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Posts Tagged ‘beijar a mão’

Passeando por Praga, deparei com uma exposição do fotógrafo Jan Saudek, autor da imagem que volto a publicar depois de o ter feito antes sem saber de quem era. Fiquei contente com a possibilidade que o acaso me deu de corrigir o meu erro; e a visão duma obra tão original nos temas e nas técnicas constituiu um dos pontos altos da minha viagem à República Checa.

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Tomaram duche juntos, e a seguir devoraram um enorme pequeno-almoço, suficiente para os manter saciados até à hora de jantar. Era tempo de retomar a vida normal; mas antes de ir despir o roupão para pôr o seu uniforme de criada, Teresa ainda disse:
− Meu senhor, sabes qual é a primeira coisa que se deve fazer quando se cai do cavalo?
− Montar de novo – respondeu Raul. – Para não dar tempo a que o medo se instale.
− Então leva-me esta noite ao Justine. Se não entrar esta noite num bar, acho que nunca mais conseguirei entrar em nenhum sem morrer de medo.
Raul deixou-se ficar sentado à mesa, pensando nestas palavras de Teresa. Se alguém tinha razão para ter medo de entrar num bar ou numa discoteca, era ela. Estranha coincidência: uma pessoa que fazia pouca vida nocturna estar duas vezes na vida em dois bares com o mesmo nome, alguém lhes deitar fogo, e de ambas as vezes ser salva in extremis pelo homem que amava. Raul não era supersticioso, mas decidiu que, enquanto ele mandasse, Teresa nunca mais entraria em bar, discoteca, hotel, restaurante ou café que tivesse por nome Lua Vermelha, fosse em que língua fosse. Quanto a essa noite no Justine, decidiu fazer dela uma ocasião especial: telefonou à Baronesa, contou-lhe por alto o que tinha acontecido na noite anterior, disse que queria proporcionar a Teresa uma noite memorável e pediu-lhe que contactasse alguns frequentadores habituais para a receberem de maneira a fazê-la esquecer. Não, não era uma festa, não queria que preparassem nada de especial, apenas que pusessem Teresa um pouco no centro das atenções. Podia ser?
Quando Teresa reapareceu, Raul disse-lhe:
– Hoje vamos jantar fora, no Majestic, e depois vamos passar o resto do serão no Justine. Para o Justine quero que vás de preto, por respeito aos nossos amigos, mas toda às transparências. Quero que mostres bem os seios…
– Sim, meu senhor – disse Teresa, corando um pouco.
– E descalça, obviamente. Não quero que leves bijutarias, só jóias verdadeiras: rubis, muitos rubis, para que o vermelho contraste com o preto da roupa. Tens rubis que possas pôr nos pés?
– Tenho fios de ouro e anéis para pôr nos dedos dos pés. Com um pendente de rubis que tenho guardado, acho que posso improvisar qualquer coisa… Mas não tenho maneira de fazer o mesmo nos dois pés.
– Muito bem, adornas só o pé esquerdo e deixas o direito completamente nu. As jóias, só as pões antes de entrarmos no Justine. Para o Majestic levas aqueles teus sapatos rasos dourados e um casaquinho que te cubra os seios. Depois, no carro, tiras o casaquinho e os sapatos, e pões as jóias. Quero que fiques linda…
– Estou a pensar nas roupas pretas que tenho. Não faz mal se eu for um bocadinho gótica?
– Não, acho que até vai condizer bem com o ambiente. Mas não te quero gótica na cara nem nas unhas.
– Está bem, meu senhor. Outra coisa: tenho um coletinho de cabedal vermelho que me deixa os seios à mostra. Se o pusesse por cima duma blusa preta transparente…
– Não ficava mal – disse Raul. – Mas o que vais pôr durante o jantar?
– Estava a pensar num casaquinho vermelho com lapelas, que me ia cobrir os seios e o colete… Mas nesse caso, em vez dos sapatos dourados ficavam melhor uns vermelhos… Tenho uns que também são rasos.
– Não, se forem vermelhos, antes quero que sejam de salto alto. Fazem mais o estilo galdéria. Tens alguns?
Teresa riu-se:
– Meu senhor, é o que eu tenho mais. E se me queres galdéria, vais-me ter galdéria.
– Pronto, então está tudo combinado quanto às roupas. Eu vou de jeans pretas e T-shirt: quero que sejas tu a brilhar e não eu. E levo os meus mocassins pretos, sem meias. Só não te esqueças que no Justine eu me chamo Marco Aurélio, e tu selma.
No Justine foram recebidos por Igor, que cumprimentou Raul com um forte aperto de mão. Quando Teresa dobrou os joelhos ligeiramente, fazendo a vénia que Raul lhe tinha ensinado, Igor surpreendeu-a tomando-lhe a mão e beijando-a: não nas costas, evidentemente, mas na palma, como se faz a uma escrava. A Baronesa saudou Raul e aceitou a vénia de Teresa com um sorriso e um beijo.
A sala tinha sido modificada: num dos cantos tinham sido retirados os assentos e as mesas e colocados tapetes.
– É para as submissas se reunirem e conversarem – explicou a Baronesa. – Há algumas que não têm permissão de se sentarem em cadeiras.
– E o teu submisso? – perguntou-lhe Raul.
– Ora, Marco Aurélio – respondeu-lhe a Baronesa. – O meu, nem no chão se senta. Fica de pé, que tem aqui muito que fazer. Os outros, é com as Senhoras deles. Queres ficar nesta mesa? A sua escrava senta-se no chão, se bem me lembro.
Raul sentou-se no lugar que a Baronesa lhe indicara e Teresa ajoelhou-se aos pés dele.
– Tomam alguma coisa? – perguntou a Baronesa.
– Para a selma – disse Raul – uma água sem gás. Para mim, uma água tónica. Mas não nos sirva à mesa, nem mande ninguém servir-nos, que eu hoje só quero ser servido pela selma. Quando tiver as coisas prontas no balcão, faça sinal para ela as ir buscar.
– Isso é que é uma paixão – disse a Baronesa, e afastou-se, rindo, para trás do balcão.
Raul olhou à roda da sala. Lá estava a bondarina, com os seus enormes olhos verdes, aos pés de um homem que Raul não conhecia: devia ser o dono dela, o Mestre De Aviz. Ambos o cumprimentaram com um aceno de cabeça e um gesto a indicar que falariam mais tarde. Também a kathy lhes acenou e lhes sorriu. Quando a Baronesa fez sinal do balcão que as bebidas deles estavam prontas, Teresa pôs-se de pé, corando, dirigiu-se para o bar, tirou do tabuleiro a sua água e o seu copo e voltou para junto de Raul com a bebida dele. Ajoelhou-se, pôs o tabuleiro sobre a mesa, encheu-se de coragem e inclinou-se para lhe beijar os pés, um de cada vez. Só há poucos minutos tinha sido informada que este ritual era a razão de o seu dono vir sem meias. Também ela preferia assim: tirou parcialmente um sapato do pé de Raul para lhe beijar a pele nua, voltou a calçá-lo e repetiu a operação com o outro. Depois voltou a levantar-se, foi buscar a sua própria bebida – desta vez sem tabuleiro – e sentou-se aos pés do dono.
– Bonito – ouviu-se alguém dizer na sala.
A música ambiente parecia ter sido escolhida para ilustrar a relação entre Raul e Teresa: Enya, Lorena McKennit, Sarah Brightman, Leonard Cohen.
Passado tempo suficiente para que Raul começasse a saborear a sua bebida, aproximou-se deles, com bondarina um pouco atrás, o homem bem parecido que tinham visto na companhia dela. Tinha o cabelo muito curto, um casaco de corte clássico em cabedal preto, e não apresentava quaisquer insígnias além de um discreto emblema circular com três semicircunferências a irradiar de um centro. Raul levantou-se para o cumprimentar e Teresa ajustou a posição em que estava para ficar de joelhos.
– Boa noite – disse o homem, dirigindo-se apenas a Raul. – O nome por que sou conhecido aqui é Mestre De Aviz. Creio que já conhece a bondarina: ela pediu-me autorização para falar consigo.
– Passou bem? – disse Raul, apertando-lhe a mão. – Claro que já o conhecia de nome, e tenho muito gosto em conhecê-lo agora pessoalmente. O meu nome aqui é Marco Aurélio. Sente-se, por favor. Esta é a minha escrava selma. Selma, beija a mão do senhor.
Teresa abriu muito os olhos, espantada, mas obedeceu prontamente. Mestre De Aviz sentou-se, enquanto bondarina se lhe ajoelhava aos pés. Raul, que nunca se tinha encontrado com bondarina a não ser de igual para igual, apercebeu-se da perturbação dela quando Mestre De Aviz lhe fez sinal para que o cumprimentasse como Teresa o tinha sido cumprimentado a ele. Pegou na mão de Raul e beijou-lha, de maneira a não deixar ficar mal o dono. Bondarina estava com um vestido vermelho muito curto, de seda ou cetim, meio roto na bainha. Trazia ao pescoço uma coleira de couro gravado, muito bonita, fechada com um cadeado de aço. Estava descalça, como Teresa, o que era perfeitamente compatível com o estilo de submissão estabelecido entre ela e Mestre De Aviz: estavam a tentar uma adaptação do estilo Goreano. Kathy aproximou-se e ficou de pé junto à mesa, hesitante, sem saber se devia sentar-se no chão, como as outras submissas, ou se, por não estar na companhia do dono, deveria sentar-se numa das poltronas, como os dominantes. Bondarina, apercebendo-se desta hesitação, bateu levemente com a palma da mão no chão junto de si, convidando kathy a sentar-se.
A conversa incidiu sobre o que tinha acontecido no Red Moon. Todos sabiam do que tinha acontecido pelos jornais ou pela televisão, mas só depois de falarem com a Baronesa é que tinham ficado a saber que “Marco Aurélio” e “selma” tinham estado envolvidos. Sabiam que tinha sido encontrado nos destroços o cadáver de um homem carbonizado, mas nem Raul, nem Teresa revelaram a identidade desse homem. Teresa contou apenas que tinha sido raptada por um desconhecido que a tinha levado para o Red Moon sem ela saber para quê. Ninguém se lembrou de perguntar como é que Raul tinha sabido onde havia de a procurar; ou se alguém se lembrou, teve a discrição de não o fazer.
Teresa e bondarina ficaram com a tarefa de servir as bebidas, a primeira beijando os pés de Raul sempre que as trazia, a segunda beijando, ao estilo Goreano, o copo que apresentava a Mestre De Aviz. Kathy, sentindo-se na obrigação de as ajudar, acabou por também servir de joelhos os dois homens, inquieta por não saber se isto representava ou não uma traição ao seu próprio dono.
− Não te preocupes – disse-lhe a Baronesa. – Traição era comportares-te como se estivesses acima da bondarina ou da selma. Isso é que deixaria ficar mal o teu dono. Logo eu falo com ele e explico-lhe.
Raul desviou a conversa para outros assuntos: quando ia sair o número seguinte da Dominium, que festas se preparavam, quem tinha encontrado um novo dono ou dona, ou um novo escravo ou escrava. E assim se passou uma noite no Justine, diferente das outras porque todos se lembraram que, para lá do seu mundo consensual, existia outro, violento e cruel, a que ninguém estava imune.
Raul e Mestre De Aviz tinham os carros estacionados perto um do outro. Saíram ao mesmo tempo e foram pela rua a conversar, seguidos por Teresa e bondarina, ambas descalças. Pelo modo de andar de bondarina, via-se que ainda não estava habituada, mas Teresa caminhava como se toda a vida o tivesse feito – o que era verdade pelo menos um mês por ano.
Em casa, quando Raul penetrou Teresa, ela pediu-lhe que ficasse parado um momento dentro dela:
− Quero mostrar-te uma coisa…
Raul sentiu que o sexo dela se contraía e alargava; mas desta vez o movimento não envolvia a vagina como um todo: começava na entrada, apertando-lhe a base do pénis, continuava na secção média, acabava no fundo, onde lhe apertava a glande com força, e recomeçava tudo uma vez após outra.
− Que bom, minha escrava! – disse Raul.
− Ainda não aguento fazer isto muito tempo – respondeu Teresa. − Mas a minha professora de pompoar diz que quando estiver treinada serei capaz de continuar durante horas.
− Pois hoje continua até não poderes mesmo mais. E não te venhas.
− Sim, meu senhor – disse Teresa, contente. E concentrou-se com todas as suas forças em dar prazer ao seu dono.

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Ao entrar em casa de Raul, Carolina apertou-lhe formalmente a mão e deu um beijo na face da irmã. Ainda no átrio perguntou a Teresa onde podia guardar os sapatos; e entrou descalça no interior da habitação. Não explicou a razão deste gesto, nem deu lugar a que Teresa e Raul conjecturassem. Quando a convidaram a entrar para a sala, pediu:
– Posso ver a casa primeiro?
A visita começou pela cozinha, como quase sempre acontece quando tanto a visitante como a anfitriã são mulheres. A sala pareceu a Carolina um pouco nua demais:
– É fácil de limpar… – comentou.
O escritório de Raul fez-lhe lembrar o do pai. Tantos livros… Tinha passado horas felizes, em criança, no escritório do pai. No quarto, ao ver o catre aos pés da cama, levou a mão à boca:
– É aqui que dormes?! – perguntou, incrédula.
– Às vezes – respondeu Raul.
– Muito raramente – corrigiu Teresa. – O Raul gosta de mimos e eu também, dormimos quase sempre abraçados.
Restava o mais difícil.
– Agora, minha irmã – disse Teresa – só falta o quarto dos castigos.
Carolina não sabia se queria ver este quarto, mas também não sabia como negar-se a vê-lo.
– Quarto dos castigos?! – exclamou, aterrada.
– Não se passam lá só castigos – disse Teresa. – Passam-se também outras coisas. O nome, fui eu que o sugeri, e o Raul concordou. Anda ver.
Carolina ficou à porta, sem ousar entrar mais do que um passo, olhando à volta com uma mão a cobrir a boca.
– Além de o apartamento estar todo insonorizado, este quarto, que é interior, tem uma insonorização suplementar – disse Teresa. – Tiveste que subir um degrau para entrar porque instalámos um isolamento no chão por cima do que já existia. Foi instalado por uma firma especializada e é constituído por várias camadas de diferentes materiais, com uma espessura total de doze centímetros. Em cima disso tudo ainda tem o pavimento.
Carolina continuava a olhar em volta, espantada.
– Estás a ver as paredes? – continuou Teresa. – Também foram insonorizadas. Doze centímetros de materiais de alta tecnologia, a toda a volta. O tijolo maciço que reveste tudo foi ideia minha. Ajuda a absorver o som, mas não era preciso porque o que está por baixo é mais do que suficiente.
– É horrível… – murmurava Carolina. – É horrível…
– Seria horrível para ti – disse Teresa. – Sei isto porque te conheço bem. Mas tu também me conheces bem. Sabes muito bem que não sou nenhuma vítima inocente. Não te vou mentir, minha irmã: gritei muitas vezes de dor aqui dentro. Gritei e gritei até não poder mais, e não sei se hoje mesmo não voltarei a gritar até ficar rouca: tudo depende da vontade do meu dono e senhor. Também para isso me dei a ele, não foi só para os beijos e para as carícias, nem para lhe lavar a roupa e servir o jantar.
Carolina não podia suportar aquele lugar. Sentia que a respiração lhe faltava e que as pernas não lhe suportavam o peso do corpo. Não tinha nada contra o facto de Teresa lavar a roupa e fazer o jantar de Raul, ela fazia o mesmo ao Zé Tó e não lhe custava nada – por mais que algumas amigas suas ralhassem contra a sua submissão. Beijos e carícias, tomara ela muitos. Mas tortura?! Um quarto destinado a chicotear a sua irmã dilecta, a sua companheira de infância?! Um quarto que Teresa ajudara, para cúmulo, com a sua inteligência e o seu dinheiro, a adaptar a este fim?!
– Podemos ir para a sala? – perguntou em voz fraca.
– Claro – respondeu Raul, e segurou-a pelo cotovelo.
Quando se sentaram, serviu vinho do Porto às duas mulheres e um whisky a si próprio. Teresa, sentada no chão, tomou entre as suas as mãos da irmã.
– É difícil de compreender, não é?
– De compreender, sim, muito difícil; mas de aceitar, muito mais. Vi-os ontem na televisão e fiquei sem saber o que pensar. Foi por isso que me convidaram para jantar hoje?
– Em parte, sim – disse Teresa. – Tínhamos que nos assumir. Mas estamos ambos aterrados com a reacção das pessoas que gostam de nós.
– O Pai e a Mãe não viram o programa, sabem?
– Foi nessa esperança que o fizemos tão tarde.
– E eu espalhei palavra por toda a gente que o viu que quem falasse dele aos Pais teria que se haver comigo.
– Obrigado, por mim e pela Teresa – disse Raul. – E o que é que a Carolina achou?
– Achei-os sinceros, e isto é o que me perturba mais. Se fossem dois poseurs à procura do seu quarto de hora de fama, tê-los-ia achado desprezíveis… Achei a Teresa muito corajosa, por ir descalça e por lhe ter beijado a mão em público. Depois comecei a pensar que vocês afinal não eram muito diferentes de outras pessoas que eu tinha visto no mesmo programa, e que eu também tinha admirado pela sua coragem. Aquelas tuas opiniões sobre os vários feminismos pareceram-me muito reflectidas, muito lúcidas… Viam-se que eram tuas, que ninguém te tinha feito a cabeça. Fiquei com a ideia que eras contra todas as leis que impõem submissão ou desigualdade às mulheres…
– Como no Irão – interrompeu Teresa.
– Mas se um homem e uma mulher quiserem ter uma relação desigual, ou mesmo muito desigual, ninguém tem nada com isso…
– Ou dois homens, ou duas mulheres… – interrompeu Teresa.
– Sim – disse Carolina, corando. – É isto que é fácil de entender mas difícil de aceitar.
– Se algumas pessoas começarem por entender, para nós já é bom – disse Raul. – O aceitar pode vir depois. Algumas nunca aceitarão.
– Mas porque é que duas pessoas hão-de fazer um acordo desses? – disse Carolina. – E mesmo que o façam, quem nos garante que é livre? Pode ser imposto pela força. Um pode ser mais forte fisicamente, ou mais inteligente, ou mais violento, ou mais influente, ou mais integrado na sociedade, ou mais rico, ou mais assertivo…
– Achas que o Raul tem essas vantagens todas sobre mim? – disse Teresa.
– Só se for a força física – admitiu Carolina. – No resto, se alguém tem vantagem, és tu.
– Pois tenho – disse Teresa. – Na força física ele tem vantagem. No resto, ou estamos equilibrados, ou quem tem vantagem sou eu. Violentos não somos, nem eu, nem ele. E embora todos nós sejamos capazes de um acto violento, a verdadeira violência, a violência a sério, é relativamente rara. Eu sei, porque já me encontrei com ela, e sei que não tem nada a ver com aquilo a que a maioria das pessoas chamam violência. E felizmente que é rara, e que a que há está mais ou menos controlada, porque quem é realmente violento faz o que quer de quem quer. Por isso é que o Onoprienko conseguiu fazer de mim o que fez, embora eu não seja fraca. Hoje não conseguiria, mas apesar disso ainda tenho medo dele…. Mas estamos a desviar a conversa: estavas a dizer o que tinhas achado do programa.
– Uma coisa que me fez um bocado de confusão – disse Carolina – foi tu dizeres que eras feminista. As feministas que eu conheço não fazem vénias aos homens, nem lhes beijam a mão…
– Enquanto eu, ao Raul, em privado, até lhe beijo os pés… mas continua.
– Achei o teu feminismo muito simples. Ora deixa ver se me lembro do que disseste: que a autoridade pública não deve dar a ninguém direitos ou deveres especiais por ser homem ou mulher; nem deve ser usada para que outros imponham direitos ou deveres diferentes a homens e mulheres; e que cada um deve ter o direito de dispor de si próprio. Se ser feminista é só isto, então eu também sou feminista, e isso é uma coisa que nunca me considerei. E deixaste uma coisa de fora: as famílias não devem ter o direito de treinarem os meninos e as meninas para terem comportamentos diferentes.
– E se eles quiserem ter comportamentos diferentes? Devem forçados a ter comportamentos iguais? Não, prefiro manter a coisa assim simples, como disse na televisão. Se não for assim simples, torna-se uma coisa totalitária. Eu posso assumir os deveres que entender em relação ao Raul, e posso reconhecer-lhe os direitos que entender sobre mim. Se alguém me impedir disso, estará a forçar-me: a exercer violência sobre mim.
– E quando a relação é de força…
– Nesse caso – disse Raul – é irrelevante que a força seja exercida por um parceiro sobre o outro, ou que seja exercida de fora sobre os dois. Trata-se na mesma de violência. Foi o que nós dissemos no programa: não se trata aqui de violência minha sobre a Teresa, nem dela sobre mim, mas sim de uma ameaça de violência duma terceira parte sobre nós os dois.
– Terceira parte essa a que eu também pertenço…
– Podes deixar de lhe pertencer quando quiseres – disse Teresa. – Mas isso é decisão tua: nem eu, nem o Raul te pedimos nada.
– A apresentadora disse que vos tinha imaginado de cabedal preto, cheios de piercings, e a ti com uma coleira ao pescoço, meias de rede e saltos agulha… E eu confesso que também vos tinha imaginado com esse aspecto, apesar de nunca vos ter visto usar nada do género. Devo ter imaginado isso por ser o que as revistas mostram…
– As revistas mostram esse estilo por ser o mais vistoso, mas há no nosso meio quem adopte outros estilos, ou até estilo nenhum.
– Foi por isso que disseste à apresentadora que a tua coleira de escrava eram os pés descalços?
– Foi. Como símbolo de submissão, são uma coisa menos óbvia que uma coleira. E com raízes mais antigas na nossa cultura e nos nossos mitos. E mais ambígua, porque tanto podem significar submissão e humildade, como contestação, liberdade, ligação ao mundo natural… Mas já que me lembraste isso, diz-me uma coisa: porque é que te descalçaste ao entrar aqui?
– Não sei bem…Lembras-te que lá para cima, entre a gente do povo, era costume, se a dona da casa estivesse descalça, as outras mulheres que entrassem descalçarem-se também? Era uma questão de boas maneiras. Lembras-te?
– Lembro-me bem, sim… E foi por isso que tiraste os sapatos?
– É… Não sei o que me deu… De repente pareceu-me apropriado.
Teresa sentiu que lhe vinham as lágrimas aos olhos:
– Obrigada, mana… Foi um gesto bonito.
– Não quer dizer nada, até estou mais confortável assim. Só mais uma coisa: disseste na entrevista que os teus deveres para com o Raul eram servir e obedecer, e que nisso estava também o teu prazer. Mas aquele quarto que me mostraste não é um lugar de serviço nem de obediência, é um lugar de sofrimento. Se não tens prazer em sofrer, porque te submetes?
– Tu própria acabas de responder a isso. A palavra-chave é a submissão. Não é a dor que me interessa, é a submissão à dor. Aquele quarto é antes de mais nada um lugar de submissão, e se não fosse isto, não serviria para nada, nem para mim, nem para o Raul. Compreendes isto?
– Compreendo. Ou melhor; não, não compreendo. Entendo a lógica, o que é diferente, mas não há parte nenhuma de mim que se identifique com isso. Em minha casa quem manda é o meu marido, e eu nunca tive problemas com isso, mas nunca tirámos disso prazer, parece-me. Apenas nos pareceu mais… confortável. A vossa vida, essa, parece-me uma coisa estranha, uma coisa fora deste mundo.
– E criminosa, parece-te? Maléfica?
Carolina ficou alguns minutos silenciosa.
– Não – disse por fim. – Criminosa, não. E maléfica também não, Deus me perdoe.
Depois fez outro intervalo de silêncio, durante o qual Raul voltou a pôr vinho do Porto nos copos.
– Aquele quarto, utilizam-no muitas vezes? – perguntou Carolina.
– Não muitas – disse Teresa.
– E como é que fazem quando o utilizam? Combinam previamente?
– Não. O Raul decide sozinho. É o meu dono e dono do meu corpo.
– E és feliz assim?
– Só assim.
– Sabes o que eu imaginava? Imaginava que a vossa vida juntos consistia numa série ininterrupta de tormentos, que era disso e só disso que vocês tiravam prazer…
– E tiramos, indirectamente. Mas o meu verdadeiro prazer, a minha felicidade, está em servi-lo, em obedecer-lhe e em ser propriedade dele para todos os efeitos. Para isto não é preciso ele estar sempre a bater-me. Acreditas se eu te disser que ele nunca me chamou um nome feio na vida?
– Nem tu a mim – interrompeu Raul.
– Mesmo com o Ettore, que no aspecto físico era muito mais duro comigo, que me dava castigos muito mais frequentes e muito mais severos, havia outras dimensões na minha submissão.
Carolina abanou a cabeça:
– Então eras mais submissa ao Ettore…
Teresa ficou um momento a olhar para longe.
– Amei-o muito… Mas não: sou incomparavelmente mais submissa ao Raul.
– Talvez eu um dia entenda isso – disse Carolina. – E você, Raul, de onde lhe vem o seu prazer?
– Vem de muitas fontes – respondeu Raul. – É um prazer de homem, e por isso não é fácil explicá-lo a uma mulher.
– Nem eu o compreendo inteiramente – interrompeu Teresa. – Limito-me a aceitá-lo sem fazer muitas perguntas.
– A parte mais simples do meu prazer – prosseguiu Raul – e sem dúvida a mais egoísta, vem de a Teresa ser qualquer coisa de precioso que me pertence exclusivamente, como um quadro ou um livro.
– E atreve-se a dizer uma coisa dessas?! – Exclamou Carolina.
– Há uns meses talvez não se atrevesse – interveio Teresa. – Fui eu, com muito esforço, que o levei a atrever-se. Mas já estava na natureza dele, como a minha submissão está na minha.
– É verdade, Carolina, devo isso à sua irmã – disse Raul. – Isso, e muito mais. Quanto ao meu prazer: também me vem do prazer dela, mas esta parte funciona um bocado como dois espelhos virados um para o outro: a certa altura já não sabemos onde está a imagem original. É aquilo a que a Teresa e eu chamamos o labirinto. Às vezes entretemo-nos a explorá-lo, mas nunca vamos muito longe. Depois há a parte que me vem da dificuldade, de estar a fazer uma coisa que poucos tentam e menos conseguem.
– Nessa parte, sou igual a ele – disse Teresa.
– A parte principal – disse Raul – vem de sermos um para o outro, de encaixarmos perfeitamente um no outro. Mas aqui já não estou a falar de prazer, mas sim de felicidade.
Ao ouvir estas palavras, Carolina levantou-se, deu uns passos em direcção à janela e ficou a olhar para a cidade iluminada.
– Lá tinha a felicidade que vir à baila – disse, como se estivesse a falar para uma quarta pessoa. − Estes dois são completamente loucos.
E depois, virando-se para Raul:
− Tenho que lhes agradecer aos dois: aprendi muito hoje. Que a minha irmã era louca, eu já sabia desde criança, e nunca me incomodei com isso. Que o senhor é tão louco como ela, estou agora a saber. Disse-me que a sua loucura combina com a dela: só espero que assim seja. Agora está a ficar tarde: é altura de lhes agradecer e de me despedir.
À saída, depois de se calçar, beijou a irmã. A Raul, estendeu a mão:
− Saiba, senhor Raul Morgado, que não vou confiar facilmente em si, e que o responsabilizo pela felicidade da minha irmã.
O que também é, pensou Raul depois de fechar a porta, perfeitamente justo.

