia à distância. Esta sensação de calor intensificou-se subitamente: agora era quando ele punha a superfície de queima em posição. Teresa procurava manter a respiração funda e lenta que Zeb lhe prescrevera, quando de repente a trespassou uma dor imensa que lhe fez perder a vista, que lhe endoidou a vista e a fez ver a sala toda branca, como se a luz de mil sóis a tivesse inundado. Ouviu, muito ao longe, a voz de Raul, que contava até quatro. Não sentiu a retirada do ferro, nem reparou quando Zeb lhe levantou as pálpebras para lhe ver os olhos. Antes de a desamarrarem, puseram-lhe um penso. A dor abrandou. Depois sentiu a picada duma injecção na outra nádega: é para a dor, disse Zeb. Passado um bocado, a dor abrandou mais um pouco.

Perfect – disse Zeb.

Se alguém viu Teresa sorrir um pouco neste momento, por certo não acreditou nos seus olhos. Mas ela sorriu porque tinha um segredo: Raul tinha passado o teste a que ela o sujeitara. E ela própria também. O que era uma queimadura, por dolorosa que fosse, comparada com isto? Mas a dor ainda era intensa. Teresa descobriu que, se voltasse a respirar fundo e lentamente, a dor se tornava mais fácil de suportar. Começou a tomar uma consciência mais nítida das coisas. Alguém a beijou no rosto: era Chiara. Depois Raul, muito pálido:

– Estás bem?

Teresa tentou um sorriso:

– Estou bem.

[ … ]

– Amo-te muito, minha escrava – disse Raul.

Teresa sentiu o coração a bater com mais força, e Zeb, que lhe tomava o pulso e olhava para o relógio, sorriu levemente.

– Amo-te tanto, meu dono!

E todos a devem ter ouvido, porque o ambiente da sala mudou: estava agora mais enfeitado de sorrisos, como se todos os presentes partilhassem um triunfo.

– Vamos sentá-la – disse Zeb.

Com várias mãos a ajudá-la, Teresa sentou-se na banca onde tinha sido marcada.

– Põe a cabeça entre os joelhos e respira fundo.

Passado um bocado, perguntaram-lhe se conseguia levantar-se e ela fez que sim com a cabeça. Lentamente, conduziram-na para uma cadeira onde a sentaram, ainda nua, e lhe lançaram uma manta por cima.

– É preciso vesti-la – disse alguém.

Give her time – respondeu Zeb. – Daqui a pouco, ela própria vai conseguir vestir-se.

Mediu-lhe a tensão arterial, os batimentos cardíacos e a temperatura: estava tudo normal. Teresa olhou à sua volta: onde estava Carolina? Viu-a de pé, pálida, a suar e agarrada às costas de um sofá para não cair.

– A minha irmã não está bem, ajudem-na.

Em dois passos rápidos, Zeb pôs-se junto de Carolina, sentou-a e agachou-se para lhe ver os olhos.

Can you see me? Who am I? – perguntou.

– Zeb – disse Carolina.

Zebediah notou como a respiração se normalizava e como a cor lhe voltava ao rosto.

– Tragam-lhe um pouco de água – ordenou.

Depois fez-lhe os mesmos exames que fizera a Teresa.

She’s gonna be alright – concluiu.

Quando Teresa se sentiu melhor, pediu a bondarina que a ajudasse a vestir-se e que a trouxesse depois para junto da irmã.

– Deixem-nos um momento sozinhas – pediu.

Do outro extremo da sala não se podia ouvir o que estavam a dizer; mas, pelos gestos e expressões, a conversa pareceu dividir-se em várias fases: primeiro, Carolina pegou na mão de Teresa; depois pareceram zangadas; a seguir foi Teresa a pegar na mão de Carolina; por fim abraçaram-se, e Carolina desatou num choro desabalado que só pouco a pouco, sob os beijos da irmã, foi acalmando. Por fim, à hora de abrir o clube e deixar entrar os clientes, estavam as duas numa conversa amena: igual, para quem visse, a qualquer outra conversa entre duas irmãs que se dão bem.

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Cap. 33: NO LIMITE

Nas semanas seguintes, Ana e Miguel tornaram-se frequentadores do Justine, primeiro na companhia de Raul e Teresa, depois, muitas vezes, sozinhos. Conversando com as pessoas que conheceram, depressa se aperceberam que o compromisso absoluto de Raul e Teresa era muito mais radical do que era costume no meio. Não era uma questão de mais submissão ou menos submissão, mais dor ou menos dor, mas daquilo em que cada um centrava os seus desejos e a sua ideia de felicidade. Antes de frequentarem o Justine, Ana e Miguel pensavam que, quando uma pessoa submissa encontrava uma pessoa dominante, a história tinha chegado mais ou menos ao fim: pouco mais restava do que serem felizes para sempre. Verificavam agora que isto estava longe de ser o caso: era difícil encontrar o dominante certo para o submisso certo, e no Justine, como em qualquer outro lugar, não faltavam corações partidos. Aprenderam também a tolerância, uma vez que os centros do desejo eram quase tantos como as pessoas à sua volta: para uns a moda e o fetiche, para outros a dor física ou a humilhação, para outros a restrição de movimentos, para outros a entrega – que não era a mesma coisa que dádiva; alguns praticavam a monogamia mais estrita, outros viam a expressão máxima do domínio na cedência a terceiros do submisso ou da submissa, sem lhe permitir qualquer escolha quanto à identidade, quanto ao número, ou quanto ao sexo, da pessoa ou pessoas a quem temporariamente servia.

Quase sempre os centros do desejo eram múltiplos, o que tornava tudo ainda mais complicado. Miguel e Ana estavam convencidos que eram o dominante certo para a submissa certa, mas nem por isso deixaram de beneficiar do convívio que tiveram com outros frequentadores do bar. Não os surpreendeu a adesão quase fanática de todos a uma ética muito rígida e muito simples que se exprimia na máxima “safe, sane and consensual”: uma regra como esta era necessária num meio em que se cruzavam personalidades e desejos tão diversos, e era uma boa base para que a comunidade pudesse organizar uma rede informal mas eficaz de protecção mútua contra predadores e psicopatas.

Raul e Teresa eram menos assíduos. Quando ia ao Justine, Teresa costumava levar, enfiado na vagina, o primeiro óvulo de controlo remoto que Raul tinha adquirido. O óvulo mais recente, operado por telemóvel, nunca era usado no Justine e raramente noutros lugares: só algumas vezes, quando Teresa ia às compras ou encontrar-se com amigos e familiares. No Justine, Teresa estava sempre consciente que, estivesse a fazer o que estivesse – a falar com outros frequentadores do clube, a arranjar-se nos lavabos, a trazer uma bebida ao dono, a qualquer momento se poderia desencadear no interior do seu corpo, sem aviso, aquela vibração que para a sua sensibilidade continuava a misturar sofrimento e prazer. Miguel perguntou a Raul onde podia adquirir um aparelho semelhante, e passados poucos dias Ana passou também a usar um óvulo na vagina; mas para ela a sensação era de puro prazer.

Ana e Miguel não se tratavam por “meu senhor” ou “minha escrava”; perante terceiros, ele referia-se a ela como “a Ana” – ou, no Justine, “a trilby” – e ela a ele como “o meu Dono”. Descontadas estas formalidades, que não eram importantes, a sua relação parecia encaminhar-se numa direcção semelhante à de Raul e Teresa. Isto preocupava um pouco o par mais velho, que se sentia responsável e sabia que nem todas as relações de domínio e submissão se conformam a modalidades tão exigentes como a que tinham escolhido para si próprios. Preocupava-os a possibilidade de os dois jovens fazerem uma escolha que mais tarde um ou outro não pudesse suportar. Por isso viam com bons olhos a maneira como eles se iam integrando na comunidade: assim podiam conhecer outras formas de domínio e submissão e construir por si próprios a que mais se adaptava às suas necessidades particulares.

Um assunto que discutiam muito era o que aconteceria se as necessidades de um deixassem alguma vez de corresponder às do outro.

– Mas não correspondem? – perguntava sempre Raul.

– Correspondem – respondia sempre Ana ou Miguel. – Mas se não correspondessem, como era?

– Em teoria prevaleceriam as necessidades do Miguel – preconizava Teresa, radical como sempre.

– Mas na prática – prevenia Raul – têm que ter algo em comum para que os desejos de um possam enriquecer os do outro. É este o vosso caso, parece-me, e por isso não vejo porque se preocupam. Teriam razão para se preocuparem, por exemplo, se para um de vós uma coisa qualquer tivesse um valor simbólico ou erótico muito grande, que a tornasse indispensável, e para o outro essa coisa fosse absolutamente insuportável.

– Mas por outro lado – disse Teresa durante uma destas conversas – se aquilo que o senhor exige não for de todo insuportável para a escrava, esta dificuldade até pode ser uma coisa boa: pode ser uma forma de tornar a escrava mais escrava. É como os meus pés nus: no imaginário do Raul os pés nus sempre foram um símbolo importante de humildade e submissão. Agora já o são também no meu imaginário, que por isso mesmo está mais rico: já faziam antes parte dele, mas tinham outro significado, diferente e mais limitado. Este significado não se perdeu, apenas se lhe acrescentou o que Raul lhe deu. Claro que andar descalça é muitas vezes um grande sacrifício, e por vezes, em público, quase morro de vergonha. Mas para mim vale a pena: uma escrava que não esteja preparada para fazer sacrifícios grandes não merece o nome de escrava.

[ …]

Raul sorriu levemente, fez-lhe uma pequena festa no rosto e virou-lhe as costas para ir pousar o chicote na banca. Depois voltou com cordas para lhe amarrar os pulsos e os tornozelos aos quatro cantos do rectângulo formado pelas colunas. Teresa deixou-se amarrar docilmente; fechou os olhos e começou a murmurar repetidamente “amo-te, amo-te, amo-te”, como se a repetição infinita desta verdade fosse o mantra que a ia proteger na provação que a esperava.

– Agora vou-te vendar – disse Raul. – Posso?

Para não interromper o “amo-te, amo-te, amo-te” que continuava a dizer baixinho, Teresa limitou-se a acenar que sim. Se estivesse em estado de achar graça a alguma coisa, teria sorrido por ele ter pedido permissão para a vendar quando não precisava de permissão para nada do que estava a fazer. Continuou a dizer baixinho “amo-te, amo-te, amo-te” enquanto tentava prever ao fim de quantas chicotadas começaria a gritar.

Começou a gritar logo à primeira, um berro agudo e ensurdecedor que dificilmente se acreditaria que pudesse ficar confinado entre as paredes do quarto, ou sequer da casa. Esta chicotada atingiu-a obliquamente nas nádegas, marcando um traço que ia da parte superior da esquerda à inferior da direita. A segunda atingiu-a horizontalmente e um pouco mais acima, arrancando-lhe um grito tão forte como o primeiro. Das que se seguiram, nenhuma correspondia a nada que ela pudesse ter imaginado ser capaz de suportar. Mais do que todas as outras, doeram-lhe as que a atingiram no rego entre as nádegas e as coxas; mas por esta altura já se tinha cansado de gritar. Os primeiros gritos que soltara tinham sido emitidos num soprano cristalino, mas pouco a pouco foram enrouquecendo até se tornarem urros que quase nada tinham de humano. E mesmo estes acabaram por dar lugar a arquejos de aflição, entremeados de rosnidos de fera encurralada.

O chicote não fazia um silvo tão agudo como o da vergasta, e o som que fazia ao contactar com a carne não era tão seco. Mas a dor era inconcebivelmente maior, maior do que qualquer punição que Teresa já tivesse recebido.

