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Posts Tagged ‘educar escrava’

Arminda tinha a chave do apartamento da filha, mas raramente lá ia sem ela lá estar, e nunca sem autorização. Um dia, Joana pediu-lhe que passasse por lá e lhe levasse uma pasta que lá tinha; depois, quando jantassem as duas, poderia entregar-lha, evitando assim que ela tivesse ir a casa primeiro.

– Depois de jantar ainda vais para a Faculdade?

– Tenho que ir – respondeu Joana. – Há uma coisa que tem que ficar pronta ainda hoje.

Arminda pegou na pasta e já vinha a sair quando uma curiosidade súbita a levou a voltar para trás e ir espreitar o quarto. E viu, sobre a cama, uma vergasta. Era vermelha, revestida dum tecido que parecia o das velas dos barcos. O punho era de cabedal preto, em tiras entrançadas. Na ponta tinha outra tira de cabedal, dobrada sobre si própria. Estava atada a meio com uma fita de seda preta que formava um laço e a identificava como um presente.

O laço foi o que mais a chocou.

Conduziu o carro até casa tentando controlar o batimento do coração, concentrando-se no trânsito, tentando imaginar toda a espécie de explicações inocentes para o que tinha visto; mas não conseguiu imaginar nenhuma.

– Ouve lá – disse à filha, mal ela lhe entrou em casa. – O que é aquilo que estava em cima da tua cama?

Joana nem se deu ao trabalho de perguntar à mãe com que direito lhe tinha ido meter o nariz no quarto.

– É uma vergasta, mãe – respondeu serenamente.

– Que é uma vergasta, sei eu. O que não sei é o que está a fazer uma vergasta em cima da tua cama. Foi o Rui que ta deu?

– Não, mãe; eu é que a vou dar ao Rui.

Arminda retirou-se de rompante para a cozinha. A filha seguiu-a e começou a ajudá-la em silêncio.

– Nunca pensei que o Rui tivesse essa tara de ser vergastado. Nem nunca pensei que uma filha minha se prestasse a essas poucas-vergonhas.

Joana suspirou. Não devia ter deixado a vergasta tão à vista, mas a verdade é que nem sequer se lembrara. Alguma vez teria que ter esta conversa, mas não esperava tê-la tão cedo; e era muito difícil.

– O Rui não gosta de ser vergastado, mãe. Quem vai ser vergastada, sou eu.

Pronto, está dito, pensou; agora, seja o que Deus quiser.

Arminda voltou-se para ela, desvairada:

– Eu, nunca! Nunca, ouviste?! Nunca admitiria que o teu pai me pusesse um dedo em cima!

– Nem ele o faria, mãe.

– Lá nisso, tens tu razão! O fulano pode ser uma besta e um sacana, mas nunca me tocou!

– Ao passo que o Rui, que está longe de ser uma besta ou um sacana, é perfeitamente capaz de me dar meia dúzia de vergastadas no rabo.

A Arminda, no estado emocional em que estava, estas palavras da filha pareceram dum cinismo atroz. Remeteu-se a um espesso silêncio, que só foi quebrado quando a filha lhe disse que Rui lhe tinha proposto viverem juntos e ela aceitara.

– Ai sim? Felicidades – respondeu Arminda, secamente.

Joana suspirou e tentou conciliar a mãe.

– O pai nunca te bateu, e ainda bem. Tu nunca o admitirias. A mim, também não. E se calhar, algumas vezes, fez mal em não me dar umas palmadas.

Arminda voltou-lhe as costas e encolheu os ombros, recusando aplacar-se. As palmadas de que a filha precisara em criança, tinha-lhas dado ela; mas com uma criança é diferente, pensou.

– Até amanhã, mãe – disse Joana ao sair.

– Até amanhã.

Só muito depois é que ocorreu a Arminda que as palmadas que dera à filha, por justas e necessárias que fossem, tinham sido dadas a uma criança que não se podia defender, e que nunca tinha consentido nelas; mas que Joana, adulta, não só se sabia defender muito bem, como era competente para dar o seu consentimento. Nessa noite não dormiu, consumida por uma ira tumultuosa contra a filha, contra Rui e contra si própria.

Voltou a nunca se encontrar com Rui nas tertúlias semanais, mas desta vez não ocultou às suas amigas a animosidade que nutria contra ele e a filha: só lhes ocultou, por muito tempo, o motivo dessa animosidade. Rui, por seu lado, começou a aparecer com menos frequência, por vezes acompanhado de Joana, que algumas amigas da mãe conheciam desde criança. Nunca deram mostras de retribuir a amargura de Arminda; nunca revelaram o seu motivo, nem fingiram que não o conheciam; nunca deixaram que as outras senhoras pensassem que ela tinha ciúmes; e nunca permitiram que alguém lhe atribuísse as culpas pela desavença. Arminda não tinha razão, mas tinha as suas razões, que eles compreendiam; não tencionavam voltar atrás nas suas decisões pessoais – que não disseram quais eram – mas esperavam que um dia Arminda as aceitasse e se reconciliasse com eles. Em suma: a cabra que havia em Joana aflorava cada vez menos à superfície, e as amigas da mãe não sabiam se deviam atribuir isto a hipocrisia ou à influência de Rui.