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Final do Capítulo 29


O intervalo estava a chegar ao fim, a aula que ia dar a seguir era a última. Ligou para o telemóvel de Teresa:

− Onde estás?
− No shopping, a fazer umas compras.
− Falta-te muito?
− Não, já saí do supermercado e agora ando aqui a ver umas lojas.
− Então vai já para casa e espera lá por mim toda nua. Logo que possa vou ter contigo.
− Sim, meu senhor – disse Teresa. – Meu querido…
Raul desligou o telemóvel, mal dedicando um pensamento a quem quer que o tivesse sob escuta. Que lhes fizesse bom proveito. Foi dar a sua aula, saiu imediatamente, meteu-se no carro, parou numa florista e foi para casa, onde presenteou Teresa com um ramo de rosas. Teresa, que já tinha planeado recebê-lo de joelhos, ajoelhou-se para receber as flores. Depois correu para o interior da casa para as pôr numa jarra com água, e voltou para junto de Raul, igualmente apressada, para retomar a saudação planeada no ponto em que a tinha interrompido. Ajoelhando-se de novo, beijou-lhe a mão e disse:
− Aqui estou, toda nua, ao teu dispor. O que queres fazer de mim?
− Segue-me, minha escrava.
Teresa seguiu-o até ao quarto, onde ele, detendo-se, lhe ordenou:
− Agora despe-me.
Teresa começou por lhe tirar a T-shirt. Como ele era mais alto do que ela, teve que se estirar toda para lha fazer deslizar ao longo dos braços, que ele não esticou para cima, mas sim para a frente. A regra, quando ela o despia, era que lhe fosse beijando cada parte do corpo que fosse ficando a descoberta. Teresa obedeceu à regra beijando-lhe os ombros, chupando-lhe um pouco os mamilos, dando-lhe a volta de modo a poder beijar-lhe as costas ao longo da espinha, regressando por fim ao peito. Aproveitou esta oportunidade para o roçar com os seios sempre que pôde, o que, não sendo exigido, dava prazer aos dois. A seguir tirou-lhe os sapatos e as peúgas, beijando-lhe os pés. Por fim tirou-lhe as calças e as cuecas e beijou-lhe o sexo, que tinha segurado entre as mãos postas como que em oração.
− Vem dar-me um duche – disse Raul.
Enquanto ele se dirigia devagar para o quarto de banho, Teresa, numa corrida, deitou no cesto da roupa suja as peúgas, as cuecas e a T-shirt que lhe tinha tirado, e dispôs outras, lavadas, na cadeira ao lado da cama. No quarto de banho pôs o duche a correr, ajustou a temperatura da água e convidou Raul a subir para a banheira, onde começou por lhe molhar o corpo todo. Para o ensaboar teve que subir também para a banheira, e apesar de ter tomado duche meia hora antes também se molhou e ensaboou.
− Deixa-me esfregar-te, meu senhor…
E começou a esfregá-lo, não com as mãos, mas com o corpo todo, abraçando-se a ele pela frente e por trás, ajoelhando-se para lhe chupar o pénis ou para lhe lavar os pés. Raul aceitava estas homenagens serenamente, como algo que lhe era plenamente devido, mas nem por isso deixava de sopesar ocasionalmente um seio da sua escrava, ou de lhe introduzir dois dedos entre as coxas para a fazer sobressaltar. Teresa, atenta ao seu dever, não se queria excitar demais. Depois de passar o chuveiro por si própria e por ele, secou-se a si própria à pressa e a ele com todos os cuidados. Só uma coisa a desgostava ligeiramente: depois do seu primeiro duche tinha passado por todo o corpo um creme perfumado e amaciador, que agora se escoara pelo ralo da banheira.
− Meu dono… − disse. – Eu tinha passado creme no corpo… Queria estar toda macia para ti… Esperas agora um pouco que passe outra vez?
− Pois sim, minha escrava – consentiu Raul. – Mas antes acompanha-me ao quarto para me ajeitares as almofadas e me deixares confortável.
− Sim, meu senhor – disse Teresa, com um sorriso aberto. – Às tuas ordens.
Raul estendeu-se no meio da cama de barriga para cima. Teresa aproveitou o pretexto de o pôr confortável para se roçar levemente nele; mas, quando o viu de sexo completamente erecto, escapou-se, rindo:
− Vou pôr creme…
Raul apoiou a cabeça na almofada, sorriu ligeiramente, descontraiu-se e esperou até ficar com o pénis de novo flácido. Teresa, ao entrar, sorriu-lhe; depois, ajoelhando-se no seu catre, aos pés da cama, começou a beijar-lhe os pés, depois os tornozelos, subindo-lhe lentamente, com os lábios e com a língua, pelas pernas acima. Por vezes detinha-se neste progresso e voltava um pouco atrás, para logo depois recomeçar. Ao chegar-lhe às coxas subiu para cima da cama e ficou de gatas por cima dele, baloiçando para os lados os seios pendentes de modo a afagá-lo com os mamilos. Deteve-se por muito tempo a beijar-lhe o sexo, que encontrou de novo erecto. “Não estás menos pronto do que eu,” pensou, “mas se não me deres outra ordem vamos ter os dois que esperar”. Raul não lhe deu outra ordem, e assim Teresa continuou a trepar por ele acima, lentamente, lentamente, voltando atrás de vez em quando, quando ele menos esperava. Porque se submeteria ele, sendo Senhor, a esta tortura, sabendo que a podia fazer cessar a qualquer momento com uma simples ordem? Talvez soubesse que a sua escrava, ao torturá-lo, se estava a torturar ainda mais a si própria.
− Continua assim, minha escrava.
“Sim, escrava dele,” pensou. Um ser aberto, sem resistências que tivessem que ser vencidas, pronto para dar e receber qualquer prazer a qualquer momento, capaz de submeter o seu senhor à tortura da espera, mas só ao preço de a sofrer em dobro. Estava pronta. Como estava pronta! Mas primeiro havia os mamilos dele a beijar, as mãos dele a levar aos lábios, o ventre dele a acariciar com os seios, o rosto dele a encher de beijos…
− Mais devagar, escrava.
Mais devagar, mas essa palavra, escrava, a penetrá-la como uma lança, como um falo erecto, a fazer com que dentro dela tudo andasse mais depressa, tudo se precipitasse, tudo reclamasse um desenlace.
− Mais devagar…
E ela, devagar, chegava-lhe finalmente aos lábios, beijava-lhos com fúria, enrolava a língua na dele, acariciava com o sexo o sexo dele, sem ousar empalar-se como lhe exigia o corpo, aguardando uma ordem, apenas uma ordem que do mesmo passo a trespassasse e libertasse.
Mas a ordem não veio. Em vez dela veio uma estocada poderosa, dada por ele de baixo para cima com um movimento súbito dos quadris. Tanto bastou para que ela sentisse, eminente, um orgasmo que se anunciava avassalador. E pediu:
− Meu senhor, posso vir-me?
E Raul respondeu:
− Não.
Não?! Como não?! Como deter a avalanche que já se desprendia, a onda que já se agigantava?! Mas Teresa deteve-a, nunca veio a saber como. Numa escala qualquer que encontrou dentro de si, fez com que o prazer que sentia encontrasse um patamar onde pudesse ficar imóvel, sem subir nem descer, mudando de natureza, tornando-se em parte dor, em parte exaltação, mas continuando a ser algo de desmedido, de sublime. Sem perder um átomo desta estranha volúpia, abraçou o amante, sentiu como ele se movia dentro dela, como se derramava, como arquejava num orgasmo talvez igual ao que lhe negara. Manteve o amante dentro de si enquanto ia ficando flácido. Sentia que a vagina se lhe contraía e distendia como se afinal o orgasmo proibido lhe estivesse a vir, embora sem a sensação correspondente. Beijou Raul, como sempre o beijava depois do amor, mas estes beijos tinham uma urgência diferente. Acariciou-o, mas as carícias eram outras, mais vívidas. Disse-lhe que o amava, e isto era tão verdade como das outras vezes, ou ainda mais. Em vez da frustração inicial começava a sentir outra coisa igualmente intensa, mas agora da ordem da esperança; a excitação sexual era agora, por acréscimo, cerebral. Talvez nem sequer sentisse o desejo de enlaçar o corpo noutro corpo, mas sim de flutuar para sempre neste paraíso novo a que não sabia dar nome. Este estado de exaltação manteve-se enquanto tomou duche com Raul, enquanto se vestiu e arranjou para ir almoçar com ele, e continuou depois durante o resto do dia e para lá dele. Ao sair não pediu, como era norma, que ele lhe permitisse calçar-se, mas sim que a deixasse ir descalça, ao que ele acedeu.
Almoçaram no restaurante da Fundação de Serralves. Visitaram o Museu. Nalguns lugares do jardim o chão era um áspero e magoou um pouco os pés de Teresa. Quando chegaram a casa ela serviu-lhe o jantar, sentou-se-lhe aos pés enquanto ele lia, serviu-lhe um whisky, acendeu-lhe um charuto. Conversaram bastante, mas nenhum dos problemas práticos que tinham a resolver veio sequer à baila. À meia-noite foram-se deitar. Antes de adormecer, Teresa deu-se conta que aquele talvez tivesse sido um dos dias mais felizes da sua vida.

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Alice chegou virgem ao seu décimo sexto aniversário. Tinha sido este o seu trato com Ricardo e Mariana: acolitá-los nos seus amores e nos seus rituais, mas nunca os tocar sexualmente nem ser tocada por eles. O contacto físico não lhe era proibido quando resultasse duma necessidade prática, como pentear Mariana ou ajudá-la a vestir-se, ou até como expressão casual de afecto, mas enquanto manifestação erótica estava fora dos limites estabelecidos.

Do mesmo modo, ninguém se importava que ela os visse nus no quarto de banho ou na piscina, nem que assistisse sem intervir aos seus amplexos de amantes ou aos seus rituais de Senhor e escrava. Afinal tinha sido isto mesmo que ela tinha pedido para aprender quando tinha reunido toda a sua coragem, anos antes, para se abeirar de Ricardo. Assim, assistiu muitas vezes, aparentemente sem outra emoção que não fosse uma intensa mas remota curiosidade, à penetração de Mariana por Ricardo; à liberdade absoluta com que ele lhe usava a vagina, a boca, a abertura anal, fazendo-a gemer de prazer ou gritar de dor; e até aos castigos físicos, muitas vezes cruéis, que ele a fazia sofrer e ela depois agradecia beijando-lhe a mão.

A tudo isto ela assistia como à mais convencional das rotinas. Porém todos os três sabiam que esta impassibilidade era apenas uma aparência e que por trás dela se escondia um veemente desejo de aprender.

Se Alice entrasse sem bater, como era regra, numa parte da casa onde Ricardo se preparasse para possuir ou punir Mariana, ou onde algum dos dois estivesse despido para o duche ou para o banho de sol, fazia e dizia com naturalidade o que tivesse a fazer ou a dizer, e demorava-se o que tivesse a demorar-se: nem menos, nem mais. A mesma regra se aplicava às gémeas Circe e Atena; e em menor grau a quaisquer criadas que Ricardo e Mariana tivessem ao seu serviço, a quem eram pagos salários elevados em troca desta discrição.

Apesar deste despudor institucionalizado, Alice coibia-se um pouco de aparecer nua perante os donos da casa. Sabia que um dia havia de ter, tal como Mariana, um Senhor, mas este Senhor não seria Ricardo; e não via razão para que este desfrutasse com demasiada frequência da visão de um corpo em cuja posse não estava interessado.

Com Circe e Atena não mostrava o mesmo pudor, nem as gémeas em relação a ela. Deusas, ninfas ou génios tutelares, era-lhes igual mover-se pela casa nuas ou envoltas nos seus panejamentos azul-poeira; ou ainda, revezando-se, vestidas como empregadas domésticas tradicionais, indumentária esta que de tão incongruente lhes dava um ar de deusas ou princesas disfarçadas, como numa comédia barroca.

Por outro lado, diante de deusas qualquer espécie de roupa parece vã e qualquer pudor parece frívolo: daí que Alice aceitasse ser banhada e vestida pelas gémeas com a mesma naturalidade com que Mariana aceitava os mesmos serviços de Alice.

Alice não tinha namorado. Também isto fazia parte do trato que fizera com Ricardo. Na escola as outras raparigas achavam estranho que ela se calasse quando a conversa tratava de namoros e aventuras eróticas. Era uma geração em que as raparigas se gabavam, como em gerações anteriores só os rapazes, das suas proezas sexuais: aventuras reais ou imaginadas, bebedeiras, excessos de toda a ordem, acrobacias inverosímeis, penetrações diversas. Só ela não entrava nestas conversas – ela, e também as bem comportadas, as tímidas, as “chocas”; mas ninguém confundia Alice com estas. O silêncio discreto de Alice não provinha de timidez ou fraqueza; as jovens feras que eram as suas colegas sentiam isto, ainda que confusamente; e como não a sentiam vulnerável não a perseguiam nem atormentavam como com crueldade e gáudio faziam às “chocas”. Pelo contrário, olhavam-na com uma mistura de curiosidade e temor, enquanto ela sorria interiormente do saber rudimentar que elas exibiam como se de sofisticação e experiência se tratasse.

