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Cap. 34: TITÂNIO

Entretanto havia a viagem ao Brasil, documentos a regularizar, dossiers médicos a organizar, contactos a estabelecer… Os piercings de Teresa iam ser aplicados por um cirurgião, porque os aros de titânio não podiam ser trabalhados no local. Os furos tinham que ter à partida o diâmetro e a curvatura correctos, e o acesso a eles exigia incisões, de modo a que os aros, completos com os ilhós em que deslizariam, entrassem de lado; e por fim havia que suturar estas incisões. Este procedimento exigia uma anestesia local e era muito mais complicado que o que se pratica nos ateliers, mas a cicatrização, devido à precisão dos cortes, ia demorar menos que os dois meses habituais.

O voo para São Paulo demorou quase dez horas, e a transferência para a clínica mais uma. Na mesma noite em que chegou, Teresa ficou internada: o dia seguinte seria dedicado a exames e análises, e no terceiro seriam implantados os anéis. A própria clínica, situada ao lado do parque Ibirapuera, tratou do alojamento de Raul num hotel próximo. Assim, pôde estar presente na primeira consulta com o cirurgião, que já tinha em seu poder um modelo dos quatro piercings que ia colocar. Cada peça consistia em dois anéis que entrariam parcialmente na carne de Teresa. Estes anéis, distantes um do outro por cerca de um centímetro, estavam unidos por uma barra que ficaria de fora; desta barra saía outra, na ponta da qual havia mais um aro. Esta barra engatava, por meio de ranhuras, na que lhe correspondia no lábio oposto, de modo a que os lábios ficassem apertados naquele ponto e os aros da ponta ficassem justapostos sobre a longitude da vulva.

– Reparem os senhores que o engate não é perfeito – disse o cirurgião. – Há um pouco de folga. Isto é propositado: os engates não podem ter arestas vivas, para não machucar; e têm que engatar sem repuxar os tecidos. Depois de os aros de cima engatarem… assim… será possível segurá-los com um cadeado. A senhora deseja piercings de cada lado do clítoris e da vagina, não é verdade?

– Sim – disse Raul – mas a uretra tem que ficar livre…

– Vou dizer-lhe a verdade: com os dois piercings apertados no lugar, a uretra ficará um pouquinho constrangida. Não terá dificuldade em urinar, mas vai ter que fazer uma higiene mais cuidada…

– Sim, nós sabemos.

– A cicatrização não vai demorar tempo demais, porque a incisão vai ser muito exacta e a sutura também. Mas precisa ter alguns cuidados. Quero falar neles aos dois para ter certeza que entendem.

– Faça favor – disse Raul.

– Hoje, a senhora irá para a o seu quarto e fará exames. Se tudo estiver certo, será operada amanhã de manhã. É uma operação muito simples, com anestesia local. Algumas suturas serão bio-solúveis, outras terão que ser removidas à medida que não sejam necessárias. Logo que possível, a senhora deverá mover um pouco os implantes para eles não colarem aos tecidos, mas sempre com muito cuidado. Não tente engatar os anéis exteriores antes de passarem três semanas. Não poderá fazer sexo vaginal antes de seis semanas, e espere oito semanas antes de usar os cadeados.

– E sexo anal? – perguntou Teresa.

– Pode fazer sexo anal passadas quatro semanas, mas tem que fazer logo a seguir uma higiene muito completa de toda essa parte de seu corpo, usando um bom anti-séptico. Agora a enfermeira vai levar a senhora ao seu quarto. O senhor poderá vir de visita a qualquer hora entre as dez da manhã e as dez da noite. Se tudo correr como esperamos, ficará internada três dias: hoje para preparação e exames, amanhã para a operação e mais um para tratamento pós-operatório. No último dia, o senhor também deverá estar presente para a enfermeira ensinar alguns cuidados que deve ter. Depois, a senhora deve descansar, não pode fazer muito esforço; pena que não possa visitar nossa cidade como ela merece.

– E pompoar, quando posso fazer? – disse Teresa.

– Exercícios de Kegel? Pode fazer daqui a quatro ou cinco dias: até ajuda a recuperar. Mas ao princípio faça com muito cuidado, ouviu? Se lhe doer, nem que seja um pouquinho, pare logo.

Depois disto, Raul foi posto delicadamente na rua. Um funcionário da clínica conduziu-o de automóvel ao hotel. No dia seguinte só o deixaram visitar Teresa de tarde: encontrou-a um pouco combalida e impaciente por não a deixarem pôr-se de pé. Para a entreter, Raul descreveu-lhe o hotel, o passeio que tinha dado de manhã, alguns factos que tinha apurado sobre a clínica:

– Sabes que como teu acompanhante tenho direito a alguns tratamentos de graça? Limpeza facial, drenagem linfática… tenho que ver melhor o catálogo.

Teresa fez-lhe sinal de que lhe queria falar ao ouvido, e quando ele se inclinou disse-lhe:

– Só não os deixes modificar-te o pénis, gosto dele exactamente como é.

E ao sentir-se sacudida de riso acrescentou, como se a culpa fosse dele:

– Ai, não me faças rir, que me dói…

Raul deu o suspiro os homens que dão há milénios quando confrontados com a injustiça feminina, ajeitou-lhe a inclinação da cama para ela ver melhor a televisão, beijou-lhe os lábios e perguntou:

– Estás bem assim?

– Estou bem, não te preocupes. Que livros são esses?

– Alguns são para ficar aqui, os outros para eu levar para o hotel.

– Não vais sair à noite?

– Não é preciso. Ligo para a recepção e eles mandam-me uma moça da cor e feitio que eu quiser.

– Para te acender o charuto e servir o whisky, não é?

– Pois claro. Para que mais havia de ser?

– Então manda-a passar por aqui para eu a ensinar. Não quero o meu senhor mal servido…

Riram-se os dois e ficaram algum tempo de mão dada, um pouco enleados, sem saberem bem o que dizer um ao outro. Por fim, foi ela que o mandou embora:

– Anda, vai. Também precisas de descansar. Eu fico bem, daqui a pouco apago a luz.

O dia seguinte foi passado na clínica, onde Teresa já podia passear uns minutos nos jardins.

– Esta coisa ainda me incomoda – disse ela no fim de um destes passeios.

– Dói-te?

– Não, quase não me dói. Mas sinto que são objectos estranhos… Hei-de habituar-me, está claro.

No terceiro dia Teresa teve alta. Antes de sair, uma enfermeira levou-a com Raul a um quarto mobilado como o duma casa particular, com um quarto de banho normal, e ensinou-lhes alguns procedimentos que teriam que seguir no futuro: muita água, muito sabonete, muita água oxigenada, muita circulação de ar, e tudo sempre o mais seco possível.

– Melhor andar de saia sem calcinha, moça… Não vai ter vergonha, vai?

Agora, havia que ocupar os dias. Teresa achava frustrante ter forças para andar e não o poder fazer tanto quanto queria. Os passeios no parque eram dados em passo lento, o que, se por um lado os fazia durar mais, por outro impacientava Teresa, que sempre gostara de caminhar depressa. Raul apontava-lhe os animais e as plantas, que naquele início de primavera brasileira animavam o parque com sons e com cores: assim conseguia que ela se detivesse por momentos e não forçasse demais o corpo.

Na primeira noite que passaram juntos, Teresa decidiu que era tempo de voltar a assumir os seus deveres de escrava: depois dos beijos profusos e das demoradas carícias do reencontro, ajoelhou-se à frente dele, num gesto tão gracioso que dava a impressão de já nada lhe tolher os movimentos, e pediu:

– Meu senhor, não queres gozar na minha boca? Há tanto tempo que não te sirvo…

Raul olhou-a nos olhos:

– Lembras-te de como eu te ensinei, minha escrava?

– Como não havia de me lembrar, meu senhor? Vou-te mostrar…

Raul desapareceu no quarto de banho da suite – aqui dizia-se banheiro – para reaparecer cheirando a sabonete e vestido com o pijama que ela lhe tinha oferecido. Sentou-se na poltrona e ordenou:

– Anda cá, escrava, e abre-me o pijama.

Quando Teresa obedeceu, compreendeu a razão de ele ter vestido o pijama: estava completamente depilado na púbis e na zona genital, e tinha querido fazer-lhe uma surpresa.

– Ficas bonito, meu senhor – disse Teresa.

Gostava, com efeito, de o ver assim. Agradava-lhe que ele não tivesse depilado as pernas nem as coxas, particularmente junto às virilhas, onde a pelugem é mais sedosa. Só depilara o escroto, a púbis e o ventre até ao umbigo. O pénis, assim, parecia maior, e viam-se melhor os testículos.

– Quando voltar a servir-me de ti pela vagina – explicou Raul – não quero que os meus pelos se enredem nos teus piercings. Comecei a fazer depilação a laser aqui na clínica. Em Portugal, continuo.

Teresa sabia que o seu prazer não contava, mas não se pôde impedir de sentir que agora era mais agradável metê-lo na boca, sem ter que cuspir pelos. Começou a chupá-lo como ele lhe tinha ensinado, com ternura e respeito; mas desta vez experimentou uma técnica que tinha inventado: virar a cabeça para os lados de modo a poder acariciar-lhe a glande com a mucosa macia do interior das bochechas. De que ele gostou, não teve dúvidas. Mas também ela tinha uma necessidade o satisfazer, uma necessidade que não era física mas emocional: renovar a dádiva de si que estava no centro do seu amor por ele. Por isso se dedicou tanto, por isso apressou a carícia até sentir a boca inundada de esperma.

Limpou-o com a boca e com a língua: outra vantagem de ele se ter depilado era que esta limpeza era agora muito mais fácil. Depois sentou-se no chão, apoiou a cabeça nos joelhos dele e disse:

– É estranho como chupar-te me faz sentir propriedade tua mais do que qualquer outra coisa… e já estava a precisar de me lembrar, meu amor. Nunca deixes de usar a minha boca.

– Não, minha querida – respondeu Raul. – Também eu te sinto mais escrava quando te ajoelhas para me servir, e não quero nunca prescindir de te possuir assim…

Dois dias depois de sair do hospital, Teresa foi com Raul ao consultório do cirurgião. O médico ficou tão satisfeito com a evolução dela que chamou Raul para junto de si:

– Venha, venha ver… Olhe aqui, no interior dos anéis, como os tecidos estão a cicatrizar… Se continuarem assim, as cicatrizes vão ficar quase invisíveis, e os aros vão ficar bem firmes… É bom sua mulher ter os labia majora tão grandes e resistentes. Mas não se esqueçam que a cicatrização completa demora muito mais que a cicatrização visível… É importante que respeitem os prazos que eu lhes dei.

– Nós sabemos, doutor – disse Teresa. – Vamos respeitá-los à risca…

Teresa não se permitia a impertinência de andar calçada no hotel: considerava que este era, de momento, a casa de Raul, onde tinha de mostrar humildade e respeito; mas nos jardins ele mandou que ela usasse havaianas: um passo em falso, provocado por qualquer pedra no caminho, seria perigoso.

Nos dias seguintes, Teresa tirou os pontos. Onde os anéis de titânio lhe entravam na carne, a pele estava muito fina e rosada, mas não lhe doía nem apresentava sinais de inflamação. Um automóvel alugado com motorista permitiu-lhe visitar com Raul alguns centros de interesse e percorrer duma ponta à outra a enorme Avenida Paulista. Uma noite, aproveitaram a proximidade do Auditório Ibirapuera para irem ouvir a Sinfonia Fantástica de Berlioz: o edifício de Niemeyer impressionou-os, e a música, furiosamente romântica, harmonizava-se com o seu estado de espírito. Passavam, porém, tanto tempo no hotel que Raul ganhou o hábito de se servir de Teresa pela boca mais vezes por dia do que seria de esperar de um homem com quase cinquenta anos. Teresa, que já tinha aprendido muito sobre as preferências dele nesta área, teve ocasião de aprender ainda mais, agora que nada se interpunha entre ela e a pele dele: a infinita leveza com que era preciso beijá-lo ou tocá-lo no escroto, o prazer que era possível dar-lhe passando-lhe a língua no períneo, a maior profundidade a que era agora possível engoli-lo e a necessidade de reaprender a não se engasgar … A ideia de se dedicar durante várias semanas exclusivamente a chupá-lo seduzia-a particularmente, a ponto de nem lhe interessar muito que ele a acariciasse. Tinha-lhe dito um dia que por vezes fantasiava não ser para ele mais do que uma cona; pois agora tinha a oportunidade de não ser mais do que uma boca; durante alguns dias concentrou-se em aproveitá-la e não se importou de andar com os maxilares sempre doridos. Agora que fazia cada vez mais da boca uma vagina de substituição, Teresa achava-se cada vez menos no direito de falar. Sem que ele lho ordenasse, ganhou o hábito de pedir autorização antes de iniciar qualquer conversa:

– Posso falar, meu senhor?

Algumas vezes teve a surpresa de o ouvir dizer não, a ele que tanto gostava de a ouvir; mas estes silêncios impostos eram preenchidos, por um lado, por uma tensão erótica que a fazia cantar por dentro, e por outro por toda uma linguagem de gestos e olhares que era quase uma telepatia. Mas este período mágico tinha que terminar. No dia anterior ao do regresso a Portugal, Teresa, meio morta de vergonha, telefonou para a recepção a perguntar se lhe podiam indicar uma sex-shop que não fosse longe dali. Deram-lhe a indicação pedida, mas informaram-na que o próprio hotel poderia mandar entregar no quarto qualquer artigo mais corrente que a senhora desejasse. Era apenas um lubrificante, disse Teresa. Se era só isso, não precisava de ir à sex-shop: quando voltasse ao quarto, depois de a faxineira o arrumar, encontraria o que desejava no banheiro. E foi assim que Teresa deu a Raul a última abertura do seu corpo que lhe faltava utilizar. Bastou-lhe deitar-se nua sobre a cama, colocar uma bisnaga de lubrificante sobre a mesinha de cabeceira de modo a que ele reparasse, e pôr-se de bruços à espera.

– Queres dar-me o teu cuzinho? – perguntou Raul.

– Não te posso dar o que não é meu – respondeu Teresa. – O meu cu sempre foi teu, mesmo que nunca te tenhas querido servir dele. Mas, se não é ousadia uma escrava exprimir um desejo, gostava que te servisses dele hoje.

Raul deu uma risada:

– É verdade, já é meu – observou. – E é verdade, és uma escrava muito ousada.

– Aqui dizem abusada – interrompeu Teresa.

– Ousada ou abusada, vou-te fazer a vontade: prepara-te, porque não vou ter dó de ti.

Despiu o roupão e começou a acariciar as nádegas de Teresa, que se levantavam de encontro à mão dele como se tivessem vontade própria. A esta carícia seguiram-se duas ou três leves palmadas, que lhe rosaram a pele e a fizeram respirar um pouco mais fundo. Quando a viu ficar um pouco excitada, Raul pôs um pouco de gel nos dedos e começou a massajá-la em volta da abertura de trás, aproximando-se cada vez mais do centro e acabando por lhe introduzir o dedo indicador, primeiro só até à primeira articulação, depois até à segunda, por fim até à base.

Quando lhe encostou ao ânus a ponta do pénis, que também tinha lubrificado cuidadosamente, disse-lhe que fizesse força para fora, como se estivesse a fazer sair qualquer coisa e não a deixá-la entrar. Teresa sorriu: este truque, conhecia-o ela dos seus anos de puta. Sempre tinha tentado evitar o sexo anal, mas nem sempre isto dependera da sua vontade. Mas agradou-lhe que Raul a tratasse como a uma jovem inocente; e de facto, desde a última vez que tinha sido possuída por trás, tinham-se passado tantos anos que o rabo se apertara de novo. Apesar Raul de ter tido todo o cuidado em lubrificá-la e em lubrificar-se, teve muito menos ao penetrá-la. Isto agradou a Teresa: sexo por trás é para doer, pensou; e embora gemesse de dor, virou a cara para e entreabriu os lábios num convite a que ele a beijasse.

O voo de volta foi mais difícil para Teresa do que tinha sido o de ida. Raul tinha comprado lugares em primeira classe, para que Teresa, sentada sobre os seus piercings, tivesse mais amplitude para ajustar a sua posição no assento – necessidade esta que ter o rabo dorido tornava agora mais premente. Reservara um lugar junto à coxia, para que ela se pudesse pôr de pé algumas vezes. Mas tratava-se dum voo nocturno, e Teresa também dormiu não podia passar o tempo todo a passear pela coxia.

Chegaram a Pedras Rubras, estremunhados, às nove da manhã. À sua espera estava Milena, muito engomada no seu uniforme de empregada, e com ela Ana e Miguel, que os acompanharam a casa. Depois do pequeno-almoço, Raul mandou Teresa deitar-se no sofá, levantou-lhe a saia e examinou-lhe o sexo: nos pontos de inserção dos piercings, a carne estava um pouco inchada e avermelhada. Depois do duche, que tomaram juntos, Raul fez questão que ela se secasse bem antes de ele próprio aplicar a pomada desinfectante e anti-inflamatória que o médico tinha receitado. Passaram o resto da manhã na cama, a descansar e a conversar. Almoçaram em casa, servidos por Milena, que pôs sobre a cadeira de Teresa a almofada mais macia que havia em casa; e de tarde passearam um pouco a pé: foram até à Rotunda da Boavista, à Casa da Música, tiraram fotografias um ao outro como um par de namorados e pediram a um casal de turistas que os fotografasse juntos.

– Espere, deixe-me tirar os sapatos! – disse Teresa.

Enquanto a senhora, já de cabelos brancos, lhe segurava os sapatos para que não ficassem caídos no chão a estragar a foto, o marido tirava-lhes o retrato, sorrindo com indulgência da veleidade romântica de Teresa.

De novo em casa, Raul foi para o escritório e mandou Teresa de novo para a cama: queria-a de pé ou deitada; mas sentada, o mínimo possível. À noite não quis possuí-la por trás: era sua intenção fazê-lo raramente, de modo a que a abertura se mantivesse sempre apertada. Ele também acha que por trás é para doer, pensou Teresa; e pôs no beijo que deu a Raul um pequeno extra de ternura.

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Final do Capítulo 29


O intervalo estava a chegar ao fim, a aula que ia dar a seguir era a última. Ligou para o telemóvel de Teresa:

− Onde estás?
− No shopping, a fazer umas compras.
− Falta-te muito?
− Não, já saí do supermercado e agora ando aqui a ver umas lojas.
− Então vai já para casa e espera lá por mim toda nua. Logo que possa vou ter contigo.
− Sim, meu senhor – disse Teresa. – Meu querido…
Raul desligou o telemóvel, mal dedicando um pensamento a quem quer que o tivesse sob escuta. Que lhes fizesse bom proveito. Foi dar a sua aula, saiu imediatamente, meteu-se no carro, parou numa florista e foi para casa, onde presenteou Teresa com um ramo de rosas. Teresa, que já tinha planeado recebê-lo de joelhos, ajoelhou-se para receber as flores. Depois correu para o interior da casa para as pôr numa jarra com água, e voltou para junto de Raul, igualmente apressada, para retomar a saudação planeada no ponto em que a tinha interrompido. Ajoelhando-se de novo, beijou-lhe a mão e disse:
− Aqui estou, toda nua, ao teu dispor. O que queres fazer de mim?
− Segue-me, minha escrava.
Teresa seguiu-o até ao quarto, onde ele, detendo-se, lhe ordenou:
− Agora despe-me.
Teresa começou por lhe tirar a T-shirt. Como ele era mais alto do que ela, teve que se estirar toda para lha fazer deslizar ao longo dos braços, que ele não esticou para cima, mas sim para a frente. A regra, quando ela o despia, era que lhe fosse beijando cada parte do corpo que fosse ficando a descoberta. Teresa obedeceu à regra beijando-lhe os ombros, chupando-lhe um pouco os mamilos, dando-lhe a volta de modo a poder beijar-lhe as costas ao longo da espinha, regressando por fim ao peito. Aproveitou esta oportunidade para o roçar com os seios sempre que pôde, o que, não sendo exigido, dava prazer aos dois. A seguir tirou-lhe os sapatos e as peúgas, beijando-lhe os pés. Por fim tirou-lhe as calças e as cuecas e beijou-lhe o sexo, que tinha segurado entre as mãos postas como que em oração.
− Vem dar-me um duche – disse Raul.
Enquanto ele se dirigia devagar para o quarto de banho, Teresa, numa corrida, deitou no cesto da roupa suja as peúgas, as cuecas e a T-shirt que lhe tinha tirado, e dispôs outras, lavadas, na cadeira ao lado da cama. No quarto de banho pôs o duche a correr, ajustou a temperatura da água e convidou Raul a subir para a banheira, onde começou por lhe molhar o corpo todo. Para o ensaboar teve que subir também para a banheira, e apesar de ter tomado duche meia hora antes também se molhou e ensaboou.
− Deixa-me esfregar-te, meu senhor…
E começou a esfregá-lo, não com as mãos, mas com o corpo todo, abraçando-se a ele pela frente e por trás, ajoelhando-se para lhe chupar o pénis ou para lhe lavar os pés. Raul aceitava estas homenagens serenamente, como algo que lhe era plenamente devido, mas nem por isso deixava de sopesar ocasionalmente um seio da sua escrava, ou de lhe introduzir dois dedos entre as coxas para a fazer sobressaltar. Teresa, atenta ao seu dever, não se queria excitar demais. Depois de passar o chuveiro por si própria e por ele, secou-se a si própria à pressa e a ele com todos os cuidados. Só uma coisa a desgostava ligeiramente: depois do seu primeiro duche tinha passado por todo o corpo um creme perfumado e amaciador, que agora se escoara pelo ralo da banheira.
− Meu dono… − disse. – Eu tinha passado creme no corpo… Queria estar toda macia para ti… Esperas agora um pouco que passe outra vez?
− Pois sim, minha escrava – consentiu Raul. – Mas antes acompanha-me ao quarto para me ajeitares as almofadas e me deixares confortável.
− Sim, meu senhor – disse Teresa, com um sorriso aberto. – Às tuas ordens.
Raul estendeu-se no meio da cama de barriga para cima. Teresa aproveitou o pretexto de o pôr confortável para se roçar levemente nele; mas, quando o viu de sexo completamente erecto, escapou-se, rindo:
− Vou pôr creme…
Raul apoiou a cabeça na almofada, sorriu ligeiramente, descontraiu-se e esperou até ficar com o pénis de novo flácido. Teresa, ao entrar, sorriu-lhe; depois, ajoelhando-se no seu catre, aos pés da cama, começou a beijar-lhe os pés, depois os tornozelos, subindo-lhe lentamente, com os lábios e com a língua, pelas pernas acima. Por vezes detinha-se neste progresso e voltava um pouco atrás, para logo depois recomeçar. Ao chegar-lhe às coxas subiu para cima da cama e ficou de gatas por cima dele, baloiçando para os lados os seios pendentes de modo a afagá-lo com os mamilos. Deteve-se por muito tempo a beijar-lhe o sexo, que encontrou de novo erecto. “Não estás menos pronto do que eu,” pensou, “mas se não me deres outra ordem vamos ter os dois que esperar”. Raul não lhe deu outra ordem, e assim Teresa continuou a trepar por ele acima, lentamente, lentamente, voltando atrás de vez em quando, quando ele menos esperava. Porque se submeteria ele, sendo Senhor, a esta tortura, sabendo que a podia fazer cessar a qualquer momento com uma simples ordem? Talvez soubesse que a sua escrava, ao torturá-lo, se estava a torturar ainda mais a si própria.
− Continua assim, minha escrava.
“Sim, escrava dele,” pensou. Um ser aberto, sem resistências que tivessem que ser vencidas, pronto para dar e receber qualquer prazer a qualquer momento, capaz de submeter o seu senhor à tortura da espera, mas só ao preço de a sofrer em dobro. Estava pronta. Como estava pronta! Mas primeiro havia os mamilos dele a beijar, as mãos dele a levar aos lábios, o ventre dele a acariciar com os seios, o rosto dele a encher de beijos…
− Mais devagar, escrava.
Mais devagar, mas essa palavra, escrava, a penetrá-la como uma lança, como um falo erecto, a fazer com que dentro dela tudo andasse mais depressa, tudo se precipitasse, tudo reclamasse um desenlace.
− Mais devagar…
E ela, devagar, chegava-lhe finalmente aos lábios, beijava-lhos com fúria, enrolava a língua na dele, acariciava com o sexo o sexo dele, sem ousar empalar-se como lhe exigia o corpo, aguardando uma ordem, apenas uma ordem que do mesmo passo a trespassasse e libertasse.
Mas a ordem não veio. Em vez dela veio uma estocada poderosa, dada por ele de baixo para cima com um movimento súbito dos quadris. Tanto bastou para que ela sentisse, eminente, um orgasmo que se anunciava avassalador. E pediu:
− Meu senhor, posso vir-me?
E Raul respondeu:
− Não.
Não?! Como não?! Como deter a avalanche que já se desprendia, a onda que já se agigantava?! Mas Teresa deteve-a, nunca veio a saber como. Numa escala qualquer que encontrou dentro de si, fez com que o prazer que sentia encontrasse um patamar onde pudesse ficar imóvel, sem subir nem descer, mudando de natureza, tornando-se em parte dor, em parte exaltação, mas continuando a ser algo de desmedido, de sublime. Sem perder um átomo desta estranha volúpia, abraçou o amante, sentiu como ele se movia dentro dela, como se derramava, como arquejava num orgasmo talvez igual ao que lhe negara. Manteve o amante dentro de si enquanto ia ficando flácido. Sentia que a vagina se lhe contraía e distendia como se afinal o orgasmo proibido lhe estivesse a vir, embora sem a sensação correspondente. Beijou Raul, como sempre o beijava depois do amor, mas estes beijos tinham uma urgência diferente. Acariciou-o, mas as carícias eram outras, mais vívidas. Disse-lhe que o amava, e isto era tão verdade como das outras vezes, ou ainda mais. Em vez da frustração inicial começava a sentir outra coisa igualmente intensa, mas agora da ordem da esperança; a excitação sexual era agora, por acréscimo, cerebral. Talvez nem sequer sentisse o desejo de enlaçar o corpo noutro corpo, mas sim de flutuar para sempre neste paraíso novo a que não sabia dar nome. Este estado de exaltação manteve-se enquanto tomou duche com Raul, enquanto se vestiu e arranjou para ir almoçar com ele, e continuou depois durante o resto do dia e para lá dele. Ao sair não pediu, como era norma, que ele lhe permitisse calçar-se, mas sim que a deixasse ir descalça, ao que ele acedeu.
Almoçaram no restaurante da Fundação de Serralves. Visitaram o Museu. Nalguns lugares do jardim o chão era um áspero e magoou um pouco os pés de Teresa. Quando chegaram a casa ela serviu-lhe o jantar, sentou-se-lhe aos pés enquanto ele lia, serviu-lhe um whisky, acendeu-lhe um charuto. Conversaram bastante, mas nenhum dos problemas práticos que tinham a resolver veio sequer à baila. À meia-noite foram-se deitar. Antes de adormecer, Teresa deu-se conta que aquele talvez tivesse sido um dos dias mais felizes da sua vida.

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(Início do Capítulo 24)

Teresa teve dificuldade em adormecer. Desde que vivia com Raul, sempre dormira com ele; e embora soubesse que o catre aos pés da cama era para ela, e ela própria lhe mudasse os lençóis e as colchas de modo a condizerem com os da cama principal, tinha-se habituado a ver nele mais uma peça decorativa do que um móvel a ser utilizado. Perguntava a si própria porque é que Raul, logo nessa noite, a tinha mandado pela primeira vez dormir aos pés dele. E não adiantava que ralhasse a si própria, tentando convencer-se que a decisão era prerrogativa dele e não lhe cabia a ela saber as suas razões, porque por mais que o fizesse a pergunta voltava, insistente, ao seu espírito: porquê? Porquê hoje?

A meio da noite, nunca soube a que horas, acordou. Num primeiro momento não soube onde estava, mas isto acontecia-lhe muitas vezes: às vezes, por um segundo, via-se no apartamento do Corso Magenta, ou em Braga, em casa dos pais, ou, com terror, nalgum dos bordéis em que tinha estado prisioneira. Mas bastava-lhe determinar a posição da cama em relação à fresta de luz que vinha da janela, e sentir ao seu lado o corpo de Raul, para se localizar rapidamente. Desta vez demorou mais: não via a janela; esticando o braço para um lado encontrava, muito próxima, a borda do colchão; do outro lado encontrava, igualmente próxima, uma estrutura de madeira que só identificou ao fim de uns segundos. Eram os pés da cama de Raul, evidentemente. E era ali que ela estava, aos pés dele.

Não tinha frio. O catre tinha colchão, lençóis, um cobertor fino, uma coberta. Não tinha almofada porque Raul tinha decretado que isso estragaria a simetria do conjunto, mas Teresa passava bem sem ela. Não tinha frio, mas sentia qualquer coisa de semelhante: uma desolação, uma desprotecção, como se estivesse nua e sozinha à mercê da chuva e do vento.

− Meu senhor querido, deixa-me ir para o pé de ti…

Disse estas palavras em voz muito baixa. Não queria acordar Raul, nem esperava que ele a ouvisse, só queria sentir as palavras a sair-lhe da boca e a pairar no meio do quarto como um cobertor invisível que os abrangesse a ambos. Mas ele, a dormir ou acordado, ouviu; e disse, numa voz tão baixa como a dela:

− Vem, minha escrava. Vem para o pé de mim.

Cuidadosamente, sem fazer barulho, orientando-se na escuridão, Teresa contornou a cama. Entendendo que devia um agradecimento a Raul, introduziu-se por baixo da roupa para lhe beijar longamente os pés. Depois, ao senti-lo virar-se de modo a ficar com a barriga para cima, começou a percorrer-lhe o corpo com beijos até lhe chegar ao pénis, que beijou e chupou ternamente até o ouvir dizer:

− Anda cá, minha escrava.

Só então se deitou ao lado dele, estendendo-lhe os braços. Ele abraçou-a também. Teresa estava pronta a ser penetrada. Era sempre assim com Raul. Não tinha sido assim com Ettore, e muito menos com qualquer amante de ocasião: com estes tinha necessitado sempre de carícias e de preliminares, como sempre ouvira dizer que todas as mulheres precisam. Com Raul, não: bastava ouvi-lo dizer “anda cá”, ou mesmo vê-lo fazer um sinal com o dedo, para ficar imediatamente molhada, com a vulva em flor e o clítoris intumescido. Era irónico que assim fosse com Raul, que tanto prazer tinha em acariciá-la e beijá-la e se demorava nisso, por vezes, horas inteiras, e nunca dava a impressão de estar a fazer um favor que seria depois pago com outro. Nem desta vez ele deixou de a acariciar; mas desde que a sua relação começara Teresa sentia cada vez menos, na mão que lhe percorria o corpo, a mão do amante que procura despertar os sentidos da amada. Sentia, sim, cada vez mais, e isto era tudo o que precisava de sentir, a mão do dono que explora o que é seu. Se ser escrava era esta prontidão imediata, abençoada escravidão. Deitou-se de costas, toda oferecida, já de pernas abertas, para que ele fizesse com ela o que quisesse, e sem tardança sentiu que ele a montava, lhe afastava as coxas ainda mais com os joelhos, e lhe enfiava na vagina mais que receptiva o pénis erecto. Lembrou-se a tempo que agora tinha que pedir autorização para ter orgasmo; pediu-a, ele deu-lha, e Teresa veio-se como se tinha vindo horas antes: intensamente, e com um orgasmo tão prolongado que ainda durou o suficiente para coincidir com o dele.

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(Início do Capítulo 16)

Dias mais tarde, andando Teresa a arrumar o apartamento, decidiu esvaziar completamente um armário embutido que não tinha arrumado antes e que, estando no escritório, se prestava a que lhe substituíssem as portas por umas de vidro, obtendo assim um espaço que se podia estantear para guardar livros. Encontrou a parte de cima cheia de malas velhas que era preciso deitar fora; e abrindo uma destas deu com um chicote preto, de couro, dos que doem mais. Há quantos anos estaria aquilo ali? O couro estava baço e manchado, mas ainda flexível; e Teresa decidiu que na primeira oportunidade havia de o limpar e restaurar, porque era um lindo objecto, muito decorativo, que ficaria bem na parede do quarto dos castigos.

De noite mostrou-o a Raul, que ficou espantado:

− Eh, pá! Onde foste desencantar isso? Nem me lembrava que ele existisse. É de quando? Do meu tempo de solteiro, seguramente.

− A Isabel alguma vez levou com ele?

− A Isabel? Parece-me que nem nunca o viu. E por falar nela: tem-te telefonado?

− Tem, e eu marco sempre encontros, e falto sempre. Mas deixa lá a Isabel e olha para isto: não é um lindo objecto? Quando eu o limpar e restaurar, vai ficar perfeito.

Passaram mais uns dias. Teresa tinha planeado uma viagem com Carolina a Milão. Na véspera, serviu o jantar a Raul, vestida com o seu uniforme de criada em xadrez cor-de-rosa e branco. Depois de arrumar a cozinha, e quando se preparava para ir mudar de roupa, ele deteve-a:

− Hoje não, meu tesouro. Não te vás vestir. Hoje quero que te ponhas toda nua e me esperes no quarto dos castigos.

Teresa empalideceu. Sem dizer uma palavra, voltou-lhe as costas, foi para o quarto, despiu-se completamente, e foi esperar por Raul no quarto dos castigos: de pé, braços caídos, olhos baixos, sem ousar tocar em nada. Quando Raul chegou, disse-lhe em voz sumida:

− Meu senhor, desculpa, ainda não limpei o teu chicote preto…

− Não faz mal, minha pequenina – respondeu Raul. − Não é esse que estou a pensar usar. Dá-me a mão.

Teresa ergueu a mão direita e Raul atou-lhe o pulso com uma corda de seda negra, dando várias voltas e deixando livre uma ponta com mais de meio metro.

− A outra – disse Raul.

Com a mesma docilidade, e em silêncio, Teresa deixou amarrar o pulso esquerdo. Quando ele a conduziu, puxando-a pelas cordas, à banca abaulada que estava à direita das colunas, debruçou-se sobre ela sem que ele lho ordenasse e ficou com o rabo empinado enquanto ele lhe prendia os pulsos a uma argola perto do chão. Teresa sentia os seios esborrachados contra a superfície de couro, mas tinha a cabeça livre, podendo erguê-la para olhar em frente ou baixá-la para ver os pulsos amarrados à argola, que rebrilhava, limpa por ela própria nessa mesma manhã. Depois sentiu Raul atrás dela, prendendo-lhe os tornozelos, e de lado, passando-lhe à volta da cintura uma correia de couro que depois fixou com cordas a outras argolas de modo a que ela não se pudesse mover para os lados. Depois de a imobilizar completamente, saiu do quarto. Teresa ouviu música vinda de outra parte da casa, não sabia de onde, tocada tão alto que mesmo ali ela a reconheceu: era a Salomé, de Richard Strauss. Não soube quanto tempo ficou à espera: pelo menos tanto quanto durou a abertura da ópera, e o suficiente para ouvir a soprano que uivava por “Jokanaan, Jokanaan”. Quando Raul regressou e fechou a porta atrás de si, a música deixou de se ouvir. Também não ouvirão os meus gritos, pensou. Depois viu-o diante dela, trazendo na mão uma vergasta, que lhe mostrou; era uma vergasta flexível, forrada de seda vermelha e com cabo de cabedal preto.

− Beija a vergasta – disse Raul, chegando-lha aos lábios.

Teresa beijou a vergasta e ergueu os olhos para Raul, numa interrogação muda. Ele acenou com a cabeça, como se estivesse a responder “sim” a uma pergunta que ela tivesse feito, e colocou-se por trás dela. Teresa esperou pela primeira vergastada, dividida entre o desejo de que ela nunca viesse e o de que viesse já, para terminar tudo mais depressa. Ouviu um silvo, contraiu os músculos todos do corpo, mas o golpe não chegou: Raul estava ainda a experimentar a flexibilidade do instrumento. Mas o segundo silvo culminou numa dor intolerável, numa queimadura que lhe atravessou as nádegas dum lado ao outro. Os olhos rebentaram-lhe em lágrimas logo ao primeiro golpe, a garganta em gritos a partir do terceiro ou quarto; mas nem lágrimas, nem gritos detiveram Raul, e o tormento prolongou-se pela sua já conhecida eternidade. Por fim tudo terminou; Teresa distendeu os músculos, encheu o peito de ar – só para sofrer a mais cruel desilusão quando as vergastadas recomeçaram, desta vez vindas da sua direita. Raul tinha mudado a chibata de uma mão para a outra, era tudo.

Só acreditou que tudo tinha terminado de verdade quando viu Raul à sua frente, pondo-lhe a vergasta ao alcance dos lábios:

− Beija a vergasta, escrava.

Teresa beijou-a.

− Agradece o castigo.

Teresa agradeceu, entre lágrimas:

− Obrigada, meu senhor.

− Diz que me amas.

− Amo-te, meu senhor. Amo-te…

E era verdade. Amava-o com toda a amplitude de um coração que ainda lhe parecia estar a rebentar do castigo.

− Amo-te… − repetiu.

Agora que já não estava perdida na dor e recomeçava a ter a noção das coisas, dava-se conta que já tinha recebido castigos bem mais dolorosos do que aquele, e que havia, sem dúvida, de os receber no futuro. Raul tinha escolhido, da panóplia de instrumentos que ela própria lhe enviara, um dos que doíam menos. Mas durante o castigo não se tinha apercebido desta diferença, e tinha gritado tanto como gritaria se ele tivesse sido mais severo. Em frente dos olhos tinha a braguilha das calças dele. Viu-o desapertar o cinto, abrir os botões das calças e das cuecas, tirar o sexo para fora, e sentiu-o encostar-lhe a ponta aos lábios.

− Abre.

Abriu a boca. Pouco tempo depois de ele a penetrar, deu por si a fazer-lhe as carícias e a repetir os movimentos que ele lhe ensinara: como era isto possível? Mas fez as carícias, repetiu os movimentos, usou a língua, e durante este tempo sentiu uma espécie de orgulho, como se o impensável que ele ousava fosse também uma ousadia dela, um teste, uma prova iniciática que a elevava acima de todas as mulheres. Durante o tempo todo não fechou os olhos: fechou-os só quando ele ejaculou, talvez para se perder no momento, talvez para fechar os sentidos a tudo o que não fosse o esperma que lhe enchia a boca e lhe descia pela garganta.

