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Posts Tagged ‘amor’

Ouçamos o que nos diz uma escrava: «não aceito ser humilhada». Tentemos entendê-la. Ela tem um Senhor, e ama-o. Define a sua escravidão em três palavras: servir, obedecer, sofrer. É assim que ela sabe e quer amar; e como o seu ideal de amor é infinito, sente como uma imperfeição qualquer limite à sua capacidade de servir, de obedecer ou de sofrer.

Ouçamos o Senhor desta escrava. Ele ama-a, e respeita-a, e nunca perdoaria a si próprio se a humilhasse. As modalidades do seu amor por ela são o domínio e a posse: é assim que ele sabe e quer amá-la. Exige dela que o sirva na perfeição, que lhe obedeça com dedicação e inteligência, que aceite e agradeça o sofrimento que ele lhe provoca. Usa o direito que tem de a punir para a consolar de não ser perfeita. Se a castiga sem ela ter cometido qualquer falta, está-lhe a dizer com cada golpe de vergasta: «és minha, tenho este direito sobre ti, e como o tenho, exerço-o». Ela, que quer ser dele, compreende, aceita e agradece o castigo – e porque se sente possuída, sente-se amada.

Se a castiga por uma falha dela no seu dever de servir e obedecer, está a dizer-lhe: «sei bem, meu amor, que não és perfeita; sei também o quanto queres sê-lo; exijo-te que te aproximes sempre mais da perfeição, mas não te exijo que chegues lá. Ninguém chega lá. Vê: serviste-me mal, ou obedeceste-me mal, ou talvez até me tenhas desobedecido de propósito; mas agora vais saber sofrer bem. Fica sabendo que te amo tanto na tua imperfeição como amaria um anjo».

Com outra escrava, com outro Senhor, tudo isto que estou a escrever seria diferente. Mas mantenhamo-nos com estes dois.

Como poderia este Senhor humilhar esta escrava? Humilharia a sua escrava, certamente, se desprezasse a sua dádiva de serviço, obediência e sofrimento. Se a aceitasse sem lhe dar valor, como se fosse coisa pouca. Quando esta escrava diz que não aceita ser humilhada, está a pedir ao seu Senhor que dê à sua dádiva o valor que ela tem, e que é imenso. Uma escrava tem muito poucos direitos: mas este, tem-no, certamente.

Humilharia a sua escrava, também, se não soubesse reconhecer a diferença entre um limite alegado e um limite real. O limite alegado está aquém do limite real (também por isto ela se sente imperfeita). Ao levá-la-la a ultrapassar um limite alegado, estará no seu direito de Senhor, e não estará a humilhar a sua escrava, mas sim a honrá-la. Se a levar além do que ela quer fazer, continua no seu direito: toda a verdadeira escrava sabe e aceita que faz parte da sua condição fazer muitas vezes o que não quer, e muitas vezes não fazer o que quer. Mas se o seu Senhor a levar além do que ela pode fazer, isso será uma humilhação que deixará feridas, talvez incuráveis.

É difícil para um senhor distinguir entre o que a sua escrava não quer fazer e o que ela não pode fazer – e tanto mais difícil quanto é certo que ela própria pode não saber distinguir. Mas aí a responsabilidade é dele, e não dela.

A escrava tem dignidade; e como tem dignidade, tem vontade; e como tem vontade, tem querer. E tanto tem querer, que quis fazer uma dádiva de si própria; tanto tem querer, que quer ser perfeita. E a beleza terrível da sua escravidão está nisto: ela tem querer, mas não tem quereres.

E é por isso que há momentos em que o senhor respeita a sua escrava tanto mais, quanto mais a humilha. A humilhação é respeito quando ele lhe proíbe quereres; quando lhe proíbe caprichos; quando lhe proíbe certos pudores. São momentos em que é direito dele, e talvez dever dele, humilhá-la; mas não são estas as humilhações que ela tem em mente quando diz «não aceito ser humilhada».

São estas, também, as humilhações que a escrava pode evitar humilhando-se ela antes, num jogo em que ambos – ela e o seu Senhor – encontrarão o mais requintado dos prazeres.