Quanto tempo durou isto? Não é possível contá-lo, nem em segundos, nem em minutos, nem em número de golpes desferidos. Teresa só soube que o seu tormento tinha terminado quando Raul lhe tirou a venda. Olhou à sua volta, espantada: o quarto era o mesmo, o mundo não tinha mudado. Quando Raul lhe libertou os tornozelos, esfregou os pés um no outro, tentando restaurar a circulação. Depois, quando ele lhe libertou os pulsos, as mãos voaram-lhe para onde tinham estado antes de ele a amarrar: cruzadas em frente ao sexo, escondendo-o, tapando-o, negando-o ao olhar e ao desejo do macho. Raul não lhe ordenou que descruzasse as mãos: pôs-se em frente dela, olhou-a nos olhos – que ela não conseguiu furtar aos dele – disse-lhe “amo-te” e foi de novo buscar o chicote.

Teresa bem sabia para que era agora o chicote, era para ela o beijar: e nesse momento sentiu-se invadir por uma tal revolta, que numa fracção de segundo, na sua imaginação, saiu dali, vestiu-se, fez a mala, chamou um táxi, foi para o aeroporto e regressou ao seu apartamento no Corso Magenta. Mas na realidade, o que fez foi ajoelhar-se e beijar o chicote, sem que Raul precisasse de lho ordenar. Depois levantou os olhos para o dono e viu-o imóvel, de pé, à espera. À espera de quê? Que mais que queria ele ainda? Que ela lhe dissesse o que disse, é claro:

– Obrigada, meu dono.

No momento em que estas palavras lhe saíram da boca aconteceu uma coisa que a fez sentir ódio por si mesma: enrubesceu, os lábios entreabriram-se, os quadris rodaram num círculo imperceptível, como se tivessem vontade própria, e sentiu-se a ficar molhada. Este ódio por si própria, assim como veio, assim desapareceu; a vergonha a que ele deu lugar também teve a vida curta; a excitação, essa sim, permaneceu – e com ela surgiu-lhe na alma um sentimento de orgulho que a levou a repetir:

– Obrigada, meu senhor. Amo-te. Faças de mim o que fizeres, hei-de amar-te sempre.

Esta expressão de submissão não lhe amainou de todo a revolta: uma coisa era aceitar, por sua deliberada vontade, a dor que ele lhe quisesse dar, outra era responder-lhe com uma reacção involuntária do corpo. Mas não, estava a ser injusta: o acto de vontade tinha vindo antes, tinha sido responsabilidade sua; e se o corpo estava de acordo com a vontade, não merecia censura. Rola os quadris, escrava, entreabre a boca, semicerra os olhos, pensou Teresa. Afasta as pernas. Deixa que a cona se molhe. Tens direito a tudo isso: fui eu, enquanto mulher livre, que to dei.

[ … ]

Nem fazer segredo, nem fazer alarde, pensou Teresa. Era este o princípio que ela e Raul tinham adoptado. Numa aula de dança, em que está presente apenas um número limitado de pessoas, vestir-se como de costume não seria fazer alarde, tapar-se toda é que seria fazer segredo. Já o tinha feito uma vez, não ia fazê-lo de novo. Vamos lá ver o que acontece, pensou, e apresentou-se na aula com uma saia vermelha de cintura baixa que lhe deixava a descoberto quase todas a zonas do corpo onde tinha sido chicoteada.

O que aconteceu foi espanto, repulsa, solicitude e indignação. Não serviu de muito explicar que tudo se tinha passado com o seu consentimento: somente nalguns casos a indignação deixou de ser contra Raul e passou a ser contra ela. Em algumas das mulheres presentes, porém, a indignação foi mais convencional que sentida; houve as que ficaram um momento pensativas e não disseram nada; e Ana, é claro, ficou fascinada, querendo saber tudo, se tinha doído muito, se tinham feito amor depois, se ela própria seria capaz de suportar o mesmo, se Miguel quereria alguma vez, ou poderia, castigá-la assim.

– Se o Miguel te fizesse isto, suportavas?

– Claro que suportava! – respondeu Ana.

– Não sabes o que dói… – disse Teresa. – Dói mesmo muito, e parece que dura séculos.

– Não interessa, suportava e agradecia – respondeu Ana.

Teresa ficou sem saber se tamanha certeza lhe vinha do auto-conhecimento, dalguma necessidade antiga, ou apenas da extrema juventude, que não teme nada. Dançou particularmente bem nesse dia; se isto a fez subir ou descer na consideração das colegas, nunca chegou a sabê-lo.

[ … ]

Era um Setembro quente, mais quente do que tinha sido Agosto. Nestes primeiros dias do mês, Teresa tinha sido punida quase diariamente com uma variedade de instrumentos, uns mais dolorosos do que outros, mas o chicote que lhe causara a dor maior e as marcas mais fundas não voltara a ser usado. Cada punição confirmava o que Teresa já sabia: que a expectativa a excitava um pouco; que a experiência, enquanto durava, lhe tirava toda a excitação; e que se voltava a excitar, confirmando-se como escrava de Raul de um modo cada vez mais inegável, no momento em que se ajoelhava para beijar o chicote e para agradecer o castigo. Teresa compreendia e aprovava a intenção, que adivinhava em Raul, de transformar esta confirmação em rotina: não bastava que o “obrigada” e o “amo-te” que proferia ritualmente fossem verdade, como de facto eram: era preciso que se tornassem inevitáveis, automáticos, evidentes, a tal ponto que a sua eventual omissão se tornasse, ela sim, uma mentira.

Uma noite, Raul colocou um banco almofadado entre as duas colunas, mandou-a sentar e atou-lhe os pulsos aos capitéis, esticando-lhe os braços. Para dar folga às cordas, bastaria a Teresa pôr-se de pé, mas ele apertou-lhe um cinto aos quadris e atou-o com cordas a duas argolas na base das colunas. Agora ela já não poderia aliviar a tensão dos braços, mesmo que quisesse; mas mesmo assim Raul esticou as cordas ainda mais. Teresa ainda tinha os pés assentes no chão, mas ele amarrou-lhe os tornozelos, fê-la levantar as pernas e amarrou as pontas das cordas às mesmas argolas a que tinha amarrado os pulsos: Teresa tinha agora os braços e as pernas no ar, as nádegas assentes no banco, e o sexo arreganhado, todo à vista. Foi nesta posição que ele a vergastou, assentando-lhe os golpes na pele fina do interior das coxas, na parte de baixo das nádegas, e sobretudo na vulva. Teresa já tinha desistido de comparar dor com dor: já tinha aprendido que a punição que dói mais era sempre a que estava a sofrer no momento. Entregou-se toda à dor; ou, melhor dizendo, não foi preciso entregar-se, porque a dor se apoderou dela como sempre, totalmente, sem deixar lugar para qualquer outra sensação ou pensamento.

[ … ]

Dias depois, teve mais uma sessão de depilação eléctrica, e temia que a esteticista lhe visse as marcas da vergasta. De facto ainda as tinha, mas não sentiu a vergonha que teria sentido uns meses antes. A esteticista, quando as viu, comentou que a senhora afinal estava habituada a dores piores do que as que ela lhe provocava; para além disto não teve qualquer reacção, a menos que por reacção se contasse o especial cuidado com que a tratou. As pessoas nunca são quem julgamos, pensou Teresa, ao dar-se conta de que não sabia a que atribuir aquela vaga simpatia da esteticista: entrariam ali todos os dias mulheres com marcas de vergasta no sexo? Todas as semanas? Todos os anos? Ou teria sido ela a primeira, destinada talvez a ser também a última? Teria esta jovem tranquila visto alguma vez marcas semelhantes noutros contextos, noutros corpos, quem sabe se no seu próprio? Quantos mundos existem à nossa volta, diferentes uns dos outros, diferentes daquele que julgamos estar a ver?

[ … ]

De tarde vestiu uma saia que tanto servia para andar na rua como para dançar. Na parte superior do corpo pôs um choli que, ao contrário dum top rígido, permitiria que os seios lhe oscilassem sem terem que ficar nus, escandalizando as outras alunas. Na aula, prestou atenção a todas as instruções da professora, de modo a que todos os movimentos fossem exactos e perfeitos mas ao mesmo tempo fluidos e soltos.

– Hoje dançou muito bem – disse-lhe a professora. – Houve momentos em que pareceu inspirada.

Antes de ir lanchar com Ana, Teresa queria passar pelas colegas e pela professora uma folha em que elas pusessem os endereços para lhes poder enviar os convites para o casamento. Recolhida a folha, verificou que algumas a tinham passado adiante sem escrever nada: estavam no seu direito. No dia seguinte de manhã, depois da aula de pompoar, passou outra folha e ficou contente porque desta vez todas as colegas escreveram os seus endereços. Esta aula foi a primeira em que as alunas usaram vibradores; mas, ao contrário do que Teresa chegara a temer, desligados. O objectivo era ver se eram capazes de sugar o vibrador para dentro da vagina e de o expulsar sem usar outros músculos além dos que tinham estado a exercitar nas aulas anteriores. Teresa não foi das que tiveram mais dificuldade, mas o esforço foi tão grande que, ao saber que mais tarde se esperaria dela e das colegas que sugassem e expulsassem o vibrador dezenas de vezes seguidas, duvidou que tal fosse possível.

Teresa sempre tinha exercido uma profissão, e isto tinha-lhe alargado o mundo. Até puta fui, pensava por vezes, cada vez com menos amargura mas talvez com mais melancolia. Depois decidira dedicar-se inteiramente a Raul, mas sempre com uma réstia de medo que esta opção a confinasse a uma estreiteza de vida que não desejava. Verificava agora que o amor e o sexo, a obediência e o serviço prestados a um senhor, podem constituir uma ocupação a tempo inteiro, exigindo organização, disciplina e um treino intenso e difícil. Não se sentia menos digna como escrava do que se tinha sentido quando era uma mulher de carreira no mundo do jornalismo e da moda; tinha passado, pelo contrário, dum estatuto virtual para um estatuto real que a fazia sentir-se mais presente no mundo.

Foi assim, serena e segura de si como uma matriarca antiga, que assistiu à assinatura dos últimos papéis e ao cumprimento das últimas formalidades que conferiam à sua irmã Carolina a propriedade da empresa que tinha fundado. Também Carolina teve neste dia o seu acesso a um mundo ligeiramente diferente: abandonava o proletariado, tornava-se senhora de si e não tinha ninguém a quem prestar contas. E se não se deu conta que por este caminho tão diferente tinha chegado exactamente ao mesmo ponto que a irmã, já a esta o facto não passou despercebido. O Mundo é com efeito prodigioso e vário.

