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Cap. 34: TITÂNIO

Entretanto havia a viagem ao Brasil, documentos a regularizar, dossiers médicos a organizar, contactos a estabelecer… Os piercings de Teresa iam ser aplicados por um cirurgião, porque os aros de titânio não podiam ser trabalhados no local. Os furos tinham que ter à partida o diâmetro e a curvatura correctos, e o acesso a eles exigia incisões, de modo a que os aros, completos com os ilhós em que deslizariam, entrassem de lado; e por fim havia que suturar estas incisões. Este procedimento exigia uma anestesia local e era muito mais complicado que o que se pratica nos ateliers, mas a cicatrização, devido à precisão dos cortes, ia demorar menos que os dois meses habituais.

O voo para São Paulo demorou quase dez horas, e a transferência para a clínica mais uma. Na mesma noite em que chegou, Teresa ficou internada: o dia seguinte seria dedicado a exames e análises, e no terceiro seriam implantados os anéis. A própria clínica, situada ao lado do parque Ibirapuera, tratou do alojamento de Raul num hotel próximo. Assim, pôde estar presente na primeira consulta com o cirurgião, que já tinha em seu poder um modelo dos quatro piercings que ia colocar. Cada peça consistia em dois anéis que entrariam parcialmente na carne de Teresa. Estes anéis, distantes um do outro por cerca de um centímetro, estavam unidos por uma barra que ficaria de fora; desta barra saía outra, na ponta da qual havia mais um aro. Esta barra engatava, por meio de ranhuras, na que lhe correspondia no lábio oposto, de modo a que os lábios ficassem apertados naquele ponto e os aros da ponta ficassem justapostos sobre a longitude da vulva.

– Reparem os senhores que o engate não é perfeito – disse o cirurgião. – Há um pouco de folga. Isto é propositado: os engates não podem ter arestas vivas, para não machucar; e têm que engatar sem repuxar os tecidos. Depois de os aros de cima engatarem… assim… será possível segurá-los com um cadeado. A senhora deseja piercings de cada lado do clítoris e da vagina, não é verdade?

– Sim – disse Raul – mas a uretra tem que ficar livre…

– Vou dizer-lhe a verdade: com os dois piercings apertados no lugar, a uretra ficará um pouquinho constrangida. Não terá dificuldade em urinar, mas vai ter que fazer uma higiene mais cuidada…

– Sim, nós sabemos.

– A cicatrização não vai demorar tempo demais, porque a incisão vai ser muito exacta e a sutura também. Mas precisa ter alguns cuidados. Quero falar neles aos dois para ter certeza que entendem.

– Faça favor – disse Raul.

– Hoje, a senhora irá para a o seu quarto e fará exames. Se tudo estiver certo, será operada amanhã de manhã. É uma operação muito simples, com anestesia local. Algumas suturas serão bio-solúveis, outras terão que ser removidas à medida que não sejam necessárias. Logo que possível, a senhora deverá mover um pouco os implantes para eles não colarem aos tecidos, mas sempre com muito cuidado. Não tente engatar os anéis exteriores antes de passarem três semanas. Não poderá fazer sexo vaginal antes de seis semanas, e espere oito semanas antes de usar os cadeados.

– E sexo anal? – perguntou Teresa.

– Pode fazer sexo anal passadas quatro semanas, mas tem que fazer logo a seguir uma higiene muito completa de toda essa parte de seu corpo, usando um bom anti-séptico. Agora a enfermeira vai levar a senhora ao seu quarto. O senhor poderá vir de visita a qualquer hora entre as dez da manhã e as dez da noite. Se tudo correr como esperamos, ficará internada três dias: hoje para preparação e exames, amanhã para a operação e mais um para tratamento pós-operatório. No último dia, o senhor também deverá estar presente para a enfermeira ensinar alguns cuidados que deve ter. Depois, a senhora deve descansar, não pode fazer muito esforço; pena que não possa visitar nossa cidade como ela merece.

– E pompoar, quando posso fazer? – disse Teresa.

– Exercícios de Kegel? Pode fazer daqui a quatro ou cinco dias: até ajuda a recuperar. Mas ao princípio faça com muito cuidado, ouviu? Se lhe doer, nem que seja um pouquinho, pare logo.

Depois disto, Raul foi posto delicadamente na rua. Um funcionário da clínica conduziu-o de automóvel ao hotel. No dia seguinte só o deixaram visitar Teresa de tarde: encontrou-a um pouco combalida e impaciente por não a deixarem pôr-se de pé. Para a entreter, Raul descreveu-lhe o hotel, o passeio que tinha dado de manhã, alguns factos que tinha apurado sobre a clínica:

– Sabes que como teu acompanhante tenho direito a alguns tratamentos de graça? Limpeza facial, drenagem linfática… tenho que ver melhor o catálogo.

Teresa fez-lhe sinal de que lhe queria falar ao ouvido, e quando ele se inclinou disse-lhe:

– Só não os deixes modificar-te o pénis, gosto dele exactamente como é.

E ao sentir-se sacudida de riso acrescentou, como se a culpa fosse dele:

– Ai, não me faças rir, que me dói…

Raul deu o suspiro os homens que dão há milénios quando confrontados com a injustiça feminina, ajeitou-lhe a inclinação da cama para ela ver melhor a televisão, beijou-lhe os lábios e perguntou:

– Estás bem assim?

– Estou bem, não te preocupes. Que livros são esses?

– Alguns são para ficar aqui, os outros para eu levar para o hotel.

– Não vais sair à noite?

– Não é preciso. Ligo para a recepção e eles mandam-me uma moça da cor e feitio que eu quiser.

– Para te acender o charuto e servir o whisky, não é?

– Pois claro. Para que mais havia de ser?

– Então manda-a passar por aqui para eu a ensinar. Não quero o meu senhor mal servido…

Riram-se os dois e ficaram algum tempo de mão dada, um pouco enleados, sem saberem bem o que dizer um ao outro. Por fim, foi ela que o mandou embora:

– Anda, vai. Também precisas de descansar. Eu fico bem, daqui a pouco apago a luz.

O dia seguinte foi passado na clínica, onde Teresa já podia passear uns minutos nos jardins.

– Esta coisa ainda me incomoda – disse ela no fim de um destes passeios.

– Dói-te?

– Não, quase não me dói. Mas sinto que são objectos estranhos… Hei-de habituar-me, está claro.

No terceiro dia Teresa teve alta. Antes de sair, uma enfermeira levou-a com Raul a um quarto mobilado como o duma casa particular, com um quarto de banho normal, e ensinou-lhes alguns procedimentos que teriam que seguir no futuro: muita água, muito sabonete, muita água oxigenada, muita circulação de ar, e tudo sempre o mais seco possível.

– Melhor andar de saia sem calcinha, moça… Não vai ter vergonha, vai?

Agora, havia que ocupar os dias. Teresa achava frustrante ter forças para andar e não o poder fazer tanto quanto queria. Os passeios no parque eram dados em passo lento, o que, se por um lado os fazia durar mais, por outro impacientava Teresa, que sempre gostara de caminhar depressa. Raul apontava-lhe os animais e as plantas, que naquele início de primavera brasileira animavam o parque com sons e com cores: assim conseguia que ela se detivesse por momentos e não forçasse demais o corpo.

Na primeira noite que passaram juntos, Teresa decidiu que era tempo de voltar a assumir os seus deveres de escrava: depois dos beijos profusos e das demoradas carícias do reencontro, ajoelhou-se à frente dele, num gesto tão gracioso que dava a impressão de já nada lhe tolher os movimentos, e pediu:

– Meu senhor, não queres gozar na minha boca? Há tanto tempo que não te sirvo…

Raul olhou-a nos olhos:

– Lembras-te de como eu te ensinei, minha escrava?

– Como não havia de me lembrar, meu senhor? Vou-te mostrar…

Raul desapareceu no quarto de banho da suite – aqui dizia-se banheiro – para reaparecer cheirando a sabonete e vestido com o pijama que ela lhe tinha oferecido. Sentou-se na poltrona e ordenou:

– Anda cá, escrava, e abre-me o pijama.

Quando Teresa obedeceu, compreendeu a razão de ele ter vestido o pijama: estava completamente depilado na púbis e na zona genital, e tinha querido fazer-lhe uma surpresa.

– Ficas bonito, meu senhor – disse Teresa.

Gostava, com efeito, de o ver assim. Agradava-lhe que ele não tivesse depilado as pernas nem as coxas, particularmente junto às virilhas, onde a pelugem é mais sedosa. Só depilara o escroto, a púbis e o ventre até ao umbigo. O pénis, assim, parecia maior, e viam-se melhor os testículos.

– Quando voltar a servir-me de ti pela vagina – explicou Raul – não quero que os meus pelos se enredem nos teus piercings. Comecei a fazer depilação a laser aqui na clínica. Em Portugal, continuo.

Teresa sabia que o seu prazer não contava, mas não se pôde impedir de sentir que agora era mais agradável metê-lo na boca, sem ter que cuspir pelos. Começou a chupá-lo como ele lhe tinha ensinado, com ternura e respeito; mas desta vez experimentou uma técnica que tinha inventado: virar a cabeça para os lados de modo a poder acariciar-lhe a glande com a mucosa macia do interior das bochechas. De que ele gostou, não teve dúvidas. Mas também ela tinha uma necessidade o satisfazer, uma necessidade que não era física mas emocional: renovar a dádiva de si que estava no centro do seu amor por ele. Por isso se dedicou tanto, por isso apressou a carícia até sentir a boca inundada de esperma.

Limpou-o com a boca e com a língua: outra vantagem de ele se ter depilado era que esta limpeza era agora muito mais fácil. Depois sentou-se no chão, apoiou a cabeça nos joelhos dele e disse:

– É estranho como chupar-te me faz sentir propriedade tua mais do que qualquer outra coisa… e já estava a precisar de me lembrar, meu amor. Nunca deixes de usar a minha boca.