Os meses seguintes foram dedicados, por parte de Joana, à minuciosa aprendizagem dos ritos e das regras da sua nova condição. Nesta aprendizagem encontrava, por vezes, prazeres novos e imprevistos; mas também humilhações que lhe seriam insuportáveis senão tivesse decidido, teimosamente, levar até às últimas consequências a experiência iniciada e o compromisso assumido. Descobrira, com surpresa, que o castigo físico a afectava pouco: não lhe dava prazer, mas só era difícil de suportar enquanto durava. Submeteu-se a ele desde o início e nunca recusou deixar-se manietar para o sofrer. Custou-lhe muito mais submeter-se a actos que a humilhavam ou embaraçavam, sobretudo perante terceiros. Também lhe custou muito a habituar-se a ordens ou a regras cujo propósito não compreendesse e às que lhe parecessem caprichosas ou fúteis. Rui nem sempre se explicava:

– Basta que seja este o meu prazer – dizia, por vezes, quando ela o questionava.

Joana começou a compreender que qualquer ordem ou regra, mesmo que aparentemente não tivesse sentido nem propósito, servia ao menos para lhe lembrar que estava sujeita ao prazer de Rui.

Mas o que mais lhe custou, de longe, a ponto de quase a fazer desistir, foi perder o direito de escolher as suas próprias roupas. Não é que Rui tivesse mau gosto, mas tinha um gosto diferente do dela; e ao transitar lentamente do seu estilo, que era o da profissional competente, para o estilo boémio construído por Rui, sentia que estava a perder identidade. Quando confessou isto a Rui, ele respondeu:

– Essa identidade que estás a perder é falsa; essa mulher não és tu.

Quando Joana ouviu isto, a cabra veio à superfície:

– E tu é que sabes quem eu sou, suponho?! A identidade que me deres é que é verdadeira?!

– Se não for verdadeira – respondeu Rui, placidamente – havemos ambos de nos dar conta disso, e bem depressa. Estaremos a tempo de construir outra. O que te posso garantir, é que essa outra não obedecerá a qualquer convenção pré-fabricada.

– E a tua vontade? E o teu prazer?

– Serão determinantes, é claro – disse Rui. – Não serás só o que já és, serás também o resultado da educação que eu te der.

Por muito brutais que estes propósitos parecessem a Joana, tinha que reconhecer que a primeira coisa que dissera a Rui – que dissera à mãe, para ser mais exacta – é que precisava de quem a educasse.

Este mesmo período foi, para Arminda, de lenta reconciliação com a filha. Por mais que o não quisesse ver, não podia deixar de notar que Joana andava melhor: mais serena, mais feliz, mais segura de si e menos agressiva. Mantinha a animosidade contra Rui: em parte por teimosia, em parte por ciúmes, em parte pela ideia de incesto que a relação, irracionalmente, lhe sugeria; mas também porque não conseguia suportar a ideia de ver a filha maltratada e humilhada às mãos de um homem de quem fora amiga e que sempre se lhe apresentara como gentil e inofensivo.

– E é mesmo gentil, mãe – dizia-lhe Joana. – Gentil, honesto e justo. Inofensivo não é, certamente: mas quanto a isto, foi ele que te iludiu, ou tu que te iludiste?

Foi muito a custo, e ao fim de muita insistência, que Arminda aceitou encontrar-se com a filha e com Rui em casa deste. Não se surpreendeu por Joana a receber descalça: numa das raras ocasiões em que, vencida pela curiosidade, sondara a filha sobre pormenores da sua vida, ela contara-lhe o que os pés nus simbolizavam e as ordens que tinha de nunca se calçar em casa. Recordava-se da tendência que Joana tivera, em criança e adolescente, de se descalçar sempre que podia; e de como ela tinha reprimido esta tendência, a ponto de a filha ter interiorizado a sua aversão a andar descalça e se ter habituado, como ela, a nunca sair da cama sem enfiar os pés nuns chinelos. Agora, ao obedecer a Rui, Joana estava finalmente a desobedecer à mãe; e esta não deixou de se aperceber deste facto.

Arminda cumprimentou Rui com alguma distância, distância esta que ele respeitou, embora deixasse claro que estava na disposição de a transpor. A casa pareceu-lhe decorada totalmente à homem: não notou a mão da filha em nenhum pormenor. Na sala, Rui convidou-a a sentar-se no sofá.

– Fica aqui com o Rui, mãe – disse Joana. – Eu vou buscar uma bebida.

Quando Joana regressou com três copos de vinho branco num tabuleiro, Arminda deu-se conta, de repente, que sempre tinha sido ela a servir a filha à mesa, e que mantivera este hábito mesmo depois de ela se tornar adulta. Rui agradeceu e fez sinal com os olhos a Joana que se sentasse no sofá ao lado da mãe, que ficaria assim entre os dois.

– Tenho uma notícia a dar-te, Arminda – disse Rui. – Vou casar com a Joana.

Arminda, que era cada vez mais contra o casamento como instituição e não desejava ver a filha mais presa a Rui do que já estava, não ficou contente com a notícia.

– E para que é que vão casar? – perguntou. – Não estão bem como estão? Para que querem vocês um papel passado?