Mencionei acima a «beleza terrível» da escravidão desejada. É terrível porque infunde terror: e não só o infunde na escrava, como em todos à volta, incluindo o seu Senhor. Saiba o Senhor maravilhar-se com tamanha beleza; saiba ele sentir, sem lhe ceder, o terror que esta beleza infunde: saberá assim respeitar a sua escrava; e se entender que deve humilhá-la, saberá fazê-lo só na medida em que esta humilhação eleva os dois.

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VOTO DE CASTIDADE

Raul conhecia finalmente a história de Milena Cavic desde o dia em que tinha sido raptada, aos onze anos, em Pristina. Este conhecimento não lhe deu o prazer da curiosidade satisfeita, tal como a morte horrível de Zerberov não lhe tinha dado o prazer da justiça cumprida. O mundo estava apenas um milésimo de milímetro mais direito, era tudo. Sentia, como o espectador duma tragédia, piedade e terror. Teresa sentia o mesmo, mas transmutava-os numa solicitude prática de que Raul não seria capaz.

– Hoje não vais dormir a casa – disse Teresa. – Dormes aqui, no quarto de hóspedes.

– Claro – concordou Raul. – Vou ajudar a fazer a cama.

– Não – disse Teresa, peremptória. – A Milena ajuda-me.

Pelo tom de voz de Teresa, Raul reconheceu que esta decisão tinha sido tomada por uma daquelas razões femininas que os homens raramente compreendem mas se não forem estúpidos têm em conta.

– Está bem – respondeu. – Eu fico aqui um bocadinho a ler e a ouvir música.

– É melhor – disse Teresa. – Queres um whisky?

E antes que ele tivesse tempo de responder deitou-lhe um pouco de Laphroaig num copo e serviu-lho de joelhos, formalmente, como se não estivesse na sala mais ninguém além deles.

Quando as duas reapareceram, Raul notou não se tinham limitado a arrumar o quarto: Teresa tinha mudado de roupa e estava agora nos seus mais sumptuosos trajes de escrava; Milena estava vestida de modo semelhante, com roupa de Teresa, e cheirava a sabonete. Mas a transformação mais notória que Raul notou nela foi a expressão do rosto e do corpo: não vinha alegre nem animada, longe disso, mas já não tinha aquela palidez nos cantos da boca que exprime medo ou tensão extrema. Olhando para aqueles olhos enormes, para o rosto de boneca, para o corpo esguio, Raul assombrou-se de novo: como podia alguém aparentemente tão frágil sobreviver àquilo a que ela tinha sobrevivido?

Quando Teresa se sentou no chão aos pés dele, Milena pareceu não ver nisso nada de estranho e imitou-a.

– Pronto, meu senhor, aqui estamos – disse Teresa. – O que é que vamos fazer?

Raul nem por um momento tomou à letra esta pergunta. As decisões mais importantes já tinham sido tomadas, de certeza, durante as arrumações e as trocas de roupa, e o que agora se esperava dele era que lhes apusesse a chancela simbólica da sua autoridade masculina.

– Milena – começou. – Primeiro quero dizer-te que podes ficar nesta casa os dias que entenderes. Não tens que decidir nada já sobre a tua vida…

Non voglio mai tornare a Servia – interrompeu-o a jovem. – Os meus pais já não me conhecem. Eu já não os conheço. Deixaram-me com Zerberov. Mio fratello è morto.

– Não queres ficar aqui no Porto? Tens uma casa para viver, tens amigos para te ajudar. Tens trabalho? Se não tens, podemos ajudar-te a procurar. Também te podemos ajudar com dinheiro, se precisares.

– Serei sua schiava, como Teresa?

Pelo sobressalto de Teresa ao ouvir esta pergunta, Raul percebeu que afinal nem tudo tinha sido combinado com antecedência pelas duas mulheres.

– Não, não serás minha escrava – respondeu. – Nunca mais serás escrava de ninguém, se não quiseres. Entendeste? Nunca mais. Mai più.