– Não, minha querida – respondeu Raul. – Também eu te sinto mais escrava quando te ajoelhas para me servir, e não quero nunca prescindir de te possuir assim…

Dois dias depois de sair do hospital, Teresa foi com Raul ao consultório do cirurgião. O médico ficou tão satisfeito com a evolução dela que chamou Raul para junto de si:

– Venha, venha ver… Olhe aqui, no interior dos anéis, como os tecidos estão a cicatrizar… Se continuarem assim, as cicatrizes vão ficar quase invisíveis, e os aros vão ficar bem firmes… É bom sua mulher ter os labia majora tão grandes e resistentes. Mas não se esqueçam que a cicatrização completa demora muito mais que a cicatrização visível… É importante que respeitem os prazos que eu lhes dei.

– Nós sabemos, doutor – disse Teresa. – Vamos respeitá-los à risca…

Teresa não se permitia a impertinência de andar calçada no hotel: considerava que este era, de momento, a casa de Raul, onde tinha de mostrar humildade e respeito; mas nos jardins ele mandou que ela usasse havaianas: um passo em falso, provocado por qualquer pedra no caminho, seria perigoso.

Nos dias seguintes, Teresa tirou os pontos. Onde os anéis de titânio lhe entravam na carne, a pele estava muito fina e rosada, mas não lhe doía nem apresentava sinais de inflamação. Um automóvel alugado com motorista permitiu-lhe visitar com Raul alguns centros de interesse e percorrer duma ponta à outra a enorme Avenida Paulista. Uma noite, aproveitaram a proximidade do Auditório Ibirapuera para irem ouvir a Sinfonia Fantástica de Berlioz: o edifício de Niemeyer impressionou-os, e a música, furiosamente romântica, harmonizava-se com o seu estado de espírito. Passavam, porém, tanto tempo no hotel que Raul ganhou o hábito de se servir de Teresa pela boca mais vezes por dia do que seria de esperar de um homem com quase cinquenta anos. Teresa, que já tinha aprendido muito sobre as preferências dele nesta área, teve ocasião de aprender ainda mais, agora que nada se interpunha entre ela e a pele dele: a infinita leveza com que era preciso beijá-lo ou tocá-lo no escroto, o prazer que era possível dar-lhe passando-lhe a língua no períneo, a maior profundidade a que era agora possível engoli-lo e a necessidade de reaprender a não se engasgar … A ideia de se dedicar durante várias semanas exclusivamente a chupá-lo seduzia-a particularmente, a ponto de nem lhe interessar muito que ele a acariciasse. Tinha-lhe dito um dia que por vezes fantasiava não ser para ele mais do que uma cona; pois agora tinha a oportunidade de não ser mais do que uma boca; durante alguns dias concentrou-se em aproveitá-la e não se importou de andar com os maxilares sempre doridos. Agora que fazia cada vez mais da boca uma vagina de substituição, Teresa achava-se cada vez menos no direito de falar. Sem que ele lho ordenasse, ganhou o hábito de pedir autorização antes de iniciar qualquer conversa:

– Posso falar, meu senhor?

Algumas vezes teve a surpresa de o ouvir dizer não, a ele que tanto gostava de a ouvir; mas estes silêncios impostos eram preenchidos, por um lado, por uma tensão erótica que a fazia cantar por dentro, e por outro por toda uma linguagem de gestos e olhares que era quase uma telepatia. Mas este período mágico tinha que terminar. No dia anterior ao do regresso a Portugal, Teresa, meio morta de vergonha, telefonou para a recepção a perguntar se lhe podiam indicar uma sex-shop que não fosse longe dali. Deram-lhe a indicação pedida, mas informaram-na que o próprio hotel poderia mandar entregar no quarto qualquer artigo mais corrente que a senhora desejasse. Era apenas um lubrificante, disse Teresa. Se era só isso, não precisava de ir à sex-shop: quando voltasse ao quarto, depois de a faxineira o arrumar, encontraria o que desejava no banheiro. E foi assim que Teresa deu a Raul a última abertura do seu corpo que lhe faltava utilizar. Bastou-lhe deitar-se nua sobre a cama, colocar uma bisnaga de lubrificante sobre a mesinha de cabeceira de modo a que ele reparasse, e pôr-se de bruços à espera.

– Queres dar-me o teu cuzinho? – perguntou Raul.

– Não te posso dar o que não é meu – respondeu Teresa. – O meu cu sempre foi teu, mesmo que nunca te tenhas querido servir dele. Mas, se não é ousadia uma escrava exprimir um desejo, gostava que te servisses dele hoje.

Raul deu uma risada:

– É verdade, já é meu – observou. – E é verdade, és uma escrava muito ousada.

– Aqui dizem abusada – interrompeu Teresa.

– Ousada ou abusada, vou-te fazer a vontade: prepara-te, porque não vou ter dó de ti.

Despiu o roupão e começou a acariciar as nádegas de Teresa, que se levantavam de encontro à mão dele como se tivessem vontade própria. A esta carícia seguiram-se duas ou três leves palmadas, que lhe rosaram a pele e a fizeram respirar um pouco mais fundo. Quando a viu ficar um pouco excitada, Raul pôs um pouco de gel nos dedos e começou a massajá-la em volta da abertura de trás, aproximando-se cada vez mais do centro e acabando por lhe introduzir o dedo indicador, primeiro só até à primeira articulação, depois até à segunda, por fim até à base.

Quando lhe encostou ao ânus a ponta do pénis, que também tinha lubrificado cuidadosamente, disse-lhe que fizesse força para fora, como se estivesse a fazer sair qualquer coisa e não a deixá-la entrar. Teresa sorriu: este truque, conhecia-o ela dos seus anos de puta. Sempre tinha tentado evitar o sexo anal, mas nem sempre isto dependera da sua vontade. Mas agradou-lhe que Raul a tratasse como a uma jovem inocente; e de facto, desde a última vez que tinha sido possuída por trás, tinham-se passado tantos anos que o rabo se apertara de novo. Apesar Raul de ter tido todo o cuidado em lubrificá-la e em lubrificar-se, teve muito menos ao penetrá-la. Isto agradou a Teresa: sexo por trás é para doer, pensou; e embora gemesse de dor, virou a cara para e entreabriu os lábios num convite a que ele a beijasse.

O voo de volta foi mais difícil para Teresa do que tinha sido o de ida. Raul tinha comprado lugares em primeira classe, para que Teresa, sentada sobre os seus piercings, tivesse mais amplitude para ajustar a sua posição no assento – necessidade esta que ter o rabo dorido tornava agora mais premente. Reservara um lugar junto à coxia, para que ela se pudesse pôr de pé algumas vezes. Mas tratava-se dum voo nocturno, e Teresa também dormiu não podia passar o tempo todo a passear pela coxia.

Chegaram a Pedras Rubras, estremunhados, às nove da manhã. À sua espera estava Milena, muito engomada no seu uniforme de empregada, e com ela Ana e Miguel, que os acompanharam a casa. Depois do pequeno-almoço, Raul mandou Teresa deitar-se no sofá, levantou-lhe a saia e examinou-lhe o sexo: nos pontos de inserção dos piercings, a carne estava um pouco inchada e avermelhada. Depois do duche, que tomaram juntos, Raul fez questão que ela se secasse bem antes de ele próprio aplicar a pomada desinfectante e anti-inflamatória que o médico tinha receitado. Passaram o resto da manhã na cama, a descansar e a conversar. Almoçaram em casa, servidos por Milena, que pôs sobre a cadeira de Teresa a almofada mais macia que havia em casa; e de tarde passearam um pouco a pé: foram até à Rotunda da Boavista, à Casa da Música, tiraram fotografias um ao outro como um par de namorados e pediram a um casal de turistas que os fotografasse juntos.

– Espere, deixe-me tirar os sapatos! – disse Teresa.

Enquanto a senhora, já de cabelos brancos, lhe segurava os sapatos para que não ficassem caídos no chão a estragar a foto, o marido tirava-lhes o retrato, sorrindo com indulgência da veleidade romântica de Teresa.

De novo em casa, Raul foi para o escritório e mandou Teresa de novo para a cama: queria-a de pé ou deitada; mas sentada, o mínimo possível. À noite não quis possuí-la por trás: era sua intenção fazê-lo raramente, de modo a que a abertura se mantivesse sempre apertada. Ele também acha que por trás é para doer, pensou Teresa; e pôs no beijo que deu a Raul um pequeno extra de ternura.

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Ouçamos o que nos diz uma escrava: «não aceito ser humilhada». Tentemos entendê-la. Ela tem um Senhor, e ama-o. Define a sua escravidão em três palavras: servir, obedecer, sofrer. É assim que ela sabe e quer amar; e como o seu ideal de amor é infinito, sente como uma imperfeição qualquer limite à sua capacidade de servir, de obedecer ou de sofrer.

Ouçamos o Senhor desta escrava. Ele ama-a, e respeita-a, e nunca perdoaria a si próprio se a humilhasse. As modalidades do seu amor por ela são o domínio e a posse: é assim que ele sabe e quer amá-la. Exige dela que o sirva na perfeição, que lhe obedeça com dedicação e inteligência, que aceite e agradeça o sofrimento que ele lhe provoca. Usa o direito que tem de a punir para a consolar de não ser perfeita. Se a castiga sem ela ter cometido qualquer falta, está-lhe a dizer com cada golpe de vergasta: «és minha, tenho este direito sobre ti, e como o tenho, exerço-o». Ela, que quer ser dele, compreende, aceita e agradece o castigo – e porque se sente possuída, sente-se amada.

Se a castiga por uma falha dela no seu dever de servir e obedecer, está a dizer-lhe: «sei bem, meu amor, que não és perfeita; sei também o quanto queres sê-lo; exijo-te que te aproximes sempre mais da perfeição, mas não te exijo que chegues lá. Ninguém chega lá. Vê: serviste-me mal, ou obedeceste-me mal, ou talvez até me tenhas desobedecido de propósito; mas agora vais saber sofrer bem. Fica sabendo que te amo tanto na tua imperfeição como amaria um anjo».

