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Posts Tagged ‘BDSM’

Work in Progress


Afinal, o conto está a adquirir dimensões de novela, e progride devagar porque estou a alternar com a revisão do romance o trabalho que faço nele. Além disso, noto em mim uma tendência para dar às personagens do conto os nomes das personagens do romance. Vou ter que copiar tudo para o Word e fazer uma pesquisa de palavras para ver se nunca chamei Raul a Rui ou Teresa a Joana. Agora que a história está mais adiantada, já vejo para onde se está a encaminhar: para o possível (ou impossível) diálogo ético entre o mundo BDSM e o mundo baunilha.

Um abraço para todos os meus leitores.

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Cap. 32: DISCÍPULOS

[ … ]

Entre as colegas de Teresa na dança havia uma jovem que também era colega dela no pompoar: chamava-se Ana e ainda não tinha vinte anos. Foi esta jovem que uma tarde convidou Teresa para lanchar. Quando Teresa lhe disse que não podia aceitar este convite sem autorização do namorado, Ana não mostrou repulsa nem surpresa, antes deleite:

– Então pede-lhe, por favor!

Mal tinham tido tempo de mandar vir as meias de leite e as torradas quando Ana, impaciente, começou a conversa:

– Quer dizer que nunca fazes nada sem autorização do teu namorado?

Teresa sorriu.

– É claro que faço muitas coisas por minha iniciativa, nem ele quereria que fosse doutra maneira. Mas uma das coisas em que combinámos que eu não teria qualquer liberdade foi o uso do meu tempo: por isso é que tive que lhe telefonar antes de aceitar lanchar contigo.

Ana bebeu um pouco de café com leite antes de se decidir a dizer:

– Acho isso tão bonito… Pensava que não havia mais ninguém como eu e o Miguel.

– O Miguel é o teu namorado? – perguntou Teresa. – E costumas obedecer-lhe?

– Adoro obedecer-lhe, e ele adora que eu lhe obedeça… Nunca contámos a nenhum dos nossos amigos, tivemos medo que nos gozassem ou que se afastassem de nós. Posso contar-te um segredo? Ele às vezes bate-me com uma vergasta, e eu deixo… Não ficas a pensar mal de nós?

– Claro que não, minha querida – respondeu Teresa. – O Raul também me vergasta algumas vezes, e castiga-me fisicamente doutras maneiras. Eu não tenho nenhum prazer em ser castigada, mas tenho um prazer enorme em poder sê-lo. Compreendes isto?

– Não sei, acho que nesse ponto somos um pouco diferentes. Eu tenho prazer em ser vergastada, pelo menos pelo Miguel. Com outro homem, nunca experimentei. Mas pensando bem, agora que falamos nisso, acho que o meu prazer maior é o direito que ele tem de me vergastar. É, é isso. Nisso somos parecidas, tu e eu.

– E o Miguel, gosta de te castigar?

– Acho que gosta um bocadinho, como eu, mas agora começo a pensar se o prazer maior dele não será ter esse direito… E o teu namorado? Também gosta de te fazer doer?

– Talvez seja como o teu: gosta, mas isso para ele não é o principal.

Ana calou-se de novo, a ganhar coragem, e disse finalmente:

– O nosso maior problema, meu e do Miguel, é não sabermos como se fazem as coisas.

Teresa franziu o sobrolho, intrigada:

– Como se faz o quê?

Ana pareceu um pouco atrapalhada:

– Não sei… Deve haver regras… Sabe, o que se faz na cena BDSM… Não conhecemos ninguém nesse meio a não ser a si, e a Teresa não corresponde nada às imagens que vemos nos media… De modo que não sabemos as regras, nem a maneira correcta de vestir… Espero que isto não fosse um abuso, mas tenho falado de si ao Miguel e ele diz que um dia gostava de a conhecer e ao seu namorado.

Ana trazia uma saia comprida de renda preta sobre outra opaca e mais curta. Tinha uma T-shirt preta sem mangas, muito decotada, e sobre esta, uma blusa preta transparente de mangas compridas. Não trazia as unhas nem os lábios pintados de preto, nem piercings visíveis, nem a profusa joalharia de prata, própria do visual gótico: apenas uns brincos de prata compridos que lhe chegavam aos ombros. Nos pés trazia umas sandálias pretas de tiras, com uns saltos altíssimos.

