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Posts Tagged ‘beijar o chicote’

Cap. 33: NO LIMITE

Nas semanas seguintes, Ana e Miguel tornaram-se frequentadores do Justine, primeiro na companhia de Raul e Teresa, depois, muitas vezes, sozinhos. Conversando com as pessoas que conheceram, depressa se aperceberam que o compromisso absoluto de Raul e Teresa era muito mais radical do que era costume no meio. Não era uma questão de mais submissão ou menos submissão, mais dor ou menos dor, mas daquilo em que cada um centrava os seus desejos e a sua ideia de felicidade. Antes de frequentarem o Justine, Ana e Miguel pensavam que, quando uma pessoa submissa encontrava uma pessoa dominante, a história tinha chegado mais ou menos ao fim: pouco mais restava do que serem felizes para sempre. Verificavam agora que isto estava longe de ser o caso: era difícil encontrar o dominante certo para o submisso certo, e no Justine, como em qualquer outro lugar, não faltavam corações partidos. Aprenderam também a tolerância, uma vez que os centros do desejo eram quase tantos como as pessoas à sua volta: para uns a moda e o fetiche, para outros a dor física ou a humilhação, para outros a restrição de movimentos, para outros a entrega – que não era a mesma coisa que dádiva; alguns praticavam a monogamia mais estrita, outros viam a expressão máxima do domínio na cedência a terceiros do submisso ou da submissa, sem lhe permitir qualquer escolha quanto à identidade, quanto ao número, ou quanto ao sexo, da pessoa ou pessoas a quem temporariamente servia.

Quase sempre os centros do desejo eram múltiplos, o que tornava tudo ainda mais complicado. Miguel e Ana estavam convencidos que eram o dominante certo para a submissa certa, mas nem por isso deixaram de beneficiar do convívio que tiveram com outros frequentadores do bar. Não os surpreendeu a adesão quase fanática de todos a uma ética muito rígida e muito simples que se exprimia na máxima “safe, sane and consensual”: uma regra como esta era necessária num meio em que se cruzavam personalidades e desejos tão diversos, e era uma boa base para que a comunidade pudesse organizar uma rede informal mas eficaz de protecção mútua contra predadores e psicopatas.

Raul e Teresa eram menos assíduos. Quando ia ao Justine, Teresa costumava levar, enfiado na vagina, o primeiro óvulo de controlo remoto que Raul tinha adquirido. O óvulo mais recente, operado por telemóvel, nunca era usado no Justine e raramente noutros lugares: só algumas vezes, quando Teresa ia às compras ou encontrar-se com amigos e familiares. No Justine, Teresa estava sempre consciente que, estivesse a fazer o que estivesse – a falar com outros frequentadores do clube, a arranjar-se nos lavabos, a trazer uma bebida ao dono, a qualquer momento se poderia desencadear no interior do seu corpo, sem aviso, aquela vibração que para a sua sensibilidade continuava a misturar sofrimento e prazer. Miguel perguntou a Raul onde podia adquirir um aparelho semelhante, e passados poucos dias Ana passou também a usar um óvulo na vagina; mas para ela a sensação era de puro prazer.

Ana e Miguel não se tratavam por “meu senhor” ou “minha escrava”; perante terceiros, ele referia-se a ela como “a Ana” – ou, no Justine, “a trilby” – e ela a ele como “o meu Dono”. Descontadas estas formalidades, que não eram importantes, a sua relação parecia encaminhar-se numa direcção semelhante à de Raul e Teresa. Isto preocupava um pouco o par mais velho, que se sentia responsável e sabia que nem todas as relações de domínio e submissão se conformam a modalidades tão exigentes como a que tinham escolhido para si próprios. Preocupava-os a possibilidade de os dois jovens fazerem uma escolha que mais tarde um ou outro não pudesse suportar. Por isso viam com bons olhos a maneira como eles se iam integrando na comunidade: assim podiam conhecer outras formas de domínio e submissão e construir por si próprios a que mais se adaptava às suas necessidades particulares.

Um assunto que discutiam muito era o que aconteceria se as necessidades de um deixassem alguma vez de corresponder às do outro.

– Mas não correspondem? – perguntava sempre Raul.

– Correspondem – respondia sempre Ana ou Miguel. – Mas se não correspondessem, como era?

– Em teoria prevaleceriam as necessidades do Miguel – preconizava Teresa, radical como sempre.

– Mas na prática – prevenia Raul – têm que ter algo em comum para que os desejos de um possam enriquecer os do outro. É este o vosso caso, parece-me, e por isso não vejo porque se preocupam. Teriam razão para se preocuparem, por exemplo, se para um de vós uma coisa qualquer tivesse um valor simbólico ou erótico muito grande, que a tornasse indispensável, e para o outro essa coisa fosse absolutamente insuportável.

– Mas por outro lado – disse Teresa durante uma destas conversas – se aquilo que o senhor exige não for de todo insuportável para a escrava, esta dificuldade até pode ser uma coisa boa: pode ser uma forma de tornar a escrava mais escrava. É como os meus pés nus: no imaginário do Raul os pés nus sempre foram um símbolo importante de humildade e submissão. Agora já o são também no meu imaginário, que por isso mesmo está mais rico: já faziam antes parte dele, mas tinham outro significado, diferente e mais limitado. Este significado não se perdeu, apenas se lhe acrescentou o que Raul lhe deu. Claro que andar descalça é muitas vezes um grande sacrifício, e por vezes, em público, quase morro de vergonha. Mas para mim vale a pena: uma escrava que não esteja preparada para fazer sacrifícios grandes não merece o nome de escrava.

