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Posts Tagged ‘castigo’

– Não sei se me poderás domar…

Esta frase, meio desafio e meio apelo, dissera-lha a noiva no dia em que a pedira ao pai, no ano longínquo de 1959. Tal como ele, Helena pertencia a uma das famílias mais proeminentes da vila, mas não faltara quem o tentasse dissuadir do enlace. As comadres, sempre ciosas dos bons costumes, viam na filha do notário uma liberdade nos modos, uma sensualidade no olhar e nos movimentos, que lhes despertavam as piores suspeitas.

– Sabe muito… – rosnavam.

– Passa a vida no café…

E se alguém lhes objectasse que Helena, quando entrava no café da vila, ia sempre acompanhada pelas suas colegas do Magistério Primário, não desarmavam:

– Já foi vista a fumar, em Braga… Também o pai, é do reviralho, deve ensinar-lhe essas liberdades.

O pai de Helena, tal como o de Bernardo, estava, com efeito, conotado com a oposição a Salazar; mas enganava-se quem supusesse que ao seu liberalismo político correspondia um igual liberalismo de costumes. Pelo contrário, inquietava-se com o comportamento da filha e com os zunzuns de cujos ecos se apercebia.

Não assim os Santaclara, salazaristas fiéis, no que respeita os filhos homens. Como proprietários rurais, excediam em fortuna a família de Helena somada à de Bernardo; mas nunca nenhum deles, apesar de várias gerações terem passeado por Coimbra a sua bravata, se tinha chegado a formar. E se o filho mais velho participava na administração das propriedades familiares, já o mais novo, Leandro, empregava o seu tempo em caçadas e arruaças, nos bordéis do Porto, e na perseguição às moças da terra.

Mas disto tudo, no seu regresso a Coimbra depois de pedir Helena ao pai, Bernardo só pensava nas palavras da noiva. Porque precisaria Helena de ser domada? Nada nela indicava uma natureza selvagem, apenas uma natural vivacidade que a ele o atraía. Adolescente ainda, Bernardo tinha visto no circo um homem que tirava, com um chicote comprido, o cigarro da boca de outro; e não descansara enquanto não aprendera a manejar esta arma com a mesma destreza. Começara por procurar o próprio artista, que, depois de o avisar que o chicote que usava era uma arma letal, não se recusara a vender-lhe um dos que tinha de reserva nem a dar-lhe as primeiras lições. Depois tivera que se ensinar a si próprio, treinando horas infinitas até transformar o chicote de três metros numa extensão do seu próprio braço e dos seus próprios dedos. Ao falar em ser domada, Helena fizera com que se estabelecesse no espírito do noivo uma ligação incómoda entre esta expressão e aquilo que nunca passara, para ele, duma habilidade de circo e de um desporto.

Nem pensou no chicote quando as cartas de Helena começaram a rarear e a apresentar um certo tom de desafio ou menosprezo. Mas veio-lhe imediatamente ao espírito quando alguém veio propositadamente a Coimbra para o avisar que Helena era vista frequentemente no café com Leandro e que este se gabava junto dos amigos de se ter já gozado dela.

– Não gozou, não… Eu conheço a Helena.

– Também penso assim – respondeu-lhe o amigo. – Mas também sei como ela é insatisfeita com a vida da aldeia, e como gosta do perigo. E o Leandro é perigoso que chegue para a atrair… Anda a dizer que se apareceres por lá a desafiá-lo te enfia, desculpa, uma bala nos cornos.

Nesse mesmo dia Bernardo despiu a capa e batina, envergou o fato com que viajava entre a vila e Coimbra e meteu-se no automóvel que o pai lhe tinha oferecido por completar com distinção o terceiro ano de Direito. Chegado à vila, perguntou por Helena. Estava no café. E acompanhada de Leandro, conforme Bernardo verificou ao entrar, de chicote na mão, neste estabelecimento.

– Com que então, gozaste-te da minha noiva – disse Bernardo.

– Eu nunca disse isso – defendeu-se Leandro, enquanto Helena olhava para ele como se o visse pela primeira vez.

– E enfiavas-me uma bala nos cornos… Tens aí com quê?

– Eu nunca disse isso…

– Se não tens, arma-te e anda ter comigo cá fora. Helena, já para o meu carro.

Leandro estava armado, com efeito, mas nunca se tinha servido do revólver para outra coisa que não fosse tiro ao alvo: latas, garrafas, cães  vadios e uma vez, bêbedo, um relógio de parede no café. Saiu para a praça com a arma na mão, nauseado com a ideia de ser obrigado a um duelo. Quando viu que Bernardo não tinha à vista mais que o chicote, apontou tão atabalhoadamente que o tiro foi atingir um dos bebedouros do jardim central, fazendo com que um repuxo de água se erguesse no ar e encharcasse os circunstantes.

Bernardo, por sua vez, só tinha utilizado o chicote em alvos inanimados, mas manteve o sangue-frio suficiente para enrolar o chicote no braço direito de Leandro e puxar, fazendo-o largar a arma. Depois, de cada vez que o outro se baixava para a apanhar aplicava-lhe um golpe nas costas que o desequilibrava e lhe rasgava a roupa, tingindo-a de sangue a pouco e pouco. Quando se cansou deste jogo, fez com que a ponta do chicote se enrolasse na pistola e puxou-a para si, segurando-a na mão esquerda.

– Não dispares, Bernardo! Não o mates! Não te desgraces, homem! – ouviu gritar de todos os lados.

Mas não era sua intenção matar Leandro. Com um golpe final de chicote retalhou-lhe a face esquerda, cortando tão fundo que lhe deixou os dentes à vista.

– Levem esse desgraçado ao hospital para o coserem, antes que sangre como um porco – ordenou. – Duma bela cicatriz já não se livra.

E enquanto os colegas de farra do adversário, que não o tinham defendido antes, se precipitavam agora para o socorrer, Bernardo voltou-lhes as costas e dirigiu-se ao automóvel onde Helena o esperava, encolhida no extremo do banco corrido. Tomou a estrada alcatroada que conduzia para fora da vila, virando logo a seguir para o caminho de terra batida que levava a uma das quintas da família. Helena, que sabia a casa abandonada e meio em ruínas, arriscou uma pergunta:

– Também me vais chicotear?

– Com este chicote? Não. Retalhava-te toda.

Ao chegar ao portão meio coberto de silvas, parou o carro e tirou o bolso um canivete suíço, que abriu numa lâmina com dentes como uma serra.

– Descalça-te e vai cortar uma vergasta naqueles bambus.

– Descalça porquê?

– Por penitência.

– Quer dizer que ainda me queres?

– Veremos. Vai lá.

No interior poeirento da casa, Helena sentiu-se tão incapaz de recusar o abraço de Bernardo como seria incapaz de recusar o castigo. Quando sentiu a mão dele levantar-lhe o vestido e insinuar-se-lhe entre as coxas, abriu um pouco as pernas; mas ele só lhe afastou as calcinhas para o lado para se certificar que estava molhada e para introduzir o dedo até onde foi possível.

– Bom. Ainda estás virgem.

– Perdoa… – murmurou Helena.

– Por estares virgem?

– Por te ter levado a pensar que….

– E virgem vais continuar, até casarmos.

Mas mandou-a despir para o castigo. Tomada duma vertigem, Helena obedeceu. Quando ele terminou, mandou-a vestir e levou-a para casa. À ansiedade dos pais dela respondeu com a exigência de que a fizessem examinar por uma parteira para determinar se estava virgem. À saída da mulher, chamou-a de parte, passou-lhe discretamente para a mão uma nota de quinhentos escudos e murmurou-lhe ao ouvido:

– A quem lhe perguntar, Dona Ermelinda, conte o que viu, mas não tudo o que viu. Está-me a entender?

A mulher acenou que sim. As vergastadas no corpo de Helena ficariam em segredo. Mas Bernardo sabia que ela daria a entender a toda a gente, por alusões e silêncios, que ele não era homem para sofrer vexames.

Faltava combinar o casamento. A sós com Helena, Bernardo ordenou:

– Quando fores combinar a data com o padre, vais confessar-te. Vais pedir-lhe a absolvição pelo escândalo que provocaste e vais pedir-lhe que te dê a penitência de casar descalça.

– Descalça, Bernardo? Vou morrer de vergonha!

– Não vais. Quando chegar o dia, já toda a vila se terá habituado à ideia. Ou pensas que a modista vai guardar segredo, como o padre?

– Está bem… Mas vou de branco, não vou? Isso ainda mereço…

– De branco, e de flor de laranjeira.

Na noite de núpcias, antes de a penetrar, Bernardo avisou:

– Vai doer.

– Tanto melhor – respondeu Helena. E depois de ele gozar nela:

– Tua escrava… Meu Senhor.

Agora, passados mais de cinquenta anos, recordando isto tudo, Bernardo sorriu. Quase todas as personagens desta história tinham já morrido: Leandro, a parteira, o padre, a modista, os pais de Helena. A própria Helena, seu único amor. E a ele poucos meses restavam de vida: se se cumprisse a promessa do médico, em breve se juntaria a ela.

Durante décadas, os filhos e os netos tinham encarado com naturalidade o hábito de Helena andar sempre descalça em casa. E os vergões da vergasta, frequentemente renovados, tinham permanecido o seu segredo de amantes.

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Violência Doméstica

A decência mais elementar exige que nos saibamos pôr no lugar do outro. Isto exige alguma imaginação. Quando me dizem que não posso imaginar um certo sofrimento porque nunca passei por ele, estão-me a negar esta imaginação e a não querer que cumpra o dever moral de me pôr no lugar da outra pessoa. No limite, estão a exigir-me que seja um psicopata: alguém que se caracteriza por não compreender que os outros também existem e também sofrem.

Portanto não me vou desculpar pelos exercícios de imaginação que vou fazer neste artigo. É certo que não sou mulher, nem nunca fui vítima de violência doméstica, mas é precisamente nesta situação que me vou tentar imaginar.