– Diz-me uma coisa, Ana – perguntou Teresa. – Esse teu modo de vestir corresponde mais ao teu gosto ou ao gosto do Miguel?

– Não sei bem… Devia ser ao do dele, não devia? Mas acho que é ao dos dois. Ou então talvez seja mais uma questão do que achamos apropriado ao nosso lifestyle.

Teresa sorriu um pouco da expressão em inglês:

– E que maneira de vestir acham vocês apropriada para o vosso lifestyle?

– De preto, acho eu… Mas ele, não é só por causa das regras que se veste de preto, é porque gosta mesmo. Do que ele não gosta é de usar adornos, nem enfeites, nem penteados esquisitos. É roupa preta, barba feita, cabelo à escovinha, e já está. É o estilo dele.

– Posso dar-te um conselho? – perguntou Teresa.

– Até agradeço.

– Não te vistas para nenhum lifestyle. Não há lifestyles. Quer dizer, havê-los, há, mas são pura diversão, não passam disso. Os estilos de vida, somos nós que os fazemos. Não há uma maneira apropriada para mulheres como nós se vestirem. Veste-te como ele gostar de te ver, nem que seja de cor-de-rosa bebé, ou de vestidinho às pintinhas. Se tu também gostares, tanto melhor, mas isso não é importante: o importante é o que ele gosta. Outra coisa, e esta é mesmo importante: não há regras. Ou melhor, só há uma regra, que é respeitar o outro. Se sentires que o Miguel não te ama ou não te respeita, larga-o. Mas se ele te ama e respeita, então não há regras. Isto é mesmo muito importante. Conta-lhe esta conversa e vê o que ele pensa.

Ana ficou pensativa.

– Posso falar-lhe de si e do seu namorado? – perguntou.

– Não precisas de dizer meu namorado – disse Teresa. – Podes dizer meu dono ou meu senhor, que eu não me importo. E claro que podes falar de nós ao Miguel.

– Obrigada – disse Ana, à despedida. – Ele vai gostar de ter tudo isto em que pensar. E eu também vou ter que pensar, especialmente nessa questão do respeito.

Quando Teresa contou a Raul esta conversa, ele sugeriu-lhe que convidasse Ana e Miguel para lanchar no Majestic no fim da semana seguinte. No dia do encontro, Agosto estava a meio, e o tempo estava muito quente. Raul e Teresa chegaram propositadamente atrasados para que Ana e Miguel os vissem chegar: Raul de jeans e T-shirt pretos e cabelo curto, num estilo muito semelhante ao de Miguel; Teresa compareceu descalça, sem calcinhas e sem soutien: sem nada sobre o corpo que não fosse um vestido comprido em tons de rosa, lilás e branco, que deixava adivinhar à transparência os mamilos escuros, e só não deixava ver o triângulo da púbis por esta se encontrar depilada. Ana estava toda de preto: top atado nas costas com atilhos, mini-saia justa, meias de rede e sandálias de salto muito alto. Via-se que tinha feito um esforço especial para exprimir a sua condição de namorada submissa. Depois das apresentações, o diálogo entre os dois homens consistiu em pouco mais que uma troca de ideias gerais. Já Ana quis saber tudo, particularmente o significado dos pés nus de Teresa, se ela costumava andar assim na rua, que distância tinha percorrido desta vez, se lhe tinha custado muito.

– Não ando muitas vezes descalça na rua – disse Teresa. – O Raul só me costuma dar essa ordem em ocasiões especiais, como hoje. Em casa, sim, tenho que andar sempre descalça.

– Em casa, e na Fundação de Serralves – interrompeu Raul.

– Em Serralves?! – exclamou Ana – Porquê?!

– Por capricho meu – explicou Raul. – Mas também porque me seduz a variedade de texturas no chão da casa e nos jardins. E além disso há qualquer coisa naquele ambiente que parece que o exige.

