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VOTO DE CASTIDADE

Raul conhecia finalmente a história de Milena Cavic desde o dia em que tinha sido raptada, aos onze anos, em Pristina. Este conhecimento não lhe deu o prazer da curiosidade satisfeita, tal como a morte horrível de Zerberov não lhe tinha dado o prazer da justiça cumprida. O mundo estava apenas um milésimo de milímetro mais direito, era tudo. Sentia, como o espectador duma tragédia, piedade e terror. Teresa sentia o mesmo, mas transmutava-os numa solicitude prática de que Raul não seria capaz.

– Hoje não vais dormir a casa – disse Teresa. – Dormes aqui, no quarto de hóspedes.

– Claro – concordou Raul. – Vou ajudar a fazer a cama.

– Não – disse Teresa, peremptória. – A Milena ajuda-me.

Pelo tom de voz de Teresa, Raul reconheceu que esta decisão tinha sido tomada por uma daquelas razões femininas que os homens raramente compreendem mas se não forem estúpidos têm em conta.

– Está bem – respondeu. – Eu fico aqui um bocadinho a ler e a ouvir música.

– É melhor – disse Teresa. – Queres um whisky?

E antes que ele tivesse tempo de responder deitou-lhe um pouco de Laphroaig num copo e serviu-lho de joelhos, formalmente, como se não estivesse na sala mais ninguém além deles.

Quando as duas reapareceram, Raul notou não se tinham limitado a arrumar o quarto: Teresa tinha mudado de roupa e estava agora nos seus mais sumptuosos trajes de escrava; Milena estava vestida de modo semelhante, com roupa de Teresa, e cheirava a sabonete. Mas a transformação mais notória que Raul notou nela foi a expressão do rosto e do corpo: não vinha alegre nem animada, longe disso, mas já não tinha aquela palidez nos cantos da boca que exprime medo ou tensão extrema. Olhando para aqueles olhos enormes, para o rosto de boneca, para o corpo esguio, Raul assombrou-se de novo: como podia alguém aparentemente tão frágil sobreviver àquilo a que ela tinha sobrevivido?

Quando Teresa se sentou no chão aos pés dele, Milena pareceu não ver nisso nada de estranho e imitou-a.

– Pronto, meu senhor, aqui estamos – disse Teresa. – O que é que vamos fazer?

Raul nem por um momento tomou à letra esta pergunta. As decisões mais importantes já tinham sido tomadas, de certeza, durante as arrumações e as trocas de roupa, e o que agora se esperava dele era que lhes apusesse a chancela simbólica da sua autoridade masculina.

– Milena – começou. – Primeiro quero dizer-te que podes ficar nesta casa os dias que entenderes. Não tens que decidir nada já sobre a tua vida…

Non voglio mai tornare a Servia – interrompeu-o a jovem. – Os meus pais já não me conhecem. Eu já não os conheço. Deixaram-me com Zerberov. Mio fratello è morto.

– Não queres ficar aqui no Porto? Tens uma casa para viver, tens amigos para te ajudar. Tens trabalho? Se não tens, podemos ajudar-te a procurar. Também te podemos ajudar com dinheiro, se precisares.

– Serei sua schiava, como Teresa?

Pelo sobressalto de Teresa ao ouvir esta pergunta, Raul percebeu que afinal nem tudo tinha sido combinado com antecedência pelas duas mulheres.

– Não, não serás minha escrava – respondeu. – Nunca mais serás escrava de ninguém, se não quiseres. Entendeste? Nunca mais. Mai più.

Milena acenou que sim. Sim, entendia. Era o que Teresa lhe tinha dito, mas custava-lhe a acreditar que algum homem a quisesse ajudar em troca de nada. Tinha um lugar para viver, mas não queria voltar lá sozinha. Não sabia se tinha dinheiro: Zerberov tinha-lhe tirado o cartão do banco quando a tinha deixado em casa do Comendador. Zerberov tinha dinheiro numa gaveta, muito dinheiro, mas a polícia tinha levado tudo quando revistara a casa. Não sabia se ia conseguir arranjar mais trabalho como pianista, era sempre Zerberov quem fazia os contratos. Mas estava disposta a trabalhar fosse no que fosse, só como putana é que não. Mai più. Schiava, sim, se o senhor quisesse, mas só dele; e ficava contente por o senhor não querer.

[…]

− Tinha pensado em passarmos pelo supermercado para fazermos umas compras para o teu apartamento – disse Raul. – Mas é tarde e estamos todos cansados. Porque não dormes outra vez em nossa casa?

Milena já devia ter discutido o assunto com Teresa, porque acedeu rapidamente. Em casa, Teresa pôs a touca e o avental e fez um jantar rápido, ajudada por uma Milena que depressa revelou não fazer a menor ideia de como se havia de mover numa cozinha, mas que compensava a falta de jeito com uma tocante boa vontade. Depois de jantar, Milena pediu licença e retirou-se para o quarto, alegando cansaço.

− Posso ir com ela, meu senhor?

Era óbvio que queriam conversar as duas sem a presença dele.

− Vai, disse Raul. – Eu fico aqui a ler.

A conversa durou seguramente mais do que uma hora. Por fim Teresa regressou à sala e sentou-se aos pés de Raul.

− Tenho uma solução completamente louca para a situação da Milena – anunciou. – Porque é que ela não há-de ser a nossa empregada doméstica?

− Porque seria uma completa loucura – disse Raul. – Porque duas mulheres numa casa com um homem complicam sempre as coisas, introduzem uma tensão sexual difícil de gerir. Porque eu só quero ter uma escrava. Porque duvido que ela saiba fazer seja o que for numa casa. Dito isto, estou disposto a ouvir-te.

− Então vou começar por uma coisa que ela me disse e que eu nunca acreditaria se me tivesse sido dita por outra mulher. Diz ela que até ser velhinha e morrer (foi assim que ela pôs as coisas), nunca mais vai ter relações sexuais com um homem. Nem com um homem, nem com uma mulher, nem com ela própria. Será como se não tivesse órgãos genitais. Fiquei tão espantada que lhe disse, a brincar, que então o melhor era ir a um país africano onde lhe fizessem uma excisão total do clítoris e dos pequenos lábios, e lhe infibulassem a vagina. E foi nesta altura que me assustei a sério com ela: disse-me que não era preciso, que já tinha feito isso tudo aqui, apontando para a cabeça, e aqui, apontando para o coração. Uma miúda de vinte anos a dizer-me isto, e eu acreditei. Podes dizer-me porque é que eu acreditei?

Raul não respondeu imediatamente. Em que pensamentos se estaria a perder? Por fim, como se falasse para si mesmo, disse:

− Há sempre quem faça as coisas mais improváveis…

Teresa chamou-o à terra:

− Sim, mas geralmente só acreditamos nessas coisas depois de feitas.

− Vou-te contar uma coisa sobre o país de Milena. A população de origem albanesa, especialmente nas zonas rurais, não se rege pelas leis do Estado, mas sim por um código elaborado no século XV pelo príncipe Lekë Dukagjini…

− Como tu te consegues lembrar dum nome desses…

− Acredita, não é possível viver muito tempo no Kosovo e tentar fazer cumprir as leis sem ficar com este nome na memória. De qualquer modo, este código chama-se o kanun, e estabelece, entre muitas outras coisas, que, numa família onde não haja homens adultos, uma mulher se pode transformar em homem. Para isso precisa de fazer uma jura de abstenção sexual para toda a vida. Com isto adquire todos os privilégios de um homem: governar a família, andar armada, viajar sozinha, entrar nos cafés…

− Coisa estranha…

− Há coisas mais estranhas no mundo. Ora acontece que a Milena não é, nem de origem rural, nem albanesa, mas sim sérvia e urbana, e portanto em princípio nada disto se lhe devia aplicar. Se tem algum conhecimento do kanun, o mais provável é que seja uma ideia muito vaga, e que nem se dê conta que o voto de castidade que fez se possa inspirar nele… mas por outro lado andou com os albaneses muito tempo, e estes costumes nunca são completamente estanques. Tu dizes que acreditas nela, e eu penso: porque não hei-de acreditar também? O que não entendo é o que isso tem a ver com ela ser nossa empregada. Ou antes, entendo, talvez resolvesse o problema da tensão sexual aqui em casa, mas diz-me: qual de vocês duas foi a da ideia?

− Foi ela.

− E em que condições?

− Isso decides tu. A Milena só pediu que lhe deixássemos tempo para continuar a tocar nos bares… e fez questão de deixar claro que o tal voto de castidade só se aplica a ela própria, que tudo o que visse acontecer entre nós seria como se não tivesse visto nem ouvido.

− E tu, gostavas?

− Gostava, meu senhor.

− Então, se ela ainda estiver a pé, chama-a cá.

Milena apareceu, ainda de jeans e blusa, como tinha andado todo o dia desde que tinha trocado de roupa em casa.

− A Teresa disse-me que te tinhas oferecido para nossa empregada. Porque é que queres ser nossa empregada?

− Preciso de ganhar dinheiro para viver, senhor. O que ganho a tocar piano não chega.

− Então vai ser assim: vais cozinhar, servir à mesa, lavar, limpar, arrumar e mais tudo o que eu ou a Teresa dissermos. Vais usar uma farda de criada, como a Teresa, mas nas horas de serviço também é para usar fora de casa. Em casa andas sempre descalça, na rua usas sapatos brancos sem salto. Não bates às portas, nem à do meu escritório: nada do que esteja lá a acontecer é da tua conta.

− Sim, senhor. Se o senhor ou a Teresa estiverem sem roupa…

− Se eu ou a Teresa estivermos nus, ou se estivermos a fazer amor, ou se eu estiver a castigá-la, entras na mesma e fazes o que tiveres a fazer. Só tens que ter o cuidado de não nos distrair. Esta é a minha casa, a Teresa é a minha escrava, e quero estar tão à vontade contigo cá dentro como estaria sem ti. Entendeste tudo o que eu te disse?