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Cap. 31: SEIS VERGASTADAS E MAIS UMA

Desde que Teresa se tinha habituado a dançar para Raul depois de jantar, mostrando-lhe os progressos que fazia nas aulas, estava-se a tornar mais frequente Raul jantar sozinho, servido por Teresa e Milena. Isto evitava que Teresa tivesse que mudar de roupa duas vezes, e por outro lado dava lugar a uma competição lúdica entre as duas para ver quem organizava o serviço mais requintado. Esta competição levou a tais extremos de formalismo que não raras vezes acabavam as duas, acompanhadas por Raul, perdidas de riso perante uma invenção protocolar particularmente absurda. Mas se o protocolo excessivo e barroco do jantar era puro divertimento, as danças de Teresa perante Raul eram, pelo contrário, um assunto muito sério. Nestas danças, Teresa não estava limitada ao formato da dança do ventre e usava por isso de uma liberdade que não podia exercer nas aulas. Por vezes dançava vestida, outras nua ou meia nua; por vezes fazia dança do ventre, outras dança livre ou dança jazz; outras ainda inspiravam-se em gestos e estilos populares de todos os continentes. Dava-lhe especial prazer, dançando nua, fazer com que a atenção de Raul se concentrasse nas suas mãos ou nos seus braços; ou pelo contrário, estando completamente vestida, pôr em evidência as partes mais íntimas do corpo.
Na noite que se seguiu à da experiência com o vibrador, Teresa apareceu com a parte inferior do corpo coberta de panos transparentes, sobrepostos de modo a formar uma saia multicolor: carmim, vermelhão, siena queimado, laranja, roxo, amarelo indiano. A cinta era tão baixa que, se Teresa não estivesse depilada, lhe deixaria à mostra parte dos pelos púbicos. Logo de início, Raul notou uma rigidez que não era habitual nos movimentos de Teresa: os movimentos habituais estavam lá todos – o ondular dos músculos da barriga, o rolar das ancas, o sacolejar para os lados e para a frente, as órbitas descritas em forma de oito, o tremer dos seios e dos quadris – mas tudo muito controlado, muito deliberado, muito preso, sem a desenvoltura de que Teresa começava a ser capaz. A que se poderia dever esta regressão?
A resposta tornou-se óbvia quando Teresa deu por terminada a primeira fase da dança, que era feita com os pés assentes no chão e sem sair do sítio, e tentou fazer uma pirueta. Nesse momento, Raul ouviu o som surdo de alguma coisa mole mas pesada a cair no chão; e viu um dos pés nus de Teresa a dar um pontapé involuntário nas bolas ben-wa que acabavam de lhe cair da vagina.
– Anda cá – disse Raul. – Senta-te no meu colo.
Com Teresa ao colo, titilando-lhe distraidamente um dos mamilos, Raul começou a fingir que lhe ralhava:
– Com que então, experiências! Quem te mandou fazer isso? Deve ter sido a tua professora de pompoar, ou então a de dança do ventre, porque eu não me lembro de te ter dado essa ordem…
Teresa corou:
– Não foi ninguém… Foi ideia minha…
Raul riu-se de novo e deu-lhe uma pequena palmada de baixo para cima num dos seios, de modo a fazê-lo saltar.
– Suponho – especulou – que quando um senhor quer ter uma escrava com ideias, tem que se sujeitar a que algumas delas não sejam muito boas. E esta não foi muito boa, pois não?
– Pois não, meu senhor. Desculpa.
Raul deu-lhe uma palmada no rabo, desta vez com força, e ordenou:
– Então vai lá lavar as bolas e depois vem dançar para mim como deve ser.
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa, pondo-se de pé com um movimento álacre e esfregando o sítio onde tinha levado a palmada.
E de facto, depois de voltar e de pôr a música outra vez no início, soltou os quadris e dançou tão bem e tão fluentemente como habitualmente o fazia. Introduziu nesta dança, porém, um movimento que Raul reconheceu da noite anterior: aquele gesto peculiar de retraimento e entrega em que o corpo parece ansiar precisamente por aquilo de que foge. Era o movimento com que tinha reagido ao vibrador, e Raul gostou tanto que sugeriu a Teresa que o mostrasse à professora na aula e pedisse a sua opinião. Teresa assim fez: além de mostrar o movimento (para o qual a professora imediatamente inventou uma série de variações que treinou com as alunas), contou-lhe o episódio humilhante das bolas ben-wa caídas no chão e pontapeadas. Em vez de a censurar, porém, a professora aprovou a tentativa, dizendo à turma que algumas das melhores dançarinas do ventre eram pompoaristas; mas que se alguma aluna quisesse tentar o que Teresa tinha tentado, o melhor era preparar-se para treinar muito tempo até conseguir.

[ … ]

Desde esse dia, Teresa começou a treinar todos os dias em frente ao espelho. Teve que reaprender tudo a partir das técnicas mais elementares, ao mesmo tempo que progredia sem as bolas nas técnicas mais avançadas. Já conseguia introduzir na vagina a primeira bola ben-wa, embora ainda tivesse que ajudar a segunda com o dedo, e a certa altura já era capaz de as segurar tempo suficiente para sair de casa por curtos períodos com elas postas.
Tudo isto, junto com a dor quase diária da depilação eléctrica, começou a fazer com que a consciência que Teresa tinha do seu corpo se começasse a centrar na sua zona genital.
– Às vezes quase sinto o desejo – confidenciou uma vez a Raul – de não ser para ti mais do que uma cona, um buraco ao teu dispor.
A estas palavras, Raul abraçou-a.
– É um desejo teu que não vou satisfazer muitas vezes, mas compreendo-te bem: também eu, por vezes, desejaria libertar-me desta carga de humanidade e não ser mais que um falo… Não é possível, felizmente, caso contrário seríamos puros vegetais; ou se nos restasse alguma consciência, a vida seria um inferno.
– Bem sei – respondeu Teresa. – Mas às vezes…
– Sim, às vezes… – respondeu Raul. – Mas o que não pode ou não deve ser realizado, pode muitas vezes ser representado: e tu agora vais dançar a tua coninha para mim.
E Teresa, rindo, fez precisamente o que ele mandava.

[ … ]

À noite, em casa, Teresa manteve o vestido branco para jantar com Raul e se sentar depois aos pés dele. Antes de se irem deitar, Raul perguntou-lhe:
– Vamos tentar ir hoje um bocadinho mais longe com o vibrador?
– Meu senhor querido, sou tua… Só te peço que me amarres como da outra vez, senão ainda passo pela vergonha de tentar fugir.
Diga-se em abono de Teresa que em momento algum daquela noite se debateu seriamente contra as cordas que a sujeitavam; mas várias vezes se lhe acendeu nos olhos a mesma luz de loucura que Raul tinha visto uns dias antes. Mas o vibrador entrou mais fundo; manteve-se ligado mais tempo; e o período de recuperação que se seguiu foi mais rápido e mais fácil. Terminado o exercício, Teresa serviu Raul mais uma vez com a boca: como se fosse intenção dele que nestas noites o vibrador fosse, para o sexo dela, a última memória.
Poucos dias depois, Raul quis ir mais longe.
– Preciso de te amarrar? – perguntou.
– Não, meu querido – respondeu-lhe Teresa. – Acho que desta vez não vai ser preciso.
Quase foi preciso, mas Raul nunca o soube. Raul penetrou Teresa várias vezes com o vibrador ligado, mas ela, embora se debatesse e desse abundantes sinais de aflição, não chegou àquela fronteira de quase loucura aonde tinha sido preciso ir buscá-la nas outras noites: não só se manteve neste mundo sem ajuda, como chegou a um grau de excitação sexual em que Raul raramente a tinha visto.
Assim que Raul pousou o vibrador, penetrou-a duma vez; e assim que a penetrou, ela explodiu num orgasmo grandioso, sem ter tempo sequer de pedir licença. Com Raul ainda rígido dentro dela, Teresa começou, assim que se sentiu capaz, a aplicar as técnicas de pompoar que já dominava; e ao senti-lo quase a gozar, gozou também, desta vez com autorização. Por muito tempo ficaram abraçados; mas depois de apagarem as luzes, depois de os corações pararem de bater com tanta força e os pulmões de respirar com tanto esforço, Teresa entendeu chegada a altura de confessar:
– Tive um orgasmo sem licença, meu senhor.
– Sim, minha escrava, tiveste – respondeu Raul.
– Mereço um castigo.
– Mereces, sim.
– Meu senhor querido, não quero ser castigada. Tenho medo.
– Quem te garante que o castigo vai ser severo? – disse Raul. Provavelmente já sofreste pior às minhas mãos, sem merecer. E desta vez mereces, não mereces?
– Sim, meu senhor, mereço – respondeu Teresa, num murmúrio. – Por isso é que vai ser pior que qualquer outro castigo. E vais castigar-me, não vais?
– Sim, vou. Amanhã, às seis da tarde, no quarto dos castigos. Seis vergastadas fortes. Avisa a Milena que a essa hora não estamos para ninguém.
– Sim, meu dono – disse Teresa.
Quis virar-se para o outro lado, para que Raul não se desse conta das lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Era o primeiro castigo premeditado que recebia: nunca tinha acontecido com Ettore, e muito menos, nos seus anos de puta, com os seus clientes, que iam e vinham e faziam o que lhes ocorresse no momento. Acabou por não virar as costas a Raul: ele saberia entender as suas lágrimas. Quando ele se voltou para a sua posição de dormir, Teresa abraçou-se a ele por trás e ficou a ouvir-lhe a respiração. O que sentiu ela antes de adormecer? Prazer, nenhum. Medo, certamente: um pouco. Tristeza, também, e melancolia. Esperança, porque lhe parecia que estava a ser conduzida pelo caminho certo. O que não sentia de todo era revolta.

[ … ]

– Traz-me um chá e uma torrada ao escritório – pediu.
Quando Teresa entrou com o chá, Raul agradeceu-lhe e disse-lhe que depois a chamava. Chamou-a às seis em ponto, para lhe ordenar que se despisse e que o esperasse no quarto dos castigos. Teresa, a tremer, obedeceu; e ele chegou logo a seguir, ordenando-lhe que se debruçasse com o rabo empinado sobre a banca do lado direito das colunas, onde já uma vez a tinha amarrado para a punir.
– Hoje não te vou amarrar – disse Raul. – São só seis vergastadas. Quero que as contes tu própria em voz alta: se não contares alguma, essa não vale. Por cada vez que abandones a posição recebes uma vergastada a mais. Está tudo claro?
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa.
Ouviu os passos de Raul, que se colocava por trás dela, e ouviu o silvo no ar quando ele tomou o peso à vergasta. Subitamente, um novo silvo, e uma dor insuportável. Gemeu, e depois de ter gemido começou a sentir que um estranho silêncio se erguia entre eles. De que estava Raul à espera?
– Escrava… – ouviu-o murmurar.
E subitamente lembrou-se: tinha que contar as vergastadas.
– Uma! – exclamou em voz alta, grata pelo tempo que lhe tinha sido concedido.
Nova vergastada:
– Duas!
A terceira foi a pior até ao momento; Teresa contorceu-se toda, mas não levantou os pés do chão. Contou, com a voz embargada:
– Três.
Era uma crueldade ou uma gentileza ele não a ter amarrado? Teresa não sabia. A quarta vergastada atingiu-a muito em cima, quase na cinta, mas a quinta acertou-lhe na prega entre as coxas e as nádegas, provocando-lhe uma dor atroz que a levou a deitar-se para o chão.
– Quatro! Cinco! – contou.
– Sim, cinco – disse Raul calmamente. Mas ganhaste mais uma porque saíste da posição. Volta para o teu lugar.
Teresa voltou para a banca do castigo.
– Seis! – gritou.
E pensar que com esta, tivesse ela tido um pouco mais de coragem, podia estar o castigo terminado! Com as pernas a tremer obrigou-se a ficar onde estava, de nádegas empinadas, aguardando a última vergastada, a pior, a menos necessária; e quando ela veio foi quase com alívio que rouquejou:
– Sete!
Sete, finalmente. Teresa endireitou-se dirigiu-se para o lavatório instalado num canto da sala, lavou a cara, secou-se, e virou-se para o espelho de corpo inteiro que ali tinha sido colocado, virando-se de maneira a poder ver as marcas que tinha nas nádegas. Eram de um vermelho rosado, apenas mais escuro nos sítios em que se cruzavam. Este tinha sido o pior de todos os castigos, não por ser o mias doloroso, porque tinha sido um castigo verdadeiro: a punição duma falta cometida. Olhou para Raul, que estava com a vergasta na mão, à espera. Claro, ainda faltava a conclusão. Teresa deu um passo para Raul, beijou-lhe a mão que segurava a vergasta, beijou a própria vergasta e disse as palavras rituais:
– Obrigada, meu senhor, pelo castigo que me deste.
Isto, em voz alta; mas a seguir, ainda de joelhos, enquanto ele se afastava para pendurar a vergasta, repetiu, numa voz tão baixa que ele não a chegou a ouvir:
– Obrigada, meu querido…

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Cap. 29: LABIA MAJORA

Havia alguns minutos que Raul, debruçado sobre Teresa na cama, acariciava e beijava a sua escrava, que dava pequenos gemidos e retribuía brandamente as carícias dele. Pouco a pouco, as mãos e os lábios dele foram-se aproximando da vagina de Teresa, que começou lentamente a afastar as coxas para lhe facilitar o acesso. Raul acariciava-lhe os pequenos lábios e o clítoris, beijando-os e sugando-os com toda a leveza de que era capaz.

− Deixa-me ver bem a tua coninha, minha escrava.

Teresa, flutuando no mar morno da sua excitação, não entendeu: então ele não a estava a ver bem? Viu-o levantar-se, sair do quarto, e voltar com um candeeiro, que colocou aos pés da cama e acendeu.