Milena acenou que sim. Sim, entendia. Era o que Teresa lhe tinha dito, mas custava-lhe a acreditar que algum homem a quisesse ajudar em troca de nada. Tinha um lugar para viver, mas não queria voltar lá sozinha. Não sabia se tinha dinheiro: Zerberov tinha-lhe tirado o cartão do banco quando a tinha deixado em casa do Comendador. Zerberov tinha dinheiro numa gaveta, muito dinheiro, mas a polícia tinha levado tudo quando revistara a casa. Não sabia se ia conseguir arranjar mais trabalho como pianista, era sempre Zerberov quem fazia os contratos. Mas estava disposta a trabalhar fosse no que fosse, só como putana é que não. Mai più. Schiava, sim, se o senhor quisesse, mas só dele; e ficava contente por o senhor não querer.

[…]

− Tinha pensado em passarmos pelo supermercado para fazermos umas compras para o teu apartamento – disse Raul. – Mas é tarde e estamos todos cansados. Porque não dormes outra vez em nossa casa?

Milena já devia ter discutido o assunto com Teresa, porque acedeu rapidamente. Em casa, Teresa pôs a touca e o avental e fez um jantar rápido, ajudada por uma Milena que depressa revelou não fazer a menor ideia de como se havia de mover numa cozinha, mas que compensava a falta de jeito com uma tocante boa vontade. Depois de jantar, Milena pediu licença e retirou-se para o quarto, alegando cansaço.

− Posso ir com ela, meu senhor?

Era óbvio que queriam conversar as duas sem a presença dele.

− Vai, disse Raul. – Eu fico aqui a ler.

A conversa durou seguramente mais do que uma hora. Por fim Teresa regressou à sala e sentou-se aos pés de Raul.

− Tenho uma solução completamente louca para a situação da Milena – anunciou. – Porque é que ela não há-de ser a nossa empregada doméstica?

− Porque seria uma completa loucura – disse Raul. – Porque duas mulheres numa casa com um homem complicam sempre as coisas, introduzem uma tensão sexual difícil de gerir. Porque eu só quero ter uma escrava. Porque duvido que ela saiba fazer seja o que for numa casa. Dito isto, estou disposto a ouvir-te.

− Então vou começar por uma coisa que ela me disse e que eu nunca acreditaria se me tivesse sido dita por outra mulher. Diz ela que até ser velhinha e morrer (foi assim que ela pôs as coisas), nunca mais vai ter relações sexuais com um homem. Nem com um homem, nem com uma mulher, nem com ela própria. Será como se não tivesse órgãos genitais. Fiquei tão espantada que lhe disse, a brincar, que então o melhor era ir a um país africano onde lhe fizessem uma excisão total do clítoris e dos pequenos lábios, e lhe infibulassem a vagina. E foi nesta altura que me assustei a sério com ela: disse-me que não era preciso, que já tinha feito isso tudo aqui, apontando para a cabeça, e aqui, apontando para o coração. Uma miúda de vinte anos a dizer-me isto, e eu acreditei. Podes dizer-me porque é que eu acreditei?

Raul não respondeu imediatamente. Em que pensamentos se estaria a perder? Por fim, como se falasse para si mesmo, disse:

− Há sempre quem faça as coisas mais improváveis…

Teresa chamou-o à terra:

− Sim, mas geralmente só acreditamos nessas coisas depois de feitas.

− Vou-te contar uma coisa sobre o país de Milena. A população de origem albanesa, especialmente nas zonas rurais, não se rege pelas leis do Estado, mas sim por um código elaborado no século XV pelo príncipe Lekë Dukagjini…

− Como tu te consegues lembrar dum nome desses…

− Acredita, não é possível viver muito tempo no Kosovo e tentar fazer cumprir as leis sem ficar com este nome na memória. De qualquer modo, este código chama-se o kanun, e estabelece, entre muitas outras coisas, que, numa família onde não haja homens adultos, uma mulher se pode transformar em homem. Para isso precisa de fazer uma jura de abstenção sexual para toda a vida. Com isto adquire todos os privilégios de um homem: governar a família, andar armada, viajar sozinha, entrar nos cafés…

− Coisa estranha…

− Há coisas mais estranhas no mundo. Ora acontece que a Milena não é, nem de origem rural, nem albanesa, mas sim sérvia e urbana, e portanto em princípio nada disto se lhe devia aplicar. Se tem algum conhecimento do kanun, o mais provável é que seja uma ideia muito vaga, e que nem se dê conta que o voto de castidade que fez se possa inspirar nele… mas por outro lado andou com os albaneses muito tempo, e estes costumes nunca são completamente estanques. Tu dizes que acreditas nela, e eu penso: porque não hei-de acreditar também? O que não entendo é o que isso tem a ver com ela ser nossa empregada. Ou antes, entendo, talvez resolvesse o problema da tensão sexual aqui em casa, mas diz-me: qual de vocês duas foi a da ideia?