– O papel não é importante – disse Rui. – O que é importante, para mim, é ter alguém a quem deixar o que é meu. Se eu morresse agora, iria tudo para os meus sobrinhos do Canadá, que mal conheço, e a Joana ficava a ver navios. Acho que tenho o direito de deixar as minhas coisas à pessoa de quem gosto.

Contra isto não havia argumentos, pensou Arminda. E a naturalidade com que Rui tinha falado em gostar de Joana… Sentiu um impulso de simpatia para com ele, mas logo o reprimiu: nunca fora interesseira e não queria sê-lo agora. Mas Joana não tinha nada o ar de se estar a sacrificar por dinheiro. Pelo contrário: ao olhar para ela, Arminda notou-lhe um ar resplandecente que a levou a perguntar, tomada duma súbita suspeita:

– Por acaso não estarás grávida?

Joana deu uma risada franca, como Arminda não lhe ouvira havia muito tempo:

– Grávida, mãe?! Não, está descansada. Por enquanto, o Rui e eu queremos ser só dois.

E se a filha estivesse grávida, que mal teria isso? Com um filho em casa, pensou Arminda, não se poderia entregar tão livremente a jogos eróticos que a mãe nem queria imaginar.

– Vê lá, não adies muito. Olha que já não és uma criança, e o tempo passa.

– Terei isso em conta – disse Rui.

Está a informar-me, pensou Arminda, que a decisão será dele. O impulso de simpatia que sentira começou a desvanecer-se. Mas também me está a informar que está disposto a dar à Joana o que ela sempre quis. O ex-marido de Joana nunca quisera filhos, e esta tinha sido uma das causas do divórcio.

– E vou deixar de trabalhar – disse Joana. – Já apresentei o meu pedido de exoneração.

Ah, não. Isto, não. Deitar fora anos de estudo e de formação profissional?! Abortar uma carreira que mal começara?! Ficar na dependência dum homem?!

– E o que és que vais fazer? Vais passar o resto da vida a estupidificar no meio dos tachos e das panelas?

– Ora, ora, mãe – disse Joana. – Sabes muito bem que nunca gostei do meu trabalho; e sabes que hoje em dia, no nosso país, para uma pessoa da minha idade, não há carreiras, só há empregos, e precários ainda por cima. Tu vais-te reformar quando fizeres sessenta anos; eu reformo-me aos trinta, é tudo. E não vou estupidificar, vou viajar com o Rui pelo mundo todo.

Durante o jantar, Arminda não parou de oscilar entre sentimentos contraditórios. Pedro, um homem trabalhador e pacato, que parecera ter todas as condições para fazer a filha feliz, fizera-a profundamente infeliz; Rui, que parecia ter tudo para a destruir e anular, fazia-a resplandecer; a filha parecia que estava a deitar fora tudo o que a geração de Arminda tinha conquistado para as mulheres, e no entanto dava mais a sensação de estar a ganhar terreno que a perdê-lo. Tudo isto era demasiado para ela assimilar rapidamente, mas teria que o assimilar sob pena de ficar isolada num mundo que deixara de compreender. Não é por aí que vou ficar velha, decidiu; e foi a partir desta decisão que começou a dar o benefício da dúvida a Rui e à filha.

Recomeçou a comparecer na tertúlia nos mesmos dias que Rui. As amigas foram convidadas para o casamento. A pouco e pouco, foi-lhes permitido que se apercebessem da natureza da relação entre Rui e Joana, e isto deu lugar a semanas de debate.

– Se é assim que eles querem, deixá-los – decidiu por fim a mais velha, que era madrinha de Joana.

É claro que não foram felizes para sempre. Tiveram doenças, tiveram conflitos, tiveram que enfrentar a velhice; dos dois filhos que Rui fez a Joana, um deu-lhes problemas muito graves durante a adolescência; e Rui, quando morreu, deixou na vida muitas pontas soltas que Joana teve de atar sozinha. Por outro lado, enquanto viveram, nunca se arrependeram de terem decidido ser senhor e escrava. Se morrer sem arrependimento é a única vitória possível do homem sobre a vida e sobre os deuses, a vida deles foi um êxito total.

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Com o meu pedido de desculpa pela longa ausência, publico hoje mais um excerto do romance que estou a escrever. O enredo tem também uma componente de acção e mistério, mas os trechos que tenho escolhido para publicar aqui são os que reflectem mais a componente erótica. Espero que gostem…

… – Tenho pensado muito nestas coisas, [- disse Raul – ] embora felizmente já não seja minha função resolvê-las: foi provavelmente isso que me provocou este pesadelo. Desculpa ter-te acordado.

– Lá por isso não peças desculpa [- disse Teresa. – ] Tens o direito de me acordares quando quiseres…

− Tenho? É claro que tenho. Mas de preferência para outros fins, não para te sobrecarregar com manifestações de fraqueza.

Teresa ficou algum tempo em silêncio, ainda com a cabeça apoiada no peito dele. Por fim mudou de posição para o olhar nos olhos e disse:

− Ouve, meu senhor. Há umas coisas que preciso de te dizer.

− Diz lá, então.