− Sim, senhor. Lei vuole che io sia come um gatto, que entre, que saia, e que por minha causa as pessoas não parem de fazer o que faziam. Sì, lo farò, non è difficile per me.

– Em teoria, o teu horário é 24 horas por dia, sete dias por semana. Na prática, não terás um horário apertado. Serás dispensada à noite quando precisares. Quando estiveres cansada, podes levantar-te tarde. Terás oito dias livres por mês, ou dez, ou até quinze, não faço muita questão, mas será quando mos pedires e eu tos der. Também terás férias todos os anos, ou várias vezes por ano, conforme mas pedires e eu tas der. Se achares que não te estou a dar tempo livre que chegue, voltamos a falar. Quero que leias todos os dias pelo menos vinte páginas em português: tens livros e dicionários no meu escritório. Tens muitas coisas tuas no teu apartamento?

– Não, signore, só a minha roupa, a roupa de cama e algumas coisas pequenas. Ah, e também os meus discos compactos e a aparelhagem, e alguns livros.

– Se a Teresa e tu esvaziarem o roupeiro do teu quarto, terás onde pôr todas as tuas coisas?

Si, signore.

– Muito bem. Amanhã de manhã, tu e a Teresa vão comprar as tuas fardas e os teus sapatos. Depois vão ao teu apartamento buscar as tuas coisas. Não é preciso trazerem tudo, o arrendamento só vence no fim do mês. A seguir começam a arrumar tudo aqui em casa para poderes cá ficar.

– Sim, senhor – disse Milena.

– Sim, meu senhor – disse Teresa.

– As refeições serão servidas por ti e pela Teresa, quando eu comer sozinho, ou só por ti, quando eu comer com ela. O teu horário começa de manhã às oito, mas como a Teresa gosta de ser ela a servir-me o pequeno-almoço, a maior parte das vezes poderás ficar até mais tarde na cama. À noite, a cozinha tem que ficar arrumada, ou pela Teresa e por ti, ou só por ti. A limpeza e arrumação do quarto dos castigos é da responsabilidade da Teresa, mas tu também podes ajudar. Os recados, a cozinha, o tratamento da roupa e a limpeza do resto da casa são coisas da tua responsabilidade, embora a Teresa te possa orientar e ajudar. De acordo?

– Sim, senhor.

– Ganharás quinhentos euros por mês, mais alojamento, mais comida. Comerás o mesmo que nós, na quantidade que quiseres. Com este dinheiro, podes manter o teu apartamento, mas não to aconselho: não precisas dele para nada. Finalmente: como vais ser aqui empregada doméstica, ou seja, uma pessoa livre, e a Teresa é minha escrava, poderás talvez imaginar que vais estar acima dela…

– Oh, não, signore!

– Ainda bem. Para mim, a Teresa pode ser menos do que a poeira debaixo dos meus pés, mas para ti ela é a minha mulher, a mulher que eu amo, e deves obedecer-lhe como se fosse a mim.

Si, signore!

– Então estamos entendidos. Tens alguma pergunta a fazer-me?

– Não, signore. Ma posso dire una cosa?

– Diz lá.

A me, mi sembra che il vostro amore è bello. Molto, molto bello.

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Tomaram duche juntos, e a seguir devoraram um enorme pequeno-almoço, suficiente para os manter saciados até à hora de jantar. Era tempo de retomar a vida normal; mas antes de ir despir o roupão para pôr o seu uniforme de criada, Teresa ainda disse:
− Meu senhor, sabes qual é a primeira coisa que se deve fazer quando se cai do cavalo?
− Montar de novo – respondeu Raul. – Para não dar tempo a que o medo se instale.
− Então leva-me esta noite ao Justine. Se não entrar esta noite num bar, acho que nunca mais conseguirei entrar em nenhum sem morrer de medo.
Raul deixou-se ficar sentado à mesa, pensando nestas palavras de Teresa. Se alguém tinha razão para ter medo de entrar num bar ou numa discoteca, era ela. Estranha coincidência: uma pessoa que fazia pouca vida nocturna estar duas vezes na vida em dois bares com o mesmo nome, alguém lhes deitar fogo, e de ambas as vezes ser salva in extremis pelo homem que amava. Raul não era supersticioso, mas decidiu que, enquanto ele mandasse, Teresa nunca mais entraria em bar, discoteca, hotel, restaurante ou café que tivesse por nome Lua Vermelha, fosse em que língua fosse. Quanto a essa noite no Justine, decidiu fazer dela uma ocasião especial: telefonou à Baronesa, contou-lhe por alto o que tinha acontecido na noite anterior, disse que queria proporcionar a Teresa uma noite memorável e pediu-lhe que contactasse alguns frequentadores habituais para a receberem de maneira a fazê-la esquecer. Não, não era uma festa, não queria que preparassem nada de especial, apenas que pusessem Teresa um pouco no centro das atenções. Podia ser?
Quando Teresa reapareceu, Raul disse-lhe:
– Hoje vamos jantar fora, no Majestic, e depois vamos passar o resto do serão no Justine. Para o Justine quero que vás de preto, por respeito aos nossos amigos, mas toda às transparências. Quero que mostres bem os seios…
– Sim, meu senhor – disse Teresa, corando um pouco.
– E descalça, obviamente. Não quero que leves bijutarias, só jóias verdadeiras: rubis, muitos rubis, para que o vermelho contraste com o preto da roupa. Tens rubis que possas pôr nos pés?
– Tenho fios de ouro e anéis para pôr nos dedos dos pés. Com um pendente de rubis que tenho guardado, acho que posso improvisar qualquer coisa… Mas não tenho maneira de fazer o mesmo nos dois pés.
– Muito bem, adornas só o pé esquerdo e deixas o direito completamente nu. As jóias, só as pões antes de entrarmos no Justine. Para o Majestic levas aqueles teus sapatos rasos dourados e um casaquinho que te cubra os seios. Depois, no carro, tiras o casaquinho e os sapatos, e pões as jóias. Quero que fiques linda…
– Estou a pensar nas roupas pretas que tenho. Não faz mal se eu for um bocadinho gótica?
– Não, acho que até vai condizer bem com o ambiente. Mas não te quero gótica na cara nem nas unhas.
– Está bem, meu senhor. Outra coisa: tenho um coletinho de cabedal vermelho que me deixa os seios à mostra. Se o pusesse por cima duma blusa preta transparente…
– Não ficava mal – disse Raul. – Mas o que vais pôr durante o jantar?
– Estava a pensar num casaquinho vermelho com lapelas, que me ia cobrir os seios e o colete… Mas nesse caso, em vez dos sapatos dourados ficavam melhor uns vermelhos… Tenho uns que também são rasos.
– Não, se forem vermelhos, antes quero que sejam de salto alto. Fazem mais o estilo galdéria. Tens alguns?
Teresa riu-se:
– Meu senhor, é o que eu tenho mais. E se me queres galdéria, vais-me ter galdéria.
– Pronto, então está tudo combinado quanto às roupas. Eu vou de jeans pretas e T-shirt: quero que sejas tu a brilhar e não eu. E levo os meus mocassins pretos, sem meias. Só não te esqueças que no Justine eu me chamo Marco Aurélio, e tu selma.
No Justine foram recebidos por Igor, que cumprimentou Raul com um forte aperto de mão. Quando Teresa dobrou os joelhos ligeiramente, fazendo a vénia que Raul lhe tinha ensinado, Igor surpreendeu-a tomando-lhe a mão e beijando-a: não nas costas, evidentemente, mas na palma, como se faz a uma escrava. A Baronesa saudou Raul e aceitou a vénia de Teresa com um sorriso e um beijo.
A sala tinha sido modificada: num dos cantos tinham sido retirados os assentos e as mesas e colocados tapetes.
– É para as submissas se reunirem e conversarem – explicou a Baronesa. – Há algumas que não têm permissão de se sentarem em cadeiras.
– E o teu submisso? – perguntou-lhe Raul.
– Ora, Marco Aurélio – respondeu-lhe a Baronesa. – O meu, nem no chão se senta. Fica de pé, que tem aqui muito que fazer. Os outros, é com as Senhoras deles. Queres ficar nesta mesa? A sua escrava senta-se no chão, se bem me lembro.
Raul sentou-se no lugar que a Baronesa lhe indicara e Teresa ajoelhou-se aos pés dele.
– Tomam alguma coisa? – perguntou a Baronesa.
– Para a selma – disse Raul – uma água sem gás. Para mim, uma água tónica. Mas não nos sirva à mesa, nem mande ninguém servir-nos, que eu hoje só quero ser servido pela selma. Quando tiver as coisas prontas no balcão, faça sinal para ela as ir buscar.
– Isso é que é uma paixão – disse a Baronesa, e afastou-se, rindo, para trás do balcão.
Raul olhou à roda da sala. Lá estava a bondarina, com os seus enormes olhos verdes, aos pés de um homem que Raul não conhecia: devia ser o dono dela, o Mestre De Aviz. Ambos o cumprimentaram com um aceno de cabeça e um gesto a indicar que falariam mais tarde. Também a kathy lhes acenou e lhes sorriu. Quando a Baronesa fez sinal do balcão que as bebidas deles estavam prontas, Teresa pôs-se de pé, corando, dirigiu-se para o bar, tirou do tabuleiro a sua água e o seu copo e voltou para junto de Raul com a bebida dele. Ajoelhou-se, pôs o tabuleiro sobre a mesa, encheu-se de coragem e inclinou-se para lhe beijar os pés, um de cada vez. Só há poucos minutos tinha sido informada que este ritual era a razão de o seu dono vir sem meias. Também ela preferia assim: tirou parcialmente um sapato do pé de Raul para lhe beijar a pele nua, voltou a calçá-lo e repetiu a operação com o outro. Depois voltou a levantar-se, foi buscar a sua própria bebida – desta vez sem tabuleiro – e sentou-se aos pés do dono.
– Bonito – ouviu-se alguém dizer na sala.
A música ambiente parecia ter sido escolhida para ilustrar a relação entre Raul e Teresa: Enya, Lorena McKennit, Sarah Brightman, Leonard Cohen.
Passado tempo suficiente para que Raul começasse a saborear a sua bebida, aproximou-se deles, com bondarina um pouco atrás, o homem bem parecido que tinham visto na companhia dela. Tinha o cabelo muito curto, um casaco de corte clássico em cabedal preto, e não apresentava quaisquer insígnias além de um discreto emblema circular com três semicircunferências a irradiar de um centro. Raul levantou-se para o cumprimentar e Teresa ajustou a posição em que estava para ficar de joelhos.
– Boa noite – disse o homem, dirigindo-se apenas a Raul. – O nome por que sou conhecido aqui é Mestre De Aviz. Creio que já conhece a bondarina: ela pediu-me autorização para falar consigo.
– Passou bem? – disse Raul, apertando-lhe a mão. – Claro que já o conhecia de nome, e tenho muito gosto em conhecê-lo agora pessoalmente. O meu nome aqui é Marco Aurélio. Sente-se, por favor. Esta é a minha escrava selma. Selma, beija a mão do senhor.
Teresa abriu muito os olhos, espantada, mas obedeceu prontamente. Mestre De Aviz sentou-se, enquanto bondarina se lhe ajoelhava aos pés. Raul, que nunca se tinha encontrado com bondarina a não ser de igual para igual, apercebeu-se da perturbação dela quando Mestre De Aviz lhe fez sinal para que o cumprimentasse como Teresa o tinha sido cumprimentado a ele. Pegou na mão de Raul e beijou-lha, de maneira a não deixar ficar mal o dono. Bondarina estava com um vestido vermelho muito curto, de seda ou cetim, meio roto na bainha. Trazia ao pescoço uma coleira de couro gravado, muito bonita, fechada com um cadeado de aço. Estava descalça, como Teresa, o que era perfeitamente compatível com o estilo de submissão estabelecido entre ela e Mestre De Aviz: estavam a tentar uma adaptação do estilo Goreano. Kathy aproximou-se e ficou de pé junto à mesa, hesitante, sem saber se devia sentar-se no chão, como as outras submissas, ou se, por não estar na companhia do dono, deveria sentar-se numa das poltronas, como os dominantes. Bondarina, apercebendo-se desta hesitação, bateu levemente com a palma da mão no chão junto de si, convidando kathy a sentar-se.
A conversa incidiu sobre o que tinha acontecido no Red Moon. Todos sabiam do que tinha acontecido pelos jornais ou pela televisão, mas só depois de falarem com a Baronesa é que tinham ficado a saber que “Marco Aurélio” e “selma” tinham estado envolvidos. Sabiam que tinha sido encontrado nos destroços o cadáver de um homem carbonizado, mas nem Raul, nem Teresa revelaram a identidade desse homem. Teresa contou apenas que tinha sido raptada por um desconhecido que a tinha levado para o Red Moon sem ela saber para quê. Ninguém se lembrou de perguntar como é que Raul tinha sabido onde havia de a procurar; ou se alguém se lembrou, teve a discrição de não o fazer.
Teresa e bondarina ficaram com a tarefa de servir as bebidas, a primeira beijando os pés de Raul sempre que as trazia, a segunda beijando, ao estilo Goreano, o copo que apresentava a Mestre De Aviz. Kathy, sentindo-se na obrigação de as ajudar, acabou por também servir de joelhos os dois homens, inquieta por não saber se isto representava ou não uma traição ao seu próprio dono.
− Não te preocupes – disse-lhe a Baronesa. – Traição era comportares-te como se estivesses acima da bondarina ou da selma. Isso é que deixaria ficar mal o teu dono. Logo eu falo com ele e explico-lhe.
Raul desviou a conversa para outros assuntos: quando ia sair o número seguinte da Dominium, que festas se preparavam, quem tinha encontrado um novo dono ou dona, ou um novo escravo ou escrava. E assim se passou uma noite no Justine, diferente das outras porque todos se lembraram que, para lá do seu mundo consensual, existia outro, violento e cruel, a que ninguém estava imune.
Raul e Mestre De Aviz tinham os carros estacionados perto um do outro. Saíram ao mesmo tempo e foram pela rua a conversar, seguidos por Teresa e bondarina, ambas descalças. Pelo modo de andar de bondarina, via-se que ainda não estava habituada, mas Teresa caminhava como se toda a vida o tivesse feito – o que era verdade pelo menos um mês por ano.
Em casa, quando Raul penetrou Teresa, ela pediu-lhe que ficasse parado um momento dentro dela:
− Quero mostrar-te uma coisa…
Raul sentiu que o sexo dela se contraía e alargava; mas desta vez o movimento não envolvia a vagina como um todo: começava na entrada, apertando-lhe a base do pénis, continuava na secção média, acabava no fundo, onde lhe apertava a glande com força, e recomeçava tudo uma vez após outra.
− Que bom, minha escrava! – disse Raul.
− Ainda não aguento fazer isto muito tempo – respondeu Teresa. − Mas a minha professora de pompoar diz que quando estiver treinada serei capaz de continuar durante horas.
− Pois hoje continua até não poderes mesmo mais. E não te venhas.
− Sim, meu senhor – disse Teresa, contente. E concentrou-se com todas as suas forças em dar prazer ao seu dono.