− Foi ela.

− E em que condições?

− Isso decides tu. A Milena só pediu que lhe deixássemos tempo para continuar a tocar nos bares… e fez questão de deixar claro que o tal voto de castidade só se aplica a ela própria, que tudo o que visse acontecer entre nós seria como se não tivesse visto nem ouvido.

− E tu, gostavas?

− Gostava, meu senhor.

− Então, se ela ainda estiver a pé, chama-a cá.

Milena apareceu, ainda de jeans e blusa, como tinha andado todo o dia desde que tinha trocado de roupa em casa.

− A Teresa disse-me que te tinhas oferecido para nossa empregada. Porque é que queres ser nossa empregada?

− Preciso de ganhar dinheiro para viver, senhor. O que ganho a tocar piano não chega.

− Então vai ser assim: vais cozinhar, servir à mesa, lavar, limpar, arrumar e mais tudo o que eu ou a Teresa dissermos. Vais usar uma farda de criada, como a Teresa, mas nas horas de serviço também é para usar fora de casa. Em casa andas sempre descalça, na rua usas sapatos brancos sem salto. Não bates às portas, nem à do meu escritório: nada do que esteja lá a acontecer é da tua conta.

− Sim, senhor. Se o senhor ou a Teresa estiverem sem roupa…

− Se eu ou a Teresa estivermos nus, ou se estivermos a fazer amor, ou se eu estiver a castigá-la, entras na mesma e fazes o que tiveres a fazer. Só tens que ter o cuidado de não nos distrair. Esta é a minha casa, a Teresa é a minha escrava, e quero estar tão à vontade contigo cá dentro como estaria sem ti. Entendeste tudo o que eu te disse?

− Sim, senhor. Lei vuole che io sia come um gatto, que entre, que saia, e que por minha causa as pessoas não parem de fazer o que faziam. Sì, lo farò, non è difficile per me.

– Em teoria, o teu horário é 24 horas por dia, sete dias por semana. Na prática, não terás um horário apertado. Serás dispensada à noite quando precisares. Quando estiveres cansada, podes levantar-te tarde. Terás oito dias livres por mês, ou dez, ou até quinze, não faço muita questão, mas será quando mos pedires e eu tos der. Também terás férias todos os anos, ou várias vezes por ano, conforme mas pedires e eu tas der. Se achares que não te estou a dar tempo livre que chegue, voltamos a falar. Quero que leias todos os dias pelo menos vinte páginas em português: tens livros e dicionários no meu escritório. Tens muitas coisas tuas no teu apartamento?

– Não, signore, só a minha roupa, a roupa de cama e algumas coisas pequenas. Ah, e também os meus discos compactos e a aparelhagem, e alguns livros.

– Se a Teresa e tu esvaziarem o roupeiro do teu quarto, terás onde pôr todas as tuas coisas?

Si, signore.

– Muito bem. Amanhã de manhã, tu e a Teresa vão comprar as tuas fardas e os teus sapatos. Depois vão ao teu apartamento buscar as tuas coisas. Não é preciso trazerem tudo, o arrendamento só vence no fim do mês. A seguir começam a arrumar tudo aqui em casa para poderes cá ficar.

– Sim, senhor – disse Milena.

– Sim, meu senhor – disse Teresa.

– As refeições serão servidas por ti e pela Teresa, quando eu comer sozinho, ou só por ti, quando eu comer com ela. O teu horário começa de manhã às oito, mas como a Teresa gosta de ser ela a servir-me o pequeno-almoço, a maior parte das vezes poderás ficar até mais tarde na cama. À noite, a cozinha tem que ficar arrumada, ou pela Teresa e por ti, ou só por ti. A limpeza e arrumação do quarto dos castigos é da responsabilidade da Teresa, mas tu também podes ajudar. Os recados, a cozinha, o tratamento da roupa e a limpeza do resto da casa são coisas da tua responsabilidade, embora a Teresa te possa orientar e ajudar. De acordo?

– Sim, senhor.