– É verdade – disse Miguel. – Nunca me tinha ocorrido, mas é verdade.

– Mas não te custou vir descalça até aqui? – insistiu Ana.

– Nem por isso – respondeu Teresa. – Deixámos o carro no parque dos Poveiros: lá dentro o chão está fresco. O passeio cá fora é branco, não aquece muito. Só me podia ter queimado um bocado ao atravessar a rua, que é de alcatrão preto e fica muito quente… o truque é aproveitar as faixas brancas da passadeira, que não queimam. Aqui na Rua de Santa Catarina o chão é claro, não aquece muito. Com as texturas é mais difícil, algumas são muito ásperas, é preciso estar habituada… a única coisa a que nunca me habituei é o olhar das pessoas. Ainda fico embaraçada…

Miguel olhou para ela estreitando os olhos, e a seguir para Ana.

– Pois a mim, o que me daria prazer – disse ele – seria precisamente ver a Ana assim embaraçada.

Raul olhou atentamente para os dois. Ana estava vermelha e olhava para as mãos, mas um leve sorriso bailava-lhe nos lábios.

– Olhe, Miguel, não sei quais são os termos do seu compromisso com a sua namorada – disse Raul. – Não sei se o seu compromisso o autoriza a fazer-lhe este tipo de exigências, nem se a obriga a obedecer-lhes…

– Autoriza-o, sim, e a mim obriga-me – interrompeu Ana. – O Miguel é que talvez ainda não se tenha apercebido. São coisas de homem, de cavalheiro…

Foi a vez de Miguel enrubescer; e Teresa riu-se ao ver que Raul também tinha corado.

– Um cavalheiro um bocado obtuso, pelos vistos – respondeu Miguel. – Andei a ver a net e os fóruns e convenci-me que numa relação como a nossa havia convenções a respeitar: roupa preta, cabedal, todas as mulheres de saltos altos… A Ana e eu nunca fomos a um clube sadomasoquista: mas se a Ana fosse vestida, por exemplo, como a Teresa está agora, deixavam-nos entrar?

– Depende do clube – disse Raul. – Numa grande cidade europeia pode haver clubes centrados em certos fetiches, e aí teriam que se conformar a eles; mas aqui no Porto não temos dimensão para essas especializações. Num clube daqui, todos estariam a par do que esta indumentária da Teresa significa.

Miguel ficou calado por alguns instantes.

– Confesso que uma submissa descalça me diz mais que uma de saltos altos – disse por fim. – Isto não é de agora, sempre foi assim, mas parecia-me que isso não era… como hei-de dizer… ortodoxo…

– Não há regras nem ortodoxias – disse Raul. – Só a vontade do dono conta.

– Mas continuo a gostar de ver a Ana de preto, e de minissaia justa.

– Não há regras – repetiu Raul. – Se o Miguel tem esse direito sobre a Ana…

– Claro que tem – disse Ana em tom decidido.

Miguel olhou para ela como se a estivesse a ver pela primeira vez e quisesse fixar-lhe as feições.

– Claro que tenho… – murmurou para si mesmo.

E em voz alta disse:

– Ana, o que vais fazer agora é isto: vais lá dentro aos lavabos, deitas no caixote do lixo os sapatos e as meias, e voltas para aqui. No caminho para cá, passas pelo balcão e pedes um fino para esta mesa. Ou dois, se o Raul também quiser.

– Com todo o gosto – disse Raul.

Ana fez menção de objectar, mas, antes que tivesse tempo de o fazer, o namorado acrescentou:

– Ah, e já agora deixas lá ficar também as calcinhas.

Ana ficou um momento sentada, a olhar para as mãos. Depois, de rompante, levantou-se:

– Está bem.

Dirigiu-se para dentro do café, de cabeça levantada, para cumprir o que lhe tinha sido ordenado. E já que se sentia embaraçada, e não queria ceder ao embaraço, fez questão de ir até ao fundo do café por uma das duas coxias que correm entre as mesas e regressar pela outra, de modo a que todos os presentes lhe vissem bem, primeiro a mini-saia, e depois os pés descalços.