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(Início do Capítulo 16)

Dias mais tarde, andando Teresa a arrumar o apartamento, decidiu esvaziar completamente um armário embutido que não tinha arrumado antes e que, estando no escritório, se prestava a que lhe substituíssem as portas por umas de vidro, obtendo assim um espaço que se podia estantear para guardar livros. Encontrou a parte de cima cheia de malas velhas que era preciso deitar fora; e abrindo uma destas deu com um chicote preto, de couro, dos que doem mais. Há quantos anos estaria aquilo ali? O couro estava baço e manchado, mas ainda flexível; e Teresa decidiu que na primeira oportunidade havia de o limpar e restaurar, porque era um lindo objecto, muito decorativo, que ficaria bem na parede do quarto dos castigos.

De noite mostrou-o a Raul, que ficou espantado:

− Eh, pá! Onde foste desencantar isso? Nem me lembrava que ele existisse. É de quando? Do meu tempo de solteiro, seguramente.

− A Isabel alguma vez levou com ele?

− A Isabel? Parece-me que nem nunca o viu. E por falar nela: tem-te telefonado?

− Tem, e eu marco sempre encontros, e falto sempre. Mas deixa lá a Isabel e olha para isto: não é um lindo objecto? Quando eu o limpar e restaurar, vai ficar perfeito.

Passaram mais uns dias. Teresa tinha planeado uma viagem com Carolina a Milão. Na véspera, serviu o jantar a Raul, vestida com o seu uniforme de criada em xadrez cor-de-rosa e branco. Depois de arrumar a cozinha, e quando se preparava para ir mudar de roupa, ele deteve-a:

− Hoje não, meu tesouro. Não te vás vestir. Hoje quero que te ponhas toda nua e me esperes no quarto dos castigos.

Teresa empalideceu. Sem dizer uma palavra, voltou-lhe as costas, foi para o quarto, despiu-se completamente, e foi esperar por Raul no quarto dos castigos: de pé, braços caídos, olhos baixos, sem ousar tocar em nada. Quando Raul chegou, disse-lhe em voz sumida:

− Meu senhor, desculpa, ainda não limpei o teu chicote preto…

− Não faz mal, minha pequenina – respondeu Raul. − Não é esse que estou a pensar usar. Dá-me a mão.

Teresa ergueu a mão direita e Raul atou-lhe o pulso com uma corda de seda negra, dando várias voltas e deixando livre uma ponta com mais de meio metro.

− A outra – disse Raul.

Com a mesma docilidade, e em silêncio, Teresa deixou amarrar o pulso esquerdo. Quando ele a conduziu, puxando-a pelas cordas, à banca abaulada que estava à direita das colunas, debruçou-se sobre ela sem que ele lho ordenasse e ficou com o rabo empinado enquanto ele lhe prendia os pulsos a uma argola perto do chão. Teresa sentia os seios esborrachados contra a superfície de couro, mas tinha a cabeça livre, podendo erguê-la para olhar em frente ou baixá-la para ver os pulsos amarrados à argola, que rebrilhava, limpa por ela própria nessa mesma manhã. Depois sentiu Raul atrás dela, prendendo-lhe os tornozelos, e de lado, passando-lhe à volta da cintura uma correia de couro que depois fixou com cordas a outras argolas de modo a que ela não se pudesse mover para os lados. Depois de a imobilizar completamente, saiu do quarto. Teresa ouviu música vinda de outra parte da casa, não sabia de onde, tocada tão alto que mesmo ali ela a reconheceu: era a Salomé, de Richard Strauss. Não soube quanto tempo ficou à espera: pelo menos tanto quanto durou a abertura da ópera, e o suficiente para ouvir a soprano que uivava por “Jokanaan, Jokanaan”. Quando Raul regressou e fechou a porta atrás de si, a música deixou de se ouvir. Também não ouvirão os meus gritos, pensou. Depois viu-o diante dela, trazendo na mão uma vergasta, que lhe mostrou; era uma vergasta flexível, forrada de seda vermelha e com cabo de cabedal preto.

− Beija a vergasta – disse Raul, chegando-lha aos lábios.

Teresa beijou a vergasta e ergueu os olhos para Raul, numa interrogação muda. Ele acenou com a cabeça, como se estivesse a responder “sim” a uma pergunta que ela tivesse feito, e colocou-se por trás dela. Teresa esperou pela primeira vergastada, dividida entre o desejo de que ela nunca viesse e o de que viesse já, para terminar tudo mais depressa. Ouviu um silvo, contraiu os músculos todos do corpo, mas o golpe não chegou: Raul estava ainda a experimentar a flexibilidade do instrumento. Mas o segundo silvo culminou numa dor intolerável, numa queimadura que lhe atravessou as nádegas dum lado ao outro. Os olhos rebentaram-lhe em lágrimas logo ao primeiro golpe, a garganta em gritos a partir do terceiro ou quarto; mas nem lágrimas, nem gritos detiveram Raul, e o tormento prolongou-se pela sua já conhecida eternidade. Por fim tudo terminou; Teresa distendeu os músculos, encheu o peito de ar – só para sofrer a mais cruel desilusão quando as vergastadas recomeçaram, desta vez vindas da sua direita. Raul tinha mudado a chibata de uma mão para a outra, era tudo.