Uma mulher vê-se sozinha e sem defesa perante um homem violento e descontrolado. Pelo decurso dos minutos ou horas antecedentes, sabe que vai ser agredida fisicamente – só não sabe com que gravidade. Pode ser que fique tudo por um par de estalos. Pode ser que inclua murros, pontapés e pauladas, em partes do corpo normalmente cobertas pela roupa. Ou pode incluir o nariz partido, equimoses na cara, lábios rebentados, dentes quebrados. Pode levar a dias, semanas ou meses de hospital.

Pode levar à morte.

E é aqui que eu tento pôr-me no lugar dessa mulher e pergunto a mim mesmo o que é que ela sente. Isto depende, é claro, do modo de ser de cada uma: há mulheres que numa situação destas ficam de tal maneira dominadas pela ira que nem conseguem sentir medo ou dor: se puderem defender-se, defendem-se, e se tiverem acesso a qualquer coisa que possa servir de arma são até capazes de matar o agressor – que não merece outra coisa.

Outras ficam tão paralisadas pelo terror que não reagem: tentam cobrir com os braços as partes mais vulneráveis do corpo, choram, pedem ao homem que pare, são capazes até, naquele momento, de pedir perdão pelo que não fizeram.

Duma coisa tenho a certeza: nenhuma mulher tem prazer nisto. Haverá quem não concorde com esta afirmação, a começar pelas minhas amigas baunilha com quem converso. São unânimes em dizer que um episódio destes releva do mais puro horror, no que concordo com elas; e são quase unânimes em que o essencial deste horror não está necessariamente na dor física sofrida, mas no descontrolo e na imprevisibilidade da situação; mas quase todas têm histórias a contar duma empregada que tiveram, ou das mulheres da aldeia onde passaram a infância, que apresentam como exemplo da mentalidade do «quanto mais me bates, mais eu gosto de ti» ou, ainda mais chocante, «o meu homem não deve gostar de mim porque nunca me bate».

As minhas amigas baunilha – mulheres urbanas da classe média ou média alta – sabem que no seu próprio grupo social há mulheres vítimas de violência doméstica. Compreendem e aprovam que algumas destas mulheres aguentem esta situação até as circunstâncias da vida lhes permitirem separarem-se dos seus agressores; mas não lhes passa pela cabeça que esta separação não tenha lugar logo que possível. O que elas não compreendem é a a mentalidade do «quanto mais me bates» de que falam. E só encontram uma explicação para ela: muitas mulheres pobres, rurais, dependentes ou iletradas gostam de ser vítimas de violência doméstica.

Quanto a mim, as minhas amigas estão enganadas.

Este meu juízo releva mais da imaginação do que da experiência: cresci em meio urbano, nunca assisti a situações de violência doméstica, e nunca nenhuma mulher me fez o tipo de confidências que as minhas amigas baunilha me dizem que já ouviram muitas vezes. Que autoridade tenho, eu, portanto, para falar?

Eu nunca tive esta experiência; mas as minhas amigas baunilha nunca tiveram a experiência que eu tive muitas vezes: a de falar com submissas ou escravas que aceitam, desejam, e muitas vezes necessitam absolutamente de sofrer, e/ou de serem humilhadas, às mão de um Dominante ou de um Senhor. E isto em graus que podem ir do ligeiro ao extremamente severo. O que diferencia estes desejos e estas práticas de situações de violência doméstica é, pela minha experiência, o facto de se tratar de processos controlados. Este controlo pode ser exercido, em situações extremas, pela própria submissa ou escrava (através, por exemplo, dum safeword), mas geralmente é exercido pelo dominante. O que interessa é que há sempre um controlo. E é isto que faz toda a diferença: ao ser castigada, a submissa sente-se segura, ao contrário da vítima de violência doméstica.

E isto leva-me a especular sobre aquelas mulheres a quem as minhas amigas baunilha consideram «primitivas», «ignorantes» e sujeitas a uma tradição injusta que lhes fez uma «lavagem ao cérebro». Serão mesmo assim tão estúpidas, primitivas, influenciáveis e ignorantes? Por mim, tenho dificuldade em presumir a estupidez dos outros como primeira explicação para o que não compreendo.

Talvez o caso seja outro. Talvez a mesma tradição primitiva que dá aos homens, em certos contextos sociais, o direito de bater às mulheres estabeleça, nos mesmos contextos, mecanismos de controlo social que limitem esse direito. Talvez as mulheres que dizem aquelas frases, que tanto indignam as minhas amigas, se possam dar ao luxo de as dizer porque se sentem de alguma maneira seguras.

Se esta minha hipótese estiver correcta, então talvez estas mulheres, que habitam um mundo tão diferente do meu, não sejam tão estúpidas, ignorantes e alienadas como as minhas amigas as consideram; e talvez os homens que lhes batem não sejam sempre bestas enlouquecidas. Talvez uns e outras mereçam da nossa parte algum respeito.

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Quando Rui propôs a Joana que fizessem exames médicos para poderem ter sexo sem preservativo, ela viu nisto a vontade dele de dar estabilidade à sua relação. Ficou contente mas não quis mostrar este agrado; e a cabra que havia nela fê-la perguntar:

– Porquê? Queres fazer-me algum menino, é?

Rui ignorou o sarcasmo:

– Se alguma vez te quiser fazer um menino, informo-te primeiro. Para já, o que quero é criar as bases para que haja uma confiança absoluta entre nós.

Joana não tinha nada contra fazerem análises, pelo contrário; a reacção que tivera viera-lhe duma vontade súbita de espicaçar Rui, e o facto de ele não se deixar espicaçar desarmou-a. Ficou ela de marcar a data para as análises, de preferência numa clínica onde poucas pessoas os conhecessem, e passaram a outros assuntos.

Joana viu nesta conversa uma para abordar uma questão em que andava a pensar:

– Posso perguntar-te uma coisa? O que querias tu dizer quando disseste à minha mãe e às amigas dela que da tua porta para dentro, só admitias uma escrava?

– Queria dizer isso mesmo – respondeu Rui. – Deixei-as pensar que aquilo era retórica para as calar, é claro, mas a ti digo-te que lhes estava a dizer a verdade sobre a minha orientação sexual.

– Não dás nada essa ideia – disse Joana.

– Não? Tens a certeza?

Joana corou, o que a fez zangar-se consigo mesma. Lembrou-se que nos primeiros dias da sua relação com Rui, ainda antes de o ter seduzido, ele lhe tinha dado a entender que não gostava muito de a ver de calças; e desde então ela passara a usar saias ou vestidos com cada vez maior frequência. Era a primeira vez que mudava a sua maneira de vestir por causa da vontade de um homem, ademais tão vagamente expressa. Quando se zangava consigo, Joana descarregava sempre noutra pessoa, e foi o que fez agora:

– Claro que tenho a certeza. Não te estou a ver a mandar numa mulher. Pelo contrário: até me parece que a minha mãe tem razão quando diz que te deixas dominar facilmente.

Rui sorriu:

– E tem razão, a tua mãe. Deixo-me dominar com a maior das facilidades quando o que está em jogo não me interessa. Com os mais fracos que eu, sou muito dócil: é uma ironia que me diverte. Mas também te quero fazer uma pergunta: que querias tu dizer quando confessaste à tua mãe que eras uma cabra e precisavas de dono? Também te devo dizer que não dás nada essa ideia.

– Como, não dou? Ainda há bocado…

– Ah, sim – disse Rui. – Há bocado, com efeito. Só tenho duas perguntas: porque diabo queres tu deixar de ser uma cabra, admitindo que o és? E se é isso que queres, porque diabo não o fazes sozinha? Para que precisas tu de um dono?

– E tu, para que diabo precisas tu duma escrava?

– Eu nunca disse que precisava duma escrava. Já precisei, já tive, e agora estou bem como estou. O que eu disse foi que só aceitava uma mulher em minha casa na qualidade de escrava; mas estou perfeitamente disposto a aceitar a alternativa mais provável, que é ficar sozinho.

Joana calou-se, olhando para baixo com os punhos cerrados. Como uma miúda birrenta, pensou Rui. Por fim, sem deixar de olhar para baixo, respondeu:

– Preciso de dono porque estou farta de lidar com homens que não respeito. Tu és o primeiro a quem respeito desde há muito tempo.

– Sim – sorriu Rui. – Ainda agora foste muito respeitosa para mim.

– Não é disso que se trata – disse Joana. – Não é por ser ocasionalmente sarcástica que preciso de dono: é porque sou mesmo uma cabra, e estou farta disso.

Rui ficou silencioso por tanto tempo que Joana pensou se não teria dito alguma coisa que o fizesse zangar. Mas disse, por fim:

– Olha, Joana. Há muitas espécies de dono, e nada garante que eu seja o dono de que precisas. Se alguma vez levar uma escrava para minha casa, nada garante que possas ser tu: podemos ter noções muito diferentes do que é uma escrava.

– Não me estou a oferecer como tua escrava – disse Joana.

– Nem eu como teu dono – disse Rui. – Pelo menos, ainda não. E pode ser que eu queira uma escrava já feita, e não uma a quem ainda seja preciso educar.

– E eras tu que me educavas?

– Dizes que és uma cabra, não dizes? Então, para continuar com metáforas de animais, terias que passar de cabra a cadela: isto seria uma educação. Seria também um esforço enorme e muito demorado, e eu teria de estar disposto a fazê-lo.

– Então não estás disposto.

– Posso vir a estar, mas teria de contar com a tua colaboração. Já não tenho idade para perder tempo com meninas que pensam que querem ser escravas.

Joana voltou um pouco atrás na conversa:

– Cadela, dizes tu? O que quer dizer isso, cadela?

– Quer dizer que quando eu te fizer sinal tens que vir com o rabo a abanar, mesmo que uns minutos antes eu to tenha feito pôr entre as pernas.

