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Posts Tagged ‘cabelo solto’

Hoje é dia de Ele vir.

Ontem depois do trabalho fui à esteticista e à cabeleireira. A mocinha queria cortar-me o cabelo mais curto. Pelos ombros, disse ela. O que é que estas mocinhas sabem de alguma coisa? O meu Senhor gosta dos meus cabelos compridos…

– Não – disse eu à mocinha. – É só acertar nas pontas.

E hoje a manhã toda vai ser para me preparar. Começo nua. Nem sequer me visto para tomar o pequeno-almoço. Para quê? Corto com uma tesoura, o mais curto que posso, os pelos do púbis. Deito-os ao lixo. Terá ficado algum caído no chão?

Aproveito este pensamento para aspirar a casa toda. Já a aspirei ontem, mas não faz mal. Olho à volta: está tudo arrumado.

Meto o cabelo numa touca impermeável e vou tomar duche. Lavo-me toda com champô para bebés. Primeiro lavo-me entre as pernas: meto o dedo na vagina e no ânus, o mais fundo que posso, para me lavar por dentro. A seguir lavo-me toda: começo nos ombros, nos sovacos, vou descendo, limpo bem o umbigo, volto a lavar-me entre as pernas, e assim até aos pés, dedo a dedo.

Enxugo-me. Tiro a touca e prendo o cabelo atrás em rabo-de-cavalo. Pego numa gilette nova, no gel de barbear d’Ele, num espelho de mão, e sento-me na borda da banheira para me rapar entre as pernas. Estou concentrada. Não tenho pressa. Trabalho minuciosamente, cantarolando. Quando me dou conta do que estou a trautear, sorrio: é um fado, a Rua do Capelão. No fim lavo-me de novo da cinta para baixo, seco-me e ponho a toalha no cesto da roupa suja. Daqui a pouco, quando tomar banho outra vez, vou utilizar uma toalha lavada; mas também essa irá para a roupa suja logo a seguir.

Quero claridade. Tenho as janelas abertas, as cortinas corridas para os lados. Se do prédio em frente me virem nua pela casa, pois que vejam. É altura de fazer a cama – muito bem feita para Ele a desfazer – e de pôr a mesa, embora esteja certa de que Ele não vai querer comer. Desimpeço a mesinha junto ao sofá e ponho nela um tabuleiro: a garrafa de whisky, um copo, um cinzeiro, a caixa humidificadora com os charutos d’Ele. Abro a tampa e vejo o higrómetro: 70% de humidade, como Ele gosta. Ao lado, a guilhotina de cortar as pontas e uma caixa de fósforos nova.

Ponho música a tocar. Recomeço a cuidar de mim. Encho a banheira com água muito quente e sais de banho e entro nela muito devagar para não me escaldar. Fecho os olhos. Respiro fundo os vapores perfumados. Fico assim a enlanguescer, a acalmar, e pouco a pouco vou fazendo com que o coração me bata mais compassado. Quando a música pára de tocar saio da banheira, seco-me e arrumo rapidamente a casa de banho.

Passo por todo o corpo um creme perfumado. Ponho umas gotas de perfume atrás das orelhas. As unhas das mãos e dos pés estão arranjadas desde ontem com o verniz meio transparente de que Ele gosta. Pinto os lábios de cor-de-rosa escuro e os mamilos da mesma cor.

Sento-me diante do espelho, desprendo o cabelo e começo a escová-lo. Vou contando: cem passagens da escova a todo o comprimento. Para me aproximar mais do espelho abri as pernas. Vejo o meu sexo lisinho. Não é como o duma criança, o sexo duma criança é só uma rachinha e do meu espreitam os lábios da vulva, como duas pétalas rosadas. Com quarenta anos de idade nunca tinha visto bem o meu sexo.

Estou molhada. Perco a conta. Recomeço.

O cabelo está liso e brilhante. Prendo-o com ganchos para Ele depois desprender. Enfeito-me com tudo o que tenho que tenha pedras vermelhas: os brincos de turmalinas que me caem quase até aos ombros, o colar e a pulseira do mesmo conjunto. Ponho ao pescoço um fio de ouro com um pendente de rubis. Outra pulseira, esta só de ouro. Um fio de ouro à volta da cinta, uma pulseira em metal dourado, que comprei de propósito, no antebraço, um enfeite de tornozelo com campainhas.

Estou pronta. Só falta a saia, ou melhor, as saias; mas essas, só as ponho no último segundo, quando ele já me tiver dado o toque no telemóvel a dizer que está a chegar. Sento-me no sofá toda nua, com um livro, à espera.

Ainda é cedo. Leio o meu livro. De vez em quando olho para as saias para ver se não me esqueci de as pôr à mão. Quando o telemóvel toca, arrumo o livro na estante e começo a vestir-me. Primeiro a saia azul forte, transparente, debruada a ouro na fímbria. Por cima, a saia carmim. Vejo-me ao espelho: vista à transparência a saia de baixo parece violeta. Por cima de tudo uma saia dum vermelhão muito aberto, quase cor-de-laranja. Todas as três são abertas de lado até à cintura e eu disponho as aberturas de modo a quase coincidirem. Por um momento quase tenho pena de ter rapado o sexo, a sombra do púbis ficaria bonita à transparência. Mas não, estou a pensar mal: as saias são três, não se conheceria nada. É melhor assim, como Ele ordenou.

A campainha toca. É Ele. Abro a porta de baixo e entreabro a de cima. Estou pronta. Sinto o meu próprio cheiro de fêmea. Se o meu Senhor me penetrasse logo ao transpor da porta, sem sequer um beijo de saudação, entraria por mim dentro sem o menor entrave.

(Publicado no Blogger a 19/08/07)

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Encontro

reverie1A mesa era larga e estavas sentada à minha frente. O teu cabelo preto, longo e frisado, dava-te um ar meio selvagem, meio de madona. Falavas pouco e mantinhas os olhos baixos.

O teu marido falava alto, interrompia todos, contradizia todos. Dirigia às mulheres piropos pesados. Tu parecias não o ouvir.

Mais tarde, estávamos a lançar balões, alguém sugeriu:

– Este é das senhoras.

E logo o teu marido:

– Aqui não há senhoras, há mulheres! A minha mulher não é uma senhora!