Circe e Atena deambulavam frequentemente, juntas ou separadas, pelo mundo mediterrânico. Eram umas estranhas viagens, que nunca se percebia bem se eram de negócios, de família ou de turismo; corriam deste modo a Europa toda; uma vez foram à Índia, onde Alice viu pela primeira vez gente parecida com as gémeas no corpo, na cor e nas feições; outra vez foram ao Sul de Marrocos, onde Alice viu as mulheres berberes de rosto destapado, com decorações que pareciam tatuagens no rosto e nas mãos; os tuaregues, que também são berberes, vestiam-se como as gémeas, dos mesmos tons de azul. Por toda a parte as duas irmãs aparentavam ter familiares, amigos ou associados: mas um dos seus destinos mais frequentes era a Tunísia, o bairro de Túnis correspondente à antiga Cartago dos Fenícios, e foi aqui que se deu a primeira grande viragem no destino de Alice.

Na estação arqueológica estava quase sempre um rapaz muito novo que pelo aspecto poderia ser um parente próximo das gémeas: tão escuro de pele como elas, mas com as feições e o cabelo de um europeu.

Alice viu-o pela primeira vez nos arredores da estação arqueológica de Cartago, sentado num banco desdobrável, diante de um pequeno cavalete, a desenhar. Ao passar com Circe e Atena em direcção ao alojamento que lhes tinha sido destinado, a adolescente mal teve tempo de reparar nele: um vulto envolto nos mesmos panos azuis e cor de lousa que as suas mentoras habitualmente usavam e que a faziam sentir ridícula nos seus jeans de marca e blusões de couro – roupas europeias, urbanas, industriais, que a isolavam do ar e do mundo à sua volta. O jovem teria talvez dezoito ou vinte anos, mas Alice não teve tempo para o ver melhor.

As gémeas saudaram-no com um aceno, ao que ele respondeu com outro para logo se concentrar de novo no trabalho. Alice não viu o que ele estava a desenhar, mas a única coisa que lhe podia servir de modelo era uma massa de cactos, daqueles cujo fruto a se chama figo do diabo ou figo do inferno. Depois, quando ele lhe foi apresentado – chamava-se Harun e apesar do ar de família não foi mencionado qualquer parentesco entre ele e as gémeas – Alice encontrou-se perante um jovem adulto que, apesar de ser apenas um pouco mais velho do que ela, mostrava a autoridade e a experiência de um homem maduro – um homem que suscitava o respeito e mesmo a deferência de todos os presentes, incluindo as gémeas. Tinha no olhar e na postura a altivez meio selvagem duma ave de rapina: o mesmo orgulho que Alice conhecia em Ricardo, um modo de olhar para ela que só não era insolente porque parecia pertencer-lhe por direito incontestável.

Naquele minuto Alice soube sem qualquer dúvida que tinha encontrado o seu Senhor, e que não tinha errado na sua decisão quando iniciara a sua aprendizagem junto de Ricardo e Mariana.

Alice, a rebelde, a selvagem, a virgem guerreira meio punk e meio gótica; Alice, a rebarbativa, a sarcástica – sentiu-se uma fêmea diante de Harun: uma femeazinha macia e dengosa como tantas a quem sempre desprezara. Nos dias que se seguiram começou a prestar-lhe pequenos serviços: transportava-lhe o cavalete, levava-lhe chá de menta muito quente, que é o que melhor mata a sede nos grandes calores do Magrebe, ou ficava simplesmente sentada na poeira ao lado dele, à espera de lhe poder ser útil de qualquer outra maneira.

Começou a vestir caftan em lugar dos seus jeans e T-shirts, a calçar babuchas mouriscas em lugar dos seus característicos Doc Martens.

E depois, de novo em Portugal, tantas vezes falou de Harun às gémeas, tão repetidamente traiu a fascinação que sentia por ele, que Circe acabou por lhe dizer:

– A menina descanse, há-de ser dele.

E esta expressão, “ser dele”, que a jovem teria desprezado um ou dois meses antes como linguagem de telenovela, parecia-lhe agora apropriada e justa – como era apropriada e justa, não era preciso dizê-lo, aplicada a Mariana e a Ricardo.

Nas viagens que fazia com as gémeas encontrava-se muitas vezes com ele, fosse por acaso ou por desígnio: na Tunísia, em Heidelberg, em Paris, em Brugges. Ou então era ele que visitava as gémeas em Braga, onde Ricardo o recebia como se já o conhecesse de antes.

Às vezes fazia-se acompanhar de namoradas, o que provocava em Alice, que já se sentia com direitos sobre ele, ciúmes terríveis.

– Que direito tem a menina a ter ciúmes? – perguntavam-lhe as gémeas, quando ela, não podendo mais, ousava queixar-se. – Ainda não é dele; e mesmo quando for propriedade dele, ele não vai ser de certeza propriedade sua. Se além da menina ele quiser ter uma, ou duas, ou dez escravas, estará no seu direito, e a menina só terá que se dar com elas o melhor que puder.

− Mas o Ricardo só tem a Mariana – objectava a jovem.

− Pois tem, mas isso é uma decisão só dele, que tem a ver só com a natureza dele. A natureza do senhor Harun pode ser parecida com a do senhor Ricardo neste aspecto, mas também pode ser muito diferente: a menina é que vai ter que se adaptar.

Nada disto diminuía os ciúmes de Alice, exacerbados pelo facto de as suas rivais tratarem Harun com uma deferência que nelas lhe parecia servil e falsa: e iludia-se pensando que se a mesma deferência fosse exibida por ela própria, então seria sem dúvida dignificada e honesta.

Uma destas efémeras namoradas, uma jovenzinha muito loura e muito branca, vestida à oriental, que só falava alemão, pareceu-lhe de todas a mais fingida (ou a mais iludida) com a docilidade exagerada de que fazia alarde, tão contrária ao pendor bravio que Alice sabia ser o seu.

– Não se preocupe – dizia-lhe Circe. – Ele já reparou na menina há muito tempo, embora não o mostre. E quer a menina para ele. Essas namoradas com que a menina o via não passam de submissas: nenhuma foi propriedade dele de verdade como a menina há-de ser.

O que era uma submissa? Alice sabia o que era uma escrava: era uma mulher como Mariana, a quem ela tinha escolhido como modelo e ideal de vida. Mas não sabia o que significava a palvra “submissa” a não ser como adjectivo, e isso era o que tanto ela como Mariana eram em relação aos seus Senhores; e Circe também não a esclareceu. De tudo isto só se depreendia, concluiu Alice, que se estava a preparar qualquer coisa que ela não podia saber mas de que todos em casa de Ricardo tinham conhecimento. Por ela, tudo bem, podia esperar.

Como que para confirmar esta impressão, a certa altura Harun começou a aparecer sozinho. Na Europa não usava a djalaba nem os panejamentos com que Alice o tinha conhecido na Tunísia: em vez disso apresentava-se no traje convencional de um europeu que não quer dar nas vistas: botas Timberland, jeans nem muito novas nem muito velhas, e T-shirt de algodão sem desenhos nem letras. Sobre isto punha, pelo tempo frio, um robusto blusão de aviador; e no resto do ano um blusão em cabedal preto, fino e flexível, sem adornos.

Depressa ganharam o hábito de andar juntos. Calcorrearam, nos seus diversos encontros, as ruas de Túnis, de Braga, de Lisboa, de Heidelberg, de Brugges. Ao princípio caminhavam lado a lado pelas ruas, depois ela foi ganhando o hábito de caminhar um pouco atrás dele – não ostensivamente, como as magrebinas com quem muitas vezes se cruzavam, mas discretamente, a meio passo de distância ou menos. Nos recantos dos jardins, nos vãos das portas, trocaram alguns beijos e carícias, manifestações de afecto que só a pouco e pouco se foram erotizando, e que ao erotizar-se foram adquirindo, por vezes, o carácter de um tributo respeitosamente prestado e graciosamente recebido.

Não foram precisas muitas palavras para que a certa altura se estabelecesse entre os dois um daqueles compromissos de que só os muito jovens são capazes: e se era nítido para ambos, tanto como para quem os conhecesse, que havia entre eles um contrato tácito, era igualmente nítido que não era, nem eles queriam que o fosse, um contrato entre iguais.

Tal como Ricardo e Mariana, também Circe e Atena seguiam com atenção esta coreografia de aproximação recíproca.

– A menina sabe que quando fizer dezasseis anos – disse-lhe Atena um dia – já pode deitar-se com um homem sem que ele vá preso. É a lei aqui em Portugal.

Alice não entendeu muito bem a que propósito veio este aviso, se aviso era. Para ela, a Virgem Guerreira, estas leis eram um disparate. Não se considerava uma “menor”. “Se eu quiser ir com um homem, ninguém tem nada com isso”, pensava; “e depois disso, se eu não quiser, também ninguém me obriga, e se obrigar não são cá precisos polícias nem tribunais para lhe fazer pagar bem caro o atrevimento.”

− É por isso que andam todos a preparar o meu aniversário como se fosse a coroação da Rainha de Inglaterra? – retorquiu, subitamente furiosa. – Decidiram que eu ia ser desflorada no meu dia de anos? E quem é que decidiu isso? A minha opinião não conta?

– Ninguém decidiu que a menina vai ser desflorada – respondeu Atena. – Quanto à opinião da menina, por hoje ainda conta; se vai contar ou não no seu dia de anos, isso depende do que combinar com o senhor Harun daqui até lá. O que se vai comemorar não é a desfloração da menina, que pode acontecer ou não acontecer nesse dia. O que se vai festejar é a menina passar a ser uma mulher aos olhos de todos. E esta festa vai ser só o princípio, depois vão ser precisas outras cerimónias… Esta parte vai ser só entre nós, as mulheres. A senhora também vai ajudar.

No espírito de Alice a ira deu lugar à curiosidade:

– A Mariana? Ajudar em quê? Que rituais são esses?

– Depois verá. Não vai querer entregar-se ao seu Senhor ainda fechada, como uma ignorante…

O décimo sexto aniversário de Alice comemorou-se em Braga, na moradia de Ricardo. Quem tivesse assistido, de fora, à minúcia e vagar dos preparativos poderia concluir que ia haver uma longa lista de convidados. Mas não: de Heidelberg foi convidado o casal Liebknecht, Gunther e Silke, em casa de quem Mariana tinha jantado uma vez. De Túnis veio Harun, claro está; e não podia faltar a tia meio hippie de Alice, ou melhor, tia-avó, que no seu tempo tinha corrido meio mundo para depois tomar conta dela quando a menina deixou de ter outros familiares vivos. Esta tia tinha nome de pedra preciosa: Safira; e da prontidão com que tinha acedido ao pedido de Alice para se confiar à educação pouco convencional que lhe dariam Ricardo e Mariana a adolescente concluiu que o conhecimento de Safira e Ricardo, ou de Safira e Mariana, já vinha muito de trás. Para a ocasião a tia de Alice ataviou-se das suas mais belas sedas indianas – as mais escuras e discretas que tinha, de modo a permitir que a sobrinha brilhasse por contraste. Ao todo eram sete pessoas à mesa, com as gémeas a servir, vestidas de criadas – mas não criadas ocidentais, antes servas turcas de fantasia, com as suas calças de harém, os pés descalços, o fez vermelho na cabeça e o bolero curto que não apertava à frente e deixava ver, ao abrir-se, os seios nus.

Os anos duma mera adolescente preparam-se e comemoram-se geralmente em poucas horas: não foi assim com o aniversário de Alice. O maior esforço e despesa foram para as flores que encheram a casa e para as decorações do jardim. Mas a azáfama mais visível começou no dia anterior, com as compras de última hora e com a necessidade de ir buscar os convidados ao aeroporto.

No jantar de festa Mariana usou, para adornar o pescoço, os pulsos e os pés, minúsculas safiras a condizer com o caríssimo, mas severo, vestido azul. Do mesmo azul a gravata de Ricardo, usada com camisa branca a fato cinzento. Gunther e Silke estavam de preto, como competia ao estilo da sua relação; e contrastando com toda esta severidade, Harun esperava de pé, junto à mesa, envolto numa indumentária sumptuosa de príncipe saudita, à cintura uma adaga com o punho e na bainha cobertos de pedras preciosas.

Alice foi, como lhe competia, a última a entrar na sala. Tal como todas as mulheres presentes, estava descalça; mas os pés mal se lhe viam sob a larga roda do vestido de debutante, todo em tons de rosa. As gémeas tinham gasto horas a lavá-la, a perfumá-la, a vesti-la, a penteá-la, a fazer-lhe uma leve maquilhagem, a enfeitá-la – tiara, brincos, colar, pulseira e uma fina corrente de ouro à volta do tornozelo direito, ligada por uma fiada de brilhantes a um anel no dedo do pé.

Harun recebeu-a, muito formal, à porta da sala de jantar e conduziu-a ao seu lugar à mesa, onde a fez sentar. Um ano antes Ricardo tinha começado a treinar Alice, que nunca tinha bebido álcool, a apreciar vinhos: e hoje ela podia, na sua festa, acompanhar cada prato com a bebida apropriada, um pouco de Chablis no fundo do copo, um tinto precioso do Douro a acompanhar a carne, Porto à sobremesa, champanhe aos brindes. De tudo quase só o suficiente para molhar os lábios. Vieram as prendas: de Ricardo um relógio, de Mariana um conjunto de roupa interior bordada, da tia Safira um caftan em seda, dos Liebknecht um alfinete para usar ao peito, das gémeas uns brincos.

Harun deu-lhe uma pulseira de rubis.

Depois de ela a desembrulhar e pôr no pulso fez-se um silêncio na sala, como se a dádiva desta pulseira, que era no feitio daquelas a que se chama “escrava”, fosse o sinal combinado para algo de momentoso. No meio deste silêncio Harun levantou-se e ficou um momento, pálido e muito grave, a olhar de frente para Ricardo.

– Ricardo – disse Harun, – também eu, apesar de não fazer anos, tenho uma dádiva a pedir. Você sabe que dádiva é, todos aqui sabem. A Alice, que hoje se torna aos nossos olhos uma mulher, tem estado à sua guarda. Eu e ela fomos aprendendo a conhecer-nos; e concluímos os dois, sem margem para dúvidas, que é destino dela pertencer-me e destino meu possuí-la. Sabemos ambos, e agradecemos-lho do fundo do coração, que você nunca quis exercer sobre ela os direitos de um dono, mas também nunca recusou exercer as responsabilidades de um mentor. É nesta sua qualidade que ma entregará, se quiser aceder ao meu pedido − que também é o dela: aqui e agora, diante de todos; para que também ela, como a sua Mariana, tenha o Senhor que quer.

Alice corou um pouco. As palavras que ela própria tinha ajudado a escrever e a decorar soavam-lhe agora, saídas da boca de Harun, como um improviso surpreendente e ousado. Olhando à sua volta, viu todos suspensos da resposta de Ricardo, como se também eles estivessem, de facto, surpreendidos.

Ricardo pôs-se de pé e encarou Harun; mas antes de responder desviou dele o olhar, virou-se para Alice, e perguntou:

– Alice, ouviste o pedido que o Harun me fez. Ouviste-o dizer que é também o teu pedido. Isso é assim?

Alice teve que se esforçar para dizer em voz firme e clara as palavras que tinha preparado:

– O meu Senhor Harun falou por mim, Ricardo. É a ele que quero pertencer.

Mas Ricardo não se virou logo para Harun. Olhando para a tia de Alice, disse ainda:

– Safira, ouviu o Harun pedir-me que lhe entregasse a Alice; podia igualmente ter-lho pedido a si, que é a única familiar que ela tem e sempre foi bem-vinda nesta casa. Por isso quero perguntar-lhe: Consente você também, tal como eu consinto, nesta entrega?

Safira sorriu e acenou, com lágrimas nos olhos.

– Pois bem – decidiu Ricardo. – Vá para ali, Harun, se faz favor, onde todos o possam ver. E tu, Alice, vai até ele; beija-lhe a mão em sinal do teu respeito.

Alice levantou-se da cadeira com as pernas a tremer. Levantando o vestido para não enredar nele os pés, dirigiu-se ao seu companheiro de tantas aventuras, agora quase irreconhecível na sua gravidade de homem feito; e pegou-lhe na mão para a beijar. Era uma mão magra e morena, de dedos finos e longos. Pôs nela os lábios, demoradamente, e depois ergueu o olhar ao encontro do dele, que a abraçou e beijou enquanto à volta da mesa as mulheres enxugavam uma ou outra lágrima.

Nessa noite Alice passou o serão sentada no tapete aos pés de Harun, como Mariana aos pés de Ricardo. Tinha tido um dia cheio: além de se preparar para a festa de anos tinha sido recrutada pelas gémeas – ela que nunca desempenhava tarefas domésticas – para preparar o quarto de Harun. Agora, sentada aos pés dele, lembrava-se que só tinham posto uma almofada na cama. A cama de Ricardo era sempre feita com duas almofadas embora Mariana dormisse muitas vezes no chão aos pés da cama e não ao lado do dono. Alice achava estranho que a cama de Harun não tivesse sido preparada também para ela, mas não ousou perguntar porquê. Cansada como estava, e com sono, não pensou em despedir-se e ir para o seu quarto. Pareceu-lhe que devia seguir o exemplo de Mariana, que por mais cansada que estivesse nunca se ia deitar antes do dono; e por outro lado não sabia o que ainda se esperava dela no fim deste seu dia de aniversário. Claro que se entregaria alegremente a Harun se isso lhe fosse exigido; mas não se imaginava ainda a servi-lo como Mariana fazia a Ricardo. Suspeitava intimamente que tudo isto era um mal entendido, que não passava duma miúda insignificante como as outras, que se iniciam sexualmente com miúdos meio parvos. Harun era um homem, com toda a complexidade e força de um homem verdadeiro. E Alice, mesmo que lhe fosse exigido servi-lo nessa mesma noite – o que faria de bom grado, e com carícias plenas – não ousaria ainda pôr o nome de escravidão à sua relação com ele, uma ligação incipiente que, comparada com o amor de Ricardo e Mariana – enraizado, complexo, variado, inabalável – seria ainda superficial e pobre.

Ao serão não se conversou muito: Ricardo pôs música clássica a tocar bastante alto, optando desta vez, não pela sua preferida música de câmara, mas sim por grandes orquestrações sinfónicas de pendor orientalizante ou exótico: o Bolero de Ravel, os Quadros de uma Exposição de Mussorgsky, as Danças Polovtsianas de Borodin, a Dança do Sabre de Khachaturian, as Czardas de Monti, as diversas marchas húngaras ou turcas de Mozart, Beethoven, Brahms – e naturalmente a peça preferida de Alice, aquela que a tinha despertado para a música clássica: a Sinfonia Fantástica de Berlioz, com toda a sua profusão de danças macabras, missas negras, reuniões de bruxas, procissões nocturnas e marchas para o suplício.

Apesar de ter aprendido a gostar de música clássica, especialmente das grandes composições sinfónicas de pendor místico ou romântico, a música preferida de Alice não era esta. No seu quarto e no MP3 tinha Loreena McKennitt, Enya e os Clannad, os Nightwish, grupos de black metal, Mafalda Veiga entre os portugueses, e ainda grupos tão diversos como The Cult, os Joy Division, os Bauhaus, os Pink Floyd ou os Red Hot Chilli Peppers, ou nomes individuais que iam de Peter Murphy a Frank Zappa; mas na sala e na biblioteca de Ricardo não era isto que geralmente se ouvia e Alice não se sentia lá deslocada.

Gunther e Silke beberam bastante, Safira também. Ricardo, Mariana e Alice só um pouco de vinho, o necessário para fazer civilizada justiça a cada prato. E Harun nem isso, só o champanhe do brinde que Ricardo propôs em honra de Alice, que hoje deixava de ser criança e começava a sua nova vida de mulher. Por insistência de Gunther, cantou-se a seguir ao jantar: uma canção tradicional de estudantes de Heidelberg, da qual pelos vistos todos os mais velhos sabiam a letra. Uma das estrofes ficou particularmente na memória de Alice:

Vivant omnes virgines Faculae, formosae; Vivant et mulieres, Tenerae, amabiles, Bonae, laboriosae, Bonae, laboriosae.

Por fim Harun retirou-se com Ricardo para o escritório deste. Gunther foi para o jardim fumar um dos charutos de Ricardo. Mariana começou a arrumar a sala e a cozinha na companhia de Atena e Silke, mas, quando Alice fez menção de as ajudar, a outra gémea – que ao contrário da irmã tinha trocado o seu fantasioso uniforme de criada turca pelos seus habituais panejamentos azuis – fez-lhe sinal para que a seguisse.

No quarto fê-la despir completamente e ordenou-lhe que se deitasse em cima da cama. Debruçando-se sobre o corpo dela, começou a examiná-la minuciosamente, dos dedos dos pés aos cabelos, tomando notas num pequeno caderno. Por fim ordenou-lhe que se sentasse em frente ao toucador.

– Esta vai passar a ser a sua rotina todas as noites – observou.