– Ganharás quinhentos euros por mês, mais alojamento, mais comida. Comerás o mesmo que nós, na quantidade que quiseres. Com este dinheiro, podes manter o teu apartamento, mas não to aconselho: não precisas dele para nada. Finalmente: como vais ser aqui empregada doméstica, ou seja, uma pessoa livre, e a Teresa é minha escrava, poderás talvez imaginar que vais estar acima dela…

– Oh, não, signore!

– Ainda bem. Para mim, a Teresa pode ser menos do que a poeira debaixo dos meus pés, mas para ti ela é a minha mulher, a mulher que eu amo, e deves obedecer-lhe como se fosse a mim.

Si, signore!

– Então estamos entendidos. Tens alguma pergunta a fazer-me?

– Não, signore. Ma posso dire una cosa?

– Diz lá.

A me, mi sembra che il vostro amore è bello. Molto, molto bello.

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Tomaram duche juntos, e a seguir devoraram um enorme pequeno-almoço, suficiente para os manter saciados até à hora de jantar. Era tempo de retomar a vida normal; mas antes de ir despir o roupão para pôr o seu uniforme de criada, Teresa ainda disse:
− Meu senhor, sabes qual é a primeira coisa que se deve fazer quando se cai do cavalo?
− Montar de novo – respondeu Raul. – Para não dar tempo a que o medo se instale.
− Então leva-me esta noite ao Justine. Se não entrar esta noite num bar, acho que nunca mais conseguirei entrar em nenhum sem morrer de medo.
Raul deixou-se ficar sentado à mesa, pensando nestas palavras de Teresa. Se alguém tinha razão para ter medo de entrar num bar ou numa discoteca, era ela. Estranha coincidência: uma pessoa que fazia pouca vida nocturna estar duas vezes na vida em dois bares com o mesmo nome, alguém lhes deitar fogo, e de ambas as vezes ser salva in extremis pelo homem que amava. Raul não era supersticioso, mas decidiu que, enquanto ele mandasse, Teresa nunca mais entraria em bar, discoteca, hotel, restaurante ou café que tivesse por nome Lua Vermelha, fosse em que língua fosse. Quanto a essa noite no Justine, decidiu fazer dela uma ocasião especial: telefonou à Baronesa, contou-lhe por alto o que tinha acontecido na noite anterior, disse que queria proporcionar a Teresa uma noite memorável e pediu-lhe que contactasse alguns frequentadores habituais para a receberem de maneira a fazê-la esquecer. Não, não era uma festa, não queria que preparassem nada de especial, apenas que pusessem Teresa um pouco no centro das atenções. Podia ser?
Quando Teresa reapareceu, Raul disse-lhe:
– Hoje vamos jantar fora, no Majestic, e depois vamos passar o resto do serão no Justine. Para o Justine quero que vás de preto, por respeito aos nossos amigos, mas toda às transparências. Quero que mostres bem os seios…
– Sim, meu senhor – disse Teresa, corando um pouco.
– E descalça, obviamente. Não quero que leves bijutarias, só jóias verdadeiras: rubis, muitos rubis, para que o vermelho contraste com o preto da roupa. Tens rubis que possas pôr nos pés?
– Tenho fios de ouro e anéis para pôr nos dedos dos pés. Com um pendente de rubis que tenho guardado, acho que posso improvisar qualquer coisa… Mas não tenho maneira de fazer o mesmo nos dois pés.
– Muito bem, adornas só o pé esquerdo e deixas o direito completamente nu. As jóias, só as pões antes de entrarmos no Justine. Para o Majestic levas aqueles teus sapatos rasos dourados e um casaquinho que te cubra os seios. Depois, no carro, tiras o casaquinho e os sapatos, e pões as jóias. Quero que fiques linda…
– Estou a pensar nas roupas pretas que tenho. Não faz mal se eu for um bocadinho gótica?
– Não, acho que até vai condizer bem com o ambiente. Mas não te quero gótica na cara nem nas unhas.
– Está bem, meu senhor. Outra coisa: tenho um coletinho de cabedal vermelho que me deixa os seios à mostra. Se o pusesse por cima duma blusa preta transparente…
– Não ficava mal – disse Raul. – Mas o que vais pôr durante o jantar?
– Estava a pensar num casaquinho vermelho com lapelas, que me ia cobrir os seios e o colete… Mas nesse caso, em vez dos sapatos dourados ficavam melhor uns vermelhos… Tenho uns que também são rasos.