Por fim deixou pender a cabeça, relaxou o corpo todo, deixou-se cair, enquanto ele metodicamente a desamarrava. Já liberta, não saiu do sítio: foi preciso que ele lhe pegasse na mão, a ajudasse a levantar, a conduzisse para o quarto e para a cama que partilhariam nessa noite, como sempre. No percurso ainda inclinou a cabeça sobre o ombro dele e murmurou que o amava, mas em voz tão baixa que ele não a ouviu.

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Florbela Espanca começa o seu soneto Escrava com as seguintes palavras: “Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor”. Ao longo da minha vida várias mulheres me chamaram “meu dono” e “meu senhor”. A primeira que me chamou “meu Deus” foi a dunya: A primeira e a única, porque depois dela não tive outra escrava. E numa fase da vida em que tomei a decisão de nunca mais procurar activamente uma escrava, é improvável que alguma mulher me volte a chamar “meu dono” ou “meu senhor” – e muito menos “meu Deus”: uma coisa que descobri durante a minha relação com a dunya foi que esta forma de tratamento me desagradava e perturbava seriamente.

Duvido que me seja possível explicar todas as razões deste meu desagrado. Se eu acreditasse em Deus, poderia ver nestas palavras uma blasfémia e um sacrilégio, mas não acredito n’Ele. Uma razão que posso explicar é a seguinte: desde que me lembro tenho a noção profundamente enraizada de que todos os seres humanos são imperfeitos, incluindo eu próprio. Esta noção influencia praticamente todas as minhas atitudes em relação aos outros e a mim próprio, e leva-me a não esperar demasiado de ninguém. Como raramente me iludo, raramente sofro desilusões; e perdoar, para mim, não é especialmente difícil.

Não exijo a ninguém a perfeição. Exijo, sim, o aperfeiçoamento constante; mas mesmo isto só a mim próprio e a quem está directamente sob a minha autoridade. E aqui está uma das coisas que me incomodavam nas palavras da dunya: ao chamar-me “meu Deus” estava, ou a exigir-me a perfeição, ou a declarar-me perfeito. E isto, a meu ver, não era expressão de respeito, mas da mais profunda falta dele, porque equivalia a uma negação da minha humanidade. E se é na minha humanidade, com a sua inerente imperfeição, que eu centro a minha dignidade e o meu orgulho, então tanto me insulta quem pretender fazer de mim mais que humano como menos que humano.

Quando disse à dunya que a expressão “meu Deus” me incomodava e me fazia sentir mais diminuído do que homenageado, foi a vez dela de se ofender. Disse-me que com essa expressão estava a exprimir algo de muito verdadeiro e profundamente sentido, e que se eu lha proibisse estaria a negar-lhe uma forma de exteriorização da qual tinha verdadeira necessidade. Que essa necessidade lhe vinha dum sentimento de reverência, de veneração, de adoração que não conseguia guardar inteiramente dentro de si.

De modo que começámos os dois a tentar descobrir quando e em que circunstâncias essa expressão tinha mais tendência a vir-lhe à boca. Descobrimos que nunca a usava nem sentia vontade de usar quando saíamos juntos; nem quando ela me limpava o chão, me fazia a comida ou me passava a roupa a ferro, mesmo que o fizesse toda nua, ou só de avental, sentindo o meu olhar sobre ela; e mesmo na cama, quando eu a possuía, ou na sala, quando eu a vergastava, era muito raro ela dizer “meu Deus”.

Descobrimos que estas palavras lhe costumavam vir à cabeça e à boca numa situação muito específica: quando estava a meus pés, perante o meu sexo descoberto, tomando-o nas mãos ou na boca.

– Afinal o teu Deus não sou eu – acabei por lhe dizer. – É o meu pénis.

Ela achou que isto talvez fosse verdade; e eu achei que se o fosse isto não me desagradaria tanto. Pelo contrário, até me agradaria: não sei se isto se passa com outros homens, mas confesso que tenho uma forte tendência para sentir que o meu pénis, quando erecto, é a única parte de mim que é perfeita. Ousarei dizê-lo? Ouso: há algo em mim que acredita que o meu pénis erecto é a minha parcela de divindade.

Não vale a pena chamar para aqui as várias culturas e religiões espalhadas pelo mundo em que o culto do falo é um elemento importante. Nem me interessam as explicações sociológicas ou antropológicas deste facto. É uma realidade para a qual só quero olhar do ponto de vista do meu imaginário e dos meus afectos: e aqui este culto encontra uma profunda ressonância.

Que também a encontra nalgumas mulheres, provou-mo a dunya. E nos meus leitores e leitoras? Será que alguém que me está a ler já esteve envolvido em algo de semelhante a esta “adoração do falo”? Aguardo com muito interesse os vossos testemunhos e opiniões, quando mais não seja para saber que não estou sozinho.

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(Conforme prometi, continuo a publicar a minha tradução da novela de M’Ahmed ben Chérif Effendi.)

A festa terminou. A bela Zima toma de novo posse da atenção do seu Senhor, que durante um momento se tinha desviado para a encantadora Haischa. De novo procura a jovem excitar os sentidos do seu Senhor, reavivar os seus desejos através de práticas cujos segredos ela conhece. Mas acontece o contrário, o Príncipe, excitado pelas danças sugestivas, cai de novo na apatia.

Depois de corrida a cortina do palco, a sala recai na sua penumbra. Os reflexos esverdeados da luz esbatida dão à carne nua um tom pálido. Como Ali está cansado, Zima chama o jovem Achmed e começa a apalpá-lo ao mesmo tempo que se ajoelha perante o Príncipe.

– Poderoso Senhor – diz ela. – Ali já serviu o teu prazer, e agora é Achmed quem solicita a honra de o imitar. Olha, Senhor, para o seu pauzinho que se estica na tua direcção, como está rijo e rosado! Vê o seu cuzinho, esta carne florescente e firme! O que pode este jovem fazer perante ti para acariciar os teus olhos?

Enquanto diz estas palavras vai acariciando o membro do jovem, sobfre quem pousa, brilhante de desejo, o olhar do Príncipe.

– Faz tu! – disse Zima ao jovem; e este tomou o membro imediatamente na mão.

Também Ali se aproximou e penetrou por trás o seu amigo, enquanto este continuava a masturbar-se furiosamente. Ao fim de algum tempo Zima puxou Achmed para si, pegou-lhe no membro e começou a lambê-lo e a acariciá-lo diante dos olhos do Príncipe, em quem isto não teve qualquer efeito e que continuou impassível. Contudo, para dar uma alegria a Achmed, tirou o membro para fora e deu-o ao jovem para brincar. Este lançou-se sobre ele, cobriu-o de beijos ardentes e apertou-o com as duas mãos para o fazer ficar erecto. Mas o Khan repeliu-o de novo; estas brincadeiras tinham durado o suficiente e ele queria algo de novo. Os seus sentidos precisavam de um meio mais forte de se excitarem.

Zima entendeu isto e pôs-se a pensar no que poderia oferecer ao Khan para reavivar o seu desejo. Lembrou-se do seu carácter cruel; sabia que ele era geralmente bondoso mas algumas vezes mau; pensou que tinha encontrado o processo certo e comunicou-lho com as seguintes palavras. (E durante este discurso acendeu-se uma nova chama no olhar do Senhor.)

– Poderoso Senhor, – começou Zima – a tua ínfima escrava conhece os teus gostos e está sempre pronta a satisfazê-los. Preparou para ti um novo espectáculo.

Temos aqui uma jovem extremamente pudica, cujos olhos nunca contemplaram um homem; ao princípio era tímida como uma gazela, mas depois tornou-se muito maldosa. Apesar de ter sido admitida na primeira classe de raparigas, as que estão destinadas ao casamento, tornou-se finalmente necessário excluí-la desse grupo devido ao seu mau carácter. Ela cometeu uma porção de faltas graves e vai expiá-las hoje perante ti. Verás martirizar a sua carne nua, vencerás o seu pudor obrigando-a a contemplar o teu membro viril, e ela sofrerá a vergonha de aparecer nua perante ti.

Faremos com que ela sofra todas as penas que tu determinares. Tu próprio a supliciarás. Se for teu desejo possuí-la, apodera-te dela como quiseres, sem dar atenção aos seus choros e gritos. Ou então outro a tomará, se preferires. Vê-la-ás sofrer; o coração dela sangrará de vergonha, como sangrará o corpo dela sob os golpes do chicote.

Queres tu, Senhor, utilizar esta oportunidade soberana para castigar esta cadela pelos seus malefícios?

O Khan tremia de desejo; toda a sua crueldade felina lhe subiu ao cérebro, e a perspectiva de ver sofrer uma mulher elevou-o ao cume do êxtase. Sem que soubesse o motivo, sentia-se já cheio de cólera contra esta infeliz cuja única culpa era a sua fraqueza.

A partir deste momento decidiu-se o destino da jovem: havia de sofrer centenas de suplícios refinados, que rasgam a carne mas não põem a vida em perigo.

Antes de prosseguir a minha narrativa cumpre-me pedir desculpa ao leitor pela quantidade de pormenores e pelas longas descrições. Mas eu não queria escrever só uma obra literária, mas também uma contribuição para a História do amor sensual. Queria representar as cenas completas na sua particularidade: o Oriente no seu esplendor e na sua degradação. Muitos acreditarão que caio em exagero; mas os que conhecem o Oriente, a verdadeira pátria do amor e da volúpia, sob este Sol resplandecente que derrama sobre os sentidos um fogo devorador, esses serão testemunhas da verdade das minhas descrições. O luxo do Oriente assemelha-se a uma daquelas flores indianas que muitas vezes escondem a morte por trás das suas cores deslumbrantes e dos seus perfumes inebriantes. De resto, em mais nenhum lugar do mundo é o cerimonial do amor mais circunstanciado. Tanto o Árabe como o Indiano amam acima de tudo o prazer dos olhos, é nele que consiste a preparação e o caminho para o amor. Os preliminares são para eles o mais importante, o acto em si dá-lhes pouco prazer. Além disso a mulher é para eles um ser subordinado, uma escrava, um animal; isto explica a notável submissão das suas esposas e escravas.

Acredito portanto que faço bem em não negligenciar os pormenores nesta narrativa. Desta maneira pode o leitor colocar-se completamente no lugar do herói da nossa história.

(Continua)

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Alice chegou virgem ao seu décimo sexto aniversário. Tinha sido este o seu trato com Ricardo e Mariana: acolitá-los nos seus amores e nos seus rituais, mas nunca os tocar sexualmente nem ser tocada por eles. O contacto físico não lhe era proibido quando resultasse duma necessidade prática, como pentear Mariana ou ajudá-la a vestir-se, ou até como expressão casual de afecto, mas enquanto manifestação erótica estava fora dos limites estabelecidos.

Do mesmo modo, ninguém se importava que ela os visse nus no quarto de banho ou na piscina, nem que assistisse sem intervir aos seus amplexos de amantes ou aos seus rituais de Senhor e escrava. Afinal tinha sido isto mesmo que ela tinha pedido para aprender quando tinha reunido toda a sua coragem, anos antes, para se abeirar de Ricardo. Assim, assistiu muitas vezes, aparentemente sem outra emoção que não fosse uma intensa mas remota curiosidade, à penetração de Mariana por Ricardo; à liberdade absoluta com que ele lhe usava a vagina, a boca, a abertura anal, fazendo-a gemer de prazer ou gritar de dor; e até aos castigos físicos, muitas vezes cruéis, que ele a fazia sofrer e ela depois agradecia beijando-lhe a mão.

A tudo isto ela assistia como à mais convencional das rotinas. Porém todos os três sabiam que esta impassibilidade era apenas uma aparência e que por trás dela se escondia um veemente desejo de aprender.

Se Alice entrasse sem bater, como era regra, numa parte da casa onde Ricardo se preparasse para possuir ou punir Mariana, ou onde algum dos dois estivesse despido para o duche ou para o banho de sol, fazia e dizia com naturalidade o que tivesse a fazer ou a dizer, e demorava-se o que tivesse a demorar-se: nem menos, nem mais. A mesma regra se aplicava às gémeas Circe e Atena; e em menor grau a quaisquer criadas que Ricardo e Mariana tivessem ao seu serviço, a quem eram pagos salários elevados em troca desta discrição.

Apesar deste despudor institucionalizado, Alice coibia-se um pouco de aparecer nua perante os donos da casa. Sabia que um dia havia de ter, tal como Mariana, um Senhor, mas este Senhor não seria Ricardo; e não via razão para que este desfrutasse com demasiada frequência da visão de um corpo em cuja posse não estava interessado.

Com Circe e Atena não mostrava o mesmo pudor, nem as gémeas em relação a ela. Deusas, ninfas ou génios tutelares, era-lhes igual mover-se pela casa nuas ou envoltas nos seus panejamentos azul-poeira; ou ainda, revezando-se, vestidas como empregadas domésticas tradicionais, indumentária esta que de tão incongruente lhes dava um ar de deusas ou princesas disfarçadas, como numa comédia barroca.

Por outro lado, diante de deusas qualquer espécie de roupa parece vã e qualquer pudor parece frívolo: daí que Alice aceitasse ser banhada e vestida pelas gémeas com a mesma naturalidade com que Mariana aceitava os mesmos serviços de Alice.

Alice não tinha namorado. Também isto fazia parte do trato que fizera com Ricardo. Na escola as outras raparigas achavam estranho que ela se calasse quando a conversa tratava de namoros e aventuras eróticas. Era uma geração em que as raparigas se gabavam, como em gerações anteriores só os rapazes, das suas proezas sexuais: aventuras reais ou imaginadas, bebedeiras, excessos de toda a ordem, acrobacias inverosímeis, penetrações diversas. Só ela não entrava nestas conversas – ela, e também as bem comportadas, as tímidas, as “chocas”; mas ninguém confundia Alice com estas. O silêncio discreto de Alice não provinha de timidez ou fraqueza; as jovens feras que eram as suas colegas sentiam isto, ainda que confusamente; e como não a sentiam vulnerável não a perseguiam nem atormentavam como com crueldade e gáudio faziam às “chocas”. Pelo contrário, olhavam-na com uma mistura de curiosidade e temor, enquanto ela sorria interiormente do saber rudimentar que elas exibiam como se de sofisticação e experiência se tratasse.

Circe e Atena deambulavam frequentemente, juntas ou separadas, pelo mundo mediterrânico. Eram umas estranhas viagens, que nunca se percebia bem se eram de negócios, de família ou de turismo; corriam deste modo a Europa toda; uma vez foram à Índia, onde Alice viu pela primeira vez gente parecida com as gémeas no corpo, na cor e nas feições; outra vez foram ao Sul de Marrocos, onde Alice viu as mulheres berberes de rosto destapado, com decorações que pareciam tatuagens no rosto e nas mãos; os tuaregues, que também são berberes, vestiam-se como as gémeas, dos mesmos tons de azul. Por toda a parte as duas irmãs aparentavam ter familiares, amigos ou associados: mas um dos seus destinos mais frequentes era a Tunísia, o bairro de Túnis correspondente à antiga Cartago dos Fenícios, e foi aqui que se deu a primeira grande viragem no destino de Alice.

Na estação arqueológica estava quase sempre um rapaz muito novo que pelo aspecto poderia ser um parente próximo das gémeas: tão escuro de pele como elas, mas com as feições e o cabelo de um europeu.

Alice viu-o pela primeira vez nos arredores da estação arqueológica de Cartago, sentado num banco desdobrável, diante de um pequeno cavalete, a desenhar. Ao passar com Circe e Atena em direcção ao alojamento que lhes tinha sido destinado, a adolescente mal teve tempo de reparar nele: um vulto envolto nos mesmos panos azuis e cor de lousa que as suas mentoras habitualmente usavam e que a faziam sentir ridícula nos seus jeans de marca e blusões de couro – roupas europeias, urbanas, industriais, que a isolavam do ar e do mundo à sua volta. O jovem teria talvez dezoito ou vinte anos, mas Alice não teve tempo para o ver melhor.

As gémeas saudaram-no com um aceno, ao que ele respondeu com outro para logo se concentrar de novo no trabalho. Alice não viu o que ele estava a desenhar, mas a única coisa que lhe podia servir de modelo era uma massa de cactos, daqueles cujo fruto a se chama figo do diabo ou figo do inferno. Depois, quando ele lhe foi apresentado – chamava-se Harun e apesar do ar de família não foi mencionado qualquer parentesco entre ele e as gémeas – Alice encontrou-se perante um jovem adulto que, apesar de ser apenas um pouco mais velho do que ela, mostrava a autoridade e a experiência de um homem maduro – um homem que suscitava o respeito e mesmo a deferência de todos os presentes, incluindo as gémeas. Tinha no olhar e na postura a altivez meio selvagem duma ave de rapina: o mesmo orgulho que Alice conhecia em Ricardo, um modo de olhar para ela que só não era insolente porque parecia pertencer-lhe por direito incontestável.

Naquele minuto Alice soube sem qualquer dúvida que tinha encontrado o seu Senhor, e que não tinha errado na sua decisão quando iniciara a sua aprendizagem junto de Ricardo e Mariana.

Alice, a rebelde, a selvagem, a virgem guerreira meio punk e meio gótica; Alice, a rebarbativa, a sarcástica – sentiu-se uma fêmea diante de Harun: uma femeazinha macia e dengosa como tantas a quem sempre desprezara. Nos dias que se seguiram começou a prestar-lhe pequenos serviços: transportava-lhe o cavalete, levava-lhe chá de menta muito quente, que é o que melhor mata a sede nos grandes calores do Magrebe, ou ficava simplesmente sentada na poeira ao lado dele, à espera de lhe poder ser útil de qualquer outra maneira.

Começou a vestir caftan em lugar dos seus jeans e T-shirts, a calçar babuchas mouriscas em lugar dos seus característicos Doc Martens.

E depois, de novo em Portugal, tantas vezes falou de Harun às gémeas, tão repetidamente traiu a fascinação que sentia por ele, que Circe acabou por lhe dizer:

– A menina descanse, há-de ser dele.

E esta expressão, “ser dele”, que a jovem teria desprezado um ou dois meses antes como linguagem de telenovela, parecia-lhe agora apropriada e justa – como era apropriada e justa, não era preciso dizê-lo, aplicada a Mariana e a Ricardo.

Nas viagens que fazia com as gémeas encontrava-se muitas vezes com ele, fosse por acaso ou por desígnio: na Tunísia, em Heidelberg, em Paris, em Brugges. Ou então era ele que visitava as gémeas em Braga, onde Ricardo o recebia como se já o conhecesse de antes.

Às vezes fazia-se acompanhar de namoradas, o que provocava em Alice, que já se sentia com direitos sobre ele, ciúmes terríveis.

– Que direito tem a menina a ter ciúmes? – perguntavam-lhe as gémeas, quando ela, não podendo mais, ousava queixar-se. – Ainda não é dele; e mesmo quando for propriedade dele, ele não vai ser de certeza propriedade sua. Se além da menina ele quiser ter uma, ou duas, ou dez escravas, estará no seu direito, e a menina só terá que se dar com elas o melhor que puder.

− Mas o Ricardo só tem a Mariana – objectava a jovem.

− Pois tem, mas isso é uma decisão só dele, que tem a ver só com a natureza dele. A natureza do senhor Harun pode ser parecida com a do senhor Ricardo neste aspecto, mas também pode ser muito diferente: a menina é que vai ter que se adaptar.

Nada disto diminuía os ciúmes de Alice, exacerbados pelo facto de as suas rivais tratarem Harun com uma deferência que nelas lhe parecia servil e falsa: e iludia-se pensando que se a mesma deferência fosse exibida por ela própria, então seria sem dúvida dignificada e honesta.

Uma destas efémeras namoradas, uma jovenzinha muito loura e muito branca, vestida à oriental, que só falava alemão, pareceu-lhe de todas a mais fingida (ou a mais iludida) com a docilidade exagerada de que fazia alarde, tão contrária ao pendor bravio que Alice sabia ser o seu.

– Não se preocupe – dizia-lhe Circe. – Ele já reparou na menina há muito tempo, embora não o mostre. E quer a menina para ele. Essas namoradas com que a menina o via não passam de submissas: nenhuma foi propriedade dele de verdade como a menina há-de ser.

O que era uma submissa? Alice sabia o que era uma escrava: era uma mulher como Mariana, a quem ela tinha escolhido como modelo e ideal de vida. Mas não sabia o que significava a palvra “submissa” a não ser como adjectivo, e isso era o que tanto ela como Mariana eram em relação aos seus Senhores; e Circe também não a esclareceu. De tudo isto só se depreendia, concluiu Alice, que se estava a preparar qualquer coisa que ela não podia saber mas de que todos em casa de Ricardo tinham conhecimento. Por ela, tudo bem, podia esperar.

Como que para confirmar esta impressão, a certa altura Harun começou a aparecer sozinho. Na Europa não usava a djalaba nem os panejamentos com que Alice o tinha conhecido na Tunísia: em vez disso apresentava-se no traje convencional de um europeu que não quer dar nas vistas: botas Timberland, jeans nem muito novas nem muito velhas, e T-shirt de algodão sem desenhos nem letras. Sobre isto punha, pelo tempo frio, um robusto blusão de aviador; e no resto do ano um blusão em cabedal preto, fino e flexível, sem adornos.

Depressa ganharam o hábito de andar juntos. Calcorrearam, nos seus diversos encontros, as ruas de Túnis, de Braga, de Lisboa, de Heidelberg, de Brugges. Ao princípio caminhavam lado a lado pelas ruas, depois ela foi ganhando o hábito de caminhar um pouco atrás dele – não ostensivamente, como as magrebinas com quem muitas vezes se cruzavam, mas discretamente, a meio passo de distância ou menos. Nos recantos dos jardins, nos vãos das portas, trocaram alguns beijos e carícias, manifestações de afecto que só a pouco e pouco se foram erotizando, e que ao erotizar-se foram adquirindo, por vezes, o carácter de um tributo respeitosamente prestado e graciosamente recebido.

Não foram precisas muitas palavras para que a certa altura se estabelecesse entre os dois um daqueles compromissos de que só os muito jovens são capazes: e se era nítido para ambos, tanto como para quem os conhecesse, que havia entre eles um contrato tácito, era igualmente nítido que não era, nem eles queriam que o fosse, um contrato entre iguais.

Tal como Ricardo e Mariana, também Circe e Atena seguiam com atenção esta coreografia de aproximação recíproca.

– A menina sabe que quando fizer dezasseis anos – disse-lhe Atena um dia – já pode deitar-se com um homem sem que ele vá preso. É a lei aqui em Portugal.

Alice não entendeu muito bem a que propósito veio este aviso, se aviso era. Para ela, a Virgem Guerreira, estas leis eram um disparate. Não se considerava uma “menor”. “Se eu quiser ir com um homem, ninguém tem nada com isso”, pensava; “e depois disso, se eu não quiser, também ninguém me obriga, e se obrigar não são cá precisos polícias nem tribunais para lhe fazer pagar bem caro o atrevimento.”

− É por isso que andam todos a preparar o meu aniversário como se fosse a coroação da Rainha de Inglaterra? – retorquiu, subitamente furiosa. – Decidiram que eu ia ser desflorada no meu dia de anos? E quem é que decidiu isso? A minha opinião não conta?

– Ninguém decidiu que a menina vai ser desflorada – respondeu Atena. – Quanto à opinião da menina, por hoje ainda conta; se vai contar ou não no seu dia de anos, isso depende do que combinar com o senhor Harun daqui até lá. O que se vai comemorar não é a desfloração da menina, que pode acontecer ou não acontecer nesse dia. O que se vai festejar é a menina passar a ser uma mulher aos olhos de todos. E esta festa vai ser só o princípio, depois vão ser precisas outras cerimónias… Esta parte vai ser só entre nós, as mulheres. A senhora também vai ajudar.

No espírito de Alice a ira deu lugar à curiosidade:

– A Mariana? Ajudar em quê? Que rituais são esses?

– Depois verá. Não vai querer entregar-se ao seu Senhor ainda fechada, como uma ignorante…

O décimo sexto aniversário de Alice comemorou-se em Braga, na moradia de Ricardo. Quem tivesse assistido, de fora, à minúcia e vagar dos preparativos poderia concluir que ia haver uma longa lista de convidados. Mas não: de Heidelberg foi convidado o casal Liebknecht, Gunther e Silke, em casa de quem Mariana tinha jantado uma vez. De Túnis veio Harun, claro está; e não podia faltar a tia meio hippie de Alice, ou melhor, tia-avó, que no seu tempo tinha corrido meio mundo para depois tomar conta dela quando a menina deixou de ter outros familiares vivos. Esta tia tinha nome de pedra preciosa: Safira; e da prontidão com que tinha acedido ao pedido de Alice para se confiar à educação pouco convencional que lhe dariam Ricardo e Mariana a adolescente concluiu que o conhecimento de Safira e Ricardo, ou de Safira e Mariana, já vinha muito de trás. Para a ocasião a tia de Alice ataviou-se das suas mais belas sedas indianas – as mais escuras e discretas que tinha, de modo a permitir que a sobrinha brilhasse por contraste. Ao todo eram sete pessoas à mesa, com as gémeas a servir, vestidas de criadas – mas não criadas ocidentais, antes servas turcas de fantasia, com as suas calças de harém, os pés descalços, o fez vermelho na cabeça e o bolero curto que não apertava à frente e deixava ver, ao abrir-se, os seios nus.

Os anos duma mera adolescente preparam-se e comemoram-se geralmente em poucas horas: não foi assim com o aniversário de Alice. O maior esforço e despesa foram para as flores que encheram a casa e para as decorações do jardim. Mas a azáfama mais visível começou no dia anterior, com as compras de última hora e com a necessidade de ir buscar os convidados ao aeroporto.

No jantar de festa Mariana usou, para adornar o pescoço, os pulsos e os pés, minúsculas safiras a condizer com o caríssimo, mas severo, vestido azul. Do mesmo azul a gravata de Ricardo, usada com camisa branca a fato cinzento. Gunther e Silke estavam de preto, como competia ao estilo da sua relação; e contrastando com toda esta severidade, Harun esperava de pé, junto à mesa, envolto numa indumentária sumptuosa de príncipe saudita, à cintura uma adaga com o punho e na bainha cobertos de pedras preciosas.

Alice foi, como lhe competia, a última a entrar na sala. Tal como todas as mulheres presentes, estava descalça; mas os pés mal se lhe viam sob a larga roda do vestido de debutante, todo em tons de rosa. As gémeas tinham gasto horas a lavá-la, a perfumá-la, a vesti-la, a penteá-la, a fazer-lhe uma leve maquilhagem, a enfeitá-la – tiara, brincos, colar, pulseira e uma fina corrente de ouro à volta do tornozelo direito, ligada por uma fiada de brilhantes a um anel no dedo do pé.

Harun recebeu-a, muito formal, à porta da sala de jantar e conduziu-a ao seu lugar à mesa, onde a fez sentar. Um ano antes Ricardo tinha começado a treinar Alice, que nunca tinha bebido álcool, a apreciar vinhos: e hoje ela podia, na sua festa, acompanhar cada prato com a bebida apropriada, um pouco de Chablis no fundo do copo, um tinto precioso do Douro a acompanhar a carne, Porto à sobremesa, champanhe aos brindes. De tudo quase só o suficiente para molhar os lábios. Vieram as prendas: de Ricardo um relógio, de Mariana um conjunto de roupa interior bordada, da tia Safira um caftan em seda, dos Liebknecht um alfinete para usar ao peito, das gémeas uns brincos.

Harun deu-lhe uma pulseira de rubis.

Depois de ela a desembrulhar e pôr no pulso fez-se um silêncio na sala, como se a dádiva desta pulseira, que era no feitio daquelas a que se chama “escrava”, fosse o sinal combinado para algo de momentoso. No meio deste silêncio Harun levantou-se e ficou um momento, pálido e muito grave, a olhar de frente para Ricardo.

– Ricardo – disse Harun, – também eu, apesar de não fazer anos, tenho uma dádiva a pedir. Você sabe que dádiva é, todos aqui sabem. A Alice, que hoje se torna aos nossos olhos uma mulher, tem estado à sua guarda. Eu e ela fomos aprendendo a conhecer-nos; e concluímos os dois, sem margem para dúvidas, que é destino dela pertencer-me e destino meu possuí-la. Sabemos ambos, e agradecemos-lho do fundo do coração, que você nunca quis exercer sobre ela os direitos de um dono, mas também nunca recusou exercer as responsabilidades de um mentor. É nesta sua qualidade que ma entregará, se quiser aceder ao meu pedido − que também é o dela: aqui e agora, diante de todos; para que também ela, como a sua Mariana, tenha o Senhor que quer.

Alice corou um pouco. As palavras que ela própria tinha ajudado a escrever e a decorar soavam-lhe agora, saídas da boca de Harun, como um improviso surpreendente e ousado. Olhando à sua volta, viu todos suspensos da resposta de Ricardo, como se também eles estivessem, de facto, surpreendidos.

Ricardo pôs-se de pé e encarou Harun; mas antes de responder desviou dele o olhar, virou-se para Alice, e perguntou:

– Alice, ouviste o pedido que o Harun me fez. Ouviste-o dizer que é também o teu pedido. Isso é assim?

Alice teve que se esforçar para dizer em voz firme e clara as palavras que tinha preparado:

– O meu Senhor Harun falou por mim, Ricardo. É a ele que quero pertencer.

Mas Ricardo não se virou logo para Harun. Olhando para a tia de Alice, disse ainda:

– Safira, ouviu o Harun pedir-me que lhe entregasse a Alice; podia igualmente ter-lho pedido a si, que é a única familiar que ela tem e sempre foi bem-vinda nesta casa. Por isso quero perguntar-lhe: Consente você também, tal como eu consinto, nesta entrega?

Safira sorriu e acenou, com lágrimas nos olhos.

– Pois bem – decidiu Ricardo. – Vá para ali, Harun, se faz favor, onde todos o possam ver. E tu, Alice, vai até ele; beija-lhe a mão em sinal do teu respeito.

Alice levantou-se da cadeira com as pernas a tremer. Levantando o vestido para não enredar nele os pés, dirigiu-se ao seu companheiro de tantas aventuras, agora quase irreconhecível na sua gravidade de homem feito; e pegou-lhe na mão para a beijar. Era uma mão magra e morena, de dedos finos e longos. Pôs nela os lábios, demoradamente, e depois ergueu o olhar ao encontro do dele, que a abraçou e beijou enquanto à volta da mesa as mulheres enxugavam uma ou outra lágrima.

Nessa noite Alice passou o serão sentada no tapete aos pés de Harun, como Mariana aos pés de Ricardo. Tinha tido um dia cheio: além de se preparar para a festa de anos tinha sido recrutada pelas gémeas – ela que nunca desempenhava tarefas domésticas – para preparar o quarto de Harun. Agora, sentada aos pés dele, lembrava-se que só tinham posto uma almofada na cama. A cama de Ricardo era sempre feita com duas almofadas embora Mariana dormisse muitas vezes no chão aos pés da cama e não ao lado do dono. Alice achava estranho que a cama de Harun não tivesse sido preparada também para ela, mas não ousou perguntar porquê. Cansada como estava, e com sono, não pensou em despedir-se e ir para o seu quarto. Pareceu-lhe que devia seguir o exemplo de Mariana, que por mais cansada que estivesse nunca se ia deitar antes do dono; e por outro lado não sabia o que ainda se esperava dela no fim deste seu dia de aniversário. Claro que se entregaria alegremente a Harun se isso lhe fosse exigido; mas não se imaginava ainda a servi-lo como Mariana fazia a Ricardo. Suspeitava intimamente que tudo isto era um mal entendido, que não passava duma miúda insignificante como as outras, que se iniciam sexualmente com miúdos meio parvos. Harun era um homem, com toda a complexidade e força de um homem verdadeiro. E Alice, mesmo que lhe fosse exigido servi-lo nessa mesma noite – o que faria de bom grado, e com carícias plenas – não ousaria ainda pôr o nome de escravidão à sua relação com ele, uma ligação incipiente que, comparada com o amor de Ricardo e Mariana – enraizado, complexo, variado, inabalável – seria ainda superficial e pobre.

Ao serão não se conversou muito: Ricardo pôs música clássica a tocar bastante alto, optando desta vez, não pela sua preferida música de câmara, mas sim por grandes orquestrações sinfónicas de pendor orientalizante ou exótico: o Bolero de Ravel, os Quadros de uma Exposição de Mussorgsky, as Danças Polovtsianas de Borodin, a Dança do Sabre de Khachaturian, as Czardas de Monti, as diversas marchas húngaras ou turcas de Mozart, Beethoven, Brahms – e naturalmente a peça preferida de Alice, aquela que a tinha despertado para a música clássica: a Sinfonia Fantástica de Berlioz, com toda a sua profusão de danças macabras, missas negras, reuniões de bruxas, procissões nocturnas e marchas para o suplício.

Apesar de ter aprendido a gostar de música clássica, especialmente das grandes composições sinfónicas de pendor místico ou romântico, a música preferida de Alice não era esta. No seu quarto e no MP3 tinha Loreena McKennitt, Enya e os Clannad, os Nightwish, grupos de black metal, Mafalda Veiga entre os portugueses, e ainda grupos tão diversos como The Cult, os Joy Division, os Bauhaus, os Pink Floyd ou os Red Hot Chilli Peppers, ou nomes individuais que iam de Peter Murphy a Frank Zappa; mas na sala e na biblioteca de Ricardo não era isto que geralmente se ouvia e Alice não se sentia lá deslocada.

Gunther e Silke beberam bastante, Safira também. Ricardo, Mariana e Alice só um pouco de vinho, o necessário para fazer civilizada justiça a cada prato. E Harun nem isso, só o champanhe do brinde que Ricardo propôs em honra de Alice, que hoje deixava de ser criança e começava a sua nova vida de mulher. Por insistência de Gunther, cantou-se a seguir ao jantar: uma canção tradicional de estudantes de Heidelberg, da qual pelos vistos todos os mais velhos sabiam a letra. Uma das estrofes ficou particularmente na memória de Alice:

Vivant omnes virgines Faculae, formosae; Vivant et mulieres, Tenerae, amabiles, Bonae, laboriosae, Bonae, laboriosae.

Por fim Harun retirou-se com Ricardo para o escritório deste. Gunther foi para o jardim fumar um dos charutos de Ricardo. Mariana começou a arrumar a sala e a cozinha na companhia de Atena e Silke, mas, quando Alice fez menção de as ajudar, a outra gémea – que ao contrário da irmã tinha trocado o seu fantasioso uniforme de criada turca pelos seus habituais panejamentos azuis – fez-lhe sinal para que a seguisse.

No quarto fê-la despir completamente e ordenou-lhe que se deitasse em cima da cama. Debruçando-se sobre o corpo dela, começou a examiná-la minuciosamente, dos dedos dos pés aos cabelos, tomando notas num pequeno caderno. Por fim ordenou-lhe que se sentasse em frente ao toucador.

– Esta vai passar a ser a sua rotina todas as noites – observou.

Alice obedeceu. O toucador era muito baixo na zona do espelho, e quando a jovem, a uma ordem de Circe, abriu as pernas, viu reflectida a fenda do sexo e os lábios rosados da vulva por entre a pelugem sedosa que a velava tenuemente de negro.

– Olhe bem para si. Veja o que tem a dar ao seu dono. Os pelos em baixo são para ficar: é assim que ele gosta. Depois, quando ele a tiver visto nua, podemos ter que lhes dar outro corte. O cabelo é para crescer. As unhas, vai passar a usá-las curtas e cortadas em quadrado. Esses vernizes pretos ou vermelhos que gosta de usar acabam hoje: a partir de agora serão nacarados ou transparentes, ou rosa pálido. E para já a primeira coisa que vamos fazer é tirar-lhe o verniz das mãos e dos pés.

No toucador estavam já o frasco de acetona e as bolas de algodão que iam servir para isto.

– Chegue o banco para trás, se não se importa – ordenou Circe.

Logo que teve espaço ajoelhou-se aos pés de Alice e começou a remover-lhe meticulosamente o verniz das unhas: primeiro as mãos, depois os pés. Com um leite de limpeza tirou-lhe a maquilhagem escura à roda dos olhos e o bâton cor de sangue que lhe avermelhava os lábios. Feito isto, molhou-lhe o cabelo com um spray, escovou-lho a direito e aparou-lhe algumas pontas mais espigadas, repetindo que aquilo era mesmo para crescer.

– Agora vá lavar os dentes.

Alice assim fez, com pasta e escova e com uma máquina cuja cabeça rotativa lhe limpava todo o interior da boca com um finíssimo mas forte jacto de água.

– Tire os piercings, por favor.

Alice não tinha outros piercings que não fossem um no umbigo, outro na ala do nariz e os brincos, mas mostrou-se renitente:

– Não vou poder usar mais piercings?

– Provavelmente vai – respondeu Circe. – Mas serão os que o seu dono ordenar, e não os que a menina quiser.

Sem resposta para isto, Alice obedeceu.

– Agora um duche – apressou-a Circe. – Ande, mexa-se.

No duche lavou-lhe o cabelo três vezes com champô; depois, com sabonete, o corpo todo, da cabeça aos pés. Para não molhar as roupas tinha-se posto também nua, e Alice sentia-se minúscula junto daquele corpo negro e gigantesco que a dominava completamente. Especial atenção foi dada ao ânus e à vagina: para lavar aquele Circe introduziu-lhe diversas vezes o dedo molhado em sabonete, e depois sem nada, só com o jacto de água do chuveiro. Esta última penetração doeu um pouco, mas Alice fez por não dar mostras disto. Lavar por dentro o sexo de Alice sem lhe romper o hímen exigiu o recurso a um irrigador vaginal com uma cânula muito fina, que as grandes mãos de Circe manejaram com uma delicadeza surpreendente.