Alice obedeceu. O toucador era muito baixo na zona do espelho, e quando a jovem, a uma ordem de Circe, abriu as pernas, viu reflectida a fenda do sexo e os lábios rosados da vulva por entre a pelugem sedosa que a velava tenuemente de negro.

– Olhe bem para si. Veja o que tem a dar ao seu dono. Os pelos em baixo são para ficar: é assim que ele gosta. Depois, quando ele a tiver visto nua, podemos ter que lhes dar outro corte. O cabelo é para crescer. As unhas, vai passar a usá-las curtas e cortadas em quadrado. Esses vernizes pretos ou vermelhos que gosta de usar acabam hoje: a partir de agora serão nacarados ou transparentes, ou rosa pálido. E para já a primeira coisa que vamos fazer é tirar-lhe o verniz das mãos e dos pés.

No toucador estavam já o frasco de acetona e as bolas de algodão que iam servir para isto.

– Chegue o banco para trás, se não se importa – ordenou Circe.

Logo que teve espaço ajoelhou-se aos pés de Alice e começou a remover-lhe meticulosamente o verniz das unhas: primeiro as mãos, depois os pés. Com um leite de limpeza tirou-lhe a maquilhagem escura à roda dos olhos e o bâton cor de sangue que lhe avermelhava os lábios. Feito isto, molhou-lhe o cabelo com um spray, escovou-lho a direito e aparou-lhe algumas pontas mais espigadas, repetindo que aquilo era mesmo para crescer.

– Agora vá lavar os dentes.

Alice assim fez, com pasta e escova e com uma máquina cuja cabeça rotativa lhe limpava todo o interior da boca com um finíssimo mas forte jacto de água.

– Tire os piercings, por favor.

Alice não tinha outros piercings que não fossem um no umbigo, outro na ala do nariz e os brincos, mas mostrou-se renitente:

– Não vou poder usar mais piercings?

– Provavelmente vai – respondeu Circe. – Mas serão os que o seu dono ordenar, e não os que a menina quiser.

Sem resposta para isto, Alice obedeceu.

– Agora um duche – apressou-a Circe. – Ande, mexa-se.

No duche lavou-lhe o cabelo três vezes com champô; depois, com sabonete, o corpo todo, da cabeça aos pés. Para não molhar as roupas tinha-se posto também nua, e Alice sentia-se minúscula junto daquele corpo negro e gigantesco que a dominava completamente. Especial atenção foi dada ao ânus e à vagina: para lavar aquele Circe introduziu-lhe diversas vezes o dedo molhado em sabonete, e depois sem nada, só com o jacto de água do chuveiro. Esta última penetração doeu um pouco, mas Alice fez por não dar mostras disto. Lavar por dentro o sexo de Alice sem lhe romper o hímen exigiu o recurso a um irrigador vaginal com uma cânula muito fina, que as grandes mãos de Circe manejaram com uma delicadeza surpreendente.

“Tanta coisa por causa duma convenção sem importância como a virgindade”, pensou Alice. “Uma membranazinha que não vale nada.” Contudo não deixava de se sentir lisonjeada com a atenção que toda a gente à sua volta prestava à tal membrana, como se todos naquela casa, incluindo a sua tia libertária e meio hippie, tivessem voltado ao século XIX ou à primeira metade do seguinte.

Terminado o duche, Circe secou Alice com uma toalha felpuda e alisou-lhe os cabelos com uma escova. Fazendo-a sentar num pufe, rapou-lhe cuidadosamente os pelos debaixo dos sovacos e depilou-lhe as pernas com cera quente. Depois de lhe observar cuidadosamente as sobrancelhas, decidiu deixá-las como estavam: eram negras, rectas e espessas, mas combinavam bem com os olhos escuros e brilhantes, os lábios carnudos e as duas covinhas aos cantos da boca.

– Posso-me vestir? – perguntou a jovem, quando pensou que a toilette estava pronta. Circe sorriu antes de responder:

– Ainda falta um bocado. Tem que aprender a cuidar de si para o seu dono, sabia?

–E esta toilette toda é para ir ter com o Harun?

– Quando ele a mandar chamar sou eu que a levo. Isto é, se a mandar chamar, pode não se querer servir da menina esta noite. Não é para ir ter com ele que se está a preparar,vai ser assim todas as noites: nunca se irá deitar sem estar arranjada.

– E vou ter-te a ti para me arranjares todas as noites?

– Por pouco tempo, só até ter a sua criada. E além disso vai ter que aprender a fazer muitas coisas sozinha. Agora chega de conversa, as senhoras estão à espera, venha comigo.

Alice imaginou-se a ter uma criada, ela, a miúda meio selvagem que passava a vida a entrar e a sair, como um gato, da casa de Ricardo; mas a ideia não lhe desagradou e deixou-se conduzir, nua, através dos corredores da casa, até um compartimento junto ao quarto de Ricardo que Mariana utilizava muitas vezes como sua sala de estar privada. Sentadas no sofá ou em pufes estavam todas as mulheres que tinham estado presentes ao jantar: mas o que chamou imediatamente a atenção de Alice foi o objecto que se encontrava no centro da sala: uma sólida e pesada base de madeira da qual sobressaía, erguendo-se na vertical, um falo em ébano ou pau preto, minuciosamente esculpido com signos cabalísticos que lhe davam um aspecto rugoso, não muito diferente daquele que a tessitura das veias dá a um pénis natural. Só a glande, perfeita na forma, era perfeitamente lisa, como a de um pénis verdadeiro. Pénis verdadeiros, erectos, Alice só tinha visto um, o de Ricardo, e tocado noutro, o de Harun. À luz das velas, que eram a única iluminação da sala e espalhavam no ar um perfume de incenso, Alice não podia ver o falo de ébano em todos os seus pormenores, mas notou que era todo a direito, sem a ligeira curvatura para cima do pénis de Ricardo. Seria isto uma imperfeição? Ou seria que nem todos os pénis eram como o de Ricardo? Seria o de Harun assim como este, a direito? Impossível era não ver neste artefacto um objecto precioso, talvez sagrado, longamente trabalhado e utilizado com veneração ao longo de décadas ou séculos. Ao polimento perfeito somava-se um brilho oleoso que se manifestava nos reflexos alaranjados das velas.

As mulheres entoavam, muito baixo, uma espécie de cantilena da qual Alice não foi capaz de distinguir nem as palavras, se as havia, nem a melodia, nem o ritmo.

− Curve-se – ordenou Circe. – Agarre os tornozelos com as mãos.

Em vez de obedecer, Alice perguntou:

− Onde está o Harun?

− Sabe que a menina está aqui – respondeu-lhe Circe num tom doce. – Sabe o que lhe vai acontecer, só não sabe aquela parte que é um segredo de mulheres. Autorizou tudo. Agora faça o que eu lhe disse, se faz favor.

Tudo isto estava muito longe do que a jovem esperara para aquela noite. Mas obedeceu, levada por um sentimento de inevitabilidade, e também pelo efeito hipnótico da cantilena das mulheres, da luz das velas, do aroma a incenso, e ainda por um certo prazer da aventura que a impelia a entregar-se de olhos fechados ao que desse e viesse.

Pôs as mãos nos tornozelos. Sentiu que Circe se aproximava dela por trás e lhe acariciava o sexo muito levemente. Depois sentiu que lhe era passado um unguento ao longo dos lábios vaginais, primeiro só por fora, depois cada vez mais por dentro até lhe lubrificar toda a vulva até ao hímen. Levantando um pouco a cabeça viu Atena, que lubrificava cuidadosamente, a todo o comprimento, o falo negro que se erguia do chão e que pareceu subitamente enorme aos olhos da jovem.

Esta preparação, e os cânticos cada vez mais ritmados que a acompanhavam, prolongaram-se por tanto tempo que Alice deu por si a desejar que tudo terminasse, que Circe, ou Atena, ou uma das outras pegasse naquele instrumento – que era óbvio que ia servir para a sua desfloração − e lho introduzisse no corpo, pouco importava se com brutalidade ou meiguice: contanto que por fim acontecesse.

Mas não foi assim que as coisas se passaram. A cantilena das mulheres consistia agora num arfar lento que soava como a respiração dum atleta cansado, ritmo este que algumas delas acompanhavam com leves batidas das mãos sobre a carpete. Circe ordenou a Alice que se pusesse de pé, com as pernas ligeiramente abertas, sobre o falo de ébano e que se fosse agachando sobre ele até lhe sentir a ponta à entrada da vagina. Alice assim fez. Procurou empalar-se nele um pouco mas quando sentiu um laivo de dor parou e elevou-se de novo uns milímetros. De novo se baixou até sentir dor, e começou assim um movimento de vai-vem quase imperceptível, gemendo um pouco com a dor e com o esforço. À sua volta as mulheres gemiam em uníssono com ela, num ritmo lento como o dela, como se todas elas estivessem também a forçar as articulações dos joelhos e das coxas e como se todas sentissem a mesma dor. O falo negro, firme no chão, era o centro da sala, o centro do mundo, o centro do corpo de Alice; nada mais lhe importava, naquele momento, do que vencer com a brandura da sua carne a rigidez implacável que pouco a pouco se ia introduzindo nela.

Ninguém a forçava, ninguém a ajudava. Circe e Atena tinham-se sentado com as outras mulheres e respiravam agora, e gemiam, ao mesmo ritmo que elas. E esta respiração, este canto, ia subindo de volume, acelerando o ritmo, controlando o corpo de Alice como uma música irresistível. Até que num dos movimentos descendentes, levada pelo cântico das mulheres, a jovem se empalou completamente e soltou um grito de dor, prontamente abafado mas logo ecoado nas vozes das outras.

Assim se manteve durante um momento, agachada, com os quadris imóveis, os olhos fechados, a cabeça lançada para trás, lançando um longo suspiro que ela própria não saberia dizer se já era de alívio, se ainda de dor. As outras mulheres estavam agora todas de pé à volta dela, segurando-a para que não se desequilibrasse, alisando-lhe o cabelo, enxugando-lhe o suor, murmurando-lhe palavras que eram carícias. Passado um longo momento recomeçou o movimento para cima e para baixo, muito levemente, muito a medo, como que para experimentar a sensação. Quando por fim parou, as mulheres não a fizeram levantar imediatamente: esperaram que ela abrisse os olhos e que a respiração se lhe normalizasse, para então a ajudarem, lentamente e com infinitos cuidados, a retirar o falo de dentro do corpo.

− Não te ponhas já de pé – disse-lhe a tia, que se aproximara de maneira a que as suas cabeças quase se tocassem. − Senta-te um pouco sobre os calcanhares. Queres ver uma coisa?

Quando Alice, ainda um pouco aturdida, acenou que sim, Safira desprendeu da base de madeira o falo de ébano, sobre o qual se podia ver um pequeno farrapo de sangue, e mostrou-o à sobrinha:

− Vou dizer-te um segredo. Foi este mesmo falo de ébano que me desflorou a mim, há muitos anos. É um objecto sagrado. Eu era ainda mais nova do que tu és agora, e vivia em África, longe de tudo. Os meus pais tinham morrido, os meus outros familiares ainda não tinham dado com o meu paradeiro e eu estava com a minha tribo adoptiva, o meu pai e a minha mãe adoptivos: o dia em que me tornei mulher, com toda a aldeia a acarinhar-me, foi um dos mais felizes da minha vida. Depois, quando os meus parentes brancos me foram buscar, a minha mãe preta deu-mo como presente de despedida: sabia que não voltaria a ser usado naquela aldeia, que as autoridades brancas não o permitiriam. E eu, mais tarde, por razões que talvez te conte um dia, dei-o à Mariana.

Alice estava demasiado confusa para saber o que pensar desta revelação. Como qualquer adolescente, tinha pensado muito no fim da sua virgindade, e como todas elas tinha sonhado com uma ocasião cheia de afecto e magia; mas pensara sempre que essa magia e esse afecto lhe viriam contidas no apaixonado abraço dum homem – quantas fantasias solitárias tinha tido em que os protagonistas tinham sido (não contando com a habitual colecção de celebridades) primeiro Ricardo, e depois Harun! Nunca pensara que lhe viessem, numa onda avassaladora e quente, dum círculo de que faziam parte as duas mulheres importantes da sua vida: a tia Safira, que a ensinara a nunca ligar a convenções, e Mariana, que invejara e aprendera a admirar pela absoluta dádiva de si que fizera a um Senhor. Mesmo as gémeas, que tinham presidido à cerimónia com a majestade de duas deusas, e até Silke Liebknecht, tinham contribuído para criar não só o ambiente certo, mas o universo certo para uma iniciação que ela nunca quisera trivial e não fora, de facto, trivial.

Mas ainda era virgem ou já não era?

− Nota bem que ainda és virgem – disse-lhe a tia, como se lhe tivesse adivinhado os pensamentos. – Só tens o hímen rasgado, é tudo. Na minha tribo isso significava que a menina já era mulher e estava pronta para servir o guerreiro que a comprasse. Mas os meus parentes vieram-me buscar antes que um guerreiro me comprasse aos meus pais adoptivos, e foi assim que passei os anos seguintes: mulher e virgem pelo critério da tribo, menina e virgem pelo critério dos meus parentes, a quem nunca contei a minha desfloração. Nem os meus parentes a teriam compreendido: teriam mandado arrasar a aldeia e prender toda a gente. Mesmo sem isso, só pelo facto de a tribo me ter adoptado, moveram influências para colocar na região um administrador e uma missão católica…

Circe aproximou-se das duas e interrompeu a conversa, estendendo a mão a Alice para a ajudar a levantar-se:

− Acha que consegue vir até à banheira?

Para as outras mulheres estas palavras foram o sinal para abandonar a sala, o que fizeram despedindo-se de Alice com beijos e carícias. O quarto de banho que Mariana compartilhava com Ricardo, e onde agora se ia completar a iniciação da jovem, estava equipado com uma banheira de hidromassagem que Circe encheu até mais de meio. Adicionou-lhe sais aromáticos e esperou que Alice se metesse na água, que estava escaldante. Alice experimentou com um pé:

– Está quente! Não consigo entrar!

− Entra devagarinho – respondeu Circe.

Muito devagar, Alice introduziu um pé na água, depois o outro, e começou a agachar-se, molhando com chapadas de água cada parte do corpo antes de a mergulhar para se ir habituando à temperatura. A pele clara ia ficando cada vez mais vermelha. De repente soltou um pequeno grito de dor: a carne tenra do sexo, dorida da invasão a que tinha sido sujeita pouco antes, tinha acabado de tocar na água quente. Por fim conseguiu sentar-se e suspirou de alívio enquanto se reclinava para trás com os olhos fechados. O corpo, mesmo as partes que não estavam imersas na água quente, estava todo molhado de suor ou do vapor de água, e os cabelos colavam-se-lhe à cara.

– Está bem, menina? –perguntou-lhe Circe.

Como única resposta Alice soltou um suspiro de satisfação. Circe ligou o dispositivo de hidromassagem e disse:

– Então descanse um pouco e relaxe. Eu já volto.

Alice começou a deixar-se invadir por uma grande calma à medida que o corpo se adaptava à temperatura da água. Quando Circe voltou – Alice reparou que estava de novo vestida com os seus panejamentos azuis – trazia numa bandeja duas flûtes de champanhe.

– Para bebermos juntas.

Alice ainda protestou um pouco, não estava habituada ao álcool e já tinha bebido ao jantar; mas Circe, ignorando todas as objecções, pôs-lhe o champanhe na mão e ergueu o copo:

– À sua felicidade, minha querida. Que a sua vida esteja sempre de acordo com o seu destino.

Alice sorveu o champanhe em pequenos goles, fazendo-o durar. Que observação enigmática, esta de Circe… Então a vida não está sempre, por definição, de acordo com o destino de cada um? Ou dar-se-á o caso de haver destinos que não se realizam? Talvez haja, concluiu. Talvez uma vida falhada seja isso mesmo. Talvez o mais indigno cativeiro seja uma pessoa falhar o seu destino, mesmo que este destino seja a escravidão; e talvez a única verdadeira liberdade seja realizá-lo.

Quando o vinho deixou de estar fresco e de lhe saber bem, pousou o que restava na plataforma de mármore à cabeça da banheira e fechou de novo os olhos, até que a água lhe começou a parecer fria.

– Não quero mais…

Era tempo de sair da banheira. Tinha a pele vermelha, as pontas dos dedos encarquilhadas, e sentia-se mais limpa do que alguma vez estivera. Circe envolveu-a, sem a secar, num roupão de pano turco e conduziu-a de novo ao seu quarto, onde a fez deitar nua sobre um toalhão estendido na cama e lhe passou por todo o corpo um creme hidratante, deliciosamente macio e perfumado. Não negligenciou nenhuma prega do corpo, nem mesmo os refegos mais íntimos entre as coxas, e demorou-se na tarefa com tanto vagar que Alice se começou a sentir sonolenta.

Mas antes que adormecesse Circe obrigou-a a levantar-se e a sentar-se numa poltrona com os pés mergulhados numa bacia de água quente que foi buscar à casa de banho. Sentada num pufe à frente da jovem, começou a tratar-lhe das mãos: arranjou-lhe as cutículas, cortou-lhe e limou-lhe as unhas e envernizou-lhas com uma mistura de vernizes que tinha preparado: metade transparente, um quarto cor de pérola nacarada, um quarto cor-de-rosa pálido. Enquanto o verniz secava, começou a tratar-lhe dos pés:

– Que solas de selvagem – observou.

Alice tinha, com efeito, as solas dos pés duras e ásperas, e foi necessário amaciar-lhas longamente com pedra-pomes. À medida que a água da bacia arrefecia, Circe substituía-a de maneira a mantê-la sempre quente. Por fim secou-lhe os pés, colocou-lhe bolas de algodão entre os dedos e tratou-lhe das unhas usando todos os instrumentos duma pedicura profissional – ou pelo menos assim parecia a Alice, para quem esta experiência era nova. Terminou este tratamento pintando-lhe as unhas com a mesma mistura de vernizes que tinha usado nas mãos.

Por esta altura a jovem tinha o cabelo quase seco: Circe passou-lhe um pouco de espuma de pentear e começou a escovar-lho com repetidas passagens de escova, mais de cem, até que ficou completamente seco só pela acção da escova, e brilhante como ela poucas vezes o tinha visto. Pôs-lhe creme no rosto, massajando suavemente com as pontas dos dedos. Como maquilhagem limitou-se a sombrear-lhe um pouco os olhos e a sublinhar discretamente as linhas das pálpebras: os lábios, naturalmente vermelhos, ficaram por pintar.

O verniz das unhas estava completamente seco; Circe amaciou as mãos e os pés de Alice com outro creme e fê-la levantar e rodar sobre si mesma para uma última inspecção.

– Está pronta – declarou. – Ponha este vestido.

– Sem nada por baixo?

– Sem nada por baixo.

Já não era o vestido de debutante que ela usara ao jantar, mas um traje formal em estilo romântico: um vestido de noiva se não fosse preto e roxo.

– Agora as jóias – disse Circe.

Por brincos pôs-lhe umas grandes argolas de prata, que juntamente com o cabelo cuidadosamente despenteado lhe davam um ar meio de cigana. Pôs-lhe colares à volta do pescoço, de vários comprimentos e materiais. Pulseiras nos braços, correntes nos tornozelos, e no dedo anelar esquerdo um anel com uma pedra negra. Alice já conhecia este anel: tinha visto outros iguais nas mãos de Mariana, Ricardo, Harun e outras pessoas. Sabia o que ele significava: que o seu portador era Senhor ou escravo de alguém. O metal de que era feito, cinzento escuro e muito leve, chamava-se titânio. Ajeitou o anel no dedo, como que para confirmar a sua aceitação, e perguntou:

– É agora que vamos ter com o meu dono?

– Não. Agora esperamos que ele a mande chamar. Já lhe disseram que a cerimónia com as mulheres terminou. Ou pode mandar dizer que podes ir para a cama, se tiver mais em que pensar do que em servir-se de ti.

E foi assim que Alice se sentou na pequena poltrona ao canto do quarto, entre expectante e desconsolada, com um vago sorriso no rosto, de pés nus e vestida como para uma festa, à espera de qualquer coisa ou de nada.

Mas não foi preciso esperar muito até que o telemóvel de Circe tocasse e ela dissesse, depois de escutar uns segundos, que sim, que já iam.

– Junte os pulsos atrás – ordenou Circe. – Está com sorte. O seu Senhor quer vê-la.

Alice deixou que a outra lhe prendesse os pulsos com duas pulseiras de prata unidas por um cadeado. Assim presa – lembrando-se de todas as vezes que tinha visto Mariana arranjada de forma semelhante, e do misto de admiração, inveja e receio que tinha sentido – foi conduzida ao quarto de Harun, quarto que ela própria tinha ajudado a preparar com tanto cuidado e minúcia.