(Como pudeste entregar-te assim a um velho? Um homem quase da minha idade…)

Depois, ao caldo verde:

– A minha mulher trata-me por meu senhor!

Olhei para ti. O teu olhar veio ao encontro do meu. Não estavas triste, nem zangada, nem embaraçada, nem nervosa: estavas serena. Fizeste com a cabeça um movimento quase imperceptível de negação. Mal me conheces, mas quiseste que eu soubesse que o que ele estava a dizer era mentira. Porque é que te foi indiferente que os outros acreditassem?

No fim, ao arrumar da louça, cruzaste-te comigo no terraço vazio. Sorriste-me. Foi o teu primeiro sorriso nessa noite.

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Ela jamais compreendera, mas acabou por reconhecer como uma verdade inegável e importante, a confusão contraditória e cons­tante dos seus sentimentos; amava a ideia do suplício mas, quando o sofria, teria traído o mundo inteiro para lhe escapar; quando acabava, sentia-se feliz por tê-lo sofrido, tanto mais feliz quanto mais cruel e mais longo tivesse sido.

Pauline Réage, História de O


Uma tarde o dono de Mariana disse-lhe: “Uma das próximas vezes que vier ter contigo vou trazer um chicote.”

Estavam os dois na cama. Mariana nunca tinha sido castigada fisicamente. Tinham acabado de fazer amor com va­gar e com ternura e ela estava debruçada sobre o amante, dando-lhe pequenos bei­jos no peito. Quando, desorientada pelas palavras dele, quis ob­jectar, ele pôs-lhe um dedo sobre os lábios e começou a retribuir-lhe os beijos, e depois derrubou-a de costas sobre os lençóis amarrotados para lhe beijar e chu­par os seios, e o ventre, e o sexo, até que ela se abriu para ele e se esqueceu do que ia dizer; mas não era uma objecção importante.

Uma noite, havia vários meses, o amante tinha-lhe dado duas ou três palmadas nas nádegas com a mão aberta enquanto faziam amor. Mas isto não se podia chamar um verdadeiro castigo, e não contava.

Horas antes, na praia, tinham jogado um risonho jogo de esquivas: “Não te obedeço. Não sou tua. Que farás se a tua escrava não te obedecer?” Noutra vida, noutro mundo, Mariana era Marta; tinha um marido e uma profissão, e hábitos de autonomia. Mariana era o seu heterónimo de escrava: dócil ou rebelde conforme a hora. O amante, com a voz velada, entrava-lhe no jogo: “Castigo-te. Se não me obedeceres bato-te.”

Mas nessa noite longínqua a fome tinha sido outra, saciada ainda pelo riso mas já também pela ternura; e o castigo, quando veio, veio tímido e tarde, como um intruso. Havia lon­gos minutos que ela e o amante se acariciavam e beijavam, ofegantes e meigos, e Mariana sentia no sexo o florescer húmido do desejo. Ela própria tinha iniciado o jogo: “Olha. Não tens muita sorte. Sou uma escrava desobediente.” À primei­ra palmada nas nádegas sentiu esmorecer a excitação; à segunda sentiu que o sexo se lhe contraía e secava, mas ainda assim não quis protestar. À terceira todo o de­sejo tinha desaparecido e Marta rolou para o outro lado da cama. “Desactivaste-me.”

A ele nunca lhe tinha ocorrido esta palavra para exprimir o fim da excitação. Olhou para ela muito atento e muito sério, mas sem sinais de contrição; e se continuou a acariciá-la e beijá-la, Mariana viu bem que a carícia era agora de ternura e não de desejo. Também ele estava desactivado, como se as palmadas que lhe tinha dado tives­sem tido sobre ele o mesmo efeito que sobre ela.

Mas não exacta­mente o mesmo efeito: enquanto a desacti­vação de Mariana se tinha produzido em três fases instantâneas, coincidentes com os golpes recebidos, a dele estava a ser lenta e gra­dual. O quarto de hotel em que se encontravam era acolhedor e o barulho das on­das chegava-lhes pela ja­nela aberta. Sobre os lençóis amarrotados, muito brancos, destacava-se o pequeno corpo moreno e macio de Mariana. No fundo dos olhos do amante, que falava com ela em tom sereno e voz pausada, podia ver-se uma centelha de riso. A paixão que minutos antes os possuíra tinha desa­parecido – ou melhor, tinha ficado latente sob a ternura dos gestos e das pala­vras.

Mas um pouco mais tarde, de repente, sem que Mariana se desse conta da transição, a excitação do amante tinha voltado; o pénis que se com­primia contra as suas coxas estava erecto de novo. Ela própria se encontrou subitamente activada, embora com uma excitação diferente da que tinha sentido antes. Sem querer reflectir em que consistia a di­ferença, inclinou-se sobre o corpo do amante:

“Deixa-me fazer. Meu senhor.”

Não era frequente, nesse tempo, que Mariana tratasse o amante por Senhor, nem que lhe tomasse o sexo na boca – carícia que ela já tinha confessado ser-lhe penosa e que ele, de resto, quase nunca lhe exigia. Desta vez aplicou-se em dar-lhe todo o prazer de que foi capaz; quando ele, perto do fim, lhe fez sinal de que não conseguiria evitar a ejaculação por mais tempo, redobrou de esforços para lha provocar, e recebeu-a no fundo da garganta. Ainda se abraçou a ele por alguns segundos antes de se levantar e de ir para a casa de banho.

Tudo isto tinha acontecido havia meses. Entretanto várias coisas se tinham passado entre Mariana e o dono: tinha-se habituado, por exemplo, a descalçar-se diante dele, a soltar os cabelos, em sinal de respeito e submissão; tinha aprendido a reco­nhecer e a aceitar, em si mesma e nele, a crescente dor da ausência; e uma tarde, num banco de jardim, por palavras da sua própria boca, e quase por sua própria iniciativa, tinha confessado e feito explícito o seu estatuto de escrava. Abraçada ao seu senhor, nessa tarde, falando-lhe ao ouvido, sem querer olhar para ele, tinha enunciado uma a uma as condi­ções e as consequên­cias da sua escravidão. Mas tinha havido uma condição e uma consequência que ela não tinha mencionado, uma condição e uma consequência em que não queria sequer pensar: a sujeição ao castigo, a necessária sujeição ao castigo. Mariana lembrava-se das muitas ve­zes que perguntara ao amante, “que farás se a tua escrava não te obedecer”.