Com outra escrava, com outro Senhor, tudo isto que estou a escrever seria diferente. Mas mantenhamo-nos com estes dois.

Como poderia este Senhor humilhar esta escrava? Humilharia a sua escrava, certamente, se desprezasse a sua dádiva de serviço, obediência e sofrimento. Se a aceitasse sem lhe dar valor, como se fosse coisa pouca. Quando esta escrava diz que não aceita ser humilhada, está a pedir ao seu Senhor que dê à sua dádiva o valor que ela tem, e que é imenso. Uma escrava tem muito poucos direitos: mas este, tem-no, certamente.

Humilharia a sua escrava, também, se não soubesse reconhecer a diferença entre um limite alegado e um limite real. O limite alegado está aquém do limite real (também por isto ela se sente imperfeita). Ao levá-la-la a ultrapassar um limite alegado, estará no seu direito de Senhor, e não estará a humilhar a sua escrava, mas sim a honrá-la. Se a levar além do que ela quer fazer, continua no seu direito: toda a verdadeira escrava sabe e aceita que faz parte da sua condição fazer muitas vezes o que não quer, e muitas vezes não fazer o que quer. Mas se o seu Senhor a levar além do que ela pode fazer, isso será uma humilhação que deixará feridas, talvez incuráveis.

É difícil para um senhor distinguir entre o que a sua escrava não quer fazer e o que ela não pode fazer – e tanto mais difícil quanto é certo que ela própria pode não saber distinguir. Mas aí a responsabilidade é dele, e não dela.

A escrava tem dignidade; e como tem dignidade, tem vontade; e como tem vontade, tem querer. E tanto tem querer, que quis fazer uma dádiva de si própria; tanto tem querer, que quer ser perfeita. E a beleza terrível da sua escravidão está nisto: ela tem querer, mas não tem quereres.

E é por isso que há momentos em que o senhor respeita a sua escrava tanto mais, quanto mais a humilha. A humilhação é respeito quando ele lhe proíbe quereres; quando lhe proíbe caprichos; quando lhe proíbe certos pudores. São momentos em que é direito dele, e talvez dever dele, humilhá-la; mas não são estas as humilhações que ela tem em mente quando diz «não aceito ser humilhada».

São estas, também, as humilhações que a escrava pode evitar humilhando-se ela antes, num jogo em que ambos – ela e o seu Senhor – encontrarão o mais requintado dos prazeres.

Mencionei acima a «beleza terrível» da escravidão desejada. É terrível porque infunde terror: e não só o infunde na escrava, como em todos à volta, incluindo o seu Senhor. Saiba o Senhor maravilhar-se com tamanha beleza; saiba ele sentir, sem lhe ceder, o terror que esta beleza infunde: saberá assim respeitar a sua escrava; e se entender que deve humilhá-la, saberá fazê-lo só na medida em que esta humilhação eleva os dois.

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Finalmente, mais um excerto do meu romance. Corresponde à segunda metade do capítulo 5.

O tempo tinha arrefecido e foi-lhes agradável regressar ao aconchego do apartamento. Teresa tirou as sandálias e o casaquinho e perguntou a Gustavo:

– Que música queres ouvir?

– Hmmm… – disse ele. – Tens Miles Davis?

– Tenho para aí alguma coisa – disse ela, e pôs-se a procurar entre os CD’s.

Por fim encontrou o que queria.

– Vais gostar disto – disse.

E enquanto a música começava a tocar baixinho dirigiu-se para Gustavo e fez menção de se sentar de novo aos pés dele.

– Assim não – deteve-a ele. – Toda nua.

– Toda nua?! – sorriu ela.

– Toda nua.

Teresa abriu mais o sorriso:

– Se o meu Senhor manda…

E sem mais demora despiu e arrumou toda a roupa que trazia vestida, que se resumia afinal à saia e à blusa. Depois sentou-se na mesma posição em que estivera antes, e enquanto ele lhe ia acariciando ora os cabelos, ora os seios, ora qualquer outra parte que achasse à mão, começou a conversar com ele sobre as trivialidades do dia: as compras dela, a viagem dele, a maçada em que os aeroportos se vão transformando cada vez mais… Por vezes caíam em confortáveis silêncios, durante os quais não faziam mais do que ouvir a música e tocar suavemente um no outro. Quando o CD chegou ao fim Teresa trocou-o e assim ficaram os dois, a embeber-se lentamente da presença um do outro.

– Vamos para a cama? – disse Teresa, quando o viu bocejar.

– Vamos.

– Então anda.

Na casa de banho mostrou-lhe o que tinha previsto para o acolher:

– Este é o teu roupão… as tuas toalhas… os teus chinelos…

Enquanto um tomava duche, o outro lavou os dentes. Secaram-se um ao outro com as toalhas. E por fim, sem que Gustavo se preocupasse em fazer uso do roupão ou dos chinelos que Teresa tinha disposto para ele, dirigiram-se nus para a cama, que Teresa abriu rapidamente e onde colocou duas enormes almofadas.

Na cama abraçaram-se e começaram a percorrer com as mãos e os lábios o corpo um do outro. Desde o primeiro toque Teresa sentiu a erecção de Gustavo, mas como ele não se mostrou apressado ela também não. Via-lhe, porém, as olheiras e os olhos um pouco raiados de sangue: estava cansado da viagem, e da lauta refeição que ela lhe tinha dado.

– Estás cansado, meu Senhor.

Gustavo sorriu-lhe:

– Estou, mas não tanto que não possa fazer as honras à última iguaria deste banquete…

Teresa, apalpando-lhe o pénis, respondeu:

– Isso estou eu a ver. Mas deita-te para trás, queres? Deixa-me ficar por cima e fazer todo o trabalho…

Gustavo deitou-se de barriga para cima no meio da cama, apoiou comodamente a cabeça na almofada, fechou os olhos e dispôs-se a gozar os prazeres que Teresa lhe proporcionasse. Esta passou-lhe uma coxa por cima do corpo, pegou-lhe no pénis e guiou-o para dentro de si, começando a mexer os quadris com movimentos lentos mas seguros. Conforme a inclinação que ela dava o corpo, Gustavo sentia-lhe a carícia, por vezes dos cabelos, por vezes dos seios macios. Abandonando a sua atitude passiva, pôs os braços à volta dela e começou a acariciar-lhe com mão firme as costas, as nádegas e a parte de trás das coxas. Ao sentir estas carícias, Teresa inclinou-se sobre ele e murmurou-lhe ao ouvido:

– Dá-me umas palmadas…

Antes de lhe dar a primeira palmada, Gustavo ainda continuou a apalpar-lhe as nádegas durante algum tempo. Depois ergueu a mão direita a uma altura suficiente para que ela ganhasse velocidade ao descer sobre o corpo de Teresa. Não bateu com força: estava mais interessado no efeito sonoro do que na sensação provocada.

– Sim… – disse Teresa; e começou a beijar Gustavo no peito ao mesmo tempo que soltava os quadris numa dança fogosa.

Com a segunda palmada Gustavo procurou abranger ambas as nádegas de Teresa; esta reagiu como a um choque eléctrico, com um repelão de todo o corpo, e redobrou os beijos apaixonados com que cobria o corpo do amante. Mas a terceira palmada estragou tudo: no momento em que a palma da mão atingiu o corpo de Teresa, Gustavo sentiu uma angústia tão intensa como inexplicável. O ar pareceu-lhe subitamente gelado, o sexo ficou-lhe flácido, e recordou a imagem, que julgava ter esquecido, dum rosto de mulher no Kosovo. Com um som que era em parte suspiro, em parte gemido, e em parte grito de protesto, rolou na cama de modo a sair de dentro da amante.

– Que foi?! – perguntou ela, alarmada. – Que foi, meu querido?!

– Não sei… Não sei bem. Lembrei-me duma coisa, duma coisa de que não devia ter-me lembrado.

Teresa juntou de novo as pernas mas continuou inclinada sobre ele, numa posição de tanta intimidade como a anterior, mas inteiramente doutra ordem. Os seios, pendendo suavemente sobre o peito dele, continuavam a ser um afago; mas agora este afago confortava-o em vez de o excitar.

– Conta-me, meu amor. Conta-me tudo.

E Gustavo contou. A mulher chamava-se Merita. Nunca tinha sido possível apurar a sua idade exacta, mas devia ter entre os vinte e os trinta anos. Quando ele, acompanhado duma psicóloga e duma agente da polícia local, entrou na sala onde ela estava a fim de tomar algumas notas, ela correu para um canto e ficou lá encolhida a olhar para ele com os olhos dum animal acossado. Teve que sair. Explicaram-lhe depois que era sempre aquela a sua reacção na presença de um homem, e que se as duas mulheres o tinham levado com elas era porque tinham tido esperança que ela estivesse a ultrapassar este trauma. A história dela era como a de tantas outras: um oficial das forças de manutenção de paz precisava duma mulher e de um apartamento para a guardar. As máfias locais estavam em posição de lhe fornecer estas comodidades, por um preço razoável. Merita era uma jovem viúva de guerra, sem família nem amigos que a protegessem. Foi fácil raptá-la, adaptar à pressa uma casa isolada e levá-la para lá, e entregar a chave ao cliente. Segundo os testemunhos recolhidos pelos psicólogos, Merita tinha sido, antes de ser raptada, uma mulher voluntariosa e senhora do seu nariz, perfeitamente capaz de regatear duramente no mercado da aldeia e de responder taco a taco a qualquer agressão física ou verbal. A mulher que os soldados, na sequência duma denúncia anónima, encontraram na casa isolada não era nada disto: era um animalzinho aterrorizado, incapaz de se exprimir por palavras, obediente a meia dúzia de ordens específicas dadas em inglês, mas aparentemente incapaz de compreender quaisquer outras palavras, mesmo na sua própria língua. O facto de ela reagir a ordens em inglês permitiu que se descobrisse rapidamente que o oficial em causa era um americano; e como estes tinham as suas próprias estruturas de justiça militar, separadas da estrutura multinacional em que Gustavo estava integrado, o caso passou rapidamente para as mãos deles; e Gustavo, envolvido em muitos outros, tinha-o esquecido até agora.