Só acreditou que tudo tinha terminado de verdade quando viu Raul à sua frente, pondo-lhe a vergasta ao alcance dos lábios:

− Beija a vergasta, escrava.

Teresa beijou-a.

− Agradece o castigo.

Teresa agradeceu, entre lágrimas:

− Obrigada, meu senhor.

− Diz que me amas.

− Amo-te, meu senhor. Amo-te…

E era verdade. Amava-o com toda a amplitude de um coração que ainda lhe parecia estar a rebentar do castigo.

− Amo-te… − repetiu.

Agora que já não estava perdida na dor e recomeçava a ter a noção das coisas, dava-se conta que já tinha recebido castigos bem mais dolorosos do que aquele, e que havia, sem dúvida, de os receber no futuro. Raul tinha escolhido, da panóplia de instrumentos que ela própria lhe enviara, um dos que doíam menos. Mas durante o castigo não se tinha apercebido desta diferença, e tinha gritado tanto como gritaria se ele tivesse sido mais severo. Em frente dos olhos tinha a braguilha das calças dele. Viu-o desapertar o cinto, abrir os botões das calças e das cuecas, tirar o sexo para fora, e sentiu-o encostar-lhe a ponta aos lábios.

− Abre.

Abriu a boca. Pouco tempo depois de ele a penetrar, deu por si a fazer-lhe as carícias e a repetir os movimentos que ele lhe ensinara: como era isto possível? Mas fez as carícias, repetiu os movimentos, usou a língua, e durante este tempo sentiu uma espécie de orgulho, como se o impensável que ele ousava fosse também uma ousadia dela, um teste, uma prova iniciática que a elevava acima de todas as mulheres. Durante o tempo todo não fechou os olhos: fechou-os só quando ele ejaculou, talvez para se perder no momento, talvez para fechar os sentidos a tudo o que não fosse o esperma que lhe enchia a boca e lhe descia pela garganta.

Por fim deixou pender a cabeça, relaxou o corpo todo, deixou-se cair, enquanto ele metodicamente a desamarrava. Já liberta, não saiu do sítio: foi preciso que ele lhe pegasse na mão, a ajudasse a levantar, a conduzisse para o quarto e para a cama que partilhariam nessa noite, como sempre. No percurso ainda inclinou a cabeça sobre o ombro dele e murmurou que o amava, mas em voz tão baixa que ele não a ouviu.

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(Fim do Capítulo 15)

− Está pronto, meu senhor. Podes vir sentar-te.

Quando Raul se aproximou da mesa, Teresa puxou a cadeira para ele se sentar, deitou-lhe água no copo e começou a servir-lhe o jantar: de entrada duas metades de abacate recheadas com camarões e molho tártaro, acompanhadas por um Alvarinho que ela lhe verteu no copo com um gesto gracioso; a seguir uma simples jardineira de carne, cogumelos variados e legumes, como ele gostava, acompanhada de arroz à grega e regada pelo vinho tinto do Douro que se encontrava à espera, aberto, havia quase uma hora; e por fim, à laia de sobremesa, profiteroles acompanhadas de espumante.

− Queres um whisky? Um charuto?

− Não – respondeu Raul. − Quero-te rapidamente ao pé de mim.

Ao mesmo tempo que servia o jantar, Teresa tinha começado a arrumar a cozinha e a pôr em detergente a louça que não podia ser lavada na máquina. Rapidamente terminou as tarefas que restavam e foi-se arranjar para o serão com Raul, no que demorou mais do que o habitual. Quando regressou, no esplendor das suas vestes de escrava, acendeu todas as luzes da sala, o que o surpreendeu um pouco mas não lhe suscitou qualquer comentário. Enquanto ela dava os dois passos que iam da porta até ao sofá, Raul viu de relance, entre os adornos que lhe cobriam o corpo, qualquer coisa de novo; mas antes que firmasse a vista no que era, já ela estava ajoelhada à sua frente, beijando-lhe as mãos. Raul aceitou esta homenagem durante um breve instante antes de ordenar:

− Põe-te de pé, minha escrava. Quero ver-te bem.

E foi quando Teresa obedeceu a esta ordem que ele compreendeu porque ela se tinha apressado tanto em ajoelhar: tinha posto um piercing no umbigo, que, embora obedecesse exactamente às instruções dele, era com efeito uma surpresa. Num círculo de ouro rosa estavam embutidas em ouro amarelo as iniciais dele, RM, circundadas por uma simples elipse. O ouro rosa do fundo e o ouro amarelo do símbolo não contrastavam o suficiente para que o piercing pudesse ser lido a uma luz mais fraca: por isso tinha ela acendido todas as luzes.

− Gostas? – perguntou Teresa.

− Gosto muito. Até do tipo de letra, que tem alguma coisa de simples e ao mesmo tempo de antiquado, muito ao estilo do Século XIX. Sabes o que esse tipo de letra, inscrito numa elipse, me faz lembrar? As marcas que se viam no gado nos filmes de cowboys. Maluquice minha: é de ter visto muitos quando era miúdo.

− Então – disse Teresa, ao mesmo tempo que se voltava a ajoelhar – se eu sou a tua rês, é preciso saber se sou boa ou má.

− Isso – respondeu Raul – é uma coisa de que vamos precisar de muito tempo para descobrir. Anda cá.

E puxou-a para cima pelos braços, para lhe beijar a boca e acariciar o corpo. Ao fim de uns minutos, deu-lhe uma leve palmada no rabo e ordenou-lhe que fosse buscar outra vez o espumante.

− Desta vez traz duas taças – determinou.

Quando Teresa regressou com o tabuleiro, viu que Raul tinha arrastado uma mesa baixa para junto do sofá. Pousou o tabuleiro e sentou-se no chão enquanto ele enchia as duas flûtes.

− À minha escrava − saudou Raul.

− Ao meu dono e senhor – respondeu Teresa.

Sem tirar os olhos dos dela, Raul esvaziou de um só trago a sua taça e arremessou-a para um canto da sala, onde se desfez em cacos com um tilintar festivo. Teresa, risonha e um pouco surpreendida, imitou-o sem hesitar, para logo a seguir trepar para o sofá e se agarrar a ele aos beijos. Bastante mais tarde foi apanhar os cacos, enquanto ele se preparava no quarto de banho para ir para a cama. Com todos os cuidados, para não ferir os pés nus nos estilhaços de cristal, varreu tudo para um apanhador, que vazou no caixote do lixo. Ao fazer este trabalho, notou que uma das pedras do chão tinha ficado ligeiramente lascada; e esta marca indelével, que a presença dela tinha gravado em casa dele, encheu-a de um prazer obscuro.

Depois ele levou-a para o quarto, onde não parou de a acariciar e beijar enquanto ela se livrava da saia e de todos os adornos; e quando destes só restou o piercing, derrubou-a sobre a cama, lançando-se vigorosamente sobre ela, que o acolheu com um gritinho de fingido susto.

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Tua escrava. Tua cadela. Tua criada. Tua puta. Quantas de vocês, submissas, já disseram isto! E quantos de vocês, dominantes, já ouviram isto!

A escrava diz “escrava” para dizer “sou tua”, e o senhor diz “escrava para dizer “és minha”. A escrava diz “cadela” porque encontra nesta palavra a metáfora duma fidelidade absoluta que não pede nada em troca, e o senhor diz “cadela” porque vê na escrava um ser perfeitamente incapaz duma traição. A escrava diz “criada” porque sente prazer em servir, e o senhor diz “criada” porque o seu prazer em ser servido é maior do que a sua conveniência.

(Não é pela vantagem de encontrar as camisas passadas a ferro que o senhor gosta de ver a escrava passar-lhas; podia passá-las ele próprio, ou pagar a uma empregada; mas a delícia de ver a escrava fazê-lo enquanto o dono se finge desatento… e ela a saber muito bem que ele está só a fingir…)

E quando diz “tua puta” a escrava está a pedir ao senhor que tire prazer do seu corpo.

Tão nobre é a escrava, como a cadela, como a criada, como a puta. Duas destas palavras, é certo, podem ser usadas como insultos; mas não entre um senhor e uma escrava que se amam. Entre estes são palavras de amor.

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Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas […].

Camilo Pessanha

[…] J’eusse aimé vivre auprès d’une jeune géante[…];
Parcourir à loisir ses magnifiques formes;

Ramper sur le versant de ses genoux énormes,

Et parfois en été, quand les soleils malsains,

Lasse, la font s’étendre à travers la campagne,

Dormir nonchalamment à l’ombre de ses seins,

Comme un hameau paisible au pied d’une montagne.

Baudelaire

Circe surgiu no apartamento de Mariana em resposta a um anúncio: “Artista (f) procura modelo feminino. Não precisa de ser magra nem jovem. Deverá ser capaz de posar nua, em posições incómodas e por períodos prolongados. Belezas menos convencionais serão especialmente bem-vindas.”

O anúncio, em francês e holandês, apareceu durante três dias no jornal de maior circulação de Brugges; e um igual esteve afixado durante uma semana no supermercado onde Mariana fazia as suas compras. Mas durante muito tempo as respostas que houve vieram de mulheres e raparigas tão feias e tristes, ou pior, tão banalmente bonitas, que Mariana quase desanimou. Um dia finalmente, à hora de jantar, quando já começava a acreditar que não existia em toda a região uma figura de mulher que lhe interessasse, encontrou o que procurava.