− Abre mais as pernas.

Teresa obedeceu. Isto não era excitante, não dava prazer, não significava nada que ela entendesse, mas, para quem se deu a alguém, confiar é obedecer: Raul sabia com certeza o que estava a fazer. Parte da excitação que Teresa sentira regressou, apesar da luz forte, quando Raul recomeçou a tocar-lhe a vulva, afastando com os dedos os grandes lábios, tocando-lhe o clítoris, examinando o capucho que o escondia parcialmente, apalpando por fora a parte que se oculta no interior do corpo. Era como o toque do ginecologista, que a deixava fria, mas ao mesmo tempo era o toque do amante, que a deixava em brasa: mais uma sensação nova para juntar às que Raul lhe provocava. Raul sabia que o clítoris de Teresa era bem mais longo do que parecia, e se parecia pequeno, era porque só a ponta aflorava à superfície do corpo. Procurou seguir-lhe a raiz com os dedos e conseguiu-o em parte, mas não teve a sensibilidade suficiente para se dar conta do ponto em que a raiz do clítoris se bifurca, rodeia a uretra pelos dois lados e se vai ligar à vagina. Depois seguiu-lhe com os dedos os pequenos lábios, beijando-os de vez em quando, mas aparentemente mais atento ao exame que estava a fazer do que ao prazer que pudesse dar ou obter. Apertou-lhe os lábios exteriores um contra o outro: eram bastante carnudos, e apesar da excitação de Teresa, ocultavam por inteiro os lábios interiores, que eram mais estreitos do que o habitual, e frisados como pétalas de cravo.

− Perfeito – murmurou para si mesmo.

Era bom que Raul considerasse que ela tinha uma vulva perfeita, mas perfeita para quê? Teresa ignorava a razão deste exame a frio, que começava a excitá-la quase tanto como a excitaria uma verdadeira carícia; mas não ousou fazer qualquer pergunta. Em todo o caso, o exame não durou muito mais: Raul levantou-se, desligou o candeeiro e retomou as carícias de havia pouco, até que o corpo de Teresa se contorceu numa convulsão de prazer. Raul manteve-a no cume durante tanto tempo quanto foi capaz, para depois a trazer de volta muito lentamente. Teresa sentia-o muito excitado – bastava sentir-lhe a dureza do pénis – mas, como era típico dele, sem pressa nenhuma de a penetrar. O que queria ele agora dela? Começou a beijá-lo na cara, nos ombros e no pescoço. Raul começou a tocar-lhe sucessivamente os seios, os flancos, as ancas, testando-lhes a textura e a firmeza.

− Meu senhor, posso fazer-te uma pergunta? – disse Teresa. − O que foi aquilo há bocado? Estavas a brincar aos médicos?

Raul riu-se, beijou-a na comissura dos lábios e respondeu:

− Não é bem isso, minha escrava. São duas coisas que tenciono mandar fazer-te. Uma depilação definitiva…

– Hmmm… – respondeu Teresa. – Não sei se vou gostar… mas tu é que decides, claro.

– Claro – concordou Raul. – Amanhã tens uma consulta marcada. Andei a ver qual era a melhor clínica do Porto. O tratamento completo vai demorar de um a dois anos, até que os pelos não voltem a crescer, mas os resultados vão começar a ver-se logo a partir do primeiro.

− Sei como é – disse Teresa. – E qual é a outra coisa que me vais fazer?

− Vou mandar pôr-te piercings na vulva, nos lábios maiores. Mas isso é para mais tarde, e vai ter que ser feito em S. Paulo.

− Em S. Paulo? Que piercings tão especiais são esses? Pensei que bastava chegar ali à Baixa a qualquer casa de tatuagens e sair de lá meia hora depois com os piercings postos…

Raul começou a acariciar-lhe a vulva com a mão enquanto lhe respondia.

− Estes vão ser mesmo especiais. Vão ser em titânio e desenhados para o fim que tenho em vista.

Teresa soltou um gemido:

− Meu senhor… sou tua, farás de mim o que quiseres… mas agora estou a imaginar que me vais fazer as coisas mais inconcebíveis, sem eu saber o que é… Não vai ser nada que te impeça de me possuir, pois não?

Raul deu uma risada branda:

– E eu alguma vez ia querer deixar de te possuir? Não, meu amor, não vai ser nada disso. O que pode, é impedir que outros te possuam… Não te importas?

– Eu? Não, meu senhor. Até fico excitada… saber que sou só tua, mesmo fisicamente… que não me pertenço, mas a ti… mas gostava que me mostrasses outra vez isso mesmo; posso-te pedir isso?

Como poderia Raul não perdoar? Antes de a penetrar, recomeçou a acariciá-la e a beijá-la longamente na vagina, nos pequenos lábios e no clítoris, e, em cada ponto em que ele tocava, Teresa perguntava a si mesma: vai ser aqui? Vou ser furada aqui? Não a perturbava usar piercings: já tinha tido furos nos mamilos que depois tinham acabado por cicatrizar e desaparecer. Minutos mais tarde, quando lhe pediu licença para gozar, ele negou-lha; e ela ficou acordada durante horas, trespassada daquela estranha energia, daquele estranho prazer que não sabia explicar, sentindo-o dormir ao seu lado, saciado. Em cada dia que passavam juntos, parecia a Teresa que a sua escravidão se aprofundava mais um pouco. Tinha consentido nas modificações que Raul se propunha fazer-lhe no corpo, sem mesmo perguntar quais eram; apenas lhe pedira que lhe mostrasse mais uma vez que não se pertencia a si própria, mas a ele. Mas Teresa reflectia também que o que se aprofundava não era tanto a sua escravidão como o domínio de Raul sobre ela, um domínio cada vez mais envolto em ternuras e cuidados, como dizia Carolina, mas cada vez mais livre de culpas e de escrúpulos.

Noutra noite, numa noite de castigo, Teresa jantou à mesa com Raul – com a sua saia mais sumptuosa, e coberta de jóias como era regra, mas nua da cinta para cima. Milena, que servia a refeição, sorria-lhe de vez em quando e acariciava-lhe o ombro, como para lhe dar coragem; e Teresa bem precisava de coragem para suportar o que lhe estava reservado para daí a pouco.

Com efeito, Raul, depois de ter bebido o seu whisky e fumado o seu charuto, com ela todo o tempo a beijar-lhe os pés, mandou-a esvaziar a bexiga e esperar por ele, toda nua e sem jóias, no quarto dos castigos. Teresa esperou de pé, com a cabeça baixa e os braços caídos ao longo do corpo. Quando Raul entrou, não ergueu os olhos para ele, mas reparou que tinha mudado de roupa e estava agora de chinelos, pijama e roupão. Quando ele lhe pôs a mão no queixo para a obrigar a erguer a cabeça e lhe dar um beijo na face, Teresa fechou os olhos, virou-se para ele e ofereceu-lhe docemente os lábios.

− Deita-te na banca da esquerda, de barriga para cima.

Era a banca abaulada: deitada sobre ela, Teresa ficava com a pélvis mais alta que a cabeça e os pés. Tinha ido nessa tarde à consulta marcada na clínica de beleza: depois de a examinarem, tinham-na rapado com uma lâmina e feito vários testes antes de lhe fazerem o primeiro tratamento com luz pulsada. Era uma sensação estranha estar assim exposta, com o sexo completamente depilado, mais nua do que alguma vez se tinha sentido. Sentiu que Raul lhe amarrava o pulso direito, apertando a corda com força e atando-o a uma das argolas de bronze no canto da banca. Depois amarrou-lhe os tornozelos, escolhendo as argolas de bronze que a faziam afastar mais as pernas. Entretanto, ajeitando o corpo em direcção à cabeceira da banca, Teresa tinha conseguido aliviar a tensão da corda que lhe prendia o pulso; mas, com as pernas presas, isto já não lhe foi possível quando ele lhe amarrou o pulso esquerdo. Voltando aonde tinha começado, Raul desatou o pulso que tinha amarado em primeiro lugar e puxou a corda antes de o atar outra vez; e assim deu várias voltas à banca, esticando as cordas mais um pouco, sempre pela mesma ordem, até não ser possível a Teresa aliviar a tensão.

As cordas, assim apertadas, faziam-lhe doer. Quando Teresa pensou que já estava imobilizada, Raul ainda a prendeu com mais cordas nas coxas, junto aos joelhos, obrigando-a a escarranchar ainda mais as pernas. Não a amordaçou nem a vendou: embora a posição incómoda em que ela tinha a cabeça não lhe permitisse seguir todos os movimentos do dono pela sala, permitia-lhe ver alguns. Agora é que ele vai buscar o chicote, pensou Teresa; ainda bem que ele a tinha mandado esvaziar a bexiga, caso contrário talvez não pudesse evitar encharcar-se de medo. Mas Raul, quando voltou para junto dela, não trazia chicote nem vergasta, mas sim dois pequenos objectos que ela só identificou quando ele lhos prendeu aos mamilos: duas molas que a fizeram arquejar de dor. O que quer que ele tencionasse fazer a seguir, era preciso esperar que a dor abrandasse, caso contrário não sentiria mais nada. Enquanto esperava, ele alisou-lhe os cabelos e ofereceu-lhe a mão aos lábios para que ela a beijasse. Isto deu-lhe tempo a sentir algo mais do que a dor nos mamilos, que era agora uma sensação surda. Raul passou um dedo a todo o comprimento da vulva exposta de Teresa, que se deu conta de que estava completamente molhada. Meteu-lhe o dedo na boca, para que ela provasse os seus próprios sucos, e trepando para cima da banca, introduziu-lhe o pénis na vagina.

Pompoar – ordenou-lhe.

Teresa já estava suficientemente adiantada nas lições de pompoar para que alguns dos movimentos se lhe tivessem tornado quase instintivos, mas desta vez era-lhe exigido mais do que isso. Concentrou-se nas técnicas que ainda não tinha automatizado; e esta concentração, conjugada com o desconforto da sua posição, fez com que a onda do orgasmo, ainda pequena, que mal lhe começava a crescer ao largo do corpo, se aplanasse de novo. Não pediu autorização para ter orgasmo; para quê, se mesmo sem orgasmo o prazer que sentia era tão intenso, e se o prazer que soubesse dar Raul o compensaria amplamente? Sentiu que os movimentos dele se tornavam cada vez mais fluidos e que exigiam dele cada vez menos esforço, apesar de serem cada vez mais amplos e mais fortes; ouviu-lhe a respiração cada vez mais sonora, mas também cada vez mais solta; e preparou-se para acolher dentro de si, com alegria e amor, o jacto de esperma em que ele se esvairia em breve. Mas Raul, quase no momento de atingir o clímax, ainda lhe ordenou:

− Vem-te agora, escrava. Dá-me o teu prazer.

E, em obediência esta ordem, a prega de mar que antes, ao largo, se aplanara, a pequena onda que fora para Teresa uma promessa, cresceu de novo, agigantou-se, adquiriu no topo uma crista de espuma, curvou-se sobre a praia do seu corpo e desabou sobre ela, arrastando-a, virando-a em todas as direcções, mais uma vez perdida. Escrava, puta, galdéria, pensou, que me venho assim só porque um homem manda. Mas estes insultos que dirigia a si mesma não eram sinceros: não podia enjeitar a alegria e o orgulho que a invadiam; e puta não era de certeza, a não ser de Raul.

Mal acabou de a possuir, Raul levantou-se e limpou o pénis com dois toalhetes húmidos, tirados de uma embalagem que Milena tinha guardado para esse efeito num dos armários. Calçou os chinelos, vestiu-se, e começou a desamarrar Teresa tão metodicamente como a tinha amarrado. No fim, tirou-lhe as molas dos mamilos, causando-lhe uma dor bem maior do que lhe tinha causado ao pô-las.

− Não te levantes ainda, espera um pouco – ordenou.

Dirigindo-se para a cabeceira da banca, pôs uma mão por baixo da nuca de Teresa e outra por baixo dos ombros e soergueu-a devagar.