[ …]

Raul sorriu levemente, fez-lhe uma pequena festa no rosto e virou-lhe as costas para ir pousar o chicote na banca. Depois voltou com cordas para lhe amarrar os pulsos e os tornozelos aos quatro cantos do rectângulo formado pelas colunas. Teresa deixou-se amarrar docilmente; fechou os olhos e começou a murmurar repetidamente “amo-te, amo-te, amo-te”, como se a repetição infinita desta verdade fosse o mantra que a ia proteger na provação que a esperava.

– Agora vou-te vendar – disse Raul. – Posso?

Para não interromper o “amo-te, amo-te, amo-te” que continuava a dizer baixinho, Teresa limitou-se a acenar que sim. Se estivesse em estado de achar graça a alguma coisa, teria sorrido por ele ter pedido permissão para a vendar quando não precisava de permissão para nada do que estava a fazer. Continuou a dizer baixinho “amo-te, amo-te, amo-te” enquanto tentava prever ao fim de quantas chicotadas começaria a gritar.

Começou a gritar logo à primeira, um berro agudo e ensurdecedor que dificilmente se acreditaria que pudesse ficar confinado entre as paredes do quarto, ou sequer da casa. Esta chicotada atingiu-a obliquamente nas nádegas, marcando um traço que ia da parte superior da esquerda à inferior da direita. A segunda atingiu-a horizontalmente e um pouco mais acima, arrancando-lhe um grito tão forte como o primeiro. Das que se seguiram, nenhuma correspondia a nada que ela pudesse ter imaginado ser capaz de suportar. Mais do que todas as outras, doeram-lhe as que a atingiram no rego entre as nádegas e as coxas; mas por esta altura já se tinha cansado de gritar. Os primeiros gritos que soltara tinham sido emitidos num soprano cristalino, mas pouco a pouco foram enrouquecendo até se tornarem urros que quase nada tinham de humano. E mesmo estes acabaram por dar lugar a arquejos de aflição, entremeados de rosnidos de fera encurralada.

O chicote não fazia um silvo tão agudo como o da vergasta, e o som que fazia ao contactar com a carne não era tão seco. Mas a dor era inconcebivelmente maior, maior do que qualquer punição que Teresa já tivesse recebido.

Quanto tempo durou isto? Não é possível contá-lo, nem em segundos, nem em minutos, nem em número de golpes desferidos. Teresa só soube que o seu tormento tinha terminado quando Raul lhe tirou a venda. Olhou à sua volta, espantada: o quarto era o mesmo, o mundo não tinha mudado. Quando Raul lhe libertou os tornozelos, esfregou os pés um no outro, tentando restaurar a circulação. Depois, quando ele lhe libertou os pulsos, as mãos voaram-lhe para onde tinham estado antes de ele a amarrar: cruzadas em frente ao sexo, escondendo-o, tapando-o, negando-o ao olhar e ao desejo do macho. Raul não lhe ordenou que descruzasse as mãos: pôs-se em frente dela, olhou-a nos olhos – que ela não conseguiu furtar aos dele – disse-lhe “amo-te” e foi de novo buscar o chicote.

Teresa bem sabia para que era agora o chicote, era para ela o beijar: e nesse momento sentiu-se invadir por uma tal revolta, que numa fracção de segundo, na sua imaginação, saiu dali, vestiu-se, fez a mala, chamou um táxi, foi para o aeroporto e regressou ao seu apartamento no Corso Magenta. Mas na realidade, o que fez foi ajoelhar-se e beijar o chicote, sem que Raul precisasse de lho ordenar. Depois levantou os olhos para o dono e viu-o imóvel, de pé, à espera. À espera de quê? Que mais que queria ele ainda? Que ela lhe dissesse o que disse, é claro:

– Obrigada, meu dono.

No momento em que estas palavras lhe saíram da boca aconteceu uma coisa que a fez sentir ódio por si mesma: enrubesceu, os lábios entreabriram-se, os quadris rodaram num círculo imperceptível, como se tivessem vontade própria, e sentiu-se a ficar molhada. Este ódio por si própria, assim como veio, assim desapareceu; a vergonha a que ele deu lugar também teve a vida curta; a excitação, essa sim, permaneceu – e com ela surgiu-lhe na alma um sentimento de orgulho que a levou a repetir:

– Obrigada, meu senhor. Amo-te. Faças de mim o que fizeres, hei-de amar-te sempre.

Esta expressão de submissão não lhe amainou de todo a revolta: uma coisa era aceitar, por sua deliberada vontade, a dor que ele lhe quisesse dar, outra era responder-lhe com uma reacção involuntária do corpo. Mas não, estava a ser injusta: o acto de vontade tinha vindo antes, tinha sido responsabilidade sua; e se o corpo estava de acordo com a vontade, não merecia censura. Rola os quadris, escrava, entreabre a boca, semicerra os olhos, pensou Teresa. Afasta as pernas. Deixa que a cona se molhe. Tens direito a tudo isso: fui eu, enquanto mulher livre, que to dei.

[ … ]

Nem fazer segredo, nem fazer alarde, pensou Teresa. Era este o princípio que ela e Raul tinham adoptado. Numa aula de dança, em que está presente apenas um número limitado de pessoas, vestir-se como de costume não seria fazer alarde, tapar-se toda é que seria fazer segredo. Já o tinha feito uma vez, não ia fazê-lo de novo. Vamos lá ver o que acontece, pensou, e apresentou-se na aula com uma saia vermelha de cintura baixa que lhe deixava a descoberto quase todas a zonas do corpo onde tinha sido chicoteada.