“Tanta coisa por causa duma convenção sem importância como a virgindade”, pensou Alice. “Uma membranazinha que não vale nada.” Contudo não deixava de se sentir lisonjeada com a atenção que toda a gente à sua volta prestava à tal membrana, como se todos naquela casa, incluindo a sua tia libertária e meio hippie, tivessem voltado ao século XIX ou à primeira metade do seguinte.

Terminado o duche, Circe secou Alice com uma toalha felpuda e alisou-lhe os cabelos com uma escova. Fazendo-a sentar num pufe, rapou-lhe cuidadosamente os pelos debaixo dos sovacos e depilou-lhe as pernas com cera quente. Depois de lhe observar cuidadosamente as sobrancelhas, decidiu deixá-las como estavam: eram negras, rectas e espessas, mas combinavam bem com os olhos escuros e brilhantes, os lábios carnudos e as duas covinhas aos cantos da boca.

– Posso-me vestir? – perguntou a jovem, quando pensou que a toilette estava pronta. Circe sorriu antes de responder:

– Ainda falta um bocado. Tem que aprender a cuidar de si para o seu dono, sabia?

–E esta toilette toda é para ir ter com o Harun?

– Quando ele a mandar chamar sou eu que a levo. Isto é, se a mandar chamar, pode não se querer servir da menina esta noite. Não é para ir ter com ele que se está a preparar,vai ser assim todas as noites: nunca se irá deitar sem estar arranjada.

– E vou ter-te a ti para me arranjares todas as noites?

– Por pouco tempo, só até ter a sua criada. E além disso vai ter que aprender a fazer muitas coisas sozinha. Agora chega de conversa, as senhoras estão à espera, venha comigo.

Alice imaginou-se a ter uma criada, ela, a miúda meio selvagem que passava a vida a entrar e a sair, como um gato, da casa de Ricardo; mas a ideia não lhe desagradou e deixou-se conduzir, nua, através dos corredores da casa, até um compartimento junto ao quarto de Ricardo que Mariana utilizava muitas vezes como sua sala de estar privada. Sentadas no sofá ou em pufes estavam todas as mulheres que tinham estado presentes ao jantar: mas o que chamou imediatamente a atenção de Alice foi o objecto que se encontrava no centro da sala: uma sólida e pesada base de madeira da qual sobressaía, erguendo-se na vertical, um falo em ébano ou pau preto, minuciosamente esculpido com signos cabalísticos que lhe davam um aspecto rugoso, não muito diferente daquele que a tessitura das veias dá a um pénis natural. Só a glande, perfeita na forma, era perfeitamente lisa, como a de um pénis verdadeiro. Pénis verdadeiros, erectos, Alice só tinha visto um, o de Ricardo, e tocado noutro, o de Harun. À luz das velas, que eram a única iluminação da sala e espalhavam no ar um perfume de incenso, Alice não podia ver o falo de ébano em todos os seus pormenores, mas notou que era todo a direito, sem a ligeira curvatura para cima do pénis de Ricardo. Seria isto uma imperfeição? Ou seria que nem todos os pénis eram como o de Ricardo? Seria o de Harun assim como este, a direito? Impossível era não ver neste artefacto um objecto precioso, talvez sagrado, longamente trabalhado e utilizado com veneração ao longo de décadas ou séculos. Ao polimento perfeito somava-se um brilho oleoso que se manifestava nos reflexos alaranjados das velas.

As mulheres entoavam, muito baixo, uma espécie de cantilena da qual Alice não foi capaz de distinguir nem as palavras, se as havia, nem a melodia, nem o ritmo.

− Curve-se – ordenou Circe. – Agarre os tornozelos com as mãos.

Em vez de obedecer, Alice perguntou:

− Onde está o Harun?

− Sabe que a menina está aqui – respondeu-lhe Circe num tom doce. – Sabe o que lhe vai acontecer, só não sabe aquela parte que é um segredo de mulheres. Autorizou tudo. Agora faça o que eu lhe disse, se faz favor.

Tudo isto estava muito longe do que a jovem esperara para aquela noite. Mas obedeceu, levada por um sentimento de inevitabilidade, e também pelo efeito hipnótico da cantilena das mulheres, da luz das velas, do aroma a incenso, e ainda por um certo prazer da aventura que a impelia a entregar-se de olhos fechados ao que desse e viesse.

Pôs as mãos nos tornozelos. Sentiu que Circe se aproximava dela por trás e lhe acariciava o sexo muito levemente. Depois sentiu que lhe era passado um unguento ao longo dos lábios vaginais, primeiro só por fora, depois cada vez mais por dentro até lhe lubrificar toda a vulva até ao hímen. Levantando um pouco a cabeça viu Atena, que lubrificava cuidadosamente, a todo o comprimento, o falo negro que se erguia do chão e que pareceu subitamente enorme aos olhos da jovem.

Esta preparação, e os cânticos cada vez mais ritmados que a acompanhavam, prolongaram-se por tanto tempo que Alice deu por si a desejar que tudo terminasse, que Circe, ou Atena, ou uma das outras pegasse naquele instrumento – que era óbvio que ia servir para a sua desfloração − e lho introduzisse no corpo, pouco importava se com brutalidade ou meiguice: contanto que por fim acontecesse.

Mas não foi assim que as coisas se passaram. A cantilena das mulheres consistia agora num arfar lento que soava como a respiração dum atleta cansado, ritmo este que algumas delas acompanhavam com leves batidas das mãos sobre a carpete. Circe ordenou a Alice que se pusesse de pé, com as pernas ligeiramente abertas, sobre o falo de ébano e que se fosse agachando sobre ele até lhe sentir a ponta à entrada da vagina. Alice assim fez. Procurou empalar-se nele um pouco mas quando sentiu um laivo de dor parou e elevou-se de novo uns milímetros. De novo se baixou até sentir dor, e começou assim um movimento de vai-vem quase imperceptível, gemendo um pouco com a dor e com o esforço. À sua volta as mulheres gemiam em uníssono com ela, num ritmo lento como o dela, como se todas elas estivessem também a forçar as articulações dos joelhos e das coxas e como se todas sentissem a mesma dor. O falo negro, firme no chão, era o centro da sala, o centro do mundo, o centro do corpo de Alice; nada mais lhe importava, naquele momento, do que vencer com a brandura da sua carne a rigidez implacável que pouco a pouco se ia introduzindo nela.

Ninguém a forçava, ninguém a ajudava. Circe e Atena tinham-se sentado com as outras mulheres e respiravam agora, e gemiam, ao mesmo ritmo que elas. E esta respiração, este canto, ia subindo de volume, acelerando o ritmo, controlando o corpo de Alice como uma música irresistível. Até que num dos movimentos descendentes, levada pelo cântico das mulheres, a jovem se empalou completamente e soltou um grito de dor, prontamente abafado mas logo ecoado nas vozes das outras.

Assim se manteve durante um momento, agachada, com os quadris imóveis, os olhos fechados, a cabeça lançada para trás, lançando um longo suspiro que ela própria não saberia dizer se já era de alívio, se ainda de dor. As outras mulheres estavam agora todas de pé à volta dela, segurando-a para que não se desequilibrasse, alisando-lhe o cabelo, enxugando-lhe o suor, murmurando-lhe palavras que eram carícias. Passado um longo momento recomeçou o movimento para cima e para baixo, muito levemente, muito a medo, como que para experimentar a sensação. Quando por fim parou, as mulheres não a fizeram levantar imediatamente: esperaram que ela abrisse os olhos e que a respiração se lhe normalizasse, para então a ajudarem, lentamente e com infinitos cuidados, a retirar o falo de dentro do corpo.

− Não te ponhas já de pé – disse-lhe a tia, que se aproximara de maneira a que as suas cabeças quase se tocassem. − Senta-te um pouco sobre os calcanhares. Queres ver uma coisa?

Quando Alice, ainda um pouco aturdida, acenou que sim, Safira desprendeu da base de madeira o falo de ébano, sobre o qual se podia ver um pequeno farrapo de sangue, e mostrou-o à sobrinha:

− Vou dizer-te um segredo. Foi este mesmo falo de ébano que me desflorou a mim, há muitos anos. É um objecto sagrado. Eu era ainda mais nova do que tu és agora, e vivia em África, longe de tudo. Os meus pais tinham morrido, os meus outros familiares ainda não tinham dado com o meu paradeiro e eu estava com a minha tribo adoptiva, o meu pai e a minha mãe adoptivos: o dia em que me tornei mulher, com toda a aldeia a acarinhar-me, foi um dos mais felizes da minha vida. Depois, quando os meus parentes brancos me foram buscar, a minha mãe preta deu-mo como presente de despedida: sabia que não voltaria a ser usado naquela aldeia, que as autoridades brancas não o permitiriam. E eu, mais tarde, por razões que talvez te conte um dia, dei-o à Mariana.

Alice estava demasiado confusa para saber o que pensar desta revelação. Como qualquer adolescente, tinha pensado muito no fim da sua virgindade, e como todas elas tinha sonhado com uma ocasião cheia de afecto e magia; mas pensara sempre que essa magia e esse afecto lhe viriam contidas no apaixonado abraço dum homem – quantas fantasias solitárias tinha tido em que os protagonistas tinham sido (não contando com a habitual colecção de celebridades) primeiro Ricardo, e depois Harun! Nunca pensara que lhe viessem, numa onda avassaladora e quente, dum círculo de que faziam parte as duas mulheres importantes da sua vida: a tia Safira, que a ensinara a nunca ligar a convenções, e Mariana, que invejara e aprendera a admirar pela absoluta dádiva de si que fizera a um Senhor. Mesmo as gémeas, que tinham presidido à cerimónia com a majestade de duas deusas, e até Silke Liebknecht, tinham contribuído para criar não só o ambiente certo, mas o universo certo para uma iniciação que ela nunca quisera trivial e não fora, de facto, trivial.

Mas ainda era virgem ou já não era?

− Nota bem que ainda és virgem – disse-lhe a tia, como se lhe tivesse adivinhado os pensamentos. – Só tens o hímen rasgado, é tudo. Na minha tribo isso significava que a menina já era mulher e estava pronta para servir o guerreiro que a comprasse. Mas os meus parentes vieram-me buscar antes que um guerreiro me comprasse aos meus pais adoptivos, e foi assim que passei os anos seguintes: mulher e virgem pelo critério da tribo, menina e virgem pelo critério dos meus parentes, a quem nunca contei a minha desfloração. Nem os meus parentes a teriam compreendido: teriam mandado arrasar a aldeia e prender toda a gente. Mesmo sem isso, só pelo facto de a tribo me ter adoptado, moveram influências para colocar na região um administrador e uma missão católica…

Circe aproximou-se das duas e interrompeu a conversa, estendendo a mão a Alice para a ajudar a levantar-se:

− Acha que consegue vir até à banheira?

Para as outras mulheres estas palavras foram o sinal para abandonar a sala, o que fizeram despedindo-se de Alice com beijos e carícias. O quarto de banho que Mariana compartilhava com Ricardo, e onde agora se ia completar a iniciação da jovem, estava equipado com uma banheira de hidromassagem que Circe encheu até mais de meio. Adicionou-lhe sais aromáticos e esperou que Alice se metesse na água, que estava escaldante. Alice experimentou com um pé:

– Está quente! Não consigo entrar!

− Entra devagarinho – respondeu Circe.

Muito devagar, Alice introduziu um pé na água, depois o outro, e começou a agachar-se, molhando com chapadas de água cada parte do corpo antes de a mergulhar para se ir habituando à temperatura. A pele clara ia ficando cada vez mais vermelha. De repente soltou um pequeno grito de dor: a carne tenra do sexo, dorida da invasão a que tinha sido sujeita pouco antes, tinha acabado de tocar na água quente. Por fim conseguiu sentar-se e suspirou de alívio enquanto se reclinava para trás com os olhos fechados. O corpo, mesmo as partes que não estavam imersas na água quente, estava todo molhado de suor ou do vapor de água, e os cabelos colavam-se-lhe à cara.

– Está bem, menina? –perguntou-lhe Circe.

Como única resposta Alice soltou um suspiro de satisfação. Circe ligou o dispositivo de hidromassagem e disse:

– Então descanse um pouco e relaxe. Eu já volto.

Alice começou a deixar-se invadir por uma grande calma à medida que o corpo se adaptava à temperatura da água. Quando Circe voltou – Alice reparou que estava de novo vestida com os seus panejamentos azuis – trazia numa bandeja duas flûtes de champanhe.

– Para bebermos juntas.

Alice ainda protestou um pouco, não estava habituada ao álcool e já tinha bebido ao jantar; mas Circe, ignorando todas as objecções, pôs-lhe o champanhe na mão e ergueu o copo:

– À sua felicidade, minha querida. Que a sua vida esteja sempre de acordo com o seu destino.

Alice sorveu o champanhe em pequenos goles, fazendo-o durar. Que observação enigmática, esta de Circe… Então a vida não está sempre, por definição, de acordo com o destino de cada um? Ou dar-se-á o caso de haver destinos que não se realizam? Talvez haja, concluiu. Talvez uma vida falhada seja isso mesmo. Talvez o mais indigno cativeiro seja uma pessoa falhar o seu destino, mesmo que este destino seja a escravidão; e talvez a única verdadeira liberdade seja realizá-lo.

Quando o vinho deixou de estar fresco e de lhe saber bem, pousou o que restava na plataforma de mármore à cabeça da banheira e fechou de novo os olhos, até que a água lhe começou a parecer fria.

– Não quero mais…

Era tempo de sair da banheira. Tinha a pele vermelha, as pontas dos dedos encarquilhadas, e sentia-se mais limpa do que alguma vez estivera. Circe envolveu-a, sem a secar, num roupão de pano turco e conduziu-a de novo ao seu quarto, onde a fez deitar nua sobre um toalhão estendido na cama e lhe passou por todo o corpo um creme hidratante, deliciosamente macio e perfumado. Não negligenciou nenhuma prega do corpo, nem mesmo os refegos mais íntimos entre as coxas, e demorou-se na tarefa com tanto vagar que Alice se começou a sentir sonolenta.

Mas antes que adormecesse Circe obrigou-a a levantar-se e a sentar-se numa poltrona com os pés mergulhados numa bacia de água quente que foi buscar à casa de banho. Sentada num pufe à frente da jovem, começou a tratar-lhe das mãos: arranjou-lhe as cutículas, cortou-lhe e limou-lhe as unhas e envernizou-lhas com uma mistura de vernizes que tinha preparado: metade transparente, um quarto cor de pérola nacarada, um quarto cor-de-rosa pálido. Enquanto o verniz secava, começou a tratar-lhe dos pés:

– Que solas de selvagem – observou.

Alice tinha, com efeito, as solas dos pés duras e ásperas, e foi necessário amaciar-lhas longamente com pedra-pomes. À medida que a água da bacia arrefecia, Circe substituía-a de maneira a mantê-la sempre quente. Por fim secou-lhe os pés, colocou-lhe bolas de algodão entre os dedos e tratou-lhe das unhas usando todos os instrumentos duma pedicura profissional – ou pelo menos assim parecia a Alice, para quem esta experiência era nova. Terminou este tratamento pintando-lhe as unhas com a mesma mistura de vernizes que tinha usado nas mãos.

Por esta altura a jovem tinha o cabelo quase seco: Circe passou-lhe um pouco de espuma de pentear e começou a escovar-lho com repetidas passagens de escova, mais de cem, até que ficou completamente seco só pela acção da escova, e brilhante como ela poucas vezes o tinha visto. Pôs-lhe creme no rosto, massajando suavemente com as pontas dos dedos. Como maquilhagem limitou-se a sombrear-lhe um pouco os olhos e a sublinhar discretamente as linhas das pálpebras: os lábios, naturalmente vermelhos, ficaram por pintar.

O verniz das unhas estava completamente seco; Circe amaciou as mãos e os pés de Alice com outro creme e fê-la levantar e rodar sobre si mesma para uma última inspecção.

– Está pronta – declarou. – Ponha este vestido.

– Sem nada por baixo?

– Sem nada por baixo.

Já não era o vestido de debutante que ela usara ao jantar, mas um traje formal em estilo romântico: um vestido de noiva se não fosse preto e roxo.

– Agora as jóias – disse Circe.

Por brincos pôs-lhe umas grandes argolas de prata, que juntamente com o cabelo cuidadosamente despenteado lhe davam um ar meio de cigana. Pôs-lhe colares à volta do pescoço, de vários comprimentos e materiais. Pulseiras nos braços, correntes nos tornozelos, e no dedo anelar esquerdo um anel com uma pedra negra. Alice já conhecia este anel: tinha visto outros iguais nas mãos de Mariana, Ricardo, Harun e outras pessoas. Sabia o que ele significava: que o seu portador era Senhor ou escravo de alguém. O metal de que era feito, cinzento escuro e muito leve, chamava-se titânio. Ajeitou o anel no dedo, como que para confirmar a sua aceitação, e perguntou:

– É agora que vamos ter com o meu dono?

– Não. Agora esperamos que ele a mande chamar. Já lhe disseram que a cerimónia com as mulheres terminou. Ou pode mandar dizer que podes ir para a cama, se tiver mais em que pensar do que em servir-se de ti.

E foi assim que Alice se sentou na pequena poltrona ao canto do quarto, entre expectante e desconsolada, com um vago sorriso no rosto, de pés nus e vestida como para uma festa, à espera de qualquer coisa ou de nada.

Mas não foi preciso esperar muito até que o telemóvel de Circe tocasse e ela dissesse, depois de escutar uns segundos, que sim, que já iam.

– Junte os pulsos atrás – ordenou Circe. – Está com sorte. O seu Senhor quer vê-la.

Alice deixou que a outra lhe prendesse os pulsos com duas pulseiras de prata unidas por um cadeado. Assim presa – lembrando-se de todas as vezes que tinha visto Mariana arranjada de forma semelhante, e do misto de admiração, inveja e receio que tinha sentido – foi conduzida ao quarto de Harun, quarto que ela própria tinha ajudado a preparar com tanto cuidado e minúcia.

Harun estava de pé, como que à espera, com um robe de cetim cor de creme sobre um pijama de seda da mesma cor, e tinha calçadas umas chinelas marroquinas de couro na cor natural. Saudou Circe primeiro; e a seguir, com um sorriso terno, saudou a jovem:

– Olá, Alice.

Alice quis responder “olá, meu Senhor”, mas não ousou. Ousá-lo-ia alguma vez? Em tom sumido, respondeu:

– Olá, Harun.

– Dispa-a – disse Harun a Circe.

Era fácil. O vestido abria por trás com um fecho éclair e as alças podiam ser desprendidas, de modo que foi possível tirá-lo sem libertar os pulsos da jovem. Alice nunca se tinha mostrado completamente nua a Harun, mas durante um longo namoro já tinha sentido muitas vezes as mãos dele debaixo da roupa, acariciando-lhe a cinta, os seios e por vezes, deliciosamente, o ventre. Agora não sentia vestígios de pudor ou vergonha, nem outra coisa que não fosse um enorme orgulho por se apresentar nua e bela, depois de uma tão longa e minuciosa preparação, diante dele. Quando ele a mandou dar uma volta sobre si mesma para que ele a visse toda, obedeceu com prazer, fazendo questão de empinar provocantemente os seios e as nádegas como se estivesse há longo tempo habituada a exibir-se assim.

Quando a viu de novo virada para si, Harun fez um gesto discreto em direcção ao chão. Circe, atenta a este sinal, disse docemente à jovem:

– Ajoelhe-se, minha querida.

Com as mãos presas não era fácil obedecer graciosamente a esta ordem, mas Alice conseguiu fazê-lo de um modo não demasiadamente desajeitado, o que suscitou a Harun um sorriso de aprovação.

– Tire-lhe as pulseiras – ordenou.

E para Alice, quando a viu com as mãos livres:

– Abre-me o roupão.

Com o roupão aberto, a jovem viu a ponta do pénis que lhe espreitava da abertura das calças de pijama. A um gesto dele, Alice tirou-lho completamente para fora: já lhe tinha tocado várias vezes e conhecia a sensação de o sentir crescer e enrijar-lhe nas mãos, mas nunca o fizera com esta liberdade, sem camadas de roupa a constrangê-la. Mais uma vez o sentiu crescer. Viu que era diferente do de Ricardo: todo a direito, como o falo de ébano de há pouco. A glande, avermelhada e macia, fez nascer nela um desejo que nunca tinha sentido antes.

– Posso dar-lhe um beijo? – inquiriu, timidamente.

Harun sorriu de novo:

– Sim, podes, meu amor. Um dos teus deveres, de futuro, vai ser servir-me com a boca. Mas não quero só um beijo, quero muitos. Beija-me o pénis já hoje como a escrava que vais ser, e não pares até eu to permitir.

Lembrando-se da reverência e respeito com que as mulheres da casa tinham rodeado, horas antes, o falo de ébano que a tia Safira trouxera de África há tantas décadas, a jovem começou a beijar cuidadosamente o falo vivo do seu dono, mal ousando, por vezes, um movimento de sucção. Sabia, pelo que tinha visto Mariana fazer a Ricardo, que também o podia lamber, chupá-lo, introduzi-lo na boca até ao fundo; mas não queria fazer isto sem que lhe fosse ordenado, e além disto tinha um pouco de medo de se engasgar ou ter vómitos. Assim foi prolongando uma longa sucessão de pequenos beijos na glande de Harun; e sentia ao fazer esta carícia um prazer que não saberia explicar mas que era real e intenso.

Harun, por seu lado, parecia disposto a contentar-se toda a noite com aquela carícia incipiente: foi afagando os cabelos da sua jovem amante e só ao fim de logos minutos acabou por dizer:

­– Chega, minha querida. Agora ajuda-me a despir…

Alice levantou-se para lhe tirar o roupão, que entregou a Circe para que o guardasse. Depois o casaco do pijama, que era de modelo antiquado, com botões à frente.

– Beija-me os mamilos – ordenou Harun.

Alice flectiu um pouco os joelhos para obedecer. Segurou-se às ancas do amante e começou a beijar-lhe o peito e os ombros. Sentia-se agora mais afoita, e foi quase sem hesitação que começou a dar-lhe chupões com alguma força, a que Harun reagia murmurando “sim”, “sim minha querida”, “sim minha escrava”. Com as mãos nas ancas do dono, a tentação de lhe baixar as calças do pijama era quase irresistível, tanto mais que o pénis, embora ainda visivelmente erecto, se encontrava agora de novo tapado pelo tecido. Mas quando fez menção de lhe baixar as calças ele deteve-a:

– Não, minha escrava, primeiro os chinelos.

Desta vez a jovem não precisou de qualquer ordem: sabia que ao despir o dono a regra era beijar-lhe as partes do corpo dele que ia pondo a nu. Já era assim com Mariana e Ricardo, e a ela parecia-lhe ser este um procedimento perfeitamente justo e natural. Posternando-se, beijou-lhe os pés com vagar e ternura, e ao fazê-lo começou a sentir que o seu ser se diluía num vórtice em que ela própria cada vez mais era nada e o dono daquele corpo que beijava cada vez mais era tudo.

– Agora o resto – ouviu-o dizer, como que de muito longe.

O resto era as calças, que Alice puxou para baixo numa pressa febril, ansiosa por ter de novo ao alcance dos lábios aquele ceptro real de ponta tão macia; mas Harun só lhe permitiu mais um beijo antes de interromper a carícia, ordenando-lhe que fosse para junto da cómoda e tirasse todas as jóias que tinha no corpo.

Que instinto levou Alice a deixar para o fim os brincos? Como poderia ela, ainda tão jovem, saber que o remover dos brincos duma mulher é por vezes, para o homem que a observa, um espectáculo completo de strip-tease? O certo é que o fez, e é certo também que esta acção não passou despercebida a Harun, que sorriu de novo. Quando a viu nua de roupas e de jóias, pegou-lhe na mão e conduziu-a à cama, que ele próprio abriu para que ela se deitasse. Cobriu-a ternamente, deu-lhe um rápido beijo na boca a que ela tentou responder lançando-lhe os braços ao pescoço, sem que ele todavia o permitisse.

Quando a viu deitada, Harun virou-se para Circe:

– Ponha a esteira para ela aos pés da cama, por favor. E ligue o candeeiro de halogéneo. Depois pode deixar-nos sós. Amanhã venha buscá-la para começar a instrução. Cuide bem dela: deixo-a entregue a si e à sua irmã durante a minha ausência.

Enquanto Circe cumpria estas instruções – a esteira consistia somente num fino colchão em espuma de borracha, num saco-cama e numa pequena almofada – Harun deu a volta à cama e deitou-se ao lado de Alice, que estava dividida entre a felicidade de estar na cama ao lado dele pela primeira vez na vida e a consciência de que esse privilégio não lhe ia ser concedido pela noite inteira. E que instrução era aquela que ia começar no dia seguinte? E porque falava o seu amado duma ausência? Para onde ia ele, logo depois de a ter feito mulher?

Mas não se atreveu a perguntar nada: ele faria o que quisesse e ela, escrava, esperaria sempre por ele o tempo que fosse preciso.

Assim que os dois jovens ficaram sós, Harun afastou de novo para trás as roupas da cama e, debruçando-se sobre a sua escrava, começou a examiná-la da cabeça aos pés, miudamente, interessando-se tanto pela textura das sobrancelhas – que alisou com um dedo – como pela forma das orelhas, o recortado dos lábios, as expressões que lhe perpassavam pelo rosto quando ele lhe beliscava na nádega ou lhe acariciava levemente um mamilo. Assim foi descendo pelo corpo dela abaixo, atento e curioso, entremeando esta observação minuciosa com pequenos beijos em cada parte do corpo que visitava: nos cantos da boca, na covinha do queixo, na base do pescoço, nos ombros, na curva do cotovelo… Alice estava tão temerosa como ansiosa pelo momento em que ele lhe examinaria a vulva, os lábios vaginais que sentia húmidos, o clitóris intumescido. Desejou que a luz não estivesse tão forte, mas depressa entendeu que isto era intencional, e resignou-se. Os beijos ternos que ele lhe ia dando por toda a parte excitavam-na e tranquilizavam-na ao mesmo tempo, e foi sem hesitar que abriu as pernas quando ele mandou; apenas fechou os olhos e virou a cara para o lado, para não se ver observada de um modo tão objectivo e impessoal. Sentiu o dedo dele tocar-lhe na carne mais íntima, ouviu-o suspirar. Surpreendeu-se quando se sentiu beijar ali, onde nunca tinha sido beijada; e não foi um beijo leve como os outros, mas uma chupadela franca que a deixou atónita e desejosa de que alguma coisa, qualquer coisa, viesse ocupar o vazio que lhe parecia ter-se feito naquele instante no seu ventre.

Mas logo a seguir, sem que esta breve carícia tivesse tempo de a satisfazer, o exame continuou, pelas coxas, pelos joelhos – que Harun apalpou pela frente e pelos lados como se nada houvesse mais importante no mundo como a forma exacta das rótulas da sua amada. Apalpou-lhe as pernas abaixo do joelho como já lhe tinha apalpado as coxas, sentindo as diferentes texturas da pele. As articulações dos tornozelos, tão delicadas, foram também objecto da mais funda atenção: olhadas, tocadas, flexionadas, testadas. Os dedos dos pés foram separados e os intervalos entre eles escrutinados – ainda bem, pensou Alice, que se tinha lavado tanto – e até dos tendões dos pés, dos maléolos interno e externo, das veias azuis sob a pele, das rugas transversais nas solas, foi tomada devida nota.

Por esta altura Alice sentia que ninguém, nem mesmo ela própria, conhecia tão bem o seu corpo como o conhecia Harun; mas ele ainda a mandou virar de barriga para baixo e recomeçou a ver tudo: os tendões atrás dos tornozelos, as dobras na parte de trás dos joelhos, as linhas de separação entre as coxas e as nádegas, o orifício anal e depois as duas pequenas concavidades no fundo das costas; e a sucessão das vértebras, o rego longitudinal entre as duas massas musculares do tronco, a saliência das omoplatas, a delicadeza enternecedora da nuca.

Durante todo este exame, que se prolongou por um período de tempo que Alice seria incapaz de calcular, o membro viril de Harun manteve-se sempre erecto. Como podia ele resistir, pensou Alice, a lançar-se sobre ela e a possuí-la sem delongas? Poderia aplicar-se a este homem ainda tão jovem aquilo que Mariana dissera várias vezes de Ricardo – que era senhor do seu pénis e não escravo dele?

– Agora vira-te para cima – ouviu-o dizer, por fim.

Alice virou-se de barriga para cima, abrindo as pernas sem que isso lhe fosse ordenado. Ou melhor, não foi ela que abriu as pernas, foram elas que se abriram a si próprias, as traidoras, as desavergonhadas, prontas a abrir caminho ao invasor. Harun saiu da cama para ir desligar o candeeiro, deixando acesa apenas a luz suave que iluminava o quarto anteriormente. De volta para junto dela, pôs-lhe o joelho entre as coxas, beijou-a fundamente na boca, acariciou-lhe os seios e as orelhas, beijou-lhe os olhos e o pescoço; e de repente Alice deu-se conta de que a glande do dono lhe acariciava a vulva molhada, movendo-se para trás e para diante ao longo dos lábios vaginais, titilando-lhe o clitóris; as mãos tinha-as Harun ocupadas em massajar-lhe os seios e apalpar-lhe as nádegas; o que lhe acariciava a vulva, embora sem a penetrar, era o seu sexo erecto. Ergueu os quadris para se aproximar mais dele, para aumentar a deliciosa pressão que a carne dele fazia sobre a dela, mas ele não tinha pressa e continuou por muito tempo a fazer-lhe carícias com o pénis à entrada da vagina. Quando ele por fim fez menção de a penetrar, Alice dise num murmúrio:

– Sim, meu Senhor. Possui-me. Sou tua… Já fui aberta para ti, como tu mandaste…

Harun entrou nela com um movimento só, suave mas firme. Esta penetração, seguindo-se tão de perto à desfloração operada pelo falo de pau preto, não foi tão indolor como Circe lhe tinha dado a entender, mas a dor foi bem-vinda para Alice, trouxe-a um pouco de volta à terra quando se sentia já a desprender-se do mundo. Depois de a penetrar, Harun ficou por muito tempo imóvel dentro dela, abraçando-a, beijando-a, murmurando-lhe ao ouvido “meu amor”, “minha escrava”… E só se começou a mover, lentamente, gentilmente, quando a dor abrandou e ela própria começou a oscilar timidamente os quadris, primeiro para frente e para trás, ao encontro do pénis que a enchia, depois também para os lados e em círculos, numa dança que ninguém lhe tinha ensinado mas em que ela se descobria subitamente perita.

Os movimentos de Harun iam-se tornando amplos e fortes, impetuosos, exigentes; e ela, ainda virgem segundos antes, procurava harmonizar com estes movimentos os seus próprios. Mas não o conseguiu por muito tempo porque uma sensação a avassalou que a fez esquecer-se de si, esquecer-se dele, esquecer-se de tudo o que não fosse aquela inexprimível delícia que a transformava num ser sem pensamento, sem passado, sem futuro. Não era o primeiro orgasmo que sentia, nem sequer o primeiro orgasmo provocado por Harun, mas era o primeiro que experimentava com o corpo assim invadido. A pouco e pouco esta sensação foi-se atenuando, mas Harun mantinha-se dentro dela, beijando-a, amando-a, de modo que a onda de prazer em que tinha perdido o pé refluiu, mas não para longe. Olhou para os olhos do amante e viu-os sorrir:

– Estou orgulhoso de ti… Minha escrava…

De novo a onda. E de novo, e de novo, até que Alice se esqueceu que alguma vez tinha conhecido um mundo que não consistisse num perpétuo orgasmo, um mundo que tivesse um “em cima” e um “em baixo”, um “dentro” e um “fora”, um “eu” e um “outro”.

Só lentamente retomou o pé, como um nadador a quem uma onda enorme e inesperada tivesse envolvido e sacolejado nas profundidades. Harun, agora completamente solto, penetrava-a com violentas estocadas, que ela recebia avidamente, como uma mártir em êxtase receberia os golpes da lança que lhe tirava a vida. Por entre a névoa do seu próprio prazer, Alice via o rosto de Harun: um rosto contorcido, um rosto belo, um rosto torturado que de repente se abriu num urro; e um jacto quente invadiu-lhe as entranhas, soltando nela ainda um último espasmo.

Por muito tempo Harun permaneceu em cima dela, a cabeça para o lado, apoiada na almofada. Alice teve pela primeira vez consciência de como ele era pesado. “O peso do meu dono”, pensou; “estou a sentir sobre mim o peso do meu dono”; e empenhou-se, apesar do ligeiro desconforto físico que sentia, em fazer do seu corpo o leito mais aprazível para o descanso do seu Senhor.

Mas Harun acabou por rolar para o lado, libertando-lhe os movimentos começando a abraçá-la, a beijá-la, até que ela lhe disse:

– Que bom… Agora estou a ficar com sono… Com tanto sono… Meu amor… Dás-me autorização que durma?

– Eu também tenho sono, – disse ele – mas ainda não te vou dar licença de adormecer, minha escrava. Primeiro vais ainda lavar-me o sexo, que será sempre o teu dever depois de eu te ter possuído.

– Oooh… Tem que ser? Tenho tanto sono…

– Tem que ser, meu amor. Hoje e sempre, por mais sono que tenhas. Anda, vai. Basta um toalhete com água morna e sabonete.

Meio trôpega, Alice dirigiu-se à casa de banho. Não sentia ressentimento nem revolta, nem a tarefa lhe parecia prosaica em comparação com o êxtase de há momentos; sentia, sim, um amor acrescido por este Senhor que se servia dela para as tarefas mais humildes com o mesmo à-vontade com que a usava na cama. De regresso ao quarto, lavou-o cuidadosamente. Depois voltou a humedecer o toalhete, agora só com água, e voltou para junto dele a fim de lhe retirar os restos de sabonete. Harun, de barriga para cima na cama, entregava-se a estes cuidados com os olhos fechados e os braços pesadamente caídos sobre os lençóis. Depois de o lavar, Alice foi à casa de banho fazer as suas próprias abluções. Quando voltou para junto de Harun ele já se tinha posto por baixo da roupa e estava em posição de dormir; mas quando a sentiu deitar-se ao lado dele ainda a abraçou e beijou chamando-lhe meu amor, minha escrava, até que a sentiu bocejar e gemer de sono.

− Meu Senhor, gostava de ficar abraçada a ti a noite inteira. Mas tenho tanto sono… Posso virar-me de costas para ti, para estar mais à vontade?

Harun fez-lhe uma festa no rosto antes de responder:

– Ouve com atenção, minha escrava, enão fiques triste. Essa autorização que me pedes, conto dar-ta muitas vezes de futuro. Muitas vezes mas nem sempre. Mas hoje não ta dou, hoje é dia de saberes o teu lugar, que é aos meus pés. Por isso mandei a Circe preparar a esteira. Há-de haver sempre uma esteira para ti aos pés da minha cama.

Alice não se tinha esquecido da esteira, mas ousara esperar que Harun se tivesse esquecido dela depois ter partilhado com ela tanto prazer e de a ter tratado com tanta ternura. Mas não tinha resposta que pudesse dar, só uma pergunta:

– Agora?

Harun acariciou-lhe de novo o rosto e beijou-a ao de leve nos lábios:

− Agora, minha escrava.

Alice, mesmo sabendo que o seu dever era obedecer com presteza a qualquer ordem, cumpriu esta com infinitas delongas. Durante algum tempo ainda manteve os lábios em contacto com os dele e depois, à medida que afastava os lençóis para se levantar, ainda o foi beijando no peito e na barriga. Já com uma perna fora da cama e um joelho no chão, ainda procurou com a boca o sexo dele para o beijar e chupar suavemente por tanto tempo quanto ousou.

– Vai, minha escrava – repetiu ele por fim. − Mas primeiro beija-me os pés.

Circe veio acordá-la de manhã cedo. Quando Alice gemeu, ainda tonta de sono e sem se lembrar onde estava, a outra pôs-lhe um dedo sobre os lábios.

− Venha – murmurou. – Não faça barulho, o seu dono ainda está a dormir.

− Mas… − objectou Alice.

Queria dar um beijo a Harun, mas Circe não permitiu:

− Não o acorde, menina. Não se preocupe, vai ter oportunidade de se despedir dele.

À espera de Alice, no seu quarto, estava um fato de treino e umas spatilhas de jogging.

− Vista-se – disse a outra. – Vai dar duas voltas ao quarteirão. Mas antes disso vá à cozinha, beba um copo de água e coma uma maçã.

− Tenho fome…

− Come depois. Ande, despache-se, hoje começa a sua escola e não temos muito tempo.

De que escola estava Circe a falar?

− Da escola que os senhores organizaram para si, é claro. Há muitas coisas que o seu dono quer que aprenda: quanto a isso foi muito claro.

Que matérias podia querer Harun que ela aprendesse? Alice tinha terminado a escolaridade obrigatória com as classificações mais elevadas e sempre partira do princípio que ia continuar a estudar; o quê, não sabia, mas imaginava que teria a ver com a sua condição de leitora voraz. Ainda não se tinha inscrito em nenhum curso, e agora, pelos vistos, alguém tinha escolhido por ela.

A manhã estava fresca. O que Alice tinha a fazer antes do pequeno-almoço era simples: dar duas voltas ao quarteirão, uma em marcha rápida e a outra em passo de corrida. Depois foi outro grande copo de água, um duche rápido e um pequeno-almoço substancial, servido na cozinha por Circe e Atena, refeição esta que a jovem, embrulhada num roupão, devorou como uma loba.

− Vá-se vestir – disse-lhe Circe por fim. – Ponha uma saia curta e larga, que não lhe prenda os movimentos, e uma T-shirt. Ponha calcinhas e soutien. Deixe-se estar descalça. Depois vá ter com os senhores à biblioteca.

Na biblioteca, à espera de Alice, estavam Circe e a sua irmã Atena, sentadas no chão; Ricardo, numa poltrona; aos pés dele, sentada sobre os calcanhares, Mariana; e ao piano uma mulher de cerca de trinta anos que Alice não conhecia: uma mulher bonita, um pouco anafada e de ar bondoso, que lhe foi apresentada como a sua futura professora de música.

− Música? Vou aprender música? – perguntou, admirada.