– Ainda bem que a coisa passou para as mãos deles – disse Gustavo, enquanto Teresa lhe afagava levemente os ombros e o peito. – O tipo acabou por ser condenado a uma pena muito mais dura do que aquela a que nós o condenaríamos. Mas mesmo assim leve demais. E queres saber o que me deu mais volta à cabeça?

Teresa beijou-o ao de leve no peito:

– Diz…

– Fisicamente, esta mulher estava de boa saúde. Consegues imaginar isto? De boa saúde. Um pouco desnutrida, mas veio a saber-se mais tarde que o homem até era cuidadoso com a alimentação dela; ela é que muitas vezes não queria ou não conseguia comer. E não tinha quaisquer marcas de maus tratos: o fulano reduziu-a ao que a reduziu com base apenas em técnicas em pressão psicológica e em palmadas no rabo. Ainda agora não compreendo: vi outras mulheres com queimaduras, com marcas permanentes no corpo com vestígios das torturas mais inconcebíveis, e mesmo assim menos degradadas psicologicamente do que ela. Ela própria tinha suportado, durante a sua vida de casada, maus tratos piores, sem que a sua auto-estima fosse afectada por isto. E este gajo, só com a palma da mão, fez dela o que fez…

Ditas estas palavras, Gustavo calou-se. Teresa, vendo-o perdido em pensamentos, respeitou este silêncio e limitou-se a beijá-lo de vez em quando, enquanto ele a acariciava, quase distraidamente, nas costas.

– Foi disto que me lembrei – recomeçou ele subitamente. – E subiu por mim acima um asco, uma vergonha…

Teresa deixou que o silêncio se prolongasse de novo. Por fim, sem deixar de o acariciar como a um animal nervoso, disse:

– Mas antes de ires para o Kosovo já tinhas feito isto com mulheres…

– Tinha, claro que tinha – respondeu Gustavo.

– E não sentiste nojo, nem vergonha, nem culpa…

– Não, é claro que não. Senti prazer, e elas também.

Teresa recomeçou a beijá-lo e a acariciá-lo sem dizer nada. Quando entendeu que tinha passado tempo suficiente, perguntou-lhe:

– E com a tua mulher?

– Com a Isabel? A Isabel é um caso aparte. É diferente de qualquer outra pessoa que eu já tenha conhecido, homem ou mulher. Parece-me incapaz de sentir dor ou prazer… Não, não é bem isso: sente dor e prazer, mas com muito pouca intensidade.

– Fisicamente, queres tu dizer?

– Fisicamente, psicologicamente, moralmente… De todas as formas. De início não me apercebi disto. Mas com o tempo comecei a acreditar que para ela o único verdadeiro prazer é ter dinheiro e o único verdadeiro sofrimento é não o ter.

– Não é caso único…

– Que eu conheça, é. E depois há outra coisa, que não sei se é impressão minha: o corpo dela parece feito de borracha dura. Tem uma consistência diferente, que parece que não é de mulher nem de homem… Estou a explicar-me muito mal.

– Não faz mal. Continua.

– Uma vez assisti a uma coisa… trilhou-se a fechar a porta do carro. Ficou com um daqueles vergões vermelhos, muito brancos nas bordas… Sabes? Olha-se para aquilo e vê-se logo que causou uma dor horrível.

– E ela?

– Qualquer outra pessoa teria dado um grito, soltado um palavrão, segurado com a outra mão a parte atingida… Ela não. Olhei para a cara dela e o que vi foi uma expressão petulante, de contrariedade, como se alguém ou alguma coisa tivesse falhado uma obrigação qualquer para com ela…

– Deixava-te bater-lhe?

– Quando eu me portava bem, quer dizer, quando fazia alguma coisa que pudesse conduzir a uma promoção, ou a mais dinheiro. Mas deixava-me bater-lhe como me deixava beijá-la, ou fodê-la: tanto lhe fazia. E eu acabei por me desinteressar tanto duma coisa, como das outras. Nos últimos anos do nosso casamento deixámos de ter relações sexuais.

Chegada a conversa a este ponto, pareceu a Teresa que era chegada a altura de menos palavras e mais acções. Os beijos e as carícias que não tinha parado de dar a Gustavo tornaram-se de novo mais deliberados, e ele correspondeu concentrando-se mais no corpo dela. Mas não recuperou a erecção anterior, ainda que o pénis lhe pulsasse um pouco e ficasse meio direito. Teresa deixou que este período de carícias recíprocas se prolongasse como se estivesse disposta a contentar-se com ele a noite inteira. Mas por fim, quando o viu sorriu de prazer, disse-lhe:

– Meu Senhor… Se a tua escrava te pedir muito uma coisa, tu fazes-lha?

– O que é?

– É uma coisa que não vais querer.

– Como assim?! Julguei que os senhores é que pediam às escravas coisas que elas não queriam…

– Não pedem, ordenam. E as escravas obedecem. Eu não te estou a ordenar, estou-te a pedir…

– Seja, estás-me a pedir. E é uma coisa que eu não vou querer…

– Sim.

– E que tu me pedes por uma razão qualquer que não me dizes…

– Sim. Uma boa razão, disso estou certa. Terás que confiar em mim. Terás que confiar muito em mim. Prometes?

Aos ouvidos de Gustavo isto soou como um desafio ao qual se misturava um apelo e uma dádiva. E tinha-se comprometido a aceitar todas as dádivas, mesmo as mais imprevisíveis, que lhe viessem desta mulher imprevisível. Sorriu para si próprio: aquele pedido tão humilde era na realidade uma ordem. Bem merecia esta Teresa o seu nome. Respondeu:

– Sim, Teresa, prometo. Seja o que Deus quiser.

Teresa encarou-o, muito séria:

– Meu Senhor, vês ali, entre a zona de dormir e a de estar, aquela cadeira muito sólida. Repara que não tem braços. Peço-te por favor que me leves até ela, que te sentes, que me estendas de bruços sobre o teu colo e que me dês uma severa e prolongada tareia de palmadas. Peço-te que faças isto mesmo que não tenhas prazer. Peço-te que o faças mesmo que sintas vergonha ou culpa. E não é para eu ficar com as nádegas rosadas: é para ficar com elas vermelhas, vermelhas escuras. És capaz de fazer isto que a tua escrava te pede?

Ricardo afastou para o lado as roupas da cama, com um gesto tão violento que caíram no chão e os deixaram aos dois nus sobre os lençóis. Segurou Teresa rudemente pelos ombros e afastou-a de si a todo o comprimento dos braços, como que para a ver melhor. Fixou nela os olhos irados e encontrou em resposta um olhar sereno e directo. Com um gesto brusco saiu da cama e foi sentar-se na cadeira.

– Anda! – comandou. – De que estás à espera?

Teresa foi ter com ele sem pressa mas sem hesitação. Viu-o rígido na cadeira, a tremer de cólera mal contida. Ainda bem. Era exactamente assim que o queria naquele momento: furioso. Logo que chegou deitou-se de bruços sobre o colo dele e esperou pela primeira palmada. Esta, tal como ela previra, não foi meiga. Nem foram meigas as que se lhe seguiram; cada uma detonava no apartamento como um tiro, e se não fossem as paredes grossíssimas do edifício os vizinhos teriam motivos para ficar intrigados.

Logo aos primeiros golpes Teresa ficou a saber que Gustavo sabia bem castigar uma mulher. Dominada pela dor, mal conseguia estar atenta ao sinal de que estava à espera; mas finalmente sentiu o pénis do amante a enrijar e a erguer-se, obrigando-a a ajeitar-se para criar uma abertura entre o corpo dela e o dele de modo a acomodar esta erecção. As palmadas dadas por um Gustavo excitado não eram mais suaves do que as que lhe tinha dado o Gustavo furioso de minutos antes, mas eram mais espaçadas, mais dirigidas a zonas específicas. A dor, quase intolerável, levava-a a gemer, ou mesmo a soltar um pequeno grito de vez em quando. De que cor teria agora as nádegas? De um vermelho tão escuro como o que tinha pedido? Não sabia, mas o ritmo regular das pancadas indicava que o castigo estava para durar.

Quando ele parou, Teresa ouviu-lhe a respiração arfante e sentiu as pingas de suor que caíam sobre ela. Estava cansado. Mas em vez de terminar o castigo, passou a utilizar a mão esquerda – o que tornaria as palmadas menos dolorosas para Teresa se não tivesse as nádegas já tão sensíveis. Ouviu-o arfar cada vez mais alto, sentiu-lhe o suor cada vez mais abundante, mas mesmo assim as palmadas não pararam durante muito tempo. Teresa já tinha sofrido castigos mais dolorosos do que este, mas todos eles tinham sido aplicados com chicotes ou outros instrumentos. Nunca imaginara que um castigo aplicado com a mão pudesse ser tão severo.

Enfim, uma pausa. Ouviu, vinda lá de cima, a voz rouca, e ainda um pouco zangada, do amante:

– Já chega?

Ai chegava, chegava! E de que maneira! Tinha as nádegas em fogo, e parecia-lhe que não seria capaz de suportar nem o toque duma pena. Mas em vez de responder “sim”, arranjou força e ousadia para dizer:

– Tu é que sabes, meu Senhor.