O que aconteceu foi espanto, repulsa, solicitude e indignação. Não serviu de muito explicar que tudo se tinha passado com o seu consentimento: somente nalguns casos a indignação deixou de ser contra Raul e passou a ser contra ela. Em algumas das mulheres presentes, porém, a indignação foi mais convencional que sentida; houve as que ficaram um momento pensativas e não disseram nada; e Ana, é claro, ficou fascinada, querendo saber tudo, se tinha doído muito, se tinham feito amor depois, se ela própria seria capaz de suportar o mesmo, se Miguel quereria alguma vez, ou poderia, castigá-la assim.

– Se o Miguel te fizesse isto, suportavas?

– Claro que suportava! – respondeu Ana.

– Não sabes o que dói… – disse Teresa. – Dói mesmo muito, e parece que dura séculos.

– Não interessa, suportava e agradecia – respondeu Ana.

Teresa ficou sem saber se tamanha certeza lhe vinha do auto-conhecimento, dalguma necessidade antiga, ou apenas da extrema juventude, que não teme nada. Dançou particularmente bem nesse dia; se isto a fez subir ou descer na consideração das colegas, nunca chegou a sabê-lo.

[ … ]

Era um Setembro quente, mais quente do que tinha sido Agosto. Nestes primeiros dias do mês, Teresa tinha sido punida quase diariamente com uma variedade de instrumentos, uns mais dolorosos do que outros, mas o chicote que lhe causara a dor maior e as marcas mais fundas não voltara a ser usado. Cada punição confirmava o que Teresa já sabia: que a expectativa a excitava um pouco; que a experiência, enquanto durava, lhe tirava toda a excitação; e que se voltava a excitar, confirmando-se como escrava de Raul de um modo cada vez mais inegável, no momento em que se ajoelhava para beijar o chicote e para agradecer o castigo. Teresa compreendia e aprovava a intenção, que adivinhava em Raul, de transformar esta confirmação em rotina: não bastava que o “obrigada” e o “amo-te” que proferia ritualmente fossem verdade, como de facto eram: era preciso que se tornassem inevitáveis, automáticos, evidentes, a tal ponto que a sua eventual omissão se tornasse, ela sim, uma mentira.

Uma noite, Raul colocou um banco almofadado entre as duas colunas, mandou-a sentar e atou-lhe os pulsos aos capitéis, esticando-lhe os braços. Para dar folga às cordas, bastaria a Teresa pôr-se de pé, mas ele apertou-lhe um cinto aos quadris e atou-o com cordas a duas argolas na base das colunas. Agora ela já não poderia aliviar a tensão dos braços, mesmo que quisesse; mas mesmo assim Raul esticou as cordas ainda mais. Teresa ainda tinha os pés assentes no chão, mas ele amarrou-lhe os tornozelos, fê-la levantar as pernas e amarrou as pontas das cordas às mesmas argolas a que tinha amarrado os pulsos: Teresa tinha agora os braços e as pernas no ar, as nádegas assentes no banco, e o sexo arreganhado, todo à vista. Foi nesta posição que ele a vergastou, assentando-lhe os golpes na pele fina do interior das coxas, na parte de baixo das nádegas, e sobretudo na vulva. Teresa já tinha desistido de comparar dor com dor: já tinha aprendido que a punição que dói mais era sempre a que estava a sofrer no momento. Entregou-se toda à dor; ou, melhor dizendo, não foi preciso entregar-se, porque a dor se apoderou dela como sempre, totalmente, sem deixar lugar para qualquer outra sensação ou pensamento.

[ … ]

Dias depois, teve mais uma sessão de depilação eléctrica, e temia que a esteticista lhe visse as marcas da vergasta. De facto ainda as tinha, mas não sentiu a vergonha que teria sentido uns meses antes. A esteticista, quando as viu, comentou que a senhora afinal estava habituada a dores piores do que as que ela lhe provocava; para além disto não teve qualquer reacção, a menos que por reacção se contasse o especial cuidado com que a tratou. As pessoas nunca são quem julgamos, pensou Teresa, ao dar-se conta de que não sabia a que atribuir aquela vaga simpatia da esteticista: entrariam ali todos os dias mulheres com marcas de vergasta no sexo? Todas as semanas? Todos os anos? Ou teria sido ela a primeira, destinada talvez a ser também a última? Teria esta jovem tranquila visto alguma vez marcas semelhantes noutros contextos, noutros corpos, quem sabe se no seu próprio? Quantos mundos existem à nossa volta, diferentes uns dos outros, diferentes daquele que julgamos estar a ver?

[ … ]

De tarde vestiu uma saia que tanto servia para andar na rua como para dançar. Na parte superior do corpo pôs um choli que, ao contrário dum top rígido, permitiria que os seios lhe oscilassem sem terem que ficar nus, escandalizando as outras alunas. Na aula, prestou atenção a todas as instruções da professora, de modo a que todos os movimentos fossem exactos e perfeitos mas ao mesmo tempo fluidos e soltos.

– Hoje dançou muito bem – disse-lhe a professora. – Houve momentos em que pareceu inspirada.