− Faz parte do currículo que o Harun determinou para ti – respondeu Ricardo. – Como oriental que é, considera a música e a dança prendas indispensáveis numa escrava. Mas como oriental ocidentalizado, não tem qualquer objecção ao piano. Portanto vais ser pianista: ninguém espera de ti virtuosismo, para isso é preciso ter talento e começar cedo, mas o teu dono exige que te tornes uma amadora competente − e sobretudo uma conhecedora razoável que não o envergonhe quando forem os dois juntos a um concerto. Também vais estudar outras matérias; eu e a Mariana fizemos algumas sugestões, assim como a tua tia, e das gémeas vieram algumas bem interessantes.

A primeira lição de música de Alice não foi particularmente excitante, consistindo apenas em infindáveis exercícios de colocação dos dedos sobre uma superfície plana – nem sequer o teclado do piano, apenas o tampo de uma mesa – seguido de instruções pormenorizadas sobre a colocação do banco em frente ao piano e sobre a maneira como se devia sentar. Depois a professora fê-la ouvir na aparelhagem da biblioteca o inevitável Für Elisa de Beethoven, do qual lhe ensinou a seguir alguns acordes desgarrados, os mais fáceis, prestando especial atenção ao ângulo dos dedos sobre as teclas. Para surpresa da jovem, que esperava que a primeira lição consistisse numa interminável repetição de escalas, esta actividade não ocupou mais do que alguns dos minutos finais.

Depois desta aula Mariana informou Alice do currículo completo: música, como já tinha visto; inglês, no qual se esperava dela que se tornasse proficiente, e em que de resto já tinha sido boa aluna na escola básica; francês e árabe, dados os longos períodos que passaria no Norte de África; literatura, que teria que conhecer tanto quanto possível nas línguas originais; história; história da arte; história das ideias e das mentalidades; religiões comparadas; esgrima; danças de salão; informática; matemática; lógica e pensamento crítico; ginástica geral e acrobática; dança do ventre; e pompoar, é claro: o dono dela dava especial importância ao pompoar.

Alice nem sequer sabia o que era o pompoar:

− Que é isso?

− Basicamente é a arte de controlar os músculos vaginais. Ou antes, se quisermos ser pedantes, os músculos circunvaginais, mas geralmente ninguém diz assim.

− Circunvaginais? Isso quer dizer que eu tenho músculos à volta da vagina? Não sabia tal coisa… E é possível mexê-los à vontade?

− Tens, e bem fortes – sorriu Mariana. – E nem imaginas o que se pode fazer com eles.

Alice tentou por um momento mover aqueles músculos que Mariana lhe dizia que tinha, mas foi como se lhe tivessem pedido que mexesse as orelhas.

− E para que serve isso? – indagou, pouco convencida.

− Ui, para tanta coisa… Para teres mais a noção do teu corpo, para começar. Para um dia poderes ter filhos com mais segurança e menos dor. Para seres mais saudável durante mais tempo nas tuas partes femininas. Para dares prazer ao teu dono, evidentemente. E até para poderes dar prazer a ti própria sem teres que te tocar com os dedos, se estiveres para aí virada… O pompoar é uma coisa que todas as mulheres deviam saber.

− E a Mariana sabe? Então porque é que nunca me falou nisso?

− Só sei que existe, mas nunca aprendi. Por isso é que vou ser tua colega: o Ricardo andava há algum tempo com vontade de me mandar aprender.

− E há professores disso? – insistiu Alice.

− Professores, não: professoras – corrigiu Mariana. – Vais conhecer a tua em breve. Acho que vais gostar dela. É uma senhora indiana de origem goesa e fala português perfeito. Chama-se Sadhana e vai também ser a tua professora de dança do ventre. “Sadhana” significa estudo, treino prolongado, realização, aprendizagem… Um nome de bom augúrio para nós duas.

Pompoar, dança do ventre… Nada disto desagradava a Alice, pelo contrário. Na sua imaginação via-se já como uma odalisca, versada nas artes ocultas que fazem de um senhor escravo da sua escrava… Mas aquela profusão de matérias que lhe tinha sido anunciada, como ia ela ter tempo para tudo? Ricardo, que assistira à conversa sem parecer que lhe dava atenção, sentiu-se divertido com o alarme dela e tranquilizou-a:

− Não vai ser tudo ao mesmo tempo, é claro. De esgrima e de danças de salão, por exemplo, vais ter só uma aula cada duas semanas. A esgrima é uma preparação para outras coisas, as danças de salão são para aprenderes a não te pores rígida nos braços de um homem, a entregares o corpo… Isso é importante para qualquer homem, acredita em mim. Nas literaturas não vais ter dificuldade nenhuma: ainda há poucos anos eras capaz de passar uma tarde inteira empoleirada numa árvore com um livro na mão. Agora não é em cima duma árvore, é num canto qualquer da casa, mas o difícil é encontrar-te sem um livro. As outras matérias vão ser cursos com diferentes durações: acaba um, começa outro. Uma boa parte da tua educação virá das viagens, das conversas, das leituras, das pessoas que conheceres… Só há duas coisas em que vais ter lições toda a vida: a dança do ventre e o pompoar. Pelo menos é isso que diz o Harun.

− Isso, e ler livros – respondeu Alice, num tom meio desafiador. – Acho que nunca vou deixar de ler.

− Ah, sim, ler. Outra das paixões do teu dono. Assunto de conversa não vos vai faltar…

Mas a aula seguinte não foi de literatura, mas sim já de pompoar, o que em muito contribuiu para satisfazer em Alice a curiosidade suscitada pela conversa que tinha tido com Mariana. Sadhana, a quem a jovem foi apresentada logo a seguir, era uma indiana de longos cabelos pretos e pálpebras inferiores muito escuras. Teria talvez trinta e poucos anos, e a postura do corpo era direita como a duma bailarina ou duma artista de circo – porém sem a rigidez que apresentaria uma mulher europeia igualmente erecta. A primeira ordem que deu a Alice e Mariana foi que se despissem completamente:

− Este é um estudo que fazemos nuas. – explicou, com um sotaque muito ligeiro que aos ouvidos destreinados das suas alunas soava mais africano do que asiático. − Sempre nuas.

A sala estava quente, quase sufocante e as duas obedeceram de bom grado.

− Sentem-se nesses colchões de ginástica.

Não foi sem um pouco de inveja que Alice observou que Mariana, que tinha mais que o dobro da sua idade – quase o triplo – mostrava mais flexibilidade do que ela ao sentar-se com as pernas cruzadas sob o corpo. Quando Sadhana as viu sentadas, despiu-se também: primeiro as sandálias, depois o sari que lhe deixava à mostra o umbigo, o choli branco de mangas curtas, e por fim o saiote comprido de cor lisa. Alice ficou um pouco surpreendida por ela não trazer calcinhas nem qualquer outra roupa sob o saiote, mas veio a saber mais tarde que este costume ainda é seguido por algumas mulheres indianas mais tradicionais e é geralmente considerado perfeitamente decente.

Enquanto a professora se sentava, não sobre um colchão de ginástica como as suas alunas, mas sobre um simples tapete, Alice teve tempo de lhe ver o sexo completamente livre de pelos, mas o que mais a fascinou foram os bicos dos seios e as aréolas, grandes e de um castanho tão escuro que eram quase negras.

Admirou-se também quando a viu sentar-se com toda a agilidade na posição de lótus: Sadhana, apesar da cintura estreita e da respeitável musculatura que se lhe adivinhava por baixo da fina camada de gordura, não tinha um corpo miúdo e esbelto como o de Mariana: pelo contrário, tinha um corpo a que com justiça se poderia chamar roliço. E a situação tinha para Alice o mérito da novidade: nunca antes tinha tido uma aula toda nua com a professora também nua.

− O que lhes vou ensinar – disse Sadhana – não é ainda, no que lhes diz respeito, uma arte. Um dia poderá sê-lo, se tiverem o talento e a persistência necessárias, mas por enquanto é só uma técnica. Por isso não vou admitir aqui fantasias nem romantismos: só trabalho e mais trabalho. Estamos entendidas?

Alice murmurou que sim, intimidada, e Mariana inclinou ligeiramente a cabeça.

− Então vamos começar. Pensem em fazer da vagina uma boca capaz de puxar o lingam para dentro ou de o empurrar para fora, equipada com uma língua capaz de o acariciar a todo o comprimento; e pensem em fazer dela ao mesmo tempo uma mão forte capaz de o apertar e de o prender.

− O que é o lingam? – perguntou Alice. – E é possível ter assim tanta força na vagina?

− O lingam é o membro viril. É assim que vem no Kama Sutra; mas vocês podem dar-lhe o nome que quiserem. E a vagina pode ser uma das partes mais fortes do corpo da mulher, tal como as coxas. Mas chega de teoria. Estão prontas para começar?

Alice declarou-se não só pronta, mas ansiosa por começar. Mariana limitou-se mais uma vez a acenar que sim.

− De certeza? – insistiu a professora. – Têm a bexiga vazia? O melhor é irem primeiro à casa de banho, se não daqui a pouco temos tudo encharcado.

− Já está? – continuou, quando elas regressaram. – Então quando se sentarem outra vez nos colchões fiquem em cima dos resguardos, porque enquanto não estiverem habituadas os primeiros exercícios podem fazer com que saiam algumas gotas de xixi.

Os resguardos eram daqueles que se compram em qualquer supermercado para proteger as camas das crianças pequenas e dos muito velhos, absorventes numa face e impermeáveis na outra.

− Agora – prosseguiu a mestra – façam força para urinar … se saírem algumas gotas não faz mal. Estão a fazer força? Óptimo, agora vem a parte difícil. Parem de fazer força, mas parem de repente, e façam força para não urinar. Certo? Puxem o xixi outra vez para dentro, vá, com toda a força.

− Não sou capaz – disse Alice.

− É claro que é capaz – respondeu a professora. – A menina não é diferente das outras. Não pare de fazer força para dentro. Está a fazer?

Alice não sabia para que servia aquilo, mas empenhou-se em seguir as instruções da professora. Apesar de ter a bexiga vazia, sentia de novo vontade de urinar. Olhou de relance para Mariana, que não lhe pareceu mais confortável do que ela.

− Agora quero que façam força alternadamente para dentro e para fora. Está bem? Agora para fora… agora para dentro… outra vez para fora… Vão ficar um pouco cansadas, e com muita vontade de fazer xixi, mas não faz mal. Há um ponto a que temos que chegar ainda hoje, e depois descansam.

Mariana e Alice já tinham vontade de descansar, mas não pararam de repetir o exercício que Sadhana lhes tinha ordenado.

− Continuem. Não parem. O que eu quero agora é que ao fazerem força para fora e para dentro se tentem dar conta dos músculos que estão a usar.

Mariana foi a primeira a pensar que tinha encontrado a parte do corpo de que estava à procura. O fundo do ventre doía-lhe um pouco. Seria aí?

− É uma dor surda, como a que se sente depois de um exercício puxado? – perguntou Sadhana. – Sim? Então já está onde tem que estar. São esses os músculos que a senhoravai aprender a controlar, mas hoje ainda não quero que tente fazer isso. Já é muito bom que os sinta.

Este pequeno diálogo deu a Alice a pista de que precisava para se orientar no seu próprio corpo. Também ela sentia um pouco de dor. Era ali, pelos vistos, que tudo se passava.

Sadhana estava satisfeita: tinham sido feitos progressos e era tempo de dar a aula por terminada. Mas antes que se despedissem Mariana quis fazer ainda uma pergunta:

− Sadhana, há uma coisa que eu não entendo. Os músculos que controlam a vagina são os mesmos que controlam o acto de urinar?

− Sim, quanto a um deles – respondeu a professora. – Não quanto aos outros. Mas a acção de uns reflecte-se nos outros, e foi por isso que comecei a vossa instrução utilizando músculos que vocês aprenderam a controlar quando ainda eram pouco mais que bebés. Vocês não se lembram, nenhuma de nós se lembra, mas a instrução que os vossos pais vos deram nessa altura não foi mais fácil nem menos demorada do que a que eu vos estou a dar agora.

− Mas a mim parece-me que já consigo controlar esses músculos um bocadinho. Cansa-me muito, mas acho que consigo.

− É natural – disse a professora. – Há muitos caminhos para chegar às coisas, e às vezes chegamos a elas quase por acaso. Lembra-se de como lá chegou?

− Não tenho a certeza de estarmos a falar da mesma coisa – respondeu Mariana. – Mas uma vez estava com o meu dono, ele estava quase parado dentro de mim, e eu de repente tive que tossir. Quando tossi ele disse-me que tinha sentido um aperto no pénis e pediu-me que fizesse outra vez. Eu não conseguia, mas então tossi de propósito e ele disse-me que o tinha apertado outra vez, mas com menos força. Depois, com o tempo, aprendi a apertá-lo sem tossir, mas não o faço muitas vezes seguidas porque me cansa muito e passado um bocado já não sou capaz.

− Estou a ver – disse a professora. – E sim, esses músculos que a senhora accionou foram os seus músculos circunvaginais. A tosse faz mover o diafragma e envolve também todos os outros músculos abdominais. A razão porque o apertou com menos força da segunda vez é que a tosse foi forçada. Mas é bom que já tenha uma ideia do que se espera de si.

Ao ouvir isto, Alice obrigou-se a tossir, mas não sentiu nada em baixo, nem mesmo nas partes do corpo que estavam doridas.

− Muito bem – disse a professora. – Agora um aviso: fora da aula não comecem a forçar nem a reter o xixi. Isso pode tornar-se muito desconfortável, além de ser perigoso se abusarem. Se conseguirem mover um pouco os músculos da vagina, então podem ir treinando enquanto fazem outras coisas. Mas só os da vagina, e se não conseguirem também não faz mal: ainda não estou a contar com isso.

E com efeito: nos dias e semanas que se seguiram Alice e Mariana começaram a exercer algum controlo sobre as suas vaginas. Enquanto treinavam esta capacidade estavam terminantemente proibidas de mover os quadris:

− A essa batota não quero que se habituem, nem mesmo no princípio – dizia-lhes, sempre que detectava um movimento suspeito. – A técnica do xixi e a técnica da tosse também são batotas, mas vão ser muito mais fáceis de desaprender quando chegar a altura.

E o facto é que as batotas se foram tornando cada vez menos necessárias. Mariana foi a primeira a conseguir controlar sempre que queria os músculos vaginais, o que a professora atribuiu ao grão de experiência que já tinha, mas Alice não lhe ficou muito atrás.

− Engraçado – comentou Mariana num dia em que a lição lhe tinha corrido especialmente bem. − Às vezes, ao fazer isto, sinto assim uns espasmos dentro do corpo iguais aos que sinto quando tenho um orgasmo.

A professora sorriu, satisfeita.

− Isso é bom, muito bom mesmo. E a Alice? A menina também sente esses espasmos?

− Eu, não – confessou a jovem. – Nem sequer ainda notei que sentisse espasmos quando me venho. Também, ainda não me vim assim tantas vezes, portanto não posso falar muito.

A estas palavras todas as três se riram.

− Descanse – disse a professora. – Ainda tem muito tempo para aprender. E a menina tem uma vantagem: o seu dono sabe praticar uma arte que é uma espécie de equivalente masculino do pompoar. Há homens, sobretudo no Oriente, que aprenderam a fazer com o pénis mais ou menos o mesmo que vocês estão a aprender a fazer com a vagina: movê-lo sem mover os quadris. Trata-se de controlar um músculo chamado músculo pubococcígeo, que os homens também têm mas que é mais difícil para eles exercitar.

− O meu Senhor às vezes faz isso – interrompeu Mariana.

− Ai sim? O seu dono consegue fazer isso? Então a senhora é uma escrava com sorte – disse Sadhana. – A vantagem disto é que se o homem tiver um orgasmo e a mulher também, estando os dois perfeitamente imóveis, o espasmo de que fala a Mariana não se perde no meio de todas as outras sensações.

Nos dias que se seguiram a esta conversa a professora não lhes ensinou nada de novo. Só as mandou repetir, e repetir, e repetir o que já tinham aprendido.

− Repitam até não poderem mais – dizia sempre. − Repitam até lhes doer tudo, das coxas à cintura. Mesmo quando estiverem a fazer outras coisas, sentadas a comer, sentadas numa aula, deitadas na cama à espera de adormecer, podem repetir estes exercícios. Mas só com a vagina, entenderam? Não vos quero a remexerem-se nas cadeiras para as outras pessoas verem, nem a fazer que tossem, nem muito menos a fazer avarias com o xixi. Entendido? Se for para fazer tolices prefiro que não façam exercícios nenhuns fora das aulas.

Ao princípio Alice achava quase impossível contrair e relaxar a vagina sem mover os quadris: como pode o cérebro dar ordens a um músculo, ou a um conjunto de músculos, cuja simples existência a sua detentora ignorava umas semanas antes? A pouco e pouco, porém, começou a ser capaz, e até a encontrar motivo de intenso divertimento sempre que se encontrava sentada, por exemplo, à mesa de um café e exercitava vigorosamente, sem que as pessoas à sua volta se apercebessem, os órgãos genitais. Só não conseguia fazer isto com as pessoas da casa: Ricardo e Mariana apercebiam-se sempre do que ela estava a fazer, bem como as gémeas e, é claro, Sadhana. Mesmo a tia Safira, com o seu ar desligado de tudo, notava nada o que ela estava a fazer; resultado, talvez, da experiência adquirida em décadas de viagens por África e pelo Oriente.

Um dia, ao fazer os seus exercícios, sem que o tivesse querido e sem que nada o fizesse prever, Alice teve um orgasmo. Apressou-se a informar a professora, que encolheu os ombros e se limitou a confirmar o que já Mariana lhe tinha dito: as contracções e distensões vaginais também podem servir para uma mulher dar prazer a si própria.

− Mas evite fazer isso – acrescentou. – Não é bom dar a uma arte nobre um uso trivial.

Mariana chegava exausta ao fim de cada aula, e Alice ainda mais. Saiam mais cansadas das aulas de pompoar do que das de dança do ventre, apesar de estas não serem propriamente fáceis. Durante semanas sentiram o ventre repassado duma dor surda, que só a pouco e pouco foi desaparecendo e fazia com que nunca perdessem a consciência do centro feminino dos seus corpos. Nem mesmo Alice, durante as aulas de árabe e de matemática, que eram as que lhe exigiam maior concentração, chegava a perder esta consciência do corpo que lhe permeava todos os momentos da vida.

Alice só tinha Mariana como condiscípula nas aulas de pompoar e de dança do ventre. Nesta disciplina a indumentária obrigatória começou por ser uma saia muito rodada, feita de um tecido muito flexível mas também muito mais pesado do que Alice tinha imaginado. Isto, explicou Sadhana, porque tinham que aprender desde o primeiro dia o peso das saias e o modo como ele afectava o seu balancear. Da cinta para cima podiam usar uma T-shirt, ou um soutien, ou nada, como quisessem. Jóias ou enfeites é que ainda não.

Assim se iniciou para Alice uma rotina mais exigente do que a que tinha conhecido em qualquer outra escola, rotina esta que só era salva da monotonia pela alternância constante entre o esforço intelectual e o esforço físico.

Nas noites em que a ausência do dono lhe doía mais, habituou-se a deixar a sua cama e o seu quarto e a ir dormir no chão, aos pés da cama dele, como tinha feito na noite em que ele a tinha possuído. Nas manhãs que se seguiam a estas noites acordava dorida, e se nesse dia as lições fossem mais exigentes do ponto de vista físico o trabalho tornava-se mais penoso.

Um dia, numa aula de dança, e sem que a professora lho ordenasse, experimentou combinar as contracções do pompoar com os movimentos que estava a fazer com os quadris. A professora apercebeu-se imediatamente mas, em vez de a censurar ou de lhe ordenar que se concentrasse na dança, fez um gesto com a cabeça que pareceu à jovem ser de aprovação.

− Muito bem, está a aprender – foi o seu comentário.

Depois desta aula Alice quis saber a razão por que Sadhana tinha aprovado o seu gesto. Não a tinha ela proibido de usar os movimentos dos quadris para auxiliar os da vagina?

− Mas não foi isso que a menina fez, pois não? – fez-lhe notar a professora. – Não usou um movimento como muleta para auxiliar o outro. Pelo contrário, deu a cada um deles o seu melhor esforço e procurou que eles se completassem. Não estou zangada consigo; pelo contrário, estou contente.

Como se toda a gente tivesse estado à espera deste desenvolvimento, o dia em que esta conversa teve lugar marcou o início de toda uma nova rotina em casa de Ricardo. Nessa mesma noite foi anunciado que Harun viria no dia seguinte para uma estadia prolongada. Alice mal dormiu. Mas a meio da manhã, quando o dono chegou, Alice tinha começado a sua aula de dança do ventre e não foi dispensada dela para o ir cumprimentar.

− Não fique triste, vai tê-lo a assistir – disse-lhe a professora. – E vai ter também o dr. Ricardo. A diferença que que faz quando há homens a assistir, vai a menina descobri-la logo ao começar, ainda mais sendo um deles o seu dono. Se não ficar nervosa demais, vai dançar melhor do que nunca: é este o efeito que os homens têm na dança. Agora, um aviso: a menina pode tentar seduzir o seu Senhor com o seu desempenho, mas não pense sequer em tentar impressioná-lo, e muito menos em dominá-lo. Ele já viu muito melhor do que a menina, por isso se tentar impressioná-lo, em vez de o seduzir pela autenticidade dos seus sentimentos, ele notá-lo-á logo e sentirá desprezo por si. Mostre-lhe apenas o que já sabe: é isso que ele espera de si e é isso que o fará orgulhar-se de si. Mostre ao seu dono o que sente por ele, e pode ter a certeza que ele ficará contente com o seu desempenho.

Claro que nada nestas palavras diminuiu o nervosismo de Alice. Entrou na sala, vestida com a uma saia igual às que usava nas aulas e com um choli que lhe deixava o ventre a descoberto. Continuavam a ser-lhe proibidas jóias ou enfeites. Por enquanto só lá estavam as mulheres: Safira, que se levantou da cadeira onde estava sentada para lhe dar um beijo; as gémeas, de pé como estátuas nos extremos da sala; Silke e Mariana, sentadas no chão sobre os calcanhares, junto do sofá vazio que ocupava a posição de honra. A ela, mandaram-na ajoelhar no centro do espaço deixado livre em frente ao sofá. Ao fim de uma espera que lhe pareceu interminável, viu Harun entrar na sala, conversando animadamente com Ricardo. Alice, a quem não tinha sido dada a oportunidade de receber à porta o seu amado, nem de saudar o seu Senhor, nem muito menos de se lhe lançar nos braços como lhe pedia o corpo e o coração, pôde agora saudá-lo de longe, inclinando a cabeça até ao chão. Harun respondeu à saudação: não apenas com o inclinar de cabeça protocolar, mas com um sorriso de encorajamento e um brilho nos olhos que tanto podia ser de orgulho como de amor. Alice viu como ele se sentava no sofá ao lado de Gunther e Ricardo e sentiu como os três homens enchiam a sala com a sua presença, como a não enchiam as mulheres apesar de serem em maior número. Naquele momento Alice soube com a mais absoluta certeza que era para eles que ia dançar, e não para a professora, nem para Mariana, nem para qualquer outro ser do seu próprio sexo.

A um sinal de Sadhana, pôs-se de pé, esperou pela música e começou. Esperara concentrar-se toda em Harun, mas logo se deu conta que a presença de Gunther e Ricardo também contribuía para que ela pusesse na sua dança um suplemento de alma que era uma homenagem – compreendia-o agora – não só ao seu próprio dono, mas também aos outros dois. Não tentou combinar com a dança as contracções do pompoar: essas, reservava-as para a noite, para quando Harun a mandasse chamar. Mas a certa altura, sem que tivesse feito alguma coisa por isso, sentiu que um espasmo de prazer lhe sacudia o fundo do ventre.

No último tempo da dança, quando ajoelhou aos pés de Harun, ele tomou-a nos braços, olhou-a longamente no fundo dos olhos e beijou-a de tal maneira que lhe fez saber que a sua dança de novata lhe tinha agradado tanto como se tivesse sido executada pela artista mais experiente e perfeita.

À noite, na cama, quando o dono a penetrou, Alice esforçou-se por aplicar tudo o que tinha aprendido durante as longas semanas precedentes. Harun sorriu deste esforço:

− Calma, minha querida. Estás a dar-me muito prazer, e de futuro hás-de dar-me muito mais; mas o que conta por enquanto não é o que me dás de prazer, é o que me dás de alma. Concentra-te nisso: foi essa a dádiva que desejei este tempo todo…

− Sim, meu Senhor, sou toda tua… de corpo e de alma…

Mas a verdade é que não era capaz de distinguir bem entre a dádiva do corpo e a dádiva da alma que ele lhe pedia. Para ela não se tratava duma alternativa entre entregar-se a ele completamente ou dar-lhe o prazer mais intenso de que fosse capaz, mas simduma conjugação entre as duas coisas: entregar-se e dar-lhe prazer.

A ordem que ele lhe deu a seguir resolveu este dilema:

− Fica quieta com os quadris – disse-lhe ele – e mostra-me o que aprendeste com a Sadhana.

O que Alice tinha aprendido até ao momento era ainda muito pouco, mas pôs todo o seu brio em mostrar-lho – e com alguns resultados, como pôde ver na expressão do amante. Tinha parado, obedientemente, de mover os quadris; e ele, quando a sentiu imóvel, parou também, mas isto só por fora, porque por dentro ela sentiu que o sexo do dono tinha ganho como que vida própria: um pássaro inquieto no ninho, um furão na toca, um aríete, uma cabeça de touro a erguer-se e a baixar-se, uma alavanca poderosa que tinha no corpo dele o seu fulcro e raiz.

E foi logo no auge desta delícia que ele a proibiu de ter orgasmo! De tão inesperada e injusta, a ordem trouxe-lhe lágrimas aos olhos – mas então que força foi aquela que a levou a agarrar-se a ele ainda com mais força, a puxá-lo para dentro de si ainda mais gulosamente, e a dizer-lhe indistintamente “sim, sim, meu querido, goza tu, goza sozinho, serve-te de mim … Eu não sou nada, não sou ninguém, deixa-me só servir o teu prazer…”

Mais tarde nessa noite, quando ele voltou a possuí-la, proibiu-lhe de novo o orgasmo. Só lho permitiu à terceira vez – ou melhor, ordenou-lho – quando a noite já começava a clarear e a ela lhe parecia que estava demasiado cansada para ter prazer. Como podia ela obedecer? Tinha o ventre dorido, os músculos cansados, e parecia-lhe que todos os conhecimentos de pompoar que tinha adquirido a tinham abandonado. Mas chamou à memória todos os sonhos, todas as fantasias, todas as saudades que tinha sentido, as noites solitárias em que se tinha masturbado, deitada no chão aos pés da cama dele; e estas lembranças, e as carícias dele, e os beijos dele, e os sábios movimentos do membro viril que tão depressa a acariciava, macio, como a invadia, ávido e rijo – tudo isto foi enfim suficiente para a fazer explodir na apoteose que lhe tinha sido ordenada e por que ela tão longamente anelara.

Depois ficaram a conversar:

− Desta vez vou ficar bastante tempo aqui em casa do Ricardo. Trouxe duas moças da Tunísia, uma para ser tua criada, a outra para ser criada da Mariana. A tua é solteira, tive que trazer também um irmão dela para tomar conta dela e arranjei-lhe um emprego temporário aqui em Braga. A da Mariana tem o marido na Tunísia e se ela ficar cá vai ser preciso o Ricardo mandá-lo vir e arranjar-lhe um emprego aqui em Braga. Enquanto a tua não aprender português, vais ter que falar francês com ela. Sabes francês? Só o da escola? Não faz mal, aprendes. Não são escravas, são imigrantes legais, com os papéis em ordem, direitos laborais e bons ordenados; mas foram bem informadas da tua condição, e da condição da Mariana, e da Silke, e não se escandalizarão com o que virem e ouvirem. E também não se vão importar de andar descalças, acham natural. O que nunca vais é vê-las de saias curtas ou mangas curtas… Depois, quando me for embora, levo-te comigo para a nossa casa de Túnis. Nessa altura levo também a Sadhana e algumas das tuas outras professoras que aceitaram continuar connosco. Também temos um apartamento em Paris e uma casa na Suíça, em Appenzell… Vamos andar sempre de um lado para o outro.

− Tens assim tantas casas? Deves ser muito rico – murmurou Alice, já com o sono a embargar-lhe a voz.

− Tenho o suficiente para viver como quero – respondeu Harun.

− Isso é ser muito rico – decidiu Alice.

Com esta conversa tinha ficado um pouco mais desperta. Enroscada a Harun, ainda perguntou:

− E o Ricardo, também é rico? Sempre me pareceu rico…

− Não. Rico, exactamente rico, não é. Mas tem uma profissão bem paga, e rendimentos próprios que herdou dos pais… A Mariana é mais rica do que ele, e além disso vende bem os quadros que pinta. Fez partilhas com o ex-marido que não a deixaram mal… De modo que também eles podem viver mais ou menos como lhes apetece.

− É bom, poder viver como nos apetece – disse Alice. – Ou melhor, no meu caso e no da Mariana, como apetece aos nossos donos. Não é?

Harun mal a ouviu. Veio-lhe um enorme bocejo, de repente. Encostou o rosto ao de Alice, que também estava meio morta de sono mas ainda perguntou:

− Meu Senhor… Hoje também vou dormir no chão?

− Não, hoje não. Hoje dormes aqui comigo.

− Mas primeiro lavo-te, meu Senhor… Não é?

Harun sorriu, agradado com a boa memória e com a obediência de Alice.

− Claro…

Apenas cumprido o rito da lavagem, adormeceram os dois, abraçados. Quando ela acordou ele estava ainda a dormir. Com todo o cuidado, para não o acordar antes do tempo, deslizou toda para debaixo das cobertas e tomou-lhe na boca o pénis flácido, sentindo-o endurecer lentamente e fazendo um jogo de adivinhar o que aconteceria primeiro: Harun acordar, ou começar a corresponder ainda adormecido à carícia da amante. Mas quando ele, sem fazer mais que uns ligeiros movimentos com as ancas e sem dar outros sinais que a prevenissem, lhe descarregou na boca uma quantidade de esperma que quase a fez engasgar, Alice deu-se conta de que nos últimos momentos quem estivera a fazer um jogo fora ele, fingindo-se ainda adormecido quando a carícia já o tinha despertado completamente. Encantado com esta pequena vitória sobre a sua escrava, Harun abraçou-se a ela, risonho e feliz, e cobriu-lhe de beijos o rosto e a boca. Depois deu-lhe uma leve palmada nas nádegas e disse-lhe, ainda a rir:

− Chega de beijoquices. Estou aqui sequioso por um chá e a minha escrava ainda não mo foi buscar…

Com uma risadinha, Alice pulou para fora da cama:

− É para já…

Enrolou à volta das ancas a saia com que se apresentara a Harun na noite anterior, e, sem sequer cuidar de se cobrir da cinta para cima, apressou-se em direcção à cozinha, sentindo que tudo estava bem com o mundo. Na cozinha encontrou uma mulher que não conhecia e que a ajudou a preparar o tabuleiro sem dar mostras de ter reparado nos seus seios nus: devia ser uma das tunisinas de quem Harun lhe tinha falado.

Com a presença de Harun em casa de Ricardo, a disciplina na educação de Alice perdeu um pouco da sua rigidez: mas não no que diz respeito às lições de pompoar, nem às de dança do ventre; e muito menos quanto à escrupulosa toilette nocturna de Alice, que nunca foi descurada no mais pequeno pormenor. Este ritual era cumprido todas as noites com a ajuda da nova criada de Alice, uma jovem de olhos amendoados chamada Aischa.

Alice tinha prazer neste luxo; mas Mariana achava que era perfeitamente capaz de tratar do seu próprio corpo e que não precisava de criada nenhuma.

− Para que queremos nós uma empregada? – perguntava por vezes a Ricardo. – Para a lida da casa temos cá mulheres que cheguem; e para tua criada particular basto eu, que sou feliz em sê-lo. Ou não sabes disto?

− Sei, sim, minha querida – respondia Ricardo. – E melhor criadinha do que tu, nunca a poderia desejar. Mas não te esqueças que tens outros deveres…

E para lhe mostrar quais eram esses deveres dava-lhe a mão a beijar, ou introduzia-lha entre as coxas. Mariana, pacificada, sorria e entregava-se à carícia; e ao fim de pouco tempo adaptou-se à presença de Leila, a segunda tunisina – uma mulher entre os trinta e os quarenta anos, anafada e bem disposta, que depressa mostrou inestimáveis talentos, não só como empregada doméstica, mas também como cabeleireira, manicura, pedicura e massagista. O seu constante bom humor não poupava ninguém, nem mesmo Ricardo; e a própria Mariana não conseguiu muitas vezes impedir-se de se rir ao vê-la imitar o tom pausado e sério com que o dono da casa tinha dado certa ordem ou tomado determinada decisão.

Quanto às aulas de pompoar, a fase seguinte consistiu em habituar Alice e Mariana a distinguir três secções diferentes nas suas vaginas.

− Têm que sentir a vagina – ensinou-lhes Sadhana – como um tubo composto por três anéis: um logo atrás da entrada, o outro no meio, e o outro lá mesmo no fundo, junto ao útero.

Tomar consciência destas três secções, e aprender a contraí-las e relaxá-las independentemente umas das outras, foi bem mais difícil e demorado do que tinha sido controlar a vagina no seu todo. Nuas e suadas na sala aquecida, Alice e Mariana tentavam uma posição, depois outra, voltavam por vezes aos truques iniciais do xixi e da tosse, esforçavam-se, insistiam, desesperavam. Nem Harun, nem Ricardo, nem homem nenhum era admitido na sala; não só porque Sadhana nunca admitiria mostrar-se nua à sua frente, mas também porque os esforços, o sofrimento e o ocasional desespero das duas alunas não eram um espectáculo próprio para aquilo a que a professora chamava, com o seu humor discreto, a delicada sensibilidade masculina.

Nas aulas de dança do ventre, pelo contrário, os homens eram bem-vindos: não só Harun e Ricardo, mas quaisquer amigos que pudessem estar de visita.

O Raqs Shaqi dança-se sempre melhor na presença de um homem – dizia a professora, como quem recita uma evidência.

Mas Alice tinha lido algures que a dança do ventre era na sua origem uma espécie de rito iniciático entre mulheres, algo de que os homens estavam excluídos, uma ginástica para o parto, uma manifestação espiritual do tempo do matriarcado… Que só depois, com o patriarcado e com o colonialismo, é que se tinha feito dela um espectáculo para excitar e seduzir os homens.

− Isso é o que as americanas dizem – respondeu a professora. – Têm aquela coisa calvinista de pôr dum lado o que é espiritual e do outro o que é corporal… E como são calvinistas, são feministas, e acham que agradar aos homens as diminui. Não é que não tenham razão quando falam nos rituais, na preparação do parto, nas cumplicidades e nos segredos femininos: só não percebem que nisto tudo cabe muito bem o nosso prazer em seduzir os homens, em lhes agradar, em lhes prestar homenagem. A presença dos homens, o prazer deles nos nossos corpos, nada disto faz de nós menos mulheres, pelo contrário: faz de nós mais fortes e mais mulheres. Assim como o nosso prazer na masculinidade deles faz deles mais fortes e mais homens. Qualquer mulher oriental entende isto, só para as ocidentais é que é difícil. E para as americanas, então…

Sadhana ficou absorta um momento. Mariana e Alice ainda a ouviram dizer baixinho, falando para si própria:

− O Raqs Shaqi… contra os homens… uma coisa hostil… doidas, completamente doidas.

Como que para sair desta absorção apertou os lábios, abanou a cabeça e dirigiu-se às alunas em tom decidido:

− Hoje não quero que dancem para mim. Imaginem que são a Xerazade, que estão a dançar para o Sultão e que amanhã ele vos pode mandar cortar a cabeça se hoje não achar interessante o vosso desempenho.

De aula para aula tanto Alice como Mariana faziam progressos. Mariana, com a sua aptidão natural, levava Sadhana a lamentar muitas vezes o desperdício que era ela não ter começado a aprender em adolescente ou criança. Alice era maior e mais robusta do que Mariana, e apesar da sua juventude era um pouco mais rígida de cintura; mas no cômputo geral as duas andavam a par. O primeiro adereço que a professora lhes permitiu foi um cinto dourado com guizos para usar à roda das ancas – com o aviso solene de que só teriam direito a outros enfeites ou instrumentos, nomeadamente as castanholas metálicas chamadas “snujes” que Alice não se cansava de pedir, quando soubessem mover as ancas de maneira a que os sons emitidos pelos guizos tivessem um ritmo compatível com o da música.

Alice era sempre das duas a que fazia mais perguntas

− Porque é que a dança do ventre não se dança com os seios nus? As saias, eu compreendo, podem completar os movimentos do corpo, até se pode dizer que também dançam. Mas uma coisa ali parada, a apertar o peito, que não faz nada além de esconder o corpo, para que é que serve?

− O Raqs Shaqi pode dançar-se também de seios nus – respondia pacientemente a professora. – E até meados do século XX esse foi o costume em certas regiões do Sul de Marrocos, por exemplo…. E na Antiguidade: há representações de dançarinas com os seios nus no antigo Egipto, na Índia… e, muitas vezes, completamente nuas.

− Está bem, mas agora? – insistia a jovem.

− Agora, não se pode esperar de uma dançarina que dedique tanto tempo e esforço a aperfeiçoar a sua arte para depois ser confundida com uma stripper qualquer ou com uma lap dancer sem escola. As americanas podem estar erradas em rejeitar a parte que é sedução na dança do ventre, mas têm razão em não querer utilizar a sua arte para excitar qualquer ignorante com dinheiro para pagar a entrada num clube nocturno. Não é só uma questão de puritanismo, também é de integridade artística. Há uma definição de prostituição com que eu concordo: prostituição é tudo aquilo que põe o que é nobre ao serviço do que é vil ou trivial. Até pode ser um poeta a fazer slogans publicitários, por exemplo: é prostituição na mesma. E as dançarinas profissionais de Raqs Shaqi têm toda a razão em não se quererem prostituir. Além disso há uma vantagem concreta em usar uma peça de roupa na parte superior do corpo a que possam ser afixados guizos: se estes tiverem um som que se distinga dos que são afixados às ancas e aos tornozelos, uma dançarina que seja dotada pode criar ritmos mais intrincados.