“Castigo-te,” respondia ele sempre. Talvez fosse por recear uma resposta mais explícita que Mariana tinha começado a fazer-lhe a pergunta menos vezes. E embora tanto a pergunta como a resposta fossem parte de uma representação, de um desafio, a verdade é que cada vez mais correspondiam a uma real perplexi­dade: o que faria ele, o que fariam am­bos, no momento inevitável em que ela não quisesse ou não pudesse cumprir a servidão que se impusera?

Um Senhor não é um marido, não amua, não retalia com frasezinhas veneno­sas ou silêncios estudados. Qualquer punição que o dono de Mariana lhe viesse a impor seria ne­cessariamente física. Era isto que ela não ousava admitir, como não ousava admitir que a perspectiva a fascinava – não pelo prazer que o castigo físico lhe pu­desse dar, que era nenhum, mas pelo que significava de submissão. Mas ele não tinha voltado a puni-la, nem ela o tinha que­rido, desde a noite em que a tinha desactivado.

Se o seu senhor alguma vez viesse a castigá-la, não o faria, pensava ela, para satisfazer o seu próprio prazer; nem para lhe dar prazer a ela. E sobretudo nunca o faria para resolver brutalmente um conflito ou uma frustração. Mariana dizia a si mesma que estava pronta a ser castigada pela primeira razão, embora lhe parecesse pouco provável que o amante alguma vez lho exigisse. Para ter ela própria prazer, não; a dor não lhe dava prazer. E era claro para ela que o amante nunca desceria a castigá-la pela terceira razão.

Estava portanto a salvo. Além destas três razões, não conseguia imaginar mais nenhuma que pudesse levar um homem a querer punir fisicamente a mulher amada, ou esta a aceitar ser punida. Mas estava a enganar-se a si mesma, sabia-o bem. Havia uma quarta razão possível para o amante a punir. Se estivesse verdadeiramente a salvo, nem sequer lhe ocorreria, a ela ou ao amante, pensar no assunto; e muito menos abordá-lo. E de resto, quantas vezes não tinha querido ela própria arranhar, morder, magoar os que lhe estavam mais próximos? Sim, até a mãe, o marido, as amigas mais íntimas; até os filhos. E não para tirar daí prazer, obviamente; nem, o que seria igualmente grotesco, para lhes dar prazer; nem mesmo para vencer discussões ou libertar violências reprimidas – mas sim, precisamente, para melhor os possuir. Para os amar, se tal palavra se pode dizer neste contexto sem empalidecer de terror.

“Para o meu dono me castigar,” reconhecia Mariana finalmente, “basta que me queira possuir.” Não era necessária outra razão para o castigo: eis o que lhe custava a aceitar. Não queria sofrer, mas queria per­tencer ao amante – e para isso teria de estar sujeita não sabia a que sofrimentos, sem poder tirar deles um prazer masoquista, e sem se poder consolar com a ideia que lhe estava a dar a ele um prazer sádico.

Um dia, em Lisboa, perto da Praça da Figueira, Marta passou pela montra de um seleiro. Lá dentro, entre estribos e botas de montar, viu uma pequena ver­gasta de bambu, fina e flexível, com um punho de couro e acabamentos em latão brilhante. Era uma bonita peça artesanal, forte e delicada, de um castanho quase negro e com o brilho discreto que só um fabrico perfeito pode dar. Marta en­trou na loja e pediu que lha mostrassem: era do ta­manho exacto para o saco de viagem que costumava levar nos seus encon­tros. Ao pagar ainda se perguntou o que estava a fazer; mas não quis ou não pôde responder à sua própria pergunta.

Alguns dias depois Mariana mostrou a vergasta ao amante: “É para ti. Para mim.”

O amante sorriu-lhe, aparentemente desatento à impossível ousadia desta dádiva, beijou-a ao de leve, e pousou a vergasta sobre o toucador aos pés da cama. Depois fez com que ela se despisse e mandou-a ajoelhar.

Mariana já se tinha dado conta que quando o amante a possuía pela boca o prazer dele era mais intenso, mas muito mais demorado, do que quando a pe­netrava pelo sexo. Desta vez foi-a penetrando alternadamente nas duas aberturas, durante o que a ela lhe pareceu horas. Por fim fê-la gemer num or­gasmo intermi­nável ao mesmo tempo que se lhe esvaía no fundo da vagina. Depois de tudo terminado ele deitou-se de costas e puxou-a para si. E foi nesta posição que Mariana acabou por adorme­cer, a meio da conversa: uma coxa sobre as pernas dele, os cabelos pretos espalhados sobre o peito masculino; e nunca chegou a saber que o dono tinha ficado acordado muito tempo a velar-lhe o sono.

De manhã, quando estavam os dois a fazer as malas, a primeira coisa que ele guardou foi a vergasta. Antes de a arrumar no fundo do saco passou-lhe os dedos por todo o comprimento: “Obrigado, Mariana. É muito bonita. Vou passar a trazê-la sempre comigo quando nos encontrarmos.” E assim fez, mas nos encontros seguintes não chegou a tirá-la da pasta; Mariana, aliviada, chegou a pensar que ele não tencionava usá-la nunca.

E com efeito só veio a usá-la alguns anos mais tarde, já depois de terem ido viver para fora de Portugal e regressado. Foi no Inverno, numa casinha de pedra no Gerês, ao calor da lareira. Mariana tor­ceu-se de dor sob os golpes, que a queima­vam como ferros em brasa. Pela tercei­ra ou quarta vez desde que se conheciam chorou na presença do amante; mas as lágrimas anteriores tinham sido de felicidade, ou de saudade pelos anos perdidos, ou de angústia pelo futuro, e era impossível dizer qual destes elementos predominava. Nas de hoje não havia ambiguidade, eram de dor e revolta: talvez viesse desta certeza a sensação de liberdade que a invadia.