– Isso não vai ser nada fácil – disse Joana. – Nada fácil, mesmo.

– Não vai ser? – disse Rui – Já estás a pressupor que vamos tentar? Tem calma: primeiro vamos ver se a nossa relação resulta noutros planos, ao mesmo tempo que vemos se aquilo em que estamos a pensar é viável. Para já, vou-te dar três palavras para meditar, e um dia destes peço-te a tua reacção.

– Que palavras?

– Servir, obedecer, sofrer – disse Rui.

– Se é isso, posso dizer-te já…

– Não podes nada – disse Rui. – Podes dizer-me quando eu te perguntar.

Fizeram os exames médicos, esperaram pelos resultados, voltaram a fazê-los e esperaram de novo. Joana recomeçou a tomar a pílula. Começaram a ter relações sexuais sem preservativo, o que implicava já um primeiro compromisso, que era a fidelidade recíproca. Não se falou, porém, em viverem juntos. Veio o divórcio de Rui e resolveu-se a partilha dos bens, o que lhe permitiu remodelar uma casa que herdara, um pouco degradada e muito desconfortável: não o fizera antes para que a ex-mulher não pudesse dizer que o tinha feito com dinheiros comuns. Joana acompanhou esta remodelação, que foi completa: demolição de paredes internas, rearranjo das divisões, isolamento térmico e acústico, caixilharias novas, janelas com vidros duplos ou triplos, climatização, transformação em jardim do matagal nas traseiras.

A obra mais difícil foi na cave, onde o chão foi rebaixado um metro para aumentar a altura. Rui manteve as paredes em pedra tosca, mas revestiu o tecto com material isolante e instalou aquecimento a partir do soalho.

Joana, vendo que Rui não media despesas, perguntou à mãe:

– Como é que o Rui pode fazer aquelas obras todas com a pensão dele? Com a reforma antecipada, não pode ter ficado a receber muito.

– O Rui não depende da pensão – respondeu Arminda. – Com o que herdou, pode viver muito bem dos rendimentos.

Isto explicava uma decisão de Rui que Joana tinha considerado excêntrica: a de organizar a vida em função das temporadas de ópera do S. Carlos, do Scala, do Met, do Teatro del Liceo em Barcelona, do Covent Garden, do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e de festivais como o de Glyndebourne e Bayreuth. Esta agenda incluía lugares tão remotos como Manaus ou Sidney e exigia bem mais que doze viagens por ano – o que chegava para não o deixar estupidificar. Comprava os bilhetes pela Internet com meses de antecedência, tal como as viagens e o alojamento.

– Compro sempre a dobrar – explicara. – Para o caso de ter companhia.

A companhia, embora ele não o dissesse expressamente, seria ela; se os afazeres profissionais não a deixassem ir, seria algum amigo ou amiga; ou em último caso iria ele sozinho, assumindo o prejuízo. Só uns dias depois desta conversa é que Joana notou que ele nem sequer tinha posto a hipótese de ela, podendo, não querer ir; e que ela própria também não a tinha levantado. Eis-me, portanto, a obedecer, concluiu. O curioso é que nunca era claro se o que ele lhe solicitava era uma sugestão, um pedido ou uma ordem; nem se a resposta dela era anuência ou obediência; mas era claro, em contrapartida, que Joana fazia tudo o que Rui queria como nunca fizera com ninguém. Servir, obedecer, sofrer, pensou. Sobre o obedecer, começava a estar elucidada; e, se quisesse ser honesta consigo própria, teria que reconhecer que também estava a aprender alguma coisa sobre o servir. Na cama, embora Rui lhe desse mais prazer do que qualquer outro homem lhe tinha dado, tornara-se óbvio desde o primeiro dia que o único prazer que contava era o dele; e ela, não só aceitara isto, como se sentira feliz por aceitá-lo. Restava o sofrer: sobre isto, Joana não fazia a menor ideia do que sentia, e não saberia responder se Rui a interrogasse.

Rui tinha erigido na cave duas grossas colunas de madeira, esculpidas com baixos-relevos eróticos.

– Mandei-as fazer na Índia – explicou.

E com efeito as imagens copiavam as dos templos hindus.

– Para que são as colunas? – perguntou Joana.

– Para amarrar uma mulher, por exemplo. Para a punir.

Joana deu uma volta lenta a cada uma das colunas, passando os dedos pela madeira esculpida.

– E pensas que serei eu essa mulher?

– Não faço ideia. Depende de alguma vez vivermos juntos ou não. Podes ser tu ou pode ser outra, mas continuo a dizer que o mais provável é não ser nenhuma. E enquanto andar contigo tenciono ser-te fiel.

Porque não lhe disse Joana, naquela altura que aquela mulher nunca seria ela? Porque se calou? Eis-me com o rabo entre as pernas, pensou; não demorou muito. Continuou a tocar aquelas imagens profusas de mulheres com os seios generosos e redondos e de homens com grandes falos erectos, unidos em todas as posições imagináveis; subiu as escadas com Rui; depois, ao caminharem em direcção ao carro, deixou que ele a abraçasse, e até se chegou mais a ele, sorrindo-lhe, e dizendo a si própria: e agora até estou com o rabo a abanar.

Esta visita à cave de Rui obrigou Joana a pensar na última das palavras que ele lhe tinha proposto para meditar: a palavra sofrer. Tratava-se aqui, como ela compreendia muito bem, de sofrimento físico provocado intencionalmente por outra pessoa. Nunca tivera, nem as tinha agora, fantasias sexuais com a ideia de ser punida fisicamente. Por outro lado, nunca partilhara a vertigem de pânico e revolta com que muitas mulheres encaravam a simples menção desta possibilidade. Teria medo, sim, da violência, do descontrolo; mas se estes elementos fossem retirados da equação, deixando isolada a dor física, verificava, com alguma surpresa, que era capaz de considerar friamente a hipótese de a sofrer.

Uma noite, quando estavam a fazer amor, Rui proibiu-a de ter orgsmo. Joana nunca tinha imaginado que esta ordem pudesse ser dada, e muito menos obedecida, mas deu por si a reprimir o orgasmo que se aproximava, e a conseguir evitá-lo por pouco. Surpreendente foi o prazer que teve nisto, que se prolongou pelo resto da noite e por todo o dia seguinte: uma excitação sexual surda e permanente, que nunca aumentava nem diminuía, nem exigia desenlace. Passou semanas a analisar este prazer inédito, mas não chegou a nenhuma conclusão. Suspeitava que Rui sabia deste prazer e o podia explicar, mas não conversaram sobre ele.

Num fim-de-semana em que tinham ido ao Teatro alla Scala para ver Cecilia Bartoli no papel de Cenerentola, sentaram-se numa esplanada da Galeria Vittorio Emanuele II a fim de comerem qualquer coisa antes do espectáculo. Era um dia quente de Junho, tinham ido com muita antecedência e o sol ainda ia alto. Foi este o momento que Rui escolheu para a inquirir, finalmente, sobre as três palavras que a convidara, meses antes, a considerar.

– Lembras-te delas?

– Lembro – disse Joana. – Servir, obedecer, sofrer.

– E…?

Joana virou a cara:

– Posso fazer isso por ti, se é o que tu queres.

– Já o tens feito – disse Rui.

Joana continuava com a cara virada para o lado.

– Ainda não sofri… – murmurou.

– Mas já me tens servido e obedecido, embora com  moderação. Diz-me: alguma vez tiveste prazer nisso?

Algumas vezes, mas Joana não o quis confessar. Baixou a cabeça, encolheu os ombros, e disse baixinho:

– Não sei…

– Não sabes. Hmmm… Diz-me outra coisa: daquelas três palavras-chave, qual achas que é a mais problemática?

– Não sei – respondeu Joana. – Ainda nenhuma foi problemática para mim.

Rui fez um gesto afirmativo com a cabeça, como que a reconhecer a pertinência da resposta.

– A mais problemática é obedecer – declarou. – É a que dá origem aos maiores mal-entendidos.

Joana sempre achara difícil obedecer a outra pessoa. Admirava-se da relativa facilidade com que obedecia a Rui, mas também era certo que ele nunca lhe pedira nada de difícil. O que ela não sabia era a que mal-entendidos se referia Rui.

– Pensa numa mulher – disse ele. – Numa mulher qualquer. Pensa que se trata duma pessoa com desejos muito fortes e fantasias sexuais muito definidas, mas com inibições e sentimentos de culpa que a impedem de as realizar. Imagina que ela começa a fantasiar com alguém que a obrigue a realizar esses desejos… alguém que lhe permita pensar que não tem culpa, que só está a obedecer, a ser obrigada… não lhe ocorre sequer que lhe possa ser ordenado algo que ela não deseje à partida. Supõe agora que esta mulher encontra um homem como eu, que espera dela obediência; e supõe que a certa altura ele lhe exige alguma coisa que ela nunca previu nem desejou, algo que para ela é doloroso, ou humilhante, ou embaraçoso, e não lhe dá qualquer prazer. E então recusa. Continua a fantasiar com situações em que é obrigada a obedecer, e tem-se sinceramente na conta de submissa; mas o homem pensa que ela está enganada e termina a relação. Qual dos dois achas tu que tem a melhor noção do que é obedecer?

– O homem, é claro – disse Joana.

E corou, porque Rui só uma vez lhe tinha pedido uma coisa que não correspondia a uma fantasia sua; e mesmo dessa vez tinha-lhe proporcionado um prazer cuja existência ela ignorava e que ainda agora não compreendia. Tanto quanto Joana sabia, a mulher hipotética descrita por Rui podia ser ela própria.

– Disseste que estavas disposta a obedecer-me se eu quisesse – disse Rui. – Vamos ver se é verdade: vai lá dentro aos lavabos e deita os sapatos para o lixo.