− Eu não sou burra nem ingénua…

− Não, isso não és – interrompeu Raul.

− Não sou burra nem ingénua, e a vida já me ensinou que em geral as mulheres são mais fortes do que os homens.

Raul ficou silencioso: era claro que estas palavras, das quais ele, de resto, não discordava, eram um intróito; e não quis interromper.

− Isto, para as mulheres, – continuou Teresa – é uma grande frustração, e muitas vezes tem-no sido ainda mais para mim, que sou forte mesmo para mulher.

Raul acenou em concordância, e Teresa continuou:

− Num mundo em que os homens são geralmente fracos, o mais provável para a maior parte das mulheres é nunca encontrar um homem mais forte do que elas. Para uma mulher mais forte do que as outras, então, acho que é praticamente impossível. Mas eu tive a sorte extraordinária de encontrar dois: primeiro o Ettore, e depois a ti, meu amor.

− Eu, um homem forte? – insurgiu-se Raul – E excepcionalmente forte, para cúmulo? Durante a maior parte da minha vida não me tive por fraco, é verdade. Mas agora? Com toda a minha carga de culpa? Com todas as minhas dúvidas, contradições e escrúpulos? Com pesadelos, porra! Com necessidade de colinho! É isto, um homem forte?

Teresa segurou-lhe o rosto entre as mãos, beijou-o com força na boca e disse com veemência:

− No teu caso, é, sim senhor. Homens fracos com carapaças duras foi o que eu mais encontrei na vida, ainda por cima nos meios que frequentei. Diz-me uma coisa: os horrores que viste no Kosovo alguma vez deixaram de ser horrores para ti? Criaste habituação? Tornaste-te indiferente?

Não, reflectiu Raul. Nunca se tinha habituado, nunca se tinha tornado indiferente.

− Sabes o que faria um fraco no teu lugar? Criaria uma carapaça. Ao fim de uns meses já teria aprendido a desprezar as vítimas que tinha por função apoiar. Faria piadas sobre elas. Lá no fundo, até desenvolveria alguma admiração pelos carrascos…

Raul teve um sobressalto. Sim, era verdade. Ele próprio tinha visto colegas seus evoluir neste sentido. Nunca os censurara, nem os censurava agora: era a maneira que tinham de se proteger. Teresa tinha razão: eram fracos. Mas isto não queria dizer que ele não o fosse também, à sua maneira.

− Diz-se que os fracos admiram os fortes – prosseguiu Teresa, implacável. – É mentira: os fracos não admiram os fortes, admiram os violentos. Mas tu não…

Não, Raul não admirava os violentos. Nem os temia, de resto. Se sentia alguma coisa por eles era desprezo e asco… E ódio, infelizmente. Ódio também.

− Pelos violentos, sinto ódio – murmurou. – E o ódio é uma forma de fraqueza.

− Pois é, meu senhor, mas é uma fraqueza que te há-de passar, que te está a passar. É isto que eu vejo em ti a cada dia que corre. Oxalá um dia possas contribuir para que seja feita justiça, mas se há alguma coisa de que estou certa, é de que nessa altura agirás desapaixonadamente: sem piedade, mas também sem ódio, como homem viril que és.

Oxalá, pensou Raul. Oxalá…

− Outra coisa, meu querido: − prosseguiu Teresa – passou-te pela cabeça alguma vez que eu fosse deficiente em auto-estima?

Raul teve que se rir perante uma ideia tão estapafúrdia:

− Deficiente em auto-estima? Tu?

− Pois, não achaste que me faltava auto-estima, mas viste logo que a minha orientação amorosa era para a submissão. Como conciliaste as duas coisas?

Raul pensou durante um momento e respondeu:

− Já antes tinha encontrado mulheres em que a auto-estima e a submissão se conjugavam. Esta possibilidade não era novidade absoluta para mim. O que eu nunca tinha encontrado era uma mulher que levasse tudo isso ao extremo, quase ao excesso. Quando descobri que precisavas de viver apaixonadamente, que tinhas essa tua exigência de absoluto… Pois bem, acho que foi nessa altura que me enamorei de ti.

− Nessa altura – disse Teresa – outro qualquer teria fugido de mim a sete pés. Uma coisa que eu aprendi nos últimos anos é que a minha maneira de amar pode ser uma coisa aterradora para os homens. Tu não tiveste medo de mim…

Talvez Teresa tivesse razão, pensou Raul, talvez ele fosse mais forte do que se sentia neste momento; talvez mesmo tão forte como ela, ou mais; mas ainda não estava em estado de se convencer disto. Olhou para ela, que no decorrer da conversa se tinha deixado escorregar pela cama abaixo de modo a ficar de novo deitada. Medo dela? Não, não sentia medo, sentia desejo. Estendeu a mão para lhe acariciar os seios, que a roupa da cama tinha deixado a descoberto, e logo a mão dela lhe procurou o sexo.