Mariana nunca tinha chorado um choro assim desfeito. No fim do castigo perscrutou o rosto do amante, e viu-o angustiado, tão pálido como a serra sob o céu cinzento. Abraçou-se a ele toda nua, como que para o consolar, molhando-lhe a roupa com as últimas lágrimas e sentindo-lhe as mãos na carne ainda dorida. Depois, quase a medo, fizeram amor. Uma acha crepitou na fogueira. Lá fora nevava, e ouvia-se o vento, e um ramo molhado vergastava a vi­draça.

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Então, para ver se a menina era quem dizia, a velha re­solveu pôr-lhe uma ervilha seca debaixo do col­chão, porque, se fosse uma princesa, fa­cilmente a sentiria. E com efeito, na manhã seguinte, a menina queixou-se que alguma coisa a tinha magoado toda a noite. Mas o Rei ainda não acreditava, e as aias puseram outro colchão, e outro, e outro, até que viram que a menina sentia a ervilha mesmo de­baixo de sete colchões.

Conto tradicional

O dono de Mariana tinha alugado uma casa nas dunas. Era uma casa antiga com rudes paredes caiadas de branco e ocre, na espessura das quais se abriam frestas, nichos, portas em arco. Estas paredes eram tão grossas que os umbrais das portas se pareciam com minúsculos corredores abobadados – pelo menos aos olhos de Mariana, habituada, na sua casa de paredes finas em Lisboa, a que o único curto passo com que saía de um compartimento a levasse ao seguinte. O pavimento era um quadriculado rústico de terracota avermelhada, mais escuro e brilhante no inte­rior da casa do que no exterior. Nos terraços, o mesmo pavimento, calcinado pelo sol e despolido pelo vento e pela areia, tinha adquirido com os anos um belo tom de salmão avelu­dado e claro. No chão dos terraços restava sempre, por muito que se varresse, uma ténue palha friável, exalada pelo vento como num hausto de África – resíduos de algas e de relva seca, fragmentos de ortigas e de cactos, tão ressequidos e frágeis que era possível, sem que a mão se picasse, reduzi-los a pó entre dois dedos.
Quando chegaram o sol já estava baixo, mas ainda brilhava com suficiente intensidade para que todas as cores na praia se diluíssem numa brancura obses­siva e cruel. Sob um sol menos violento o vestido de Mariana seria cinzento claro; a esta luz, e em contraste com a pele morena, parecia tão branco como todo o resto da paisagem.
Mariana trazia sandálias brancas de verniz, e vinha nua por baixo do vestido. Tinha quarenta anos, um rosto mais novo que a idade, e um corpo mais novo que o rosto. Havia muito que desejava acompanhar o amante num fim de se­mana como este, mas só à última hora se decidira a fazê-lo. Gabriel, o marido, estava no estrangeiro, numa feira industrial. O que Mariana deixava atrás de si era uma família cada dia mais independente e um heterónimo, Marta, que era a pessoa representada no seu bilhete de identidade.
No automóvel Miguel tinha-lhe ordenado que despisse a roupa interior. Conse­guiu tirar as cuecas sem que ninguém a visse no meio do trânsito: bastou-lhe soer­guer-se no assento e fazê-las deslizar ao longo das coxas e das pernas. Mas ao contorcer-se para tirar o soutien não pôde evitar que dos outros carros lhe pudessem ver os seios.
O cabelo já o trazia solto antes de entrar no carro. Ao lado do amante Mari­ana sentiu-se mais nua no seu vestido do que se estivasse nua de verdade. Teve de súbi­to vontade de o beijar, de o tocar, de lhe pedir que parasse o carro ali mesmo, entre as ár­vores. Com a mão esquerda acariciou-lhe o cabelo, os olhos nele, indagadores.
Ele aceitava-lhe as carícias sem as retribuir, atento à estrada. Mas esta aten­ção era puramente mecânica. Mariana sabia bem que a mais profunda atenção do seu amante estava virada para ela. O desapego que ele, com um exagero deliberado e subtil, fazia gala em exibir-lhe, era um jogo, uma auto-ironia. Como se lhe dis­sesse, «vê, sou um homem, não posso deixar de sepa­rar as coisas». Bastava ler-lhe o rosto: cada carícia dela despertava nele uma reacção discreta mas consciente: nada mais, muitas vezes, do que o olhar a dançar ale­gremente entre ela e a estrada, ou um meio sorriso a adoçar-lhe o perfil.
O colóquio de velhos amigos que mantiveram durante a viagem foi para am­bos uma disciplina e um comprazimento. Foi uma conversa decorosa, entre­meada de silêncios confortáveis, que manteve o seu tom plácido mesmo quando Mariana começou a acariciá-lo através das calças. E quando ele a sentiu, com as suas pe­quenas mãos de menina púbere, abrir-lhe os jeans e procurar-lhe o sexo, só a voz um pouco enrouquecida lhe traiu perturbação.
Mal os dois amantes entraram em casa abraçaram-se, boca contra boca numa fome acumulada em semanas de ausência, em horas de viagem. A interva­los inter­rompiam o abraço para cumprir as tarefas necessárias: pôr comida no frigorífico, desfazer as malas, dispor as escovas no quarto de banho. Tomaram duche um de cada vez, pudicamente, como sempre faziam nas primeiras horas de cada encon­tro.
Entretanto fez-se noite. Miguel pôs música a tocar. Enlaça­dos no sofá, de roupão, ao som de Brahms, falaram de si e das suas vidas: a família, a profissão, as pequenas vitórias quotidianas sobre a morte e sobre os deuses. O dono da casa, que Maria­na não conhecia, tinha-se esforçado por tor­ná-la confortável: electricidade, gás, fri­gorífico, alta fidelidade, e um enorme quarto de banho em mármore branco: pró­prio para princesas e odaliscas, pensou Mariana. E achou estranho que o quarto de dormir, contrariamente ao resto da casa, não tivesse luz eléctrica.
Por única iluminação havia no quarto uma lam­parina, como a lâmpada de Aladino. O amante de Mariana deitou fora o azeite velho, trocou o pavio por um novo, lavou a lâmpada cui­dadosamente, e encheu-a com um óleo perfumado que trouxera num frasco. O acender da candeia foi um acto ritual, e foi iluminados por ela que os dois aman­tes, pela pri­meira vez desde há demasiado tempo, se viram nus.