Joana estava arranjada para ir à ópera. O vestido, dum vermelho acobreado escuro, tinha sido comprado num costureiro da Via della Spiga, numa outra visita a Milão. Na bolsa de mão, minúscula, trazia os brincos, o anel e o colar que tencionava pôr quando estivesse em segurança no interior do teatro. Por ordem de Rui, não trazia calcinhas nem soutien: mas esta ordem não lhe custara a cumprir porque sabia que o vestido tinha sido concebido para ser usado sobre o corpo nu, coisa que ela nunca faria por sua própria iniciativa. Mas esta outra ordem era diferente: não a podia usar como pretexto para fazer o que queria e não ousava; pelo contrário, exigia dela que ousasse o que não queria. Tentou objectar:

– Mas… mas… vou descalça para a ópera?!

– Vais – respondeu Rui placidamente.

– E se não me deixarem entrar?

– Se houver algum problema, eu resolvo-o.

Para esta certeza, não tinha Joana resposta. Como último recurso, usou uma palavra que nunca lhe tinha sido proibida, mas que já lhe soava pouco lícita:

– Mas… mas porquê?!

Rui sorriu levemente antes de responder:

– Por duas razões: a primeira, como te disse, é testar a tua obediência. A segunda é que doravante os teus pés nus serão, aos teus olhos como aos meus, um sinal de humildade e respeito. Se isto não se harmonizar com o que sentes por mim, a minha recomendação é que recuses.

Joana não queria pensar, naquele momento, no que sentia por Rui. Sentia que estava numa encruzilhada: o que decidisse naquele momento determinaria muito do seu futuro, e do futuro dele.

Obedeceu. Na Galeria e na rua, ao atravessar para o teatro, sentiu-se embaraçada quase até à vertigem pelos olhares de curiosidade ou desdém que atraía. Ninguém lhe barrou a entrada no La Scala; e, depois de pôr as jóias, sentiu que atraía menos olhares dentro do teatro do que tinha atraído lá fora.

Isto talvez seja assim, pensou, porque esta gente que aqui está sabe muito bem ver quando um vestido é de luxo e uma jóia verdadeira.

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Cap. 33: NO LIMITE

Nas semanas seguintes, Ana e Miguel tornaram-se frequentadores do Justine, primeiro na companhia de Raul e Teresa, depois, muitas vezes, sozinhos. Conversando com as pessoas que conheceram, depressa se aperceberam que o compromisso absoluto de Raul e Teresa era muito mais radical do que era costume no meio. Não era uma questão de mais submissão ou menos submissão, mais dor ou menos dor, mas daquilo em que cada um centrava os seus desejos e a sua ideia de felicidade. Antes de frequentarem o Justine, Ana e Miguel pensavam que, quando uma pessoa submissa encontrava uma pessoa dominante, a história tinha chegado mais ou menos ao fim: pouco mais restava do que serem felizes para sempre. Verificavam agora que isto estava longe de ser o caso: era difícil encontrar o dominante certo para o submisso certo, e no Justine, como em qualquer outro lugar, não faltavam corações partidos. Aprenderam também a tolerância, uma vez que os centros do desejo eram quase tantos como as pessoas à sua volta: para uns a moda e o fetiche, para outros a dor física ou a humilhação, para outros a restrição de movimentos, para outros a entrega – que não era a mesma coisa que dádiva; alguns praticavam a monogamia mais estrita, outros viam a expressão máxima do domínio na cedência a terceiros do submisso ou da submissa, sem lhe permitir qualquer escolha quanto à identidade, quanto ao número, ou quanto ao sexo, da pessoa ou pessoas a quem temporariamente servia.

Quase sempre os centros do desejo eram múltiplos, o que tornava tudo ainda mais complicado. Miguel e Ana estavam convencidos que eram o dominante certo para a submissa certa, mas nem por isso deixaram de beneficiar do convívio que tiveram com outros frequentadores do bar. Não os surpreendeu a adesão quase fanática de todos a uma ética muito rígida e muito simples que se exprimia na máxima “safe, sane and consensual”: uma regra como esta era necessária num meio em que se cruzavam personalidades e desejos tão diversos, e era uma boa base para que a comunidade pudesse organizar uma rede informal mas eficaz de protecção mútua contra predadores e psicopatas.

Raul e Teresa eram menos assíduos. Quando ia ao Justine, Teresa costumava levar, enfiado na vagina, o primeiro óvulo de controlo remoto que Raul tinha adquirido. O óvulo mais recente, operado por telemóvel, nunca era usado no Justine e raramente noutros lugares: só algumas vezes, quando Teresa ia às compras ou encontrar-se com amigos e familiares. No Justine, Teresa estava sempre consciente que, estivesse a fazer o que estivesse – a falar com outros frequentadores do clube, a arranjar-se nos lavabos, a trazer uma bebida ao dono, a qualquer momento se poderia desencadear no interior do seu corpo, sem aviso, aquela vibração que para a sua sensibilidade continuava a misturar sofrimento e prazer. Miguel perguntou a Raul onde podia adquirir um aparelho semelhante, e passados poucos dias Ana passou também a usar um óvulo na vagina; mas para ela a sensação era de puro prazer.

Ana e Miguel não se tratavam por “meu senhor” ou “minha escrava”; perante terceiros, ele referia-se a ela como “a Ana” – ou, no Justine, “a trilby” – e ela a ele como “o meu Dono”. Descontadas estas formalidades, que não eram importantes, a sua relação parecia encaminhar-se numa direcção semelhante à de Raul e Teresa. Isto preocupava um pouco o par mais velho, que se sentia responsável e sabia que nem todas as relações de domínio e submissão se conformam a modalidades tão exigentes como a que tinham escolhido para si próprios. Preocupava-os a possibilidade de os dois jovens fazerem uma escolha que mais tarde um ou outro não pudesse suportar. Por isso viam com bons olhos a maneira como eles se iam integrando na comunidade: assim podiam conhecer outras formas de domínio e submissão e construir por si próprios a que mais se adaptava às suas necessidades particulares.

Um assunto que discutiam muito era o que aconteceria se as necessidades de um deixassem alguma vez de corresponder às do outro.

– Mas não correspondem? – perguntava sempre Raul.

– Correspondem – respondia sempre Ana ou Miguel. – Mas se não correspondessem, como era?

– Em teoria prevaleceriam as necessidades do Miguel – preconizava Teresa, radical como sempre.

– Mas na prática – prevenia Raul – têm que ter algo em comum para que os desejos de um possam enriquecer os do outro. É este o vosso caso, parece-me, e por isso não vejo porque se preocupam. Teriam razão para se preocuparem, por exemplo, se para um de vós uma coisa qualquer tivesse um valor simbólico ou erótico muito grande, que a tornasse indispensável, e para o outro essa coisa fosse absolutamente insuportável.

– Mas por outro lado – disse Teresa durante uma destas conversas – se aquilo que o senhor exige não for de todo insuportável para a escrava, esta dificuldade até pode ser uma coisa boa: pode ser uma forma de tornar a escrava mais escrava. É como os meus pés nus: no imaginário do Raul os pés nus sempre foram um símbolo importante de humildade e submissão. Agora já o são também no meu imaginário, que por isso mesmo está mais rico: já faziam antes parte dele, mas tinham outro significado, diferente e mais limitado. Este significado não se perdeu, apenas se lhe acrescentou o que Raul lhe deu. Claro que andar descalça é muitas vezes um grande sacrifício, e por vezes, em público, quase morro de vergonha. Mas para mim vale a pena: uma escrava que não esteja preparada para fazer sacrifícios grandes não merece o nome de escrava.

[ …]

Raul sorriu levemente, fez-lhe uma pequena festa no rosto e virou-lhe as costas para ir pousar o chicote na banca. Depois voltou com cordas para lhe amarrar os pulsos e os tornozelos aos quatro cantos do rectângulo formado pelas colunas. Teresa deixou-se amarrar docilmente; fechou os olhos e começou a murmurar repetidamente “amo-te, amo-te, amo-te”, como se a repetição infinita desta verdade fosse o mantra que a ia proteger na provação que a esperava.

– Agora vou-te vendar – disse Raul. – Posso?

Para não interromper o “amo-te, amo-te, amo-te” que continuava a dizer baixinho, Teresa limitou-se a acenar que sim. Se estivesse em estado de achar graça a alguma coisa, teria sorrido por ele ter pedido permissão para a vendar quando não precisava de permissão para nada do que estava a fazer. Continuou a dizer baixinho “amo-te, amo-te, amo-te” enquanto tentava prever ao fim de quantas chicotadas começaria a gritar.

Começou a gritar logo à primeira, um berro agudo e ensurdecedor que dificilmente se acreditaria que pudesse ficar confinado entre as paredes do quarto, ou sequer da casa. Esta chicotada atingiu-a obliquamente nas nádegas, marcando um traço que ia da parte superior da esquerda à inferior da direita. A segunda atingiu-a horizontalmente e um pouco mais acima, arrancando-lhe um grito tão forte como o primeiro. Das que se seguiram, nenhuma correspondia a nada que ela pudesse ter imaginado ser capaz de suportar. Mais do que todas as outras, doeram-lhe as que a atingiram no rego entre as nádegas e as coxas; mas por esta altura já se tinha cansado de gritar. Os primeiros gritos que soltara tinham sido emitidos num soprano cristalino, mas pouco a pouco foram enrouquecendo até se tornarem urros que quase nada tinham de humano. E mesmo estes acabaram por dar lugar a arquejos de aflição, entremeados de rosnidos de fera encurralada.

O chicote não fazia um silvo tão agudo como o da vergasta, e o som que fazia ao contactar com a carne não era tão seco. Mas a dor era inconcebivelmente maior, maior do que qualquer punição que Teresa já tivesse recebido.