− Lá por isso, os guizos também se podem prender aos mamilos com piercings ou com molas – retorquiu Alice. – Mas está bem, nunca tinha pensado nisso em termos de integridade artística. É tudo mais complicado do que parece, não é?

Sadhana acenou com a cabeça.

− Não quer dizer que no Oriente, nalguma ocasião privada, perante um público conhecedor, uma grande artista não possa actuar muito mais nua do que de costume, e até actuar melhor por estar mais nua. Aí já não se trata de prostituição, estão a compreender? Quanto a vocês duas, veremos. No vosso caso o problema da integridade artística não se põe. A vossa dádiva aos vossos donos não foi vil nem trivial, caso contrário eu não estaria aqui a ensinar-vos. É como eu dissse: veremos.

E ainda Alice, noutra ocasião:

− Senhora professora, já ouviu falar em Gothic Bellydance?

− Já ouvi falar, e já vi fazer – respondeu a professora. – Mas nunca fiz nem ensinei.

− Eu gostava de aprender.

− Dança do ventre gótica: só me faltava essa! Mas a questão não é o que a menina gostava de aprender, é o que o seu dono quer que aprenda. Fale com ele, e se ele autorizar talvez eu aceite estudar isso consigo. Se a dança do ventre gótica acrescentar alguma coisa às outras variedades, é a maneira de também eu aprender alguma coisa; se não lhes acrescentar nada, então não me interessa: terá que a estudar sozinha.

No pompoar, depois de aprenderem bem o ritmo ternário correspondente aos três anéis imaginários em que dividiam a vagina, foram introduzidas ao ben-wa: duas bolas metálicas, ligeiramente maiores que bolas de ping-pong e unidas por um fio. A professora convidou as duas alunas a sopesar estas bolas: não eram leves, mas o que mais as surpreendeu foi o facto de não terem um centro de gravidade estável: era como se dentro delas se movessem outras bolas, umas mais pesadas do que as outras. Eram próprias para introduzir na vagina, disse a professora, e por isso tinham outro fio que ficava de fora e permitia tirá-las. Podiam ser usadas para vários fins, um dos quais era auxiliar a aprendizagem que estavam a fazer.

Assim começou uma nova fase nesta aprendizagem, que durou, no que diz respeito a Mariana, até ao dia em que ficou sem a professora. O fim da estadia de Harun em casa de Ricardo representou uma viragem na vida de todos. Mariana e Ricardo estavam a poucos meses de acabar o seu trabalho em Brugges e Heidelberg: depois disso passariam a repartir a vida entre Lisboa e Braga, acompanhadas por Leila, que se tinha prontificado a ficar em Portugal como sua empregada desde que o marido também pudesse vir. No seu regresso a Túnis, Harun far-se-ia acompanhar duma comitiva que não ficaria mal a um jovem príncipe: além de Alice, seguiriam com ele Sadhana, a professora de música e a de inglês, a criada Aischa, e o irmão de Aischa, a quem tinha sido oferecido o emprego de motorista de Alice. A vida de Harun e Alice não se repartiria, como a de Ricardo e Mariana, por duas cidades num só país, mas por várias cidades em três continentes. Gunther e Silke já tinham regressado a Heidelberg há muito tempo.

Quanto às gémeas, era tempo de assumirem os seus deveres de matriarcas e guias no seu clã espalhado pelo mundo, que nunca ninguém chegou a saber se era uma tribo, uma família, uma sociedade secreta, um grupo religioso ou uma empresa.

Não era uma despedida definitiva: sem dúvida que se voltariam todos a encontrar, todos juntos ou em grupos mais pequenos, ao sabor da hospitalidade e das viagens. Quando Mariana se viu privada da sua professora, os seus progressos na dança do ventre já tinham chegado ao ponto em que executava todos os movimentos básicos e dominava meia-dúzia dos ritmos principais; quanto ao pompoar, já tinha começado a treinar com o ben-wa e chegara ao ponto em que conseguia puxar para dentro ambas as bolinhas, mas ainda só conseguia expulsar uma.

− Continue a treinar – disse-lhe Sadhana. – Se quiser ir mais longe no Raqs Shaqi tem que ter lições, mas o pompoar é só uma questão de treinar todos os dias.

− Não se preocupe, senhora professora – interrompeu Alice, sorrindo por entre as lágrimas da despedida. – Vou estar em contacto com ela todos os dias pela Internet e se ela se desmazelar digo ao Ricardo.

Do aeroporto do Porto, onde tiveram lugar as despedidas finais, até à moradia de Ricardo em Braga não se demora mais do que três quartos de hora pela auto-estrada. Mal entraram no carro e se viram sozinhos um com o outro, Ricardo ordenou a Mariana que levantasse a saia e pôs-lhe a mão entre as coxas para lhe acariciar o sexo. Ao sentir o fio do ben-wa, perguntou:

− O que é isto?

Mariana explicou. E Ricardo, rindo, decidiu logo ali que, a partir do momento em que chegassem a casa, Mariana ficaria nua toda a semana seguinte, minuto por minuto e segundo por segundo, para que ele pudesse verificar a assiduidade com que ela cumpria os exercícios que a professora lhe tinha prescrito. Mariana riu-se também e chegou-se para mais perto dele. Milhares de metros acima de ambos, o avião que levava para longe os seus amigos descreveu uma larga curva no ar e entrou na rota que o plano de voo lhe tinha destinado.

(Publicado no Blogger a 31/05/08 e revisto a 01/06/08 )

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Capítulo 2


Depois desta descrição longa mas necessária chegamos finalmente à história da chegada e estadia do Príncipe Hassan-Khan. O Príncipe veio a casa de Manoubia para comprar uma esposa: a bela Djamila, pérola das pérolas, uma íntima amiga de infância da irmã dele, Kora. Djamila e Hassan já estavam apaixonados, já que a irmã lhe tinha contado da linda escrava, que depois veio a conversar frequentemente com ele na companhia da sua amiga Kora. Como Djamila tinha passado bastante tempo no palácio do Príncipe, tinha podido conhecer os seus futuros sogros e afeiçoar-se a eles; e no que a estes diz respeito, chegaram a endeusar a encantadora jovem. É portanto um amor puro aquele que atrai os dois jovens, misturado sem dúvida com aquele poderoso desejo sensual que só os orientais possuem em grau tão elevado.

O Khan, que tipificava o homem circassiano em toda a sua beleza, tinha uma figura em que a força se combinava com a flexibilidade, o lado sombrio com um garbo encantador. Tinha na verdade a força do tigre e a agilidade da pantera. A sua testa larga e lisa prolongava-se num nariz recto, enquanto os olhos cinzentos como o aço exprimiam, ora uma ternura infinita, ora uma fria crueldade. Envolto no seu caftan negro bordado a prata, com o gorro de astracã enterrado na cabeça até ao meio da testa, sapatos de couro amarelado, tinha um aspecto verdadeiramente belo e majestoso. E quando entrou, montado num nobre cavalo, em casa de Manoubia, houve sem dúvida muitos lindos olhos, escondidos por véus orientais, virados com amor e desejo na direcção deste elegante cavaleiro.

Hassan deixou os soldados da sua escolta a uma certa distância, apeou-se do cavalo cujas rédeas entregou a um servidor, e aproximou-se a pé do portal do palácio. A sua chegada já tinha sido anunciada, pois quando chegou aos pesados portões estes abriram-se e um serviçal apressou-se ao encontro do Príncipe para o aliviar do leve saco de viagem. Hassan tinha naturalmente a intenção de se restabelecer com um banho, depois de descansar algumas horas, dos esforços da longa cavalgada; e para este fim tinha trazido alguns artigos de higiene.

Depois de atravessar a porta, encontrou-se num pátio revestido a mármore e rodeado por uma galeria gótica de colunas a que os arcos, duma irregularidade genuinamente árabe, davam uma impressão de movimento sem que por isso perdessem uma certa graciosidade. E nestas horas do crepúsculo, durante as quais os últimos raios ardentes do dia se perdem no infinito horizonte violáceo que se estende sob o firmamento como um oceano, a vista era com efeito magnífica. Entre as colunas, que a intervalos eram interrompidas por balaustradas semi-circulares, pendiam lâmpadas de ouro de correntes de prata; no meio encontrava-se uma fonte em mosaico, de cuja figura principal, que consistia num grupo de três leões, caía uma água fresca e clara. E as lágrimas destes leões, que talvez chorassem pelas suas belas fêmeas, corriam para um reservatório em que se reflectia a floresta de colunas e os arcos recortados da galeria circundante.

Este pátio, a única parte do palácio original que permanecia inalterada, conservava a pura beleza do estilo oriental em todo o seu esplendor e simplicidade; tinha sido construída quando o Grande Mogul ainda residia em Djeli. E nas imediações uma inaudita acumulação de toda a sorte de verdura completava a impressão tão exótica como imponente suscitada por esta residência principesca em quem ainda mal lá tinha entrado…

Manoubia estava à espera do seu visitante. Tinha posto de parte a sua habitual distância majestática para receber o seu hóspede real com a maior amabilidade. Entregou-o com grande dignidade aos cuidados de dois enormes negros com cerca de dois metros de estatura a quem encarregou de conduzir o Príncipe. Estes negros, vestidos de veludo vermelho e verde, assemelhavam-se a dois titãs que tivessem perdido o caminho da ilha de Cítera com os seus ornamentos de festa.

Logo apareceu também o administrador da casa, o genro de Manoubia, que endereçou ao Khan estas palavras:

– Poderoso Senhor! Allah abençoou a nossa casa ao permitir que os teus indignos servos te recebam por um momento – a ti, o grande Hassan-Khan, o Senhor tão amado como temido! Bendita seja a areia calcada pelo teu augusto pé! Que as flores em que descanse o teu olhar misericordioso nunca mais murchem! Que a fonte murmurante que ouvires nunca mais cesse de celebrar esse dia ditoso! Poderoso Senhor! Esta casa é tua, e nós, os teus servos insignificantes, esperamos com respeito as tuas ordens.

O Khan agradeceu com um sorriso e prosseguiu o seu caminho para o pavilhão do meio. Ao chegar ao limiar a porta abriu-se, como que movida por uma força sobrenatural; o Príncipe deu alguns passos para dentro e encontrou-se num enorme vestíbulo, uma espécie de grande salão cujas paredes estavam ornadas com pinturas e tapeçarias artísticas de valor inestimável; os pés afundavam-se nos tapetes macios; sofás estofados a seda rodeavam a sala; banquinhos de pau-rosa, embutidos com madrepérola, espalhavam-se aqui e ali numa aparente desordem.

De cada lado da porta estavam de pé dois rapazinhos, dois jovens Adónis, com bochechas coradas, o denso cabelo preto caindo aos caracóis. As bocas eram como cerejas, os dentes eram, nas palavras do poeta, “uma gota de leite numa rosa”. Estavam ambos ataviados com calções de seda azuis apertados sob os joelhos por bandas elásticas. As pernas roliças e carnudas estavam nuas. Traziam além disso camisas da mais fina cambraia, através das quais lhes reluzia a fresca pele do peito. Boleros escarlates cobriam-lhes as costas e as mangas arregaçadas deixavam ver os braços brancos e roliços. Uns chapelinhos árabes assentavam-lhes meio de esguelha na cabeça e as longas borlas caiam-lhes sobre os ombros.

Enquanto o Khan admirava este quadro encantador, abriu-se lentamente no fundo da sala uma porta, e uma aparição, maravilhosa como um sonho, tornou-se visível. Era a bela Zima, neta de Manoubia, com cerca de vinte e dois anos de idade e duma beleza verdadeiramente invulgar. Poderíamos dar-lhe o nome de uma antiga Bacante ao vê-la assim no seu quimono japonês com ramos de roseira bordados. Dois solitários sumptuosos pendiam-lhe das pequenas orelhas rosadas, e uma fileira de diamantes rodeava-lhe a orgulhosa garganta alabastrina.

O Khan tinha-se virado ao ouvir o fru-fru da seda e ficou imóvel e encantado perante esta bela aparição.

Subitamente, com um movimento gracioso, Zima deixou escorregar para o chão o seu quimono e ficou de pé em todo o esplendor da sua carne nua. Ficou assim, por um momento, nesta pose encantadora e natural. Deixou que os olhos coruscantes do Príncipe lhe percorressem todo o corpo; e então deu três passos em frente, ajoelhou-se-lhe aos pés e beijou-lhe cheia de respeito as pontas dos sapatos. Achando que para exprimir todo o seu respeito não era suficiente ajoelhar-se perante o Khan, estendeu-se toda no chão sobre a barriga, abraçou os tornozelos do Príncipe e cobriu-os de beijos. Este curvou-se e fez deslizar suavemente as mãos sobre todo o corpo da jovem mulher. Experimentou um prazer infinito em beliscar e acariciar esta carne branca e firme, e a cada carícia sentia o corpo divino dela ser percorrido por um tremor lascivo.

Também Hassan começou a dar mostras duma viva excitação. O seu membro ergueu-se por baixo das calças de montar e nos cantos dos lábios apareceu-lhe uma espuma esbranquiçada.

Finalmente a jovem ergueu-se até ficar de joelhos e o Príncipe, galante, pegou-lhe pelos seios e obrigou-a assim a pôr-se de pé. Por um momento ainda permaneceu ela assim, imóvel sob aquele olhar masculino brilhante de desejo; então Hassan deu um passo para ela, apertou-a contra o peito e disse-lhe baixinho:

– Quero, querida Zima, receber de ti o primeiro beijo que me for dado nesta casa.

Com modo insinuante ela toma-o pela mão, condu-lo com delicadeza a um sofá e faz com que ele se sente. Ajoelha-se diante dele e abre-lhe as calças com cuidado e perícia. Depois de pôr assim a nu o sexo do Príncipe, segura-lhe o membro, sem lhe tocar com as mãos, com a boca e com a língua e mantém-no um momento comprimido entre os lábios: sente como ele fica cada vez mais erecto e como lhe bate contra o céu da boca.

Recua para melhor recomeçar. Inclina o seu lindo, pálido rosto sobre esta vara rígida e avermelhada, comprime-a com as maçãs do rosto contra o ventre do homem e deixa-a percorrer todo o seu rosto. Sucede-se agora sem interrupção uma série das mais deliciosas carícias. Tão depressa introduz no sovaco o membro completamente erecto como o comprime com as mãos contra a maciez da barriga e das coxas, como ainda o envolve no seu exuberante cabelo castanho. Finalmente despe-lhe completamente as calças e senta-se com pequenos gritos fervorosos e suspiros contidos no colo do seu amante.

– Estou contente contigo, Zima – disse ele. – Deita-te agora neste lugar onde já vais servir o meu desejo, e diz-me como te queres entregar a mim. Diz-me que alegria vais experimentar quando eu penetrar o teu corpo esbelto e doce. Diz-me que sensação vais ter quando a prova do meu amor inundar as tuas entranhas. Diz-me também que espécie de abraço preferes, para que no momento do clímax possamos ambos experimentar a mais alta felicidade.

– Poderoso Senhor, – respondeu ela. – Eu não passo da tua escrava, o meu corpo pertence-te, farás com ele o que os teus desejos exigirem, e eu hei-de sofrê-lo, o meu amor por ti só aumentará com isso. Se me penetrares, Poderoso Senhor, ficarei feliz, porque és belo, és como eu te sonhei, o teu membro viril é imponente e atrai na sua direcção todo o meu corpo. Que o nosso abraço dure até à minha morte, de modo a que a prova do teu amor me avassale até à derradeira paixão! Poderoso Senhor, sou a tua escrava!

Com um olhar ordena a um dos dois rapazes presentes que traga uma cadeia de ouro e manda-o prender-lhe os pulsos nas costas, como sinal de submissão ao seu Senhor. Este ergue-lhe gentilmente as pernas e ata-lhe os tornozelos com a ajuda duma fita de seda. Então introduz-lhe o membro entre as barrigas das pernas, que Zima se põe imediatamente a mexer para trás e para diante. Então ele começa a subir pelo corpo dela acima, tão devagar que mal se nota, até lhe chegar ao ventre com a ponta do pénis. Mais uma vez começa a passear a glande dura e vermelha pelo corpo branco da sua escrava, aconchega-a entre os dois seios macios, acaricia-lhe com ela os lábios húmidos, envolve-lha no cabelo. A uma ordem sua os rapazes libertam os rapazes os braços e as pernas de Zima dos seus grilhões, abrem-lhe ligeiramente as coxas e erguem-lhe os joelhos até ficarem encostados ao corpo. Zima espera nesta posição, completamente imóvel, o ataque vitorioso do seu Senhor; mas este não se apressa e oferece a visão do seu falo erecto aos dois rapazes, que observam com curiosidade este monstro que tanto se avantaja em tamanho às suas pilas. Quando Zima se apercebe disto, ordena a um, de seu nome Achmed, que segure na mão o objecto da sua curiosidade. O rapaz obedece imediatamente, mas mal toca o membro do Khan este dá um rugido e lança-se sobre a mulher como uma fera sobre a presa.

Mas apesar deste movimento brusco Achmed não largou o membro, e aproveita para o apontar ao lugar certo, puxando para trás o prepúcio e afastando os pelos púbicos de Zima, que se tinham atravessado parcialmente sobre a entrada. O rapaz parece encontrar um grande prazer neste jogo, e o par permite-lhe que se entregue a ele, tolerando a lentidão intencional com que o faz. O calção de Achmed avoluma-se visivelmente no lugar do membro viril!

Finalmente, no paroxismo da ânsia, o Príncipe introduz-se completamente, com um poderoso movimento das ancas, arrancando à sua escrava um grito de dor. Sem domínio sobre si próprio, morde-a nos ombros, e uma gota de sangue aparece como uma pérola sobre a neve da pele. Puxa o pau completamente para fora para imediatamente o introduzir de novo até ao fundo, enquanto ela executa com o ventre movimentos rotativos que aumentam ainda mais o desejo dos dois. Com a sua rija lança acaricia-lhe repetidamente o clitóris, ora por trás, ora pelos lados. Os seus corpos estão unidos, entrelaçados, pressionados um contra o outro e já constituem um só corpo. Os seus movimentos, apesar de desenfreados, mostram-se cheios de ritmo e harmonia. Ele abraça com as coxas as da escrava e arranha-lhe a pele com as unhas. Os lábios de um estão colados aos do outro e Zima suga com paixão a língua e a respiração do seu Senhor. Ele torna-se brutal, e ela, a escrava, permanece dócil e paciente.

– Chega o rosto ao meu! – ordena ele – e não te mexas!

Ou então:

– Agora descanso eu, trabalha tu! Faz com que eu me venha, ou és chicoteada!

E ela começa a trabalhar enquanto ele se mantém imóvel sobre ela; movimenta a parte inferior do corpo para a frente, para trás e em círculos, e acaricia-lhe a ponta do membro com os lábios da vulva: uma arte que poucas mulheres dominam.

Subitamente os músculos dele contraem-se como por efeito de uma cãibra; ele entrelaça-se nela ainda mais apertado e aperta num derradeiro beijo os lábios contra o belo pescoço da mulher.

Ela sente o membro dele a engrossar dentro dela – e sente o corpo inundado… Finalmente os nervos dele cedem e ele cai pesadamente sobre ela, onde descansa por algum tempo.

Durante todo o tempo que durou este abraço quatro jovens negras vestidas de cambraia vermelha, verde e amarela, que tinham entrado despercebidas na sala, abanaram grandes leques sobre eles para impedir uma transpiração exagerada. E sobre um tamborete, numa taça de defumar, ardia uma mistura de âmbar e íris que enchia o aposento com um perfume entorpecente.

No momento do climax as núbias largaram os leques, e a primeira tomou uma taça de ouro, a segunda uma esponja, a terceira uma toalha de seda e a quarta um vaporizador de perfume.

O Khan tinha-se erguido e Zima levantou-se do sofá. Ajoelhando-se diante dele, lavou-lhe meigamente o membro com água perfumada e secou-o longamente com infinitos cuidados. E como o Príncipe se tinha libertado a pouco e pouco das suas roupas e estava quase nu, cobriu-o com um roupão longo de seda.

A um sinal seu os dois rapazes ergueram um reposteiro e subiram todos ao primeiro andar, onde uma refeição aguardava o Príncipe: bolos e sorvetes em finas taças de porcelana, bebidas refrescantes em cálices de ouro e prata. Zima, ainda nua, estendeu-se sobre um dos numerosos sofás que davam à sala o seu carácter, enquanto o Príncipe se sentava ao seu lado à maneira turca sobre uma das almofadas de veludo que estavam espalhadas pelo chão.

As quatro escravas núbias dispuseram então sobre o corpo de Zima os vários pratos em que consistia a refeição, e o Khan fez a sua refeição sobre a carne perfumada da sua amada, tomando-lhe um bolo da concavidade do pescoço ou um bombom da barriga, mordendo com os dentes uma peça de fruta que ela segurasse com as coxas. Ela oferecia-lhe por vezes, com os seus dentinhos brancos, um doce, ou então era ele que procurava com os lábios uma amêndoa que se lhe tivesse escondido no monte de Vénus. Os dois rapazes serviam-no de sumo de laranja e xarope gelado em taças de prata.

Chegada ao fim a refeição, ela chegou-lhe, com os dedos rosados dos pés, um cigarro aceso, e ele fumou, fazendo com que se elevassem em direcção ao tecto as nuvens azuladas de tabaco oriental. O Príncipe tinha-se estendido sobre as almofadas, feliz por viver ainda no corpo os mesmos encantos que tão agradavelmente lhe cansavam os músculos…

Demorou-se uma hora bem medida nesta inactividade, durante a qual Zima, para o distrair, mandou vir músicos, cantores e dançarinas mouras. Um alegre prelúdio instrumental abriu o concerto. Então seguiram-se ritmos cada vez mais lentos, cantilenas, odes frívolas e melodias sérias. A um sinal de Zima salta para o primeiro plano uma odalisca de pouco mais de quinze primaveras, retorcendo-se em movimentos lascivos à cadência do «Eoud», e executa uma «Rita», uma dança sensual e lenta. Quantos encantos se alojam nas linhas deste corpo insinuante, que as madeixas negras dos cabelos encobrem parcialmente! Com mais vivacidade do que uma gazela, mais flexível do que um junco, desdobra os membros como as ondas de um riacho sem deixar de transmitir a impressão de uma indolência sensual. Percute com os dedinhos rosados o seu tamborim e move-o para que não o abafem as mangas compridas.

Chega a vez de quatro outras que se tomam pelas mãos, e ora se afastam, ora se aproximam umas das outras, ora se abraçam pelo pescoço e pela cintura, ora se repelem, e assim representam todas as fases do amor.

Este espectáculo encantador espicaça de novo os sentidos do Khan, e nos seus olhos penetrantes brilha o desejo. Zima, atenta, apercebe-se disto e prepara-se para oferecer ao seu Senhor mais uma sessão de volúpia, ainda mais inventiva e lasciva do que a primeira. A sua intenção é que o Príncipe deixe a casa de Manoubia com o espírito enfeitiçado, o corpo exausto e os sentidos saciados; e está disposta para isso a inventar para ele encenações inauditas e requintes antigos. Por ordem sua os músicos e as dançarinas deixam a sala deixando-os sós com as quatro escravas núbias e com os dois rapazes.

− Poderoso Senhor – começa Zima – a tua escrava notou que os teus desejos estão de novo despertos. Queres que estes dois rapazinhos insignificantes te acompanhem a um aposento onde te espera água fresca e perfumada para banhar o teu nobre corpo? Ajudar-te-ão a lavar e servirão também o teu desejo. Os seus lábios, vermelhos como a cereja madura, hão-de beijar respeitosamente as partes mais íntimas do teu corpo. Com as suas mãos ternas e macias hão-de acariciar a tua carne por toda a parte que queiras. Desvendarão ao teu olhar os seus prazeres secretos, mostrar-te-ão o que costumam fazer um com o outro quando estão sozinhos ao meio-dia, quando o Sol do Oriente lhes enerva os sentidos e os conduz à licenciosidade. Queres, Senhor, que nós os três te ajudemos a gozar? Permites esta honra aos teus escravos?

− Vamos – respondeu o Príncipe laconicamente.

Ergueu-se e seguiu a jovem mulher pelos longos corredores até à sala de banho.

Esta sala merece ainda uma breve descrição, pois é verdadeiramente bela na sua simplicidade. O meio consiste num tanque de ónix vermelho, ao qual se desce por alguns degraus. Este tanque está rodeado por uma galeria de arcos redondos sustentados por colunas de mármore branco. As paredes estão ornamentadas com pinturas árabes pintadas à mão sobre a pedra nua. Aqui e ali alguns divãs, e é tudo. Não há cortinas, não há tapetes, só mármore e pedra.

Hasan senta-se sobre um divã e Zima, ladeada pelos dois rapazes, ajoelha-se à sua frente. Puxa para si o rapaz mais novo, de seu nome Ali, despe-lhe o bolero e o calção, e diz, acariciando com os dedos a carne rosada e jovem do tronco nu:

− Vê, poderoso Senhor, como é doce este corpo! Vê estes bracinhos roliços, debaixo dos sovacos já se nota uma pelagem macia. Vê esta barriguinha branca, as pregas amorosas da pele em que qualquer homem desejaria dar um beijo.

Pouco a pouco despe-lhe os calções, e o rapaz, que pela primeira vez se vê despido perante um estranho, fica vermelho de vergonha.

− Vê, Poderoso Senhor, estou-lhe a abrir o calção, e já se lhe entrevê a cabecinha do sexo; já a vais ver toda, Senhor, porque este corpo pertence-te. Ei-lo, aqui está o pauzinho; como é pequeno, meu Amo, em comparação com o teu grande membro, e como é agradável acariciá-lo! Já começa a erguer-se; o teu olhar, ao incidir sobre esta parte do seu corpo, faz com que o seu espírito seja presa de desejos sensuais. Se eu acariciar este pequeno membro, ele ejaculará, se quiseres, diante dos teus olhos; mas vou fazer isso com toda a suavidade para que o prazer dos teus olhos dure mais tempo. Ele está envergonhado mas feliz, porque tu estás a olhar enquanto eu o faço ejacular. Vê, o membro dele está a ficar intumescido e vermelho; puxo-lhe o prepúcio para trás, para que a sua excitação aumente… Agora faço uma pausa para te mostrar o seu lindo cuzinho. Observa esta carne firme e rosada; entre estas bochechas, Senhor, hás-de gozar, se for esse o teu desejo. A abertura é estreita porque ele ainda é virgem, mas tu terás o cuidado de não o rasgar. O teu pénis é tão grosso e o seu corpo tão pequeno.

O Khan observava esta cena com enlevo, o seu membro crescia sob o leve tecido de seda que lhe envolvia o corpo. Mas dominou a sua ânsia ardente por mais um momento e ordenou:

− Ali, tu és um homem! Mostra que o és! Esta mulher é uma cadela, mais do que isso, é a tua escrava, enfia-lhe o teu pau na boca!

O jovem obedece, hesitante.−

− Muito bem. Tira o pau para fora e mete-lhe na boca a tua bolsinha entre os lábios… isso mesmo, e tu, Zima, acaricia-o de novo, ou não estás a ver que ele tem vontade?

A jovem mulher obedece. Passa um braço pela cintura do rapaz e apalpa-lhe com a mão livre os testículos, acaricia-lhe o pequeno membro, aperta-o com os lábios, esfrega-o com as pontas dos seios e toca-lhe com as pálpebras fechadas; depois toma-o ma boca e chupa-o ternamente, ao que o rapaz responde com suspiros entrecortados. Por fim torna-se necessária uma interrupção para evitar uma ejaculação imediata.

− Está bem assim – diz o Príncipe. – Ali, é hoje que vais perder todas as tuas virgindades; agora vais-te servir desta mulher, que é tua. Mete-lhe a tua lança na parte de trás, para começar, e faz o que eu fiz: morde-a nas costas, percebes, ela é a tua escrava! Bom, agora entra-lhe pela frente e deita-te em cima dela; ela terá que te fazer como me fez a mim – mas não te venhas, que ainda tens mais coisas para fazer. Agora sai de dentro dela e escuta: tu és o senhor desta mulher, portanto bate-lhe, maltrata-a, a esta cadela que aqui está!

O rapaz faz tudo o que o homem lhe ordena, e na sequência da última ordem bate na sua amiga com tanta força que de vez em quando lhe arranca um grito de dor. Os golpes chovem de todos os lados; primeiro palmadas nas nádegas, depois nas pernas, na barriga, entre as coxas e finalmente na cara…

O príncipe, satisfeito, atira com o roupão para o chão, aproxima-se de Ali e mete-lhe o sexo na boca. Isto traz o rapaz finalmente ao paroxismo, já não se consegue dominar, o esperma esguicha-lhe do sexo e cai sobre as coxas do Khan. Este sorri e ordena a Zima que o limpe com a língua. Puxa para si o rapaz, que está ainda mais envergonhado, e introduz-lhe de novo o membro entre os lábios. Ali lambe com entusiasmo esta nova espécie de chupa-chupa enquanto Hassan lhe acaricia com a mão os longos caracóis castanhos… O Príncipe recua, mas Ali segura-lhe o membro com as mãos e introdu-lo de novo na boca, acariciando os testículos do seu Senhor como antes lho tinha feito Zima. Contudo pode observar-se nos seus movimentos alguma hesitação e uma certa timidez, pois não ousa fazer tudo aquilo a que os seus desejos o impelem: a vergonha modera-lhe ainda o desejo. Subitamente ergue a mão para o peito do seu senhor e os olhos dos dois encontram-se…

Enlouquecido de desejo, o príncipe agarra ali pelas ancas e arremessa-o sobre um divã. Precipita-se sobre ele e tenta penetrá-lo. Mas Ali é virgem, e o obstáculo é tanto maior porque Hassan é fortemente constituído. Mas a dificuldade só lhe aumenta a fúria, o Khan já não se reconhece a si mesmo; Segura o membro com uma mão, e segurando-se assim dá uma estocada tão forte que se introduz completamente no corpo do rapaz. Este dá um salto de dor, o movimento do Príncipe foi tão rápido e brusco que ele se sente assassinado. O terror invade-o e contudo não ousa sequer gritar. Sente o membro do seu Senhor a mover-se dentro dele, e este membro parece-lhe de um comprimeto imensurável. O Khan morde-o na nuca e arranha-o com as mãos em garra, mas não consegue chegar a um clímax. A crise aproxima-se e afasta-se de novo no momento em que ele acredita que está mesmo à beira de se vir. Este impedimento irrita-o ainda mais, fá-lo dar urros, insultar o jovem, ameaçá-lo com as maiores crueldades, e põe nele a culpa da sua momentânea impotência enquanto lhe aperta nas mãos o pequeno pénis. Mas este começa de novo a sentir uma excitação extraordinária, começa a sentir prazer neste amplexo. Move agora por sua vez o cuzinho, mas só ousa fazê-lo docemente porque receia uma censura. Move-se também na mão que lhe segura o membro. Mais um momento, e gozará na mão do seu Amo, sente que está a ficar completamente rígido, e procura deter a ejaculação. Mas subitamente sente-se inundado, sente um líquido quente que jacto a jacto se lhe introduz no corpo, sente-o nas entranhas, e esta sensação é-lhe tão agradável que ele próprio não se contem e liberta na mão do Khan um copioso jacto de esperma.

Assim ficam os dois deitados lado a lado com o corpo cansado e o espírito saciado, e parece que o prolongar deste abraço é para eles um novo prazer. Não querem separar-se, tão agradável é para cada um deles o calor do corpo do outro. Finalmente o Príncipe retira o membro do corpo do rapaz. Este experimenta um sentimento bizarro de dor e vergonha; contudo ergue-se imediatamente para ajudar Zima a lavar o sexo do Senhor. Hassan, sentado no divã, chama o rapaz para o seu lado, acaricia-lhe os caracóis castanhos e cobre-o de palavras ternas, abraça-o com sentimento, grato pelo prazer que Ali lhe deu, e agradece-lhe a oferta do seu corpo. Fazem um belo par: a cabeça rosada do rapaz junto do ombro do homem forma com o rosto severo do Khan um contraste digno do pincel de um artista! A relação entre os dois está estabelecida – e Manoubia acaba de vender mais um escravo. De resto, tudo o que até agora aconteceu tem apenas este único fim: o amor dos sentidos anda sempre nesta casa de mãos dadas com o amor do lucro…

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– Despe-me – disse ele.

Mariana sabia que para o despir tinha ela que estar nua primeiro. E como ele não lhe tinha ordenado que se despisse à frente dele, retirou-se para o quarto para o fazer sozinha.

Regressada à sala, toda nua, sentindo a pele um pouco arrepiada com o frio, encontrou Ricardo tal como o tinha deixado: sentado no sofá de perna traçada e de fato completo. Não tinha sequer tirado o casaco.

– Vou pôr o aquecimento mais forte, meu senhor.

Ricardo acenou que sim. Mariana regulou o termostato para o máximo e dirigiu-se para junto dele, roçando-se como uma gata contra o tecido de lã das calças dele. Eram ásperas e um pouco rígidas. Para lhe tirar o casaco teve de se ajoelhar no sofá ao lado dele. Ele inclinou-se para a frente para ajudar e Mariana, com cuidado, fez-lhe deslizar as mangas ao longo dos braços. Depois levantou-se, foi buscar cruzetas e começou a arrumar-lhe a roupa à medida que lha tirava. Ao fazê-lo encostou a cara ao casaco, saboreando as texturas diferentes da fazenda e do cetim do forro.

Agora a gravata. Mariana ajoelhou-se de novo, desta vez com uma perna de cada lado do corpo do amante, e começou a desfazer-lhe o nó. Era de seda encorpada, como se usava, e Mariana não sabia bem por onde lhe começar a puxar. Ricardo inclinou-se para trás com um sorriso divertido, aparentemente impassível com Mariana nua escarranchada sobre ele. Mas Mariana não se deixou enganar, bastou-lhe um pequeno movimento do corpo contra o corpo dele para lhe sentir a erecção debaixo das calças. Sorriu-lhe, descarada, e moveu as ancas de um lado para o outro como que a dizer que a ela não a enganava ele.

Depois de ter alargado o nó, quis tirar-lhe a gravata por cima da cabeça, mas ele abanou a cabeça:

– Desfaz o nó. Senão fica tudo amarrotado..

Mariana obedeceu. Não podia fazer batota. Se lhe tivesse tirado a gravata por cima da cabeça teria podido atirá-la para cima do outro sofá sem sair de cima dele. Assim teve que se levantar e pegar noutra cruzeta, perante o olhar divertido e apreciador do dono.

Colete e tudo, trazia ele! Há quanto tempo isso não se usava? E logo um daqueles com uma infinidade de botões. retomando a sua posição escachada, Mariana desabotoou-os todos. O colete foi fácil de tirar por não ter mangas. Depois de tirar os botões de punho foi preciso ir pô-los onde não se perdessem. Depois desabotoar a camisa. Tentou tirar-lha por trás sem sair da posição em que estava, mas ele não facilitou e Mariana teve que se pôr de novo de joelhos ao lado dele.

E aquelas horríveis camisolas interiores de algodão que ele insistia em usar! Não admirava que não tivesse frio nenhum. Dizia ele que era para não sentir a lã do pullover através do tecido da camisa, mas hoje não trazia pullover e tinha na mesma a camisola interior.

Com um suspiro, Mariana tirou-lha, mas não lhe concedeu a dignidade de a arrumar como tinha feito às outras peças: em vez disso atirou-a para o lado como a um objecto desprezível.

Ei-lo finalmente de tronco nu. Ávidas, as mãos de Mariana dirigiram-se para a carcela das calças, mas o dono deteve-a: primeiro, os sapatos.

Claro, primeiro os sapatos. Com os sapatos calçados as calças não saem. E as peúgas também, porque não há nada mais ridículo de que um homem nu com peúgas calçadas. De joelhos no chão, Mariana desapertou-lhe os atacadores dos sapatos e tirou-lhe as peúgas. quis pegar-lhe num pé para o levar à boca e beijar, mas ele resistiu: era ela que tinha que se baixar até ao chão. Assim fez; e só depois, na continuação dos beijos, é que ele consentiu que ela lhe pegasse nos pés e os elevasse até si. Continuou esta carícia até ele lhe dar sinal, abrindo as pernas, que tinha permissão para se aproximar mais. Só então lhe foi permitido fazer o que tinha querido fazer desde o princípio: desapertar-lhe o cinto, abrir-lhe as calças, baixar-lhe as cuecas, soltar-lhe o pénis túrgido, e…

Ricardo ainda lhe permitiu que o beijasse no pénis durante alguns segundos antes de lhe dizer:

– Despe-me, escrava.

Da posição em que estava foi fácil a Mariana puxar-lhe as calças pelas pernas abaixo, mas teve que se levantar para as ir pôr na mesma cruzeta em que já estava o casaco. Quando se voltou de novo viu que ele tinha ajeitado as cuecas e tinha o pénis de novo tapado – ou melhor, quase tapado, porque a ponta espreitava por cima do cós. Nem foi preciso ajoelhar-se para lhas tirar e para as lançar para o lado.

Estavam agora os dois nus, pele contra pele.

Por formalidade, por respeito, Mariana ainda se ajoelhou e ainda lhe aflorou com os lábios a ponta do pénis. Mas logo ergueu os olhos para ele; e havia no seu olhar uma tal súplica, uma súplica tão doce, que ele acenou a sua permissão – e ela, sem perder tempo, trepou por ele acima, cavalgou-lhe os joelhos e empalou-se nele duma só vez, até ao fundo, semicerrando os olhos e franzindo ao de leve o sobrolho num misto de concentração e dor.

(Publicado no Blogger a 26/08/07)

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E estava nesta galhofa quando a música, de repente, mudou. Vivaldi, As Quatro Estações. O Verão. Mariana pôs-se de pé num salto ágil e começou a caminhar em direcção a Ricardo em bicos de pés, em passinhos rápidos e a medo como se pisasse areia quente. Em vez do sorriso aberto e descarado de segundos antes, ostentava agora uma expressão de concentração, quase de dor; e naquele meio-andar, meio-correr, tremiam-lhe os seios.