A estas palavras, Gustavo mudou de novo para a mão direita e assentou-lhe uma série de palmadas que foram com toda a certeza as mais fortes dessa noite. Quantas? Seis, dez, doze; Teresa, perdida de dor, não pôde contá-las. Por fim levantou-se bruscamente da cadeira, sem cuidar que a atirava ao chão. Inclinou-se para lhe pegar por um pulso e puxou-a para a cama, obrigando-a a segui-lo meio a correr, meio aos tropeções. Ao aterrar de costas, Teresa sentiu a dor provocada pelo contacto entre os lençóis e a sua pele dorida. Mas mal teve tempo para soltar um ai, porque Gustavo já a penetrava duma estocada só, fazendo-a estremecer toda com o embate dos corpos. As estocadas seguintes não foram menos rudes, mas ela já não lhe sentiu a rudeza, nem a dor das nádegas doridas a embater na cama, porque desde a primeira penetração foi avassalada por uma sucessão de orgasmos, ou por um só orgasmo interminável, que lhe obliteraram qualquer vestígio de dor.

Gustavo, por seu lado, ao penetrar Teresa, já não estava movido por qualquer vestígio de cólera, mas sim por um puro, inocente desejo, por uma exultação avassaladora. O fogo em que ardia fogo que tinha-o purificado, pelo menos por agora, de toda a vergonha, de toda a culpa e de toda a ira. Dominou-se para prolongar o prazer, mas não tentou dominar o vigor nem a amplitude dos seus movimentos sobre o corpo receptivo da fêmea.

Depois de tudo terminar deixaram-se ficar, fazendo travesseiro e colchão do corpo um do outro. Quando por fim olharam de novo para o rosto um do outro, Teresa sorriu para Gustavo e disse:

– Hmmm… Meu Senhor, se soubesses como eu estava a precisar duma coisa assim…

Gustavo devolveu-lhe o sorriso:

– Eu também, podes ter a certeza.

Teresa deu-lhe uma sapatada de brincadeira:

– Ah, sim?! Andavas precisado, era? E deste conta do que me fizeste?

Ricardo encolheu os ombros:

– As palmadas? Claro que me dei conta. Ficaste com o rabo da cor daquele Barolo que bebemos ao jantar… Aliás, mais daqui a bocado tenciono inspeccioná-lo para ver se já está na cor certa ou se ainda é preciso ajustá-la.

Desta vez Teresa deu-lhe um murro:

– Não estou a falar das palmadas, estúpido! Estou a falar da maneira perfeitamente desaustinada como me possuíste a seguir. Amanhã nem sei se vou conseguir andar. Ou então vou andar por aí de pernas abertas… Achas isto bem?!

– Oops! – fez Gustavo.

– Deixa lá – disse Teresa. – Como já te disse, era disso que estava precisada.

Depois de um breve silêncio Gustavo recomeçou a conversa:

– Só não entendo uma coisa. Disseste-me várias vezes que a dor física não te excita nem te dá prazer…

– E é verdade.

– Mas quando eu te penetrei depois daquela tareia estavas tão excitada que começaste logo a vir-te. Afinal as palmadas excitaram-te ou não?

Teresa suspirou e ficou um momento a ordenar as ideias.

– Olha, Gustavo – disse por fim. – Se aquelas palmadas me tivessem sido dadas por um homem a quem eu não amasse, não me teriam dado prazer nenhum. Sei disto por experiência. Se me tivessem sido dadas para me forçar a uma submissão indesejada, não me teriam provocado outra coisa que não fosse revolta. Entendes isto?

– Claro que entendo.

– O meu prazer não esteve em ser castigada. Esteve em poder ser castigada. Esteve em tu teres esse direito. Nunca mais te pedirei um castigo como te pedi hoje, mas aceitarei sempre com gratidão todos os que me deres, por mais severos que sejam. Não me interessa que mos dês por eu os ter merecido, ou que mos dês porque te dá prazer. Em todo o caso dar-mos-ás porque tens esse direito. É isto que precisas de saber.

– E achas que ainda não sei?

– Não acho, tenho a certeza: ainda não o sabes suficientemente. Mas hoje fizemos progressos: o teu corpo, ao menos, já sabe muito bem que sou propriedade tua.

Estas palavras, disse-as Teresa já num bocejo. Gustavo ia responder-lhe, mas viu que não valia a pena: ela já estava a dormir. Levantou-se da cama, pegou nas roupas que tinha lançado ao chão, cobriu com elas a amante, deitou-se ao lado dela e adormeceu por sua vez.

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(Ao preparar para publicação a colectânea “Histórias de Mariana”, introduzi modificações em alguns dos contos que a constituem, entre eles “Alice”. Não vou publicar aqui de novo este conto, que é muito extenso, mas publico um episódio que desenvolvi bastante: o do aniversário de Alice e da sua dádiva a Harun.)


[ … ] Harun deu-lhe uma pulseira de rubis.

Depois de ela a desembrulhar e pôr no pulso fez-se um silêncio na sala, como se a dádiva desta pulseira, que era no feitio daquelas a que se chama “escrava”, fosse o sinal combinado para algo de momentoso. No meio deste silêncio Harun levantou-se e ficou um momento, pálido e muito grave, a olhar de frente para Ricardo.

– Ricardo – disse Harun, – também eu, apesar de não fazer anos, tenho uma dádiva a pedir. Você sabe que dádiva é, todos aqui sabem. A Alice, que hoje se torna aos nossos olhos uma mulher, tem estado à sua guarda. Eu e ela fomos aprendendo a conhecer-nos; e concluímos os dois, sem margem para dúvidas, que é destino dela pertencer-me e destino meu possuí-la. Sabemos ambos, e agradecemos-lho do fundo do coração, que você nunca quis exercer sobre ela os direitos de um dono, mas também nunca recusou exercer as responsabilidades de um mentor. É nesta sua qualidade que ma entregará, se quiser aceder ao meu pedido − que também é o dela: aqui e agora, diante de todos; para que também ela, como a sua Mariana, tenha o Senhor que quer.

Alice corou um pouco. As palavras que ela própria tinha ajudado a escrever e a decorar soavam-lhe agora, saídas da boca de Harun, como um improviso surpreendente e ousado. Olhando à sua volta, viu todos suspensos da resposta de Ricardo, como se também eles estivessem, de facto, surpreendidos.

Ricardo pôs-se de pé e encarou Harun; mas antes de responder desviou dele o olhar, virou-se para Alice, e perguntou:

– Alice, ouviste o pedido que o Harun me fez. Ouviste-o dizer que é também o teu pedido. Isso é assim?

Alice teve que se esforçar para dizer em voz firme e clara as palavras que tinha preparado:

– O meu Senhor Harun falou por mim, Ricardo. É a ele que quero pertencer.

Mas Ricardo não se virou logo para Harun. Olhando para a tia de Alice, disse ainda:

– Safira, ouviu o Harun pedir-me que lhe entregasse a Alice; podia igualmente ter-lho pedido a si, que é a única familiar que ela tem e sempre foi bem-vinda nesta casa. Por isso quero perguntar-lhe: Consente você também, tal como eu consinto, nesta entrega?

Safira acenou, com lágrimas nos olhos:

− Se é o que ela quer…

– Pois bem – decidiu Ricardo. – Vá para ali, Harun, se faz favor, onde todos o possam ver. E tu, Alice, vai até ele; beija-lhe a mão em sinal do teu respeito.

Alice levantou-se da cadeira com as pernas a tremer. Levantando o vestido para não enredar nele os pés, dirigiu-se ao seu companheiro de tantas aventuras, agora quase irreconhecível na sua gravidade de homem feito; e pegou-lhe na mão para a beijar. Era uma mão magra e morena, de dedos finos e longos. Pôs nela os lábios, demoradamente, e depois ergueu o olhar ao encontro do dele, que a abraçou e beijou enquanto à volta da mesa as mulheres enxugavam uma ou outra lágrima.

Ricardo, mantendo o ar grave de quem presidia a um ritual, perguntou ainda:

− Tens alguma coisa a acrescentar ao que já foi dito?

A um sinal afirmativo de Alice, uma das gémeas entregou-lhe uma pequena pasta em couro que ela abriu para dizer:

− Harun: eu, Alice, declaro perante todos os presentes que me dou a ti como tua propriedade e tua escrava. Dou-te todos os direitos sobre mim para que faças de mim e comigo o que entenderes. Prometo amar-te, respeitar-te, obedecer-te e servir-te enquanto os dois vivermos e tu me quiseres.

Mal tinha precisado de olhar para o papel para dizer isto. Quando terminou, entregou a pasta à gémea que lha tinha dado e ajoelhou-se. A gémea entregou a pasta a Harun. Este, virando as costas a Alice, dirigiu-se aos outros:

− Ricardo, Gunther, Safira; e vós, Circe e Atena, que sois rainhas e princesas ocultas da minha gente: declaro perante vós que aceito a dádiva que acaba de me ser feita por esta mulher, Alice, que todos conheceis. Prometo-vos amá-la, respeitá-la, guiá-la e possuí-la de modo a que cresça e floresça sempre como mulher e como minha escrava. E a vós, Mariana e Silke, já que como escravas que sois não podeis ser parte em nenhum contrato, peço-vos que sejais pelo menos testemunhas deste. E a ti, Alice, que também já não podes ser parte neste meu compromisso mas és o seu objecto e razão de ser, ordeno-te que o guardes na memória até ao fim dos teus dias.

Alice e Harun tinham já assinado os respectivos compromissos. Coube às gémeas assinar os dois, não se sabe se na qualidade só de testemunhas, se de autoridade avalizadora; e com isto terminou a formalidade que tornava Alice definitivamente escrava de Harun. Nessa noite a jovem passou o serão sentada no tapete aos pés de Harun, como Mariana aos pés de Ricardo. […]

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(1. Nota do tradutor: o texto que se segue não é ficcional, mas sim
um ensaio autobiográfico da autoria de Polly Peachum, e é o primeiro de dois que eu tinha prometido traduzir para apresentar neste blog. Pessoalmente considero-o de leitura obrigatória para quem encara as questões de domínio e submissão sexual como algo inseparável dos afectos e dos projectos de vida, bem como quem se interessa pelas suas implicações filosóficas, psicológicas e morais. Devido à sua extensão publico-o em várias partes).