– Diz-me como gostas, meu senhor… Ensina-me…

Raul começou a instruí-la: que não lhe agarrasse o membro erecto com a mão toda, que usasse mais os dedos, que lhe acariciasse gentilmente a veia de baixo. Teresa, atenta a todas as instruções, ia tomando nota mentalmente: não o agarrar à bruta, explorar-lhe meigamente todos os refegos da pele, prestar especial atenção à glande. Raul tinha sido circuncidado na adolescência porque o prepúcio estreito lhe tornava dolorosas as erecções: agora, para maravilhamento de Teresa, a glande distendida era duma macieza prodigiosa, lisa e macia como nada mais sobre a Terra.

– Que lindo que é o teu pénis, meu querido… Tão macio na ponta… Gostas assim?…

E ia-o dedilhando levemente a todo o comprimento, insinuando os dedos delicadamente nas pregas da glande e na abertura, de onde despontava uma gota de líquido. Absorto no prazer que recebia e na instrução que dava, Raul quase parara de acariciar os seios de Teresa; mas não de todo, não de todo: e sentia entre os dedos os mamilos intumescidos que denunciavam a excitação dela.

Uma característica que Raul e Teresa tinham em comum era a falta de pressa nas suas actividades eróticas. Raul era capaz, por qualquer particularidade fisiológica ou psicológica que desconhecia, de manter indefinidamente uma erecção enquanto se dedicava àquilo a que as outras pessoas chamam preliminares; Teresa parecia nunca se cansar de brincar com o corpo dele, de o acariciar e beijar; e os dois juntos chegavam por vezes a deixar que este prazer intenso se esvaísse sem chegar a uma penetração ou a um orgasmo, como um rio no deserto que nunca desagua. Mas desta vez Teresa tinha pressa:

– Penetra-me agora, meu senhor. Obriga-me a vir-me. Vou ser desobediente, vou-te resistir, vais ter que me obrigar…

Raul beijou-a nos lábios e respondeu-lhe, sorrindo, que não lhe apetecia de todo violá-la. Se ela resistisse, paciência, não ia haver mais sexo para ninguém. Em resposta, Teresa deu-lhe um pequeno murro no ombro, como era seu costume quando ele desconversava, e disse:

– Não é isso, estúpido. Não te vou resistir nem desobedecer em nada, só em ter orgasmo…

– Então se é assim, – disse Raul – vem tu por cima.

Teresa sabia muito bem que nesta posição o orgasmo dele costumava ser mais lento e o dela mais rápido; mas obedeceu, ainda que protestando:

– Assim não vale…

Raul ficou perfeitamente imóvel enquanto ela se empalava lentamente nele. Teresa estava consciente de que estavam a medir forças. De um lado estava a sua vontade, que era firme e lhe proibia o orgasmo. Do outro, a exigir-lho, estava toda uma coligação: o seu desejo, o seu amor por Raul, a obediência a que se tinha obrigado, e sobretudo a vontade dele, que ela desejava soberana. No entanto, por mais que desejasse perder, não faria batota a favor do adversário: empenharia todo o seu esforço em vencer.

Se este fosse um jogo de xadrez, esta penetração teria correspondido apenas ao dispor das peças no tabuleiro. Agora Teresa, imóvel sobre Raul, olhos nos olhos, sentia a vagina distendida pelo órgão masculino que a enchia até ao fundo. Esperava a primeira jogada, e esta não se fez esperar: uma fortíssima palmada na nádega esquerda que a fez estremecer, quebrando a imobilidade a que se estava a obrigar. Procurou ajeitar o corpo de modo a aliviar a sensação de repleção que a dominava, mas Raul segurou-a firmemente pelos quadris e começou a mover-se dentro dela. Por vezes retirava-se completamente, de modo a acariciar-lhe, com a ponta macia do pénis, os lábios interiores da vagina e o clítoris, outras penetrava-a até ao fundo com movimentos ora bruscos, ora lentos e prolongados, que a apanhavam sempre de surpresa.

Não era fácil resistir a isto, mas a dificuldade aumentou quando ele lhe ordenou que “dançasse para ele” – o que significava, no seu código privado, que tinha que mover os quadris nos movimentos da dança do ventre; para a frente e para trás, para os lados, em círculos, em oitos. Desobedecer não fazia parte das regras do jogo; mas obedecer era quase assegurar a derrota, tanto mais que ao mesmo tempo ele lhe ia acariciando os seios e os mamilos com toques e beliscões de intensidade variável e imprevisível: ora leves como o toque duma pena, ora fortes e dolorosos, fazendo-a gemer. A mesma coisa com os beijos: ora delicados como o pousar duma borboleta, ora mordidos, exigentes, chupados, a prometer lábios pisados e nódoas negras no peito e no pescoço.

Teresa sentia que no fundo de si se formava o orgasmo que decidira recusar, e sentia-o vir à superfície, soltando-lhe os quadris, invadindo-lhe os pulmões, propagando-se pelos nervos, avermelhando-lhe o rosto e o peito. Começou a apertar e relaxar alternadamente a vagina, tentando apressar o orgasmo de Raul, mas ao fazê-lo estava a apressar também o seu. Sentiu como o amante acelerava os seus movimentos dentro dela, como se lhe soltavam, também a ele, os quadris, como a respiração se lhe tornava arquejante. Ia vencer: vencer por uma unha negra, mas vencer. Mas, no próprio momento em que via a vitória ao seu alcance, ouviu a voz dele que ordenava:

− Vem-te agora, minha escrava.