– Não, se forem vermelhos, antes quero que sejam de salto alto. Fazem mais o estilo galdéria. Tens alguns?
Teresa riu-se:
– Meu senhor, é o que eu tenho mais. E se me queres galdéria, vais-me ter galdéria.
– Pronto, então está tudo combinado quanto às roupas. Eu vou de jeans pretas e T-shirt: quero que sejas tu a brilhar e não eu. E levo os meus mocassins pretos, sem meias. Só não te esqueças que no Justine eu me chamo Marco Aurélio, e tu selma.
No Justine foram recebidos por Igor, que cumprimentou Raul com um forte aperto de mão. Quando Teresa dobrou os joelhos ligeiramente, fazendo a vénia que Raul lhe tinha ensinado, Igor surpreendeu-a tomando-lhe a mão e beijando-a: não nas costas, evidentemente, mas na palma, como se faz a uma escrava. A Baronesa saudou Raul e aceitou a vénia de Teresa com um sorriso e um beijo.
A sala tinha sido modificada: num dos cantos tinham sido retirados os assentos e as mesas e colocados tapetes.
– É para as submissas se reunirem e conversarem – explicou a Baronesa. – Há algumas que não têm permissão de se sentarem em cadeiras.
– E o teu submisso? – perguntou-lhe Raul.
– Ora, Marco Aurélio – respondeu-lhe a Baronesa. – O meu, nem no chão se senta. Fica de pé, que tem aqui muito que fazer. Os outros, é com as Senhoras deles. Queres ficar nesta mesa? A sua escrava senta-se no chão, se bem me lembro.
Raul sentou-se no lugar que a Baronesa lhe indicara e Teresa ajoelhou-se aos pés dele.
– Tomam alguma coisa? – perguntou a Baronesa.
– Para a selma – disse Raul – uma água sem gás. Para mim, uma água tónica. Mas não nos sirva à mesa, nem mande ninguém servir-nos, que eu hoje só quero ser servido pela selma. Quando tiver as coisas prontas no balcão, faça sinal para ela as ir buscar.
– Isso é que é uma paixão – disse a Baronesa, e afastou-se, rindo, para trás do balcão.
Raul olhou à roda da sala. Lá estava a bondarina, com os seus enormes olhos verdes, aos pés de um homem que Raul não conhecia: devia ser o dono dela, o Mestre De Aviz. Ambos o cumprimentaram com um aceno de cabeça e um gesto a indicar que falariam mais tarde. Também a kathy lhes acenou e lhes sorriu. Quando a Baronesa fez sinal do balcão que as bebidas deles estavam prontas, Teresa pôs-se de pé, corando, dirigiu-se para o bar, tirou do tabuleiro a sua água e o seu copo e voltou para junto de Raul com a bebida dele. Ajoelhou-se, pôs o tabuleiro sobre a mesa, encheu-se de coragem e inclinou-se para lhe beijar os pés, um de cada vez. Só há poucos minutos tinha sido informada que este ritual era a razão de o seu dono vir sem meias. Também ela preferia assim: tirou parcialmente um sapato do pé de Raul para lhe beijar a pele nua, voltou a calçá-lo e repetiu a operação com o outro. Depois voltou a levantar-se, foi buscar a sua própria bebida – desta vez sem tabuleiro – e sentou-se aos pés do dono.
– Bonito – ouviu-se alguém dizer na sala.
A música ambiente parecia ter sido escolhida para ilustrar a relação entre Raul e Teresa: Enya, Lorena McKennit, Sarah Brightman, Leonard Cohen.
Passado tempo suficiente para que Raul começasse a saborear a sua bebida, aproximou-se deles, com bondarina um pouco atrás, o homem bem parecido que tinham visto na companhia dela. Tinha o cabelo muito curto, um casaco de corte clássico em cabedal preto, e não apresentava quaisquer insígnias além de um discreto emblema circular com três semicircunferências a irradiar de um centro. Raul levantou-se para o cumprimentar e Teresa ajustou a posição em que estava para ficar de joelhos.
– Boa noite – disse o homem, dirigindo-se apenas a Raul. – O nome por que sou conhecido aqui é Mestre De Aviz. Creio que já conhece a bondarina: ela pediu-me autorização para falar consigo.
– Passou bem? – disse Raul, apertando-lhe a mão. – Claro que já o conhecia de nome, e tenho muito gosto em conhecê-lo agora pessoalmente. O meu nome aqui é Marco Aurélio. Sente-se, por favor. Esta é a minha escrava selma. Selma, beija a mão do senhor.