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Nunca paramos de aprender

Uma amiga minha, que talvez venha a ler este post, perguntou-me uma vez o que é que eu sabia de domínio e submissão. Estávamos a tomar café. Eu não compreendi muito bem o sentido da pergunta, mas depreendi que ela se estava a referir a “técnicas” e a “práticas” e a “sessões” no contexto de um BDSM estilizado. Tive que lhe responder que sabia muito pouco. Não é que rejeite esta dimensão tão importante nas opções de vida desta minha amiga e de outras pessoas que conheço. Antes pelo contrário: consigo perfeitamente imaginar-me a aprender, por exemplo, as técnicas do “Shibari” e a apaixonar-me pelo que nelas há de criativo e de exigência estética. Acontece simplesmente que tudo isto, podendo embora ter um lugar acessório nos meus gostos e preferências, está muito longe de ser central nas minhas experiências e ideais como Senhor e Dominante.

No reverso da medalha há as pessoas que me felicitam pelo muito que têm aprendido comigo. Estes elogios, apesar de não se referirem aos aspectos técnicos mencionados acima, deixam-me ainda mais constrangido do que a pergunta que a minha amiga me fez, e isto por várias razões. Em primeiro lugar porque muitas vezes se trata de pessoas com quem aprendi tanto ou mais do que elas dizem que aprenderam comigo; em segundo lugar porque tenho a aguda consciência de saber muito menos do que desejaria sobre domínio e submissão, e por isso ainda estou a fazer por aprender; e finalmente porque há coisas que sei hoje que me teriam evitado erros gravíssimos se as soubesse ainda há poucos anos.

A propósito de fontes de aprendizagem, gostaria de recomendar dois sites que incluí recentemente na minha lista de links: o Code d’Odalisque e o Different Loving, que tem como subtítulo “Submissive Women Speak”. No primeiro destes dois sites não encontraremos as questões de domínio e submissão tratadas com a sinceridade, com a clareza de raciocínio e linguagem, nem com a profundidade ética, psicológica, sociológica e sociológica com que as encontramos tratadas no segundo. Mas mesmo assim o “Code d’Odalisque” é um site interessante porque propõe uma abordagem que eu nunca tinha encontrado: diferente, quer do BDSM clássico, quer da perspectiva Goreana, quer da minha própria abordagem. O estilo é civilizado, eu diria mesmo ultra-civilizado, e isto pode desagradar a certos leitores que não aceitam certas afectações como por exemplo um site de língua inglesa adoptar o francês como uma espécie de língua oficial. O “Code d’Odalisque” está para o BDSM clássico como um minuete da corte de Maria Antonieta está para um concerto de heavy metal; mas isto não nos deve cegar para dois méritos muito reais do site: o primeiro está em propor uma ética e um estilo muito definidos, que talvez sejam, quem sabe, a ética e o estilo de que algum dos meus leitores possa estar à procura; o segundo está em que a proposta do “Code d’Odalisque” é facilmente combinável e compatível com outros estilos e outras opções de vida. É uma abordagem que eu nunca adoptaria na totalidade, mas da qual poderia muito bem recolher alguns elementos.

O “Different Loving” é um caso muito mais sério, desde logo porque é produzido por um casal que conseguiu levar uma relação de Senhor/escrava ao seu grau mais absoluto e manter essa relação durante vários anos, com proveito para ambos, através de dificuldades graves em termos financeiros e de saúde. Os textos são geralmente longos, devido ao esforço dos autores para serem exaustivos e considerearem os assuntos em todos os seus aspectos; mas são muito reflectidos, muito bem articulados, e reflectem a tal mistura de honesto estudo e longa experiência que raramente se encontra.

Os autores deste site não propõem a sua opção de vida como a “melhor”: pelo contrário, reconhecem que na maioria dos casos a melhor opção de vida para um dominante e uma submissa será menos radical do que a que eles próprios fizeram. O que nestes textos se faz brilhantemente é desfazer certas confusões, como a que se faz entre entrega e dádiva, entre senhor e dominante, entre escrava e submissa, e sobretudo entre ser e representar.