E veio-se, veio-se como lhe tinha sido ordenado, tão incapaz de se controlar como de não reagir a um choque eléctrico. Nunca antes ele lhe tinha chamado “minha escrava”; tinha esperado pelo momento próprio; e este tinha sido próprio, se tinha! Derrotada, e feliz na derrota, abraçou-se a ele, cobrindo-o de beijos e tentando, com as últimas contracções da vagina, prolongar-lhe o prazer até à última gota. Feliz na derrota: e tanto mais feliz por saber que a derrota táctica tinha sido uma vitória estratégica, um passo em frente na cura de Raul e no conhecimento que tinham ambos um do outro.

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Já aqui falei do blogue da sarinha: é o Abri a Porta, e merece uma longa visita. Quem é a sarinha? É uma menina que, nas suas próprias palavras, está longe de ser submissa, o que não a impede de ser uma “spankee” entusiástica nem de se ter dado como escrava ao namorado, por quem está apaixonada. Gosto dela por uma infinidade de razões: pelo apurado sentido da observação e do ridículo que a leva a rejeitar tudo aquilo no BDSM que é pré-formatado, pela frescura das suas abordagens, pela perspicácia com que detecta os poseurs, pela alegria com que se diverte à custa deles… A sarinha não gosta lá muito de guiões nem de liturgias impostas de fora. Pelo que escreve, parece-me senhora de um temperamento exuberante e irreprimível, o que provavelmente faz com que mereça umas palmadas no rabo várias vezes por dia… mas isto é assunto dela e do dono dela.

Pois a sarinha fez-me um elogio que me deixou desconcertado. Foi num comentário na versão WordPress deste blogue. Disse-me que o meu blogue era muito fashion e perguntou-me como conseguia.

Ora bem: até agora nunca na minha vida ninguém tinha chamado fashion a nada que eu tivesse feito. Fashion?! Mas eu nunca tive a intenção de ser fashion!

(Por esta altura lembrei-me das páginas finais do Peter Pan de J.M. Barrie, quando o Capitão Hook, que toda a vida se tinha esforçado por fazer tudo segundo as normas da good form, descobre ao lutar com Peter Pan que este tem good form sem nunca se ter esforçado por isso; pior, que tem good form precisamente porque nunca se esforçou por isso; e comecei a fazer uma ideia do que a sarinha queria dizer).

O que eu sempre me esforcei por fazer foi:

a) escolher imagens que ilustrassem minimamente (por vezes de forma muito indirecta ou até a contrario) os textos publicados e que não fossem uma repetição infindável da iconografia BDSM; as imagens podem ser escolhidas num ficheiro que tenho com o mesmo nome do blogue, ou posso pesquisá-las nas imagens do Google usando uma das palavras-chave do texto; por exemplo, no a imagem que escolhi para ilustrar a parte do ensaio de Polly Peachum em que ela se refere ao seu senhor como alguém com a vocação de curar foi encontrada digitando “healer” na pesquisa de imagens do Google;

b) escolher cores de texto que condissessem com os tons predominantes das imagens, mas obedecendo à regra das cores escuras sobre fundo claro – isto, em parte, porque na minha idade já não é muito fácil ler letras vermelhas sobre fundo preto e não quero exigir dos meus leitores que façam o que para mim é difícil.

c) encontrar uma forma de formatar textos do WordPress com recursos do Blogger – por exemplo, o Blogger permite-me determinar a cor do texto enquanto o modelo Mistylook do WordPress não tem botão para isso; então eu formato o texto no Blogger, com as cores que quero, copio o texto em HTML e colo-o, também em HTML, no WordPress. Isto funciona quanto às cores; quanto ao tipo de letra e à formatação dos parágrafos não funciona.

Falhanços: não encontro maneira de sair do menu de fontes muito limitado que tanto o Blogger como o WordPress fornecem. O meu post “Acta” foi feito (com muitas alterações) a partir de um documento que eu tinha no Word e que estava numa fonte toda às voltinhas, para ser impresso num papel tipo pergaminho antes de ser assinado por mim e pela dunya. Gostava de o ter publicado nessa mesma fonte, mas não deu; nem o Blogger, nem o WordPress assumiram essa fonte: ambos a interpretaram como um itálico, e foi assim que ficou.

E pronto, fiquei a saber que sou capaz de fazer uma coisa a que uma leitora que prezo muito chama fashion. Ó p’ra mim, todo inchado!

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Durante muito tempo vivi a minha orientação sexual de dominante sem a compartilhar com ninguém que não fossem aquelas mulheres, tão ingénuas como eu era, com quem me relacionei desta forma. Só quando descobri a Internet é que verifiquei que há muita gente a fazer muitas das perguntas que eu e elas fazíamos; e que há muita gente a encontrar, não só as mesmas respostas, mas respostas que nunca nos tinham ocorrido.

Uma questão que sempre se me pôs é a que dá o título a este artigo, por isso não me surpreendi quando a vi aparecer recorrentemente nos foruns e nos blogues. Quero referir-me em particular a duas mulheres que me disseram isto mesmo: “Eu quero ser a escrava perfeita.” (não estavam a falar em relação a mim.) Disseram-no as duas em contextos diferentes e com significados diferentes, mas em ambos os casos ficou subentendido o que elas não disseram explicitamente: “Eu quero encontrar o Senhor perfeito.”