Antes de ir lanchar com Ana, Teresa queria passar pelas colegas e pela professora uma folha em que elas pusessem os endereços para lhes poder enviar os convites para o casamento. Recolhida a folha, verificou que algumas a tinham passado adiante sem escrever nada: estavam no seu direito. No dia seguinte de manhã, depois da aula de pompoar, passou outra folha e ficou contente porque desta vez todas as colegas escreveram os seus endereços. Esta aula foi a primeira em que as alunas usaram vibradores; mas, ao contrário do que Teresa chegara a temer, desligados. O objectivo era ver se eram capazes de sugar o vibrador para dentro da vagina e de o expulsar sem usar outros músculos além dos que tinham estado a exercitar nas aulas anteriores. Teresa não foi das que tiveram mais dificuldade, mas o esforço foi tão grande que, ao saber que mais tarde se esperaria dela e das colegas que sugassem e expulsassem o vibrador dezenas de vezes seguidas, duvidou que tal fosse possível.

Teresa sempre tinha exercido uma profissão, e isto tinha-lhe alargado o mundo. Até puta fui, pensava por vezes, cada vez com menos amargura mas talvez com mais melancolia. Depois decidira dedicar-se inteiramente a Raul, mas sempre com uma réstia de medo que esta opção a confinasse a uma estreiteza de vida que não desejava. Verificava agora que o amor e o sexo, a obediência e o serviço prestados a um senhor, podem constituir uma ocupação a tempo inteiro, exigindo organização, disciplina e um treino intenso e difícil. Não se sentia menos digna como escrava do que se tinha sentido quando era uma mulher de carreira no mundo do jornalismo e da moda; tinha passado, pelo contrário, dum estatuto virtual para um estatuto real que a fazia sentir-se mais presente no mundo.

Foi assim, serena e segura de si como uma matriarca antiga, que assistiu à assinatura dos últimos papéis e ao cumprimento das últimas formalidades que conferiam à sua irmã Carolina a propriedade da empresa que tinha fundado. Também Carolina teve neste dia o seu acesso a um mundo ligeiramente diferente: abandonava o proletariado, tornava-se senhora de si e não tinha ninguém a quem prestar contas. E se não se deu conta que por este caminho tão diferente tinha chegado exactamente ao mesmo ponto que a irmã, já a esta o facto não passou despercebido. O Mundo é com efeito prodigioso e vário.

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(Início do Capítulo 16)

Dias mais tarde, andando Teresa a arrumar o apartamento, decidiu esvaziar completamente um armário embutido que não tinha arrumado antes e que, estando no escritório, se prestava a que lhe substituíssem as portas por umas de vidro, obtendo assim um espaço que se podia estantear para guardar livros. Encontrou a parte de cima cheia de malas velhas que era preciso deitar fora; e abrindo uma destas deu com um chicote preto, de couro, dos que doem mais. Há quantos anos estaria aquilo ali? O couro estava baço e manchado, mas ainda flexível; e Teresa decidiu que na primeira oportunidade havia de o limpar e restaurar, porque era um lindo objecto, muito decorativo, que ficaria bem na parede do quarto dos castigos.

De noite mostrou-o a Raul, que ficou espantado:

− Eh, pá! Onde foste desencantar isso? Nem me lembrava que ele existisse. É de quando? Do meu tempo de solteiro, seguramente.

− A Isabel alguma vez levou com ele?

− A Isabel? Parece-me que nem nunca o viu. E por falar nela: tem-te telefonado?

− Tem, e eu marco sempre encontros, e falto sempre. Mas deixa lá a Isabel e olha para isto: não é um lindo objecto? Quando eu o limpar e restaurar, vai ficar perfeito.

Passaram mais uns dias. Teresa tinha planeado uma viagem com Carolina a Milão. Na véspera, serviu o jantar a Raul, vestida com o seu uniforme de criada em xadrez cor-de-rosa e branco. Depois de arrumar a cozinha, e quando se preparava para ir mudar de roupa, ele deteve-a:

− Hoje não, meu tesouro. Não te vás vestir. Hoje quero que te ponhas toda nua e me esperes no quarto dos castigos.

Teresa empalideceu. Sem dizer uma palavra, voltou-lhe as costas, foi para o quarto, despiu-se completamente, e foi esperar por Raul no quarto dos castigos: de pé, braços caídos, olhos baixos, sem ousar tocar em nada. Quando Raul chegou, disse-lhe em voz sumida:

− Meu senhor, desculpa, ainda não limpei o teu chicote preto…

− Não faz mal, minha pequenina – respondeu Raul. − Não é esse que estou a pensar usar. Dá-me a mão.

Teresa ergueu a mão direita e Raul atou-lhe o pulso com uma corda de seda negra, dando várias voltas e deixando livre uma ponta com mais de meio metro.

− A outra – disse Raul.

Com a mesma docilidade, e em silêncio, Teresa deixou amarrar o pulso esquerdo. Quando ele a conduziu, puxando-a pelas cordas, à banca abaulada que estava à direita das colunas, debruçou-se sobre ela sem que ele lho ordenasse e ficou com o rabo empinado enquanto ele lhe prendia os pulsos a uma argola perto do chão. Teresa sentia os seios esborrachados contra a superfície de couro, mas tinha a cabeça livre, podendo erguê-la para olhar em frente ou baixá-la para ver os pulsos amarrados à argola, que rebrilhava, limpa por ela própria nessa mesma manhã. Depois sentiu Raul atrás dela, prendendo-lhe os tornozelos, e de lado, passando-lhe à volta da cintura uma correia de couro que depois fixou com cordas a outras argolas de modo a que ela não se pudesse mover para os lados. Depois de a imobilizar completamente, saiu do quarto. Teresa ouviu música vinda de outra parte da casa, não sabia de onde, tocada tão alto que mesmo ali ela a reconheceu: era a Salomé, de Richard Strauss. Não soube quanto tempo ficou à espera: pelo menos tanto quanto durou a abertura da ópera, e o suficiente para ouvir a soprano que uivava por “Jokanaan, Jokanaan”. Quando Raul regressou e fechou a porta atrás de si, a música deixou de se ouvir. Também não ouvirão os meus gritos, pensou. Depois viu-o diante dela, trazendo na mão uma vergasta, que lhe mostrou; era uma vergasta flexível, forrada de seda vermelha e com cabo de cabedal preto.