Quanto tempo durou isto? Não é possível contá-lo, nem em segundos, nem em minutos, nem em número de golpes desferidos. Teresa só soube que o seu tormento tinha terminado quando Raul lhe tirou a venda. Olhou à sua volta, espantada: o quarto era o mesmo, o mundo não tinha mudado. Quando Raul lhe libertou os tornozelos, esfregou os pés um no outro, tentando restaurar a circulação. Depois, quando ele lhe libertou os pulsos, as mãos voaram-lhe para onde tinham estado antes de ele a amarrar: cruzadas em frente ao sexo, escondendo-o, tapando-o, negando-o ao olhar e ao desejo do macho. Raul não lhe ordenou que descruzasse as mãos: pôs-se em frente dela, olhou-a nos olhos – que ela não conseguiu furtar aos dele – disse-lhe “amo-te” e foi de novo buscar o chicote.

Teresa bem sabia para que era agora o chicote, era para ela o beijar: e nesse momento sentiu-se invadir por uma tal revolta, que numa fracção de segundo, na sua imaginação, saiu dali, vestiu-se, fez a mala, chamou um táxi, foi para o aeroporto e regressou ao seu apartamento no Corso Magenta. Mas na realidade, o que fez foi ajoelhar-se e beijar o chicote, sem que Raul precisasse de lho ordenar. Depois levantou os olhos para o dono e viu-o imóvel, de pé, à espera. À espera de quê? Que mais que queria ele ainda? Que ela lhe dissesse o que disse, é claro:

– Obrigada, meu dono.

No momento em que estas palavras lhe saíram da boca aconteceu uma coisa que a fez sentir ódio por si mesma: enrubesceu, os lábios entreabriram-se, os quadris rodaram num círculo imperceptível, como se tivessem vontade própria, e sentiu-se a ficar molhada. Este ódio por si própria, assim como veio, assim desapareceu; a vergonha a que ele deu lugar também teve a vida curta; a excitação, essa sim, permaneceu – e com ela surgiu-lhe na alma um sentimento de orgulho que a levou a repetir:

– Obrigada, meu senhor. Amo-te. Faças de mim o que fizeres, hei-de amar-te sempre.

Esta expressão de submissão não lhe amainou de todo a revolta: uma coisa era aceitar, por sua deliberada vontade, a dor que ele lhe quisesse dar, outra era responder-lhe com uma reacção involuntária do corpo. Mas não, estava a ser injusta: o acto de vontade tinha vindo antes, tinha sido responsabilidade sua; e se o corpo estava de acordo com a vontade, não merecia censura. Rola os quadris, escrava, entreabre a boca, semicerra os olhos, pensou Teresa. Afasta as pernas. Deixa que a cona se molhe. Tens direito a tudo isso: fui eu, enquanto mulher livre, que to dei.

[ … ]

Nem fazer segredo, nem fazer alarde, pensou Teresa. Era este o princípio que ela e Raul tinham adoptado. Numa aula de dança, em que está presente apenas um número limitado de pessoas, vestir-se como de costume não seria fazer alarde, tapar-se toda é que seria fazer segredo. Já o tinha feito uma vez, não ia fazê-lo de novo. Vamos lá ver o que acontece, pensou, e apresentou-se na aula com uma saia vermelha de cintura baixa que lhe deixava a descoberto quase todas a zonas do corpo onde tinha sido chicoteada.

O que aconteceu foi espanto, repulsa, solicitude e indignação. Não serviu de muito explicar que tudo se tinha passado com o seu consentimento: somente nalguns casos a indignação deixou de ser contra Raul e passou a ser contra ela. Em algumas das mulheres presentes, porém, a indignação foi mais convencional que sentida; houve as que ficaram um momento pensativas e não disseram nada; e Ana, é claro, ficou fascinada, querendo saber tudo, se tinha doído muito, se tinham feito amor depois, se ela própria seria capaz de suportar o mesmo, se Miguel quereria alguma vez, ou poderia, castigá-la assim.

– Se o Miguel te fizesse isto, suportavas?

– Claro que suportava! – respondeu Ana.

– Não sabes o que dói… – disse Teresa. – Dói mesmo muito, e parece que dura séculos.

– Não interessa, suportava e agradecia – respondeu Ana.

Teresa ficou sem saber se tamanha certeza lhe vinha do auto-conhecimento, dalguma necessidade antiga, ou apenas da extrema juventude, que não teme nada. Dançou particularmente bem nesse dia; se isto a fez subir ou descer na consideração das colegas, nunca chegou a sabê-lo.

[ … ]

Era um Setembro quente, mais quente do que tinha sido Agosto. Nestes primeiros dias do mês, Teresa tinha sido punida quase diariamente com uma variedade de instrumentos, uns mais dolorosos do que outros, mas o chicote que lhe causara a dor maior e as marcas mais fundas não voltara a ser usado. Cada punição confirmava o que Teresa já sabia: que a expectativa a excitava um pouco; que a experiência, enquanto durava, lhe tirava toda a excitação; e que se voltava a excitar, confirmando-se como escrava de Raul de um modo cada vez mais inegável, no momento em que se ajoelhava para beijar o chicote e para agradecer o castigo. Teresa compreendia e aprovava a intenção, que adivinhava em Raul, de transformar esta confirmação em rotina: não bastava que o “obrigada” e o “amo-te” que proferia ritualmente fossem verdade, como de facto eram: era preciso que se tornassem inevitáveis, automáticos, evidentes, a tal ponto que a sua eventual omissão se tornasse, ela sim, uma mentira.

Uma noite, Raul colocou um banco almofadado entre as duas colunas, mandou-a sentar e atou-lhe os pulsos aos capitéis, esticando-lhe os braços. Para dar folga às cordas, bastaria a Teresa pôr-se de pé, mas ele apertou-lhe um cinto aos quadris e atou-o com cordas a duas argolas na base das colunas. Agora ela já não poderia aliviar a tensão dos braços, mesmo que quisesse; mas mesmo assim Raul esticou as cordas ainda mais. Teresa ainda tinha os pés assentes no chão, mas ele amarrou-lhe os tornozelos, fê-la levantar as pernas e amarrou as pontas das cordas às mesmas argolas a que tinha amarrado os pulsos: Teresa tinha agora os braços e as pernas no ar, as nádegas assentes no banco, e o sexo arreganhado, todo à vista. Foi nesta posição que ele a vergastou, assentando-lhe os golpes na pele fina do interior das coxas, na parte de baixo das nádegas, e sobretudo na vulva. Teresa já tinha desistido de comparar dor com dor: já tinha aprendido que a punição que dói mais era sempre a que estava a sofrer no momento. Entregou-se toda à dor; ou, melhor dizendo, não foi preciso entregar-se, porque a dor se apoderou dela como sempre, totalmente, sem deixar lugar para qualquer outra sensação ou pensamento.

[ … ]

Dias depois, teve mais uma sessão de depilação eléctrica, e temia que a esteticista lhe visse as marcas da vergasta. De facto ainda as tinha, mas não sentiu a vergonha que teria sentido uns meses antes. A esteticista, quando as viu, comentou que a senhora afinal estava habituada a dores piores do que as que ela lhe provocava; para além disto não teve qualquer reacção, a menos que por reacção se contasse o especial cuidado com que a tratou. As pessoas nunca são quem julgamos, pensou Teresa, ao dar-se conta de que não sabia a que atribuir aquela vaga simpatia da esteticista: entrariam ali todos os dias mulheres com marcas de vergasta no sexo? Todas as semanas? Todos os anos? Ou teria sido ela a primeira, destinada talvez a ser também a última? Teria esta jovem tranquila visto alguma vez marcas semelhantes noutros contextos, noutros corpos, quem sabe se no seu próprio? Quantos mundos existem à nossa volta, diferentes uns dos outros, diferentes daquele que julgamos estar a ver?

[ … ]

De tarde vestiu uma saia que tanto servia para andar na rua como para dançar. Na parte superior do corpo pôs um choli que, ao contrário dum top rígido, permitiria que os seios lhe oscilassem sem terem que ficar nus, escandalizando as outras alunas. Na aula, prestou atenção a todas as instruções da professora, de modo a que todos os movimentos fossem exactos e perfeitos mas ao mesmo tempo fluidos e soltos.

– Hoje dançou muito bem – disse-lhe a professora. – Houve momentos em que pareceu inspirada.

Antes de ir lanchar com Ana, Teresa queria passar pelas colegas e pela professora uma folha em que elas pusessem os endereços para lhes poder enviar os convites para o casamento. Recolhida a folha, verificou que algumas a tinham passado adiante sem escrever nada: estavam no seu direito. No dia seguinte de manhã, depois da aula de pompoar, passou outra folha e ficou contente porque desta vez todas as colegas escreveram os seus endereços. Esta aula foi a primeira em que as alunas usaram vibradores; mas, ao contrário do que Teresa chegara a temer, desligados. O objectivo era ver se eram capazes de sugar o vibrador para dentro da vagina e de o expulsar sem usar outros músculos além dos que tinham estado a exercitar nas aulas anteriores. Teresa não foi das que tiveram mais dificuldade, mas o esforço foi tão grande que, ao saber que mais tarde se esperaria dela e das colegas que sugassem e expulsassem o vibrador dezenas de vezes seguidas, duvidou que tal fosse possível.

Teresa sempre tinha exercido uma profissão, e isto tinha-lhe alargado o mundo. Até puta fui, pensava por vezes, cada vez com menos amargura mas talvez com mais melancolia. Depois decidira dedicar-se inteiramente a Raul, mas sempre com uma réstia de medo que esta opção a confinasse a uma estreiteza de vida que não desejava. Verificava agora que o amor e o sexo, a obediência e o serviço prestados a um senhor, podem constituir uma ocupação a tempo inteiro, exigindo organização, disciplina e um treino intenso e difícil. Não se sentia menos digna como escrava do que se tinha sentido quando era uma mulher de carreira no mundo do jornalismo e da moda; tinha passado, pelo contrário, dum estatuto virtual para um estatuto real que a fazia sentir-se mais presente no mundo.