Harun estava de pé, como que à espera, com um robe de cetim cor de creme sobre um pijama de seda da mesma cor, e tinha calçadas umas chinelas marroquinas de couro na cor natural. Saudou Circe primeiro; e a seguir, com um sorriso terno, saudou a jovem:

– Olá, Alice.

Alice quis responder “olá, meu Senhor”, mas não ousou. Ousá-lo-ia alguma vez? Em tom sumido, respondeu:

– Olá, Harun.

– Dispa-a – disse Harun a Circe.

Era fácil. O vestido abria por trás com um fecho éclair e as alças podiam ser desprendidas, de modo que foi possível tirá-lo sem libertar os pulsos da jovem. Alice nunca se tinha mostrado completamente nua a Harun, mas durante um longo namoro já tinha sentido muitas vezes as mãos dele debaixo da roupa, acariciando-lhe a cinta, os seios e por vezes, deliciosamente, o ventre. Agora não sentia vestígios de pudor ou vergonha, nem outra coisa que não fosse um enorme orgulho por se apresentar nua e bela, depois de uma tão longa e minuciosa preparação, diante dele. Quando ele a mandou dar uma volta sobre si mesma para que ele a visse toda, obedeceu com prazer, fazendo questão de empinar provocantemente os seios e as nádegas como se estivesse há longo tempo habituada a exibir-se assim.

Quando a viu de novo virada para si, Harun fez um gesto discreto em direcção ao chão. Circe, atenta a este sinal, disse docemente à jovem:

– Ajoelhe-se, minha querida.

Com as mãos presas não era fácil obedecer graciosamente a esta ordem, mas Alice conseguiu fazê-lo de um modo não demasiadamente desajeitado, o que suscitou a Harun um sorriso de aprovação.

– Tire-lhe as pulseiras – ordenou.

E para Alice, quando a viu com as mãos livres:

– Abre-me o roupão.

Com o roupão aberto, a jovem viu a ponta do pénis que lhe espreitava da abertura das calças de pijama. A um gesto dele, Alice tirou-lho completamente para fora: já lhe tinha tocado várias vezes e conhecia a sensação de o sentir crescer e enrijar-lhe nas mãos, mas nunca o fizera com esta liberdade, sem camadas de roupa a constrangê-la. Mais uma vez o sentiu crescer. Viu que era diferente do de Ricardo: todo a direito, como o falo de ébano de há pouco. A glande, avermelhada e macia, fez nascer nela um desejo que nunca tinha sentido antes.

– Posso dar-lhe um beijo? – inquiriu, timidamente.

Harun sorriu de novo:

– Sim, podes, meu amor. Um dos teus deveres, de futuro, vai ser servir-me com a boca. Mas não quero só um beijo, quero muitos. Beija-me o pénis já hoje como a escrava que vais ser, e não pares até eu to permitir.

Lembrando-se da reverência e respeito com que as mulheres da casa tinham rodeado, horas antes, o falo de ébano que a tia Safira trouxera de África há tantas décadas, a jovem começou a beijar cuidadosamente o falo vivo do seu dono, mal ousando, por vezes, um movimento de sucção. Sabia, pelo que tinha visto Mariana fazer a Ricardo, que também o podia lamber, chupá-lo, introduzi-lo na boca até ao fundo; mas não queria fazer isto sem que lhe fosse ordenado, e além disto tinha um pouco de medo de se engasgar ou ter vómitos. Assim foi prolongando uma longa sucessão de pequenos beijos na glande de Harun; e sentia ao fazer esta carícia um prazer que não saberia explicar mas que era real e intenso.

Harun, por seu lado, parecia disposto a contentar-se toda a noite com aquela carícia incipiente: foi afagando os cabelos da sua jovem amante e só ao fim de logos minutos acabou por dizer:

­– Chega, minha querida. Agora ajuda-me a despir…

Alice levantou-se para lhe tirar o roupão, que entregou a Circe para que o guardasse. Depois o casaco do pijama, que era de modelo antiquado, com botões à frente.

– Beija-me os mamilos – ordenou Harun.

Alice flectiu um pouco os joelhos para obedecer. Segurou-se às ancas do amante e começou a beijar-lhe o peito e os ombros. Sentia-se agora mais afoita, e foi quase sem hesitação que começou a dar-lhe chupões com alguma força, a que Harun reagia murmurando “sim”, “sim minha querida”, “sim minha escrava”. Com as mãos nas ancas do dono, a tentação de lhe baixar as calças do pijama era quase irresistível, tanto mais que o pénis, embora ainda visivelmente erecto, se encontrava agora de novo tapado pelo tecido. Mas quando fez menção de lhe baixar as calças ele deteve-a:

– Não, minha escrava, primeiro os chinelos.

Desta vez a jovem não precisou de qualquer ordem: sabia que ao despir o dono a regra era beijar-lhe as partes do corpo dele que ia pondo a nu. Já era assim com Mariana e Ricardo, e a ela parecia-lhe ser este um procedimento perfeitamente justo e natural. Posternando-se, beijou-lhe os pés com vagar e ternura, e ao fazê-lo começou a sentir que o seu ser se diluía num vórtice em que ela própria cada vez mais era nada e o dono daquele corpo que beijava cada vez mais era tudo.

– Agora o resto – ouviu-o dizer, como que de muito longe.

O resto era as calças, que Alice puxou para baixo numa pressa febril, ansiosa por ter de novo ao alcance dos lábios aquele ceptro real de ponta tão macia; mas Harun só lhe permitiu mais um beijo antes de interromper a carícia, ordenando-lhe que fosse para junto da cómoda e tirasse todas as jóias que tinha no corpo.

Que instinto levou Alice a deixar para o fim os brincos? Como poderia ela, ainda tão jovem, saber que o remover dos brincos duma mulher é por vezes, para o homem que a observa, um espectáculo completo de strip-tease? O certo é que o fez, e é certo também que esta acção não passou despercebida a Harun, que sorriu de novo. Quando a viu nua de roupas e de jóias, pegou-lhe na mão e conduziu-a à cama, que ele próprio abriu para que ela se deitasse. Cobriu-a ternamente, deu-lhe um rápido beijo na boca a que ela tentou responder lançando-lhe os braços ao pescoço, sem que ele todavia o permitisse.

Quando a viu deitada, Harun virou-se para Circe:

– Ponha a esteira para ela aos pés da cama, por favor. E ligue o candeeiro de halogéneo. Depois pode deixar-nos sós. Amanhã venha buscá-la para começar a instrução. Cuide bem dela: deixo-a entregue a si e à sua irmã durante a minha ausência.

Enquanto Circe cumpria estas instruções – a esteira consistia somente num fino colchão em espuma de borracha, num saco-cama e numa pequena almofada – Harun deu a volta à cama e deitou-se ao lado de Alice, que estava dividida entre a felicidade de estar na cama ao lado dele pela primeira vez na vida e a consciência de que esse privilégio não lhe ia ser concedido pela noite inteira. E que instrução era aquela que ia começar no dia seguinte? E porque falava o seu amado duma ausência? Para onde ia ele, logo depois de a ter feito mulher?

Mas não se atreveu a perguntar nada: ele faria o que quisesse e ela, escrava, esperaria sempre por ele o tempo que fosse preciso.

Assim que os dois jovens ficaram sós, Harun afastou de novo para trás as roupas da cama e, debruçando-se sobre a sua escrava, começou a examiná-la da cabeça aos pés, miudamente, interessando-se tanto pela textura das sobrancelhas – que alisou com um dedo – como pela forma das orelhas, o recortado dos lábios, as expressões que lhe perpassavam pelo rosto quando ele lhe beliscava na nádega ou lhe acariciava levemente um mamilo. Assim foi descendo pelo corpo dela abaixo, atento e curioso, entremeando esta observação minuciosa com pequenos beijos em cada parte do corpo que visitava: nos cantos da boca, na covinha do queixo, na base do pescoço, nos ombros, na curva do cotovelo… Alice estava tão temerosa como ansiosa pelo momento em que ele lhe examinaria a vulva, os lábios vaginais que sentia húmidos, o clitóris intumescido. Desejou que a luz não estivesse tão forte, mas depressa entendeu que isto era intencional, e resignou-se. Os beijos ternos que ele lhe ia dando por toda a parte excitavam-na e tranquilizavam-na ao mesmo tempo, e foi sem hesitar que abriu as pernas quando ele mandou; apenas fechou os olhos e virou a cara para o lado, para não se ver observada de um modo tão objectivo e impessoal. Sentiu o dedo dele tocar-lhe na carne mais íntima, ouviu-o suspirar. Surpreendeu-se quando se sentiu beijar ali, onde nunca tinha sido beijada; e não foi um beijo leve como os outros, mas uma chupadela franca que a deixou atónita e desejosa de que alguma coisa, qualquer coisa, viesse ocupar o vazio que lhe parecia ter-se feito naquele instante no seu ventre.

Mas logo a seguir, sem que esta breve carícia tivesse tempo de a satisfazer, o exame continuou, pelas coxas, pelos joelhos – que Harun apalpou pela frente e pelos lados como se nada houvesse mais importante no mundo como a forma exacta das rótulas da sua amada. Apalpou-lhe as pernas abaixo do joelho como já lhe tinha apalpado as coxas, sentindo as diferentes texturas da pele. As articulações dos tornozelos, tão delicadas, foram também objecto da mais funda atenção: olhadas, tocadas, flexionadas, testadas. Os dedos dos pés foram separados e os intervalos entre eles escrutinados – ainda bem, pensou Alice, que se tinha lavado tanto – e até dos tendões dos pés, dos maléolos interno e externo, das veias azuis sob a pele, das rugas transversais nas solas, foi tomada devida nota.

Por esta altura Alice sentia que ninguém, nem mesmo ela própria, conhecia tão bem o seu corpo como o conhecia Harun; mas ele ainda a mandou virar de barriga para baixo e recomeçou a ver tudo: os tendões atrás dos tornozelos, as dobras na parte de trás dos joelhos, as linhas de separação entre as coxas e as nádegas, o orifício anal e depois as duas pequenas concavidades no fundo das costas; e a sucessão das vértebras, o rego longitudinal entre as duas massas musculares do tronco, a saliência das omoplatas, a delicadeza enternecedora da nuca.

Durante todo este exame, que se prolongou por um período de tempo que Alice seria incapaz de calcular, o membro viril de Harun manteve-se sempre erecto. Como podia ele resistir, pensou Alice, a lançar-se sobre ela e a possuí-la sem delongas? Poderia aplicar-se a este homem ainda tão jovem aquilo que Mariana dissera várias vezes de Ricardo – que era senhor do seu pénis e não escravo dele?

– Agora vira-te para cima – ouviu-o dizer, por fim.

Alice virou-se de barriga para cima, abrindo as pernas sem que isso lhe fosse ordenado. Ou melhor, não foi ela que abriu as pernas, foram elas que se abriram a si próprias, as traidoras, as desavergonhadas, prontas a abrir caminho ao invasor. Harun saiu da cama para ir desligar o candeeiro, deixando acesa apenas a luz suave que iluminava o quarto anteriormente. De volta para junto dela, pôs-lhe o joelho entre as coxas, beijou-a fundamente na boca, acariciou-lhe os seios e as orelhas, beijou-lhe os olhos e o pescoço; e de repente Alice deu-se conta de que a glande do dono lhe acariciava a vulva molhada, movendo-se para trás e para diante ao longo dos lábios vaginais, titilando-lhe o clitóris; as mãos tinha-as Harun ocupadas em massajar-lhe os seios e apalpar-lhe as nádegas; o que lhe acariciava a vulva, embora sem a penetrar, era o seu sexo erecto. Ergueu os quadris para se aproximar mais dele, para aumentar a deliciosa pressão que a carne dele fazia sobre a dela, mas ele não tinha pressa e continuou por muito tempo a fazer-lhe carícias com o pénis à entrada da vagina. Quando ele por fim fez menção de a penetrar, Alice dise num murmúrio:

– Sim, meu Senhor. Possui-me. Sou tua… Já fui aberta para ti, como tu mandaste…

Harun entrou nela com um movimento só, suave mas firme. Esta penetração, seguindo-se tão de perto à desfloração operada pelo falo de pau preto, não foi tão indolor como Circe lhe tinha dado a entender, mas a dor foi bem-vinda para Alice, trouxe-a um pouco de volta à terra quando se sentia já a desprender-se do mundo. Depois de a penetrar, Harun ficou por muito tempo imóvel dentro dela, abraçando-a, beijando-a, murmurando-lhe ao ouvido “meu amor”, “minha escrava”… E só se começou a mover, lentamente, gentilmente, quando a dor abrandou e ela própria começou a oscilar timidamente os quadris, primeiro para frente e para trás, ao encontro do pénis que a enchia, depois também para os lados e em círculos, numa dança que ninguém lhe tinha ensinado mas em que ela se descobria subitamente perita.

Os movimentos de Harun iam-se tornando amplos e fortes, impetuosos, exigentes; e ela, ainda virgem segundos antes, procurava harmonizar com estes movimentos os seus próprios. Mas não o conseguiu por muito tempo porque uma sensação a avassalou que a fez esquecer-se de si, esquecer-se dele, esquecer-se de tudo o que não fosse aquela inexprimível delícia que a transformava num ser sem pensamento, sem passado, sem futuro. Não era o primeiro orgasmo que sentia, nem sequer o primeiro orgasmo provocado por Harun, mas era o primeiro que experimentava com o corpo assim invadido. A pouco e pouco esta sensação foi-se atenuando, mas Harun mantinha-se dentro dela, beijando-a, amando-a, de modo que a onda de prazer em que tinha perdido o pé refluiu, mas não para longe. Olhou para os olhos do amante e viu-os sorrir:

– Estou orgulhoso de ti… Minha escrava…

De novo a onda. E de novo, e de novo, até que Alice se esqueceu que alguma vez tinha conhecido um mundo que não consistisse num perpétuo orgasmo, um mundo que tivesse um “em cima” e um “em baixo”, um “dentro” e um “fora”, um “eu” e um “outro”.

Só lentamente retomou o pé, como um nadador a quem uma onda enorme e inesperada tivesse envolvido e sacolejado nas profundidades. Harun, agora completamente solto, penetrava-a com violentas estocadas, que ela recebia avidamente, como uma mártir em êxtase receberia os golpes da lança que lhe tirava a vida. Por entre a névoa do seu próprio prazer, Alice via o rosto de Harun: um rosto contorcido, um rosto belo, um rosto torturado que de repente se abriu num urro; e um jacto quente invadiu-lhe as entranhas, soltando nela ainda um último espasmo.

Por muito tempo Harun permaneceu em cima dela, a cabeça para o lado, apoiada na almofada. Alice teve pela primeira vez consciência de como ele era pesado. “O peso do meu dono”, pensou; “estou a sentir sobre mim o peso do meu dono”; e empenhou-se, apesar do ligeiro desconforto físico que sentia, em fazer do seu corpo o leito mais aprazível para o descanso do seu Senhor.

Mas Harun acabou por rolar para o lado, libertando-lhe os movimentos começando a abraçá-la, a beijá-la, até que ela lhe disse:

– Que bom… Agora estou a ficar com sono… Com tanto sono… Meu amor… Dás-me autorização que durma?

– Eu também tenho sono, – disse ele – mas ainda não te vou dar licença de adormecer, minha escrava. Primeiro vais ainda lavar-me o sexo, que será sempre o teu dever depois de eu te ter possuído.

– Oooh… Tem que ser? Tenho tanto sono…

– Tem que ser, meu amor. Hoje e sempre, por mais sono que tenhas. Anda, vai. Basta um toalhete com água morna e sabonete.

Meio trôpega, Alice dirigiu-se à casa de banho. Não sentia ressentimento nem revolta, nem a tarefa lhe parecia prosaica em comparação com o êxtase de há momentos; sentia, sim, um amor acrescido por este Senhor que se servia dela para as tarefas mais humildes com o mesmo à-vontade com que a usava na cama. De regresso ao quarto, lavou-o cuidadosamente. Depois voltou a humedecer o toalhete, agora só com água, e voltou para junto dele a fim de lhe retirar os restos de sabonete. Harun, de barriga para cima na cama, entregava-se a estes cuidados com os olhos fechados e os braços pesadamente caídos sobre os lençóis. Depois de o lavar, Alice foi à casa de banho fazer as suas próprias abluções. Quando voltou para junto de Harun ele já se tinha posto por baixo da roupa e estava em posição de dormir; mas quando a sentiu deitar-se ao lado dele ainda a abraçou e beijou chamando-lhe meu amor, minha escrava, até que a sentiu bocejar e gemer de sono.

− Meu Senhor, gostava de ficar abraçada a ti a noite inteira. Mas tenho tanto sono… Posso virar-me de costas para ti, para estar mais à vontade?

Harun fez-lhe uma festa no rosto antes de responder:

– Ouve com atenção, minha escrava, enão fiques triste. Essa autorização que me pedes, conto dar-ta muitas vezes de futuro. Muitas vezes mas nem sempre. Mas hoje não ta dou, hoje é dia de saberes o teu lugar, que é aos meus pés. Por isso mandei a Circe preparar a esteira. Há-de haver sempre uma esteira para ti aos pés da minha cama.

Alice não se tinha esquecido da esteira, mas ousara esperar que Harun se tivesse esquecido dela depois ter partilhado com ela tanto prazer e de a ter tratado com tanta ternura. Mas não tinha resposta que pudesse dar, só uma pergunta:

– Agora?

Harun acariciou-lhe de novo o rosto e beijou-a ao de leve nos lábios:

− Agora, minha escrava.

Alice, mesmo sabendo que o seu dever era obedecer com presteza a qualquer ordem, cumpriu esta com infinitas delongas. Durante algum tempo ainda manteve os lábios em contacto com os dele e depois, à medida que afastava os lençóis para se levantar, ainda o foi beijando no peito e na barriga. Já com uma perna fora da cama e um joelho no chão, ainda procurou com a boca o sexo dele para o beijar e chupar suavemente por tanto tempo quanto ousou.

– Vai, minha escrava – repetiu ele por fim. − Mas primeiro beija-me os pés.

Circe veio acordá-la de manhã cedo. Quando Alice gemeu, ainda tonta de sono e sem se lembrar onde estava, a outra pôs-lhe um dedo sobre os lábios.

− Venha – murmurou. – Não faça barulho, o seu dono ainda está a dormir.

− Mas… − objectou Alice.

Queria dar um beijo a Harun, mas Circe não permitiu:

− Não o acorde, menina. Não se preocupe, vai ter oportunidade de se despedir dele.

À espera de Alice, no seu quarto, estava um fato de treino e umas spatilhas de jogging.

− Vista-se – disse a outra. – Vai dar duas voltas ao quarteirão. Mas antes disso vá à cozinha, beba um copo de água e coma uma maçã.

− Tenho fome…

− Come depois. Ande, despache-se, hoje começa a sua escola e não temos muito tempo.

De que escola estava Circe a falar?

− Da escola que os senhores organizaram para si, é claro. Há muitas coisas que o seu dono quer que aprenda: quanto a isso foi muito claro.

Que matérias podia querer Harun que ela aprendesse? Alice tinha terminado a escolaridade obrigatória com as classificações mais elevadas e sempre partira do princípio que ia continuar a estudar; o quê, não sabia, mas imaginava que teria a ver com a sua condição de leitora voraz. Ainda não se tinha inscrito em nenhum curso, e agora, pelos vistos, alguém tinha escolhido por ela.

A manhã estava fresca. O que Alice tinha a fazer antes do pequeno-almoço era simples: dar duas voltas ao quarteirão, uma em marcha rápida e a outra em passo de corrida. Depois foi outro grande copo de água, um duche rápido e um pequeno-almoço substancial, servido na cozinha por Circe e Atena, refeição esta que a jovem, embrulhada num roupão, devorou como uma loba.

− Vá-se vestir – disse-lhe Circe por fim. – Ponha uma saia curta e larga, que não lhe prenda os movimentos, e uma T-shirt. Ponha calcinhas e soutien. Deixe-se estar descalça. Depois vá ter com os senhores à biblioteca.

Na biblioteca, à espera de Alice, estavam Circe e a sua irmã Atena, sentadas no chão; Ricardo, numa poltrona; aos pés dele, sentada sobre os calcanhares, Mariana; e ao piano uma mulher de cerca de trinta anos que Alice não conhecia: uma mulher bonita, um pouco anafada e de ar bondoso, que lhe foi apresentada como a sua futura professora de música.

− Música? Vou aprender música? – perguntou, admirada.