Como explicar que a redescoberta dos corpos seja sempre mais comovida do que a primeira descoberta? O maravilhar-se é igual, ou sempre renovado; a urgên­cia, muitas vezes, também; mas entre a primeira vez e a segunda a inquie­tação é diferente. Ao temor do outro sucede o temor, mais nobre, do deus que no outro existe sempre. E com efeito: foi com o mais respeitoso e inquieto dos cuidados que os dois revisitaram, no corpo um do outro, os lugares do amor. Cada prega, cada textura de pele, cada recôndita mucosa exigiu ser reconhecida e saudada antes que o sexo e o riso se soltassem na noite. E os amantes acabaram por se encontrar face a face, suados, embevecidos, na imemorial posição dos casais: ela com as pernas abertas e os joelhos er­guidos e os pés fincados no colchão, e o cabelo em desali­nho sobre os olhos; ele apoiado nos joelhos e nos cotovelos para não lhe fazer peso. Foi com esta singeleza que fizeram amor: de frente, mais atentos um ao outro que ao prazer obtido.
Para a primeira fome bastou este amor convencional e doméstico, e a longa conversa que se lhe seguiu. Mas a meio da noite, quando ela o acordou, amorosa, para que a possu­ísse, já não se contentaram com tão pouco. «Funde-te em mim», exigiu Ma­riana, e isto também queria dizer «morre em mim». E ele: «És minha, entrega-te, quero-te toda, agora.» O tempo agora era de urgências irrecusáveis. Os lençóis caíram no chão, afastados por mãos impacientes. Os corpos, suados e nus, trepavam, arquejantes, por cima um do outro, no cumprimento duma tarefa estrénua e transcendente. Amaram-se assim, rudemente, sem palavras de amor, apenas com instruções pe­remptórias: «mais acima», «continua», «pára», «vira-te», «beija-me».
Quando por fim se dispuseram a dormir tinham os corpos macerados. A cama era uma plataforma de tijolo e cimento com um colchão de folhelho muito firme, como ainda hoje se fabricam alguns, e sobre este um de espuma sintética. Mariana começou a achá-la desconfortável. E com efeito vie­ram a descobrir um seixo da praia entre os dois colchões. Era um pequeno seixo muito polido e muito duro e os amantes começaram a rolá-lo preguiçosamente no corpo um do outro, numa brincadeira que era uma carícia.
O amante de Mariana amava as texturas ásperas do mundo físico: a areia grossa sob a sola dos pés, a queimadura do sol, o vento abrasivo sobre a pele, a boca seca de sede no fim das caminhadas – ou, para dizer melhor, gostava do con­traste entre as rudezas da vida e as suas branduras. Uma roupa interior cara, de al­godão macio, umas peúgas de seda, um talco perfumado, eram noutras ocasiões luxos a que se entregava com um abandono feminino. Mariana compartilhava com ele esta sensualidade bipolar. Ambos gostavam de cami­nhar como deuses no deslumbramento da praia, sem outras provisões que um livro e uma maçã, e sem outra roupa que a pele tisnada.
Esta afinidade era sem dúvida uma das raízes do sentimento que tinham um pelo outro. Miguel comprazia-se em ver nela uma princesa do mundo das fadas, capaz de sentir uma ervilha por baixo de sete colchões. Mas comprazia-se sem se iludir, num jogo um pouco perverso: quem ele amava no mundo real – que em todo o caso não é mais do que uma ficção de outro género – era esta mulher de sangue e carne que agora dormia e respirava ao seu lado, exalando um leve odor de cama quente. Era uma mulher pequena e graciosa como uma princesa oriental, habituada às massagens, ao exercício físico, à alimentação regrada. Tinha o cabelo de um castanho quase preto, brilhante de saúde, solto e comprido como o duma adoles­cente. Os olhos eram de um verde extraordinário, muito escuro. Apesar de ter tido dois filhos, era esbelta de corpo; a finura da cinta acentuava uma redondeza femini­na nas ancas e nas nádegas. O Verão ia adiantado, e Ma­riana, que passava na praia muito do seu tempo livre, tinha já adquirido o tom de chá forte que era a sua cor estival.
Quando acordou estava sozinha na cama. A janela estava aberta e na pa­rede em frente resplendecia um rectângulo de luz branca. Da cozinha vinha um cheiro de torradas. Levantou-se, puxou os lençóis para trás e foi para o quarto de banho. Depois do duche foi tomar o pequeno almoço, em roupão e chinelas de cetim. A mesa estava posta com torradas, chá, leite, manteiga e compota.
Depois da refeição, que tomaram os dois vagarosamente, e das arrumações necessárias, o amante pediu-lhe que lhe preparasse uma chávena de café.
«Mas primeiro tira as chinelas», acrescentou. «Quero que fiques descalça. E põe esta roupa.» E mostrou-lhe uma saia magnífica de cigana rica, e uma blusa branca tão transparente que ela sentiu um calor na cara à ideia de a usar na rua. De um saco saíram cachos de bijutaria, brincos, colares, pulseiras, numa profusão orien­tal. Mariana, que não gostava de enfeites, deixou-se encantar desta vez.
Mas ia ter que andar descalça? E se quisessem sair de casa?
«Não quis exigir-to antes,» disse ele. «Da última vez que to pedi – lembras-te? – não quiseste obedecer-me.» Nesse dia talvez estivesse frio, e Miguel não tinha insistido; mas exigia-lho agora.
De agora em diante, seria para ela – impensável – uma falta de respeito – usar sapatos quando estivesse sozinha com ele. Mariana bem o sabia, porque perguntava? Sem mais palavras retirou-se para o quarto. Havia muito que co­nhecia – e, é preciso dizê-lo, amava – como símbolos imemoriais de submissão, o cabelo solto, os pés nus. E de facto nunca tinha prendido o cabelo diante do amante. Mas ousara esperar que ele nunca lhe exigisse o outro símbolo, o mais penoso; e porque se furtara uma vez a esse desconforto trivial, obrigava-o agora a pôr em palavras um senti­mento que as devia dispensar.