− Beija a vergasta – disse Raul, chegando-lha aos lábios.

Teresa beijou a vergasta e ergueu os olhos para Raul, numa interrogação muda. Ele acenou com a cabeça, como se estivesse a responder “sim” a uma pergunta que ela tivesse feito, e colocou-se por trás dela. Teresa esperou pela primeira vergastada, dividida entre o desejo de que ela nunca viesse e o de que viesse já, para terminar tudo mais depressa. Ouviu um silvo, contraiu os músculos todos do corpo, mas o golpe não chegou: Raul estava ainda a experimentar a flexibilidade do instrumento. Mas o segundo silvo culminou numa dor intolerável, numa queimadura que lhe atravessou as nádegas dum lado ao outro. Os olhos rebentaram-lhe em lágrimas logo ao primeiro golpe, a garganta em gritos a partir do terceiro ou quarto; mas nem lágrimas, nem gritos detiveram Raul, e o tormento prolongou-se pela sua já conhecida eternidade. Por fim tudo terminou; Teresa distendeu os músculos, encheu o peito de ar – só para sofrer a mais cruel desilusão quando as vergastadas recomeçaram, desta vez vindas da sua direita. Raul tinha mudado a chibata de uma mão para a outra, era tudo.

Só acreditou que tudo tinha terminado de verdade quando viu Raul à sua frente, pondo-lhe a vergasta ao alcance dos lábios:

− Beija a vergasta, escrava.

Teresa beijou-a.

− Agradece o castigo.

Teresa agradeceu, entre lágrimas:

− Obrigada, meu senhor.

− Diz que me amas.

− Amo-te, meu senhor. Amo-te…

E era verdade. Amava-o com toda a amplitude de um coração que ainda lhe parecia estar a rebentar do castigo.

− Amo-te… − repetiu.

Agora que já não estava perdida na dor e recomeçava a ter a noção das coisas, dava-se conta que já tinha recebido castigos bem mais dolorosos do que aquele, e que havia, sem dúvida, de os receber no futuro. Raul tinha escolhido, da panóplia de instrumentos que ela própria lhe enviara, um dos que doíam menos. Mas durante o castigo não se tinha apercebido desta diferença, e tinha gritado tanto como gritaria se ele tivesse sido mais severo. Em frente dos olhos tinha a braguilha das calças dele. Viu-o desapertar o cinto, abrir os botões das calças e das cuecas, tirar o sexo para fora, e sentiu-o encostar-lhe a ponta aos lábios.

− Abre.

Abriu a boca. Pouco tempo depois de ele a penetrar, deu por si a fazer-lhe as carícias e a repetir os movimentos que ele lhe ensinara: como era isto possível? Mas fez as carícias, repetiu os movimentos, usou a língua, e durante este tempo sentiu uma espécie de orgulho, como se o impensável que ele ousava fosse também uma ousadia dela, um teste, uma prova iniciática que a elevava acima de todas as mulheres. Durante o tempo todo não fechou os olhos: fechou-os só quando ele ejaculou, talvez para se perder no momento, talvez para fechar os sentidos a tudo o que não fosse o esperma que lhe enchia a boca e lhe descia pela garganta.

Por fim deixou pender a cabeça, relaxou o corpo todo, deixou-se cair, enquanto ele metodicamente a desamarrava. Já liberta, não saiu do sítio: foi preciso que ele lhe pegasse na mão, a ajudasse a levantar, a conduzisse para o quarto e para a cama que partilhariam nessa noite, como sempre. No percurso ainda inclinou a cabeça sobre o ombro dele e murmurou que o amava, mas em voz tão baixa que ele não a ouviu.

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1202Ricardo acabou de desamarrar Dúnia que, ainda meio a soluçar, se chegou muito a ele, e para esconder o rosto lhe molhou o ombro de lágrimas.

Abraçando-a, conduziu-a de novo à sala, onde lhe pegou no queixo para a obrigar a virar-se para ele. Dúnia ofereceu um pouco de resistência mas acabou ceder: então ele começou a beijá-la nos olhos, na boca, na face, nos cantos dos lábios, chamando-lhe minha querida, minha escrava linda, minha menina. Quando a viu serena perguntou-lhe:

– Sofreste muito?

– Sim – respondeu Dúnia. E depois duma pequena pausa acrescentou:

– Sofri por ti…

Ricardo fez que sim com a cabeça, tomou-a nos braços para a beijar de novo e ordenou:

– Agora vira-te para eu ter ver as marcas.

Dúnia obedeceu prontamente, com uma espécie de orgulho a animar-lhe os gestos. Afastou-se do dono um metro ou dois e girou devagar sobre si própria para lhe mostrar as costas e o traseiro. Curiosa, virou a cabeça para trás por sobre o ombro tentando ver as suas próprias nádegas.

– Estão bonitas, as tuas marcas – disse Ricardo.

Ela não concordou nem discordou. O chicote tinha-lhe traçado uns riscos grossos de um lado ao outro do corpo, mais rosados ou mais vermelhos conforme a força com que os golpes tinham sido vibrados. Onde os traços se cruzavam a vermelhidão era mais intensa, da cor da carne viva.

– Agora ajoelha-te.