Primeiro foi uma voz ao telefone, mais uma numa longa série. Mas se por uma voz se pode tirar uma aparência, a desta mulher devia ser notável. Era uma voz grave como a de um homem, mas feminina na cor e na textura: uma voz de veludo negro. Se Mariana fosse desafiada a explicar como é que uma voz pode ter cor, não saberia fazê-lo; mas insistiria em que esta a tinha claramente. E de resto: se no rigor abstracto da óptica o negro é ausência de cor, na concreta materialidade dos pigmentos ele pode ser, pelo contrário, a sua saturação extrema: de modo que bastará a mais ligeira diluição para que um pó aparentemente negro se revele no seu verdadeiro azul, carmim, castanho, roxo.

Era assim o negro desta voz. Mariana pôs-se a imaginar como seria a sua possuidora, e a imagem que se lhe formou na mente foi a duma Madona de Murillo, leitosa e túrgida, com longos cabelos negros apartados ao meio. Mas menos meiga e menos doce: a voz era acariciante e carinhosa, mas também havia nela autoridade. Uma enfermeira, talvez, ou uma professora, experiente e segura de si, competente a gerir emoções e a domar rebeldias.

Mas na manhã seguinte quem se lhe apresentou à porta foi uma negra enorme, com quase dois metros de altura, ombros massivos e ancas que ameaçavam não caber nos umbrais. Estava toda vestida de azul-escuro: os tons eram vários, mas todos opacos, alguns quase negros; e em todos os tecidos a pureza do azul era quebrada por um leve matiz de poeira, como se o próprio deserto se tivesse misturado nas tintas de os tingir. As roupas ocultavam-lhe as formas do corpo: véus e écharpes, um turbante, um caftan, numa profusão de panos artesanais que só lhe deixavam ver a face, as mãos, e os pés calçados de sandálias. A pele era dum negro perfeito, com reflexos azulados, e mal contrastava, a não ser pela textura luzidia, com a escuridão das roupas. Não trazia jóias nem outros enfeites, e não sorriu ao cumprimentar Mariana. No todo sombrio só se diferençavam os olhos enormes e luminosos, com pupilas de um castanho dourado.

Bonjour. Je m’apelle Circe, et je viens pour l’annonce.

Seja qual for a língua que de momento falamos, o nosso nome dizemo-lo quase sempre com a pronúncia da nossa: Circe pronunciou o dela em português e Mariana respondeu-lhe na mesma língua.

– Bom dia, faça favor de entrar.

Para passar a soleira da porta Circe baixou um pouco a cabeça, embora não tivesse necessidade de o fazer. Com ela em pé lá dentro a sala parecia mais pequena; Mariana, meio maravilhada, e consciente do contraste que a sua pequena estatura fazia com a da visitante, apressou-se a convidá-la a sentar-se no sofá. Este era um móvel sólido e espaçoso, capaz de acolher nas suas funduras qualquer corpo humano, por grande que fosse; e a sala pareceu que recuperava as suas dimensões habituais.

Mas depressa se tornou evidente que Mariana e Circe tinham mais em comum do que as suas diferenças físicas fariam supor. No falar eram ambas calmas, comedidas, e nos modos mostravam uma reserva benevolente que contribuiu, mais do que o teria feito uma loquacidade indiscriminada, para que depressa se sentissem à vontade uma com a outra. Quando Mariana lhe mostrou os seus quadros os comentários da jovem foram pertinentes e sem elogios excessivos. Tratava-se de alguém com gosto e cultura, o que agradou a Mariana.

Circe falava português sem qualquer sotaque que Mariana pudesse identificar: nem sotaque africano, nem brasileiro, nem de qualquer região de Portugal, nem ainda qualquer dos sotaques que uma longa permanência no estrangeiro faz adquirir. Pela fala, portanto, não era possível determinar-lhe a origem. Nem pela aparência: passada a surpresa inicial Mariana começou a reparar que excepto pela cor a sua gigantesca visitante não tinha traços de africana; nem de índia, ou indiana, ou melanésia, ou aborígene australiana. Na forma da cabeça, na ossatura da face, fazia antes lembrar uma gitana andaluz, ou talvez, pensou Mariana, uma actriz italiana do pós-guerra: Sofia Loren, Claudia Cardinale.

Enquanto se observavam reciprocamente, as duas mulheres tomaram chá, conversaram, falaram de horários e de remunerações; e no momento de decidir foi a própria jovem que disse, com a naturalidade de alguém a quem a profissão de modelo não é estranha:

– Quer que me ponha nua?

Agora, sem os panos de Tuaregue que a escondiam, a sua compleição era mais obviamente europeia: um corpo mítico de valquíria. Não era gorda, mas sim apenas a versão em ponto grande de uma bela jovem saudável e em forma. Os pulsos, que seriam robustos numa pessoa de estatura normal, eram delicados em proporção com o seu corpo gigantesco; os dedos eram longos e finos; o pescoço gracioso. Tinha a cinta alta, o tórax curto; e não tinha os calcanhares salientes duma africana. Todo este conjunto assentava firmemente em dois grandes pés de tipo grego, redondos e grossos como os duma lavradeira mas bonitos e bem proporcionados.

Mas nenhuma deusa escandinava ou grega, ragazza romana ou camponesa ibérica, ou mesmo cigana andaluz, poderia, por mais sol que tivesse apanhado ao longo da vida, ter a pele de um negro tão carregado. Que um corpo tão caucasiano na estrutura estivesse revestido por uma pele tão retintamente africana era sem dúvida motivo de espanto; e Mariana teve de se esforçar por compreender porque é que encontrava nele qualquer coisa de familiar. Por fim lembrou-se das formas idealizadas das estátuas gregas: Vénus de Milo, Vénus de Cirene, todas as deusas nuas do Louvre: bastava imaginá-las esculpidas em basalto negro em vez de mármore branco para reconhecer em Circe as suas formas.

Mais espantoso, porque sem relação com nada que Mariana alguma vez tivesse conhecido, era o volume deste corpo, sustentado na sua postura erecta por uma larga, sólida ossatura. Os braços, as pernas, o tronco deixavam entrever as formas dos bíceps, deltóides, peitorais maiores e menores, abdominais, glúteos, trapézios, toda uma pletora de formas e relevos que se lhe moviam e deslizavam por baixo da superfície do corpo como se cada um tivesse a sua vida própria. As nádegas eram firmes e imponentes: por baixo da pele era possível adivinhar a disposição dos músculos, como num mapa anatómico, apenas velados por uma fina camada de gordura subcutânea. A cintura varonil parecia estreita em contraste com as ancas e os ombros; os seios generosos eram nela pequenos; e as sandálias, quando as tirou, ficaram em evidência no vestíbulo, vastas, sólidas, conspícuas, impossíveis de arrumar num canto como os discretos sapatinhos de Mariana.

De onde poderia ter vindo este ser prodigioso? Dias mais tarde, quando Mariana finalmente se atreveu a perguntar-lho, a resposta foi: – Do Egipto, nasci no Egipto, mas levaram-me de lá ainda menina.

Depois vivera em Portugal, perto de Coimbra, e já nem sequer falava árabe. Mariana conhecia bem Coimbra, e não se lembrava de alguma vez ter visto mencionar uma figura como a de Circe, que dificilmente passaria despercebida numa cidade tão pequena. E não queria que um ser assim pudesse ter vindo prosaicamente de Coimbra, ou mesmo do Cairo: só podia ter vindo doutra dimensão, doutra galáxia, duma civilização mais forte e mais justa do que a nossa; ou então, por meio de uma qualquer máquina do tempo, do futuro distante; ou ainda do passado longínquo, de quando as raças humanas ainda não se tinham separado e sobre a terra caminhavam gigantes.

Começou a desenhá-la logo no primeiro dia, a pintá-la em todas as posições, nua ou vestida, sentada, deitada, de pé, com os braços erguidos de modo a realçar a musculatura das costas e dos ombros; ou então em posições contorcidas, esforçadas, a ponto de as formas representadas no papel ou na tela se tornarem dificilmente reconhecíveis como partes dum corpo humano e assumirem os traços duma paisagem fantástica. Tudo isto Circe aceitava com uma paciência infinita, como se o movimento e a imobilidade, o conforto e o desconforto, lhe fossem iguais. Nunca falava, a menos que para comunicar uma informação necessária; e tudo o que dizia era claro, articulado e directo, o sim sim, o não não, cada conclusão extraída das premissas sem relutância nem esforço. Nos intervalos da pose vestia o caftan azul, e punha-se por vezes a arrumar a casa, com uma economia de movimentos que transfigurava a lida doméstica numa serena coreografia. Mariana limpava os pincéis, punha em ordem os crayons, os boiões, os tubos de tinta, e punha música a tocar; e entretanto Circe dava a volta à casa, cuidadosa e interessada, arrumando, ajeitando, limpando. Quando falava era para dizer “estas janelas já estão outra vez a precisar de ser limpas ” ou “não sei de onde vem tanto cotão”; e ao fazer estas observações práticas a sua voz grave tornava-se ainda mais macia.

Em breve Mariana viu tanta ordem na sua mansarda boémia como a que reinava na sua casa em Lisboa; e embora não tivesse a certeza que este estado de coisas lhe agradasse totalmente, gostava de ser assim mimada, de não ter que lavar sempre a louça, limpar tantas vezes o chão, a casa de banho, as janelas. E de resto toda esta actividade deu-lhe assunto para uma série de quadros que mais tarde veio a ter grande êxito: Circe com os braços esticados, prendendo as cortinas nas sanefas; ou curvada sobre a vassoura; ou sentada no chão com as pernas cruzadas, pregando um botão.

Mariana sentia-se grata pela ajuda mas constrangida. Por fim foi a jovem ela própria quem formalizou a situação:

– Eu podia fazer-lhe as limpezas, se a senhora quisesse.

E não era preciso que Mariana lhe pagasse muito; já ganhava bem a posar para os quadros.