De regresso à sala, descalça, ricamente vestida, e nem por isso contrita, Ma­riana esmerou-se em servir o homem que a amava e que agora tão explicita­mente se assumia como seu senhor. Achou uma bandeja e um pano bordado, e dispôs-lhes por cima o pires, a chávena, a cafeteira. Depois, ignorando a excita­ção que a invadia, olhou o amante de frente e perguntou-lhe se também podia tomar um café. A um sinal afirmativo foi buscar uma chávena e sentou-se-lhe aos pés no tapete, diante do sofá.
Ficou assim, sem falar, sentindo a mão do amante no cabelo, numa longa ca­rícia, até que ele a mandou pôr de pé. Quando ela obedeceu, ele levantou-lhe a saia e acariciou-lhe o sexo com a mão toda; e ela deixou-se elanguescer, abrindo um pouco as pernas. Mas ele não quis possuí-la: ao fim de uns segundos levantou-se também, segurando-lhe na mão.
«Põe o pé aqui, no ladrilho. Sente-o bem. Fecha os olhos. O que te vou pedir não é fácil.» Em Lisboa Marta não sentiria senão o frio, o descon­forto. Mas ela aqui era a Mariana, e havia muitas coisas que Mariana não podia sentir da mesma maneira que Marta. «Coisas físicas, sim,» prosseguiu Miguel. «Também coisas físicas. O chão está frio? Ora, estamos no Verão. Tenta sentir se uns ladrilhos estão mais frios que os outros. Onde passam canos, ou bateu o sol, estão mais quentes. Sentes a diferença?»
De olhos fechados, Mariana entrou no jogo. Primeiro com um pé, depois com ambos, tacteava o chão, e dava-se conta de que o pavimento artesanal era irregular na forma, nas dimensões e na temperatura; as juntas eram de espessura diferente, os ladrilhos estavam dispostos a alturas desiguais, os cantos eram mais macios ou mais vivos uns de que os outros. Era um chão nascido de mãos huma­nas, feito de barro como os homens, tão vivo e orgânico como um tapete de lã ou um soalho de pinho. Aquilo que num pavimento in­dustrial seria dureza e desa­mor, era aqui fres­cura e afago. Quem sabe quantas mulheres antes dela, quando a casa era uma pobre habi­tação de pescadores ou camponeses, teriam, descalças e humildes, acarici­ado este barro com os pés calejados? E ela, apesar de os ter tão mimosos, como poderia recusar a carícia que o barro lhe devolvia?
Mariana, que vivia a sua própria escra­vidão com serenidade e alegria, sentiu uma revolta militante contra a servidão daquelas mulheres. Há muito que tinha decidido que mais vale servir por escolha do que ser livre por acidente. Se o seu amado lhe exigia que o servisse descalça, era seu dever de escrava prestar-lhe esta homenagem. Mas o que ele não sabia é que ao fazê-lo ela estava também – noblesse oblige – a cumprir um dever de princesa, a homenagear tam­bém as mulheres que nunca tinham tido escolha, que tinham sido sempre obri­gadas a viver, desamadas e ignoradas, ao serviço duma natureza cega e duma humanidade brutal; mulheres e raparigas que nunca foram senhoras de si o bastan­te para se po­derem dar a um senhor.
Uma palavra do amante interrompeu-lhe estes pensamentos:
«Vamos.»
Mariana pegou nos óculos escuros, em toalhas de praia, no protector solar, e seguiu-o. A areia escaldava. Não havia ninguém na praia e os dois amantes pude­ram ficar nus, como gostavam, ao sol e ao vento. Quando tiveram fome co­meram fruta, e quando tiveram sede beberam pequenos goles de água tépida, como viajan­tes num deserto, de modo a que sobrasse sempre alguma para o ou­tro. Ousaram mesmo passear nus ao longo da praia – não transversalmente, como pudicamente fazem os nudistas – até uma zona coberta de seixos que magoa­vam um pouco os pés. Os seixos eram rosados como a carne, tinham uma enganadora redondeza de coisas vivas – mas Mariana sentia neles, ao pisá-los, uma inflexibilidade impie­dosa e mineral. Mas tinha aprendido em menina a procurar alianças no mundo das coisas brutas, e sabia que nestas alianças é à carne, não à pedra, que compete adaptar-se. Mariana pisou os seixos cuidadosamente, moldando os pés às suas formas. Quem sabe a que outras formas inflexíveis teria ainda que moldar o corpo?
Às cinco ou seis da tarde foram à cidade comprar provisões. No grande ar­mazém anónimo Mariana sentiu vergonha da blusa translúcida, embaraçada tanto pelo despeito oculto das mulheres como pelo óbvio interesse dos homens. Mas mais tarde, ao pôr do sol, quando saíram para jantar na intimidade de um pe­queno restaurante, foi a nudez dos pés, não a dos seios, que a fez sentir vergonha. No mundo de Marta um decote ousado era coisa normal, principalmente à noite – mas não nos lugares onde toda a gente vai, pas devant les doméstiques. Para o seu grupo social, andar-se bem vestido e bem calçado, e apresentar-se de forma apropriada à ocasião e ao lugar, sem atrair as atenções, eram regras mínimas de decência.
Mas descalça, como uma suburbana encalorada, desinibida pelo Verão e pelas férias? E que interessava? Era à beira-mar, o Verão ia quente, e a brisa soprava um ar de loucura. A noite, tépida e perfumada, convidava a que se suspendessem as regras costu­madas. Das matronas suburbanas e das turistas working class que Marta não dese­jaria imitar, nenhuma à sua roda ia sem sapatos: os hábitos estavam a mudar, e o que parecia agora estar em voga eram uns feiíssimos chinelos de piscina, verdes e pretos na maior parte. Pés nus, só os dela e os de uma rapariga alta e elegante que jantava noutra mesa. Estavam pois salvaguardadas as diferenças sociais. E de resto, não seriam ridículos estes preconceitos de casta e de gosto? Não se tinha posto ela própria, no seu hete­rónimo Mariana, no fundo de todas as escalas?