A voz dos violinos era toda claridade e brilho. A um gesto de Mariana todas as luzes da sala se acenderam, um conjunto feérico de lâmpadas incandescentes, fluorescentes, de halogéneo, de luz negra; algumas tinham sido instaladas por Mariana – ou pelo menos assim pareceu a Ricardo – expressamente para aquele momento, de modo a fazer resplandecer tudo o que ali fosse branco. Sob a luz branca e forte, a própria tijoleira vermelha escura pareceu adquirir a cor de salmão clara que Ricardo recordava de uma certa casa no Algarve. Mariana, de frente para ele, colocava um pé diante do outro e abria os braços numa pose de equilibrista, e Ricardo viu-a de novo a caminhar sobre os seixos duros da praia que lhe resvalavam debaixo dos pés. Durante esse encontro tinha-a obrigado pela primeira vez a andar descalça em casa e na rua.

Durante o mesmo fim de semana Ricardo tinha ejaculado, pela primeira de muitas vezes, na boca de Mariana. Que também ela se recordava disto, mostrou-o ao ajoelhar-se (desta vez, porém, com as pernas escarranchadas, a exibir o sexo), formando um O com a boca e movendo a cabeça para trás e para diante ao som da música. Tinham sido dois dias com tantas coisas novas, tantas barreiras ultrapassadas… Lembrar-se-ia Mariana que nesse dia, antes de chupar o sexo do dono, lhe tinha beijado os pés? Sim, lembrava-se: Ricardo viu-a levantar-se, aproximar-se dele e ajoelhar-se de novo para repetir, com simulado constrangimento, um acto de submissão e homenagem que depois, com o tempo, se lhe tinha tornado natural.

A vontade de Ricardo, por esta altura, era agarrá-la pelos sovacos e forçá-la a erguer-se o suficiente para ele lhe poder enfiar o sexo na boca. O que o corpo lhe pedia não era que ficasse ali, molemente enterrado no sofá como um sultão saciado, mas sim que se lançasse como um tigre sobre a presa. Conteve-se, porém. Obrigou-se a ficar quieto enquanto Mariana agia, comandava, dirigia tudo. Quando ela se afastou de novo sem sequer lhe aflorar com os lábios a ponta do pénis, Ricardo quase gemeu de frustração; mas deixou-se estar respeitosamente sentado, espectador atento do acto de comemoração e homenagem que a sua escrava criara para ele e para si própria. Apenas os olhos lhe dançavam, competindo em vivacidade com a música que enchia a sala. As mãos, mal esboçavam um movimento em direcção àquele corpo que tão intensamente o tentava, logo se retraíam e uma voz dentro dele proibia:

– Não, ainda não; espera…

Ainda faltava muito para que Mariana dançasse toda a história do seu amor e da sua escravidão. Pois seja, pensou Ricardo. Vou aguentar até ao fim ainda que rebente de desejo.

Afinal não foi preciso esperar tanto. Mal se extinguiram os últimos acordes de Vivaldi, Mariana pegou no comando à distância e desligou a aparelhagem.

– Queres comer? Ou queres outra coisa?

– Anda cá, escrava – respondeu-lhe Ricardo. – Sabes muito bem o que eu quero.

Mariana correu para ele, risonha, ajoelhou-se-lhe aos pés e começou a desabotoar-lhe as calças.

– Ai sei, sei. Só se esta escrava fosse ceguinha é que não via esse volume dentro das calças do dono.

E começou a chupar-lhe o pénis: sem requintes, sem delongas, sem tentativas de prolongar o prazer, apenas com a preocupação de o fazer chegar ao climax o mais rapidamente possível. Mas o prazer de Ricardo não foi menos intenso por lhe ser ministrado de forma tão expedita: pelo contrário, manifestou-se num orgasmo que lhe veiodeveras das profundezas do corpo. Mariana engoliu tudo, continuou ainda por uns momentos a chupá-lo e a lambê-lo, levantou-se, e sugeriu-lhe que fosse tomar duche e vestir o roupão enquanto ela preparava alguma coisa de comer. Ao sair do quarto de banho, Ricardo viu que Mariana já não estava completamente nua: tinha posto um avental que a tapava à frente deixando ver os seios pelos lados, e por trás as nádegas roliças. Assim se manteve enquanto tomaram os dois uma refeição ligeira, ele sentado à mesa, ela de pé a a preparar e a servir a comida.

– Senta-te outra vez no sofá – disse-lhe ela no fim.

Ricardo ficou a vê-la enquanto ela levantava a mesa com a mesma eficiência e rapidez com que lhe tinha chupado o pénis; depois ouviu-a a cirandar na cozinha; e por fim viu-a voltar à sala.

– Agora, meu Senhor, vou continuar a dançar para ti. Posso?

– Dança, minha escrava.

Mariana tirou o avental. De novo toda nua, ligou a aparelhagem e o ar encheu-se das vozes esganiçadas de um coro de mulheres:

Também o mar é casado, ó ai,
………….Também o mar tem mulher.
………….É casado com a areia, ó ai,
………….Bate nela quando quer.

Era a Figueira da Foz, é claro. A noite que tinham passado no hotel, as palmadas nas nádegas que Ricardo tinha dado a Mariana e que tinham feito com que ela se desexcitasse – para se voltar a excitar logo a seguir com uma excitação nova e diferente, que nunca mais a tinha deixado… Mariana dançava com os braços no ar, rodopiava, corria, marcava o fim de cada verso com um bater do pé no chão. Mas sem aviso a música mudou, agora era Juliette Gréco a cantar Les Feuilles Mortes:

Mais la vie sépare ceux qui s’aiment,
………….Tout doucement, sans faire de bruit,
………….Et la mer éfface sur le sable
………….Les pas des amants desunis.

No embalo da música, Mariana ondeava os quadris, os ombros, os braços, e caminhava na direcção de Ricardo para logo refluir como o mar. Mas não por muito tempo, que não se queriam ali canções sobre amantes separados. A voz rouca de Gréco calou-se a meio da frase para ceder de novo o lugar às das varinas:

O mar enrola na areia,
………….Ninguém sabe o que ele diz.
………….Bate na areia e desmaia
………….Porque se sente feliz.

A desmaiar de felicidade sentia-se Ricardo, enquanto observava extasiado o voltear da amante, tão depressa junto dele a oferecer-se toda, como – subitamente esquiva – no canto oposto da sala. Esta liberdade que Mariana assumia, nos movimentos da dança, de se negar ao seu senhor e dono era pura ficção, que mais não fazia do que acentuar o facto, por assim dizer normal, de Ricardo a possuir e de ela ser possuída por ele. Um único gesto dele bastaria para que Mariana desligasse a música e se lançasse aos pés do amante, pronta a satisfazer-lhe o mínimo ou o mais exigente dos caprichos. Ambos sabiam isto muito bem, e porque o sabiam é que esta dança lhes parecia uma excursão para fora do mundo e das suas responsabilidades, um conto das Mil e Uma Noites contado e recontado ali bem perto, na Alhambra.

(Continua)

(Publicado no Blogger a 24/12/06)

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Eram oito da noite de sexta-feira e Mariana estava a pôr a mesa para Ricardo. Só para ele, porque hoje ia servi-lo sem participar na refeição como se fosse uma criada. Quanto a ela, já tinha comido: uma salada com cubos de queijo, pão torrado e um molho à base de iogurte magro.

Ricardo, calculava Mariana, devia estar neste momento a sair do seu gabinete em Heidelberg e a fazer-se à estrada num carro alugado, para estar com ela o mais cedo possível. Ia chegar cansado e sem jantar, depois de um dia de trabalho duro e de duas ou três horas a conduzir na Autobahn.

Não valia a pena cozinhar-lhe uma ceia completa, ele ficava sempre sem apetite quando viajava. Em vez disso Mariana preparou tostas, uma tábua de queijos e uma tacinha com framboesas e abriu uma garrafa de vinho, que deixou num aparador a respirar. A seguir dispôs velas aromáticas na sala, deixou a caixa de fósforos à mão, subiu a temperatura no termóstato, ligou o dispositivo de aquecer as toalhas na casa de banho e preparou os óleos para a massagem que tencionava dar ao amante se ele não se agarrasse logo a ela e não a arrastasse para a cama.

Tomou duche antes de tomar banho, como as gueixas; lavou a cabeça, enrolou o cabelo molhado numa toalha, meteu-se na banheira com sais aromáticos, enxugou-se, amaciou o corpo com um creme perfumado, secou e escovou o cabelo.

Tinha-se depilado toda de manhã. Quando o dono lhe ordenara que fizesse isto, tinha protestado, mas agora estava a gostar de se ver lisa como uma menina impúbere.

Pintou as unhas dos pés e das mãos com a mistura de vernizes de que ele gostava: metade transparente, um quarto cor de rosa pálido, um quarto branco-pérola. Vestiu-se e maquilhou-se como ele tinha dito que queria: saia comprida e rodada em tons de terra e laranja, semi-transparente, sem calcinhas; corpo nu da cinta para cima; cinto de fantasia; bijutaria profusa nos pés, nos pulsos, no pescoço, nas orelhas e sobre o peito; um pouco de rouge, muito pouco, na cara; baton cor de framboesa nos lábios e nos mamilos. Pôs umas chinelas, para usar até ao momento em que ele tocasse à campainha de baixo: Ia recebê-lo como ele tinha mandado, com os pés nus em sinal de respeito; mas também, em sinal do mesmo respeito, com eles limpos.

Quando a campainha tocou guardou as chinelas e foi-se pôr à porta do apartamento para ele não ter que esperar no patamar. Ao sentir-lhe os passos abriu-lhe a porta; lá vinha ele, arrastando o seu velho trolley de viagem azul. Na mão esquerda trazia um ramo de rosas vermelhas atadas com um fio de ráfia: devia ter-se picado nelas ao sair do carro ou ao tocar à campainha, porque trazia um arranhão entre o polegar e o indicador que ainda ressumava perolazinhas de sangue.

Mariana franqueou-lhe a entrada, fechou a porta atrás dele e, mal lhe dando tempo a pousar o trolley, lançou-se-lhe ao pescoço. Ricardo correspondeu apaixonadamente a este beijo, atrapalhado apenas por ter só um braço livre; com o outro mantinha afastado dela o ramo das rosas, para que não a picassem. Quando ele por fim lhe entregou o ramo Mariana levou-o ao nariz, aspirou-lhe o perfume, e ajoelhou com um gesto natural e gracioso para beijar a mão do amante.

– Anda para a sala. Tens fome?

– Não tenho muita…

Mas depois de tirar o casaco e de ir à casa de banho sentou-se à mesa. Mariana, ajoelhada, pousava a cabeça nas coxas dele beijava-lhe a mão quando ele a acariciava. Só se levantou uma vez, para lhe servir o vinho. Duas tostas, dois cubos de queijo, algumas framboesas que ele ia comendo ou dando a comer à amante, e meio copo de Barolo: a isto se resumiu a refeição de Ricardo.

– Estás cansado, meu querido.

– Um pouco. Preciso de tomar um duche.

– Senta-te no sofá, eu dispo-te.

Ricardo fechou os olhos e deixou-se despir como um menino ensonado. A meio do duche Mariana foi ter com ele para acabar de o ensaboar. No fim ajudou-o a secar e levou-o de novo para a sala.

– Deita-te no sofá. Vou dar-te uma massagem para te tirar essa tensão dos ombros.

– Se fizeres isso ainda adormeço aqui mesmo e depois não te sirvo para nada – respondeu ele com um sorriso.

– Não faz mal. Deita-te. Espera, vou pôr aí uma toalha.

Mariana tirou todos os ornamentos que trazia no corpo e pôs-se nua para ter mais liberdade de movimentos. À massagem que deu ao dono com as mãos acrescentou umas carícias com os seios e com o sexo depilado que o fizeram ronronar como um gato.

– Hmmm, tão bom…

A previsão que Ricardo tinha feito de adormecer não se cumpriu completamente. Terminada a massagem rolou do sofá para cima do tapete, pôs-se de barriga para cima, fechou os olhos e estendeu os braços como uma criança a pedir mimo:

– Vem cá, minha escrava…

Mariana trepou para cima dele, montou-o e começou a acariciar-lhe o pénis ainda flácido com a vulva acetinada e húmida. Ricardo sorriu, consolado:

– Tão bom…

A erecção que tinha tido lugar intermitentemente desde que Ricardo tinha entrado em casa de Mariana não tardou a estabelecer-se de novo com renovada pujança, e Mariana empalou-se nela com um suspiro de prazer.

Começou então uma noite memorável, com Mariana a movimentar vigorosamente os quadris, para cima e para baixo, para a frente e para trás, para os lados, em círculos, e com Ricardo a erguer-se ao encontro dela, mais fundo, mais fundo.

Por vezes ela inclinava-se toda para trás para conseguir o ângulo que mais a excitava, mas o pénis dele estava tão retesado que lhe doía ao ser vergado para baixo. Então puxava-a com força para si de modo a sentir-lhe os seios contra o peito; ela soprava como um gato assanhado mas obedecia, e deixava pender a cabeça para a frente de modo a poder acariciá-lo também com os cabelos.

Ricardo sentia o orgasmo quase a chegar mas, fosse pelo cansaço que sentia, fosse por estar por baixo, ou fosse ainda pela dor que Mariana lhe provocava quando se inclinava para trás, a excitação em que estava só crescia sem se resolver num desenlace. Por vezes o cansaço dos músculos levava-o a ficar passivo enquanto Mariana dançava por cima dele, mas logo o desejo, louco, o obrigava a acelerar e ampliar as estocadas que dava na amante.

Mariana veio-se. E veio-se outra vez. E veio-se outra e outra, tantas vezes que não as pôde contar, tantas vezes que a certa altura já não tinha orgasmos separados, tinha um único orgasmo que continuava e continuava e parecia nunca mais acabar.

Por fim – depois, quando olharam para o relógio, viram que passava das quatro da manhã – Ricardo deu um urro cavernoso, e num último, prodigioso arranque esvaiu-se todo dentro dela, que arquejava «dá-me, dá-me tudo» e se veio também pela última vez nessa noite.

Nem se lavaram. Conseguiram ir os dois, aos tropeções, da sala para o quarto, onde se deitaram em cima da cama e adormeceram imediatamente. Quando acordaram tinham, ele o pénis quase em carne viva, ela a vagina em idêntico estado, e no tapete sobre o qual tinham feito amor vieram a encontrar uma pequena mancha de sangue que nunca vieram a saber se era dele ou dela.

Mariana acordou tarde e viu o amante ainda adormecido ao seu lado. Durante a noite tinham arranjado maneira de puxar o edredon para cima deles, e ainda bem porque a casa estava um pouco fria. Começou preguiçosamente a dar pequenos beijinhos na cara de Ricardo e viu como mesmo a dormir o rosto dele se adoçava num ligeiro sorriso. Depois pousou a cabeça no travesseiro e deixou-se ficar numa deliciosa indolência até o ver acordar e espreguiçar-se.

Esta visão deu-lhe vontade, como que por contágio, de se espreguiçar também e de bocejar longamente.

– Tens fome, meu querido?

– Mais que fome, estou esfaimado. Se não me dás de comer, como-te a ti.

– Então deixa-me tomar duche primeiro, depois tomas tu enquanto eu te preparo o pequeno-almoço.

Ricardo ainda fechou os olhos por uns minutos. Depois levantou-se, vestiu o roupão, calçou os chinelos de quarto e dirigiu-se para a casa de banho, de onde Mariana estava a sair embrulhada numa toalha.

Ao enxugar-se – vigorosamente, como era seu costume – reparou que lhe doía ao esfregar o pénis com a toalha, apesar de esta ser invulgarmente fofa e macia. A pele estava muito vermelha e sensível. Tinham sido horas seguidas de fricção no corpo da amante, e ainda bem que ela estava depilada e macia, porque aquele tempo todo a roçá-lo com os pelos púbicos teria sido mais do que poderia aguentar.

Quando entrou na sala de roupão e chinelas, Mariana já estava vestida, com uma saia preta pelos tornozelos e uma blusa de seda branca. A mesa estava posta e da cozinha vinha um cheiro bom de café e torradas com manteiga.

– Senta-te. Vai bebendo o sumo, que eu já te trago o resto.

À porta da cozinha estavam umas chinelas.

– Vou calçar-me. A tijoleira da cozinha está muito fria. Posso?

– Sim, hoje podes, mas só na cozinha.

Um ruído de louça e talheres a remexer, um súbito aroma a ovos fritos a a bacon, e lá vinha Mariana com um cesto enorme de torradas.

– Vai comendo enquanto estão quentes.

Sentou-se em frente ao dono para beber o sumo de laranja e depois levantou-se, com uma torrada na mão para ir de novo à cozinha. Quando regressou trazia uma travessa de ovos mexidos com bacon e salsichas, e mais torradas. Pôs música a tocar no leitor de CD’s (a sonata de violino e piano «Primavera», de Beethoven), e sentou-se a comer. Por vezes dava-lhe na boca um pedacinho de torrada, ou ele a ela. Serviu muesli misturado com iogurte de cereja, que comeu com um apetite igual ao do amante. Por fim foi à cozinha buscar o café.

– Queres mais?

– Só se for mais café.

– Então vou buscá-lo quente, não bebas esse.

Ficaram mais de meia hora à mesa, a beber café, a pegar nas mãos um do outro e a conversar de coisas sem importância. Quando viram as horas era quase uma da tarde.

– Ai… Ainda vou ter que arrumar isto tudo…

– Eu ajudo-te.

– Não, vai-te vestir.

Ricardo vestiu as suas calças de bombazina cor de mel e uma camisa de flanela aos quadrados, com uma T-shirt por baixo. Não demorou muito a vestir-se e a calçar as peúgas: ainda teve tempo de arrumar a sala e o quarto e fazer a cama enquanto Mariana terminava de lavar a louça e limpar a cozinha.

De tarde foram passear em Brugges, ao longo dos canais. Pararam em frente ao edifício gótico da Câmara Municipal, viram as montras nas ruas centrais, fizeram algumas compras num supermercado. O Equinócio da Primavera já tinha passado, a hora tinha mudado, os dias estavam mais longos e estava sol, mas não se demoraram na rua: depois de lancharem numa confeitaria voltaram para o apartamento de Mariana, onde ficaram sentados a ouvir música e a conversar enquanto lhes apeteceu.

– Daqui a pouco vou fazer o jantar – disse Mariana, abraçando o amante e dando-lhe um beijo. – Queres tomar alguma coisa antes?

– Sim, meu amor. Tens um whisky?

– Já to vou dar. Deixa-te estar sentado.

Mas em vez de se dirigir para o armário das bebidas Mariana meteu-se no quarto, de onde emergiu uns minutos depois com um vestido que Ricardo não lhe conhecia: cintado, preso aos ombros por alças, com uma saia pelos tornozelos muito rodada, e todo às riscas verticais em vários tons de rosa. Na sua versão original devia ter um forro, mas era fácil de ver que Mariana o tinha tirado e que não trazia nada por baixo.

– Gostas do meu traje de escrava?

– Muito. Vestiste-o para me servires o whisky?

– O whisky e não só. Mas espera, primeiro vou-te calçar os chinelos.

Os chinelos de Ricardo estavam no armário da entrada. Mariana foi-os buscar, ajoelhou-se e descalçou o dono, beijando-lhe cada um dos pés depois de tirar a respectiva peúga e antes de lhe pôr o chinelo. Concluída esta tarefa pôs música no leitor de CD’s – Shepherd Moons, da cantora irlandesa Enya – trouxe um tabuleiro que enganchava no sofá, e sobre este pôs um naperon, um copo de cristal e um cinzeiro.

– Um cinzeiro? – admirou-se Ricardo

– Sim. Hoje vais fumar. E não discutas.

A seguir tirou duma gaveta um estojo de cabedal para dois charutos, uma caixa de fósforos e um aparelho de cortar as pontas, e pousou tudo no tabuleiro ao lado de Ricardo. O estojo continha dois Cohibas.

– Não tinhas mais em que gastar o teu dinheiro? – ralhou Ricardo.

Mariana riu-se, foi ao armário das bebidas, tirou uma garrafa de whisky por abrir e mostrou o rótulo ao amante

Cigar? – disse ele. – Não conhecia essa marca.

– Na loja disseram-me que era muito bom. E que era o ideal para acompanhar um bom havano.

Ricardo riu-se e preparou-se para abrir a garrafa, mas a amante deteve-o:

– Não. Tu não fazes nada. Eu sirvo.

Obediente, Ricardo recostou-se no sofá e ficou a contemplar com um olhar de ternura a sua escrava que se esforçava, ajoelhada, por abrir a garrafa. Depois de o ter conseguido deitou no copo dois dedos de whisky, cortou as pontas a um dos charutos, meteu-o na boca e acendeu-o, rolando-o entre os dedos como tinha visto o dono fazer. Ricardo viu-a sugar as bochechas para dentro para puxar o fumo, exactamente como fazia qundo lhe chupava o sexo, e com um brilho nos olhos acariciou-lhe o cabelo.

Levadas a bom termo todas estas tarefas Mariana sentou-se no chão aos pés de Ricardo e começou a contar-lhe todos os pormenores da sua mais recente exposição. De vez em quando levantava-se, animada, e ia buscar um quadro que se tinha esquecido de lhe mostar antes, ou fotografias de outros quadros, que lhe ia dispondo sobre os joelhos para ele ver. Entusiasmada, explicava-lhe as novas técnicas que tinha aprendido desde a última visita: as tintas, os betumes, os vernizes, as areias coloridas, as espátulas, os pincéis, as folhas e as bagas recolhidas no bosque e coladas na tela.

Ao esmorecer da conversa Ricardo inclinou-se para a frente, segurou-lhe o queixo e beijou-a ternamente nos lábios.

– Agora vou-te possuir, minha escrava.

– Sim…

Mariana num instante se pôs nua, o vestido saía pela cabeça e ela não trazia mais nada sobre o corpo.

– Deita-te aqui no sofá – disse Ricardo. Quando a viu deitada ajoelhou-se sobre o tapete, debruçou-se sobre ela e começou a cobri-la de beijos, começando nos ombros, subindo ao pescoço, aos olhos, às orelhas e à comissura dos lábios, e descendo aos seios. Por longos minutos não fex mais nada além de lhe lamber e chupar os mamilos enquanto lhe insinuava a mão entre as coxas. Mariana começou logo a abrir um pouco as pernas, ou melhor, as pernas abriam-se-lhe por si próprias, sem que ela sequer o notasse. Sem pressa nenhuma Ricardo foi descendo com os lábios ao longo do corpo dela, às vezes voltando para cima em direcção aos seios e ao pescoço, mas indo sempre um pouco mais abaixo de cada vez que descia. Meteu-lhe a língua no umbigo, beijou-lhe os flancos do sovaco à anca, explorando-lhe com a língua os espaços entre as costelas, e ao lamber-lhe o monte de Vénus depilado sentenciou:

– Sim, estás mesmo macia, com a língua é que se nota…

… e depois, cruelmente, começou de novo a subir-lhe pelo corpo acima.

Se a boca que Mariana tinha entre as pernas tivesse voz, teria gritado de frustração. Mas não por muito tempo, porque de repente Ricardo afastou-lhe as coxas com as mãos e beijou-lhe o sexo como se lhe beijasse a boca, para logo moderar este ímpeto e começar a procurar-lhe com os lábios e a língua todas as dobras e minúsculas refegas. A língua procurava, dardejante, o botão do amor, para logo o abandonar e tentar insinuar-se no interior da vagina ou para lamber todo o comprimento da vulva.

Quando começou a chupar-lhe o clítoris mais vigorosamente, como se o quisesse sugar e engolir, ouviu-a dizer:

– Meu senhor… Posso-me vir?…

Ricardo nunca tinha imposto a Mariana que pedisse autorização para ter orgasmo e agora ela própria, sem que ele entendesse bem porquê, inaugurava esta regra.

– Não, minha escrava, não podes.

Mas continuou a beijá-la até já não poder distinguir se os sons que ela fazia eram de prazer ou de sofrimento. Por fim, cansado, parou, e começou a percorrer com os lábios e a língua o caminho oposto ao que tinha feito antes até lhe chegar de novo à boca, que beijou, enleando a língua na dela apaixonadamente. Só então se levantou, devagar, mantendo a boca unida á dela e esperando até ao último segundo para a largar.

– Espera um pouco – disse, e dirigiu-se para o quarto.

Saiu de lá pouco depois, competemente nu, e trazia na mão uma fita vermelha que Mariana reconheceu imediatamente: era a prenda que ela lhe tinha dado por ocasião dum encontro anterior, também em Brugges.

– Dá cá as mãos.

Mariana estendeu-lhe as mãos com os pulsos cruzados. Ricardo atou-as rapidamente com uma ponta da fita, mandou-a esperar, foi ao trolley buscar a máquina fotográfica e começou a ordenar-lhe que assumisse poses: de joelhos, posternada, exibindo as marcas e as equimoses da vergasta, de pé, com os braços erguidos, mostrando os pulsos amarrados… Mariana acedia a tudo, obediente, meiga, apaixonada. Ricardo apercebeu-se nela dum estado de espírito invulgar: um dengue, uma excitação, um roçar-se por ele como que por acaso, uma intensidade, uma atenção ardente ao momento vivido…

– Não me deixaste ter orgasmo… Meu amor…

Isto disse Mariana a certa altura, baixando os olhos, num momento em acabava de se ajoelhar e mostrava à objectiva os pulsos atados. E Ricardo sentia nela, por baixo da mansidão e da obediência, o fogo larvar dum desejo que se satisfazia na insatisfação.

Quando acabou de a fotografar, não a desamarrou: mandou-a deitar de costas no tapete e amarrou a outra ponta da fita de seda ao cano do aquecimento, no ponto em que este saía do chão. Estendido sobre ela sem lhe fazer peso, voltou a beijá-la e começou a percorrer-lhe o corpo com as mãos numa carícia firme como se faz aos animais.

– Meu senhor…

– Diz.

– Vais possuir-me?

– Vou, sim, minha escrava.

– Queria pedir-te…

Ricardo apertou-lhe o seio esquerdo e chupou-lhe o mamilo antes de a encorajar a continuar:

– Querias pedir-me…

– Queria pedir-te que fosses meigo. Estou tão dorida de ontem…

Ricardo deu uma risada:

– Vou ser meigo, sim. Até porque eu também estou dorido, tenho tudo em carne viva…

Mariana já tinha as pernas abertas: Ricardo penetrou-a numa carícia longa e, sem chegar a ir até ao fundo, começou a mover dentro dela a ponta do pénis, beijando-a ao mesmo tempo profusamente nos lábios e nos seios. Com as mãos amarradas, Mariana não o conseguia abraçar, por isso o envolvia com as coxas, acariciando-lhe com os calcanhares a barriga das pernas e a parte de trás dos joelhos.

– E desta vez posso vir-me, meu senhor?

– Não, minha escrava, não podes. Ocupa-te só do meu prazer.

No gemido que Mariana soltou misturava-se um imenso lamento com um prazer novo, um prazer que ela não conhecia. Começou a mover as ancas e a tentar controlar os músculos da vagina de maneira a apertar e a chupar o sexo do amante, a dar-lhe o parzer que ele lhe exigia e ao qual tinha obviamente todo o direito, a erguer os seios de encontro ao peito dele para o acariciar brandamente, até que o sentiu acelerar os movimentos e ejacular dentro dela com um gemido que parecia, também ele, um lamento.

Admirou-se por não sentir frustração nem ressentimento por não ter gozado, mas sim uma enorme vontade de continuar a servir. «Serei na verdade assim tão fêmea e tão escrava?», pensou; e quando o dono rolou de cima dela para o chão começou a chegar-se para ele, a acariciá-lo com as pernas e com os pés, já que tinha as mãos amarradas. Todo o corpo dela era movimento, e todos os seus movimentos iam no sentido de se chegar ao dono, de o acariciar, de lhe suplicar um toque ou uma palavra. Lembrou-se de ter dito uma vez a Ricardo que ele a tinha «desligado»; pois bem, agora estava «ligada», com toda a sua energia de fêmea apaixonada a fluir-lhe no corpo e todos os sistemas a funcionar em alerta máximo.

– Desamarra-me, meu senhor…

Assim que Ricardo a desamarrou Mariana começou a fazer-lhe festas e beijá-lo por todo o corpo

– Estou tão louca… Não me deixaste ter orgasmo, e estou tão louca…

– É, estou intrigado com uma coisa… Porque é que me pediste autorização? Eu por mim era capaz de nunca me ter lembrado de to proibir– disse Ricardo..

– Não sei o que é que me deu. Disseste-me muitas vezes que uma escrava não tem direito ao prazer, se calhar foi por isso.

– Disse, e tu concordaste. Mas fizeste bem em lembrar-me … De hoje em diante tens que pedir sempre autorização.

Mariana revirou os olhos e fez uma careta, logo desmentida pela grinalda de beijos com que cobriu o peito do amante:

– Oh, não, o que é que eu fui dizer! – exclamou, numa aflição fingida. – O que pode uma pobre escrava fazer para servir o seu senhor, se ele até até a proíbe de se vir?

– Uma pobre escrava, não sei, mas se esta rica escrava que aqui está está assim tão empenhada em servir o seu senhor, pode muito bem ir para a cozinha, por exemplo, e fazer o jantar para ele, que está cheio de fome…

Mariana, a rir-se, começou a bater com os seus pequenos punhos no peito de Ricardo

– Cafajeste… sem vergonha… Escravidão é escravidão, não é?!

– Pois é… – disse Ricardo.

E quando viu Mariana levantar-se quase de um salto, vestir o roupão, entregar-lhe o dele e dirigir-se à cozinha, acrescentou:

– E descalça, se fazes favor. Não quero cá essa história de tijoleira fria, como de manhã. Lugar de fêmea é descalça na cozinha.

Mariana deteve-se o tempo suficiente para lhe deitar a língua de fora, mas afastou com o pé as chinelas que estavam no chão à saída da sala.

De dentro da cozinha levantou a voz:

– Tenho aqui Quiche Lorraine, é só pôr no micro-ondas. Queres?

– Pode ser, gosto bem de quiche. E o vinho de ontem ainda deve estar bom, era uma pena deitar fora uma garrafa quase inteira.

Ao pôr a mesa, ao servir o jantar, durante a refeição, Mariana continuou a exibir o comportamento que tanto intrigava e encantava Ricardo. A todas as oportunidades havia um seio a roçar um braço, ou então apenas um sorriso, um suspiro, um baixar de olhos, um rubor…

– Anda cá, escrava.

– Para quê?

– Anda cá. Levanta a saia.

Quando Mariana chegou junto dele Ricardo introduziu-lhe a mão entre as coxas.

– Estás toda molhada…

– Pois estou… Não me deixaste vir, patife…

– Não estás bem?

– Estou bem, estás farto de saber que estou mesmo muito bem… Não sei como é que isto me pode dar tanto prazer… Mas se daqui a pouco eu entrar em combustão espontânea, já sabes porque foi. Nunca te devia ter pedido autorização.

– É… Pela boca morre o peixe… Mas não te preocupes: amanhã não vai acontecer o mesmo porque vais ter castigo em vez de sexo.

– Está bem… Podes castigar-me, mas também quero sexo.

– Também, o quê?

– Eu sei, não tenho quereres. Vou dizer doutra maneira: também gostava que o meu senhor possuísse a sua escrava. Está bem assim?

– Melhor. Mas ao castigar-te também estou a possuir-te, não te esqueças. Em todo o caso, o castigo amanhã é por ser o nosso último dia. Quero deixar-te marcas que durem até ao próximo encontro.

– Sim, meu querido, também quero ficar marcada. Mas para as marcas nunca desaparecerem o melhor era eu fazer uma tatuagem…

– E hás-de fazê-la, com as minhas iniciais.

Antes de responder, Mariana bebeu um gole de vinho.

– Hmmm, isso deixa-me louca… Louca para ser possuída outra vez pelo meu senhor…

– Primeiro vamos acabar de jantar. E desconfio que mesmo depois disso vais ter um bocado de trabalho para me provocar outra erecção.

O jantar foi rápido, e Mariana arrumou a cozinha num instante. Quando regressou à sala encontrou Ricardo sentado no sofá. Sem hesitação nem preliminares ajoelhou-se no tapete à frente dele, afastou-lhe para os lados as abas do robe e tomou-lhe o sexo na boca. Assim que sentiu bem rijo, atirou o roupão para cima do sofá deitou-se de costas no tapete:

– Anda…

Entre o momento em que saiu da boca da amante e o momento em que se colocou entre as coxas dela em posição de a penetrar, Ricardo quase perdeu a erecção: Mariana teve que o chupar de novo para que ele finalmente lhe penetrasse a vagina – com o pénis um pouco flácido, mas que uma vez dentro dela recuperou a rigidez dos embates anteriores. Estavam ambos bastante doridos, mas mesmo assim Ricardo possuiu Mariana sem hesitação ou demora, indo e vindo nela até que a viu ficar vermelha: primeiro a cara e depois o pescoço, o peito e os seios. Viu-a abrir a boca como se fosse gritar, ouviu-lhe a rápida e forte inalação de ar, cavalgou-lhe o frenesim urgente dos quadris e finalmente assistiu, empolgado, ao gozo da sua escrava: um orgasmo sumptuoso, uma convulsão sísmica que lhe soltou todas as energias acumuladas no corpo e na alma desde que ele a tinha mandado deitar no sofá duas horas antes.

O dia seguinte amanheceu com bom tempo. Algumas nuvens, poucas, juntavam-se ocasionalmente e faziam chover umas raras gotas de água. Ricardo e Mariana foram passear para junto do canal e dos moinhos de vento: ele de calças castanhas com vinco, pullover cor de mel, casaco de cabedal castanho escuro e chapéu de feltro, ela de saia comprida, blusa de seda e casaquinho vermelho. Almoçaram num pavilhão com vista para o canal, conversando sobre o fim de semana que projectavam passar em Paris quando o tempo estivesse um pouco mais quente.

Lá fora a relva estava húmida e muito verde.

– Apetecia-me descalçar-me e correr nesta relva – disse Mariana.

– E a mim apetecia-me mandar-te descalçar.

– Mas não posso, estou de collants e não posso tirá-los diante de toda a gente.

– De collants?! Na presença do teu dono?! Vais mas é já ao quarto de banho para os tirar, e de castigo não voltas a calçar-te hoje.

Mariana ainda alegou o frio, o incómodo, as pessoas à volta; mas acabou por obedecer, um pouco embaraçada no princípio, mas pouco tempo depois corria o jardim descalça com a singeleza impudente duma criança à solta. Ricardo não voltou a permitir-lhe que se calçasse nem no jardim, nem no caminho de casa. E se no jardim o espectáculo duma senhora bem vestida mas de pés nus pareceu banal a quem o viu, o mesmo não se passou percurso que mais tarde fizeram de braço dado nas ruas cheias de gente. Mas o garbo altivo de Ricardo desarmava os olhares e, comunicando-se a Mariana, convertia-lhe o pejo em euforia.

Jantaram pelo caminho. Quando entrou em casa Mariana levava os pés gelados. Mas antes de ir tomar um duche quente ainda se apresentou diante de Ricardo com uma bacia de água quente para lhe lavar os pés cansados, lhe calçar os chinelos, lhe servir uma bebida e lhe acender um charuto.

Depois de tomar duche não se vestiu, envolveu-se em véus transparentes e dançou para ele, tirando-os um a um.

Ricardo assistia beberricando o seu whisky e puxando uma fumaça ocasional. Só os olhos a rir denotavam a atenção com que seguia todos os movimentos da sua amada.

– Vem cá.

– Sim, mas ainda me deves um castigo – disse Mariana.

E Ricardo viu que sem ele notar ela tinha ido ao quarto buscar a vergasta vermelha e lha tinha posto ao alcance da mão.

(Publicado no Blogger a 20/09/06)

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– Terias que ser minha escrava – disse ele.

Dúnia não hesitou:

– Sempre fui tua escrava…

No outro extremo da ligação telefónica fez-se um longo silêncio. Por fim ouviu-se a voz dele, mais grave, e com um laivo de ternura (ou seria respeito?) que Dúnia nunca lhe tinha ouvido antes:

– Dás-te conta do que estás a dizer? Sabes o que implica ser escrava de um homem como eu?

Tudo o que Dúnia sabia era que o adorava como a um Deus, que já tinha sofrido muito por ele e que estava disposta a sofrer muito mais, contanto que ele nunca a deixasse: não era isso ser escrava? Mas reuniu forças para responder:

– Não sei… Mas não me importo, faz de mim o que quiseres.

Então ele explicou-lhe: era ele ter todos os direitos sobre ela e ela nenhuns sobre ele – nem sequer sobre si própria; era estar sempre disponível para ele, com todas as aberturas do seu corpo; era contentar-se com qualquer migalha de amor que ele lhe atirasse; era obedecer-lhe em tudo – não só no que lhe desse prazer a ela, mas também, e principalmente, no que mais lhe custasse fazer e no que mais lhe parecesse arbitrário e sem sentido; era estar pronta a ser punida quando lhe desagradasse e a não ser recompensada quando lhe agradasse; e era sobretudo nunca mais se pertencer a si própria.

– Só terás um direito: o de deixares de ser minha escrava quando quiseres.

Dúnia ouviu isto tudo sem verdadeiramente ouvir, aturdida por uma sensação de volúpia que a fazia como que dissolver-se nas palavras pausadas que lhe chegavam pelo telefone e das quais se destacava, como um farol no nevoeiro, a palavra amor. A palavra amor na voz dele.

– Compreendes bem o que eu te estou a dizer, Dúnia?

– Sim, compreendo…

– E consentes em tudo?

– Sim…

– Então diz: sim, meu senhor.

Foi a vez de Dúnia fazer um longo silêncio. Se esta exigência lhe era tão doce, porque é que lhe custava tanto obedecer-lhe? Por fim conseguiu dizer:

– Sim, meu senhor.

Teve medo que ele não tivesse ouvido o murmúrio final, e que a mandasse repetir tudo. Mas não, ele nada lhe exigiu, parecia aguardar que ela continuasse a falar. Dúnia respirou fundo e acrescentou:

– Vamo-nos encontrar? Meu Senhor.