− Sentes-te bem? – perguntou.

Ao som afirmativo dela, ergueu-a mais um pouco e disse:

− Agora roda o corpo devagar e põe os pés no chão.

Teresa assim fez e Raul perguntou-lhe de novo se estava bem.

− Estou bem, meu senhor.

Raul ordenou-lhe que ficasse sentada mais uns segundos; depois ajudou-a a levantar e conduziu-a ao quarto de banho, onde tomou duche com ela. Teresa viu-se ao espelho. As marcas das cordas eram fundas e estavam muito vermelhas, e demorariam por certo algum tempo a desaparecer. Se passados dois dias, quando tivesse aula de dança do ventre, ainda se notassem, teria que revelar mais um pouco da sua condição.

Mais tarde, deitados na cama, Raul recomeçou a acariciar-lhe o corpo. Ao tocar-lhe os mamilos foi especialmente gentil, mas Teresa, que os tinha muito doridos, arquejou de dor. Mas continua, meu amor, continua… Raul continuou a acariciá-la, voltando de vez em quando aos mamilos. Teresa respondia-lhe com carícias e com beijos cada vez mais apaixonados.

− Meu senhor… meu dono… – disse Teresa por fim. – Não queres voltar a possuir a tua escrava?

Raul possuiu-a com vigor e ternura, não apressando os preliminares, nem a privando depois duma copiosa porção de beijos e carícias; e autorizou-lhe o orgasmo quando ela o pediu. Raul demorou muito tempo: quando o sentiu gozar, Teresa já tinha terminado completamente, mas disse-lhe:

− Sim, meu senhor, sim, goza em mim, goza sozinho na tua escrava… goza muito, meu querido…

Imaginou que Raul, cansado como devia estar, havia de querer a cama toda só para si e a mandaria dormir aos seus pés. Mas ele, em vez de a mandar embora, estendeu-lhe os braços, e nessa noite dormiram enlaçados.

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(Início do Capítulo 16)

Dias mais tarde, andando Teresa a arrumar o apartamento, decidiu esvaziar completamente um armário embutido que não tinha arrumado antes e que, estando no escritório, se prestava a que lhe substituíssem as portas por umas de vidro, obtendo assim um espaço que se podia estantear para guardar livros. Encontrou a parte de cima cheia de malas velhas que era preciso deitar fora; e abrindo uma destas deu com um chicote preto, de couro, dos que doem mais. Há quantos anos estaria aquilo ali? O couro estava baço e manchado, mas ainda flexível; e Teresa decidiu que na primeira oportunidade havia de o limpar e restaurar, porque era um lindo objecto, muito decorativo, que ficaria bem na parede do quarto dos castigos.

De noite mostrou-o a Raul, que ficou espantado:

− Eh, pá! Onde foste desencantar isso? Nem me lembrava que ele existisse. É de quando? Do meu tempo de solteiro, seguramente.

− A Isabel alguma vez levou com ele?

− A Isabel? Parece-me que nem nunca o viu. E por falar nela: tem-te telefonado?

− Tem, e eu marco sempre encontros, e falto sempre. Mas deixa lá a Isabel e olha para isto: não é um lindo objecto? Quando eu o limpar e restaurar, vai ficar perfeito.

Passaram mais uns dias. Teresa tinha planeado uma viagem com Carolina a Milão. Na véspera, serviu o jantar a Raul, vestida com o seu uniforme de criada em xadrez cor-de-rosa e branco. Depois de arrumar a cozinha, e quando se preparava para ir mudar de roupa, ele deteve-a:

− Hoje não, meu tesouro. Não te vás vestir. Hoje quero que te ponhas toda nua e me esperes no quarto dos castigos.

Teresa empalideceu. Sem dizer uma palavra, voltou-lhe as costas, foi para o quarto, despiu-se completamente, e foi esperar por Raul no quarto dos castigos: de pé, braços caídos, olhos baixos, sem ousar tocar em nada. Quando Raul chegou, disse-lhe em voz sumida:

− Meu senhor, desculpa, ainda não limpei o teu chicote preto…

− Não faz mal, minha pequenina – respondeu Raul. − Não é esse que estou a pensar usar. Dá-me a mão.

Teresa ergueu a mão direita e Raul atou-lhe o pulso com uma corda de seda negra, dando várias voltas e deixando livre uma ponta com mais de meio metro.

− A outra – disse Raul.

Com a mesma docilidade, e em silêncio, Teresa deixou amarrar o pulso esquerdo. Quando ele a conduziu, puxando-a pelas cordas, à banca abaulada que estava à direita das colunas, debruçou-se sobre ela sem que ele lho ordenasse e ficou com o rabo empinado enquanto ele lhe prendia os pulsos a uma argola perto do chão. Teresa sentia os seios esborrachados contra a superfície de couro, mas tinha a cabeça livre, podendo erguê-la para olhar em frente ou baixá-la para ver os pulsos amarrados à argola, que rebrilhava, limpa por ela própria nessa mesma manhã. Depois sentiu Raul atrás dela, prendendo-lhe os tornozelos, e de lado, passando-lhe à volta da cintura uma correia de couro que depois fixou com cordas a outras argolas de modo a que ela não se pudesse mover para os lados. Depois de a imobilizar completamente, saiu do quarto. Teresa ouviu música vinda de outra parte da casa, não sabia de onde, tocada tão alto que mesmo ali ela a reconheceu: era a Salomé, de Richard Strauss. Não soube quanto tempo ficou à espera: pelo menos tanto quanto durou a abertura da ópera, e o suficiente para ouvir a soprano que uivava por “Jokanaan, Jokanaan”. Quando Raul regressou e fechou a porta atrás de si, a música deixou de se ouvir. Também não ouvirão os meus gritos, pensou. Depois viu-o diante dela, trazendo na mão uma vergasta, que lhe mostrou; era uma vergasta flexível, forrada de seda vermelha e com cabo de cabedal preto.

− Beija a vergasta – disse Raul, chegando-lha aos lábios.

Teresa beijou a vergasta e ergueu os olhos para Raul, numa interrogação muda. Ele acenou com a cabeça, como se estivesse a responder “sim” a uma pergunta que ela tivesse feito, e colocou-se por trás dela. Teresa esperou pela primeira vergastada, dividida entre o desejo de que ela nunca viesse e o de que viesse já, para terminar tudo mais depressa. Ouviu um silvo, contraiu os músculos todos do corpo, mas o golpe não chegou: Raul estava ainda a experimentar a flexibilidade do instrumento. Mas o segundo silvo culminou numa dor intolerável, numa queimadura que lhe atravessou as nádegas dum lado ao outro. Os olhos rebentaram-lhe em lágrimas logo ao primeiro golpe, a garganta em gritos a partir do terceiro ou quarto; mas nem lágrimas, nem gritos detiveram Raul, e o tormento prolongou-se pela sua já conhecida eternidade. Por fim tudo terminou; Teresa distendeu os músculos, encheu o peito de ar – só para sofrer a mais cruel desilusão quando as vergastadas recomeçaram, desta vez vindas da sua direita. Raul tinha mudado a chibata de uma mão para a outra, era tudo.

Só acreditou que tudo tinha terminado de verdade quando viu Raul à sua frente, pondo-lhe a vergasta ao alcance dos lábios:

− Beija a vergasta, escrava.

Teresa beijou-a.

− Agradece o castigo.

Teresa agradeceu, entre lágrimas:

− Obrigada, meu senhor.

− Diz que me amas.

− Amo-te, meu senhor. Amo-te…

E era verdade. Amava-o com toda a amplitude de um coração que ainda lhe parecia estar a rebentar do castigo.

− Amo-te… − repetiu.

Agora que já não estava perdida na dor e recomeçava a ter a noção das coisas, dava-se conta que já tinha recebido castigos bem mais dolorosos do que aquele, e que havia, sem dúvida, de os receber no futuro. Raul tinha escolhido, da panóplia de instrumentos que ela própria lhe enviara, um dos que doíam menos. Mas durante o castigo não se tinha apercebido desta diferença, e tinha gritado tanto como gritaria se ele tivesse sido mais severo. Em frente dos olhos tinha a braguilha das calças dele. Viu-o desapertar o cinto, abrir os botões das calças e das cuecas, tirar o sexo para fora, e sentiu-o encostar-lhe a ponta aos lábios.

− Abre.

Abriu a boca. Pouco tempo depois de ele a penetrar, deu por si a fazer-lhe as carícias e a repetir os movimentos que ele lhe ensinara: como era isto possível? Mas fez as carícias, repetiu os movimentos, usou a língua, e durante este tempo sentiu uma espécie de orgulho, como se o impensável que ele ousava fosse também uma ousadia dela, um teste, uma prova iniciática que a elevava acima de todas as mulheres. Durante o tempo todo não fechou os olhos: fechou-os só quando ele ejaculou, talvez para se perder no momento, talvez para fechar os sentidos a tudo o que não fosse o esperma que lhe enchia a boca e lhe descia pela garganta.

Por fim deixou pender a cabeça, relaxou o corpo todo, deixou-se cair, enquanto ele metodicamente a desamarrava. Já liberta, não saiu do sítio: foi preciso que ele lhe pegasse na mão, a ajudasse a levantar, a conduzisse para o quarto e para a cama que partilhariam nessa noite, como sempre. No percurso ainda inclinou a cabeça sobre o ombro dele e murmurou que o amava, mas em voz tão baixa que ele não a ouviu.

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Não se trata aqui dum excerto, mas de vários, tirados de capítulos diferentes do romance. Em todo o caso, espero que agradem aos meus leitores habituais.

Não custou tanto a Teresa percorrer descalça o caminho até ao carro como tinha custado à vinda. Tinha outra questão a preocupá-la: se o facto de ter posto um soutien por baixo da blusa transparente constituía ou não uma desobediência, e em caso afirmativo que punição iria receber. No carro ficou silenciosa: discutir esta questão com Raul seria indigno se não a discutisse primeiro consigo própria. Quando ele lhe tinha estabelecido a regra de nunca usar soutien na sua presença, isto aplicava-se em todos os casos, ou só a quando a roupa era opaca? Em todos os casos, é claro: se assim não fosse, ele tê-lo-ia dito. Decidiu não mencionar a transparência da blusa: isso seria uma mera desculpa e rebaixá-la-ia aos olhos dele e dos seus próprios. O facto que tinha que assumir é que não tinha tido coragem e por isso tinha desobedecido. Isto, sim, podia ser dito, porque era a verdade.

− Vais-me castigar, meu senhor, não vais?

Raul, que estava a manobrar para entrar na garagem do prédio, demorou um pouco a responder.

− Porque é que achas isso? – perguntou.

− Pois, porque eu mereço…

− Mereces, sem dúvida. Mas diz-me uma coisa: achas que te vou castigar sempre que mereceres?

Pergunta difícil, pensou Teresa. Calou-se para reflectir enquanto saiam do carro e entravam no elevador, e no fim deixou falar a intuição:

− Não, meu senhor. Acho que vai haver vezes em que eu vou merecer castigo e tu não mo vais dar. Sei que não és um homem cruel…

O elevador tinha chegado ao último andar; Teresa interrompeu-se enquanto Raul abria a porta; mas uma vez dentro de casa, e já com os agasalhos despidos, retomou o que tinha a dizer:

− Não és um homem cruel, e tenho a certeza que na altura certa és capaz de perdoar uma desobediência… mas esta não é a altura certa, e tu sabes isso tão bem como eu.

Foi a vez de Raul ficar sem palavras. Sabia que Teresa estava a falar por intuição, mas nem por isso era menos implacável na sua lucidez. Restava-lhe a ele confiar na sua própria intuição, que o mandava ser igualmente lúcido e igualmente implacável.

− Vai tomar um duche – ordenou. – Não te seques. Vem ter comigo toda nua, e ainda molhada. Traz um dos meus chinelos marroquinos. Estarei à tua espera na sala.