Mariana nunca teria ousado fazer ela própria esta proposta, e sentiu-se aliviada. Mas depressa se viu que os horários de Circe como empregada doméstica e modelo nem sempre eram compatíveis. Nem de resto as prioridades das duas: Mariana tendia a sacrificar as tarefas domésticas à pintura, enquanto que Circe não tolerava deixar sequer um prato a escorrer no lava-loiça.

Até que uma manhã quem apareceu a Mariana foi, não uma, mas duas jovens gigantes.

– Esta é a minha irmã. Chama-se Atena e vem-me ajudar.

E acrescentou, desnecessariamente:

– Ela e eu somos gémeas.

Dizer que Mariana ficou surpreendida seria dizer pouco. Sabia que Circe tinha uma irmã; mas não imaginara que fossem gémeas idênticas, e ao ver ali em duplicado, no patamar estreito dum prédio citadino, uma figura que mesmo no singular era suficientemente vasta para não passar despercebida nas amplidões do Valhalla, sentiu que algo de fundamental se alterava na sua noção do possível.

Atena. Circe e Atena. Os olhos garços da recém-chegada tinham um tom mais acinzentado do que os da irmã, mas esta foi a única diferença entre elas de que Mariana se pôde aperceber naquele momento. Ao princípio a função de Atena consistia em ocupar-se ocasionalmente da casa quando a irmã estava demasiado ocupada com o seu dever principal, mas com o tempo as funções das duas foram-se tornando intermutáveis. Não foi pedido a Mariana que pagasse a Atena, nem ela se ofereceu para o fazer. A sua combinação era com Circe, a quem afinal pagava dois salários; e Circe por sua vez combinava com a irmã a divisão do dinheiro e do trabalho. O sistema era vantajoso para todas: Mariana nunca sabia de antemão qual das duas irmãs lhe ia comparecer no apartamento, ou se iam comparecer as duas, mas sabia que podia contar sempre pelo menos com uma. O cozinhar reservava-o Mariana quase sempre para si própria, especialmente quando o amante a visitava: preparar-lhe o comer, servir-lho à mesa, eram prazeres a que não renunciava.

Poucos dias depois de ser apresentada a Victor, Circe chegou ao apartamento com uma muda de roupa num saco e fechou-se imediatamente no quarto de banho. Quando saiu vinha completamente transformada: o vestido, num xadrez miúdo cor de salmão e branco, ficava-lhe dois centímetros abaixo do joelho, e era rematado no pescoço por um colarinho branco de pontas redondas. Branco era também o avental, com duas alças largas que se cruzavam nas costas. Nos pés, umas alpergatas de pano-cru. Era até ao último pormenor um uniforme de empregada doméstica numa casa portuguesa. Mariana admirou-se que Circe o tivesse encontrado numa loja de Brugges, e à sua medida.

No dia seguinte foi a vez de Atena vir fardada. Sem dizer nada a Mariana tinham adquirido ou confeccionado uma colecção de uniformes, iguais em tudo menos nas cores do xadrez: cor-de-rosa e branco, beije e branco, amarelo e branco, azul claro e branco. Quando uma se vestia assim a outra conservava os seus panejamentos sombrios; e era sempre esta que se despia para servir de modelo a Mariana.

Os papéis desempenhados estavam assim claros: num canto do palco o modelo, noutro a criada. Mas porque se haviam elas de dar a tanto trabalho e despesa? Só para definir os seus papéis? Em Lisboa as empregadas de Marta nunca tinham usado uniforme. E agora eram precisamente estas duas, estas deusas ou feiticeiras surgidas das brumas, que pelas suas próprias razões se vestiam como duas criadinhas de Cascais ou do Restelo.

O que tornava o disfarce inverosímil, porém, era a sua escala massiva: e comparando uma no seu uniforme doméstico com a outra nos seus panos exóticos ninguém podia deixar de ver na primeira a figura mais incongruente.

Quanto à intenção deste jogo, tinha alguma coisa a ver com Victor, ou melhor, com Mariana e Victor. Por alguma razão os uniformes tinham aparecido logo a seguir à primeira visita deste. Em breve se tornou aparente que as duas irmãs estavam na disposição de permanecer no apartamento, a desempenhar as suas tarefas, mesmo na presença do amante de Mariana: como se se tivessem apercebido duma vontade desta de lhe oferecer à chegada todo um teatro feminino em que o cenário, a iluminação e o guarda-roupa se encontrassem ao serviço de um mesmo encantamento.

Mariana não sabia se queria ou não oferecer a Victor este teatro, mas intuía que o amor, no seu luxo maior, na sua mais elaborada tradição, requer criadas, ajudantes, intendentes, se não mesmo pajens e eunucos; e era claramente este papel que Circe e Atena tinham reservado para si próprias. De discreta, a sua presença foi-se transformando em tutelar, como se tivessem assumido como seu encargo particular o favorecimento dos amores a que assistiam. De resto era sempre possível deixar os amantes sozinhos no quarto ou na sala, que tinham boas e sólidas portas de carvalho, e procurar que fazer noutra parte da casa. Deste modo podiam reaparecer no momento oportuno com um sumo de frutos, um copo de água, uma chávena de chá: luxos orientais para quem descansa de refregas amorosas.

Numa destas ocasiões Circe entrou no quarto, silenciosa e descalça, quando os dois amantes repousavam nus depois do amor. Estava calor, e não queriam sobre o corpo nem o peso dum lençol. Circe pousou o tabuleiro, pegou num leque que Mariana tinha posto na parede como decoração, sentou-se sobre os calcanhares junto da cama e começou refrescá-los suavemente, entoando baixinho uma cantilena que podia ser de embalar ou de outra coisa. Sonolentos, os amantes não eram capazes de distinguir as palavras, só de sentir a frescura do ar sobre a pele nua como mais uma carícia.. E foi assim que recomeçaram a acariciar-se, uns minutos ou talvez uma hora mais tarde, sem se importarem com a presença da jovem, tão silenciosa, tão discreta.

Nesse ano, em meados de Maio, Victor fez a Mariana uma visita prolongada. Tão prolongada, desta vez, que não sentiram a necessidade de dedicar cada minuto a abraçar-se, a beijar-se, a fazer amor, num frenesim que mal deixa de ser o da chegada já é o da despedida; tiveram tempo de passear, de ir às compras e aos espectáculos, de caminhar ao longo dos canais. E tiveram tempo, para deleite de ambos, de fazer a sua vida quotidiana na presença um do outro. Sentado ao computador, com os óculos de ver ao perto empoleirados na ponta do nariz, um monte de fichas em cima da secretária, Victor escrevia; e perto dele, diante dum cavalete, enfiada numa decrépita sweat-shirt, Mariana desenhava ou pintava. Durante longos minutos não falavam; e quando algum deles saía da sua concentração era para encontrar o olhar do outro e trocar com ele um sorriso de perfeito contentamento.

O único embaraço, e ainda assim momentâneo, neste idílio resultou de Mariana estar por esta altura a trabalhar num quadro de Circe. Neste quadro, um nu de grande formato, a jovem aparecia reclinada, de frente para o espectador, usando apenas o seu turbante azul, e Mariana não se sentia no direito de lhe pedir que posasse nua na presença de Victor.

A própria Circe resolveu este dilema ao dizer que naquela semana Atena estava sem nada que fazer e podia vir arrumar a casa, que já estava a precisar.

– E entretanto, se o senhor não se importar que eu me ponha nua, eu e a senhora podíamos continuar com o quadro do turbante.

Quando chegou o momento de Circe se estender no divã, Victor mostrou-se circunspecto, mas não desdenhoso ou indiferente, perante a sua magnífica nudez; e passado um olhar admirativo inicial continuou a trabalhar com a mesma concentração. Mariana ainda experimentou um certo escrúpulo, misturado com uma réstia de ciúme; mas estes sentimentos depressa se dissiparam à medida que o trabalho se ia tornando mais absorvente. E Atena, nas suas alpergatas silenciosas, entrando e saindo do atelier com chávenas de café, contribuía para o ar de normalidade de toda a cena dando-lhe um ar de domesticidade confortável.

Assim se foi estabelecendo, a pouco e pouco, uma convivência a quatro. Discretas, silenciosas, hieráticas, as duas irmãs foram participando cada vez mais na intimidade dos dois amantes: duas sombras enormes e benévolas que pareciam protegê-los, ao mesmo título que as paredes e as cortinas, do frio exterior e do olhar dos vizinhos.

A única pequena modificação nesta rotina veio a dar-se quando as raparigas se aperceberam da verdadeira natureza da relação entre Mariana e Victor. Um ou outro beijo dela na mão dele, nem sempre tão discreto que passasse despercebido; um circunspecto ajoelhar, uma secreta deferência no servir das refeições; um murmúrio apenas audível, meu senhor, meu dono; tudo isto junto teve para as gémeas um significado que não as escandalizou nem repeliu; e por sinais igualmente subtis tiveram artes de exprimir a sua aprovação.

Menos discretas eram as saias rodadas de Mariana, os pés descalços, a bijutaria profusa e os decotes extremos que punha para receber o amante; e nestas ocasiões Circe e Atena habituaram-se a ficar também elas descalças, uma no seu uniforme de criada, a outra nos seus panejamentos azulados; não em deferência a ele, mas a Mariana, a quem serviam.

No princípio desse Verão choveu muito em Brugges, e esteve frio e nevoeiro. Para as férias Mariana tinha arrendado uma casa no Algarve, e mal podia esperar pelo dia em que caminharia com Victor sob o sol escaldante, respirando um ar perfumado e seco, vibrante com o zumbir dos insectos. Também Circe e a irmã estavam fartas do frio e da humidade, e ofereceram-se para os acompanhar. A casa arrendada era espaçosa; e com as gémeas a assegurar as tarefas domésticas os dois amantes sempre teriam as compras feitas e a comida pronta quando chegassem da praia. Além disso Mariana continuaria a dispor de um modelo, o que permitiria prolongar as férias por um mês ou mais; e depois de um ano sob os céus cinzentos da Flandres estavam todos a precisar dumas longas férias ao sol.