− Faz parte do currículo que o Harun determinou para ti – respondeu Ricardo. – Como oriental que é, considera a música e a dança prendas indispensáveis numa escrava. Mas como oriental ocidentalizado, não tem qualquer objecção ao piano. Portanto vais ser pianista: ninguém espera de ti virtuosismo, para isso é preciso ter talento e começar cedo, mas o teu dono exige que te tornes uma amadora competente − e sobretudo uma conhecedora razoável que não o envergonhe quando forem os dois juntos a um concerto. Também vais estudar outras matérias; eu e a Mariana fizemos algumas sugestões, assim como a tua tia, e das gémeas vieram algumas bem interessantes.

A primeira lição de música de Alice não foi particularmente excitante, consistindo apenas em infindáveis exercícios de colocação dos dedos sobre uma superfície plana – nem sequer o teclado do piano, apenas o tampo de uma mesa – seguido de instruções pormenorizadas sobre a colocação do banco em frente ao piano e sobre a maneira como se devia sentar. Depois a professora fê-la ouvir na aparelhagem da biblioteca o inevitável Für Elisa de Beethoven, do qual lhe ensinou a seguir alguns acordes desgarrados, os mais fáceis, prestando especial atenção ao ângulo dos dedos sobre as teclas. Para surpresa da jovem, que esperava que a primeira lição consistisse numa interminável repetição de escalas, esta actividade não ocupou mais do que alguns dos minutos finais.

Depois desta aula Mariana informou Alice do currículo completo: música, como já tinha visto; inglês, no qual se esperava dela que se tornasse proficiente, e em que de resto já tinha sido boa aluna na escola básica; francês e árabe, dados os longos períodos que passaria no Norte de África; literatura, que teria que conhecer tanto quanto possível nas línguas originais; história; história da arte; história das ideias e das mentalidades; religiões comparadas; esgrima; danças de salão; informática; matemática; lógica e pensamento crítico; ginástica geral e acrobática; dança do ventre; e pompoar, é claro: o dono dela dava especial importância ao pompoar.

Alice nem sequer sabia o que era o pompoar:

− Que é isso?

− Basicamente é a arte de controlar os músculos vaginais. Ou antes, se quisermos ser pedantes, os músculos circunvaginais, mas geralmente ninguém diz assim.

− Circunvaginais? Isso quer dizer que eu tenho músculos à volta da vagina? Não sabia tal coisa… E é possível mexê-los à vontade?

− Tens, e bem fortes – sorriu Mariana. – E nem imaginas o que se pode fazer com eles.

Alice tentou por um momento mover aqueles músculos que Mariana lhe dizia que tinha, mas foi como se lhe tivessem pedido que mexesse as orelhas.

− E para que serve isso? – indagou, pouco convencida.

− Ui, para tanta coisa… Para teres mais a noção do teu corpo, para começar. Para um dia poderes ter filhos com mais segurança e menos dor. Para seres mais saudável durante mais tempo nas tuas partes femininas. Para dares prazer ao teu dono, evidentemente. E até para poderes dar prazer a ti própria sem teres que te tocar com os dedos, se estiveres para aí virada… O pompoar é uma coisa que todas as mulheres deviam saber.

− E a Mariana sabe? Então porque é que nunca me falou nisso?

− Só sei que existe, mas nunca aprendi. Por isso é que vou ser tua colega: o Ricardo andava há algum tempo com vontade de me mandar aprender.

− E há professores disso? – insistiu Alice.

− Professores, não: professoras – corrigiu Mariana. – Vais conhecer a tua em breve. Acho que vais gostar dela. É uma senhora indiana de origem goesa e fala português perfeito. Chama-se Sadhana e vai também ser a tua professora de dança do ventre. “Sadhana” significa estudo, treino prolongado, realização, aprendizagem… Um nome de bom augúrio para nós duas.

Pompoar, dança do ventre… Nada disto desagradava a Alice, pelo contrário. Na sua imaginação via-se já como uma odalisca, versada nas artes ocultas que fazem de um senhor escravo da sua escrava… Mas aquela profusão de matérias que lhe tinha sido anunciada, como ia ela ter tempo para tudo? Ricardo, que assistira à conversa sem parecer que lhe dava atenção, sentiu-se divertido com o alarme dela e tranquilizou-a:

− Não vai ser tudo ao mesmo tempo, é claro. De esgrima e de danças de salão, por exemplo, vais ter só uma aula cada duas semanas. A esgrima é uma preparação para outras coisas, as danças de salão são para aprenderes a não te pores rígida nos braços de um homem, a entregares o corpo… Isso é importante para qualquer homem, acredita em mim. Nas literaturas não vais ter dificuldade nenhuma: ainda há poucos anos eras capaz de passar uma tarde inteira empoleirada numa árvore com um livro na mão. Agora não é em cima duma árvore, é num canto qualquer da casa, mas o difícil é encontrar-te sem um livro. As outras matérias vão ser cursos com diferentes durações: acaba um, começa outro. Uma boa parte da tua educação virá das viagens, das conversas, das leituras, das pessoas que conheceres… Só há duas coisas em que vais ter lições toda a vida: a dança do ventre e o pompoar. Pelo menos é isso que diz o Harun.

− Isso, e ler livros – respondeu Alice, num tom meio desafiador. – Acho que nunca vou deixar de ler.

− Ah, sim, ler. Outra das paixões do teu dono. Assunto de conversa não vos vai faltar…

Mas a aula seguinte não foi de literatura, mas sim já de pompoar, o que em muito contribuiu para satisfazer em Alice a curiosidade suscitada pela conversa que tinha tido com Mariana. Sadhana, a quem a jovem foi apresentada logo a seguir, era uma indiana de longos cabelos pretos e pálpebras inferiores muito escuras. Teria talvez trinta e poucos anos, e a postura do corpo era direita como a duma bailarina ou duma artista de circo – porém sem a rigidez que apresentaria uma mulher europeia igualmente erecta. A primeira ordem que deu a Alice e Mariana foi que se despissem completamente:

− Este é um estudo que fazemos nuas. – explicou, com um sotaque muito ligeiro que aos ouvidos destreinados das suas alunas soava mais africano do que asiático. − Sempre nuas.

A sala estava quente, quase sufocante e as duas obedeceram de bom grado.

− Sentem-se nesses colchões de ginástica.

Não foi sem um pouco de inveja que Alice observou que Mariana, que tinha mais que o dobro da sua idade – quase o triplo – mostrava mais flexibilidade do que ela ao sentar-se com as pernas cruzadas sob o corpo. Quando Sadhana as viu sentadas, despiu-se também: primeiro as sandálias, depois o sari que lhe deixava à mostra o umbigo, o choli branco de mangas curtas, e por fim o saiote comprido de cor lisa. Alice ficou um pouco surpreendida por ela não trazer calcinhas nem qualquer outra roupa sob o saiote, mas veio a saber mais tarde que este costume ainda é seguido por algumas mulheres indianas mais tradicionais e é geralmente considerado perfeitamente decente.

Enquanto a professora se sentava, não sobre um colchão de ginástica como as suas alunas, mas sobre um simples tapete, Alice teve tempo de lhe ver o sexo completamente livre de pelos, mas o que mais a fascinou foram os bicos dos seios e as aréolas, grandes e de um castanho tão escuro que eram quase negras.

Admirou-se também quando a viu sentar-se com toda a agilidade na posição de lótus: Sadhana, apesar da cintura estreita e da respeitável musculatura que se lhe adivinhava por baixo da fina camada de gordura, não tinha um corpo miúdo e esbelto como o de Mariana: pelo contrário, tinha um corpo a que com justiça se poderia chamar roliço. E a situação tinha para Alice o mérito da novidade: nunca antes tinha tido uma aula toda nua com a professora também nua.

− O que lhes vou ensinar – disse Sadhana – não é ainda, no que lhes diz respeito, uma arte. Um dia poderá sê-lo, se tiverem o talento e a persistência necessárias, mas por enquanto é só uma técnica. Por isso não vou admitir aqui fantasias nem romantismos: só trabalho e mais trabalho. Estamos entendidas?

Alice murmurou que sim, intimidada, e Mariana inclinou ligeiramente a cabeça.

− Então vamos começar. Pensem em fazer da vagina uma boca capaz de puxar o lingam para dentro ou de o empurrar para fora, equipada com uma língua capaz de o acariciar a todo o comprimento; e pensem em fazer dela ao mesmo tempo uma mão forte capaz de o apertar e de o prender.

− O que é o lingam? – perguntou Alice. – E é possível ter assim tanta força na vagina?

− O lingam é o membro viril. É assim que vem no Kama Sutra; mas vocês podem dar-lhe o nome que quiserem. E a vagina pode ser uma das partes mais fortes do corpo da mulher, tal como as coxas. Mas chega de teoria. Estão prontas para começar?

Alice declarou-se não só pronta, mas ansiosa por começar. Mariana limitou-se mais uma vez a acenar que sim.

− De certeza? – insistiu a professora. – Têm a bexiga vazia? O melhor é irem primeiro à casa de banho, se não daqui a pouco temos tudo encharcado.

− Já está? – continuou, quando elas regressaram. – Então quando se sentarem outra vez nos colchões fiquem em cima dos resguardos, porque enquanto não estiverem habituadas os primeiros exercícios podem fazer com que saiam algumas gotas de xixi.

Os resguardos eram daqueles que se compram em qualquer supermercado para proteger as camas das crianças pequenas e dos muito velhos, absorventes numa face e impermeáveis na outra.

− Agora – prosseguiu a mestra – façam força para urinar … se saírem algumas gotas não faz mal. Estão a fazer força? Óptimo, agora vem a parte difícil. Parem de fazer força, mas parem de repente, e façam força para não urinar. Certo? Puxem o xixi outra vez para dentro, vá, com toda a força.

− Não sou capaz – disse Alice.

− É claro que é capaz – respondeu a professora. – A menina não é diferente das outras. Não pare de fazer força para dentro. Está a fazer?

Alice não sabia para que servia aquilo, mas empenhou-se em seguir as instruções da professora. Apesar de ter a bexiga vazia, sentia de novo vontade de urinar. Olhou de relance para Mariana, que não lhe pareceu mais confortável do que ela.

− Agora quero que façam força alternadamente para dentro e para fora. Está bem? Agora para fora… agora para dentro… outra vez para fora… Vão ficar um pouco cansadas, e com muita vontade de fazer xixi, mas não faz mal. Há um ponto a que temos que chegar ainda hoje, e depois descansam.

Mariana e Alice já tinham vontade de descansar, mas não pararam de repetir o exercício que Sadhana lhes tinha ordenado.

− Continuem. Não parem. O que eu quero agora é que ao fazerem força para fora e para dentro se tentem dar conta dos músculos que estão a usar.

Mariana foi a primeira a pensar que tinha encontrado a parte do corpo de que estava à procura. O fundo do ventre doía-lhe um pouco. Seria aí?

− É uma dor surda, como a que se sente depois de um exercício puxado? – perguntou Sadhana. – Sim? Então já está onde tem que estar. São esses os músculos que a senhoravai aprender a controlar, mas hoje ainda não quero que tente fazer isso. Já é muito bom que os sinta.

Este pequeno diálogo deu a Alice a pista de que precisava para se orientar no seu próprio corpo. Também ela sentia um pouco de dor. Era ali, pelos vistos, que tudo se passava.

Sadhana estava satisfeita: tinham sido feitos progressos e era tempo de dar a aula por terminada. Mas antes que se despedissem Mariana quis fazer ainda uma pergunta:

− Sadhana, há uma coisa que eu não entendo. Os músculos que controlam a vagina são os mesmos que controlam o acto de urinar?

− Sim, quanto a um deles – respondeu a professora. – Não quanto aos outros. Mas a acção de uns reflecte-se nos outros, e foi por isso que comecei a vossa instrução utilizando músculos que vocês aprenderam a controlar quando ainda eram pouco mais que bebés. Vocês não se lembram, nenhuma de nós se lembra, mas a instrução que os vossos pais vos deram nessa altura não foi mais fácil nem menos demorada do que a que eu vos estou a dar agora.

− Mas a mim parece-me que já consigo controlar esses músculos um bocadinho. Cansa-me muito, mas acho que consigo.

− É natural – disse a professora. – Há muitos caminhos para chegar às coisas, e às vezes chegamos a elas quase por acaso. Lembra-se de como lá chegou?

− Não tenho a certeza de estarmos a falar da mesma coisa – respondeu Mariana. – Mas uma vez estava com o meu dono, ele estava quase parado dentro de mim, e eu de repente tive que tossir. Quando tossi ele disse-me que tinha sentido um aperto no pénis e pediu-me que fizesse outra vez. Eu não conseguia, mas então tossi de propósito e ele disse-me que o tinha apertado outra vez, mas com menos força. Depois, com o tempo, aprendi a apertá-lo sem tossir, mas não o faço muitas vezes seguidas porque me cansa muito e passado um bocado já não sou capaz.

− Estou a ver – disse a professora. – E sim, esses músculos que a senhora accionou foram os seus músculos circunvaginais. A tosse faz mover o diafragma e envolve também todos os outros músculos abdominais. A razão porque o apertou com menos força da segunda vez é que a tosse foi forçada. Mas é bom que já tenha uma ideia do que se espera de si.

Ao ouvir isto, Alice obrigou-se a tossir, mas não sentiu nada em baixo, nem mesmo nas partes do corpo que estavam doridas.

− Muito bem – disse a professora. – Agora um aviso: fora da aula não comecem a forçar nem a reter o xixi. Isso pode tornar-se muito desconfortável, além de ser perigoso se abusarem. Se conseguirem mover um pouco os músculos da vagina, então podem ir treinando enquanto fazem outras coisas. Mas só os da vagina, e se não conseguirem também não faz mal: ainda não estou a contar com isso.

E com efeito: nos dias e semanas que se seguiram Alice e Mariana começaram a exercer algum controlo sobre as suas vaginas. Enquanto treinavam esta capacidade estavam terminantemente proibidas de mover os quadris:

− A essa batota não quero que se habituem, nem mesmo no princípio – dizia-lhes, sempre que detectava um movimento suspeito. – A técnica do xixi e a técnica da tosse também são batotas, mas vão ser muito mais fáceis de desaprender quando chegar a altura.

E o facto é que as batotas se foram tornando cada vez menos necessárias. Mariana foi a primeira a conseguir controlar sempre que queria os músculos vaginais, o que a professora atribuiu ao grão de experiência que já tinha, mas Alice não lhe ficou muito atrás.

− Engraçado – comentou Mariana num dia em que a lição lhe tinha corrido especialmente bem. − Às vezes, ao fazer isto, sinto assim uns espasmos dentro do corpo iguais aos que sinto quando tenho um orgasmo.

A professora sorriu, satisfeita.

− Isso é bom, muito bom mesmo. E a Alice? A menina também sente esses espasmos?

− Eu, não – confessou a jovem. – Nem sequer ainda notei que sentisse espasmos quando me venho. Também, ainda não me vim assim tantas vezes, portanto não posso falar muito.

A estas palavras todas as três se riram.

− Descanse – disse a professora. – Ainda tem muito tempo para aprender. E a menina tem uma vantagem: o seu dono sabe praticar uma arte que é uma espécie de equivalente masculino do pompoar. Há homens, sobretudo no Oriente, que aprenderam a fazer com o pénis mais ou menos o mesmo que vocês estão a aprender a fazer com a vagina: movê-lo sem mover os quadris. Trata-se de controlar um músculo chamado músculo pubococcígeo, que os homens também têm mas que é mais difícil para eles exercitar.

− O meu Senhor às vezes faz isso – interrompeu Mariana.

− Ai sim? O seu dono consegue fazer isso? Então a senhora é uma escrava com sorte – disse Sadhana. – A vantagem disto é que se o homem tiver um orgasmo e a mulher também, estando os dois perfeitamente imóveis, o espasmo de que fala a Mariana não se perde no meio de todas as outras sensações.

Nos dias que se seguiram a esta conversa a professora não lhes ensinou nada de novo. Só as mandou repetir, e repetir, e repetir o que já tinham aprendido.

− Repitam até não poderem mais – dizia sempre. − Repitam até lhes doer tudo, das coxas à cintura. Mesmo quando estiverem a fazer outras coisas, sentadas a comer, sentadas numa aula, deitadas na cama à espera de adormecer, podem repetir estes exercícios. Mas só com a vagina, entenderam? Não vos quero a remexerem-se nas cadeiras para as outras pessoas verem, nem a fazer que tossem, nem muito menos a fazer avarias com o xixi. Entendido? Se for para fazer tolices prefiro que não façam exercícios nenhuns fora das aulas.

Ao princípio Alice achava quase impossível contrair e relaxar a vagina sem mover os quadris: como pode o cérebro dar ordens a um músculo, ou a um conjunto de músculos, cuja simples existência a sua detentora ignorava umas semanas antes? A pouco e pouco, porém, começou a ser capaz, e até a encontrar motivo de intenso divertimento sempre que se encontrava sentada, por exemplo, à mesa de um café e exercitava vigorosamente, sem que as pessoas à sua volta se apercebessem, os órgãos genitais. Só não conseguia fazer isto com as pessoas da casa: Ricardo e Mariana apercebiam-se sempre do que ela estava a fazer, bem como as gémeas e, é claro, Sadhana. Mesmo a tia Safira, com o seu ar desligado de tudo, notava nada o que ela estava a fazer; resultado, talvez, da experiência adquirida em décadas de viagens por África e pelo Oriente.

Um dia, ao fazer os seus exercícios, sem que o tivesse querido e sem que nada o fizesse prever, Alice teve um orgasmo. Apressou-se a informar a professora, que encolheu os ombros e se limitou a confirmar o que já Mariana lhe tinha dito: as contracções e distensões vaginais também podem servir para uma mulher dar prazer a si própria.

− Mas evite fazer isso – acrescentou. – Não é bom dar a uma arte nobre um uso trivial.

Mariana chegava exausta ao fim de cada aula, e Alice ainda mais. Saiam mais cansadas das aulas de pompoar do que das de dança do ventre, apesar de estas não serem propriamente fáceis. Durante semanas sentiram o ventre repassado duma dor surda, que só a pouco e pouco foi desaparecendo e fazia com que nunca perdessem a consciência do centro feminino dos seus corpos. Nem mesmo Alice, durante as aulas de árabe e de matemática, que eram as que lhe exigiam maior concentração, chegava a perder esta consciência do corpo que lhe permeava todos os momentos da vida.

Alice só tinha Mariana como condiscípula nas aulas de pompoar e de dança do ventre. Nesta disciplina a indumentária obrigatória começou por ser uma saia muito rodada, feita de um tecido muito flexível mas também muito mais pesado do que Alice tinha imaginado. Isto, explicou Sadhana, porque tinham que aprender desde o primeiro dia o peso das saias e o modo como ele afectava o seu balancear. Da cinta para cima podiam usar uma T-shirt, ou um soutien, ou nada, como quisessem. Jóias ou enfeites é que ainda não.

Assim se iniciou para Alice uma rotina mais exigente do que a que tinha conhecido em qualquer outra escola, rotina esta que só era salva da monotonia pela alternância constante entre o esforço intelectual e o esforço físico.

Nas noites em que a ausência do dono lhe doía mais, habituou-se a deixar a sua cama e o seu quarto e a ir dormir no chão, aos pés da cama dele, como tinha feito na noite em que ele a tinha possuído. Nas manhãs que se seguiam a estas noites acordava dorida, e se nesse dia as lições fossem mais exigentes do ponto de vista físico o trabalho tornava-se mais penoso.

Um dia, numa aula de dança, e sem que a professora lho ordenasse, experimentou combinar as contracções do pompoar com os movimentos que estava a fazer com os quadris. A professora apercebeu-se imediatamente mas, em vez de a censurar ou de lhe ordenar que se concentrasse na dança, fez um gesto com a cabeça que pareceu à jovem ser de aprovação.

− Muito bem, está a aprender – foi o seu comentário.

Depois desta aula Alice quis saber a razão por que Sadhana tinha aprovado o seu gesto. Não a tinha ela proibido de usar os movimentos dos quadris para auxiliar os da vagina?

− Mas não foi isso que a menina fez, pois não? – fez-lhe notar a professora. – Não usou um movimento como muleta para auxiliar o outro. Pelo contrário, deu a cada um deles o seu melhor esforço e procurou que eles se completassem. Não estou zangada consigo; pelo contrário, estou contente.

Como se toda a gente tivesse estado à espera deste desenvolvimento, o dia em que esta conversa teve lugar marcou o início de toda uma nova rotina em casa de Ricardo. Nessa mesma noite foi anunciado que Harun viria no dia seguinte para uma estadia prolongada. Alice mal dormiu. Mas a meio da manhã, quando o dono chegou, Alice tinha começado a sua aula de dança do ventre e não foi dispensada dela para o ir cumprimentar.