Teresa abriu muito os olhos, espantada, mas obedeceu prontamente. Mestre De Aviz sentou-se, enquanto bondarina se lhe ajoelhava aos pés. Raul, que nunca se tinha encontrado com bondarina a não ser de igual para igual, apercebeu-se da perturbação dela quando Mestre De Aviz lhe fez sinal para que o cumprimentasse como Teresa o tinha sido cumprimentado a ele. Pegou na mão de Raul e beijou-lha, de maneira a não deixar ficar mal o dono. Bondarina estava com um vestido vermelho muito curto, de seda ou cetim, meio roto na bainha. Trazia ao pescoço uma coleira de couro gravado, muito bonita, fechada com um cadeado de aço. Estava descalça, como Teresa, o que era perfeitamente compatível com o estilo de submissão estabelecido entre ela e Mestre De Aviz: estavam a tentar uma adaptação do estilo Goreano. Kathy aproximou-se e ficou de pé junto à mesa, hesitante, sem saber se devia sentar-se no chão, como as outras submissas, ou se, por não estar na companhia do dono, deveria sentar-se numa das poltronas, como os dominantes. Bondarina, apercebendo-se desta hesitação, bateu levemente com a palma da mão no chão junto de si, convidando kathy a sentar-se.
A conversa incidiu sobre o que tinha acontecido no Red Moon. Todos sabiam do que tinha acontecido pelos jornais ou pela televisão, mas só depois de falarem com a Baronesa é que tinham ficado a saber que “Marco Aurélio” e “selma” tinham estado envolvidos. Sabiam que tinha sido encontrado nos destroços o cadáver de um homem carbonizado, mas nem Raul, nem Teresa revelaram a identidade desse homem. Teresa contou apenas que tinha sido raptada por um desconhecido que a tinha levado para o Red Moon sem ela saber para quê. Ninguém se lembrou de perguntar como é que Raul tinha sabido onde havia de a procurar; ou se alguém se lembrou, teve a discrição de não o fazer.
Teresa e bondarina ficaram com a tarefa de servir as bebidas, a primeira beijando os pés de Raul sempre que as trazia, a segunda beijando, ao estilo Goreano, o copo que apresentava a Mestre De Aviz. Kathy, sentindo-se na obrigação de as ajudar, acabou por também servir de joelhos os dois homens, inquieta por não saber se isto representava ou não uma traição ao seu próprio dono.
− Não te preocupes – disse-lhe a Baronesa. – Traição era comportares-te como se estivesses acima da bondarina ou da selma. Isso é que deixaria ficar mal o teu dono. Logo eu falo com ele e explico-lhe.
Raul desviou a conversa para outros assuntos: quando ia sair o número seguinte da Dominium, que festas se preparavam, quem tinha encontrado um novo dono ou dona, ou um novo escravo ou escrava. E assim se passou uma noite no Justine, diferente das outras porque todos se lembraram que, para lá do seu mundo consensual, existia outro, violento e cruel, a que ninguém estava imune.
Raul e Mestre De Aviz tinham os carros estacionados perto um do outro. Saíram ao mesmo tempo e foram pela rua a conversar, seguidos por Teresa e bondarina, ambas descalças. Pelo modo de andar de bondarina, via-se que ainda não estava habituada, mas Teresa caminhava como se toda a vida o tivesse feito – o que era verdade pelo menos um mês por ano.
Em casa, quando Raul penetrou Teresa, ela pediu-lhe que ficasse parado um momento dentro dela:
− Quero mostrar-te uma coisa…
Raul sentiu que o sexo dela se contraía e alargava; mas desta vez o movimento não envolvia a vagina como um todo: começava na entrada, apertando-lhe a base do pénis, continuava na secção média, acabava no fundo, onde lhe apertava a glande com força, e recomeçava tudo uma vez após outra.
− Que bom, minha escrava! – disse Raul.
− Ainda não aguento fazer isto muito tempo – respondeu Teresa. − Mas a minha professora de pompoar diz que quando estiver treinada serei capaz de continuar durante horas.
− Pois hoje continua até não poderes mesmo mais. E não te venhas.
− Sim, meu senhor – disse Teresa, contente. E concentrou-se com todas as suas forças em dar prazer ao seu dono.