Numa próxima oportunidade – ou antes, em duas próximas oportunidades – apresentarei neste blog as traduções de dois textos que exemplificam isto. Mas o “Different Loving” tem muito mais que dois textos merecedores de leitura atenta. Por isso o recomendo a quem saiba lê-lo em inglês.

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Provavelmente não há pergunta mais frequente do que esta nos foruns BDSM e nos sites dedicados ao domínio e submissão nas relações amorosas. Durante muito tempo achei que não deveria intervir neste debate, e isto por duas razões: porque o termo “submissa” é geralmente utilizado como substantivo para designar uma opção específica entre os estilos de vida definidores duma certa cultura, da qual não faço parte e sobre a qual não tenho o direito de me pronunciar; e porque outros têm abordado o tema melhor do que eu o faria.

O que me levou a mudar de ideias foi ter encontrado aqui e aqui dois testemunhos de duas mulheres muito diferentes que me obrigaram a reflectir sobre a questão mais seriamente do que alguma vez o tinha feito.

Estas mulheres não poderiam ser mais diferentes: uma é uma jovem brasileira de 21 anos, a outra é uma americana com várias décadas de experiência com o homem a quem se deu como escrava. Uma escreve com o coração: o seu discurso tende a ser desconexo em termos de articulação do pensamento; o discurso da outra é articulado e reflectido. A primeira está ainda perplexa diante duma experiência nova, a segunda já teve tempo de examinar a sua vida e de chegar a conclusões sólidas. Uma assume-se como escrava mas não como submissa; a outra assume-se como escrava e submissa.

Mas têm em comum uma coisa importante, que é a sinceridade do seu testemunho.

E as duas juntas fizeram-me entender que quando uma questão é complexa o melhor, quando a queremos discutir, é começar por simplificá-la. Simplifiquemos, portanto.

Para simplificar vou deixar de fora o conceito de “submissa” no universo particular da cultura BDSM e limitar-me ao significado corrente da palavra. Segundo os dicionários, submisso é sinónimo de obediente, sujeito, respeitoso, humilde, escravo é o que está sob a dependência de um senhor, e senhor é aquele que tem direito de propriedade. Logo daqui resulta uma diferença entre os dois conceitos: o escravo pode não ser submisso e o submisso pode não ser escravo.

No campo das relações amorosas uma pessoa pode ser escrava de outra, ou seja, absolutamente dependente dela, e não ser obediente, nem respeitosa, nem humilde. Para muitas escravas e para muitos Senhores o prazer está precisamente nisto: da parte da escrava, em ser continuamente obrigada a submeter-se; da parte do Senhor, em vencer continuamente a resistência da escrava.

E é possível – creio mesmo que esta é, no plano prático, a opção da maioria – é possível uma submissa obedecer, estar sujeita, ser respeitosa e ser humilde, tudo isto sem ser dependente de alguém que exerça sobre ela direitos de propriedade, isto é: sem ser escrava.

Mesmo nos casos em que a escrava é submissa as duas coisas não se confundem. É apenas uma variante entre três. E é óbvio que o Senhor que convém a esta escrava é muito diferente, nas suas preferências e nos seus métodos, dos Senhores que convêm às outras duas.

Podia dizer-se que à segunda o que convém não é um Senhor, mas um “Dom”. Para quem frequenta os meios BDSM, “Dom” é diminutivo de “Dominador” ou “Dominante”. Eu, que estou de fora, tenho a tendência um pouco perversa de ver na palavra “Dom” um diminutivo de “Domador” (o que também deve agradar, suponho, àquelas submissas ou escravas que gostam de se sentir feras).

De tudo isto, qual é a combinação ideal? A resposta só pode ser: não há combinação ideal, o que há é combinações que funcionam. Para mim a escrava certa é a que também é submissa: não porque fuja à luta ou ao esforço, mas sim porque a luta em que estou interessado não é contra a minha escrava, mas ao lado dela para obter uma submissão cada vez mais perfeita. Mas falo só por mim, homem concreto com uma história concreta atrás de si. Fui Senhor mais do que uma vez; hoje não o sou e não é provável que alguma vez o seja de novo. “Dom”, nunca fui nem quero ser. Estou contente com o que vivi, e se agora passo o testemunho às personagens dos meus contos, faço-o com prazer. Só espero continuar a aprender alguma coisa com quem me visita, e se possível continuar a ler de vez em quando num comentário, como às vezes leio, que alguém aprendeu comigo.