O orgulho e a alegria de Dúnia esvaíram-se repentinamente e em seu lugar veio-lhe um forte sentimento de angústia e revolta. Sabia a razão daquela ordem. Conhecia o ritual. Ajoelhou.

Ricardo pegou no chicote, que estava caído em cima do sofá, e pô-lo diante dos lábios dela:

– Minha escrava, beija o chicote.

Ela aproximou os lábios… Mas não, não podia. Suplicou:

– Não, isso não. Não me obrigues a fazer isso. Por favor, meu Dono, não me obrigues.

– Beija o chicote, escrava.

Com um movimento violento da cabeça, Dúnia virou a cara para o lado, fechando os olhos para não ver, não ouvir, não estar ali. Ricardo pegou-lhe no queixo, obrigou-a a virar a cara para a frente e, quando viu que ela não abria os olhos, esbofeteou-a com força. Então ela abriu os olhos, atónita e ultrajada, e olhou para ele fixamente num silêncio desafiador.

– Não queres beijar o chicote, escrava?

Dúnia nunca o tinha visto tão zangado – pálido, com os lábios apertados, as narinas muito abertas, os olhos a faiscar.

– Pois bem, não vais beijar o chicote – disse Ricardo.

Mas acrescentou, antes que ela tivesse tempo de suspirar de alívio:

– Com uma condição.

Dúnia sentiu que tinha mais medo da condição do que do gesto que lhe tinha sido exigido. Timidamente, mansamente, ainda de joelhos, perguntou:

– Que condição, meu Senhor?

A expressão de Ricardo não abrandou.

– Sabes o significado deste beijo. A condição é esta: vais olhar-me bem nos olhos, bem de frente, e dizer-me que esse significado é mentira. Diz-me isso e não beijas o chicote.

Ela baixou os olhos de novo e manteve-se longamente em silêncio sem que ele lhe interrompesse os pensamentos. Por fim disse, em voz sumida:

– Não, não é mentira.

Ricardo não disse nada. Dúnia, depois doutro longo silêncio, repetiu:

– Não é mentira, meu Senhor.

Ao ouvir isto, o Dono apresentou-lhe de novo o chicote; e desta vez ela beijou-o, pondo nesse beijo todo o fervor que antes temera mostrar, e compreendeu então que esse temor tinha sido a causa principal da sua recusa.

– Agora agradece-me o castigo.

Vencida, Dúnia tentou obedecer, mas as palavras não lhe saiam da boca. Ricardo acariciou-lhe o rosto e disse:

– Vá. Repete comigo: “Obrigada, meu Senhor, pelo castigo que me deste.”

Dúnia baixou os olhos, sorriu muito ao de leve, e disse:

– Obrigada, meu Senhor, pela oportunidade que me deste de sofrer por ti.

Ricardo sorriu, encantado pela volta que a sua escrava tinha dado à frase e pela pequenina vitória que esta modificação representava para ela. Inclinou-se, ajudou-a a pôr-se de pé, abraçou-a e ficou mais de um minuto a acariciá-la e beijá-la. Depois sentou-se no sofá e fez-lhe sinal para que se sentasse no chão aos seus pés.

Durante muito tempo ficaram os dois em silêncio com os seus pensamentos. Quando começaram a falar foi como se um dique tivesse rebentado: a conversa prosseguiu pela noite fora. De madrugada, já com os primeiros raios de sol a entrar pela janela, ele possuiu-a sobre o tapete.

(Publicado no Blogger a 29/08/07)

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De repente Dúnia sentiu que não aguentava mais.
– Pára! Pára, meu Senhor, pára!

E num pânico cego rolou sobre a cama, para o mais longe possível, fugindo ao chicote. Nem ela saberia explicar porquê: não era a primeira vez que sofria o chicote – ai, nem de longe – e já tinha tido castigos mais prolongados e mais dolorosos.

Ricardo não conseguiu travar uma última vergastada, que já ia a caminho e aterrou onde ele não queria: no ventre dela, subitamente exposto, subitamente no lugar onde uma fracção de segundo antes tinham estado as nádegas; e nos braços que ela interpusera para se proteger.

Aproximou-se dela, que soluçava:

– Perdoa… Perdoa, meu Senhor, não fui capaz…

Ricardo não disse nada, não perguntou nada. Sentou-a no sofá, sentou-se ao lado dela, abraçou-a e começou a afagá-la e a beijá-la enquanto os soluços se lhe iam acalmando. Só ao fim de longos minutos é que acabou por falar:

– Então? Então que cenas são estas? Tolinha…

Dúnia sorriu por entre as lágrimas e chegou-se mais a ele:

– Não fui capaz… Perdoa-me, meu querido, não fui capaz…

Ricardo recomeçou a acariciá-la e a beijá-la ao mesmo tempo que brincava com ela chamando-lhe nomes:

– Piegas… Coisa mais piegas… Medricas…

Dúnia indignava-se, queria protestar, não era piegas nem medricas, mas ele com os beijos não a deixava falar, e só parou quando a viu soltar uma risada aberta.

– Anda, vai-me fazer o jantar…

E ao vê-la fazer menção de pegar no vestido:

– Não, não te vistas. Quero-te assim nua.

Depois do jantar e da cozinha arrumada sentaram-se os dois no sofá, abraçados. Depois dum longo silêncio, durante o qual os pensamentos de Dúnia passaram em revista tudo o que tinha acontecido naquele dia, Ricardo soltou um leve suspiro, olhou-a nos olhos e disse:

– Vamos recomeçar?