Mas mesmo neste heterónimo, e mesmo no fundo da escala, ela era quem era, tinha gosto e vontade – era, soberanamente, uma pessoa. Tentou imaginar o que seria a sua vida se não habitasse em Alvalade; se não tivesse algum êxito, ainda que modesto, como pintora; se não fosse sócia – ainda que minoritá­ria – de uma galeria de arte bem frequentada; nem fosse casada com um homem rico; e se não vivesse entre gente educada. Como seria o seu mundo se morasse no Cacém, an­dasse de transportes públicos, trabalhasse num salão de cabeleireiro, e fosse divorciada e nunca ti­vesse dinheiro? E se por mais que tentasse não con­seguisse perder peso, e se às vezes brigasse com as colegas, e se de vez em quando bebesse um cálice de licor a mais?
Se nunca tivesse lido um livro – saberia esperar da vida fanta­sia, aventura, espaço, beleza? Se pintasse o cabelo de um louro barato e impossível, se já nada lhe restasse da sua frescura juvenil, e não tivesse sabido construir na ma­turidade uma nova beleza – teria mesmo assim um sentimento tão apurado da sua própria dignidade? E se para pagar os sapatos dos filhos, que os exigiam de marca, tivesse que dormir por vezes com «um senhor muito educado, que a tratava muito bem»? E se os namorados que arranjava fossem cada vez mais falsos e mais grosseiros? E se tudo isto, a sordidez da vida, a falsidade dos homens, lhe fosse pare­cendo cada dia mais normal? Teve por um instante a tentação de construir um outro heterónimo. Um nome afrancesado, Suzete, Arlete. Mas não. Tudo o que essa loura suburbana pudesse dizer ao amante de Mariana seria falso ou supérfluo; e a sua própria obediência representaria, como expressão de amor, não uma submissão apaixonada, mas um bisonho servilismo.
De novo em casa, enquanto o amante tomava duche, tirou de um armário o roupão de pano turco e os chinelos de quarto que queria que ele pu­sesse. Na mesinha ao lado do sofá pôs uma bandeja com uma garrafa de whisky, uma taça com pedras de gelo e um copo. Depois pôs música a tocar, e quando o amante saiu do quarto de banho foi-se lavar também. Quando voltou à sala vinha nua da cinta para cima. A saia era a que ele lhe tinha feito vestir de manhã, e tinha-se ataviado como uma princesa africana, com todos os enfeites que possuía. Encontrou o amante com o copo de whisky na mão. Tinha-se servido de uma porção minúscula e esperava-a no meio da sala, cortes­mente, de pé. Mariana beijou-o na cara, bateu ao de leve com a palma da mão no sofá, para ele se sentar, e ajoelhou-se-lhe aos pés.
«Estou bonita?»
«Estás linda. Como sempre.»
Com um movimento vivo Mariana sentou-se no tapete, estendeu uma per­na, e pôs-se a examiná-la criticamente.
«Mas tenho os pés feios.»
Como resposta a esta observação obteve apenas um sorriso e uma carícia. Sentada no chão, dobrou as pernas para debaixo do corpo. Uma sombra de me­lancolia passou-lhe na expressão. Em voz baixa, sem o olhar, prosseguiu:
«Gostei que me obrigasses a andar descalça na rua.»
A música tinha parado. No silêncio que se seguiu Mariana franziu um pou­co o sobrolho. O amante, que a acariciava e beijava, mais uma vez se maravilhou com o imenso mundo, irrepetível e inexplorável, que pressentimos em toda a gente – mas que só entrevemos, com uma espécie de êxtase sagrado, nas pes­soas que amamos.
O que quer que se estava a passar no universo interior de Mari­ana atingiu subitamente um desenlace. Um sorriso desanuviou-lhe o rosto, e olhou ter­namente para o amante. Mas no fundo dos olhos, muito no fundo, muito por trás da ternura, brincavam-lhe duendes. «Era capaz de andar descalça por ti o Verão inteiro.» E começou a enchê-lo de beijos. Não quis levantar-se do tapete, nem permitiu que o amante se lhe juntasse; teve que limitar-lhe as carícias à parte de baixo do corpo. Vindos de cima, ouvia-lhe os gemidos de prazer. E de repente ouviu, numa voz clara, articulada:
«Beija-me, Mariana.»
Ouvir-lhe estas palavras tornara-se para ela, no mais íntimo de si, a mesma coisa que estar já aos pés dele, roçando o chão com os cabelos. Olhou para cima, quis dizer ao amante que lhe pertencia, que não queria mais do que servi-lo, mas ele fê-la calar: «Não fales agora. O que tiveres a dizer, di-lo com beijos.»
O que Mariana tinha a dizer exigia dela, no plano irrevogável dos actos, um gesto que nunca tinha ousado senão em imaginação. Com o sentimento de empre­ender um caminho sem regresso, inclinou a cabeça até ao chão, roçou com os ca­belos macios as pernas do amante, tirou-lhe os chinelos, e começou a bei­jar-lhe os pés, lentamente, apaixonadamente. O tempo tinha parado. De joelhos, Mariana sentiu que estava enfim num lu­gar que era o seu, onde tinha estado mil vezes, e de onde, no mais fundo da reali­dade, nunca tinha chegado a sair.
Não contente com beijar os pés do aman­te, co­meçou a chupar-lhos, a lamber-lhos, a acariciar-lhos com a face e com os cabelos, a tactear-lhes todas as texturas. Na parte de cima a pele era flexível e resistente. Na sola, era macia como a seda, ou áspera como a lixa. E ele, o que estaria a sentir? Mariana queria que as suas carícias fossem elo­quentes, que as sensações que transmitiam se articulassem numa retórica coe­rente.
E a voz dele, num murmúrio: «Beija-me, Mariana.»
Atirando o cabelo para trás, Mariana começou a beijar-lhe as pernas, a lamber-lhe os tornozelos, os joelhos, as coxas, e nesta progressão havia a mesma inevitabilidade que há em certos discursos poderosos, no momento em que toda a argumentação foi apresentada e a conclusão já é inexorável.
O amante de Mariana nunca tinha querido possuí-la pela boca. Outros o ti­nham querido antes dele, e isso tinha-lhes sido quase sempre recusado. Nas vezes que ti­nha ten­tado, Mariana – ou antes, Marta – tinha acabado por sentir a mesma náusea que sentira uma vez em criança, quando o irmão, que estava a ler a história de um orador antigo, e a pretexto de lhe curar uma inexistente gaguez, a convencera a encher a boca de seixos. Por vezes, contudo, gostava de beijar e chupar o pénis do amante, ternamente, com vagar e respeito; e era com um vivo sentimento de prazer que o sentia atingir aquele estado de pulsante intumescência que parecia um concen­trar vibrante de todas as forças da natureza. Mas uma coisa era esta firmeza da carne, animada e viva; outra era ter subitamente na boca a dureza rebarbativa e inani­mada de um corpo estranho, dum pau, duma pedra.