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Há coisas na vida que já me resignei a não saber, e uma delas é se as mulheres são naturalmente submissas.

As teorias, conheço-as todas mas não acredito em nenhuma. Falarei portanto das mulheres que conheço pessoalmente: umas autoritárias e dominantes; outras comprometidas ideologicamente com o feminismo e a igualdade entre os sexos; outras ainda – a maioria – indecisas e contraditórias; e outras, finalmente, possuídas pela paixão de obedecer e servir.

Olho para estas mulheres e todas elas, com excepção das feministas doutrinárias, me parecem «naturais». Mas há uma coisa em que as submissas se distinguem das outras: a intensidade com que vivem a sua escolha.

Não se trata aqui de paixão ideológica, mas de algo muito diferente. As submissas não teorizam, vivem. Não é que não sejam inteligentes: são-no tanto como as outras, ou mais, e usam essa inteligência com uma lucidez que por vezes chega a ser arrepiante. Mas é uma inteligência que tem tudo em consideração, até o mistério; e nunca conheci nenhuma submissa que não reconhecesse e celebrasse o mistério da sua natureza.

Uma amiga minha, muito activa no meio BDSM, diz-me repetidamente que aconteça o que acontecer – saldem-se~as suas experiências e relações futuras em êxitos ou em fracassos – «baunilha» é que nunca mais. Ouço-a e fico maravilhado perante alguém que – coisa rara nos tempos que correm – sabe exactamente o que quer.

Outra boa amiga – em cujo vocabulário não entram, de resto, expressões como «BDSM» ou «baunilha» – põe as coisas de modo diferente. Exprime-se em termos duma epifania, duma iluminação súbita, duma descoberta. Para ela há, muito nitidamente, o «antes« e o «depois». Houve uma vida dita «normal», depois houve o contacto com um mundo de possibilidades centradas no obedecer e no servir; e agora há a convicção inabalável de pertencer a este mundo.

De onde vêm estas mulheres? De que mundos, de que vidas, de que experiências? Sabe-se que para cada acção há uma reacção igual e oposta: tratar-se-á aqui duma reacção aos excessos doutrinários do feminismo radical? A hipótese é tentadora mas pouco convincente, até porque não faltam zonas de intersecção entre certas formas de submissão e certas correntes feministas (veja-se a este respeito a reacção inicial de Andrea Dworkin, que mais tarde mudou de ideias, à História de O). Mais plausível é tratar-se duma reacção à morte do amor romântico anunciada esta semana pela revista Time: Hollywood já não conta histórias de amor; Humphrey Bogart já não se despede, de coração partido, de Ingrid Bergman; Rhett Butler já não beija apaixonadamente Scarlett O’Hara. No mundo de hoje o amor romântico já não tem lugar: quem ama serve, quem ama está preso, e poucos querem servir ou estar presos.

E contudo…

E contudo lembro-me do amor cortês na Idade Média. Olho para as submissas, tão belas e tão nobres na sua servidão, e lembro-me do amor cortês. Os temas estão lá todos: o serviço, a abnegação, muitas vezes a não-consumação ou a consumação adiada do amor físico. A diferença é que hoje quem está sentado no trono é um homem e quem está de joelhos perante ele é uma mulher. É justo.

Porque são apaixonadas; porque mantêm acesa uma chama que não se pode, não se deve apagar; porque vão ao fundo de si próprias e não têm medo do que lá encontram; porque são as guardiãs do Mistério neste tempo de máquinas e simplismos – por tudo isto, quero prestar hoje a minha homenagem à «d», à «k», à «a», à outra «a», à «i» e a todas as outras submissas e escravas com quem tenho aprendido tanto.

(Publicado no Blogger a 27/08/07)

(Publicado no Blogger a 27/08/o7)

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Mariana chegou cedo a Heidelberg, antes do pôr-do-sol. Como de costume Ricardo estava à sua espera na estação. Março estava a chegar ao fim e ainda havia uns restos sujos de neve nas beiras dos passeios.