Dúnia tinha chegado a ter esperança de que não recomeçariam. Com o coração na garganta, conseguiu dizer:

– Sim… Sim, meu Senhor.

Ricardo levantou-se e dirigiu-se para o escritório. Para quê? O chicote estava ali…

Mas quando ele regressou não vinha de mãos vazias. Trazia um longo pedaço de corda preta que parecia de seda. Dúnia nunca tinha sido amarrada mas não ousou protestar.

– Dá-me os pulsos – disse ele.

Dúnia deu-lhe os pulsos cruzados. Ricardo atou-os com várias voltas de tal modo apertadas que ela sentiu que nunca se conseguiria libertar. Depois, puxando-a pela corda, conduziu-a ao hall de entrada, onde havia cabides montados nas paredes.

– Não, meu Senhor – disse Dúnia; mas não ofereceu resistência.

Então Ricardo prendeu-a firmemente a um dos cabides e vergastou-a sem piedade. No fim, como era regra, obrigou-a a beijar o chicote e a agradecer de joelhos o castigo. Dúnia agradeceu; mas nunca lhe chegou a dizer que a maior parte da gratidão que sentia era pelas cordas que não a tinham deixado fugir.

(Publicado no Blogger a 28/08/07)

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«Não há duas mulheres iguais», pensou Vítor, um pouco admirado.
Nem mesmo tratando-se de escravas. Seria de esperar que a condição de escrava simplificasse tudo e uniformizasse tudo, afinal todas as escravas são iguais nos seus direitos, que são apenas dois: o de se tornarem escravas e o de deixarem de o ser, sendo que entremeio não têm nenhuns. Mas não, aqui estava perante ele a sua escrava lassie, a dizer-lhe com o ar mais determinado deste mundo, «não, isso não, isso nunca o poderei fazer».
E isto por causa duma ordem a que nunca nenhuma sua escrava se negara antes, nem mesmo a dúnia, que tinha da vergasta um verdadeiro pavor: a de beijar a vergasta antes e depois do castigo, como sinal de submissão e reconciliação. Recusa tanto mais surpreendente por vir da lassie, uma escrava de cujos limites Vítor pensara até então que já tinha uma ideia muito aproximada. Uma escrava que em muitos aspectos era, das quatro que tinha tido ao longo da vida, a que mais prontamente obedecia às ordens mais difíceis, a que mais dolorosos castigos suportava, a que mais alegremente se humilhava diante dele.

……………………..

Lassie perscrutou o rosto do seu novo dono: como ia ele reagir a esta recusa, a primeira desde o pacto de escravidão que tinham celebrado? Viu-o pôr-se sério, de repente. Depois viu-lhe os olhos atentos, indagadores, que a estudavam e pareciam penetrá-la até ao fundo da alma. A seguir pareceu-lhe ver – mas nisto podia estar enganada – um brevíssimo lampejo de compaixão, logo substituído por uma expressão que lassie conhecia, mas não sabia de onde.
Até que se lembrou: tinha-a visto num filme, no rosto de um samurai que se preparava para o ritual do seppuku. Imediatamente afastou a ideia: é claro que nenhum Senhor se vai suicidar e abrir a barriga com uma espada só porque uma escrava se recusou a obedecer a uma ordem. Mas o que via no rosto de Vítor era a mesma determinação que vira no actor do filme, a mesma imensa saudade pela vida que ia ficar por viver.
– Minha escrava, não tens o direito de recusar.
– Eu sei, não estou a recusar, é que não posso mesmo – disse lassie.
Tratava-se duma insignificância, seguramente, porque sentia ela o coração tão apertado? E o que ia ele fazer, ele, o seu Senhor amado, que intenção tinha ele no coração que lhe punha os olhos daquela maneira, iguais aos do samurai do filme?
– Lassie, minha escrava, sempre que te dou uma ordem estou a arriscar a tua felicidade e a minha. Compreendes isto?
Lassie compreendia, vagamente. Vítor explicou melhor:
– Quando te dou uma ordem estou a apostar que a podes cumprir. Porque se não podes, ou não queres, o único direito que tens é o de deixar de ser minha escrava naquele preciso momento. E eu, a única possibilidade que tenho é libertar-te, mesmo que ao fazê-lo a minha vida deixe de ter sentido.
– A tua vida não vai deixar de fazer sentido só porque eu não quis obedecer a uma insignificância qualquer! – exaltou-se lassie.
– Pois não. Só deixa de fazer sentido se por causa dessa insignificância eu já não te sentir minha.
Lassie encolheu os ombros, irritada.
– Tu pensas que te é impossível cumprir uma ordem que te dei – disse Vítor. – Talvez tenhas razão. Eu penso, e posso estar errado, que consegues. Talvez seja muito difícil para ti, mas impossível não é. É essa a minha aposta. Sei o risco que corro e que te faço correr. A ordem mantém-se: beija a vergasta.
– Não posso…
Por um longuíssimo momento, que pareceu durar horas, Vítor manteve os olhos fixos nos de lassie. Por fim pareceu encontrar qualquer coisa, ela nunca soube o quê, no fundo dela: a expressão com que a olhava suavizou-se de repente e deu lugar a um pequeno sorriso em que a ternura se misturava a um pouco de melancolia.
– Está bem, minha escrava.
E mandou-a, com a voz mais meiga que ela já lhe tinha ouvido, colocar-se em posição de ser punida; de joelhos diante do sofá, os cotovelos e os seios pousados no assento, as nádegas empinadas e nuas. Enquanto esperava pelo castigo, lassie examinou os seus sentimentos. Não se sentia vitoriosa, pelo contrário. Sentia-se como se tivesse acabado de perder alguma coisa, não sabia o quê. Uma parte dela desejava ardentemente que Vítor repetisse a ordem de beijar a vergasta, e dizia a si própria que se ele o fizesse se precipitaria para obedecer. Mas sabia também que aquela ordem não seria repetida nas próximas semanas ou meses, e que talvez nunca mais o fosse.
Quando o castigo finalmente veio – duro, súbito, impiedoso – foi uma libertação e um deslumbramento: lassie entregou-se a ele e perdeu-se nele como um suicida entrega o corpo ao mar.
(Publicado no Blogger a 09/09/06)

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«Não há duas mulheres iguais», pensou Vítor, um pouco admirado.