Foi assim, serena e segura de si como uma matriarca antiga, que assistiu à assinatura dos últimos papéis e ao cumprimento das últimas formalidades que conferiam à sua irmã Carolina a propriedade da empresa que tinha fundado. Também Carolina teve neste dia o seu acesso a um mundo ligeiramente diferente: abandonava o proletariado, tornava-se senhora de si e não tinha ninguém a quem prestar contas. E se não se deu conta que por este caminho tão diferente tinha chegado exactamente ao mesmo ponto que a irmã, já a esta o facto não passou despercebido. O Mundo é com efeito prodigioso e vário.

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Ouçamos o que nos diz uma escrava: «não aceito ser humilhada». Tentemos entendê-la. Ela tem um Senhor, e ama-o. Define a sua escravidão em três palavras: servir, obedecer, sofrer. É assim que ela sabe e quer amar; e como o seu ideal de amor é infinito, sente como uma imperfeição qualquer limite à sua capacidade de servir, de obedecer ou de sofrer.

Ouçamos o Senhor desta escrava. Ele ama-a, e respeita-a, e nunca perdoaria a si próprio se a humilhasse. As modalidades do seu amor por ela são o domínio e a posse: é assim que ele sabe e quer amá-la. Exige dela que o sirva na perfeição, que lhe obedeça com dedicação e inteligência, que aceite e agradeça o sofrimento que ele lhe provoca. Usa o direito que tem de a punir para a consolar de não ser perfeita. Se a castiga sem ela ter cometido qualquer falta, está-lhe a dizer com cada golpe de vergasta: «és minha, tenho este direito sobre ti, e como o tenho, exerço-o». Ela, que quer ser dele, compreende, aceita e agradece o castigo – e porque se sente possuída, sente-se amada.

Se a castiga por uma falha dela no seu dever de servir e obedecer, está a dizer-lhe: «sei bem, meu amor, que não és perfeita; sei também o quanto queres sê-lo; exijo-te que te aproximes sempre mais da perfeição, mas não te exijo que chegues lá. Ninguém chega lá. Vê: serviste-me mal, ou obedeceste-me mal, ou talvez até me tenhas desobedecido de propósito; mas agora vais saber sofrer bem. Fica sabendo que te amo tanto na tua imperfeição como amaria um anjo».

Com outra escrava, com outro Senhor, tudo isto que estou a escrever seria diferente. Mas mantenhamo-nos com estes dois.

Como poderia este Senhor humilhar esta escrava? Humilharia a sua escrava, certamente, se desprezasse a sua dádiva de serviço, obediência e sofrimento. Se a aceitasse sem lhe dar valor, como se fosse coisa pouca. Quando esta escrava diz que não aceita ser humilhada, está a pedir ao seu Senhor que dê à sua dádiva o valor que ela tem, e que é imenso. Uma escrava tem muito poucos direitos: mas este, tem-no, certamente.

Humilharia a sua escrava, também, se não soubesse reconhecer a diferença entre um limite alegado e um limite real. O limite alegado está aquém do limite real (também por isto ela se sente imperfeita). Ao levá-la-la a ultrapassar um limite alegado, estará no seu direito de Senhor, e não estará a humilhar a sua escrava, mas sim a honrá-la. Se a levar além do que ela quer fazer, continua no seu direito: toda a verdadeira escrava sabe e aceita que faz parte da sua condição fazer muitas vezes o que não quer, e muitas vezes não fazer o que quer. Mas se o seu Senhor a levar além do que ela pode fazer, isso será uma humilhação que deixará feridas, talvez incuráveis.

É difícil para um senhor distinguir entre o que a sua escrava não quer fazer e o que ela não pode fazer – e tanto mais difícil quanto é certo que ela própria pode não saber distinguir. Mas aí a responsabilidade é dele, e não dela.

A escrava tem dignidade; e como tem dignidade, tem vontade; e como tem vontade, tem querer. E tanto tem querer, que quis fazer uma dádiva de si própria; tanto tem querer, que quer ser perfeita. E a beleza terrível da sua escravidão está nisto: ela tem querer, mas não tem quereres.

E é por isso que há momentos em que o senhor respeita a sua escrava tanto mais, quanto mais a humilha. A humilhação é respeito quando ele lhe proíbe quereres; quando lhe proíbe caprichos; quando lhe proíbe certos pudores. São momentos em que é direito dele, e talvez dever dele, humilhá-la; mas não são estas as humilhações que ela tem em mente quando diz «não aceito ser humilhada».

São estas, também, as humilhações que a escrava pode evitar humilhando-se ela antes, num jogo em que ambos – ela e o seu Senhor – encontrarão o mais requintado dos prazeres.

Mencionei acima a «beleza terrível» da escravidão desejada. É terrível porque infunde terror: e não só o infunde na escrava, como em todos à volta, incluindo o seu Senhor. Saiba o Senhor maravilhar-se com tamanha beleza; saiba ele sentir, sem lhe ceder, o terror que esta beleza infunde: saberá assim respeitar a sua escrava; e se entender que deve humilhá-la, saberá fazê-lo só na medida em que esta humilhação eleva os dois.

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Cap. 32: DISCÍPULOS

[ … ]

Entre as colegas de Teresa na dança havia uma jovem que também era colega dela no pompoar: chamava-se Ana e ainda não tinha vinte anos. Foi esta jovem que uma tarde convidou Teresa para lanchar. Quando Teresa lhe disse que não podia aceitar este convite sem autorização do namorado, Ana não mostrou repulsa nem surpresa, antes deleite:

– Então pede-lhe, por favor!

Mal tinham tido tempo de mandar vir as meias de leite e as torradas quando Ana, impaciente, começou a conversa:

– Quer dizer que nunca fazes nada sem autorização do teu namorado?

Teresa sorriu.

– É claro que faço muitas coisas por minha iniciativa, nem ele quereria que fosse doutra maneira. Mas uma das coisas em que combinámos que eu não teria qualquer liberdade foi o uso do meu tempo: por isso é que tive que lhe telefonar antes de aceitar lanchar contigo.

Ana bebeu um pouco de café com leite antes de se decidir a dizer:

– Acho isso tão bonito… Pensava que não havia mais ninguém como eu e o Miguel.

– O Miguel é o teu namorado? – perguntou Teresa. – E costumas obedecer-lhe?

– Adoro obedecer-lhe, e ele adora que eu lhe obedeça… Nunca contámos a nenhum dos nossos amigos, tivemos medo que nos gozassem ou que se afastassem de nós. Posso contar-te um segredo? Ele às vezes bate-me com uma vergasta, e eu deixo… Não ficas a pensar mal de nós?

– Claro que não, minha querida – respondeu Teresa. – O Raul também me vergasta algumas vezes, e castiga-me fisicamente doutras maneiras. Eu não tenho nenhum prazer em ser castigada, mas tenho um prazer enorme em poder sê-lo. Compreendes isto?

– Não sei, acho que nesse ponto somos um pouco diferentes. Eu tenho prazer em ser vergastada, pelo menos pelo Miguel. Com outro homem, nunca experimentei. Mas pensando bem, agora que falamos nisso, acho que o meu prazer maior é o direito que ele tem de me vergastar. É, é isso. Nisso somos parecidas, tu e eu.

– E o Miguel, gosta de te castigar?

– Acho que gosta um bocadinho, como eu, mas agora começo a pensar se o prazer maior dele não será ter esse direito… E o teu namorado? Também gosta de te fazer doer?

– Talvez seja como o teu: gosta, mas isso para ele não é o principal.

Ana calou-se de novo, a ganhar coragem, e disse finalmente:

– O nosso maior problema, meu e do Miguel, é não sabermos como se fazem as coisas.

Teresa franziu o sobrolho, intrigada:

– Como se faz o quê?

Ana pareceu um pouco atrapalhada:

– Não sei… Deve haver regras… Sabe, o que se faz na cena BDSM… Não conhecemos ninguém nesse meio a não ser a si, e a Teresa não corresponde nada às imagens que vemos nos media… De modo que não sabemos as regras, nem a maneira correcta de vestir… Espero que isto não fosse um abuso, mas tenho falado de si ao Miguel e ele diz que um dia gostava de a conhecer e ao seu namorado.

Ana trazia uma saia comprida de renda preta sobre outra opaca e mais curta. Tinha uma T-shirt preta sem mangas, muito decotada, e sobre esta, uma blusa preta transparente de mangas compridas. Não trazia as unhas nem os lábios pintados de preto, nem piercings visíveis, nem a profusa joalharia de prata, própria do visual gótico: apenas uns brincos de prata compridos que lhe chegavam aos ombros. Nos pés trazia umas sandálias pretas de tiras, com uns saltos altíssimos.

– Diz-me uma coisa, Ana – perguntou Teresa. – Esse teu modo de vestir corresponde mais ao teu gosto ou ao gosto do Miguel?

– Não sei bem… Devia ser ao do dele, não devia? Mas acho que é ao dos dois. Ou então talvez seja mais uma questão do que achamos apropriado ao nosso lifestyle.

Teresa sorriu um pouco da expressão em inglês:

– E que maneira de vestir acham vocês apropriada para o vosso lifestyle?

– De preto, acho eu… Mas ele, não é só por causa das regras que se veste de preto, é porque gosta mesmo. Do que ele não gosta é de usar adornos, nem enfeites, nem penteados esquisitos. É roupa preta, barba feita, cabelo à escovinha, e já está. É o estilo dele.

– Posso dar-te um conselho? – perguntou Teresa.

– Até agradeço.