– Sim, estou aí dentro de hora e meia ou duas horas, depende do trânsito. Espera por mim de saia ou vestido, não te quero ver de calças. Sem nada por baixo. E descalça.

Dúnia admirou-se:

-Descalça porquê?

– Porque eu to ordeno – respondeu ele com um sorriso na voz. – Não chega?

E logo, num tom mais sério, sem lhe dar tempo a responder:

– Por três razões: porque eu to ordeno, porque uma mulher descalça é sempre bela, e porque os pés nus são um símbolo de submissão muito antigo, e que me diz muito. Espera-me descalça, é importante.

Mal desligou, Dúnia pôs-se a preparar tudo. Só hora e meia! Talvez nem isso: de Heidelberg, onde ele vivia, a Freiburg, onde vivia ela, pelas auto-estradas alemãs, leva-se uma hora no máximo. Mas talvez ele precisasse de tempo para se arranjar, e com isso lhe desse oportunidade de arrumar a casa, comprar flores, velas e comida, preparar o jantar, lavar-se, perfumar-se, vestir-se, enfeitar-se…

Uma hora e meia depois Dúnia tinha tudo pronto e estava à espera, vestida com uma saia larga de algodão castanho que lhe dava pelo tornozelo, com um top de alças de côr alaranjada e calçada com umas chinelas havaianas enfeitadas com missangas de cores quentes – certamente era isso que ele tinha querido dizer quando lhe tinha ordenado que o esperasse descalça, não era? Não tinha que ser descalça mesmo, com certeza, e as chinelas eram tão lindas…

A campainha da porta sobressaltou-a. Pegou no intercomunicador. Era ele.

– Sobe.

Com o coração a bater descompassado, Dúnia abriu a porta do apartamento, que deixou encostada, e pôs-se à espera, atenta ao barulho do elevador. Sentiu-o arrancar e depois parar, arrancar de novo. Estava a subir! No momento em que ouviu o som das portas a abrir-se pensou em correr até ao quarto e descalçar-se. Porque é que não se tinha descalçado? Agora não havia tempo, ele estava aí, estava à porta. Recuou para a sombra, para onde ele não a visse logo.

Sentiu-o mexer na porta:

– Está aberta, entra!

Ele entrou. Trazia um pequeno saco que devia trazer uma muda de roupa e alguns artigos de toilette. Estava mais magro? Sim, estava mais magro. Ela é que tinha engordado: de repente sentiu-se uma matrona balofa e pesada à beira dele, e ao ver que ele a olhava de cima a baixo sentiu-se ruborizar.

– Estás mais bonita, Dúnia.

Mais bonita, ela? Com aqueles pneus? Como podia ele achá-la bonita? Mas antes que tivesse tempo de se convencer completamente que estava feiíssima, ouviu-o dizer:

– Desobedeceste-me. Tinha-te dito que me esperasses descalça.

– Era mesmo preciso? Estou praticamente descalça. Não são bonitas estas chinelas? – e lançou-lhe os braços ao pescoço para o beijar.

Ele abraçou-a e retribuiu-lhe o beijo: ao princípio com ternura, depois, logo a seguir, com avidez e paixão. Era este, então, o sabor da boca dele! Dúnia tinha esperado tão longamente por estes braços, por esta boca, e agora bebia dela, insaciável. Colada contra ele, sentiu-lhe a erecção mesmo através do sobretudo grosso. «Ele deseja-me!» E abraçou-se a ele com mais força.

Mas cedo, demasiado cedo, sentiu que ele a afastava e pousava a sacola no chão.

– Ajoelha-te.

As mãos dele nos ombros dela confirmavam a ordem. Um pouco contrafeita, ajoelhou-se no chão do hall de entrada, sobre o tapete; para que ele não lhe visse a cara virou a cabeça para o lado e para baixo e apertou a face esquerda contra o corpo dele, só para lhe sentir a dureza do pénis por baixo da roupa.

– Beija-me a mão.

Beijar-lhe a mão? Não era assim que Dúnia tinha imaginado este primeiro encontro, mas não lhe custou obedecer. Ser escrava era isto? Não era muito difícil, pelo contrário. As mãos dele eram bonitas, delicadas, com dedos finos, quase de mulher – mas quando a agarraram pelos braços para a pôr de pé, a força que exerceram era a dum homem.

Depois de a apertar contra si e de a beijar de novo, ele pediu-lhe que lhe indicasse a casa de banho. Era à direita do hall. A porta a seguir dava para a cozinha, e passada esta estava-se na sala. Dúnia pegou-lho no sobretudo, no chapéu, nas luvas e no cachecol e pendurou tudo no armário da entrada.

A mesa na sala já estava posta com dois lugares.

– Queres beber alguma coisa, meu querido?

Ele sentou-se no sofá.

– Quero, minha escrava – respondeu ele. – Traz-me um copo de água. Tenho sede.

E quando ela, meio atordoada pela naturalidade com que ele lhe tinha chamado escrava, se começava a afastar em direcção à cozinha, acresentou:

– E descalça-te para mo servires.

Era mesmo verdade, então, que ele a queria descalça. Depois de deixar as chinelas no quarto, Dúnia foi à cozinha para deitar água num copo. Depois levou-o para a sala e ia entregar-lho, mas ele não lhe pegou.

– Serve-me de joelhos. Quando me servires alguma coisa deves fazê-lo sempre de joelhos.

Desta vez Dúnia não achou tão estranho ajoelhar-se diante dele, talvez porque nessa posição lhe era mais fácil entregar-lhe o copo. À medida que bebia a água em pequenos goles ele acariciava-lhe os cabelos. Ela, na posição em que estava, não podia mais do que beijar-lhe as mãos. Às vezes tentava soerguer-se para o beijar na boca, mas ele não lho consentia: em vez disso inclinava-se ele e, puxando-a pelos cabelos, punha-lhe o rosto a jeito para a beijar.

Conversaram assim durante algum tempo, ele sentado no sofá, ela de joelhos diante dele, beijando-lhe as mãos e ouvindo as regras por que de futuro se regeria. Estava calor, Dúnia tinha posto o aquecimento no máximo: a meio da conversa ele teve que despir o pullover para ficar em mangas de camisa.

Durante o jantar Dúnia experimentou pedir-lhe que lhe permitisse calçar-se, o que ele recusou tranquilamente mas com firmeza. No fim da refeição ela pôs a tocar um CD de Loreena McKennit que ele lhe tinha oferecido meses antes pelos anos, quando ainda eram apenas bons amigos; e enquanto ele o ouvia sentado no sofá ela levantou a mesa e arrumoun rapidamente a cozinha. Por fim foi ajoelhar-se aos pés dele (sem que ele lho ordenasse, desta vez) e recomeçou a beijar-lhe as mãos. Desta vez, porém, ele não se mostrou tão esquivo: não só não a proibiu de se levantar como a puxou para cima, beijando-lhe a boca e metendo-lhe a mão no decote para lhe rolar os mamilos entre os dedos. Os seios estavam nus por baixo do top, tal como ele tinha ordenado. Os dedos dele apertavam-lhe os mamilos com força, fazendo-lhe doer: como teria ele adivinhado que era isso que ela queria?

Também as nádegas estavam nuas por baixo da saia, como a mão exploradora dele não tardou muito a confirmar. Quando sentiu a mão dele a tocá-la no sexo húmido, ela quis-lhe desapertar as calças: ele consentiu mas obrigou-a a continuar de joelhos. Tinha o pénis um pouco curto mas bastante grosso, curvado para cima, e circuncidado.

– Posso beijá-lo? – perguntou Dúnia.

– Sim, mas pede como deve ser.

– Posso beijá-lo, meu Senhor?

– Começa por beijá-lo, sim. Depois vou ensinar-te a lambê-lo e a chupá-lo a meu gosto: aprende bem, porque tenciono possuir-te muitas vezes pela boca. Mas primeiro põe-te nua.

Dúnia era suficientemente pudica para nunca ter tirado a parte de cima do bikini na praia, porém não tanto que nunca nenhum namorado a tivesse visto nua. Mas nunca assim, nunca como lhe estava agora a ser exigido: o normal, para ela, era ir descartandoa roupa à medida que as carícias iam progredindo, ou então despir-se sozinha na casa de banho e dar meia dúzias de passos apressados para a cama, cobrindo-se logo com os lençóis. Despir-se assim, na sala, pelas suas próprias mãos, perante um homem sentado e vestido que não parava de olhar para ela com um pequeno sorriso indecifrável – isso ela nunca o tinha feito. Tinha mesmo que ser?

– Tem mesmo que ser, minha escrava. Quero que te dispas para mim.

Dúnia deu um suspiro, pôs os olhos no chão para ele não a ver ruborizar e tirou o top, ficando com os seios à mostra. Tinha os mamilos rosados e as aréolas muito claras. Lentamente, sentindo os olhos dele postos nela, dobrou o top e colocou-o sobre uma das cadeiras da sala.

– Anda cá, Dúnia…

Ainda de olhos baixos, aproximou-se dele, que lhe pôas as mãos nos ombros, a fez ajoelhar e começou a beijá-la na boca, acariciando-lhe os seios ao mesmo tempo.

– Continua…

Levantou-se para tirar a saia, mas antes que o fizesse ele deteve-a:

– Primeiro solta os cabelos.

Dúnia começou a tirar um por um os ganchos e alfinetes que lhe prendiam o cabelo e a pousá-los na mesinha baixa ao lado do sofá. Os seios nus oscilavam a cada movimento. Dúnia queria virar-se de costas para os esconder, mas o olhar dele prendia-a. À medida que o cabelo se lhe espalhava pelos ombros também o rubor se lhe espalhava pelo rosto e pelo peito sardento.

– Já está…

– Agora o resto – disse ele.

Dúnia desatou a fita com que a saia se apertava e tirou-a por baixo, equlibrando-se ora num pé, ora noutro. Dobrou a saia à frente do corpo, adiando assim o momento em que ele lhe veria o fundo do ventre. Quando teve de se virar para pousar a saia na cadeira sentiu os olhos dele como uma queimadura sobre as nádegas brancas e redondas. Sem tirar os olhos do chão virou-se de novo para ele com as mãos a tapar o sexo.

– Agora despe-me a mim.

Dúnia inclinou-se sobre ele para lhe desabotoar e despir a camisa. Ele sorriu-lhe, beijou-a ao de leve e ordenou-lhe:

– Beija-me os mamilos.

Dúnia não sabia que os homens também gostavam de ser beijados nos mamilos, nenhum dos seus namorados anteriores lho tinha alguma vez pedido; mas aplicou-se com prazer nesta tarefa até ele lhe ordenar que continuasse a despi-lo. Ajoelhou-se, e ia desapertar-lhe o cinto quando ele lhe segurou os pulsos, a beijou, e disse:

– Não, minha escrava, assim não. Primeiro os sapatos.

Era inverno lá fora, e nevava. As botas almofadadas de camurça preta eram difíceis de tirar, tal como as grossas peúgas verdes, iguais às usadas pelo exército suíço. Dúnia teve que fazer força. Depois soergueu-se para lhe desapertar o cinto e puxar as calças para baixo. Por fim, as cuecas, molhadas à frente, junto ao elástico, pelo líquido que a excitação dele produzira.

– Beija-o agora, escrava.

Lentamente, humildemente, com a palavra escrava a ecoar-lhe nos ouvidos, Dúnia inclinou a cabeça em direcção ao sexo erecto do seu Senhor. Sabia que mais tarde ele a acompanharia ao quarto e se deitaria com ela na cama limpa e perfumada, já preparada para os receber; mas neste momento tudo o que queria era ficar assim a servi-lo, eternamente de joelhos.

(Publicado a 03/08/06)

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Me perdoe
Se o quadradismo de meus versos
Vai de encontro aos intelectos
Que não usam coração
Como expressão
.

Vinícius de Moraes

kn-11-lA verdadeira história de Mariana e Miguel só começou vinte anos depois de Marta e ele se terem conhecido em Coimbra, onde frequentavam o mesmo curso na Universidade.

Nesse tempo tanto um como outro tinham outros amores. Ao de Marta tinham-lhe os pais, professores de Grego no liceu, posto o nome de Ulisses. Era um jovem atlético, musculoso, com lábios sensuais e longas pestanas, que impunha a todos os lugares em que se encontrasse uma presença carnal e morna. A pele era macia e acetinada, e tinha uma cor de pão ligeiramente torrado; e numa época em que quase todos os rapazes usavam barbas e bigodes, Ulisses apresentava-se perfeitamente escanhoado, a sombra azul da barba misturada com o corado saudável da face. Tinha sempre raparigas à sua volta; e a robustez física de que fazia alarde alargava-se – pelo menos a acreditar nas confidências que ele próprio fazia, indiscriminadamente, a amigos e amigas, – à firmeza e às dimensões do membro viril.

E contudo havia alguma coisa de ambíguo, de demasiado óbvio, na sua virilidade. Uma parte de Marta achava-o demasiadamente belo, demasiadamente sensual e seguro de si; e muitos anos mais tarde havia de dizer a Miguel, numa noite de insónia e reminiscência: “Sim, o Ulisses era bonito; mas olha que tu também eras; já nessa altura eras um bonito homem.”

Depois de Coimbra, Marta tinha mantido contacto com Ulisses durante o tempo suficiente para assistir à sua decadência física e moral; mas Miguel, que nunca mais o tinha visto, lembrava-se apenas do jovem que podia ter servido de modelo a Louis David. Marta achava isto um disparate; mas Miguel achava Ulisses parecido com o guerreiro nu, em primeiro plano no quadro, que segurava um dardo nas pontas dos dedos, delicadamente, como se o sangue e o suor da guerra, a paixão das mulheres, lhe fossem de todo alheias.

Ulisses era, além do mais, requintado; e era-o mais do que convém quando se tem vinte anos. Sabia escolher um vinho, um filme, uma mulher, e nunca lhe faltava a palavra certa para exprimir o seu desdém pelas imperfeições dos outros; fossem estas de inteligência, de maneiras, de gosto, ou – as mais imperdoáveis – de beleza física. As farpas que atirava tinham por alvo os ingénuos, os mal vestidos, os desajeitados, os feios; e lançava-as com a leveza de quem não dá importância às feridas que provoca, mas só à elegância do lançamento.

A relação de Marta com Ulisses não durou muito tempo, nem deixou nela marcas profundas. Marta nunca chegou a ter grandes ilusões acerca do namorado, e cedo se apercebeu dos seus defeitos maiores: vaidade, superficialidade, preguiça, hedonismo. Quanto a ela, só o seu sentido de humor e a sua ausência de vaidade lhe permitiram suportar por algum tempo a displicência com que ele a tratava. Falta de vaidade, porém, não implica falta de dignidade ou de amor-próprio, e o namoro acabou por se esgotar sem ruído e sem recriminações, por desinteresse recíproco.

Diferente era a relação de Miguel com a Lena: uma paixão escancarada pelas ruelas da Alta. Quem os conhecia conhecia-os juntos, a Lena e o Miguel. Lena – como de resto também Miguel – era uma estrela menor no pequeno firmamento da Faculdade: se não pela beleza, como Ulisses, pelo êxito académico e pela panache intelectual.

Nem Miguel nem Marta eram promíscuos por natureza, e não se sentiam especialmente atraídos pela ideia de trair os respectivos parceiros. Mas a época era avessa a compromissos sentimentais; e nos meios em que se moviam a liberdade de costumes era uma forma indispensável de afirmação política, e só o ciume era tabu. Miguel tinha com Lena longas conversas a este respeito, das quais concluíam sempre que nenhum dos dois tinha o direito de usufruir do outro em exclusivo. Quanto a Marta, não precisou de discutir o assunto com Ulisses: bastou-lhe assistir à sucessão de casos em que ele se foi envolvendo, quase semana a semana, enquanto mantinha a sua ligação com ela.

Enquanto Lena e Ulisses se espalhavam pelo mundo no exercício da sua liberdade, Marta e Miguel ficavam entregues a si mesmos, e cada vez mais um ao outro. Estudavam juntos, conversavam, passeavam, e um dia, inevitavelmente, naturalmente, sem se interrogarem demasiado sobre o sentimento que os unia, foram para a cama juntos. Depois fizeram-no outra vez, e outra; e apesar de os seus encontros nunca terem passado de esporádicos, foi nessa altura que começaram a conhecer-se e talvez a amar-se.

Entretanto terminaram os cursos. Começaram a trabalhar. Viajaram. Depois, cada um para seu lado, casaram; encontraram-se ainda algumas vezes, e acabaram por se perder de vista.

Quando voltaram a encontrar-se – para um almoço, uma reunião de curso convocada por um antigo condiscípulo – tinham já filhos crescidos; e no momento em que se viram todo o seu passado desabou de súbito sobre eles: tanto o que realmente fora como, e não com menos peso, o que poderia ter sido. É de espantar que ao sentarem-se à mesa lado a lado, e só poderia ter sido lado a lado, não tivesse saltado entre os dois uma chispa de paixão, ofuscando os restantes convivas. Nesse dia trocaram endereços.

Mais tarde encontraram-se, em Coimbra. Era no Verão. Marta levava um vestido decotado, todo às flores, e Miguel pensou que ela não trazia soutien. Almoçaram frugalmente num restaurante perto da Universidade e foram sentar-se no jardim da Sereia, num banco entre as árvores. Falaram do passado, da profissão, das famílias, dos filhos. Tocaram-se nas mãos, olharam-se nos olhos. Depois desceu sobre eles um silêncio: não de embaraço, mas de expectativa. O Verão ia muito seco, mas dentro do jardim as árvores estavam carregadas de sombras e a fonte barroca desfazia-se sob os líquenes que lhe comiam a pedra. O banco de madeira começava a decompor-se; e tudo ressumava a mesma humidade, discreta como um choro contido.

“Agora vou-te beijar,” disse Miguel, de súbito.

Assim que ele a abraçou, sem hesitação nem timidez, Marta reconheceu-lhe o toque das mãos; e era o mesmo de há vinte anos, leve como o de quem não põe limites à ternura, ou firme e assertivo, como quem naturalmente se assenhoreia do que é seu.

Abraçaram-se até doer, beijando-se no banco do jardim como um par de jovens namorados. Beijos na boca, prolongados ou breves, copiosos, nos olhos, na face, nos lábios: como se na eternidade deste momento nada mais fosse necessário para os contentar do que estes abraços e estes beijos. Beijos em grinalda, disseram, quando foi preciso dizer alguma coisa. Beijos em cascata. Depois foram passear para o Jardim Botânico, que não é longe, e que também é poiso de namorados; e aí, sentados noutro banco, falaram dos seus amores de juventude: de como já nessa altura a sua primeira fome era sempre de beijos, de como a sua intimidade era entremeada de ficções e fantasias.

“Uma das coisas que me lembro mais vezes são as histórias que tu me contavas,” disse Marta. “Tantas histórias. E eu fascinada a ouvir-te. Raparigas orientais, sultões e haréns, sedas, perfumes…”

“Histórias de senhores e escravas, se bem me lembro. E essas coisas, sabes, ainda hoje me dizem muito.

”Eu sei,” disse Marta, e abraçou-se de novo a ele. Tinham sido jovens naquele tempo, e agora que voltavam a encontrar-se o que tinham diante de si era o começo da velhice.

Depois, num impulso, quiseram ir à praia. Uma das propensões que ambos conservavam desde a juventude era a de adoradores do sol – capazes, já no princípio dos anos setenta, quando em Portugal ainda não se falava de nudismo como prática viável, de caminhar quilómetros ao longo da costa para exporem o corpo todo aos raios solares. Tanto um como o outro sentiam, sem que o soubessem exprimir ou disso fizessem grande caso, que qualquer vestuário que se use, por reduzido que seja, nos domínios do sol, do mar e do vento, profana sempre qualquer coisa de sagrado.

Meteram-se no carro e foram para a Figueira da Foz. Durante o trajecto Mariana não parou de tocar em Miguel, de lhe pegar na mão ou, se ele se soltava para conduzir, de lhe acariciar o joelho e a coxa. Atravessaram a cidade sem parar, subiram a serra da Boa-Viagem, e no caminho encontraram uma vereda que levava à praia. Só à chegada se deram conta de uma dificuldade: no porta-bagagens havia uma toalha esquecida, mas nem um nem outro tinham trazido fato de banho. Tiveram por isso que caminhar por muito tempo sobre a areia mole até encontrarem um recanto onde pudessem ficar à vontade. Marta estendeu-se ao sol, vestida apenas com as suas cuequinhas brancas de renda, e Miguel, que ao princípio conservara os shorts de algodão, acabou depois por tirá-los e ficar nu. Conversaram e beijaram-se, tomaram-se do sol, e acariciaram-se; mas não fizeram amor – a não ser que já esteja a fazer amor quem mata uma fome antiga de beijos e carícias. Não tinha sido ainda para isso que se tinham encontrado: não precisaram de palavras para o saber.

O caminho de regresso pela areia mole deixou-os exaustos. Quando estavam quase a chegar à vereda que os havia de levar ao carro Miguel deu por falta dos sapatos e teve de voltar atrás por eles. Não tinham levado nem uma garrafa de água: quando voltaram ao carro aquecido pelo sol estavam desidratados; e quando quiseram rir-se de si mesmos e da sua pequena aventura no deserto, a voz e o riso sairam-lhes da garganta como um murmúrio ressequido.

Num café à beira da estrada beberam água a grandes goles e os corpos, hidratados, puderam de novo produzir a necessária porção de suor e lágrimas e saliva. Agora podiam falar, e talvez ocasionalmente, conforme as palavras ditas, ver nos olhos um do outro um ressumar de lágrimas. Foi a partir desse momento que souberam com certeza absoluta que no encontro seguinte se iam tornar amantes.

E com efeito: mais tarde, quando a época balnear já tinha passado, passaram um fim de semana na praia. Não tiveram dificuldade em alugar um apartamento com vista para o mar. De manhã e ao fim da tarde já fazia frio, e a maior parte das lojas e cafés estavam fechados. As horas de sol passavam-nas na areia, na praia mais deserta que puderam encontrar. Desta vez tinham trazido fatos de banho mas o adiantado da época permitiu-lhes ficar nus, abrigados numa reentrância da areia. Nunca pararam de se beijar, como se com esta infinita sucessão de beijos pudessem recuperar o tempo que tinham passado longe um do outro. É por vezes assim que se mitiga o choro no peito antes que chegue aos olhos: talvez proviesse daí o sufoco, a vertigem, o esvaimento desses beijos.

Comeram iogurtes, fruta e sanduiches, que Marta preparou na altura. Numa garrafa traziam a água que lhes serviu para beber e para lavar as mãos. Enlaçaram-se em cima da toalha, ele por cima, penetrando-a com alguma dificuldade enquanto lhe beijava a boca; e entremearam as carícias com risos e gracejos, exorcisando o desconforto do lugar, a areia que se insinuava por todos o lados, a possibilidade de serem surpreendidos por algum passante inocente ou voyeur experimentado, e exibindo um ao outro, com alguma melancolia, as marcas que a idade já lhes ia deixando nos corpos.

No apartamento tomaram duche um de cada vez, pudicamente. Marta vestiu o seu roupão de cetim branco e calçou uns chinelos do mesmo tecido. Depois de comerem ficaram algum tempo à conversa diante do televisor. Deitaram-se como um casal com anos de convívio, ela em camisa de noite, os chinelos arrumados ao lado da cama, ele em pijama às riscas. O visível prazer que encontravam nesta pacatez partilhada despertou-lhes de novo o riso: os dois namorados aventurosos que se tinham enlaçado na praia deserta revelavam-se afinal dois velhos amantes ciosos do seu conforto. “Meu amor quarentão,” dizia Marta. “Meu amante serôdio.”

Depois abraçaram-se, colaram a boca um à do outro, e começaram mais uma das intermináveis séries de beijos de que nunca, mesmo anos depois, haviam de se cansar. Das bocas e das faces os beijos passaram aos corpos. A camisa de noite de Marta tinha botões à frente; Miguel abriu-os para lhe beijar os seios. Os mamilos eram de um cor-de-rosa escuro e tinham a falsa transparência das framboesas que ela lhe tinha servido de tarde, na praia. As mãos dele percorriam-lhe o corpo, devassando-lhe os seios, as coxas e as nádegas com a mesma liberdade insolente de havia vinte anos.

Quando a camisa de noite se tornou um empecilho Marta tirou-a por sobre a cabeça. Depois foi a vez das roupas dele; e quando se encontraram os dois despidos puxaram os lençóis de novo para cima, num estranho acesso de pudor; como se não tivessem estado também nus na praia, poucas horas antes, à vista de quem passasse. E também esta inconsistência lhes foi ocasião de riso: riam-se de si próprios, das suas fragilidades, das histórias absurdas que inventavam a propósito dos incidentes do dia.

Debaixo das roupas da cama Miguel inclinou-se sobre ela. Marta enterneceu-se quando ele a cobriu com o lençol, como que para a proteger da devassa dos seus próprios olhos. Sob a carícia dele sentiu que as coxas se lhe começavam a afastar como se tivessem vontade própria; mas durante muito tempo tudo o que ele fez foi beijá-la, de novo na boca e nos seios, mas agora também nas coxas e no ventre e por fim, deliciosamente, no sexo. Timidamente, aflorou-lhe ela também com os lábios a ponta do pénis, como lhe tinha feito apenas uma vez no tempo dos seus amores juvenis; mas Miguel, concentrado em beijá-la, mal pareceu aperceber-se de como ela lhe retribuía a carícia.

Marta começou a mover-lhe os lábios ao longo do sexo, a explorar-lhe a glande com a ponta da língua. À medida que a sua própria excitação progredia ia-se sentindo mais afoita, e queria ouvi-lo gemer como ela própria não se conseguia impedir de o fazer. Finalmente sentiu-o reagir: da cabeça que se lhe aninhava entre as coxas subiu-lhe até aos ouvidos um gemido que lhe pareceu meio de prazer, meio de protesto, e aquele beijo dele, tão sábio e tão firme, transformou-se numa carícia vaga e trôpega, como se a boca com que lhe explorava as dobras do sexo tivesse perdido o norte, embriagada, distraída.

Subitamente Miguel estendeu-se por cima dela e procurou-lhe a boca. Marta não tinha muita vontade de provar nos lábios do amante os sabores do seu próprio corpo; mas não teve tempo nem presença de espírito para recusar o beijo que ele lhe pedia, agora que lhe sentia o falo erecto e urgente às portas da vagina, penetrando-a de um movimento só. Miguel estava apoiado sobre os cotovelos e sorria-lhe; por vezes baixava a cabeça para lhe beijar a boca, ou desviava-lhe o cabelo dos olhos e da face, desejoso de a olhar. Quando quis penetrá-la mais fundo, passou-lhe os braços por detrás dos joelhos e ergueu-lhos quase até aos ombros, batendo o ventre contra o dela, trás, trás, trás, com um ruído seco de palmadas. E depois, quando precisou de descansar os braços e se lhe deitou todo estendido sobre o corpo suado, o ruído dos embates mudou, platch, platch, platch, como quem bate com a mão aberta num pano encharcado.

De repente Miguel saiu de dentro dela. “Anda tu por cima, agora.”

Por um minuto Marta gozou a sensação de ter o amante imobilizado; mas depois também teve prazer no movimento que ele começou a fazer para cima com os quadris, num vai-vem que era amplo e vigoroso e contudo não lhe retirava a ela o domínio dos seus próprios movimentos. Sentiu que ele a puxava para si, mas libertou-se-lhe do abraço e foi-se levantando a pouco e pouco até ficar sentada sobre ele.

O que Marta mais desejava neste momento era inclinar-se toda para trás, vergando para baixo o pénis do amante de modo a senti-lo duro e firme no ponto exacto em que o queria. Mas viu-lhe o trejeito de dor, ouviu-lhe o “não” murmurado e sentiu-lhe as mãos na cintura, puxando-a, impedindo-a de se inclinar mais para trás do que já estava; e para se compensar desta limitação redobrou a rapidez e o vigor com que o cavalgava, mais rápido, mais forte, mais fundo.

E Miguel, o que sentia ele? Antes de mais uma dor, o pénis erecto demais, repuxado para baixo como um ramo de árvore prestes a quebrar-se; mas sentia também, nos quadris, uma vontade urgente de soltar o corpo e o ventre até que se tornassem independentes da mente e da vontade; e finalmente, nas mais duras e mais fundas raízes do corpo, os chamamentos de um orgasmo que se lhe anunciava do lado de lá da dor e do desconforto. Da dor que o obstruía, que se lhe antepunha, que era preciso que terminasse. E o que ele ouvia eram os suspiros e os arquejos de Marta, e os seus próprios, os sons dos corpos batendo um no outro, as palavras desconexas, meu amor, minha querida, assim, assim é bom. E também os carros na rua, as ondas no mar, o vento nas janelas, e tudo isto se integrava, por uma alquimia inexplicável, nos sons do amor e do prazer.

Mas o que Miguel via, o que ele via nesta hora prodigiosa, era uma imagem de beleza absoluta: sentada sobre ele, cavalgando-o como uma amazona furiosa, a cintura fina, o ventre liso, os seios juvenis raiados de veias azuladas, Marta tinha inclinado para trás a cabeça. Os cabelos negros, desgrenhados como os de uma feiticeira, combinavam-se com o preto das sobrancelhas e das pestanas para lhe endurecer os traços do rosto, e era um rosto de índia, de matriarca; um totem, uma máscara africana. E via-lhe ainda, maravilhado, a boca meio aberta num ricto de sofrimento; os olhos fechados num esforço de concentração; os dois vincos fundos, como parêntesis, dos dois lados da boca; o rubor que lhe tingia as faces e o pescoço do mesmo cor-de-rosa escuro dos mamilos.

Do pescoço sobressaía-lhe o cordame reteso dos tendões e das veias. Miguel teve a certeza de que nunca em toda a história do mundo uma mulher tinha sido tão perfeitamente bela como Marta no momento do prazer; e viu na imagem que tinha diante dos olhos a justificação da sua própria existência neste momento. A dor que o desexcitava, a certeza de estar cada vez mais longe do orgasmo que o corpo há tão longos minutos lhe pedia, nada disso tinha importância comparado com a contemplação que desejaria eterna deste corpo, destes seios, deste rosto de deusa agonizante. Quis largar-lhe a cintura, deixá-la inclinar-se para trás à sua vontade; mas não conseguiu, não era possível, a dor ia acabar por torná-lo flácido, tão incapaz de ter prazer como de o dar à amante. Para se manter erecto abraçou-a; depois puxou-a para si até lhe sentir os seios sobre o peito e rolou para cima dela sem a largar.

Marta não teve orgasmo; teve-o Miguel, tanto mais intenso quanto mais difícil e mais dolorosamente perseguido. Os primeiros gemidos com que o prazer dele se anunciou pareceram de aflição aos ouvidos de Marta; mas o que se lhes seguiu foi um rugido, um grito exultante como ela nunca tinha ouvido a nenhum outro homem com quem tivesse feito amor; e no momento em que ele se lhe desfez em sémen dentro da vagina também a respiração se lhe desfez num riso solto, meu amor meu amor minha querida, uma girândola festiva de beijos e palavras e suspiros: e Marta viu naquele orgasmo dele, tão solto e confiante, tão bonito, tão mais de mulher que de homem, uma dádiva e uma entrega.

Por vezes o melhor é quando dois amantes se reencontram na cama, frescos do duche, lassos do amor, para conversar enquanto o sono não vem. A conversa de travesseiro serviu para falarem de amor, o que na circunstância queria dizer falar de sexo: o que cada um já tinha feito, o que gostaria ou não se importaria de fazer um dia, o que não faria de maneira nenhuma. E foi também durante esta conversa que ficaram delineadas as primeiras das ficções com que ao longo do tempo haviam de se explicar um ao outro: trovador e castelã, édipo e esfinge, cavaleiro e rainha, chefe bárbaro e princesa cativa; e ainda guru e feiticeira, dois velhos mirrados, meio bruxos, procurando conchas numa praia tropical; mas também desde já, e sobretudo, e sempre, Senhor e escrava.

Mas não foi ainda desta vez que inventaram Mariana. Adormeceram falando, que é o mais delicioso dos adormecimentos para amantes apaixonados. Acordaram a meio da noite para que os corpos se unissem de novo; e quando ela se deitou por cima dele na escuridão, beijando-o ternamente, deixando que os cabelos lhe caissem sobre o rosto, a imagem que Miguel teve dela foi a de horas antes, plantada sobre ele, majestosa, totémica, agonizante de esforço. Como se uma árvore poderosa, a Árvore do Mundo, Yggdrasil, estivesse misturando as suas raízes com as dele.

“Sim, minha rainha. Minha deusa. Goza. Goza muito. Goza tudo. Se soubesses como és bela no prazer!” E ao dizer isto sentiu um choro que não era de amargura avolumar-se-lhe no peito, porque as meras palavras não podiam fazer ver à amante a completa verdade da visão que o dominava. Durante todo o tempo não cessou de lhe murmurar palavras de amor e homenagem, deusa, castelã, rainha.

Marta ouvia-lhe estas palavras mais com o coração do que com os ouvidos, que lhe iam ficando surdos aos meros ruídos do mundo; e embora elas lhe enchessem o peito de um éter subtil que a embriagava; e lhe fizessem correr o sangue com mais força, e lhe endoidassem os quadris, não a distraíram tanto que a não deixassem ver a fragilidade exposta com que o amante neste momento se lhe mostrava.

Ninguém tem o direito de se entregar assim a alguém, pensou, eu agora se quisesse podia magoá-lo terrivelmente, podia destruí-lo. E comparou-o com os animais, os gatos e os cães que temos em casa para nosso prazer e companhia. Os animais, esses, olham para nós sem saber que está nas nossas mãos alimentá-los ou bater-lhes, acarinhá-los ou abandoná-los; mas uma pessoa, um ser humano, tem o dever de saber tudo isso, e de se precaver. Foi por isso com um laivo de irritação, mas também com a mais escrupulosa doçura, que Marta possuiu o corpo de Miguel, naquela noite em que se debruçou sobre ele, cobrindo-o todo com os seios e os cabelos.

“Dá-me, dá-me tudo,” disse-lhe, abraçando-o com força. Miguel abriu muito os olhos, encheu o peito com uma golfada de ar, e soltou um longo gemido que a ela lhe soou tão aflito como exultante; e Marta sentiu a ejaculação que a inundava. Mas desta vez o orgasmo maior, o climax de espanto e maravilha, foi o dela, gritado ao mundo sem cuidar que atravessasse paredes, despertasse pássaros, alarmasse vizinhos.

Quando Miguel a beijou encontrou-lhe o rosto molhado. Acendeu a luz, alarmado, e viu que chorava, um choro discreto que lhe corria pelo o rosto sem lho deformar. Os olhos não lhos viu vermelhos, nem as feições distorcidas, apenas um pequeno sorriso entre lágrimas. Sentiu que ela lhe escondia a cara no ombro, molhando-lho também, e tremendo um pouco. Depois o tremor passou. Miguel abraçou-a com força, sem falar, e pôs-se a entristecer ao lado dela, até que o sono os consolou, e o sol da manhã os alegrou de novo.

(Publicado no Blogger a 18/12/05)

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E estava nesta galhofa quando a música, de repente, mudou. Vivaldi, As Quatro Estações. O Verão. Mariana pôs-se de pé num salto ágil e começou a caminhar em direcção a Ricardo em bicos de pés, em passinhos rápidos e a medo como se pisasse areia quente. Em vez do sorriso aberto e descarado de segundos antes, ostentava agora uma expressão de concentração, quase de dor; e naquele meio-andar, meio-correr, tremiam-lhe os seios.

A voz dos violinos era toda claridade e brilho. A um gesto de Mariana todas as luzes da sala se acenderam, um conjunto feérico de lâmpadas incandescentes, fluorescentes, de halogéneo, de luz negra; algumas tinham sido instaladas por Mariana – ou pelo menos assim pareceu a Ricardo – expressamente para aquele momento, de modo a fazer resplandecer tudo o que ali fosse branco. Sob a luz branca e forte, a própria tijoleira vermelha escura pareceu adquirir a cor de salmão clara que Ricardo recordava de uma certa casa no Algarve. Mariana, de frente para ele, colocava um pé diante do outro e abria os braços numa pose de equilibrista, e Ricardo viu-a de novo a caminhar sobre os seixos duros da praia que lhe resvalavam debaixo dos pés. Durante esse encontro tinha-a obrigado pela primeira vez a andar descalça em casa e na rua.

Durante o mesmo fim de semana Ricardo tinha ejaculado, pela primeira de muitas vezes, na boca de Mariana. Que também ela se recordava disto, mostrou-o ao ajoelhar-se (desta vez, porém, com as pernas escarranchadas, a exibir o sexo), formando um O com a boca e movendo a cabeça para trás e para diante ao som da música. Tinham sido dois dias com tantas coisas novas, tantas barreiras ultrapassadas… Lembrar-se-ia Mariana que nesse dia, antes de chupar o sexo do dono, lhe tinha beijado os pés? Sim, lembrava-se: Ricardo viu-a levantar-se, aproximar-se dele e ajoelhar-se de novo para repetir, com simulado constrangimento, um acto de submissão e homenagem que depois, com o tempo, se lhe tinha tornado natural.

A vontade de Ricardo, por esta altura, era agarrá-la pelos sovacos e forçá-la a erguer-se o suficiente para ele lhe poder enfiar o sexo na boca. O que o corpo lhe pedia não era que ficasse ali, molemente enterrado no sofá como um sultão saciado, mas sim que se lançasse como um tigre sobre a presa. Conteve-se, porém. Obrigou-se a ficar quieto enquanto Mariana agia, comandava, dirigia tudo. Quando ela se afastou de novo sem sequer lhe aflorar com os lábios a ponta do pénis, Ricardo quase gemeu de frustração; mas deixou-se estar respeitosamente sentado, espectador atento do acto de comemoração e homenagem que a sua escrava criara para ele e para si própria. Apenas os olhos lhe dançavam, competindo em vivacidade com a música que enchia a sala. As mãos, mal esboçavam um movimento em direcção àquele corpo que tão intensamente o tentava, logo se retraíam e uma voz dentro dele proibia:

– Não, ainda não; espera…

Ainda faltava muito para que Mariana dançasse toda a história do seu amor e da sua escravidão. Pois seja, pensou Ricardo. Vou aguentar até ao fim ainda que rebente de desejo.