− Não fique triste, vai tê-lo a assistir – disse-lhe a professora. – E vai ter também o dr. Ricardo. A diferença que que faz quando há homens a assistir, vai a menina descobri-la logo ao começar, ainda mais sendo um deles o seu dono. Se não ficar nervosa demais, vai dançar melhor do que nunca: é este o efeito que os homens têm na dança. Agora, um aviso: a menina pode tentar seduzir o seu Senhor com o seu desempenho, mas não pense sequer em tentar impressioná-lo, e muito menos em dominá-lo. Ele já viu muito melhor do que a menina, por isso se tentar impressioná-lo, em vez de o seduzir pela autenticidade dos seus sentimentos, ele notá-lo-á logo e sentirá desprezo por si. Mostre-lhe apenas o que já sabe: é isso que ele espera de si e é isso que o fará orgulhar-se de si. Mostre ao seu dono o que sente por ele, e pode ter a certeza que ele ficará contente com o seu desempenho.

Claro que nada nestas palavras diminuiu o nervosismo de Alice. Entrou na sala, vestida com a uma saia igual às que usava nas aulas e com um choli que lhe deixava o ventre a descoberto. Continuavam a ser-lhe proibidas jóias ou enfeites. Por enquanto só lá estavam as mulheres: Safira, que se levantou da cadeira onde estava sentada para lhe dar um beijo; as gémeas, de pé como estátuas nos extremos da sala; Silke e Mariana, sentadas no chão sobre os calcanhares, junto do sofá vazio que ocupava a posição de honra. A ela, mandaram-na ajoelhar no centro do espaço deixado livre em frente ao sofá. Ao fim de uma espera que lhe pareceu interminável, viu Harun entrar na sala, conversando animadamente com Ricardo. Alice, a quem não tinha sido dada a oportunidade de receber à porta o seu amado, nem de saudar o seu Senhor, nem muito menos de se lhe lançar nos braços como lhe pedia o corpo e o coração, pôde agora saudá-lo de longe, inclinando a cabeça até ao chão. Harun respondeu à saudação: não apenas com o inclinar de cabeça protocolar, mas com um sorriso de encorajamento e um brilho nos olhos que tanto podia ser de orgulho como de amor. Alice viu como ele se sentava no sofá ao lado de Gunther e Ricardo e sentiu como os três homens enchiam a sala com a sua presença, como a não enchiam as mulheres apesar de serem em maior número. Naquele momento Alice soube com a mais absoluta certeza que era para eles que ia dançar, e não para a professora, nem para Mariana, nem para qualquer outro ser do seu próprio sexo.

A um sinal de Sadhana, pôs-se de pé, esperou pela música e começou. Esperara concentrar-se toda em Harun, mas logo se deu conta que a presença de Gunther e Ricardo também contribuía para que ela pusesse na sua dança um suplemento de alma que era uma homenagem – compreendia-o agora – não só ao seu próprio dono, mas também aos outros dois. Não tentou combinar com a dança as contracções do pompoar: essas, reservava-as para a noite, para quando Harun a mandasse chamar. Mas a certa altura, sem que tivesse feito alguma coisa por isso, sentiu que um espasmo de prazer lhe sacudia o fundo do ventre.

No último tempo da dança, quando ajoelhou aos pés de Harun, ele tomou-a nos braços, olhou-a longamente no fundo dos olhos e beijou-a de tal maneira que lhe fez saber que a sua dança de novata lhe tinha agradado tanto como se tivesse sido executada pela artista mais experiente e perfeita.

À noite, na cama, quando o dono a penetrou, Alice esforçou-se por aplicar tudo o que tinha aprendido durante as longas semanas precedentes. Harun sorriu deste esforço:

− Calma, minha querida. Estás a dar-me muito prazer, e de futuro hás-de dar-me muito mais; mas o que conta por enquanto não é o que me dás de prazer, é o que me dás de alma. Concentra-te nisso: foi essa a dádiva que desejei este tempo todo…

− Sim, meu Senhor, sou toda tua… de corpo e de alma…

Mas a verdade é que não era capaz de distinguir bem entre a dádiva do corpo e a dádiva da alma que ele lhe pedia. Para ela não se tratava duma alternativa entre entregar-se a ele completamente ou dar-lhe o prazer mais intenso de que fosse capaz, mas simduma conjugação entre as duas coisas: entregar-se e dar-lhe prazer.

A ordem que ele lhe deu a seguir resolveu este dilema:

− Fica quieta com os quadris – disse-lhe ele – e mostra-me o que aprendeste com a Sadhana.

O que Alice tinha aprendido até ao momento era ainda muito pouco, mas pôs todo o seu brio em mostrar-lho – e com alguns resultados, como pôde ver na expressão do amante. Tinha parado, obedientemente, de mover os quadris; e ele, quando a sentiu imóvel, parou também, mas isto só por fora, porque por dentro ela sentiu que o sexo do dono tinha ganho como que vida própria: um pássaro inquieto no ninho, um furão na toca, um aríete, uma cabeça de touro a erguer-se e a baixar-se, uma alavanca poderosa que tinha no corpo dele o seu fulcro e raiz.

E foi logo no auge desta delícia que ele a proibiu de ter orgasmo! De tão inesperada e injusta, a ordem trouxe-lhe lágrimas aos olhos – mas então que força foi aquela que a levou a agarrar-se a ele ainda com mais força, a puxá-lo para dentro de si ainda mais gulosamente, e a dizer-lhe indistintamente “sim, sim, meu querido, goza tu, goza sozinho, serve-te de mim … Eu não sou nada, não sou ninguém, deixa-me só servir o teu prazer…”

Mais tarde nessa noite, quando ele voltou a possuí-la, proibiu-lhe de novo o orgasmo. Só lho permitiu à terceira vez – ou melhor, ordenou-lho – quando a noite já começava a clarear e a ela lhe parecia que estava demasiado cansada para ter prazer. Como podia ela obedecer? Tinha o ventre dorido, os músculos cansados, e parecia-lhe que todos os conhecimentos de pompoar que tinha adquirido a tinham abandonado. Mas chamou à memória todos os sonhos, todas as fantasias, todas as saudades que tinha sentido, as noites solitárias em que se tinha masturbado, deitada no chão aos pés da cama dele; e estas lembranças, e as carícias dele, e os beijos dele, e os sábios movimentos do membro viril que tão depressa a acariciava, macio, como a invadia, ávido e rijo – tudo isto foi enfim suficiente para a fazer explodir na apoteose que lhe tinha sido ordenada e por que ela tão longamente anelara.

Depois ficaram a conversar:

− Desta vez vou ficar bastante tempo aqui em casa do Ricardo. Trouxe duas moças da Tunísia, uma para ser tua criada, a outra para ser criada da Mariana. A tua é solteira, tive que trazer também um irmão dela para tomar conta dela e arranjei-lhe um emprego temporário aqui em Braga. A da Mariana tem o marido na Tunísia e se ela ficar cá vai ser preciso o Ricardo mandá-lo vir e arranjar-lhe um emprego aqui em Braga. Enquanto a tua não aprender português, vais ter que falar francês com ela. Sabes francês? Só o da escola? Não faz mal, aprendes. Não são escravas, são imigrantes legais, com os papéis em ordem, direitos laborais e bons ordenados; mas foram bem informadas da tua condição, e da condição da Mariana, e da Silke, e não se escandalizarão com o que virem e ouvirem. E também não se vão importar de andar descalças, acham natural. O que nunca vais é vê-las de saias curtas ou mangas curtas… Depois, quando me for embora, levo-te comigo para a nossa casa de Túnis. Nessa altura levo também a Sadhana e algumas das tuas outras professoras que aceitaram continuar connosco. Também temos um apartamento em Paris e uma casa na Suíça, em Appenzell… Vamos andar sempre de um lado para o outro.

− Tens assim tantas casas? Deves ser muito rico – murmurou Alice, já com o sono a embargar-lhe a voz.

− Tenho o suficiente para viver como quero – respondeu Harun.

− Isso é ser muito rico – decidiu Alice.

Com esta conversa tinha ficado um pouco mais desperta. Enroscada a Harun, ainda perguntou:

− E o Ricardo, também é rico? Sempre me pareceu rico…

− Não. Rico, exactamente rico, não é. Mas tem uma profissão bem paga, e rendimentos próprios que herdou dos pais… A Mariana é mais rica do que ele, e além disso vende bem os quadros que pinta. Fez partilhas com o ex-marido que não a deixaram mal… De modo que também eles podem viver mais ou menos como lhes apetece.

− É bom, poder viver como nos apetece – disse Alice. – Ou melhor, no meu caso e no da Mariana, como apetece aos nossos donos. Não é?

Harun mal a ouviu. Veio-lhe um enorme bocejo, de repente. Encostou o rosto ao de Alice, que também estava meio morta de sono mas ainda perguntou:

− Meu Senhor… Hoje também vou dormir no chão?

− Não, hoje não. Hoje dormes aqui comigo.

− Mas primeiro lavo-te, meu Senhor… Não é?

Harun sorriu, agradado com a boa memória e com a obediência de Alice.

− Claro…

Apenas cumprido o rito da lavagem, adormeceram os dois, abraçados. Quando ela acordou ele estava ainda a dormir. Com todo o cuidado, para não o acordar antes do tempo, deslizou toda para debaixo das cobertas e tomou-lhe na boca o pénis flácido, sentindo-o endurecer lentamente e fazendo um jogo de adivinhar o que aconteceria primeiro: Harun acordar, ou começar a corresponder ainda adormecido à carícia da amante. Mas quando ele, sem fazer mais que uns ligeiros movimentos com as ancas e sem dar outros sinais que a prevenissem, lhe descarregou na boca uma quantidade de esperma que quase a fez engasgar, Alice deu-se conta de que nos últimos momentos quem estivera a fazer um jogo fora ele, fingindo-se ainda adormecido quando a carícia já o tinha despertado completamente. Encantado com esta pequena vitória sobre a sua escrava, Harun abraçou-se a ela, risonho e feliz, e cobriu-lhe de beijos o rosto e a boca. Depois deu-lhe uma leve palmada nas nádegas e disse-lhe, ainda a rir:

− Chega de beijoquices. Estou aqui sequioso por um chá e a minha escrava ainda não mo foi buscar…

Com uma risadinha, Alice pulou para fora da cama:

− É para já…

Enrolou à volta das ancas a saia com que se apresentara a Harun na noite anterior, e, sem sequer cuidar de se cobrir da cinta para cima, apressou-se em direcção à cozinha, sentindo que tudo estava bem com o mundo. Na cozinha encontrou uma mulher que não conhecia e que a ajudou a preparar o tabuleiro sem dar mostras de ter reparado nos seus seios nus: devia ser uma das tunisinas de quem Harun lhe tinha falado.

Com a presença de Harun em casa de Ricardo, a disciplina na educação de Alice perdeu um pouco da sua rigidez: mas não no que diz respeito às lições de pompoar, nem às de dança do ventre; e muito menos quanto à escrupulosa toilette nocturna de Alice, que nunca foi descurada no mais pequeno pormenor. Este ritual era cumprido todas as noites com a ajuda da nova criada de Alice, uma jovem de olhos amendoados chamada Aischa.

Alice tinha prazer neste luxo; mas Mariana achava que era perfeitamente capaz de tratar do seu próprio corpo e que não precisava de criada nenhuma.

− Para que queremos nós uma empregada? – perguntava por vezes a Ricardo. – Para a lida da casa temos cá mulheres que cheguem; e para tua criada particular basto eu, que sou feliz em sê-lo. Ou não sabes disto?

− Sei, sim, minha querida – respondia Ricardo. – E melhor criadinha do que tu, nunca a poderia desejar. Mas não te esqueças que tens outros deveres…

E para lhe mostrar quais eram esses deveres dava-lhe a mão a beijar, ou introduzia-lha entre as coxas. Mariana, pacificada, sorria e entregava-se à carícia; e ao fim de pouco tempo adaptou-se à presença de Leila, a segunda tunisina – uma mulher entre os trinta e os quarenta anos, anafada e bem disposta, que depressa mostrou inestimáveis talentos, não só como empregada doméstica, mas também como cabeleireira, manicura, pedicura e massagista. O seu constante bom humor não poupava ninguém, nem mesmo Ricardo; e a própria Mariana não conseguiu muitas vezes impedir-se de se rir ao vê-la imitar o tom pausado e sério com que o dono da casa tinha dado certa ordem ou tomado determinada decisão.

Quanto às aulas de pompoar, a fase seguinte consistiu em habituar Alice e Mariana a distinguir três secções diferentes nas suas vaginas.

− Têm que sentir a vagina – ensinou-lhes Sadhana – como um tubo composto por três anéis: um logo atrás da entrada, o outro no meio, e o outro lá mesmo no fundo, junto ao útero.

Tomar consciência destas três secções, e aprender a contraí-las e relaxá-las independentemente umas das outras, foi bem mais difícil e demorado do que tinha sido controlar a vagina no seu todo. Nuas e suadas na sala aquecida, Alice e Mariana tentavam uma posição, depois outra, voltavam por vezes aos truques iniciais do xixi e da tosse, esforçavam-se, insistiam, desesperavam. Nem Harun, nem Ricardo, nem homem nenhum era admitido na sala; não só porque Sadhana nunca admitiria mostrar-se nua à sua frente, mas também porque os esforços, o sofrimento e o ocasional desespero das duas alunas não eram um espectáculo próprio para aquilo a que a professora chamava, com o seu humor discreto, a delicada sensibilidade masculina.

Nas aulas de dança do ventre, pelo contrário, os homens eram bem-vindos: não só Harun e Ricardo, mas quaisquer amigos que pudessem estar de visita.

O Raqs Shaqi dança-se sempre melhor na presença de um homem – dizia a professora, como quem recita uma evidência.

Mas Alice tinha lido algures que a dança do ventre era na sua origem uma espécie de rito iniciático entre mulheres, algo de que os homens estavam excluídos, uma ginástica para o parto, uma manifestação espiritual do tempo do matriarcado… Que só depois, com o patriarcado e com o colonialismo, é que se tinha feito dela um espectáculo para excitar e seduzir os homens.

− Isso é o que as americanas dizem – respondeu a professora. – Têm aquela coisa calvinista de pôr dum lado o que é espiritual e do outro o que é corporal… E como são calvinistas, são feministas, e acham que agradar aos homens as diminui. Não é que não tenham razão quando falam nos rituais, na preparação do parto, nas cumplicidades e nos segredos femininos: só não percebem que nisto tudo cabe muito bem o nosso prazer em seduzir os homens, em lhes agradar, em lhes prestar homenagem. A presença dos homens, o prazer deles nos nossos corpos, nada disto faz de nós menos mulheres, pelo contrário: faz de nós mais fortes e mais mulheres. Assim como o nosso prazer na masculinidade deles faz deles mais fortes e mais homens. Qualquer mulher oriental entende isto, só para as ocidentais é que é difícil. E para as americanas, então…

Sadhana ficou absorta um momento. Mariana e Alice ainda a ouviram dizer baixinho, falando para si própria:

− O Raqs Shaqi… contra os homens… uma coisa hostil… doidas, completamente doidas.

Como que para sair desta absorção apertou os lábios, abanou a cabeça e dirigiu-se às alunas em tom decidido:

− Hoje não quero que dancem para mim. Imaginem que são a Xerazade, que estão a dançar para o Sultão e que amanhã ele vos pode mandar cortar a cabeça se hoje não achar interessante o vosso desempenho.

De aula para aula tanto Alice como Mariana faziam progressos. Mariana, com a sua aptidão natural, levava Sadhana a lamentar muitas vezes o desperdício que era ela não ter começado a aprender em adolescente ou criança. Alice era maior e mais robusta do que Mariana, e apesar da sua juventude era um pouco mais rígida de cintura; mas no cômputo geral as duas andavam a par. O primeiro adereço que a professora lhes permitiu foi um cinto dourado com guizos para usar à roda das ancas – com o aviso solene de que só teriam direito a outros enfeites ou instrumentos, nomeadamente as castanholas metálicas chamadas “snujes” que Alice não se cansava de pedir, quando soubessem mover as ancas de maneira a que os sons emitidos pelos guizos tivessem um ritmo compatível com o da música.

Alice era sempre das duas a que fazia mais perguntas

− Porque é que a dança do ventre não se dança com os seios nus? As saias, eu compreendo, podem completar os movimentos do corpo, até se pode dizer que também dançam. Mas uma coisa ali parada, a apertar o peito, que não faz nada além de esconder o corpo, para que é que serve?

− O Raqs Shaqi pode dançar-se também de seios nus – respondia pacientemente a professora. – E até meados do século XX esse foi o costume em certas regiões do Sul de Marrocos, por exemplo…. E na Antiguidade: há representações de dançarinas com os seios nus no antigo Egipto, na Índia… e, muitas vezes, completamente nuas.

− Está bem, mas agora? – insistia a jovem.

− Agora, não se pode esperar de uma dançarina que dedique tanto tempo e esforço a aperfeiçoar a sua arte para depois ser confundida com uma stripper qualquer ou com uma lap dancer sem escola. As americanas podem estar erradas em rejeitar a parte que é sedução na dança do ventre, mas têm razão em não querer utilizar a sua arte para excitar qualquer ignorante com dinheiro para pagar a entrada num clube nocturno. Não é só uma questão de puritanismo, também é de integridade artística. Há uma definição de prostituição com que eu concordo: prostituição é tudo aquilo que põe o que é nobre ao serviço do que é vil ou trivial. Até pode ser um poeta a fazer slogans publicitários, por exemplo: é prostituição na mesma. E as dançarinas profissionais de Raqs Shaqi têm toda a razão em não se quererem prostituir. Além disso há uma vantagem concreta em usar uma peça de roupa na parte superior do corpo a que possam ser afixados guizos: se estes tiverem um som que se distinga dos que são afixados às ancas e aos tornozelos, uma dançarina que seja dotada pode criar ritmos mais intrincados.

− Lá por isso, os guizos também se podem prender aos mamilos com piercings ou com molas – retorquiu Alice. – Mas está bem, nunca tinha pensado nisso em termos de integridade artística. É tudo mais complicado do que parece, não é?

Sadhana acenou com a cabeça.

− Não quer dizer que no Oriente, nalguma ocasião privada, perante um público conhecedor, uma grande artista não possa actuar muito mais nua do que de costume, e até actuar melhor por estar mais nua. Aí já não se trata de prostituição, estão a compreender? Quanto a vocês duas, veremos. No vosso caso o problema da integridade artística não se põe. A vossa dádiva aos vossos donos não foi vil nem trivial, caso contrário eu não estaria aqui a ensinar-vos. É como eu dissse: veremos.

E ainda Alice, noutra ocasião:

− Senhora professora, já ouviu falar em Gothic Bellydance?

− Já ouvi falar, e já vi fazer – respondeu a professora. – Mas nunca fiz nem ensinei.

− Eu gostava de aprender.

− Dança do ventre gótica: só me faltava essa! Mas a questão não é o que a menina gostava de aprender, é o que o seu dono quer que aprenda. Fale com ele, e se ele autorizar talvez eu aceite estudar isso consigo. Se a dança do ventre gótica acrescentar alguma coisa às outras variedades, é a maneira de também eu aprender alguma coisa; se não lhes acrescentar nada, então não me interessa: terá que a estudar sozinha.

No pompoar, depois de aprenderem bem o ritmo ternário correspondente aos três anéis imaginários em que dividiam a vagina, foram introduzidas ao ben-wa: duas bolas metálicas, ligeiramente maiores que bolas de ping-pong e unidas por um fio. A professora convidou as duas alunas a sopesar estas bolas: não eram leves, mas o que mais as surpreendeu foi o facto de não terem um centro de gravidade estável: era como se dentro delas se movessem outras bolas, umas mais pesadas do que as outras. Eram próprias para introduzir na vagina, disse a professora, e por isso tinham outro fio que ficava de fora e permitia tirá-las. Podiam ser usadas para vários fins, um dos quais era auxiliar a aprendizagem que estavam a fazer.