Ora eu não acredito, nem em escravas perfeitas, nem em Senhores perfeitos; e isto pela simples razão que não acredito em seres humanos perfeitos. Acredito, sim, em relacionamentos perfeitos entre Senhor e escrava – relacionamentos estes cuja perfeição não só admite, como requer, a imperfeição de ambos. Não se pode aperfeiçoar o que já é perfeito, e para mim a perfeição num relacionamento consiste no aperfeiçoamento constante e perpétuo, quer do Senhor, quer da escrava.

Escravas perfeitas e Senhores perfeitos só existem na literatura. Na “História de O”, por exemplo: no início da narrativa, O é uma escrava imperfeita que tem um relacionamento imperfeito com um Senhor imperfeito, e no fim transformou-se na escrava perfeita que tem com um Senhor perfeito um relacionamento perfeito. Não quero dizer mal da “História de O”: pelo contrário, entendo que se trata de uma obra literária de primeiríssimo plano e do maior clássico da literatura erótica do século XX. Além disso é uma obra que transformou a minha vida e também, tenho a certeza, a vida de muitas outras pessoas. Mas isto não impede que seja uma obra de ficção, e o que é perfeito na ficção raramente é perfeito na vida.

A arte da narrativa tem grandes dificuldades. Entre elas conta-se a necessidade de adequar o enredo à caracterização das personagens, de fazer com que tanto um como a outra sejam plausíveis (pelo menos dentro das convenções da própria narrativa); e, se for uma obra extensa, um romance, a necessidade de fazer com que as personagens evoluam duma maneira consistente, quer com o enredo, quer com as suas características básicas. Nada disto é fácil, e tudo isto é conseguido brilhantemente na “História de O”. Podemos falar aqui de perfeição, mas é de perfeição literária que se trata. A perfeição do vivido é outra coisa.

No início da narrativa, O é uma escrava imperfeita. Há regras a que não consegue obedecer. Está proibida de olhar os Senhores nos olhos, mas fá-lo. Merece ser punida e é punida. No fim, contudo, já atingiu a perfeição. Já não merece ser punida. É claro que o continua a ser, mas é-o sem outra razão para além da vontade arbitrária do Senhor. A punição deixou de corresponder à necessidade ética de corrigir comportamentos e passou a corresponder à necessidade estética de exprimir a perfeição atingida.

Como é que se chega a esta perfeição? Primeiro, pelo treino; e logo a seguir pela exclusão deliberada de um factor de perturbação e complicação, que é o amor. Num dos momentos cruciais do romance, Sir Stephen diz a O: “Você confunde amor com obediência. Você obedecer-me-á sem me amar e sem que eu a ame.” Quando li esta frase pela primeira vez senti um misto de excitação e perturbação, e nunca mais deixei de reflectir sobre ela. Não é que não a tivesse compreendido: pelo contrário, compreendi muito bem o seu cabimento na lógica da narrativa. Mas a lógica da narrativa não é a lógica da vida, e muito menos a da vida que eu quero viver: nesta, o amor não é uma irrelevância, nem um obstáculo à perfeição, mas sim a própria perfeição.

Voltando à vida real e às minhas conhecidas a quem me referi acima: ambas relacionam, embora de maneira diferente, a noção de perfeição com a de castigo e com a de obediência. Uma sustenta que não pode ser castigada, pelo menos fisicamente, porque nada do que um dominante lhe faça está para além do que consegue suportar; a outra diz que uma escrava perfeita não pode ser castigada porque a sua vontade estará de tal maneira sintonizada com a do seu Senhor que a desobediência se torna impossível, e o castigo, consequentemente, desnecessário. A razão por que a noção de obediência desagrada a ambas é basicamente a mesma: num relacionamento entre um Senhor perfeito e uma escrava perfeita, a vontade de um coincide necessariamente com a do outro; logo, a escrava fará sempre de livre vontade tudo aquilo que o Senhor quer que ela faça; logo, o Senhor nunca precisará de invocar qualquer dever de obediência por parte da escrava.

Na vida real, esta perfeição, assim entendida, não me parece nem possível, nem desejável. Imaginemos que dois seres chegavam a este ponto: como poderíamos então distinguir entre o Senhor e a escrava? Numa relação destas faria tanto sentido dizer que ela era escrava dele como dizer que ele era escravo dela. Ambas as afirmações seriam verdadeiras; e ambas seriam falsas. Na “História de O”, a tentativa de excluir o amor acaba por falhar: O e Sir Stephen acabam por se amar. Mas esse amor não resulta numa vida em comum: atingida a perfeição, não têm mais para onde ir e o fim sugerido na história é a morte voluntária de O com a permissão do amante.