Enquanto Teresa se ia preparar, Raul serviu-se dum whisky e começou a beberricá-lo enquanto percorria a sala para trás e para diante, pálido e inquieto. Já tinha aplicado castigos dolorosos a mulheres, sempre a pedido delas ou com o seu consentimento; mas nunca o tinha feito a uma mulher que amasse, e estava agora a descobrir que neste caso o consentimento dela, ou mesmo o seu pedido explícito, não chegavam para que o fizesse de consciência perfeitamente tranquila. Lembrando-se que Teresa ia estar molhada quando viesse, foi ao outro quarto de banho buscar algumas toalhas com que proteger da água um dos sofás de couro. Quando ela se lhe apresentou, deixando um rasto de água no chão atrás de si, trazia, além do chinelo que ia servir para a punir, uma écharpe de seda.

− Meu senhor, desculpa, é para me servir de mordaça, se consentires. Tolero tão mal a dor física… não sei se me poderei impedir de gritar.

Raul acenou com a cabeça. Tinha os lábios apertados um contra o outro e notava-se-lhe uma palidez nas narinas e à volta da boca. Teresa aproximou-se dele e encostou-lhe a cara ao peito, sem se importar de o molhar.

− Não encontrei cordas em parte nenhuma… nem tenho mais écharpes; não me vais poder amarrar, meu querido, mas vou fazer tudo por tudo por não me debater.

Raul acenou de novo e disse:

− Abre a boca. Fizeste bem em arranjar uma mordaça. Trinca bem o pano.

Depois de lhe fazer uma festa na cara, amordaçou-a e ordenou-lhe que se debruçasse sobre o braço esquerdo do sofá, com os pés no chão e o peito e a cara apoiados no assento. Teresa assim fez, e Raul, vendo que o corpo dela começava a secar, passou-lhe a borda da mão pelas costas, empurrando para as nádegas as gotas de água que a salpicavam. Teresa, ajoelhada com o rabo para cima, gemeu um pouco, consciente que o castigo sobre a pele molhada seria mais doloroso.

Raul ainda demorou algum tempo a encontrar a melhor maneira de segurar o chinelo na mão. Depois, sem hesitar, deu o primeiro golpe com toda a força que tinha. Teresa deu um salto e deixou-se cair para o chão, mas logo se levantou e voltou a assumir a posição em que estava. Já tinha esquecido a dor provocada por castigos mais severos, e este parecia-lhe quase insuportável; mas estava decidida a não dar parte de fraca. Raul iniciou então uma série de golpes, num ritmo lento e regular que indicava não estar aqui em questão a obtenção de qualquer espécie de prazer, nem para a sua escrava, nem para si próprio. Durante todo o castigo não houve uma única vez em que Teresa se conseguisse manter quieta entre duas pancadas, mas conseguiu ao menos, com um esforço enorme, manter as nádegas em posição. Quando as lágrimas lhe vieram aos olhos, o que aconteceu logo aos primeiros golpes, virou a cara para as costas do sofá para que Raul as não visse; mas a certa altura não conseguiu mais evitar que os ombros se lhe sacudissem em soluços. O facto de Raul continuar o castigo sem ter estes soluços em consideração provocou nela um quase orgulho, um quase alívio: não seria pelas lágrimas que alguma vez o poderia controlar.

Não contou os golpes, nem se deu conta que ele os estivesse a contar. A dor tornou-se a tal ponto uma eternidade que a certa altura Teresa perdeu a expectativa, a esperança, e até o desejo de que ela alguma vez acabasse. Mas acabou: a primeira indicação que teve disto foi sentir a mão de Raul a desatar o nó da mordaça, e depois a mão dele a pegar-lhe no queixo e a virar-lhe o rosto, e depois os lábios dele a beijar-lhe as faces molhadas. Assim que pôde falar, murmurou:

− Meu senhor querido, perdoa-me…

Raul pôs-se muito sério:

− Ouve bem, Teresa D’Ávila. Nunca mais me peças perdão depois de eu te ter castigado. Um castigo decidido por mim e dado por mim apaga tudo, nem que seja só uma reguada na palma da mão: depois de terminar não tenho mais nada a perdoar-te.

Teresa, que entretanto se tinha estendido a todo o comprimento do sofá, ergueu-se sobre um cotovelo e ofereceu-lhe a boca para que ele a beijasse.

− Eu sei, meu senhor – disse-lhe por fim. – Não te estava a pedir perdão por ter ido de soutien, estava-te a pedir perdão por estar ainda a chorar…

Raul beijou-lhe de novo os olhos.

− Isso talvez seja porque este castigo foi um castigo mesmo – sugeriu. – Se tivesse sido para meu prazer ou meu capricho, acho que neste momento estarias já a sentir algum prazer, se é verdade o que me contaste de ti sobre este assunto.

− Sim, estaria a sentir prazer; mas agora não estou. Estou feliz, o que é diferente; mas prazer, não sinto. Era por isso que te estava a pedir perdão.

− Se é por isso, estás perdoada – respondeu Raul, rindo. – Quanto ao prazer, vamos já tratar disso. Pelo menos do meu, que é para o que tu serves.

Teresa riu-se também, por entre as lágrimas. Estendeu os braços para o abraçar e disse-lhe ao ouvido:

− Lá por isso, se sirvo só para o teu prazer, de que é que estás à espera para te servires de mim?

E foram os dois abraçados para o quarto, onde ele com efeito se serviu dela tão copiosamente que não adormeceram antes das cinco da manhã.

[ … ]

Nos dias seguintes Manfredi tratou de negócios: não só dos de Teresa, presumiu Raul, mas também dos doutros clientes que pudessem ter interesses no Norte de Portugal. Só no próprio dia da partida teve tempo para aceitar o convite de Raul. Para entrar no quarto dos castigos era necessário subir um degrau: isto, explicou Raul, porque o isolamento sonoro e o revestimento do chão tinham obrigado a levantar o pavimento doze centímetros. Ainda bem que a casa era antiga e o quarto grande, com tecto alto, de outro modo teria ficado minúsculo com a grossura do isolamento. As paredes estavam revestidas a tijolo maciço em cor natural, com um verniz mate.

– Só tive duas dificuldades – explicou Raul. – A primeira foi desmontar o pavimento irradiante para o instalar depois de novo sobre a camada de isolamento. Isto só o vai tornar mais eficiente, é claro, mas deu uma trabalheira. A outra foi explicar estas colunas – e apontou para duas grossíssimas traves de madeira que se erguiam, separadas uma da outra por pouco mais que um metro, do chão ao tecto – aos homens que cá andaram a trabalhar.

– Difícil, porquê? – perguntou Manfredi.

– Tive que as fixar ao chão original e ao tecto original, e isto só podia ser antes das obras. Gastei dezasseis cantoneiras de aço e 96 parafusos de 8x80mm. Quando os homens me perguntaram se eu queria isto para pendurar motores de automóveis, tive que inventar uma coisa qualquer, que ia fixar barras para fazer ginástica… Ficaram a olhar para mim como para um lunático.

Manfredi deu uma pequena risada:

– Pois é, as vicissitudes dum dominante… people have no idea.

[ … ]

O que Raul decidiu, afinal, em relação ao quarto dos castigos, foi construir uma plataforma resistente, assente sobre traves fixas às paredes e às colunas, onde Teresa, de pé, ficasse com as nádegas à altura mais conveniente para a mão dele. Sobre essa plataforma ser-lhe-ia possível fixar dois móveis pesados: num deles, uma espécie de divã abaulado, podia fazer deitar a sua escrava, de barriga para cima, com os quadris e o ventre a um nível meio metro mais alto do que a cabeça e os pés, de modo a poder fustigá-la comodamente no ventre e no peito. As pernas ficariam mais fechadas ou mais abertas conforme as argolas que ele escolhesse para lhe amarrar os tornozelos ou as coxas. A superfície deste móvel seria acolchoada de modo a que Raul não magoasse os joelhos ou os cotovelos quando a possuísse sobre ele. O outro móvel era um banco alto, também acolchoado, onde Teresa se podia debruçar de modo a ficar com o rabo empinado, e do outro lado com a cabeça livre de modo a poder ser possuída pela boca.

Raul, que queria que estes móveis fossem sólidos, bonitos, bem construídos, bem acabados, de madeira nobre e couro da melhor qualidade, não teve outro remédio senão mandá-los fazer em Paços de Ferreira, dizendo que os destinava a uma nova espécie de ginásio. As argolas que serviriam para prender Teresa – anéis metálicos com cinco centímetros de diâmetro e um de grossura, presos à madeira por uma haste em forma de parafuso com seis centímetros de comprimento e sete milímetros de espessura junto à base – teriam que ser de bronze, para que Teresa tivesse a responsabilidade de as manter sempre limpas e brilhantes. Além disso, por razões estéticas de que Raul não prescindia, a parte em forma de anel tinha que ser separada da parte em parafuso por um batente circular com doze ou quinze milímetros de diâmetro. Nas lojas de ferragens e de “faça você mesmo” que Raul visitou não havia nada disto. Foi às lojas de artigos náuticos mais tradicionais de Matosinhos, onde lhe disseram que noutros tempos, talvez, mas que hoje era tudo fibra de vidro e aço cromado. Acabou por ter de mandar fazer o que queria numa oficina de fundição.

Enquanto esperava que as argolas de bronze ficassem prontas, chegaram mais caixotes de Milão: chicotes, vergastas, canas, vibradores, algemas, correntes, cadeados, pénis de borracha ou silicone, cordas macias de seda ou abrasivas de cânhamo, sapatos, sandálias, botas, roupas de couro, de cetim, de seda, opacas, transparentes, soltas, apertadas, para além de uma série de outros objectos que Raul nem sabia para que serviam. Resolveu pendurar alguns em ganchos nas paredes, dispor numa bancada os que pensava utilizar, e comprar um armário com vitrina para expor os restantes. Para as roupas e sapatos, resolveu comprar um armário fechado, que não podia ser grande demais para não atravancar o aposento. Algumas destas roupas teriam que ficar, juntas com as do dia-a-dia, no roupeiro embutido do corredor, junto ao quarto, que tinha ficado reservado para Teresa e já continha algumas peças de roupa que ela tinha deixado ficar nas visitas anteriores.

[ … ]

Chegados ao apartamento, Teresa ficou encantada com o quarto dos castigos, embora tanto ela como Raul já tivessem a ideia muito nítida de que aquela decoração e aqueles instrumentos não correspondiam exactamente ao tipo de relação que tinham em mente. O que aquele quarto exprimia era um domínio e uma submissão formais, ritualizados, estilizados, balizados por regras e limites, e muito centrados na punição física; enquanto o que eles pretendiam era algo de muito menos formal e muito mais radical e consequente. Como Teresa disse a Raul, não era tanto um estilo de vida como uma opção de vida.

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Autor: M’Ahmed ben Chérif Effendi

Tradução: Vanderdecken

Zima dirige-se de novo ao Príncipe e diz:

− Permite, Amo e Senhor, que vistamos as nossas roupas de modo a que esta virgem sofra ainda mais com a sua nudez.

A um aceno de concordância do Khan desaparecem os três para logo voltarem completamente vestidos. Zima traz um vestido de seda negra bordado a prata que lhe realça as linhas do corpo esbelto. Os dois rapazes conservam os calções vermelhos debruados a prata, mas o bolero foi substituído por um colete russo justo à cintura.

Desceram vários degraus, conduzidos por Zima até chegarem a um corredor longo e sombrio com paredes nuas, mal iluminado por tochas fumarentas. De súbito param diante duma porta maciça em madeira de carvalho, fechada por grossos fechos de ferro. Zima bateu três vezes com a pesada aldraba de ferro. Este lugar provocava um medo angustiante, e o eco abafado da aldraba sob as abóbadas despertava sonhos sangrentos. Quase se podia acreditar que se viam ainda os vestígios das várias torturas que numerosos infelizes tinham sofrido ao longo de muitos anos. Uma velha com feições descarnadas e aspecto temeroso apareceu para abrir a porta. Ao ver Zima cumprimentou-a tomando na mão manchada de henna a mãozinha da jovem e beijando-a com reverência. A seguir, sem dizer palavra, conduziu o pequeno grupo a uma cave escura cuja porta fechou depois de pedir licença aos visitantes.