Mariana interrompia sem­pre a carícia antes que chegasse a este ponto. Mas agora tinha de novo diante dos olhos o sexo erecto do dono, e ia bei­já-lo como das outras vezes quando ele a deteve. Ao olhá-lo compreendeu que estava perante uma escolha: desta vez, se começasse, teria que o servir até ao fim. Nada lhe seria poupado.
Há muito que tinha decidido que mais cedo ou mais tarde acabaria por passar esta prova; mas não tinha pen­sado que fosse hoje. «Sou bem tola,» pensou. «Com medo de um sofrimento – de um incómodo – como se isso contasse para alguma coisa. Não sou eu a escrava? Porque é que o meu senhor não há-de tirar de mim o partido que entender?»
Sem mais hesitação e sem preliminares tomou o pénis na boca e começou a afagá-lo com os lábios num movimento de vaivém. Não tentou fazer-lhe com a lín­gua as carícias que sabia e de que ele tanto gostava. Desde o primeiro movi­mento procurou introduzi-lo o mais fundo possível, para estar preparada quan­do ele se descontrolasse e o quisesse introduzir todo duma vez. «Não o vou aca­riciar com as mãos,» decidiu. «Vou ficar com elas livres para o controlar um pouco.»
Pondo as mãos e os braços sobre as coxas do amante Mariana sentiu que po­dia controlar os seus próprios movimentos e também, até certo ponto, os dele. Isto deu-lhe mais confiança. Mas quando ele lhe pôs a mão na nuca, pensou que lhe ia agarrar a cabeça para se enfiar nela violentamente. Por um se­gundo entrou em pânico e quase perdeu o autocontrole que empregava em não se en­gasgar. Mas ele só queria acariciar-lhe o cabelo, e Mariana decidiu tentar ad­mi­ti-lo um pouco mais fundo. «Tenho que me manter calma e não perder o ritmo,» pensou. «Se ele me agarrar tenho que estar pronta.»
Mas o amante não chegou a agarrá-la. Em vez disso começou a mexer as an­cas para trás e para a frente, quase imperceptivelmente e sem gestos bruscos, num ritmo fluído que correspondia exactamente ao dela. Pela respiração dele, e pelas palavras quase ininteligíveis que lhe ia dizendo, Mariana sabia que estava mais excitado do que ela alguma vez o tinha sentido; mas mesmo assim não a agarrou, nem nunca lhe tocou com as mãos senão para a acariciar nos braços e no cabelo. Mariana deu-se conta que ele estava propositadamente a deixar-lhe a opção de parar quando quisesse, mas agora era ela que, por uma espécie de tei­mosia, não conseguiria parar. A pouco e pouco o mo­vimento que o amante lhe fazia dentro da boca foi ganhando amplitude, sem perder fluidez e sempre no mesmo ritmo, e a certa altura Mariana viu que já es­tavam a fazer outra coisa, já não sou eu a beijá-lo, nem eu a chupá-lo, é ele a possuir-me, pela boca, sim, apesar de não me estar a agarrar, a possuir-me como nunca imaginei conseguir suportar. E não é tão difícil, não é tão penoso como eu pensava, só algumas lágrimas, estas lágrimas, que tolice, lágri­mas de escrava, e o prazer dele, como é possível, por­que é que ele não me agarra, devia ter medo que eu o largasse, ainda bem que não me está a agarrar, se me agarrasse eu perdia o controle, de certeza que per­dia. E agora, agora, duro demais, inflexível, como uma pedra, mas ele não está a agarrar-me, está no mesmo ritmo que eu, é preciso não perder o ritmo não per­der o ritmo não vou parar ele está quase a vir-se quase a vir-se, agora, o prazer dele, olha o prazer dele. Agora.
Mariana sentiu o dono a esvaír-se-lhe na boca como se a vida se lhe es­gotasse nesse esvaimento, e recebeu-o como quem recebe a vida. Só neste úl­timo segundo é que ele a agarrou, mas antes que ela cedesse ao pânico e à náusea tudo ti­nha termi­nado. Não parou de lhe chupar e lamber o sexo enquanto o não sentiu completamente flácido. No fim ele olhou-a num deslumbramento:
«Mariana – minha escrava – meu amor – »
«Meu amo. Meu dono querido. Descansa agora. Sossega. Sou tua. Não sou? Fiz tudo bem, não fiz? Dei-te tanto prazer… Os teus olhos, se visses agora os teus olhos – »
E quando ele se recostou para trás no sofá Mariana subiu para junto dele e começou a beijá-lo ao de leve na cara e nas pálpebras e começou a falar com ele devagarinho. Passados alguns minutos o amante começou a beijá-la na boca, que ainda tinha o sabor do esperma. Mais tarde levou-a para a cama, e fizeram amor durante toda a noite com o impudor e a ternura de dois adolescentes enamorados. O dia seguinte, até à hora de partir, passaram-no a sós um com o ou­tro, enlaçados, amando-se, passeando na praia, conversando.
Ao fim da tarde desceram à cidade para tomar uma refeição. Numa banca ao ar livre uma senhora comprava uns calções para o marido, que pa­recia disposto a aceitar tudo o que ela decidisse. Era uma mulher dez anos mais nova do que Mariana, e já tinha desistido de si. Estava vestida com uma saia de enrolar so­bre um fato de banho preto e verde, da mesma cor que os chinelos. Ti­nha um passo pesado de autocrata, as costas nuas, dois vincos de gordura em diagonal sobre os rins, e o cabelo pentea­do em volume.
Mariana trazia de novo o vestido cinzento, os pés ainda nus, e na mão as sandálias brancas que havia de calçar quando estivessem quase a chegar a Lis­boa. Por um segundo olhou para a senhora que examinava, desdenhosa, a roupa sobre a banca. E, ao longo dos dois dias e meio que acabavam de passar, nunca como neste exacto momento Mariana se sentira tão escra­va, nem tão feliz.

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