(2. Nota dos editores do site Diferent Loving:
Depois de ter sido contactada por uma conhecida escritora feminista da Terceira Vaga que tinha lido algum do seu trabalho no newsgroup da USENET alt.sex.bondage, Polly Peachum escreveu “Violência no Jardim” para incluir numa colectânea de ensaios feministas da Terceira Vaga. O objectivo declarado do livro era demonstrar que uma mulher pode ser feminista ao mesmo tempo que vive uma vida incompatível com os princípios feministas tradicionais. Embora a editora do livro tenha gostado muito do artigo e o tenha considerado uma das peças mais fortes da colecção, decidiu, influenciada por outras feministas doutrinárias, não o incluir porque a vida e as ideias que ele descreve são demasiado controversas (ou “doentias”, na expressão de uma das suas colaboradoras) e atrairiam a atenção dos media para este ensaio em particular e não para o livro em geral. Pelos vistos, as mulheres cujos estilos de vida se parecem com o de Polly não são dignas de atenção, para já não falar de serem dignas de defesa, por parte das feministas tradicionais.)


.. O locus da fantasia dum homem com sorte não contém robots;
.. duma mulher com sorte, não contém predadores; chegam à idade adulta
.. sem violência no jardim.
……………………… ………………………………….. Naomi Wolf

Temos um gato doméstico, e por isso todas as manhãs, a título de mimo especial, carrego nos braços o nosso tigrezinho cinzento enquanto passeio pela selva caótica a que os nossos vizinhs erradamente chamam o seu jardim. Enquanto levo ao colo o meu gato ao longo de um trilho boerdejado com flores quase trinta centímetros mais altas do que eu, passando por uma massa escura de pinheiros, e para trás à roda da magnólia e dum canteiro de tomates que faz por sobreviver, dou por mim muitas vezes a devanear sobre quem ou o quê poderá estar escondido na vegetação, a olhar para mim com olhos esfaimados. Na minha imaginação “sem sorte”, o jardim sombrio e fértil está povoado de predadores. Por trás de cada arbusto, esgueirando-se fora de vista dentro das sombras, está alguém mais forte e mais brutal do que eu, alguém que me quer subjugar e curvar-me à sua vontade, alguém que quer torturar-me ou humihar-me cruelmente só para me ver corar, choramingar ou gritar de dor.

É um devaneio maravilhoso, arrebatador, e eu vivo uma versão dele, menos feral, na minha vida quotidiana. Vivo a minha vida como uma escrava a tempo inteiro no contexto duma relação sadomasoquista heterossexual. Sei que para muitas pessoas isto pode fazer-me parecer uma vítima auto-destrutiva, viciada em abuso. Esta perspectiva não é correcta nem justa. Os meus devaneios da selva (e a minha realidade concreta) representam a realização de desejos sexuais que são para mim de longe mais positivos – embora radicalmente diferentes – daquilo que a maior parte das pessoas considera saudável ou mesmo são de espírito.

Nao estou sozinha em ter esta espécie de sonhos. De acordo com um estudo mencionado por Naomi Wolf em The Beauty Myth, (1), o Dr. E. Hariton conclui que 49% das mulheres americanas estudadas têm fantasias de submissão. Como eu, sonham ser capturadas, batidas, chicoteadas, controladas e usadas como um brinquedo. Mas como a dominação sexual, a submissão e o sadomasoquismo em geral são olhados com horror e repulsa pela sociedade convencional, muitas pessoas com fantasias de submissão, mulheres ou homens, ficam-se pela fantasia. Eu, porém, fiz a escolha de tornar as minhas fantasias realidade, e ao fazê-lo realizei os sonhos que mais acalentava. Acredito que sou uma das pessoas mais felizes e realizadas que conheço. Tenho a certeza que devo a minha felicidade a um simples facto: prossegui e abracei os meus desejos mais profundos em vez de os ignorar. Transformei-me na pessoa que acredito que estive sempre destinada a ser, na pessoa que tinha necessidade de ser. Sou razoavelmente livre de conflitos internos, estou razoavelmente em paz comigo própria, e sinto-me vibrantemente viva. Aceitei a minha paixao pela submissão como a escolha saudável, afirmativa e maravilhosa que ela é para mim. Nos seis anos durante os quais tenho vivido este sonho, nao lametei uma única vez a minha escolha nem amaldiçoei os meus desejos perversos. De facto, considero-me uma das pessoas mais afortunadas que existem.

Suspeito que muitas mulheres me encaram como um instrumento oprimido, enganada por um homem para fazer o que as mulheres têm feito peos homens desde tempos imemoriais na maior parte das culturas: servir, obedecer, estar à sua disposição sexualmente. Eu vejome, por contraste, como um ser humano consciente, inteligente e intrépido que ousou fazer o que poucas muleres tentam: corri um risco enorme, rejeitei quase tudo o que a sociedade me dizia que tinha que aceitar para ser feliz, e prossegui deliberadamente aquilo que eu sabia no íntimo que me faria mais feliz. E tive êxito.

O meu êxito foi conseguido com dificuldade e isso torna-o ainda mais precioso para mim. Nenhuma mulher nesta cultura é educada com os outros a dizer-lhe que ser escrava é uma coisa boa. Nenhuma é encorajada a tornar-se empregada doméstica ou elogiada pela sua subserviência. Se formos uma criança com desejos destes, aprendemos a escondê-los dos nossos pais. Quando crescemos, aprendemos a escondê-los dos nossos companheiros de brincadeira. E se atingimos a puberdade, como eu a atingi, num tempo de crescimento da consciência feminista, até podemos aprender a escondê-los de nós próprias. Mas no cômputo final, uma pessoa esconder de si própria os seus verdadeiros desejos sexuais nunca funciona. Como o proverbial cêntimo falso, a nossa sexualidade regressa sempre de qualquer terra remota para onde a tenhamos banido e tem, mais tarde ou mais cedo, que ser tida em conta e resolvida, mesmo que a decisão resultante deste processo seja ter consciência do que nos motiva mas não agir de acordo com isso.

Muitas mulheres que, como eu, passaram para lá das fantasias e são submissas activas debatem-se com a contradição aparente entre estes desejos e o que a sociedade em geral – incluindo algumas feministas doutrinárias – nos diz que é bom para a nossa saúde mental e emocional. Resolver esta contradição é essencial para o nosso sentido de dignidade e de humanidade. O que os sadomasoquistas fazem, pensam e desejam será tão errado como tantos exigem que seja? E se assim é, porque é que o desejamos tão intensamente?

Os conflitos emocionais e intelectuais que uma submissa tem que resolver enquanto aprende a aceitar-se tal como é envolvem uma gama de temas que vão além da pergunta “estarei doente?” Há perguntas como “tenho que reprimir parte da minha personalidade para ser uma submissa?” “Tenho alguma vez o direito de me zangar?” “Como posso orgulhar-me de mim própria enquanto mulher e feminista se estou sempre às ordens do meu dono?” “Estarei, no meu desejo de gratificação sexual, a perpetuar a violência contra as mulheres?” “O que acontece se me for ordenado que faça alguma coisa que verdadeiramente tema ou odeie e seja incapaz de fazer?” “Posso acreditar que os meus desejos estão certos, mas como posso eu viver com o ódio de outras mulheres pelo que eu represento ou – ainda pior – com o seu dó de mim?”

A realidade da minha vida é profundamente chocante para a maior parte das pessoas. Entre as submissas activas, pertenço ao raro subgrupo que vive o sonho 24 horas por dia, absolutamente e completamente, sem intervalos, momentos de descanso ou tempo para respirar. Na subcultura sadomasoquista, esta opção é chamada “lifestyle submission“(2). Desde o momento em que me entreguei a outra pessoa, tomei a minha escravidão muito a sério. Ela é tão real para mim como se tivesse cobertura legal, talvez mais real, porque nas sociedades em que a escravatura é ou foi legal houve sempre escravos que se recusaram a considerar-se propriedade de outrem. Embora não exista nenhum tribunal que sancionasse o direito de propriedade que o meu senhor tem sobre mim, considero a nossa relação senhor-escrava muito mais vinculativa do que qualquer documento, porque decidimos os dois que assim seria. Quando me dei ao meu senhor, foi com o entendimento explícito que eu não teria o direito de terminar a relação por mais que no futuro desejasse fazê-lo. No nosso acordo, só ele é que tem o direito de dissolver o vínculo de propriedade, e isto continuará assim não importa o quão infeliz a relação me possa tornar. Nunca em seis anos me senti infeliz a ponto de querer terminar. Porém, se alguma vez no futuro me sentir assim, o meu senhor prometeu-me que me observará cuidadosamente e à nossa relação e que tentará por um longo período resolver as dificuldades a fim de determinar se ir-me embora é realmente a melhor solução para mim. Se, depois de muitos meses de observação cuidadosa, ele estiver convencido que a minha infelicidade com ele ou com a relação é uma condição permanente que não pode ser remediada por nenhum dos dois, libertar-me-á. Mas não me libertará imediatamente da minha escravidão em relação a ele só por eu ter formulado esse desejo. Não posso ir-me simplesmente embora: se o fizesse, tanto eu como ele sabemos que ele teria o todo o direito de me ir buscar por quaisquer meios que entendesse, uma vez que eu lhe pertenço realmente e absolutamente, e não apenas quando é conveniente para mim pertencer-lhe.