A viagem de eléctrico foi rápida. Quando chegaram a casa Ricardo ordenou:

– Vai tomar duche e arranjar-te. Eu já tomei antes de te ir buscar, agora é só vestir-me.

Mariana sabia que uns amigos ou conhecidos de Ricardo o tinham convidado para jantar e que tinham insistido em conhecê-la; por isso trouxera na bagagem cosméticos, um vestido de cocktail decotado, meias de nylon e sapatos de salto alto. Mas quando saiu da casa de banho em calcinhas, soutien e cinto de ligas, segurando o vestido à frente do corpo para Ricardo ver, este disse-lhe:

– Não, assim não. Tira tudo, põe só aquele vestido em cima do corpo.

E mostrou-lhe o vestido que tinha estendido sobre a cama, comprido, vermelho escuro, todo de véus e transparências. Sobre a mesinha de cabeceira, aberto, um estojo com bijuterias: colar, pulseira, anéis, adornos para os pés, tudo engastado com pedras – granadas ou turmalinas – da mesma cor que o vestido.

– Mas eu pensava – disse Mariana, surpreendida – que o convite era formal.

Ricardo já estava vestido: fato preto sobre uma T-shirt preta que parecia de seda, sapatos com solas de couro e atacadores, um anel de metal escuro com uma pedra preta na mão esquerda.

– E é formal, as formalidades é que são outras.

E mostrou-lhe o convite: «Schwarzer Anzug, Halsband».

– Fato preto? Coleira? Vais pôr-me uma coleira, como as dos cães? Quem é esta gente, afinal?

– O Gunther e a Silke sabem que a tua coleira é andar descalça – respondeu Ricardo. – Veste-te.

Ao enfiar o vestido, Mariana verificou sem surpresa que a parte de cima era bastante transparente. Isto não a incomodou sobremaneira, sabia que tinha os seios bonitos e gostava de os mostrar. O que a preocupava era outra coisa:

– Vais-me obrigar a ir descalça pela neve? Em cima desta bijuteria não posso calçar nada…

– Não faz mal, a casa deles é aqui perto. Mal vais sentir o frio.

O apartamento de Gunther e Silke ficava no terceiro andar dum prédio antigo sem elevador. No átrio de entrada Ricardo ajudou Mariana a tirar o casaco e entregou-o, juntamente com o seu sobretudo, à pessoa que lhes tinha aberto a porta: uma mulher de cerca de trinta anos, bonita, com os cabelos severamente apanhados na nuca e um caftan preto que lhe caía até aos pés nus. Mariana reparou que a mulher, tal como ela, não trazia coleira; reparou também que nem Ricardo a cumprimentou nem ela disse nada: apenas quebrou a sua posição hierática para lhes arrumar os agasalhos num armário e para lhes indicar, com um gesto cheio de dignidade, a entrada da sala.

Lá dentro, à espera, estavam os donos da casa: um homem louro, mais alto e mais entroncado do que Ricardo, vestido como ele excepto por uma camisa e gravata pretas. Atrás dele e um pouco para a esquerda estava uma mulher alta, magra e de cabelos pretos que se manteve de pé com os olhos baixos enquanto o homem avançava um passo, apertava a mão a Ricardo, dava as boas-vindas e fazia as apresentações:

Ach, Richard, willkommen. Das is meine Frau Silke.

Bezaubert. Und das ist meine Sklavin Mariana – respondeu Ricardo. – Mariana, Gunther. A Silke é a mulher dele.

Silke estava toda de preto: mini-saia e colete de cabedal, meias de nylon, sapatos de salto alto e uma coleira com picos metálicos como as dos cães pastores. Sempre de olhos no chão deu dois passos em direcção a Ricardo, dobrou os joelhos numa vénia e beijou-lhe a mão. Depois avançou em direcção a Mariana, levantando para ela os olhos que eram dum azul quase transparente e beijou-a na face.