– Não te vistas para nenhum lifestyle. Não há lifestyles. Quer dizer, havê-los, há, mas são pura diversão, não passam disso. Os estilos de vida, somos nós que os fazemos. Não há uma maneira apropriada para mulheres como nós se vestirem. Veste-te como ele gostar de te ver, nem que seja de cor-de-rosa bebé, ou de vestidinho às pintinhas. Se tu também gostares, tanto melhor, mas isso não é importante: o importante é o que ele gosta. Outra coisa, e esta é mesmo importante: não há regras. Ou melhor, só há uma regra, que é respeitar o outro. Se sentires que o Miguel não te ama ou não te respeita, larga-o. Mas se ele te ama e respeita, então não há regras. Isto é mesmo muito importante. Conta-lhe esta conversa e vê o que ele pensa.

Ana ficou pensativa.

– Posso falar-lhe de si e do seu namorado? – perguntou.

– Não precisas de dizer meu namorado – disse Teresa. – Podes dizer meu dono ou meu senhor, que eu não me importo. E claro que podes falar de nós ao Miguel.

– Obrigada – disse Ana, à despedida. – Ele vai gostar de ter tudo isto em que pensar. E eu também vou ter que pensar, especialmente nessa questão do respeito.

Quando Teresa contou a Raul esta conversa, ele sugeriu-lhe que convidasse Ana e Miguel para lanchar no Majestic no fim da semana seguinte. No dia do encontro, Agosto estava a meio, e o tempo estava muito quente. Raul e Teresa chegaram propositadamente atrasados para que Ana e Miguel os vissem chegar: Raul de jeans e T-shirt pretos e cabelo curto, num estilo muito semelhante ao de Miguel; Teresa compareceu descalça, sem calcinhas e sem soutien: sem nada sobre o corpo que não fosse um vestido comprido em tons de rosa, lilás e branco, que deixava adivinhar à transparência os mamilos escuros, e só não deixava ver o triângulo da púbis por esta se encontrar depilada. Ana estava toda de preto: top atado nas costas com atilhos, mini-saia justa, meias de rede e sandálias de salto muito alto. Via-se que tinha feito um esforço especial para exprimir a sua condição de namorada submissa. Depois das apresentações, o diálogo entre os dois homens consistiu em pouco mais que uma troca de ideias gerais. Já Ana quis saber tudo, particularmente o significado dos pés nus de Teresa, se ela costumava andar assim na rua, que distância tinha percorrido desta vez, se lhe tinha custado muito.

– Não ando muitas vezes descalça na rua – disse Teresa. – O Raul só me costuma dar essa ordem em ocasiões especiais, como hoje. Em casa, sim, tenho que andar sempre descalça.

– Em casa, e na Fundação de Serralves – interrompeu Raul.

– Em Serralves?! – exclamou Ana – Porquê?!

– Por capricho meu – explicou Raul. – Mas também porque me seduz a variedade de texturas no chão da casa e nos jardins. E além disso há qualquer coisa naquele ambiente que parece que o exige.

– É verdade – disse Miguel. – Nunca me tinha ocorrido, mas é verdade.

– Mas não te custou vir descalça até aqui? – insistiu Ana.

– Nem por isso – respondeu Teresa. – Deixámos o carro no parque dos Poveiros: lá dentro o chão está fresco. O passeio cá fora é branco, não aquece muito. Só me podia ter queimado um bocado ao atravessar a rua, que é de alcatrão preto e fica muito quente… o truque é aproveitar as faixas brancas da passadeira, que não queimam. Aqui na Rua de Santa Catarina o chão é claro, não aquece muito. Com as texturas é mais difícil, algumas são muito ásperas, é preciso estar habituada… a única coisa a que nunca me habituei é o olhar das pessoas. Ainda fico embaraçada…

Miguel olhou para ela estreitando os olhos, e a seguir para Ana.

– Pois a mim, o que me daria prazer – disse ele – seria precisamente ver a Ana assim embaraçada.

Raul olhou atentamente para os dois. Ana estava vermelha e olhava para as mãos, mas um leve sorriso bailava-lhe nos lábios.

– Olhe, Miguel, não sei quais são os termos do seu compromisso com a sua namorada – disse Raul. – Não sei se o seu compromisso o autoriza a fazer-lhe este tipo de exigências, nem se a obriga a obedecer-lhes…

– Autoriza-o, sim, e a mim obriga-me – interrompeu Ana. – O Miguel é que talvez ainda não se tenha apercebido. São coisas de homem, de cavalheiro…

Foi a vez de Miguel enrubescer; e Teresa riu-se ao ver que Raul também tinha corado.

– Um cavalheiro um bocado obtuso, pelos vistos – respondeu Miguel. – Andei a ver a net e os fóruns e convenci-me que numa relação como a nossa havia convenções a respeitar: roupa preta, cabedal, todas as mulheres de saltos altos… A Ana e eu nunca fomos a um clube sadomasoquista: mas se a Ana fosse vestida, por exemplo, como a Teresa está agora, deixavam-nos entrar?

– Depende do clube – disse Raul. – Numa grande cidade europeia pode haver clubes centrados em certos fetiches, e aí teriam que se conformar a eles; mas aqui no Porto não temos dimensão para essas especializações. Num clube daqui, todos estariam a par do que esta indumentária da Teresa significa.

Miguel ficou calado por alguns instantes.

– Confesso que uma submissa descalça me diz mais que uma de saltos altos – disse por fim. – Isto não é de agora, sempre foi assim, mas parecia-me que isso não era… como hei-de dizer… ortodoxo…

– Não há regras nem ortodoxias – disse Raul. – Só a vontade do dono conta.

– Mas continuo a gostar de ver a Ana de preto, e de minissaia justa.

– Não há regras – repetiu Raul. – Se o Miguel tem esse direito sobre a Ana…

– Claro que tem – disse Ana em tom decidido.

Miguel olhou para ela como se a estivesse a ver pela primeira vez e quisesse fixar-lhe as feições.

– Claro que tenho… – murmurou para si mesmo.

E em voz alta disse:

– Ana, o que vais fazer agora é isto: vais lá dentro aos lavabos, deitas no caixote do lixo os sapatos e as meias, e voltas para aqui. No caminho para cá, passas pelo balcão e pedes um fino para esta mesa. Ou dois, se o Raul também quiser.

– Com todo o gosto – disse Raul.

Ana fez menção de objectar, mas, antes que tivesse tempo de o fazer, o namorado acrescentou:

– Ah, e já agora deixas lá ficar também as calcinhas.

Ana ficou um momento sentada, a olhar para as mãos. Depois, de rompante, levantou-se:

– Está bem.

Dirigiu-se para dentro do café, de cabeça levantada, para cumprir o que lhe tinha sido ordenado. E já que se sentia embaraçada, e não queria ceder ao embaraço, fez questão de ir até ao fundo do café por uma das duas coxias que correm entre as mesas e regressar pela outra, de modo a que todos os presentes lhe vissem bem, primeiro a mini-saia, e depois os pés descalços.

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Cap. 31: SEIS VERGASTADAS E MAIS UMA

Desde que Teresa se tinha habituado a dançar para Raul depois de jantar, mostrando-lhe os progressos que fazia nas aulas, estava-se a tornar mais frequente Raul jantar sozinho, servido por Teresa e Milena. Isto evitava que Teresa tivesse que mudar de roupa duas vezes, e por outro lado dava lugar a uma competição lúdica entre as duas para ver quem organizava o serviço mais requintado. Esta competição levou a tais extremos de formalismo que não raras vezes acabavam as duas, acompanhadas por Raul, perdidas de riso perante uma invenção protocolar particularmente absurda. Mas se o protocolo excessivo e barroco do jantar era puro divertimento, as danças de Teresa perante Raul eram, pelo contrário, um assunto muito sério. Nestas danças, Teresa não estava limitada ao formato da dança do ventre e usava por isso de uma liberdade que não podia exercer nas aulas. Por vezes dançava vestida, outras nua ou meia nua; por vezes fazia dança do ventre, outras dança livre ou dança jazz; outras ainda inspiravam-se em gestos e estilos populares de todos os continentes. Dava-lhe especial prazer, dançando nua, fazer com que a atenção de Raul se concentrasse nas suas mãos ou nos seus braços; ou pelo contrário, estando completamente vestida, pôr em evidência as partes mais íntimas do corpo.
Na noite que se seguiu à da experiência com o vibrador, Teresa apareceu com a parte inferior do corpo coberta de panos transparentes, sobrepostos de modo a formar uma saia multicolor: carmim, vermelhão, siena queimado, laranja, roxo, amarelo indiano. A cinta era tão baixa que, se Teresa não estivesse depilada, lhe deixaria à mostra parte dos pelos púbicos. Logo de início, Raul notou uma rigidez que não era habitual nos movimentos de Teresa: os movimentos habituais estavam lá todos – o ondular dos músculos da barriga, o rolar das ancas, o sacolejar para os lados e para a frente, as órbitas descritas em forma de oito, o tremer dos seios e dos quadris – mas tudo muito controlado, muito deliberado, muito preso, sem a desenvoltura de que Teresa começava a ser capaz. A que se poderia dever esta regressão?
A resposta tornou-se óbvia quando Teresa deu por terminada a primeira fase da dança, que era feita com os pés assentes no chão e sem sair do sítio, e tentou fazer uma pirueta. Nesse momento, Raul ouviu o som surdo de alguma coisa mole mas pesada a cair no chão; e viu um dos pés nus de Teresa a dar um pontapé involuntário nas bolas ben-wa que acabavam de lhe cair da vagina.
– Anda cá – disse Raul. – Senta-te no meu colo.
Com Teresa ao colo, titilando-lhe distraidamente um dos mamilos, Raul começou a fingir que lhe ralhava:
– Com que então, experiências! Quem te mandou fazer isso? Deve ter sido a tua professora de pompoar, ou então a de dança do ventre, porque eu não me lembro de te ter dado essa ordem…
Teresa corou:
– Não foi ninguém… Foi ideia minha…
Raul riu-se de novo e deu-lhe uma pequena palmada de baixo para cima num dos seios, de modo a fazê-lo saltar.
– Suponho – especulou – que quando um senhor quer ter uma escrava com ideias, tem que se sujeitar a que algumas delas não sejam muito boas. E esta não foi muito boa, pois não?
– Pois não, meu senhor. Desculpa.
Raul deu-lhe uma palmada no rabo, desta vez com força, e ordenou:
– Então vai lá lavar as bolas e depois vem dançar para mim como deve ser.
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa, pondo-se de pé com um movimento álacre e esfregando o sítio onde tinha levado a palmada.
E de facto, depois de voltar e de pôr a música outra vez no início, soltou os quadris e dançou tão bem e tão fluentemente como habitualmente o fazia. Introduziu nesta dança, porém, um movimento que Raul reconheceu da noite anterior: aquele gesto peculiar de retraimento e entrega em que o corpo parece ansiar precisamente por aquilo de que foge. Era o movimento com que tinha reagido ao vibrador, e Raul gostou tanto que sugeriu a Teresa que o mostrasse à professora na aula e pedisse a sua opinião. Teresa assim fez: além de mostrar o movimento (para o qual a professora imediatamente inventou uma série de variações que treinou com as alunas), contou-lhe o episódio humilhante das bolas ben-wa caídas no chão e pontapeadas. Em vez de a censurar, porém, a professora aprovou a tentativa, dizendo à turma que algumas das melhores dançarinas do ventre eram pompoaristas; mas que se alguma aluna quisesse tentar o que Teresa tinha tentado, o melhor era preparar-se para treinar muito tempo até conseguir.