Embora relacionamentos como o meu não sejam caso único, em muitas outras relações de poder que observei o casal não leva este aspecto da propriedade ao extremo a que nós o levámos. O conceito nestes relacionamentos é que a escrava está continuamente a dar a sua escravidão ao senhor. Esta “dádiva” é constantemente renovada em cada momento e pode ser cancelada a qualquer momento se ela assim quiser. Este acto significaria provavelmente o fim do relacionamento, mas finalmente ambos os intervenientes querem que a escrava tenha a palavra final, o veto final e, em última análise, o poder absoluto. Para mim, um relacionamento como este seria uma fraude, do mesmo modo que o jogo infantil de “brincar aos pais e às mães” é uma imitação irreal e inconsequente duma família verdadeira com as suas responsabilidades morais e obrigações legais. Eu nunca consentiria numa falsa escravidão como esta. Sim, certamente, nada me impede de pegar no nosso gatinho, meter-me no carro e ir-me embora para nunca mais regressar voluntariamente, mas a verdade é que nunca, em caso nenhum, farei isto. Comprometi-me a ser a escrava deste homem por tanto tempo quanto ele queira, e este compromisso, esta decisão de me dar, é sagrado para mim. Numa cultura em que os casamentos, o sacerdócio e outros compromissos supostamente permanentes e sagrados são quebrados com a mesma facilidade com que mudamos de ideias sobre a roupa que vamos vestir para ir trabalhar, muitas pessoas acham difícil compreender ou acreditar neste conceito de dedicação absoluta; não acreditam que ele possa realmente funcionar. Mas eu sei que sou uma pessoa capaz de ser fiel a um tal compromisso, e o meu senhor também o sabe, e isto é o que interessa. As opiniões dos outros sobre a realidade da minha escravidão têm tanto efeito nela como um enxame de mosquitos suicidas tem na capacidade de uma fogueira se manter acesa. O efeito dos mosquitos, se têm algum, é – numa medida muito pequena – alimentar as chamas da minha dedicação.

A minha vida com o meu senhor é controlada de modo muito apertado. Tenho que tentar obedecer a cada ordem que me seja dada, e nas raras vezes em que desobedeço sou severamente punida. As minhas acções não me pertencem, a não ser nas poucas ocasiões em que o meu proprietário me permite agir livremente (por exemplo, foi ele que me deu permissão de escrever para esta publicação; se não ma tivesse dado vocês não estariam a ler isto). Os meus sonhos nao me pertencem, nem os meus pensamentos: tenho que os revelar ao meu senhor quando ele o exige.

Todo o dinheiro que ganho é imediatamente entregue ao meu senhor, e é ele que decide como e quando ele é gasto. Do mesmo modo, todo o meu antigo património, tudo o que eu dantes chamava meu, pertence-lhe agora a ele. Tenho que obter autorização para todas as acções importantes e para muitas acções menores. Por exemplo, se quiser comprar uma roupa nova ou assinar um novo contrato de trabalho (como consultante de alta tecnologia faço trabalho para vários clientes), tenho que obter a sua permissão. Em casa, e muitas vezes noutros lugares, se quiser usar a casa de banho tenho mais uma vez que pedir autorização. Não me é permitido sair da cama sem autorização; de facto, sou amarrada à cama todas as noites por uma corda presa a uma coleira. Se for convidada para jantar ou para uma bebida por alguém com quem trabalho, tenho que pedir permissão, e muitas vezes são-me dadas ordens sobre o tipo e quantidade de comida e bebida que posso consumir. O meu proprietário exige que eu faça a maior parte do trabalho doméstico, que faça exercício regularmente, e que venha imediaraente quando ele me chama, esteja eu envolvida no que estiver. Palmadas, vergastadas e outras formas de “abuso” físico são um elemento recorrente da minha vida.

Embora esteja vinculada pelas muitas regras que governam o meu comportamento, a minha vda de todos os dias parecese à superfície com a da maior parte das pessoas. Mantenho a minha sexualidade completamente escondida no trabalho, e embora um colega mais perspicaz possa por vezes dar-se conta de que o meu parceiro é “controlador” isto é o máximo a que as coisas chegam. Só nos assumimos como senhor e escrava perante outros sadomasoquistas ou perante aqueles poucos entre os nossos amigos em quem confiamos. Embora isto não seja assim para o meu senhor, tenho descoberto que as únicas pessoas com quem quero realmente fazer amizade são cada vez mais as que partilham as minhas práticas sexuais. A submissão é uma parte tão importante da minha vida que as amizades em que esse aspecto tem que ser escondido me parecem incompletas, quase desonestas. O meu senhor assume-se perante os membros da sua família mais próxima; eu não me assumo perante os da minha, principalmente porque estou afastada deles e não tenho confiança neles. Deixei para trás a minha família e os meus amigos quando me mudei de um extremo para o outro do país para viver com o meu senhor, e desde então, infelizmente, adquiri muitos conhecidos mas poucos amigos íntimos (é difícil que chegue encontrar bons amigos quando temos toda a humanidade por onde escolher; quando temos apenas uma pequena fracção dela, a procura de pessoas simpáticas demora muito mais). Embora esteja activamente à procura de novos amigos, já me resignei à ideia que isto vai levar anos, se não décadas.

Apesar de estar à procura de amigos entre outros sadomasoquistas, suspeito que por fim as amizades que vier a formar serão com pessoas sexualmente convencionais que tenham a compreensão e a compaixão necessárias para me aceitarem tal como sou. As pessoas mais fora do convencional que encontro são muitas vezes uma desilusão porque acabamos por verificar que a única coisa que temos em comum é o que fazemos para obter excitação erótica, e isto é muito pouco para formar a base duma amizade.

O relacionamento que tenho com o meu dono tem a capacidade de compensar de muitas maneiras a minha falta de amigos íntimos. Ao contrário das rotinas frias e rígidas que são tantas vezes o destino das escravas na literatura erótica, a nossa vida quotidiana é cheia de rituais íntimos, plenos de amor, combinados com um pouco de sadismo para manter as coisas interessantes. Numa manhã normal sou acordada pelo meu senhor à hora que ele entende que me devo levantar, geralmente entre as 5:30 e as 6:30, mesmo nos fins de semana. Conto-lhe os sonhos que tive durante a noite, e, como geralmente ainda estou meio a dormir depois deste recital, ele deixa-me “flutuar” por uns minutos antes de me desamarrar e de me mandar para a casa de banho. O nosso acordar inclui várias outras actividades que fazemos puramente por prazer: uma luta corpo-a-corpo na cama, uma canção matinal, umas palmadas para acordar ou umas cambalhotas. Depois vou preparar o pequeno-almoço, recolher os jornais e levo o gato para o seu passeio no jardim. Depois de um pequeno-almoço sem pressas, lavo a louça e trato de algumas outras tarefas domésticas. Com esras concluídas, o meu senhor tem uma pequena conferência comigo para discutir o que pretende de mim nesse dia. Durante estas conferências com o meu dono, tal como acontece com todas as nossas conversas, sou autorizada – de facto sou encorajada – a fazer todos os comentários e sugestões que desejar, mas a decisão final sobre as minhas actividades nesse dia compete-lhe a ele. Se estou a trabalhar num contrato, visto-me para ir ter com o cliente ou então vou para o nosso escritório de casa para começar o meu trabalho. Se não trabalhar nesse dia, o que faço depende do que o meu senhor quer que seja feito e também do que eu gostaria de fazer. Posso ir às compras, posso limpar a casa, posso enviar emails aos meus correspondentes electrónicos, ou posso simplesmente sentar-me no sofá com um livro. Tal como os casais convencionais, fazemos férias na montanha ou na praia. A diferença crucial entre o que eu faço num dia normal e o que uma pessoa convencional faz não está no género de actividades, mas no facto de qualquer que seja a actividade eu ter que obter primeiro luz verde do meu senhor. Outra diferença é que quando estou em casa, seja a trabalhar, seja a divertir-me, o meu senhor interrompe-me muitas vezes durante o dia com ordens: dar-lhe o almoço, ir-lhe buscar alguma coisa a outra divisão, ouvi-lo ler-me uma notícia, ter outra conferência de planeamento, curvar-me para ser vergastada, etc. Pode ser qualquer coisa. À noite, depois de as coisas do jantar estarem arrumadas e de eu terminar as minhas tarefas domésticas, fazemos muitas vezes qualquer coisa juntos antes de ir para a cama, tal como ver televisão ou jogar um jogo de cartas ou gamão – ou alguma coisa mais intensamente sadomasoquista. Quando é hora de ir para a cama, participo noutra série de rituais lúdicos. Antes de o meu dono apagar a luz sou amarrada à cama e vendada. Geralmente estou a dormir profundamente ao fim de dez minutos.

A minha vida apertadamente estruturada com a sua pesada carga de trabalho e a necessidade sem fim de obedecer pode parecer intolerável para a maior parte das pessoas, mas eu colho dela muitas recompensas. Estou loucamente apaixonada pelo meu dono e ele por mim: ele compreende as minhas necessidades especiais e preenche-as na perfeição. Neste relacionamento há um nível de intimidade que nunca experimentei em mais nenhum. É tão reconfortante podermos dizer – de facto, sermos obrigados a dizer – os nossos segredos mais íntimos a outra pessoa; outra pessoa sabe tudo isto; não estou sozinha. O meu senhor é um dominante terno e compassivo, e há um a forte componente terapêutica no nosso relacionamento. Ele apoia-me, faz-me crescer, faz-me sentir bem comigo mesma, mas nunca me mente. Tenho confiança absoluta nele. Estou a descobrir que quanto mais tempo vivo com ele e quanto melhor o conheço, mais tempo quero passar com ele.