A casa tinha-a Mariana arrendado a um amigo, um pintor de origem algarvia que a herdara dos pais. Era uma casa antiga, tradicional, caiada de branco com uma faixa azul na parte de baixo. A toda a volta cresciam alfarrobeiras, e a partir do meio-dia um enorme pinheiro manso projectava no pátio a sua sombra densa. Neste pátio, protegido por uma densa sebe de olhares estranhos, Victor e Mariana recuperaram o seu gosto antigo de fazer amor ao ar livre. Um carreiro dava acesso à praia: e a mesma praia servia uma urbanização de luxo. Algumas famílias, particularmente se tinham crianças, levavam as criadas em uniforme completo para a areia, onde lhes era permitido tirar os sapatos e sentar-se debaixo do guarda-sol. As patroas mais liberais permitiam-lhes mesmo que se pusessem em fato de banho, mas só ao fim de uma hora ou duas de permanência: tempo suficiente para não haver engano quanto aos estatutos sociais.

Passado o primeiro dia também Circe e Atena começaram a ir para a praia vestidas de criadas. Se este quase disfarce tinha como objectivo exprimir um comentário irónico aos hábitos locais, conseguia-o perfeitamente: o efeito que as jovens produziam, pela estatura, pela cor da pele, pela altivez do porte, era o exacto oposto do apagamento imposto às outras criadas. E ao circularem pelos acessos à praia, descalças, à vontade; ao pisarem com firmeza e displicência, com os seus vastos pés de virgens guerreiras, os pavimentos do condomínio e o carreiro pedregoso do acesso, exibiam mais desenvoltura do que geralmente se admite em serviçais.

Mas o objectivo maior do traje era outro, mais subtil mas igualmente conseguido: criar um pano de fundo para a história de Mariana. Por isso se encarregaram de lhe meter nas malas, além dos vestidos de Verão e das saias rodadas que gostava de usar à beira-mar, um guarda-roupa em tudo semelhante ao de Circe no primeiro encontro; e foram estas as roupas de Tuaregue que ela acabou por usar quase sempre durante o tempo que duraram as férias.

Quem as observasse às três – Mariana muito pequena, muito morena, com os olhos muito brilhantes a espreitar da fundura dos véus; e um pouco atrás dela, flanqueando-a como duas guarda-costas disfarçadas, duas negras, silenciosas e enormes – pensaria talvez numa princesa árabe ou milionária levantina, rigorosamente vigiada, em férias no Ocidente. Mas esta fantasia era desmentida assim que Mariana tirava os panejamentos azuis que a cobriam como um tchador e surgia num diminuto bikini amarelo ou branco, muitas vezes sem a parte de cima, num impudor de europeia emancipada. E havia Victor, com os seus cabelos e olhos claros, sorrindo-lhe, atencioso e cúmplice, trocando com ela comentários e carícias. A este ninguém o tomaria por árabe, arménio, libanês ou egípcio.

Quanto aos homens que frequentavam a praia, não tinham olhos senão para as jovenzinhas felinas e bronzeadas que por vezes paravam junto deles: filhas, sobrinhas, amigas, namoradas de luxo, segundas ou terceiras esposas. Mariana e Victor não lhes interessavam; nem, passado o frisson inicial, Circe e Atena, que embora atraentes eram demasiado exóticas para serem apresentáveis no universo provinciano das elites portuguesas.

Os dois amantes chegavam sempre cedo à praia. Com eles vinham as gémeas, carregando sem esforço aparente os dois guarda-sóis, o tapa-vento, o saco com as toalhas, os protectores solares, a espreguiçadeira de lona para Victor se estender a ler. Tiradas as roupas, Victor ficava com uns calções de praia aos quadrados, Mariana com o seu bikini, e as raparigas com uns grandes fatos de banho pretos e baços, muito subidos no peito e nas costas, que conjuntamente com o negro da pele pareciam absorver a luminosidade do dia.

Por volta das dez e meia, quando começava a haver gente demais, Mariana e Victor pegavam nas toalhas e no guarda-sol mais pequeno e começavam a caminhar ao longo da praia, que naquela zona tinha vários quilómetros de extensão. Passadas poucas dezenas de metros a multidão começava a ser mais esparsa; e, passada mais uma aglomeração ou duas de banhistas, a praia ficava suficientemente deserta para que nela não houvesse outras pegadas além das dos quatro, e das várias espécies de aves que a visitavam vindas da laguna próxima.

Uma vez seguiram por mais de um quilómetro um grupo de aves que corriam ao longo da praia, ao rés da salsugem, levantando voo para aterrar mais adiante quando os humanos se aproximavam demais ou quando uma onda se lhes atravessava no caminho.

Assim que Mariana e Victor se viam sós armavam o guarda-sol, despiam-se completamente e entravam na água de mãos dadas. Assim, nus, o mar parecia-lhes mais quente e acolhedor do que quando eram obrigados a usar fato de banho; e uma réstia de frio que tivessem dissipavam-na num abraço.

Entretanto Circe e Atena voltavam a casa, recolhiam no caminho o outro guarda-sol, punham sanduíches e bebidas numa geleira e regressavam, nos seus uniformes claros, para junto de Mariana e Victor. A atenção que despertavam não parecia afectá-las: carregadas, possantes, impassíveis, seguiam serenamente o rasto dos patrões. Chegadas ao seu destino montavam o guarda-sol maior e o tapa-vento, punham a geleira à sombra, armavam a cadeira de lona e despiam-se calmamente, dobrando e guardando cada peça de roupa à medida que a tiravam. Depois entravam no mar sem a mínima jóia ou enfeite, ou qualquer apontamento de cor: só com os seus fatos de banho negros.

Nestes primeiros dias Mariana e Victor vestiam também os fatos de banho quando saíam da água. Mas voltar a vestir-se, depois de se ter estado gloriosamente nu nas águas castas do mar, é uma humilhação e uma indecência; e nos dias seguintes, à medida que os dois amantes foram adiando cada vez mais o momento de se cobrirem, também Circe e Atena foram fazendo menos questão de baixar os olhos perante a sua nudez.

Foi talvez este à-vontade que tornou possível a ordem que Victor deu uma vez a Circe, no pátio onde tinham acabado de jantar: que rapasse os pelos púbicos de Mariana. Mariana, que não tinha sido consultada, esboçou um pequeno gesto de recusa, ou talvez de surpresa, mas quando a criada trouxe a tesoura, uma gilette nova, o gel de barbear de Victor e o bálsamo hidratante estendeu-se obedientemente de costas sobre a mesa, que Atena tinha coberto com uma toalha de banho lavada.

Primeiro manteve as pernas juntas enquanto Circe desbastava o grosso dos pelos, que em Mariana eram esparsos de natureza. Depois teve que as abrir para que a tesoura lhe aparasse os pelos à volta da vagina e do ânus. E por fim, quando chegou a altura de aplicar o gel de barbear, teve que se escanchar toda, os joelhos contra os seios, como nunca até aí fizera na presença duma mulher.

Atena trouxera uma pequena bacia com água muito quente, uma pequena bacia de cobre, comprada em Marrocos, que até então tivera apenas fins decorativos, e algumas pequenas toalhas de pano turco que Circe começou a humedecer na água quente e a aplicar sobre a púbis de Mariana. Quando esta se habituou à temperatura e a água quente lhe começou a parecer morna, Circe espalhou-lhe o gel sobre a pele molhada da púbis, massajando-a com as pontas dos dedos em pequenos movimentos circulares até criar uma espuma branca e densa que pareceu a Mariana um pouco adstringente. Depois, cuidadosamente, esticando entre dois dedos os refegos da pele, começou a rapar-lhe os pelos, primeiro na barriga, e depois na zona mais sensível entre as coxas. Devagar, com infinito cuidado, de modo a não ferir as tenras mucosas mas também a não deixar ficar um único pelo, Circe foi passando a lâmina, repetidamente, primeiro num sentido e depois noutro, de modo a que os dedos, passando a seguir à lâmina, não sentissem a mínima aspereza. Pouco a pouco a espuma foi sendo retirada, e no fim, depois de Circe, e depois Atena, e por fim Victor terem passado a mão sobre o sexo de Mariana e declarado que estava suficientemente liso, a zona foi de novo lavada com água morna, secada com uma toalha felpuda e massajada com o bálsamo hidratante que Victor usava na cara.

A operação terminou com um beijo de Victor no sexo macio de Mariana. Só um pequeno beijo, sob o olhar impassível das gémeas. Mas depois, à noite, a sós com ela na cama, Victor deu a Mariana bem mais do que um beijo: introduziu-lhe a ponta da língua entre os lábios interiores do sexo, procurou-lhe o clítoris e fê-lo intumescer, para em seguida o sorver gulosamente juntamente com as pregas delicadas dos pequenos lábios, ou para lhe introduzir de surpresa a língua na vagina. Assim, alternando estas e outras carícias, Victor levou a sua escrava Mariana a uma série de orgasmos, tantos que ela lhes perdeu a conta, e gritou, gritou sem se importar que as gémeas ouvissem, ou que a ouvissem nas casas em redor.

No dia seguinte Mariana não sabia se se sentia humilhada ou não pela modificação que o dono tinha ordenado no seu corpo. Se era humilhação, aceitava-a de bom grado, como dizia a si mesma ser o seu dever; mas talvez não fosse humilhação, talvez fosse outra coisa de que não sabia o nome e que a deixava mais terna e mais doce diante de Victor. Num plano mais pragmático, depressa se apercebeu duma vantagem inesperada de ter o sexo rapado: a partir de agora, quando o dono a proibisse de usar calcinhas, não tinha mais que se preocupar com a maior ou menor transparência do vestido, já que não existiria a sombra da púbis para lhe denunciar a nudez. Mas um dia em que não tivesse uma acólita para lhe fazer esta toilette, como seria? Seria capaz de se rapar a si própria, talvez com o auxílio dum espelho? Ou fá-lo-ia o próprio Victor? Em todo o caso a operação teria que ser frequente, não queria o desconforto duns pelos curtos e duros entre as coxas macias.