Esta câmara, que na sua desolação esquálida contrastava singularmente com o luxo dos andares superiores, recebia um pouco de luz natural por uma fresta estreita; uma lamparina a óleo iluminava o compartimento com uma chama bruxuleante. Vários objectos pendiam das paredes húmidas; alguns bancos e uma banheira em pedra constituíam o parco mobiliário desta tumba. E no meio, atada a um pesado bloco de madeira, gritava e debatia-se uma jovem.

As cordas que a prendem firmemente entram-lhe pela carne e obrigam-na à imobilidade. A garganta está presa por uma banda de ferro que lhe pesa sobre os ombros como uma canga. Por debaixo dos sovacos correm-lhe cordas finas que lhe deformam os seios e os friccionam até fazer sangue. Uma tábua presa com fios de cânhamo fixa-lhe os braços ao bloco; pelo mesmo sistema tem imobilizadas as articulações das mãos. Uma tira de couro cravejada por dentro com picos de aço rodeia-lhe a cintura. As pernas estão presas ao bloco da mesma maneira que os braços, e os pés apoiam-se numa tabuazinha recurva com pregos de ponta arredondada, que não ferem mas provocam dores excruciantes.

Esta jovem é Alifa, a escrava rebelde que mereceu esta punição devido a inúmeros delitos. O castigo foi adiado para este dia para servir o prazer do Khan, como outrora os Césares gozavam o martírio dos cristãos. A sua punição é ainda aumentada pela vergonha que o olhar dum homem sobre a sua carne virgem representa.

Este espectáculo transforma o Príncipe; sem saber porquê, fica repleto dum ódio profundo contra a jovem indefesa exposta perante ele. Desperta nele toda a crueldade do Hindu, os seus lábios contraem-se num sorriso maldoso: assim é o tigre quando se prepara para se lançar sobre a presa. Hassan odeia esta jovem!

– Cadela de escrava! – brama, depois de ter apreciado calado este quadro sinistro por algum tempo. – Metes nojo! Pois bem! Agora vais sofrer para expiar os teus erros!

– Piedade! – suspira a infeliz entre lágrimas. – Os meus membros doem-me, o meu peito sangra… Poderoso Senhor, pela tua mãe, sê misericordioso! Manda-me soltar! Piedade!

– Vais ser torturada – responde ele.

Com um esforço sobre-humano a jovem procura romper os laços que a prendem, mas eles enterram-se-lhe ainda mais na carne. A dor é avassaladora, um grito de partir o coração rompe-lhe da garganta e ela desfaz-se em soluços. As lágrimas diminuem pouco a pouco e o seu olhar suplicante dirige-se de novo para o Príncipe. Mas este permanece inamovível, e um sorriso sardónico paira-lhe nos lábios cerrados. Atemorizada, Alifa baixa os olhos e sofre em silêncio…

– Olha para mim! – ruge o Khan ao mesmo tempo que mostra à escrava o seu pénis posto a nu. Alifa enrubesce e baixa de novo os olhos, mas Hassan, no cúmulo da cólera, ordena às duas negras que têm Alifa a seu cargo:

– Peguem nos chicotes e chicoteiem esta cadela na barriga pelo tempo que for preciso até ela olhar para o meu sexo!

Os golpes silvam no ar e estalam na barriga branca da jovem. Esta nova tortura arranca-lhe novos gritos de dor. Depois do terceiro golpe, procura erguer o olhar para o Príncipe, mas debalde, porque o pudor a obriga a baixar de novo as pálpebras. Os golpes continuam a chover, e de novo, por várias vezes, ela se esforça por contemplar o membro de Hassan, mas sempre sem êxito. Por fim aparece um fino fio de sangue nos vergões do chicote e ela desmaia…

As negras revivem-na com uma massagem e dão-lhe a sorver uma bebida retemperadora. Como ela continuava de cabeça baixa, prenderam-lhe um peso aos cabelos compridos para lhe puxar a nuca para trás e obrigar a pobre a olhar em frente. Com o rosto vermelho de vergonha, ainda não ousa obedecer; pouco a pouco, porém, vai-se habituando, e ao ser ameaçada com um ferro em brasa decide finalmente olhar para o Khan, a quem o olhar temeroso dirigido às suas partes sexuais excita em alto grau. E a jovem vê pela primeira vez na vida como o membro de um homem se vai endireitando lentamente, aos arrancos, até ficar direito e rijo.

Olha agora com espanto, esquecendo as dores que sente, este membro comprido que se move para cima e para baixo, endurece, passa de vermelho a roxo e se dilata ao ponto de parecer quase a explodir… Por fim Hassan, que receia um orgasmo demasiado rápido, cobre-se de novo com a sua camisa de seda e senta-se num banco.

Ordena que a desamarrem; uma ideia diabólica passa-lhe pela mente. Quando Alifa se sente livre a sua primeira reacção é pôr as mãos a esconder o sexo, num movimento instintivo ditado pelo seu pudor virginal.

– Tira as mãos! – ordena o Príncipe.

A jovem não obedece e mantém-se na mesma posição: imediatamente silvam dois chicotes de couro que lhe atingem os braços, e a dor obriga-a a obedecer ao desejo do Khan. Este chama as duas negras e dá-lhes instruções em voz baixa. Estas compreendem: tomam nas mãos as vergastas e põem-se à espera. O Príncipe ergue-se, deita fora a camisa de seda e dirige-se a Alifa todo nu. Ao ver aproximar-se de si este homem ávido, ela apressa-se a fugir: o Khan persegue-a e ela corre por toda a sala para escapar ao amplexo que a ameaça. Mas ao escapar tem que passar pelas negras, que a cada passagem a atingem com os chicotes nos ombros, nas coxas e no rabo. E o Príncipe persegue-a sem querer a sério apanhá-la. A escrava urra de dor a cada golpe do chicote, e os seus gritos originam, estas abóbadas subterrâneas, um eco assustador.

De repente, no fim das suas forças, pára, vira-se e dá ao Khan, antes que ele tenha tempo de se defender, uma sonora bofetada na cara. Ao receber este insulto inaudito ele fica desconcertado, pasmado, durante um momento; mas logo a cólera e a fúria lhe fazem perder a cabeça; com mãos trémulas agarra num chicote, prende a jovem pela garganta, atira-a ao chão e vergasta-a sem piedade.

Quando ele, esgotada por agora a sua cólera, termina, as negras ajudam a jovem a levantar-se e mergulham-na totalmente na banheira cheia de água gelada.

A infeliz sente-se finalmente melhor; bebe ainda um cordial, e depois de algum tempo de sossego vai-se recompondo cada vez mais. Contudo, arde-lhe o corpo todo, os membros doem-lhe horrivelmente, e julga sentir dentro de si um fogo que a consome; mas não ousa queixar-se porque teme uma nova punição: pois não duvida que os seus sofrimentos ainda não chegaram ao fim, e que o rude selvagem que a contempla com olhos ávidos e cruéis ainda não está saciado. E o Khan odeia-a agora com todo o ódio dum homem insultado. Ditará a sangue frio, para obter vingança, as penas mais terríveis.

– Pede perdão – rosna ele. – Diz que me queres, cadela miserável!

As negras sopram à jovem, para que ela obedeça ao seu Senhor, as palavras que deve dizer, e acompanham estas palavras com vergastadas.

– Poderoso Senhor – soluça ela – perdoa… à tua ínfima escrava o ultraje que ela cometeu contra ti… Desejo-te, meu amado, gostaria… de sentir o teu corpo sobre o meu… gostaria que o teu sexo penetrasse em mim… Sou uma cadela miserável… que não deseja mais nada que servir-te… Sei que sou indigna de ti… O teu membro é belo… é vermelho… é grosso… Quando se introduzir em mim há-de rasgar-me toda…

Este discurso continua ainda por muito tempo, sempre ditado pelas negras, que a cada hesitação abatem as vergastas sobre os braços nus de Alifa. A jovem está vermelha de vergonha por ter que dizer tais palavras; um tremor nervoso apodera-se de todo o seu corpo e apercebe-se do tormento que ainda a espera. Momentos de rancor surdo alternam no seu espírito com o mais profundo abatimento. Dá-se conta da sua impotência e quereria defender-se, desejaria não deixar macular a sua pureza virginal diante de tantos olhos; as palavras que diz doem-lhe na boca, e crê sentir um vento de loucura a percorrer-lhe o espírito.

Depois de um curto intervalo é obrigada a fazer um novo discurso que ultraja ainda mais o seu pudor. É constrangida a acompanhar as palavras de gestos e a mostrar as partes do corpo a que se refere.

– Olha para os meus seios, meu Amo, ainda são pequenos… mas são firmes como o mármore e têm bicos rosados… que apontam para ti… Observa os meus pés, poderoso Senhor, estão vermelhos dos tormentos que sofreram para te dar prazer… Vê a minha barriga tão branca… Aqui, entre as minhas coxas, meu Amo, está um lugar encantador. Onde quero que penetres.

Com estas palavras abre as coxas, coagida pelas negras, curva o corpo para trás e mostra o lugar de que fala.

– Vê também, Senhor, o meu rabo redondo e carnudo; pertence-te, embora não seja digno de te servir… Se quiseres, há-de abrigar o teu membro poderoso, e hás-de vir-te dentro dele.

Ao acabar de dizer estas palavras a jovem baixa a cabeça e desfaz-se em soluços…

– Está bem – responde o Khan. – Vais provar que é verdade o que disseste.

O Khan ergue-se e aproxima-se da jovem; acaricia-lhe as maçãs do rosto, mete-lhe um dedo entre os lábios, percorre-lhe o cabelo com a mão, ergue-lhe os braços e titila-lhe os sovacos. Depois desce, apalpa-lhe a barriga e chega finalmente ao lugar mais secreto, no qual tenta introduzir um dedo. Ao sentir este contacto, Alifa solta um grito e cobre o rosto com ambas as mãos, chorando lágrimas amargas. Estes soluços, porém, não incomodam o Khan, antes lhe fazem recrudescer a paixão. Afaga com a mão o rabo da escrava e belisca-lhe lascivamente as nádegas. Estes actos de concupiscência enchem a jovem de vergonha, e de novo as lágrimas lhe correm copiosas…

– Mostra a cara! – ordena o Khan, e como Alifa não obedece esbofeteia-a com força, mas debalde… A excitação dele cresce; belisca-a cruelmente nas coxas e enterra-lhe as unhas nos braços brancos.

O Khan observa-a em silêncio durante um momento, e depois continua a apalpá-la. As suas mãos passeiam-se pela carne da donzela sem que esta profira uma queixa ou uma palavra.

– Tens que te habituar – ralha uma das negras. – Se este magnânimo Senhor não te possuir, talvez sejas violada e chicoteada já amanhã por cem homens. Não sejas tão arrogante e deixa-te conquistar, víbora!

A jovem fixa com olhos espantados ambas as megeras, que lhe introduziram na alma a semente de um novo terror.

É-lhe concedido um pouco de sossego. Deita-se a um canto sobre o chão de pedra nua cuja frescura contribui para acalmar um pouco a ardência que lhe queima a carne. O Khan senta-se ao seu lado e fuma um cigarro. No fundo dos seus olhos cinzentos arde-lhe uma chama de luxúria; consome a donzela com o olhar. Quer possuí-la. Dá conhecimento deste desejo a Zima, e esta dá instruções às negras para que preparem tudo no compartimento vizinho para o sacrifício que o Príncipe quer oferecer ao deus Eros. As núbias lançam-se ao trabalho. Alifa continua estendida no chão, respirando com força, a cara virada para a parede e a mão colocada entre as nádegas para esconder o rabo. Apesar das dores, o seu pudor ainda oferece resistência. O jovem Ali não descia os olhos dela nem por um minuto; o seu membro viril levanta-se furioso.