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A primeira resposta que dou a esta pergunta, aquela que me ocorre instintivamente e quase sem pensar, é “não”. Um Senhor que imagine que só por ser Senhor é superior à sua escrava, ou um “Dom” que se iluda e pense que só por ser “Dom” é superior à sua submissa, não passa de um tolo; e portanto, em vez de ser superior é-lhe provavelmente inferior.

Isto que escrevi acima é a resposta simples. Não deixa de ser basicamente a minha opinião, mas não posso dar-me por satisfeito com ela. É que para lá da resposta simples há outras bem mais complexas.

Uma das melhores amigas com quem me correspondo na net refere com insistência a sua necessidade de se entregar a alguém por quem possa sentir não só respeito, mas também admiração. Sente a necessidade de ver no seu Dono um ser superior, não só a ela própria, mas também aos seres humanos em geral. Não vou dizer que esta minha amiga está a visar alto demais, pela simples razão que sempre admirei quem visa alto. Mas aí está: se por qualquer volta da vida viesse a acontecer eu tornar-me Senhor desta minha amiga e ela minha escrava, haveria logo à partida um ponto em que eu a consideraria, se não superior a mim, pelo menos minha igual.

Não é que eu acredite na igualdade de todos em relação a todos. Pelo contrário, acredito firmemente que o homem que pensa é superior ao que não pensa, o que sente superior ao que não sente, o que lê superior ao que não lê, o que vive superior ao que apenas sobrevive, o que é útil aos outros superior ao que lhes é nocivo. A questão é que em todos estes pontos a escrava e a submissa têm exactamente o mesmo direito/dever de se aperfeiçoarem que têm o Senhor e o “Dom”.

Assim, a minha amiga, como tantas outras escravas e submissas, está perante um dilema: para que a pessoa a quem se entregam lhes seja superior, têm elas que ser inferiores; para serem inferiores têm que prescindir do seu crescimento como seres humanos; crescimento este que é precisamente o que as torna dignas de serem amadas e possuídas em pleno.

A única solução que encontro para este dilema é a seguinte: o Senhor e a escrava têm de crescer juntos; cada um deles tem que admitir que não é perfeito e admitir além disto, o que é difícil, que o outro também não; e cada um deles tem que fazer tudo o que estiver ao ser alcance para que o outro se transforme de verdade num ser superior. Um deles fará isto pela maneira como domina, o outro fá-lo-á pela maneira como se submete; mas a um nível muito profundo estarão os dois a fazer precisamente o mesmo. Aquilo que nenhum deles tem o direito de fazer é diminuir-se a si próprio ou a diminuir o outro.

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Um olhar triste

Hoje, na rua, cruzei o olhar com uma mulher triste.
Triste na expressão; não parecia tensa, nem preocupada, nem deprimida, nem infeliz: apenas triste.
Achei-a muito bela.
Será que gosto de mulheres tristes? Talvez, um pouco. Mas também gosto de mulheres alegres; e destas gosto tanto mais, quanto a alegria que sinto nelas vem de dentro, como uma luz suave.
Há mulheres aparentemente tristes que são felizes. Talvez seja destas que gosto mais. E às vezes penso que a minha maior felicidade poderia estar em dar a uma mulher uma felicidade assim.
Ou em trabalhar para isso.
Também há mulheres alegres que são infelizes. A estas, admiro-as muito, mas não me imagino apaixonado por elas. É que além de as admirar, sinto pena delas, e não é possível amar alguém de quem se tem pena.
Pelo menos para mim não é possível.
Mulheres alegres e ao mesmo tempo felizes? Não sei se as há, não sou capaz de ver assim tão fundo no coração humano. Mas se as há, devem ser como as crianças: muito fáceis de amar, mas impossíveis de desejar.

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