Nem mesmo tratando-se de escravas. Seria de esperar que a condição de escrava simplificasse tudo e uniformizasse tudo, afinal todas as escravas são iguais nos seus direitos, que são apenas dois: o de se tornarem escravas e o de deixarem de o ser, sendo que entremeio não têm nenhuns.

Mas não, aqui estava perante ele a sua escrava lassie, a dizer-lhe com o ar mais determinado deste mundo, «não, isso não, isso nunca o poderei fazer». E isto por causa duma ordem a que nunca nenhuma sua escrava se negara antes, nem mesmo a dúnia, que tinha da vergasta um verdadeiro pavor: a de beijar a vergasta antes e depois do castigo, como sinal de submissão e reconciliação.

Recusa tanto mais surpreendente por vir da lassie, uma escrava de cujos limites Vítor pensara até então que já tinha uma ideia muito aproximada. Uma escrava que em muitos aspectos era, das quatro que tinha tido ao longo da vida, a que mais prontamente obedecia às ordens mais difíceis, a que mais dolorosos castigos suportava, a que mais alegremente se humilhava diante dele.

……………………..

Lassie perscrutou o rosto do seu novo dono: como ia ele reagir a esta recusa, a primeira desde o pacto de escravidão que tinham celebrado? Viu-o pôr-se sério, de repente. Depois viu-lhe os olhos atentos, indagadores, que a estudavam e pareciam penetrá-la até ao fundo da alma. A seguir pareceu-lhe ver – mas nisto podia estar enganada – um brevíssimo lampejo de compaixão, logo substituído por uma expressão que lassie conhecia, mas não sabia de onde.

Até que se lembrou: tinha-a visto num filme, no rosto de um samurai que se preparava para o ritual do seppuku. Imediatamente afastou a ideia: é claro que nenhum Senhor se vai suicidar e abrir a barriga com uma espada só porque uma escrava se recusou a obedecer a uma ordem. Mas o que via no rosto de Vítor era a mesma determinação que vira no actor do filme, a mesma imensa saudade pela vida que ia ficar por viver.

– Minha escrava, não tens o direito de recusar.

– Eu sei, não estou a recusar, é que não posso mesmo – disse lassie.

Tratava-se duma insignificância, seguramente, porque sentia ela o coração tão apertado? E o que ia ele fazer, ele, o seu Senhor amado, que intenção tinha ele no coração que lhe punha os olhos daquela maneira, iguais aos do samurai do filme?

– Lassie, minha escrava, sempre que te dou uma ordem estou a arriscar a tua felicidade e a minha. Compreendes isto?

Lassie compreendia, vagamente. Vítor explicou melhor:

– Quando te dou uma ordem estou a apostar que a podes cumprir. Porque se não podes, ou não queres, o único direito que tens é o de deixar de ser minha escrava naquele preciso momento. E eu, a única possibilidade que tenho é libertar-te, mesmo que ao fazê-lo a minha vida deixe de ter sentido.

– A tua vida não vai deixar de fazer sentido só porque eu não quis obedecer a uma insignificância qualquer! – exaltou-se lassie.

– Pois não. Só deixa de fazer sentido se por causa dessa insignificância eu já não te sentir minha.

Lassie encolheu os ombros, irritada.

– Tu pensas que te é impossível cumprir uma ordem que te dei – disse Vítor. – Talvez tenhas razão. Eu penso, e posso estar errado, que consegues. Talvez seja muito difícil para ti, mas impossível não é. É essa a minha aposta. Sei o risco que corro e que te faço correr. A ordem mantém-se: beija a vergasta.

– Não posso…

Por um longuíssimo momento, que pareceu durar horas, Vítor manteve os olhos fixos nos de lassie. Por fim pareceu encontrar qualquer coisa, ela nunca soube o quê, no fundo dela: a expressão com que a olhava suavizou-se de repente e deu lugar a um pequeno sorriso em que a ternura se misturava a um pouco de melancolia.

– Está bem, minha escrava.

E mandou-a, com a voz mais meiga que ela já lhe tinha ouvido, colocar-se em posição de ser punida; de joelhos diante do sofá, os cotovelos e os seios pousados no assento, as nádegas empinadas e nuas.

Enquanto esperava pelo castigo, lassie examinou os seus sentimentos. Não se sentia vitoriosa, pelo contrário. Sentia-se como se tivesse acabado de perder alguma coisa, não sabia o quê. Uma parte dela desejava ardentemente que Vítor repetisse a ordem de beijar a vergasta, e dizia a si própria que se ele o fizesse se precipitaria para obedecer. Mas sabia também que aquela ordem não seria repetida nas próximas semanas ou meses, e que talvez nunca mais o fosse.

Quando o castigo finalmente veio – duro, súbito, impiedoso – foi uma libertação e um deslumbramento: lassie entregou-se a ele e perdeu-se nele como um suicida entrega o corpo ao mar.

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