Mariana estava em plena vertigem: tinha sido apresentada por Ricardo como a sua Sklavin (escrava); tinha visto pela primeira vez, sem ser em fotografias, uma pessoa com uma coleira de cão; e agora esperava-se dela, era óbvio, que cumprimentasse um homem desconhecido com um beijo na mão. Chamou em seu auxílio todo o treino em boas maneiras que tinha recebido em criança e adolescente. Pareceu-lhe ouvir a mãe, as tias, as freiras do colégio: em casa das pessoas tens que fazer como as pessoas. Sem dar sinal da sua perturbação, dirigiu-se a Gunther, fez-lhe uma vénia e beijou a mão que ele lhe estendia. No dedo anelar viu um anel de pedra preta igual ao de Ricardo. Sentiu que os olhos dele a examinavam de cima a baixo e ouviu-o dizer a Ricardo:

Schade, dass Sie Ihre Sklavin nicht verteilen…

Mariana ouviu estas palavras com alívio. Se para Gunther era uma pena que Ricardo não partilhasse a sua escrava, para ela isto não era pena nenhuma. Pelo contrário, o temor de que ele o quisesse fazer, conjugado com a certeza que tinha de que o recusaria, era a causa principal da perturbação que sentia. Mais calma, olhou para a sala com maior atenção. No fundo, junto da mesa, estavam duas raparigas louras, calçadas como Silke com meias pretas e sapatos de salto alto. Tinham saias até abaixo dos joelhos mas estariam nuas da cinta para cima se não fosse pelos peitilhos brancos, que mal lhes cobriam os seios, dos aventais folhados. Na cabeça, completando os trajos de criada, traziam toucas brancas rendadas e folhadas como os aventais, e no pescoço coleiras como a de Silke.

A um sinal da intendente ou governanta que tinha aberto a porta da entrada, e que entretanto tinha regressado à sala, estas raparigas serviram uma bebida a cada um dos homens. Silke serviu-se a si própria e a Mariana e começou com ele uma conversa, ou melhor um interrogatório. Desde quando era Mariana escrava de Ricardo? Porque é que não usava coleira? Porque é que estava descalça? A bijuteria era muito bonita e ficava-lhe muito bem, sobretudo nos pés. Tinha sido R icardo (Silke dizia Richard) que lha tinha dado?

A curiosidade de Mariana não incidia tanto sobre Gunther, ou Silke, ou as criadas, ou mesmo sobre as coleiras, como sobre a figura de mulher que lhe tinha aberto a porta. Quem era ela? Porque é que nunca falava? Ach, es ist nur die Hilda, die Verwalterin. Só a Hilda, a governanta. E porque é que estava descalça? Ora, andava sempre assim. Era ela que queria. Era uma pessoa muito sóbria, sehr genügsam, e gostava do silêncio.

Durante o jantar Mariana quase só teve olhos para Hilda, apesar do silêncio e da quase invisibilidade com que esta, com os seus pés nus e o seu traje severo, dirigia o serviço. Uma vez, uma vez só, Hilda encontrou o olhar de Mariana – e isto intencionalmente, com o propósito óbvio de lhe indicar, por um sorriso quase imperceptível e um igualmente discreto inclinar de cabeça, que a compreendia e saudava.

Depois do jantar, servido o conhaque e acesos os charutos, Hilda desapareceu. Mariana, a um sinal do dono, sentou-se no tapete à frente dele. As duas criadas colocaram-se de pé, sem que ninguém lho tivesse ordenado, junto dos dois homens, que lhes levantaram as saias e lhes foram acariciando os sexos – uma tinha-o rapado, a outra não – enquanto conversavam sobre as subtilezas da investigação literária e ignoravam ostensivamente os ciúmes de Mariana, vestida de vermelho e prostrada no chão.

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Bar Justine

Fui ontem conhecer o bar Justine, a convite de alguém com quem tive uma longa e deliciosa conversa. Segundo me disseram, a quinta-feira é dia de pouco movimento, mas mesmo assim conheci algumas pessoas. Gostei da afabilidade com que fui acolhido e do ambiente aberto e tolerante. Não serei um frequentador assíduo porque as minhas circunstâncias não mo permitem, mas espero lá voltar algumas vezes.

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