E no entanto eu desejo a perfeição. Não a perfeição narrativa, cuja lógica só pode desembocar na morte; mas a perfeição na vida, uma perfeição que tem em conta a humanidade, e portanto a imperfeição, quer do Senhor, quer da escrava. A perfeição neste relacionamento não depende duma impossível perfeição dos seus intervenientes, mas sim do seu lento, constante e infindável aperfeiçoamento. Neste relacionamento perfeito há lugar a castigos: o compromisso inicial pode cobrir todas as contingências futuras, mas estas não podem ser todas previstas e inevitavelmente chegará o dia em que a escrava sentirá: “eu não posso fazer isto, eu não quero fazer isto, eu não posso aguentar isto”. E há lugar a ordens dadas pelo Senhor e obedecidas pela escrava, porque chegará inevitavelmente o momento em que a vontade de um não coincidirá com a do outro; e o compromisso que assumiram é de que nestes casos a vontade do Senhor prevalece. E é neste momento – não nos momentos em que a obediência é tão fácil que nem é sentida como obediência, ou a punição tão fácil de suportar que nem é sentida como punição – que a perfeição do relacionamento se revela ou não. Não é perfeito o relacionamento em que a escrava obedece sempre porque quer sempre obedecer: perfeito, sim, é o relacionamento em que a escrava obedece mesmo quando não quer, e aceita sofrer mesmo o que não tem a certeza de suportar. A vida duma escrava não é fácil.

É esta uma das mensagens de Polly Peachum no ensaio “Violência no Jardim” que estou a traduzir e a publicar neste blogue. É a mensagem de alguém que tem a autoridade de ter vivido aquilo de que fala, a autoridade acrescida de ter reflectido profundamente sobre essa vivência, e a autoridade suprema de ter atingido na sua relação, sem ser ela própria perfeita, um grau de perfeição e exigência muito para lá do que a maioria de nós desejamos ou somos capazes.

Se a escravidão voluntária é um contrato em que uma das partes se compromete a que nunca mais seja tida em conta a sua vontade, é também um contrato em que as duas partes se obrigam a procurar juntas a perfeição, sabendo à partida que nunca a hão-de alcançar. Juntas, mas não exactamente lado a lado: o esforço do Senhor tem que ser um pouco maior; ele tem que ir um pouco mais à frente; porque pode falhar em muitas coisas, mas não no seu dever de guiar a escrava a bom porto. E isto também é difícil.

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…Mas também tu me fazes falta. Penso em mim sentado a ler na poltrona preta, e tu no sofá a fingir que dormias, cada vez mais zangada por eu não falar contigo nem te levar a sair.
De vez em quando levanto os olhos do livro e olho-te com um meio sorriso, divertido por pensares que não te estou a dar atenção quando estou quase totalmente concentrado em ti… Se pressinto que vais abrir os olhos, apago o sorriso e ponho-me a ler.

Às vezes dás-te conta disto: viras-me as costas num só movimento, dás de ombros furiosamente e comunicas-me, com toda a expressividade de que uma coluna vertebral pode ser capaz, que não estás a achar graça nenhuma à brincadeira.

Até que por fim te chamo:

– Dúnia…

Silêncio. Chamo de novo:

– Dúnia…

Viras-te para mim como se estivesses a acordar:

– Que queres?

Fazes beicinho como uma menina amuada mas eu, cheio de vontade de te beijar a boca, corrijo-te:

– Que queres, o quê?

Fazes um suspiro teatral, pões na voz toda a exasperação que podes:

– Pronto, está bem: que queres, meu Senhor? Peste…

– Primeiro, que me cumprimentes como deve ser. Depois, que me sirvas um whisky.

– É, mas não me ligas nenhuma…

Ligo-te mesmo muito, mas digo:

– Pois não… Também, não tenho nada que te ligar, és apenas a minha escrava.

Ainda repetes «peste» em voz baixa, depois levantas-te com deliberada lentidão, e de sobrolho franzido, diriges-te para mim. Quando eras mais nova praticavas desporto, agora és uma mocetona robusta e os teus passos nada têm de etéreo. Gosto de ti assim.

Ajoelhas, chamas-me «peste» de novo, beijas-me os pés e continuas a beijar-mos, com vagares infinitos, à espera que eu pense que te esqueceste da segunda parte da minha ordem. Eu, que não tenho pressa, acaricio-te longamente os cabelos. Por fim permito-te uma pequena vitória e repito a ordem:

– O whisky, Dúnia…

– Sim, meu Senhor.

Levantas-te devagar, diriges-te ao armário, tiras a garrafa e um copo de cristal, deitas a quantidade correcta, sem gelo. Quando caminhas de novo na minha direcção a tua expressão dura e fechada dissipa-se num momento e abres-te toda num sorriso luminoso. É então que compreendo – pela milésima vez – que estavas a jogar o mesmo jogo que eu e que por cada vitória que te permiti me permitiste outra a mim.

Ajoelhas-te de novo para me servir. Ficas aos meus pés enquanto bebo o whisky e recomeço a leitura. Não passa muito tempo antes que me estejas a beijar o sexo e a tentar trepar por mim acima; nem muito tempo depois disso sem que me perguntes meigamente se não quero possuir a minha escrava.

Quero, é claro. Pouco tempo depois estamos na cama, só com o candeeiro mais pequeno aceso; a luz é avermelhada e pouco mais forte que a duma vela. Daqui a pouco, quando me pedires autorização para te vires, acho que to vou permitir.

(Publicado no Blogger a 25/07/06)

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