Assim começou uma nova fase nesta aprendizagem, que durou, no que diz respeito a Mariana, até ao dia em que ficou sem a professora. O fim da estadia de Harun em casa de Ricardo representou uma viragem na vida de todos. Mariana e Ricardo estavam a poucos meses de acabar o seu trabalho em Brugges e Heidelberg: depois disso passariam a repartir a vida entre Lisboa e Braga, acompanhadas por Leila, que se tinha prontificado a ficar em Portugal como sua empregada desde que o marido também pudesse vir. No seu regresso a Túnis, Harun far-se-ia acompanhar duma comitiva que não ficaria mal a um jovem príncipe: além de Alice, seguiriam com ele Sadhana, a professora de música e a de inglês, a criada Aischa, e o irmão de Aischa, a quem tinha sido oferecido o emprego de motorista de Alice. A vida de Harun e Alice não se repartiria, como a de Ricardo e Mariana, por duas cidades num só país, mas por várias cidades em três continentes. Gunther e Silke já tinham regressado a Heidelberg há muito tempo.

Quanto às gémeas, era tempo de assumirem os seus deveres de matriarcas e guias no seu clã espalhado pelo mundo, que nunca ninguém chegou a saber se era uma tribo, uma família, uma sociedade secreta, um grupo religioso ou uma empresa.

Não era uma despedida definitiva: sem dúvida que se voltariam todos a encontrar, todos juntos ou em grupos mais pequenos, ao sabor da hospitalidade e das viagens. Quando Mariana se viu privada da sua professora, os seus progressos na dança do ventre já tinham chegado ao ponto em que executava todos os movimentos básicos e dominava meia-dúzia dos ritmos principais; quanto ao pompoar, já tinha começado a treinar com o ben-wa e chegara ao ponto em que conseguia puxar para dentro ambas as bolinhas, mas ainda só conseguia expulsar uma.

− Continue a treinar – disse-lhe Sadhana. – Se quiser ir mais longe no Raqs Shaqi tem que ter lições, mas o pompoar é só uma questão de treinar todos os dias.

− Não se preocupe, senhora professora – interrompeu Alice, sorrindo por entre as lágrimas da despedida. – Vou estar em contacto com ela todos os dias pela Internet e se ela se desmazelar digo ao Ricardo.

Do aeroporto do Porto, onde tiveram lugar as despedidas finais, até à moradia de Ricardo em Braga não se demora mais do que três quartos de hora pela auto-estrada. Mal entraram no carro e se viram sozinhos um com o outro, Ricardo ordenou a Mariana que levantasse a saia e pôs-lhe a mão entre as coxas para lhe acariciar o sexo. Ao sentir o fio do ben-wa, perguntou:

− O que é isto?

Mariana explicou. E Ricardo, rindo, decidiu logo ali que, a partir do momento em que chegassem a casa, Mariana ficaria nua toda a semana seguinte, minuto por minuto e segundo por segundo, para que ele pudesse verificar a assiduidade com que ela cumpria os exercícios que a professora lhe tinha prescrito. Mariana riu-se também e chegou-se para mais perto dele. Milhares de metros acima de ambos, o avião que levava para longe os seus amigos descreveu uma larga curva no ar e entrou na rota que o plano de voo lhe tinha destinado.

(Publicado no Blogger a 31/05/08 e revisto a 01/06/08 )

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– Terias que ser minha escrava – disse ele.

Dúnia não hesitou:

– Sempre fui tua escrava…

No outro extremo da ligação telefónica fez-se um longo silêncio. Por fim ouviu-se a voz dele, mais grave, e com um laivo de ternura (ou seria respeito?) que Dúnia nunca lhe tinha ouvido antes:

– Dás-te conta do que estás a dizer? Sabes o que implica ser escrava de um homem como eu?

Tudo o que Dúnia sabia era que o adorava como a um Deus, que já tinha sofrido muito por ele e que estava disposta a sofrer muito mais, contanto que ele nunca a deixasse: não era isso ser escrava? Mas reuniu forças para responder:

– Não sei… Mas não me importo, faz de mim o que quiseres.

Então ele explicou-lhe: era ele ter todos os direitos sobre ela e ela nenhuns sobre ele – nem sequer sobre si própria; era estar sempre disponível para ele, com todas as aberturas do seu corpo; era contentar-se com qualquer migalha de amor que ele lhe atirasse; era obedecer-lhe em tudo – não só no que lhe desse prazer a ela, mas também, e principalmente, no que mais lhe custasse fazer e no que mais lhe parecesse arbitrário e sem sentido; era estar pronta a ser punida quando lhe desagradasse e a não ser recompensada quando lhe agradasse; e era sobretudo nunca mais se pertencer a si própria.

– Só terás um direito: o de deixares de ser minha escrava quando quiseres.

Dúnia ouviu isto tudo sem verdadeiramente ouvir, aturdida por uma sensação de volúpia que a fazia como que dissolver-se nas palavras pausadas que lhe chegavam pelo telefone e das quais se destacava, como um farol no nevoeiro, a palavra amor. A palavra amor na voz dele.

– Compreendes bem o que eu te estou a dizer, Dúnia?

– Sim, compreendo…

– E consentes em tudo?

– Sim…

– Então diz: sim, meu senhor.

Foi a vez de Dúnia fazer um longo silêncio. Se esta exigência lhe era tão doce, porque é que lhe custava tanto obedecer-lhe? Por fim conseguiu dizer:

– Sim, meu senhor.

Teve medo que ele não tivesse ouvido o murmúrio final, e que a mandasse repetir tudo. Mas não, ele nada lhe exigiu, parecia aguardar que ela continuasse a falar. Dúnia respirou fundo e acrescentou:

– Vamo-nos encontrar? Meu Senhor.

– Sim, estou aí dentro de hora e meia ou duas horas, depende do trânsito. Espera por mim de saia ou vestido, não te quero ver de calças. Sem nada por baixo. E descalça.

Dúnia admirou-se:

-Descalça porquê?

– Porque eu to ordeno – respondeu ele com um sorriso na voz. – Não chega?

E logo, num tom mais sério, sem lhe dar tempo a responder:

– Por três razões: porque eu to ordeno, porque uma mulher descalça é sempre bela, e porque os pés nus são um símbolo de submissão muito antigo, e que me diz muito. Espera-me descalça, é importante.

Mal desligou, Dúnia pôs-se a preparar tudo. Só hora e meia! Talvez nem isso: de Heidelberg, onde ele vivia, a Freiburg, onde vivia ela, pelas auto-estradas alemãs, leva-se uma hora no máximo. Mas talvez ele precisasse de tempo para se arranjar, e com isso lhe desse oportunidade de arrumar a casa, comprar flores, velas e comida, preparar o jantar, lavar-se, perfumar-se, vestir-se, enfeitar-se…

Uma hora e meia depois Dúnia tinha tudo pronto e estava à espera, vestida com uma saia larga de algodão castanho que lhe dava pelo tornozelo, com um top de alças de côr alaranjada e calçada com umas chinelas havaianas enfeitadas com missangas de cores quentes – certamente era isso que ele tinha querido dizer quando lhe tinha ordenado que o esperasse descalça, não era? Não tinha que ser descalça mesmo, com certeza, e as chinelas eram tão lindas…

A campainha da porta sobressaltou-a. Pegou no intercomunicador. Era ele.

– Sobe.

Com o coração a bater descompassado, Dúnia abriu a porta do apartamento, que deixou encostada, e pôs-se à espera, atenta ao barulho do elevador. Sentiu-o arrancar e depois parar, arrancar de novo. Estava a subir! No momento em que ouviu o som das portas a abrir-se pensou em correr até ao quarto e descalçar-se. Porque é que não se tinha descalçado? Agora não havia tempo, ele estava aí, estava à porta. Recuou para a sombra, para onde ele não a visse logo.

Sentiu-o mexer na porta:

– Está aberta, entra!

Ele entrou. Trazia um pequeno saco que devia trazer uma muda de roupa e alguns artigos de toilette. Estava mais magro? Sim, estava mais magro. Ela é que tinha engordado: de repente sentiu-se uma matrona balofa e pesada à beira dele, e ao ver que ele a olhava de cima a baixo sentiu-se ruborizar.

– Estás mais bonita, Dúnia.

Mais bonita, ela? Com aqueles pneus? Como podia ele achá-la bonita? Mas antes que tivesse tempo de se convencer completamente que estava feiíssima, ouviu-o dizer:

– Desobedeceste-me. Tinha-te dito que me esperasses descalça.

– Era mesmo preciso? Estou praticamente descalça. Não são bonitas estas chinelas? – e lançou-lhe os braços ao pescoço para o beijar.

Ele abraçou-a e retribuiu-lhe o beijo: ao princípio com ternura, depois, logo a seguir, com avidez e paixão. Era este, então, o sabor da boca dele! Dúnia tinha esperado tão longamente por estes braços, por esta boca, e agora bebia dela, insaciável. Colada contra ele, sentiu-lhe a erecção mesmo através do sobretudo grosso. «Ele deseja-me!» E abraçou-se a ele com mais força.

Mas cedo, demasiado cedo, sentiu que ele a afastava e pousava a sacola no chão.

– Ajoelha-te.

As mãos dele nos ombros dela confirmavam a ordem. Um pouco contrafeita, ajoelhou-se no chão do hall de entrada, sobre o tapete; para que ele não lhe visse a cara virou a cabeça para o lado e para baixo e apertou a face esquerda contra o corpo dele, só para lhe sentir a dureza do pénis por baixo da roupa.

– Beija-me a mão.

Beijar-lhe a mão? Não era assim que Dúnia tinha imaginado este primeiro encontro, mas não lhe custou obedecer. Ser escrava era isto? Não era muito difícil, pelo contrário. As mãos dele eram bonitas, delicadas, com dedos finos, quase de mulher – mas quando a agarraram pelos braços para a pôr de pé, a força que exerceram era a dum homem.

Depois de a apertar contra si e de a beijar de novo, ele pediu-lhe que lhe indicasse a casa de banho. Era à direita do hall. A porta a seguir dava para a cozinha, e passada esta estava-se na sala. Dúnia pegou-lho no sobretudo, no chapéu, nas luvas e no cachecol e pendurou tudo no armário da entrada.

A mesa na sala já estava posta com dois lugares.

– Queres beber alguma coisa, meu querido?

Ele sentou-se no sofá.

– Quero, minha escrava – respondeu ele. – Traz-me um copo de água. Tenho sede.

E quando ela, meio atordoada pela naturalidade com que ele lhe tinha chamado escrava, se começava a afastar em direcção à cozinha, acresentou:

– E descalça-te para mo servires.

Era mesmo verdade, então, que ele a queria descalça. Depois de deixar as chinelas no quarto, Dúnia foi à cozinha para deitar água num copo. Depois levou-o para a sala e ia entregar-lho, mas ele não lhe pegou.

– Serve-me de joelhos. Quando me servires alguma coisa deves fazê-lo sempre de joelhos.

Desta vez Dúnia não achou tão estranho ajoelhar-se diante dele, talvez porque nessa posição lhe era mais fácil entregar-lhe o copo. À medida que bebia a água em pequenos goles ele acariciava-lhe os cabelos. Ela, na posição em que estava, não podia mais do que beijar-lhe as mãos. Às vezes tentava soerguer-se para o beijar na boca, mas ele não lho consentia: em vez disso inclinava-se ele e, puxando-a pelos cabelos, punha-lhe o rosto a jeito para a beijar.

Conversaram assim durante algum tempo, ele sentado no sofá, ela de joelhos diante dele, beijando-lhe as mãos e ouvindo as regras por que de futuro se regeria. Estava calor, Dúnia tinha posto o aquecimento no máximo: a meio da conversa ele teve que despir o pullover para ficar em mangas de camisa.

Durante o jantar Dúnia experimentou pedir-lhe que lhe permitisse calçar-se, o que ele recusou tranquilamente mas com firmeza. No fim da refeição ela pôs a tocar um CD de Loreena McKennit que ele lhe tinha oferecido meses antes pelos anos, quando ainda eram apenas bons amigos; e enquanto ele o ouvia sentado no sofá ela levantou a mesa e arrumoun rapidamente a cozinha. Por fim foi ajoelhar-se aos pés dele (sem que ele lho ordenasse, desta vez) e recomeçou a beijar-lhe as mãos. Desta vez, porém, ele não se mostrou tão esquivo: não só não a proibiu de se levantar como a puxou para cima, beijando-lhe a boca e metendo-lhe a mão no decote para lhe rolar os mamilos entre os dedos. Os seios estavam nus por baixo do top, tal como ele tinha ordenado. Os dedos dele apertavam-lhe os mamilos com força, fazendo-lhe doer: como teria ele adivinhado que era isso que ela queria?

Também as nádegas estavam nuas por baixo da saia, como a mão exploradora dele não tardou muito a confirmar. Quando sentiu a mão dele a tocá-la no sexo húmido, ela quis-lhe desapertar as calças: ele consentiu mas obrigou-a a continuar de joelhos. Tinha o pénis um pouco curto mas bastante grosso, curvado para cima, e circuncidado.

– Posso beijá-lo? – perguntou Dúnia.

– Sim, mas pede como deve ser.

– Posso beijá-lo, meu Senhor?

– Começa por beijá-lo, sim. Depois vou ensinar-te a lambê-lo e a chupá-lo a meu gosto: aprende bem, porque tenciono possuir-te muitas vezes pela boca. Mas primeiro põe-te nua.

Dúnia era suficientemente pudica para nunca ter tirado a parte de cima do bikini na praia, porém não tanto que nunca nenhum namorado a tivesse visto nua. Mas nunca assim, nunca como lhe estava agora a ser exigido: o normal, para ela, era ir descartandoa roupa à medida que as carícias iam progredindo, ou então despir-se sozinha na casa de banho e dar meia dúzias de passos apressados para a cama, cobrindo-se logo com os lençóis. Despir-se assim, na sala, pelas suas próprias mãos, perante um homem sentado e vestido que não parava de olhar para ela com um pequeno sorriso indecifrável – isso ela nunca o tinha feito. Tinha mesmo que ser?

– Tem mesmo que ser, minha escrava. Quero que te dispas para mim.

Dúnia deu um suspiro, pôs os olhos no chão para ele não a ver ruborizar e tirou o top, ficando com os seios à mostra. Tinha os mamilos rosados e as aréolas muito claras. Lentamente, sentindo os olhos dele postos nela, dobrou o top e colocou-o sobre uma das cadeiras da sala.

– Anda cá, Dúnia…

Ainda de olhos baixos, aproximou-se dele, que lhe pôas as mãos nos ombros, a fez ajoelhar e começou a beijá-la na boca, acariciando-lhe os seios ao mesmo tempo.

– Continua…

Levantou-se para tirar a saia, mas antes que o fizesse ele deteve-a:

– Primeiro solta os cabelos.

Dúnia começou a tirar um por um os ganchos e alfinetes que lhe prendiam o cabelo e a pousá-los na mesinha baixa ao lado do sofá. Os seios nus oscilavam a cada movimento. Dúnia queria virar-se de costas para os esconder, mas o olhar dele prendia-a. À medida que o cabelo se lhe espalhava pelos ombros também o rubor se lhe espalhava pelo rosto e pelo peito sardento.

– Já está…

– Agora o resto – disse ele.

Dúnia desatou a fita com que a saia se apertava e tirou-a por baixo, equlibrando-se ora num pé, ora noutro. Dobrou a saia à frente do corpo, adiando assim o momento em que ele lhe veria o fundo do ventre. Quando teve de se virar para pousar a saia na cadeira sentiu os olhos dele como uma queimadura sobre as nádegas brancas e redondas. Sem tirar os olhos do chão virou-se de novo para ele com as mãos a tapar o sexo.

– Agora despe-me a mim.

Dúnia inclinou-se sobre ele para lhe desabotoar e despir a camisa. Ele sorriu-lhe, beijou-a ao de leve e ordenou-lhe:

– Beija-me os mamilos.

Dúnia não sabia que os homens também gostavam de ser beijados nos mamilos, nenhum dos seus namorados anteriores lho tinha alguma vez pedido; mas aplicou-se com prazer nesta tarefa até ele lhe ordenar que continuasse a despi-lo. Ajoelhou-se, e ia desapertar-lhe o cinto quando ele lhe segurou os pulsos, a beijou, e disse:

– Não, minha escrava, assim não. Primeiro os sapatos.

Era inverno lá fora, e nevava. As botas almofadadas de camurça preta eram difíceis de tirar, tal como as grossas peúgas verdes, iguais às usadas pelo exército suíço. Dúnia teve que fazer força. Depois soergueu-se para lhe desapertar o cinto e puxar as calças para baixo. Por fim, as cuecas, molhadas à frente, junto ao elástico, pelo líquido que a excitação dele produzira.

– Beija-o agora, escrava.

Lentamente, humildemente, com a palavra escrava a ecoar-lhe nos ouvidos, Dúnia inclinou a cabeça em direcção ao sexo erecto do seu Senhor. Sabia que mais tarde ele a acompanharia ao quarto e se deitaria com ela na cama limpa e perfumada, já preparada para os receber; mas neste momento tudo o que queria era ficar assim a servi-lo, eternamente de joelhos.

(Publicado a 03/08/06)

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Agora que estou a chegar ao fim das “Histórias de Mariana” resolvi intercalar a escrita dela com a escrita dum novo romance, do qual ainda não tenho o título. O texto que se segue é um prólogo em que é apresentada a principal personagem masculina e uma personagem feminina que também será, provavelmente a principal. É uma narrativa que tem muito menos de auto-biográfico de que a outra e que estará mais organizada quanto ao enredo. Espero que gostem.

Subitamente Miguel deu por si brandindo a vergasta. O punho entrançado era de cabedal verdadeiro, e não lhe escorregava na palma da mão como aconteceria se fosse de material sintético. Miguel não se recordava da última vez que se encontrara naquela situação, mas sabia, como se sabe nos sonhos, que ela não lhe era estranha; pelo contrário, tinha-a vivido muitas vezes e sabia exactamente o que tinha que fazer. Não precisou dos olhos para saber que o punho entrançado que segurava na mão era preto, que o resto do instrumento era feito de um material duro e flexível como bambu e estava coberto de seda vermelha, que a mulher prosternada a seus pés, de quem sentia nos tornozelos o bafo quente e a macieza dos cabelos, era a sua “prima” Letícia, que conhecia desde a adolescência e que sempre lhe tinha sido apresentada pela família como exemplo a seguir.

Olhou para baixo e viu a sua própria mão segurando o instrumento de castigo: os nós dos dedos brancos com a força que fazia, os pelos macios sobre a pele clara. Mais abaixo, o seu próprio sexo erecto e recurvo, erguendo-se de entre os pelos negros do púbis. A abaixo de tudo o corpo de Letícia, as mãos dela voando-lhe sobre as pernas numa carícia ansiosa, o cabelo escuro espraiado sobre os ombros sardentos, a forma dos quadris e das nádegas como o corpo dum violoncelo.

Miguel nunca tinha visto Letícia nua, e surpreendeu-se um pouco com a robustez do corpo, com os músculos que se adivinhavam por baixo da fina camada de gordura feminina. Era uma mulher grande e atlética, muito branca de pele: sem roupa adquiria o porte clássico duma estátua de mármore.

Na lógica do sonho não lhe pareceu estranho estar assim com Letícia a seus pés. Nem lhe pareceu estranho que ela lhe pedisse perdão e castigo (por uma falta que ele se recordava nitidamente ter existido sem se recordar em que tinha consistido).

– Ajoelha-te diante do sofá – ordenou Miguel. – Cruza os braços sobre o assento e pousa neles a cabeça.

O sofá era baixo: para fazer o que Miguel ordenava, Letícia tinha que ficar com o rabo empinado no ar. Obedeceu prontamente, porém – o que não surpreendeu Miguel e lhe pareceu, no sonho, perfeitamente natural. Mas uma parte dele, talvez a parte que começava a acordar, sentiu surpreendeu-se vagamente por não estar surpreendido.

Uma vez, outra vez, Miguel vibrou algumas fortes chibatadas, não só no rabo empinado de Letícia, mas também nas costas, nas coxas e na pele especialmente sensível entre as coxas e as nádegas. Letícia sofreu a maior parte dos golpes apenas com um estremecimento e um gemido, apenas se debatendo e gritando um pouco ao receber os mais dolorosos; mas mesmo assim voltando sempre à posição que lhe tinha sido ordenada para receber a punição até ao fim.

– Agora vira-te para mim – disse Miguel. – E agradece-me.

– Obrigada, meu Senhor – disse Letícia.

E foi quando ela, ainda de joelhos, lhe beijou as mãos, e lhas molhou de lágrimas, que Miguel teve um orgasmo e acordou. Demorou algum tempo a compreender onde estava: na cama, em casa da mãe, no seu antigo quarto de estudante. Que diriam elas, a mãe, a tia, se a empregada lhes contasse que tinha encontrado os lençóis do menino sujos de esperma? E que diria Letícia, que estava a passar o fim-de-semana lá em casa e dormia no quarto ao lado do dele, se soubesse a que perversas fantasias tinha dado azo?

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