Independentemente de quão benigno seja este domínio, independentemente de quão eroticizada seja a dor física, permanece a questão, contudo, de saber porque é que alguém se sujeita a violações ultrajantes da sua liberdade pessoal. Parte da explicação é sexual: ao ceder o controlo, ao não ter uma palavra sobre decisões importantes ou triviais que me afectam, sinto continuadamente uma excitação erótica de baixa intensidade. Estou ligeiramente excitada o tempo todo. para além disso, muitos submissos “life-style”, incluída eu, têm uma componente na sua personalidade a que eu dou o nome de “ética de serviço”. Eu desejo profundamente servir. Adoro dar prazer ao meu dono fazendo o que ele manda. Não houve fase nenhuma da minha vida em que eu não tivesse consciência dessa ética de serviço. Para nós, submissas mulheres, a alegria de servir é tão importante como a intimidade: experimentar extremos de dor ou humilhação às mãos do nosso dominante é algo que cria um laço de intensa intimidade. Esta pessoa pode fazer-me seja o que for. Não tenho absolutamente defesas nenhumas contra ele. A minha alma está nua e em exibição diante dele. Esta intimidade é assustadora na sua intensidade. O grau de confiança necessário para a experimentar é prodigioso. Mas qualquer submissa que a tenha sentido num contexto de impotência total descreve-a em termos extáticos, quase místicos. para nós, o preço de admissão em vulnerabilidade e medo vale a pena ser pago em troca de um bilhete para o céu na Terra.

Estas são algumas características da submissão a que eu e outras submissas damos valor. Mas o que uma submissa sente, o que a excita, surpreende muitas pessoas. A entediante resposta convencional, muitas vezes expressa com escárnio, é “chicotes e correntes”, mas para mim as sensações, fantasias e impressões ricamente idiossincráticas que excitam a minha imaginação erótica e trazem ao primeiro plano o meu carácter submisso são praticamente infindáveis na sua variedade. Incluem o cheiro intoxicante a couro novo; a visão de alguém vestido todo de negro; o toque arrepiante do aço frio na minha pele; ver um par de luvas a ser postas devagar; o sabor pungente e humilhante dos meus próprios sucos num par de dedos que me entram à força na boca; sons duros e agudos, como um taco de golfe a bater na bola, que me lembram do som que a madeira ou o couro fazem ao atingir um corpo; a sensação aterradora de um fio de sangue a escorrer pela parte de trás da minha perna; a visão de um homem a bater ritmicamente um pingalim de montar contra a palma da mão; o sabor ácido do medo acompanhado duma louca sensação de sobressalto no estômago; o olhar atento, de águia, que se pode ver na face de certos dominantes; uma bofetada na cara; uma mão na minha garganta, apertando um pouco, ameaçando; a visão duma agulha quando passa através da pele; a sensação única de estar deitada no chão com uma bota a pressionar a minha cabeça; uma consciência intensa, embaraçosa, arrepiante da minha nudez em frente de um grupo de pessoas completamente vestidas; ser forçada a ajoelhar, gatinhar ou prosternar-me; ser forçada a assumir a posição clássica de cabeça contra o chão, com o rabo erguido para expor as nádegas e os órgãos genitais para diversão do meu dominante; a incapacidade de tomar fôlego e a dor na minha boca que vêm de dar prazer oral forçado; o som do riso do meu amado em resposta aos meus gritos de agonia; o abraço apertado duma coleira de aço que se fecha à roda do meu pescoço; o sabor de um chicote de couro que é forçado contra os meus lábios para ser beijado ou lambido. A vida de uma submissa “life-style” é uma fantasmagoria de baixa intensidade – e muitas vezes não tão baixa – de estimulação erótica, intimidade profunda, e uma consciência intensa de que somos especiais.

(1) Traduzido em português com o título “O Mito da Beleza” pela editora Difusão Cultural (Lisboa 1994)

(2) À letra, “submissão como estilo de vida”. Preferi manter o inglês original porque nos meios sadomasoquistas em Portugal e no Brasil o inglês é muito utilizado nas terminologias específicas.

(Continua)

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A primeira resposta que dou a esta pergunta, aquela que me ocorre instintivamente e quase sem pensar, é “não”. Um Senhor que imagine que só por ser Senhor é superior à sua escrava, ou um “Dom” que se iluda e pense que só por ser “Dom” é superior à sua submissa, não passa de um tolo; e portanto, em vez de ser superior é-lhe provavelmente inferior.

Isto que escrevi acima é a resposta simples. Não deixa de ser basicamente a minha opinião, mas não posso dar-me por satisfeito com ela. É que para lá da resposta simples há outras bem mais complexas.

Uma das melhores amigas com quem me correspondo na net refere com insistência a sua necessidade de se entregar a alguém por quem possa sentir não só respeito, mas também admiração. Sente a necessidade de ver no seu Dono um ser superior, não só a ela própria, mas também aos seres humanos em geral. Não vou dizer que esta minha amiga está a visar alto demais, pela simples razão que sempre admirei quem visa alto. Mas aí está: se por qualquer volta da vida viesse a acontecer eu tornar-me Senhor desta minha amiga e ela minha escrava, haveria logo à partida um ponto em que eu a consideraria, se não superior a mim, pelo menos minha igual.

Não é que eu acredite na igualdade de todos em relação a todos. Pelo contrário, acredito firmemente que o homem que pensa é superior ao que não pensa, o que sente superior ao que não sente, o que lê superior ao que não lê, o que vive superior ao que apenas sobrevive, o que é útil aos outros superior ao que lhes é nocivo. A questão é que em todos estes pontos a escrava e a submissa têm exactamente o mesmo direito/dever de se aperfeiçoarem que têm o Senhor e o “Dom”.

Assim, a minha amiga, como tantas outras escravas e submissas, está perante um dilema: para que a pessoa a quem se entregam lhes seja superior, têm elas que ser inferiores; para serem inferiores têm que prescindir do seu crescimento como seres humanos; crescimento este que é precisamente o que as torna dignas de serem amadas e possuídas em pleno.

A única solução que encontro para este dilema é a seguinte: o Senhor e a escrava têm de crescer juntos; cada um deles tem que admitir que não é perfeito e admitir além disto, o que é difícil, que o outro também não; e cada um deles tem que fazer tudo o que estiver ao ser alcance para que o outro se transforme de verdade num ser superior. Um deles fará isto pela maneira como domina, o outro fá-lo-á pela maneira como se submete; mas a um nível muito profundo estarão os dois a fazer precisamente o mesmo. Aquilo que nenhum deles tem o direito de fazer é diminuir-se a si próprio ou a diminuir o outro.

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art-psamathe-leightonDizias: «não me submeto, entrego-me.» E falavas duma entrega que era como um empréstimo ou uma procuração, quando eu estava a falar duma dádiva.

Dizias: «disto tenho a certeza: sou e serei sempre uma submissa.» Depois de dizeres que não te submetias. Não, minha querida. Se eu quiser ir pala sombra e tu também, vamos os dois pela sombra. Mas se eu quiser ir pelo sol e tu pela sombra, a minha vontade prevalece e vamos pelo sol: submetes-te, sim, e submetes-te todos os dias, a todas as horas e em todas as coisas.

«Mas eu quero ser uma escrava perfeita», dizias tu. «A vontade duma escrava perfeita coincide sempre com a do seu Senhor, por isso não é necessário submeter-se.» As escravas, minha querida, não são clonadas dos seus Senhores. Têm existência própria, felizmente, e vontade própria. Como têm vontade própria serão sempre, felizmente, escravas imperfeitas. Por mim, não trocaria esta imperfeição por nada deste mundo: se o Senhor não tivesse vontade própria que prevalecesse sobre a da sua escrava, ou se a escrava nao tivesse vontade própria que se subordinasse à do seu Senhor, não haveria domínio nem submissão.

Dizias: «não aceito sofrer e nunca sofri. Tudo o que alguma vez fiz me deu prazer, mesmo o que me fez gritar ou chorar.» Talvez; mas um dia vais encontrar um Senhor que te vai ensinar a sofrer. Vai-te ensinar que as chicotadas só são contadas a partir do momento em que deixam de dar prazer a quem as recebe.

Dizias: «nunca fui e nunca serei castigada.» E eu respondo-te agora: uma escrava é castigada sempre que merece, e à vezes sem merecer. Se nunca o foste, sê-lo-ás muitas vezes no futuro.

Dizias: «um Senhor que castiga é um Senhor cruel, e eu odeio a crueldade.» Minha querida, mesmo que me odeies por isso eu sou cruel. Também sou terno, e a minha ternura não é de mentira; mas não te iludas: se eu fosse o teu Senhor teria muitas vezes prazer em fazer-te sofrer, e em ultrapassar o prazer que tu própria tivesses.

Dizias: «não há castigos, nem punições: há práticas.» E eu contradigo: não há práticas, há punições. E acrescento: não há práticas, há recompensas.

Mais importante do que isso: não há práticas, há símbolos. E estes, para não serem mentirosos, têm que significar alguma coisa real: amor antes de mais, e acessoriamente ternura, alegria, tristeza, submissão, revolta, orgulho, humildade… Tudo o que se faz entre Senhor e escrava, como tudo o que se faz entre qualquer par de amantes, tem um sentido, tem um significado, tem antecedentes e tem consequências.

Dizias: «se fosse tua escrava nunca aceitaria beijar a vergasta, porque isso para ti é um castigo.» Acrescentavas: «é um limite absoluto.» E explicavas-me todos os teus outros limites absolutos. E eu sorria, porque se fosses minha escrava eu não aceitaria a maior parte desses limites «absolutos». Não aceitaria, certamente, os que me parecessem triviais ou arbitrários. Aceitaria os que coincidissem com os limites da tua escravidão, e isto significa que no momento em que transgredíssemos algum, fosse por erro meu ou teu, a tua escravidão estaria terminada.

Beijarias a vergasta, sim. Fá-lo-ias quando o gesto fosse meramente simbólico e se destinasse a exprimir submissão, mas também o farias quando fosse, realmente, um castigo.

Perguntavas-me que conhecimentos tenho. Das práticas, do BDSM, muito menos que tu, certamente. Do resto, que é o que importa, suficientes para ser o teu mestre.

Publicado no Blogger a 24/09/06

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