[ … ]

Desde esse dia, Teresa começou a treinar todos os dias em frente ao espelho. Teve que reaprender tudo a partir das técnicas mais elementares, ao mesmo tempo que progredia sem as bolas nas técnicas mais avançadas. Já conseguia introduzir na vagina a primeira bola ben-wa, embora ainda tivesse que ajudar a segunda com o dedo, e a certa altura já era capaz de as segurar tempo suficiente para sair de casa por curtos períodos com elas postas.
Tudo isto, junto com a dor quase diária da depilação eléctrica, começou a fazer com que a consciência que Teresa tinha do seu corpo se começasse a centrar na sua zona genital.
– Às vezes quase sinto o desejo – confidenciou uma vez a Raul – de não ser para ti mais do que uma cona, um buraco ao teu dispor.
A estas palavras, Raul abraçou-a.
– É um desejo teu que não vou satisfazer muitas vezes, mas compreendo-te bem: também eu, por vezes, desejaria libertar-me desta carga de humanidade e não ser mais que um falo… Não é possível, felizmente, caso contrário seríamos puros vegetais; ou se nos restasse alguma consciência, a vida seria um inferno.
– Bem sei – respondeu Teresa. – Mas às vezes…
– Sim, às vezes… – respondeu Raul. – Mas o que não pode ou não deve ser realizado, pode muitas vezes ser representado: e tu agora vais dançar a tua coninha para mim.
E Teresa, rindo, fez precisamente o que ele mandava.

[ … ]

À noite, em casa, Teresa manteve o vestido branco para jantar com Raul e se sentar depois aos pés dele. Antes de se irem deitar, Raul perguntou-lhe:
– Vamos tentar ir hoje um bocadinho mais longe com o vibrador?
– Meu senhor querido, sou tua… Só te peço que me amarres como da outra vez, senão ainda passo pela vergonha de tentar fugir.
Diga-se em abono de Teresa que em momento algum daquela noite se debateu seriamente contra as cordas que a sujeitavam; mas várias vezes se lhe acendeu nos olhos a mesma luz de loucura que Raul tinha visto uns dias antes. Mas o vibrador entrou mais fundo; manteve-se ligado mais tempo; e o período de recuperação que se seguiu foi mais rápido e mais fácil. Terminado o exercício, Teresa serviu Raul mais uma vez com a boca: como se fosse intenção dele que nestas noites o vibrador fosse, para o sexo dela, a última memória.
Poucos dias depois, Raul quis ir mais longe.
– Preciso de te amarrar? – perguntou.
– Não, meu querido – respondeu-lhe Teresa. – Acho que desta vez não vai ser preciso.
Quase foi preciso, mas Raul nunca o soube. Raul penetrou Teresa várias vezes com o vibrador ligado, mas ela, embora se debatesse e desse abundantes sinais de aflição, não chegou àquela fronteira de quase loucura aonde tinha sido preciso ir buscá-la nas outras noites: não só se manteve neste mundo sem ajuda, como chegou a um grau de excitação sexual em que Raul raramente a tinha visto.
Assim que Raul pousou o vibrador, penetrou-a duma vez; e assim que a penetrou, ela explodiu num orgasmo grandioso, sem ter tempo sequer de pedir licença. Com Raul ainda rígido dentro dela, Teresa começou, assim que se sentiu capaz, a aplicar as técnicas de pompoar que já dominava; e ao senti-lo quase a gozar, gozou também, desta vez com autorização. Por muito tempo ficaram abraçados; mas depois de apagarem as luzes, depois de os corações pararem de bater com tanta força e os pulmões de respirar com tanto esforço, Teresa entendeu chegada a altura de confessar:
– Tive um orgasmo sem licença, meu senhor.
– Sim, minha escrava, tiveste – respondeu Raul.
– Mereço um castigo.
– Mereces, sim.
– Meu senhor querido, não quero ser castigada. Tenho medo.
– Quem te garante que o castigo vai ser severo? – disse Raul. Provavelmente já sofreste pior às minhas mãos, sem merecer. E desta vez mereces, não mereces?
– Sim, meu senhor, mereço – respondeu Teresa, num murmúrio. – Por isso é que vai ser pior que qualquer outro castigo. E vais castigar-me, não vais?
– Sim, vou. Amanhã, às seis da tarde, no quarto dos castigos. Seis vergastadas fortes. Avisa a Milena que a essa hora não estamos para ninguém.
– Sim, meu dono – disse Teresa.
Quis virar-se para o outro lado, para que Raul não se desse conta das lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Era o primeiro castigo premeditado que recebia: nunca tinha acontecido com Ettore, e muito menos, nos seus anos de puta, com os seus clientes, que iam e vinham e faziam o que lhes ocorresse no momento. Acabou por não virar as costas a Raul: ele saberia entender as suas lágrimas. Quando ele se voltou para a sua posição de dormir, Teresa abraçou-se a ele por trás e ficou a ouvir-lhe a respiração. O que sentiu ela antes de adormecer? Prazer, nenhum. Medo, certamente: um pouco. Tristeza, também, e melancolia. Esperança, porque lhe parecia que estava a ser conduzida pelo caminho certo. O que não sentia de todo era revolta.

[ … ]

– Traz-me um chá e uma torrada ao escritório – pediu.
Quando Teresa entrou com o chá, Raul agradeceu-lhe e disse-lhe que depois a chamava. Chamou-a às seis em ponto, para lhe ordenar que se despisse e que o esperasse no quarto dos castigos. Teresa, a tremer, obedeceu; e ele chegou logo a seguir, ordenando-lhe que se debruçasse com o rabo empinado sobre a banca do lado direito das colunas, onde já uma vez a tinha amarrado para a punir.
– Hoje não te vou amarrar – disse Raul. – São só seis vergastadas. Quero que as contes tu própria em voz alta: se não contares alguma, essa não vale. Por cada vez que abandones a posição recebes uma vergastada a mais. Está tudo claro?
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa.
Ouviu os passos de Raul, que se colocava por trás dela, e ouviu o silvo no ar quando ele tomou o peso à vergasta. Subitamente, um novo silvo, e uma dor insuportável. Gemeu, e depois de ter gemido começou a sentir que um estranho silêncio se erguia entre eles. De que estava Raul à espera?
– Escrava… – ouviu-o murmurar.
E subitamente lembrou-se: tinha que contar as vergastadas.
– Uma! – exclamou em voz alta, grata pelo tempo que lhe tinha sido concedido.
Nova vergastada:
– Duas!
A terceira foi a pior até ao momento; Teresa contorceu-se toda, mas não levantou os pés do chão. Contou, com a voz embargada:
– Três.
Era uma crueldade ou uma gentileza ele não a ter amarrado? Teresa não sabia. A quarta vergastada atingiu-a muito em cima, quase na cinta, mas a quinta acertou-lhe na prega entre as coxas e as nádegas, provocando-lhe uma dor atroz que a levou a deitar-se para o chão.
– Quatro! Cinco! – contou.
– Sim, cinco – disse Raul calmamente. Mas ganhaste mais uma porque saíste da posição. Volta para o teu lugar.
Teresa voltou para a banca do castigo.
– Seis! – gritou.
E pensar que com esta, tivesse ela tido um pouco mais de coragem, podia estar o castigo terminado! Com as pernas a tremer obrigou-se a ficar onde estava, de nádegas empinadas, aguardando a última vergastada, a pior, a menos necessária; e quando ela veio foi quase com alívio que rouquejou:
– Sete!
Sete, finalmente. Teresa endireitou-se dirigiu-se para o lavatório instalado num canto da sala, lavou a cara, secou-se, e virou-se para o espelho de corpo inteiro que ali tinha sido colocado, virando-se de maneira a poder ver as marcas que tinha nas nádegas. Eram de um vermelho rosado, apenas mais escuro nos sítios em que se cruzavam. Este tinha sido o pior de todos os castigos, não por ser o mias doloroso, porque tinha sido um castigo verdadeiro: a punição duma falta cometida. Olhou para Raul, que estava com a vergasta na mão, à espera. Claro, ainda faltava a conclusão. Teresa deu um passo para Raul, beijou-lhe a mão que segurava a vergasta, beijou a própria vergasta e disse as palavras rituais:
– Obrigada, meu senhor, pelo castigo que me deste.
Isto, em voz alta; mas a seguir, ainda de joelhos, enquanto ele se afastava para pendurar a vergasta, repetiu, numa voz tão baixa que ele não a chegou a ouvir:
– Obrigada, meu querido…

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