Finalmente as duas megeras regressam: está tudo pronto. Cada uma delas toma um braço da jovem para a conduzir a um quarto espaçoso, mobilado com simplicidade e sem luxo. O Khan, Zima e Ali seguem-nas. Uma carpete espessa no chão, dois divãs de veludo verde, algumas poltronas baixas forradas a seda: é este todo o mobiliário. As paredes são simplesmente brancas, e uma lamparina fumarenta, pendente do tecto, ilumina a câmara com uma luz fraca.

Chegadas aqui, as duas negras largam a jovem e retiram-se. Só ficam o Khan, Zima, Ali e Alifa. Esta deixa-se cair sobre um divã e segura a cabeça com as mãos. Tem a noção do que lhe vai acontecer e sente nos lábios um gosto amargo. Neste momento teria recebido a morte com alegria. Tudo o que sofreu até agora lhe parece trivial em comparação com o sacrifício do seu corpo a este homem que odeia, cuja face brutal e cruel a enche de medo; já não ouve nem vê nada, está tão imersa em si mesma que não se dá conta do mundo exterior. De súbito ergue a cabeça e vê diante de si o Príncipe todo nu: o seu sexo erecto aponta para ela a cabeça vermelha.

Um pouco mais longe está o rapaz, também ele nu, e o seu membro está igualmente duro. Todos têm o olhar dirigido para ela, que observa a cena de olhos arregalados. O seu peito ergue-se e desata aos soluços. Chegou o momento em que o seu corpo virginal há-de ser conspurcado, primeiro por este selvagem, depois pelo rapaz que ainda mal pode ser chamado um homem.

– Alifa – diz o Príncipe – vou tomar posse de ti. Estás a ver o meu sexo: pois bem, ele vai penetrar no teu ventre!

No seu desespero avassalador a jovem encontra um pouco de coragem e brada:

– Não! Mil vezes não! Não me haveis de ter, hei-de defender-me!

Nos lábios do Khan aparece um sorriso sardónico. Aproxima-se lentamente da sua vítima, e esta recua alguns passos para logo começar a correr, perseguida por Hassan, à volta da sala… Agacha-se, pega numa almofada e atira-a à cara do Khan. Este carrega sobre ela, que tenta escapar mas passa junto de Ali, que estende a perna e faz com que ela caia no chão. O Khan pega-lhe logo pelos braços; ela arranha-o e defende-se – debalde! Ele arremessa-a com rudeza para cima de um divã e cai sobre ela. Desesperada, ela repele-o e fecha as pernas com toda a força. Sente o grosso membro do seu perseguidor, ora sobre a barriga, ora sobre as coxas. Com as mãos procura afastar o rosto do homem, que aproxima os lábios dos dela cheio duma aterradora concupiscência. Agarra-o pelo bigode e puxa-o para trás. Mas ele põe os braços à volta dela e puxa-a irresistivelmente contra o seu peito. –

O peito dela toca no dele; ele deposita um beijo nos seus lábios húmidos e morde-lhos com voluptuosidade. Aperta-a cada vez mais – até quase a sufocar. O membro duro embate-lhe no ventre. Agora quer possuí-la completamente. Segurando sempre o torso da jovem entre os seus braços musculosos, ele ergue-se um pouco e força um joelho entre as coxas dela, contra o seu monte de Vénus. Ela debate-se até que as pernas cedem, cansadas, e os joelhos do Khan descem até tocarem finalmente no divã. Um estertor fundo rompe-lhe da garganta; está vencida e sente-se enfraquecer. Com um movimento súbito, recua, e consegue apoiar-se de lado sobre a anca; com isto o Príncipe perde o terreno que tinha ganho, pois com este movimento as suas pernas saíram da posição conquistada. Furiosamente aperta-a ainda mais e comprime o membro erecto contra o corpo dela. Mas é tarde demais, e ela será a vencedora nesta luta desigual. No paroxismo da sua ânsia o Príncipe já não consegue conter-se, e um jacto de esperma derrama-se sobre o corpo virginal de Alifa.

Ele levanta-se, fora de si, segura-a pelos cabelos e começa a bater-lhe sem piedade. Chovem sobre ela os murros e os pontapés. Por fim acalma-se e permite que ela se levante também. Apesar da sua exaustão, paira nos lábios da jovem um sorriso de triunfo; pega numa almofada e seca com ela o esperma que lhe alagou as coxas.

Mais uma vez o mosquito venceu o leão, a escrava fraca conseguiu defender-se do homem robusto; este sente-se melindrado; a sua força esgotou-se, o seu pénis está flácido. No seu coração já só habita o ódio, misturado com a ira. Há-de vingar-se desta mulher que o humilhou, a ele, o Príncipe Hassan-Khan, o chefe temido e respeitado de todo um clã!

– Cadela – rosna ele. – Não cheguei a possuir-te, mas vai possuir-te este rapaz que aqui vês; Eu mesmo o ajudarei, e o seu membro há-de livrar-te dessa virgindade que defendes com tanta paixão.

Ao ouvir estas palavras o rapaz levanta-se; o seu membro ergue no ar a cabeça vermelha, os seus olhos relampejantes trespassam o corpo da escrava. Só espera um sinal do seu Senhor para se lançar sobre ela. Por fim o Príncipe dá a ordem. De um salto fica o rapaz junto da jovem, que deita ao chão no seu ímpeto; segura-a pelo pescoço com os braços e deita-se com todo o corpo sobre ela…

O Príncipe e Zima apressam-se para junto deles; esta segura os braços de Alifa, Hassan ocupa-se das pernas, que afasta com um impulso poderoso e mantém assim abertas. O corpo do jovem está agora entre as coxas da escrava. As pernas desta já não se podem fechar e isto permite ao Príncipe largar-lhe os pés para apontar o membro do rapaz. Este começa por fim a penetrar nela. Um grito de alegria rompe da garganta de Ali – e um soluço abafado da boca de Alifa. O rapaz está a rasgá-la, ela sente o membro que se vai introduzindo aos arrancos, cada impulso dele para diante é uma dor para ela. Subitamente parece que todo o seu ventre dá de si, apodera-se dela uma dor avassaladora, e passada esta não sente quase nada. Só o entrar e sair do membro lhe lembra a realidade do que está a acontecer. Deixa-se possuir, imóvel, desta vez derrotada. Não experimenta qualquer prazer, só a domina uma impressão bizarra. Os seus olhos fecham-se, dos seus lábios escapa uma respiração sibilante. Finalmente derrama-se um líquido aos borbotos no seu ventre e ela desperta do seu meio sono ao sentir-se inundada.

Neste momento sai-lhe um último soluço da garganta. O esperma de Ali traz-lhe à consciência a realidade completa. Compreende que tudo acabou e chora ainda pelo ultraje feito ao seu corpo. Tudo terminou. Com um último beijo entre os seios dela, o jovem afasta-se dela e levanta-se.

Alifa está livre, Zima largou-lhe os braços, e o Khan está de pé diante dela a olhá-la com uma expressão trocista. Ela foge para o outro extremo da sala e volta a chorar. A escrava Alifa perdeu a virgindade: nada de importante.

Agora o Khan quer também possuir a jovem. Desta vez são tomadas todas as medidas para que toda a resistência da escrava seja em vão. Como o Príncipe já não está excitado é preciso primeiro provocar-lhe uma erecção suficiente. Zima e Ali encarregam-se disto. Finalmente, quando os nervos do Príncipe se encontram de novo suficientemente atiçados, ele dirige-se a Alifa e obriga-a a apertar-lhe o pénis com a mão. Finalmente chegou o momento.

– Cadela – brada-lhe o Khan. – Não quiseste que eu te tivesse pela frente; agora vais ver, vou gozar no teu rabo, víbora!

O Khan aproxima-se e começa por lhe titilar com o membro o buraco do rabo. Alifa solta um berro e imediatamente cai sobre ela uma correia de couro. O Príncipe ri-se. Num repente, com um movimento brusco, dá uma estocada tão forte com o pénis que Alifa dá um uivo ensurdecedor. Tem o corpo todo em fogo e da testa caem-lhe gotas de suor frio enquanto o Khan se move para a frente e para trás no rabo dela. O seu membro grosso sente-se fortemente apertado nesta abertura estreita e o seu prazer é extraordinário, mas por muito tempo o esperma não vem. Este dia cheio de excessos esgotou-lhe a força viril.

Recua para descansar um pouco, mas logo se volta a introduzir com o mesmo movimento brusco no rabo da jovem.

Contudo não consegue ejacular; começa a mover-se desmesuradamente, descansa a face sobre a cabeça da escrava e acelera o movimento… nada acontece, só o suor lhe sai do corpo por todos os lados. A respiração torna-se-lhe arquejante.

Por fim o prazer está próximo, ele sente-o chegar, os seus movimentos tornam-se ainda mais rápidos. Sente um titilar lascivo no membro viril, acredita que tudo terminou, e contudo ainda não. Então o membro dilata-se, cresce no rabo de Alifa e deita um jacto de esperma. O prazer é demasiado: o Khan perde o domínio de si, aperta Alifa com os dois braços contra o peito. Fica deitado sobre o corpo dela, sem se mexer, com um tremor nos membros e os nervos exaustos…

De quando em quando o seu membro ainda palpita um pouco e deixa sair uma gota de esperma. O Príncipe não se move e não se aparta do abraço. Parece encontrar um novo prazer neste prolongamento da sua união. Também Alifa permanece sem emitir um som ou fazer um movimento; o seu sacrifício está acabado e é irreversível; já tudo lhe aconteceu, está definitivamente vencida. A sua carne já não lhe pertence, e ela entrega-a sem se queixar, quase sem um lamento no coração. Só subsiste ainda nela uma amarga aversão aos prazeres da carne, mas esta aversão há-de desaparecer com os novos amplexos, no harém do Khan há-de acabar por perdê-la… Um espasmo generalizado torce-lhe os músculos, parece que um anel de ferro lhe comprime a cabeça, está febril.

O Khan já não é a fera cruel que era ainda há pouco; cobre Alifa de beijos ternos, envolve-a em carícias suaves e palavras amáveis. Já não é uma vítima do amor que tem diante de si, já não é uma cadela que ele despreza, mas sim uma mulher que através da entrega do seu corpo – involuntária, é certo, mas entrega mesmo assim – lhe proporcionou um prazer sem medida. Toma-a nos braços e deita-a ternamente no divã; ainda lhe beija as pálpebras, a testa, os seios. E durante um momento os seus lábios prendem-se entre as coxas brancas e firmes.

Com isto começa a entrar qualquer coisa de novo e insuspeitado no coração da escrava: esta ternura e esta bondade fazem com que a sua ira se comece a desvanecer e sente-se presa – não de amor, mas de uma simpatia, um certo bem-querer a este homem que há poucos momentos ainda era o seu verdugo. O seu estado de espírito sofre uma singular transformação e desta hora em diante ela dedica a este homem o seu corpo, porque este corpo o faz tão amável!

O Khan levanta-se por fim, vira-se para Zima e diz-lhe:

– Já que desflorei esta jovem, tenho, segundo as regras desta casa, que a comprar. Pois bem, compro-a, e com ela o jovem Ali. Será a Huri graciosa que adulará os nossos desejos e servirá o nosso prazer, o meu e o de Ali. Ali, de hoje em diante ela pertence-te como me pertence a mim. Podes servir-te dela e tirar prazer dela como e quando quiseres.

O rapaz lança-se aos pés do seu Senhor e agradece-lhe comovido.

– Poderoso Senhor – diz ele. – Fico agradecido pela felicidade que recebo das tuas mãos; o meu corpo pertence-te como o duma escrava. Permite-me só que me sirva agora desta jovem. Quero-a tanto, meu Amo, que não posso mais esperar, permite, suplico-te, que eu a tome como tu acabas de a tomar!

O Khan nega por enquanto ao seu jovem escravo esta permissão, pois quer dar à jovem algum sossego. De resto ele próprio começa a sentir, depois desta longa sucessão de desvarios, algum cansaço; deseja sossegar o quanto antes os seus membros cansados numa cama macia.

(Continua)

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