Na praia, por fim, já que todos os quatro se tinham habituado a ver corpos dos outros, e já que os restantes frequentadores daquela parte da praia pareciam estar, tanto quanto a distância e a claridade excessiva o permitiam determinar, também eles nus, acabou por parecer mais natural despirem-se as duas jovens do que vestirem-se Mariana e Victor. Na segunda semana de férias Circe e Atena habituaram-se a já nem trazer os fatos de banho por baixo dos vestidos. Antes de se juntarem na água aos patrões ficavam as duas por uns momentos de pé a olhar para o mar, como duas estátuas de bronze no meio de um deserto.

Nuas, de tão negras, negro sobre negro os cabelos da púbis, davam à praia calcinada e plana a única sugestão de sombra; e Mariana reparava que onde o sol se lhes reflectia na pele o reflexo já não era azulado, como no Inverno em Brugges, mas cor de cobre.

Depois banhavam-se os quatro, nadavam, comiam. Mariana e Victor deitavam-se nas toalhas, ou sentavam-se, ele na cadeira, ela no chão aos pés dele, e conversavam. Circe procurava algas e moluscos que depois empregava em cozinhados de sabor estranho; e a irmã lia, olhava o horizonte, ou aplicava a Mariana o protector solar.

Ou então conversavam. Um dia Atena contou a seguinte parábola:

– Um homem estava nu na praia deserta. Tinha trazido consigo uns calções e uma toalha, mas ao chegar ao lugar que escolhera tinha-os arrumado fora de vista; e olhando à volta não via mais do que a areia, o céu, as aves, e o mesmo mar de há cinco mil anos. Nas dunas havia a vegetação própria do lugar; e debaixo da areia, sabia-o, havia vida: bivalves, crustáceos, insectos.

Tudo o que o homem desejava era ser parte deste mundo. Olhava para o seu próprio corpo e via-o feito de carne, como os corpos dos outros animais. No caminho para aquele lugar o homem tinha seguido, como Mariana e Victor, um pequeno grupo de aves que caminhavam ao longo da borda de água. As patinhas com que caminhavam eram rosadas e nuas como as mãos e os pés dos homens; e por baixo, na superfície com que pisavam a areia, estavam estriadas de linhas e rugas semelhantes.

Para o homem e para as aves a aspereza e a consistência da areia eram as mesmas; como eram as mesmas a temperatura e a salinidade da água, o brilho do sol e a velocidade do vento. E contudo quem se atreveria a dizer que o homem e as aves estavam a passar pela mesma experiência?

Os olhos com que o homem olhava para o mar eram os mesmos com que tinha lido Homero, Camões, Melville e Conrad. O coração que se lhe sobressaltava com o rugido das ondas era o mesmo que se comovera com o naufrágio de Sepúlveda. O que ele via e sentia, o que ouvia e cheirava, era inseparável dessas memórias. As negras naus de Ulisses, Sila e Caríbdis, as velas brancas do Gama, Marlon Brando no papel de Mr. Christian, amotinado contra o capitão Bligh; Eneias abandonando Dido; o Holandês Voador e a sua jura tremenda; Sandokan, o Tigre da Malásia; as palavras da mãe, não vás ao banho ainda, não fizeste a digestão; e do lado da terra: a areia, o deserto, Beau Geste, Lawrence da Arábia, o calor, a sede sofrida e narrada por gerações de viajantes – de tudo isto se faziam os sentidos com que o homem sentia a textura da areia, o sopro do vento, a frescura do mar, a queimadura do sol. Se em vez de estudioso fosse pescador ou marinheiro, mesmo assim tudo o que agora sentia estaria codificado em gírias, condicionado por disciplinas, ancorado em lembranças.

Despido de todas as roupas, separado de todos os artefactos visíveis, o homem trazia ainda dentro de si um artefacto invisível feito de símbolos, palavras e memórias, com que via, ouvia, saboreava, cheirava e tocava o mundo. Nenhum homem, concluía Atena, pode experimentar directamente a Natureza. A natureza é no homem cultura, e a cultura é no homem Natureza. Mas nem por isso o sonho de enfrentar sem protecção o sol, o vento, o mar, a sede, deixa de ser um belo e nobre sonho; e possam sempre os homens livres partilhar a nudez esplêndida dos deuses.

Nos dias seguintes a esta fábula a rotina do grupo mudou perceptivelmente: os gestos de tirar a roupa, estender-se ao sol, entrar na água, comer, beber, adquiriram um matiz cerimonial, como se tudo se fizesse em homenagem aos elementos. Tudo se tornou mais lento e moderado. A água na geleira já não precisava de estar tão fria, nem a comida de ser tão abundante. Os movimentos, especialmente os de Circe e Atena, pareciam coreografados. E quando as duas se deitavam na areia faziam-no sempre, num rito invariável, uma de cada lado dos amantes: Circe a nascente, a irmã a poente, com o tapa-vento e os guarda-sóis a completar um círculo protector.

E por vezes, ao fim da tarde, quando as carícias preguiçosas de Mariana e Victor lhes acendiam nos corpos o desejo, viravam-se as duas de costas para eles, imperscrutáveis como esfinges. E se o sol ia baixo, e não havia mais ninguém na praia; se as sombras se alongavam; se o vento tinha deixado de soprar; se ao rugido do mar, transformado em murmúrio, se juntava o canto das cícadas; então, por vezes, os amantes – sedentos de humidade, sedentos um do outro, repassados de sol e de espaço – uniam lentamente os corpos; e faziam amor à sombra de Atena.

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Tarefas domésticas

Numa relação Senhor/escrava todas as tarefas domésticas cabem, em princípio, à escrava. Penso que sobre isto todos estarão de acordo: a escrava existe para servir o seu Senhor, e servir não é só na cama.

«Em princípio», escrevi eu acima. E «em princípio» porque no mundo moderno, cheio de exigências e compromissos exteriores à relação amorosa, é quase sempre aconselhável que o Senhor desempenhe uma parte (até, nalguns casos, a maior parte) das tarefas domésticas.

Isto, desde logo, pela razão que aduzi num dos meus artigos recentes: o Senhor é responsável pela felicidade da sua escrava. Uma escrava não é uma super-mulher (embora seja, não poucas vezes, uma mulher superior). É um ser humano, com todas as limitações e fragilidades de um ser humano, e nunca será feliz se tiver que acrescentar a responsabilidade exclusiva das tarefas domésticas às exigências do emprego, dos estudos, dos filhos, dos pais que já estão velhos e precisam de cuidados. Um Senhor e uma escrava não vivem no Paraíso nem numa ilha deserta, vivem no mundo real; e, por muito que tentem adaptar as circunstâncias à sua opção de vida – mudando de casa, mudando de emprego, etc. – o certo é que vão ter sempre que adaptar nalguma medida as suas opções de vida às circunstâncias.

A segunda razão para que o Senhor desempenhe uma parte das tarefas domésticas é de ordem estética: não é concebível, é obsceno, causa até algum horror, que um homem e uma mulher entrem numa relação sumamente poética como é a de Senhor/escrava pela prosaica razão de ele precisar de quem lhe passe as camisas a ferro.

A terceira razão é o interesse do próprio Senhor, a quem não convém tornar-se dependente e que deve por isso manter as suas capacidades de cuidar de si mesmo. Neste ponto, é possível que encontre alguma oposição por parte da escrava: na dinâmica senhor/escravo a que fiz referência no artigo atrás mencionado uma das principais estratégias do escravo para se tornar senhor consiste em tornar o senhor dependente de si. Por outro lado, ao permitir que o seu Senhor seja auto-suficiente a escrava evitará, possivelmente contra a sua própria vontade, cair na armadilha em que caem muitas mulheres que vivem com homens, que é a de se tornarem mãezinhas dos seus filhos-amantes para assim melhor os dominarem.

(Pergunto a mim mesmo se este padrão matriarcal, tão típico dos países latinos, não será uma das razões por que as relações de domínio assumido / submissão assumida estão tão pouco espalhadas entre nós, contrariamente ao que acontece nos países anglo-saxónicos).

A tudo isto há que acrescentar certos «serviços» que alguns Senhores podem muito bem ter prazer em prestar às suas escravas – penteá-las, lavá-las, maquilhá-las, vesti-las – que são serviços que na realidade prestam a si próprios, mas que nas relações «baunilha» os homens não costumam prestar às suas mulheres.

Resulta daqui que não resta nada para a escrava fazer em casa, e que a sua vida deve ser a de uma odalisca indolente e mimada, sem mais nada que fazer do que cuidar do prazer sexual do seu Senhor? Não, minhas queridas, nem por sombras. Não se ponham já com ideias, porque isso nunca vai acontecer. Logo no início deste artigo escrevi que todas as tarefas domésticas competem, em princípio, à escrava; e por outro lado um homem e uma mulher que vivam este tipo de relação têm mais dificuldade ou mais relutância do que um casal baunilha em meter dentro de casa uma empregada doméstica.

Para mim o que funciona é isto: quando calha estar sozinho em casa gosto de aproveitar para fazer aquelas coisas que não dão prazer a ninguém – aspirar a casa, estender a roupa a secar, arrumar a cozinha, limpar a casa de banho. Depois há aquelas coisas que são mais fáceis de fazer quando feitas a dois: essas, faço-as com a minha escrava como se fôssemos um qualquer casal baunilha.

Mas o que me dá verdadeiramente prazer é sentar-me no sofá, com um charuto (que ela acendeu) na mão, ou um cálice de Porto Seco (que ela serviu), e ver a minha escrava, toda nua, ou só de avental, ou com vestidos ou véus transparentes – e, dados os meus gostos, naturalmente descalça – a limpar o meu escritório ou a cozinhar para mim. Sabendo ela que o que está verdadeiramente a fazer naquele momento não é trabalho doméstico, é sexo, e que com cada gesto se está a dar aos meus olhos como escrava.

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