Afinal não foi preciso esperar tanto. Mal se extinguiram os últimos acordes de Vivaldi, Mariana pegou no comando à distância e desligou a aparelhagem.

– Queres comer? Ou queres outra coisa?

– Anda cá, escrava – respondeu-lhe Ricardo. – Sabes muito bem o que eu quero.

Mariana correu para ele, risonha, ajoelhou-se-lhe aos pés e começou a desabotoar-lhe as calças.

– Ai sei, sei. Só se esta escrava fosse ceguinha é que não via esse volume dentro das calças do dono.

E começou a chupar-lhe o pénis: sem requintes, sem delongas, sem tentativas de prolongar o prazer, apenas com a preocupação de o fazer chegar ao climax o mais rapidamente possível. Mas o prazer de Ricardo não foi menos intenso por lhe ser ministrado de forma tão expedita: pelo contrário, manifestou-se num orgasmo que lhe veiodeveras das profundezas do corpo. Mariana engoliu tudo, continuou ainda por uns momentos a chupá-lo e a lambê-lo, levantou-se, e sugeriu-lhe que fosse tomar duche e vestir o roupão enquanto ela preparava alguma coisa de comer. Ao sair do quarto de banho, Ricardo viu que Mariana já não estava completamente nua: tinha posto um avental que a tapava à frente deixando ver os seios pelos lados, e por trás as nádegas roliças. Assim se manteve enquanto tomaram os dois uma refeição ligeira, ele sentado à mesa, ela de pé a a preparar e a servir a comida.

– Senta-te outra vez no sofá – disse-lhe ela no fim.

Ricardo ficou a vê-la enquanto ela levantava a mesa com a mesma eficiência e rapidez com que lhe tinha chupado o pénis; depois ouviu-a a cirandar na cozinha; e por fim viu-a voltar à sala.

– Agora, meu Senhor, vou continuar a dançar para ti. Posso?

– Dança, minha escrava.

Mariana tirou o avental. De novo toda nua, ligou a aparelhagem e o ar encheu-se das vozes esganiçadas de um coro de mulheres:

Também o mar é casado, ó ai,
…………Também o mar tem mulher.
…………É casado com a areia, ó ai,
…………Bate nela quando quer.

Era a Figueira da Foz, é claro. A noite que tinham passado no hotel, as palmadas nas nádegas que Ricardo tinha dado a Mariana e que tinham feito com que ela se desexcitasse – para se voltar a excitar logo a seguir com uma excitação nova e diferente, que nunca mais a tinha deixado… Mariana dançava com os braços no ar, rodopiava, corria, marcava o fim de cada verso com um bater do pé no chão. Mas sem aviso a música mudou, agora era Juliette Gréco a cantar Les Feuilles Mortes:

Mais la vie sépare ceux qui s’aiment,
…………Tout doucement, sans faire de bruit,
…………Et la mer éfface sur le sable
…………Les pas des amants desunis.

No embalo da música, Mariana ondeava os quadris, os ombros, os braços, e caminhava na direcção de Ricardo para logo refluir como o mar. Mas não por muito tempo, que não se queriam ali canções sobre amantes separados. A voz rouca de Gréco calou-se a meio da frase para ceder de novo o lugar às das varinas:

O mar enrola na areia,
…………Ninguém sabe o que ele diz.
…………Bate na areia e desmaia
…………Porque se sente feliz.

A desmaiar de felicidade sentia-se Ricardo, enquanto observava extasiado o voltear da amante, tão depressa junto dele a oferecer-se toda, como – subitamente esquiva – no canto oposto da sala. Esta liberdade que Mariana assumia, nos movimentos da dança, de se negar ao seu senhor e dono era pura ficção, que mais não fazia do que acentuar o facto, por assim dizer normal, de Ricardo a possuir e de ela ser possuída por ele. Um único gesto dele bastaria para que Mariana desligasse a música e se lançasse aos pés do amante, pronta a satisfazer-lhe o mínimo ou o mais exigente dos caprichos. Ambos sabiam isto muito bem, e porque o sabiam é que esta dança lhes parecia uma excursão para fora do mundo e das suas responsabilidades, um conto das Mil e Uma Noites contado e recontado ali bem perto, na Alhambra.

(Continua)

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Eram oito da noite de sexta-feira e Mariana estava a pôr a mesa para Ricardo. Só para ele, porque hoje ia servi-lo sem participar na refeição como se fosse uma criada. Quanto a ela, já tinha comido: uma salada com cubos de queijo, pão torrado e um molho à base de iogurte magro.

Ricardo, calculava Mariana, devia estar neste momento a sair do seu gabinete em Heidelberg e a fazer-se à estrada num carro alugado, para estar com ela o mais cedo possível. Ia chegar cansado e sem jantar, depois de um dia de trabalho duro e de duas ou três horas a conduzir na Autobahn.

Não valia a pena cozinhar-lhe uma ceia completa, ele ficava sempre sem apetite quando viajava. Em vez disso Mariana preparou tostas, uma tábua de queijos e uma tacinha com framboesas e abriu uma garrafa de vinho, que deixou num aparador a respirar. A seguir dispôs velas aromáticas na sala, deixou a caixa de fósforos à mão, subiu a temperatura no termóstato, ligou o dispositivo de aquecer as toalhas na casa de banho e preparou os óleos para a massagem que tencionava dar ao amante se ele não se agarrasse logo a ela e não a arrastasse para a cama.

Tomou duche antes de tomar banho, como as gueixas; lavou a cabeça, enrolou o cabelo molhado numa toalha, meteu-se na banheira com sais aromáticos, enxugou-se, amaciou o corpo com um creme perfumado, secou e escovou o cabelo.

Tinha-se depilado toda de manhã. Quando o dono lhe ordenara que fizesse isto, tinha protestado, mas agora estava a gostar de se ver lisa como uma menina impúbere.

Pintou as unhas dos pés e das mãos com a mistura de vernizes de que ele gostava: metade transparente, um quarto cor de rosa pálido, um quarto branco-pérola. Vestiu-se e maquilhou-se como ele tinha dito que queria: saia comprida e rodada em tons de terra e laranja, semi-transparente, sem calcinhas; corpo nu da cinta para cima; cinto de fantasia; bijutaria profusa nos pés, nos pulsos, no pescoço, nas orelhas e sobre o peito; um pouco de rouge, muito pouco, na cara; baton cor de framboesa nos lábios e nos mamilos. Pôs umas chinelas, para usar até ao momento em que ele tocasse à campainha de baixo: Ia recebê-lo como ele tinha mandado, com os pés nus em sinal de respeito; mas também, em sinal do mesmo respeito, com eles limpos.

Quando a campainha tocou guardou as chinelas e foi-se pôr à porta do apartamento para ele não ter que esperar no patamar. Ao sentir-lhe os passos abriu-lhe a porta; lá vinha ele, arrastando o seu velho trolley de viagem azul. Na mão esquerda trazia um ramo de rosas vermelhas atadas com um fio de ráfia: devia ter-se picado nelas ao sair do carro ou ao tocar à campainha, porque trazia um arranhão entre o polegar e o indicador que ainda ressumava perolazinhas de sangue.

Mariana franqueou-lhe a entrada, fechou a porta atrás dele e, mal lhe dando tempo a pousar o trolley, lançou-se-lhe ao pescoço. Ricardo correspondeu apaixonadamente a este beijo, atrapalhado apenas por ter só um braço livre; com o outro mantinha afastado dela o ramo das rosas, para que não a picassem. Quando ele por fim lhe entregou o ramo Mariana levou-o ao nariz, aspirou-lhe o perfume, e ajoelhou com um gesto natural e gracioso para beijar a mão do amante.

– Anda para a sala. Tens fome?

– Não tenho muita…

Mas depois de tirar o casaco e de ir à casa de banho sentou-se à mesa. Mariana, ajoelhada, pousava a cabeça nas coxas dele beijava-lhe a mão quando ele a acariciava. Só se levantou uma vez, para lhe servir o vinho. Duas tostas, dois cubos de queijo, algumas framboesas que ele ia comendo ou dando a comer à amante, e meio copo de Barolo: a isto se resumiu a refeição de Ricardo.

– Estás cansado, meu querido.

– Um pouco. Preciso de tomar um duche.

– Senta-te no sofá, eu dispo-te.

Ricardo fechou os olhos e deixou-se despir como um menino ensonado. A meio do duche Mariana foi ter com ele para acabar de o ensaboar. No fim ajudou-o a secar e levou-o de novo para a sala.

– Deita-te no sofá. Vou dar-te uma massagem para te tirar essa tensão dos ombros.

– Se fizeres isso ainda adormeço aqui mesmo e depois não te sirvo para nada – respondeu ele com um sorriso.

– Não faz mal. Deita-te. Espera, vou pôr aí uma toalha.

Mariana tirou todos os ornamentos que trazia no corpo e pôs-se nua para ter mais liberdade de movimentos. À massagem que deu ao dono com as mãos acrescentou umas carícias com os seios e com o sexo depilado que o fizeram ronronar como um gato.

– Hmmm, tão bom…

A previsão que Ricardo tinha feito de adormecer não se cumpriu completamente. Terminada a massagem rolou do sofá para cima do tapete, pôs-se de barriga para cima, fechou os olhos e estendeu os braços como uma criança a pedir mimo:

– Vem cá, minha escrava…

Mariana trepou para cima dele, montou-o e começou a acariciar-lhe o pénis ainda flácido com a vulva acetinada e húmida. Ricardo sorriu, consolado:

– Tão bom…

A erecção que tinha tido lugar intermitentemente desde que Ricardo tinha entrado em casa de Mariana não tardou a estabelecer-se de novo com renovada pujança, e Mariana empalou-se nela com um suspiro de prazer.

Começou então uma noite memorável, com Mariana a movimentar vigorosamente os quadris, para cima e para baixo, para a frente e para trás, para os lados, em círculos, e com Ricardo a erguer-se ao encontro dela, mais fundo, mais fundo.

Por vezes ela inclinava-se toda para trás para conseguir o ângulo que mais a excitava, mas o pénis dele estava tão retesado que lhe doía ao ser vergado para baixo. Então puxava-a com força para si de modo a sentir-lhe os seios contra o peito; ela soprava como um gato assanhado mas obedecia, e deixava pender a cabeça para a frente de modo a poder acariciá-lo também com os cabelos.

Ricardo sentia o orgasmo quase a chegar mas, fosse pelo cansaço que sentia, fosse por estar por baixo, ou fosse ainda pela dor que Mariana lhe provocava quando se inclinava para trás, a excitação em que estava só crescia sem se resolver num desenlace. Por vezes o cansaço dos músculos levava-o a ficar passivo enquanto Mariana dançava por cima dele, mas logo o desejo, louco, o obrigava a acelerar e ampliar as estocadas que dava na amante.

Mariana veio-se. E veio-se outra vez. E veio-se outra e outra, tantas vezes que não as pôde contar, tantas vezes que a certa altura já não tinha orgasmos separados, tinha um único orgasmo que continuava e continuava e parecia nunca mais acabar.

Por fim – depois, quando olharam para o relógio, viram que passava das quatro da manhã – Ricardo deu um urro cavernoso, e num último, prodigioso arranque esvaiu-se todo dentro dela, que arquejava «dá-me, dá-me tudo» e se veio também pela última vez nessa noite.

Nem se lavaram. Conseguiram ir os dois, aos tropeções, da sala para o quarto, onde se deitaram em cima da cama e adormeceram imediatamente. Quando acordaram tinham, ele o pénis quase em carne viva, ela a vagina em idêntico estado, e no tapete sobre o qual tinham feito amor vieram a encontrar uma pequena mancha de sangue que nunca vieram a saber se era dele ou dela.

Mariana acordou tarde e viu o amante ainda adormecido ao seu lado. Durante a noite tinham arranjado maneira de puxar o edredon para cima deles, e ainda bem porque a casa estava um pouco fria. Começou preguiçosamente a dar pequenos beijinhos na cara de Ricardo e viu como mesmo a dormir o rosto dele se adoçava num ligeiro sorriso. Depois pousou a cabeça no travesseiro e deixou-se ficar numa deliciosa indolência até o ver acordar e espreguiçar-se.

Esta visão deu-lhe vontade, como que por contágio, de se espreguiçar também e de bocejar longamente.

– Tens fome, meu querido?

– Mais que fome, estou esfaimado. Se não me dás de comer, como-te a ti.

– Então deixa-me tomar duche primeiro, depois tomas tu enquanto eu te preparo o pequeno-almoço.

Ricardo ainda fechou os olhos por uns minutos. Depois levantou-se, vestiu o roupão, calçou os chinelos de quarto e dirigiu-se para a casa de banho, de onde Mariana estava a sair embrulhada numa toalha.

Ao enxugar-se – vigorosamente, como era seu costume – reparou que lhe doía ao esfregar o pénis com a toalha, apesar de esta ser invulgarmente fofa e macia. A pele estava muito vermelha e sensível. Tinham sido horas seguidas de fricção no corpo da amante, e ainda bem que ela estava depilada e macia, porque aquele tempo todo a roçá-lo com os pelos púbicos teria sido mais do que poderia aguentar.

Quando entrou na sala de roupão e chinelas, Mariana já estava vestida, com uma saia preta pelos tornozelos e uma blusa de seda branca. A mesa estava posta e da cozinha vinha um cheiro bom de café e torradas com manteiga.

– Senta-te. Vai bebendo o sumo, que eu já te trago o resto.

À porta da cozinha estavam umas chinelas.

– Vou calçar-me. A tijoleira da cozinha está muito fria. Posso?

– Sim, hoje podes, mas só na cozinha.

Um ruído de louça e talheres a remexer, um súbito aroma a ovos fritos a a bacon, e lá vinha Mariana com um cesto enorme de torradas.

– Vai comendo enquanto estão quentes.

Sentou-se em frente ao dono para beber o sumo de laranja e depois levantou-se, com uma torrada na mão para ir de novo à cozinha. Quando regressou trazia uma travessa de ovos mexidos com bacon e salsichas, e mais torradas. Pôs música a tocar no leitor de CD’s (a sonata de violino e piano «Primavera», de Beethoven), e sentou-se a comer. Por vezes dava-lhe na boca um pedacinho de torrada, ou ele a ela. Serviu muesli misturado com iogurte de cereja, que comeu com um apetite igual ao do amante. Por fim foi à cozinha buscar o café.

– Queres mais?

– Só se for mais café.

– Então vou buscá-lo quente, não bebas esse.

Ficaram mais de meia hora à mesa, a beber café, a pegar nas mãos um do outro e a conversar de coisas sem importância. Quando viram as horas era quase uma da tarde.

– Ai… Ainda vou ter que arrumar isto tudo…

– Eu ajudo-te.

– Não, vai-te vestir.

Ricardo vestiu as suas calças de bombazina cor de mel e uma camisa de flanela aos quadrados, com uma T-shirt por baixo. Não demorou muito a vestir-se e a calçar as peúgas: ainda teve tempo de arrumar a sala e o quarto e fazer a cama enquanto Mariana terminava de lavar a louça e limpar a cozinha.

De tarde foram passear em Brugges, ao longo dos canais. Pararam em frente ao edifício gótico da Câmara Municipal, viram as montras nas ruas centrais, fizeram algumas compras num supermercado. O Equinócio da Primavera já tinha passado, a hora tinha mudado, os dias estavam mais longos e estava sol, mas não se demoraram na rua: depois de lancharem numa confeitaria voltaram para o apartamento de Mariana, onde ficaram sentados a ouvir música e a conversar enquanto lhes apeteceu.

– Daqui a pouco vou fazer o jantar – disse Mariana, abraçando o amante e dando-lhe um beijo. – Queres tomar alguma coisa antes?

– Sim, meu amor. Tens um whisky?

– Já to vou dar. Deixa-te estar sentado.

Mas em vez de se dirigir para o armário das bebidas Mariana meteu-se no quarto, de onde emergiu uns minutos depois com um vestido que Ricardo não lhe conhecia: cintado, preso aos ombros por alças, com uma saia pelos tornozelos muito rodada, e todo às riscas verticais em vários tons de rosa. Na sua versão original devia ter um forro, mas era fácil de ver que Mariana o tinha tirado e que não trazia nada por baixo.

– Gostas do meu traje de escrava?

– Muito. Vestiste-o para me servires o whisky?

– O whisky e não só. Mas espera, primeiro vou-te calçar os chinelos.

Os chinelos de Ricardo estavam no armário da entrada. Mariana foi-os buscar, ajoelhou-se e descalçou o dono, beijando-lhe cada um dos pés depois de tirar a respectiva peúga e antes de lhe pôr o chinelo. Concluída esta tarefa pôs música no leitor de CD’s – Shepherd Moons, da cantora irlandesa Enya – trouxe um tabuleiro que enganchava no sofá, e sobre este pôs um naperon, um copo de cristal e um cinzeiro.

– Um cinzeiro? – admirou-se Ricardo

– Sim. Hoje vais fumar. E não discutas.

A seguir tirou duma gaveta um estojo de cabedal para dois charutos, uma caixa de fósforos e um aparelho de cortar as pontas, e pousou tudo no tabuleiro ao lado de Ricardo. O estojo continha dois Cohibas.

– Não tinhas mais em que gastar o teu dinheiro? – ralhou Ricardo.

Mariana riu-se, foi ao armário das bebidas, tirou uma garrafa de whisky por abrir e mostrou o rótulo ao amante

Cigar? – disse ele. – Não conhecia essa marca.

– Na loja disseram-me que era muito bom. E que era o ideal para acompanhar um bom havano.

Ricardo riu-se e preparou-se para abrir a garrafa, mas a amante deteve-o:

– Não. Tu não fazes nada. Eu sirvo.

Obediente, Ricardo recostou-se no sofá e ficou a contemplar com um olhar de ternura a sua escrava que se esforçava, ajoelhada, por abrir a garrafa. Depois de o ter conseguido deitou no copo dois dedos de whisky, cortou as pontas a um dos charutos, meteu-o na boca e acendeu-o, rolando-o entre os dedos como tinha visto o dono fazer. Ricardo viu-a sugar as bochechas para dentro para puxar o fumo, exactamente como fazia qundo lhe chupava o sexo, e com um brilho nos olhos acariciou-lhe o cabelo.

Levadas a bom termo todas estas tarefas Mariana sentou-se no chão aos pés de Ricardo e começou a contar-lhe todos os pormenores da sua mais recente exposição. De vez em quando levantava-se, animada, e ia buscar um quadro que se tinha esquecido de lhe mostar antes, ou fotografias de outros quadros, que lhe ia dispondo sobre os joelhos para ele ver. Entusiasmada, explicava-lhe as novas técnicas que tinha aprendido desde a última visita: as tintas, os betumes, os vernizes, as areias coloridas, as espátulas, os pincéis, as folhas e as bagas recolhidas no bosque e coladas na tela.

Ao esmorecer da conversa Ricardo inclinou-se para a frente, segurou-lhe o queixo e beijou-a ternamente nos lábios.

– Agora vou-te possuir, minha escrava.

– Sim…

Mariana num instante se pôs nua, o vestido saía pela cabeça e ela não trazia mais nada sobre o corpo.

– Deita-te aqui no sofá – disse Ricardo. Quando a viu deitada ajoelhou-se sobre o tapete, debruçou-se sobre ela e começou a cobri-la de beijos, começando nos ombros, subindo ao pescoço, aos olhos, às orelhas e à comissura dos lábios, e descendo aos seios. Por longos minutos não fex mais nada além de lhe lamber e chupar os mamilos enquanto lhe insinuava a mão entre as coxas. Mariana começou logo a abrir um pouco as pernas, ou melhor, as pernas abriam-se-lhe por si próprias, sem que ela sequer o notasse. Sem pressa nenhuma Ricardo foi descendo com os lábios ao longo do corpo dela, às vezes voltando para cima em direcção aos seios e ao pescoço, mas indo sempre um pouco mais abaixo de cada vez que descia. Meteu-lhe a língua no umbigo, beijou-lhe os flancos do sovaco à anca, explorando-lhe com a língua os espaços entre as costelas, e ao lamber-lhe o monte de Vénus depilado sentenciou:

– Sim, estás mesmo macia, com a língua é que se nota…

… e depois, cruelmente, começou de novo a subir-lhe pelo corpo acima.

Se a boca que Mariana tinha entre as pernas tivesse voz, teria gritado de frustração. Mas não por muito tempo, porque de repente Ricardo afastou-lhe as coxas com as mãos e beijou-lhe o sexo como se lhe beijasse a boca, para logo moderar este ímpeto e começar a procurar-lhe com os lábios e a língua todas as dobras e minúsculas refegas. A língua procurava, dardejante, o botão do amor, para logo o abandonar e tentar insinuar-se no interior da vagina ou para lamber todo o comprimento da vulva.

Quando começou a chupar-lhe o clítoris mais vigorosamente, como se o quisesse sugar e engolir, ouviu-a dizer:

– Meu senhor… Posso-me vir?…

Ricardo nunca tinha imposto a Mariana que pedisse autorização para ter orgasmo e agora ela própria, sem que ele entendesse bem porquê, inaugurava esta regra.

– Não, minha escrava, não podes.

Mas continuou a beijá-la até já não poder distinguir se os sons que ela fazia eram de prazer ou de sofrimento. Por fim, cansado, parou, e começou a percorrer com os lábios e a língua o caminho oposto ao que tinha feito antes até lhe chegar de novo à boca, que beijou, enleando a língua na dela apaixonadamente. Só então se levantou, devagar, mantendo a boca unida á dela e esperando até ao último segundo para a largar.

– Espera um pouco – disse, e dirigiu-se para o quarto.

Saiu de lá pouco depois, competemente nu, e trazia na mão uma fita vermelha que Mariana reconheceu imediatamente: era a prenda que ela lhe tinha dado por ocasião dum encontro anterior, também em Brugges.

– Dá cá as mãos.

Mariana estendeu-lhe as mãos com os pulsos cruzados. Ricardo atou-as rapidamente com uma ponta da fita, mandou-a esperar, foi ao trolley buscar a máquina fotográfica e começou a ordenar-lhe que assumisse poses: de joelhos, posternada, exibindo as marcas e as equimoses da vergasta, de pé, com os braços erguidos, mostrando os pulsos amarrados… Mariana acedia a tudo, obediente, meiga, apaixonada. Ricardo apercebeu-se nela dum estado de espírito invulgar: um dengue, uma excitação, um roçar-se por ele como que por acaso, uma intensidade, uma atenção ardente ao momento vivido…

– Não me deixaste ter orgasmo… Meu amor…

Isto disse Mariana a certa altura, baixando os olhos, num momento em acabava de se ajoelhar e mostrava à objectiva os pulsos atados. E Ricardo sentia nela, por baixo da mansidão e da obediência, o fogo larvar dum desejo que se satisfazia na insatisfação.

Quando acabou de a fotografar, não a desamarrou: mandou-a deitar de costas no tapete e amarrou a outra ponta da fita de seda ao cano do aquecimento, no ponto em que este saía do chão. Estendido sobre ela sem lhe fazer peso, voltou a beijá-la e começou a percorrer-lhe o corpo com as mãos numa carícia firme como se faz aos animais.

– Meu senhor…

– Diz.

– Vais possuir-me?

– Vou, sim, minha escrava.

– Queria pedir-te…

Ricardo apertou-lhe o seio esquerdo e chupou-lhe o mamilo antes de a encorajar a continuar:

– Querias pedir-me…

– Queria pedir-te que fosses meigo. Estou tão dorida de ontem…

Ricardo deu uma risada:

– Vou ser meigo, sim. Até porque eu também estou dorido, tenho tudo em carne viva…

Mariana já tinha as pernas abertas: Ricardo penetrou-a numa carícia longa e, sem chegar a ir até ao fundo, começou a mover dentro dela a ponta do pénis, beijando-a ao mesmo tempo profusamente nos lábios e nos seios. Com as mãos amarradas, Mariana não o conseguia abraçar, por isso o envolvia com as coxas, acariciando-lhe com os calcanhares a barriga das pernas e a parte de trás dos joelhos.

– E desta vez posso vir-me, meu senhor?

– Não, minha escrava, não podes. Ocupa-te só do meu prazer.

No gemido que Mariana soltou misturava-se um imenso lamento com um prazer novo, um prazer que ela não conhecia. Começou a mover as ancas e a tentar controlar os músculos da vagina de maneira a apertar e a chupar o sexo do amante, a dar-lhe o prazer que ele lhe exigia e ao qual tinha obviamente todo o direito, a erguer os seios de encontro ao peito dele para o acariciar brandamente, até que o sentiu acelerar os movimentos e ejacular dentro dela com um gemido que parecia, também ele, um lamento.

Admirou-se por não sentir frustração nem ressentimento por não ter gozado, mas sim uma enorme vontade de continuar a servir. «Serei na verdade assim tão fêmea e tão escrava?», pensou; e quando o dono rolou de cima dela para o chão começou a chegar-se para ele, a acariciá-lo com as pernas e com os pés, já que tinha as mãos amarradas. Todo o corpo dela era movimento, e todos os seus movimentos iam no sentido de se chegar ao dono, de o acariciar, de lhe suplicar um toque ou uma palavra. Lembrou-se de ter dito uma vez a Ricardo que ele a tinha «desligado»; pois bem, agora estava «ligada», com toda a sua energia de fêmea apaixonada a fluir-lhe no corpo e todos os sistemas a funcionar em alerta máximo.

– Desamarra-me, meu senhor…

Assim que Ricardo a desamarrou Mariana começou a fazer-lhe festas e beijá-lo por todo o corpo

– Estou tão louca… Não me deixaste ter orgasmo, e estou tão louca…

– É, estou intrigado com uma coisa… Porque é que me pediste autorização? Eu por mim era capaz de nunca me ter lembrado de to proibir– disse Ricardo..

– Não sei o que é que me deu. Disseste-me muitas vezes que uma escrava não tem direito ao prazer, se calhar foi por isso.

– Disse, e tu concordaste. Mas fizeste bem em lembrar-me … De hoje em diante tens que pedir sempre autorização.

Mariana revirou os olhos e fez uma careta, logo desmentida pela grinalda de beijos com que cobriu o peito do amante:

– Oh, não, o que é que eu fui dizer! – exclamou, numa aflição fingida. – O que pode uma pobre escrava fazer para servir o seu senhor, se ele até até a proíbe de se vir?

– Uma pobre escrava, não sei, mas se esta rica escrava que aqui está está assim tão empenhada em servir o seu senhor, pode muito bem ir para a cozinha, por exemplo, e fazer o jantar para ele, que está cheio de fome…

Mariana, a rir-se, começou a bater com os seus pequenos punhos no peito de Ricardo

– Cafajeste… sem vergonha… Escravidão é escravidão, não é?!

– Pois é… – disse Ricardo.

E quando viu Mariana levantar-se quase de um salto, vestir o roupão, entregar-lhe o dele e dirigir-se à cozinha, acrescentou:

– E descalça, se fazes favor. Não quero cá essa história de tijoleira fria, como de manhã. Lugar de fêmea é descalça na cozinha.

Mariana deteve-se o tempo suficiente para lhe deitar a língua de fora, mas afastou com o pé as chinelas que estavam no chão à saída da sala.

De dentro da cozinha levantou a voz:

– Tenho aqui Quiche Lorraine, é só pôr no micro-ondas. Queres?

– Pode ser, gosto bem de quiche. E o vinho de ontem ainda deve estar bom, era uma pena deitar fora uma garrafa quase inteira.

Ao pôr a mesa, ao servir o jantar, durante a refeição, Mariana continuou a exibir o comportamento que tanto intrigava e encantava Ricardo. A todas as oportunidades havia um seio a roçar um braço, ou então apenas um sorriso, um suspiro, um baixar de olhos, um rubor…

– Anda cá, escrava.

– Para quê?

– Anda cá. Levanta a saia.

Quando Mariana chegou junto dele Ricardo introduziu-lhe a mão entre as coxas.

– Estás toda molhada…

– Pois estou… Não me deixaste vir, patife…

– Não estás bem?

– Estou bem, estás farto de saber que estou mesmo muito bem… Não sei como é que isto me pode dar tanto prazer… Mas se daqui a pouco eu entrar em combustão espontânea, já sabes porque foi. Nunca te devia ter pedido autorização.

– É… Pela boca morre o peixe… Mas não te preocupes: amanhã não vai acontecer o mesmo porque vais ter castigo em vez de sexo.

– Está bem… Podes castigar-me, mas também quero sexo.

– Também, o quê?

– Eu sei, não tenho quereres. Vou dizer doutra maneira: também gostava que o meu senhor possuísse a sua escrava. Está bem assim?

– Melhor. Mas ao castigar-te também estou a possuir-te, não te esqueças. Em todo o caso, o castigo amanhã é por ser o nosso último dia. Quero deixar-te marcas que durem até ao próximo encontro.

– Sim, meu querido, também quero ficar marcada. Mas para as marcas nunca desaparecerem o melhor era eu fazer uma tatuagem…

– E hás-de fazê-la, com as minhas iniciais.

Antes de responder, Mariana bebeu um gole de vinho.

– Hmmm, isso deixa-me louca… Louca para ser possuída outra vez pelo meu senhor…

– Primeiro vamos acabar de jantar. E desconfio que mesmo depois disso vais ter um bocado de trabalho para me provocar outra erecção.

O jantar foi rápido, e Mariana arrumou a cozinha num instante. Quando regressou à sala encontrou Ricardo sentado no sofá. Sem hesitação nem preliminares ajoelhou-se no tapete à frente dele, afastou-lhe para os lados as abas do robe e tomou-lhe o sexo na boca. Assim que sentiu bem rijo, atirou o roupão para cima do sofá deitou-se de costas no tapete:

– Anda…

Entre o momento em que saiu da boca da amante e o momento em que se colocou entre as coxas dela em posição de a penetrar, Ricardo quase perdeu a erecção: Mariana teve que o chupar de novo para que ele finalmente lhe penetrasse a vagina – com o pénis um pouco flácido, mas que uma vez dentro dela recuperou a rigidez dos embates anteriores. Estavam ambos bastante doridos, mas mesmo assim Ricardo possuiu Mariana sem hesitação ou demora, indo e vindo nela até que a viu ficar vermelha: primeiro a cara e depois o pescoço, o peito e os seios. Viu-a abrir a boca como se fosse gritar, ouviu-lhe a rápida e forte inalação de ar, cavalgou-lhe o frenesim urgente dos quadris e finalmente assistiu, empolgado, ao gozo da sua escrava: um orgasmo sumptuoso, uma convulsão sísmica que lhe soltou todas as energias acumuladas no corpo e na alma desde que ele a tinha mandado deitar no sofá duas horas antes.

O dia seguinte amanheceu com bom tempo. Algumas nuvens, poucas, juntavam-se ocasionalmente e faziam chover umas raras gotas de água. Ricardo e Mariana foram passear para junto do canal e dos moinhos de vento: ele de calças castanhas com vinco, pullover cor de mel, casaco de cabedal castanho escuro e chapéu de feltro, ela de saia comprida, blusa de seda e casaquinho vermelho. Almoçaram num pavilhão com vista para o canal, conversando sobre o fim de semana que projectavam passar em Paris quando o tempo estivesse um pouco mais quente.

Lá fora a relva estava húmida e muito verde.

– Apetecia-me descalçar-me e correr nesta relva – disse Mariana.

– E a mim apetecia-me mandar-te descalçar.

– Mas não posso, estou de collants e não posso tirá-los diante de toda a gente.

– De collants?! Na presença do teu dono?! Vais mas é já ao quarto de banho para os tirar, e de castigo não voltas a calçar-te hoje.

Mariana ainda alegou o frio, o incómodo, as pessoas à volta; mas acabou por obedecer, um pouco embaraçada no princípio, mas pouco tempo depois corria o jardim descalça com a singeleza impudente duma criança à solta. Ricardo não voltou a permitir-lhe que se calçasse nem no jardim, nem no caminho de casa. E se no jardim o espectáculo duma senhora bem vestida mas de pés nus pareceu banal a quem o viu, o mesmo não se passou percurso que mais tarde fizeram de braço dado nas ruas cheias de gente. Mas o garbo altivo de Ricardo desarmava os olhares e, comunicando-se a Mariana, convertia-lhe o pejo em euforia.

Jantaram pelo caminho. Quando entrou em casa Mariana levava os pés gelados. Mas antes de ir tomar um duche quente ainda se apresentou diante de Ricardo com uma bacia de água quente para lhe lavar os pés cansados, lhe calçar os chinelos, lhe servir uma bebida e lhe acender um charuto.

Depois de tomar duche não se vestiu, envolveu-se em véus transparentes e dançou para ele, tirando-os um a um.

Ricardo assistia beberricando o seu whisky e puxando uma fumaça ocasional. Só os olhos a rir denotavam a atenção com que seguia todos os movimentos da sua amada.

– Vem cá.

– Sim, mas ainda me deves um castigo – disse Mariana.

E Ricardo viu que sem ele notar ela tinha ido ao quarto buscar a vergasta vermelha e lha tinha posto ao alcance da mão.

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Victor chegou pontualmente às oito e vinte. Quando dunya ouviu a chave dele na porta, correu do quarto, onde se encontrava, para a sala, que era onde ele lhe tinha ordenado que o esperasse. Sabia que o slap slap apressado dos seus pés nus, impossível de confundir com qualquer outro ruído de passos, podia ser ouvido da entrada, onde Victor estava neste momento a pendurar o sobretudo e o chapéu.

A mesa estava posta para os dois, a comida estava pronta a ser servida e dunya estava vestida como ele tinha ordenado: pés e seios nus, mamilos pintados da cor dos lábios, cabelos soltos; um sarong preto com franjas compridas à roda das ancas, anéis tanto nos dedos dos pés como nos das mãos, bijuteria nos tornozelos, nos pulsos, no pescoço. Ajoelhou-se junto do sofá, virada para a porta da sala, como mandava o ritual, de modo que ele a visse imediatamente ao entrar.

– Baixa os olhos – ouviu-o dizer, ainda do vestíbulo.

Grata por Victor lhe ter lembrado esta regra e um pouco irritada consigo própria por ser preciso lembrar-lha, dunya baixou os olhos. Isto fez com que só visse do seu Senhor, quando ele se aproximou dela, as calças de bombazine pretas e as botas próprias para a neve. Não resistiu a erguer os olhos um pouco para lhe ver a zona da carcela: a protuberância por baixo do tecido denunciava o sexo erecto, e dunya sentiu-se enlanguescer ao ver que o amante tinha ficado excitado só de a ver.

Quis olhá-lo nos olhos e sorrir-lhe, ver a disposição dele, mas conteve-se. Via-lhe as mãos, primeiro a que ele lhe apresentou para beijar, depois a outra, a esquerda, onde ele segurava um pedaço de tecido preto que pareceu a dunya ser de seda ou cetim.

Quando ele se pôs por trás dela, dunya olhou de novo para o chão. Sentiu que ele lhe afastava os cabelos com a mão, viu num relance o tecido preto à frente do rosto.

– Fecha os olhos.

Victor nunca a tinha vendado antes. Porque o faria agora, precisamente agora, quando ela tinha tanto que fazer, o jantar para servir?

– Toca com a testa no chão.

Para obedecer, dunya ficou com o rabo empinado. Sentiu que o amante lhe levantava o sarong, lhe acariciava brevemente as nádegas e lhe inseria um dedo inquisitivo no sexo, que estava molhado.

– Levanta-te.

Com dificuldade, sem ver nada, pôs-se de pé. Victor ajudou-a e conduziu-a na direcção, pareceu-lhe, da mesa de jantar.

– Ajoelha-te. Senta-te sobre os calcanhares. Abre bem as pernas. Levanta a cabeça. Agora fica assim, não te mexas.

A venda estava bem posta e bem firme e não permitia espreitar por baixo. Dunya ouviu o amante a mexer na louça e nos talheres que ela tinha disposto sobre a mesa, dirigir-se à cozinha, mexer nos armários e no fogão. Ouviu os bifes que ela tinha temperado a grelhar na frigideira. Sentiu-o pôr nas travessas o puré, a salada, os bifes. Depois ouviu-o regressar e soube pelo cheiro que trazia a comida para a sala.

Soube que ele se estava a sentar à mesa pelo arrastar da cadeira.

– Chega-te para mais perto de mim.

Dunya obedeceu. Sentiu-o servir-se. Pensou: Vai ser assim, hoje? Até o privilégio de o servir me vai ser tirado? Mas não disse nada. Victor, pelo contrário, não parava de falar entre uma garfada e outra, chamando-lhe minha querida, minha escrava, minha cadela, e de vez em quando acariciava~lhe os cabelos com uma mão distraída. Dunya estava com fome mas não se atrevia a perguntar se podia comer.

– Abre a boca.

Era uma colher pequena, de sobremesa. Tinha puré. Passado algum tempo Victor chegou-lhe aos lábios, com as pontas dos dedos, um pouco de salada e depois, a intervalos, mais salada, pedacinhos de carne, colherzinhas de puré. Para beber, um ou dois goles de vinho, mais nada. Quando o sentiu levantar e o ouviu levar a louça para a cozinha, dunya ainda tinha fome.

Passado algum tempo ele sentou-se de novo

– Abre a boca.

Desta vez era fruta, que ele tinha descascado e partido em bocadinhos pequenos para lhe dar com os dedos. Dunya esticava o pescoço e os lábios na direcção em que lhe parecia estar a mão do dono e recebia em recompensa pequenos pedaços de comida que no fim a deixaram quase saciada, mais pela demora do que pela quantidade. Ora aqui está uma boa maneira de perder peso, pensou.

– Fica como estás.

Nesta parte da sala não havia tapete e os joelhos de dunya começavam a doer-lhe contra o chão de madeira. Mas apesar do desconforto ficou assim por largos minutos, talvez meia hora, talvez uma hora inteira: de joelhos, sentada sobre os calcanhares, a cabeça baixa, só a erguendo, como uma corça sobressaltada, para tentar seguir pelo ouvido o que o amante estava a fazer.

Primeiro ouviu-o a levantar a mesa, a lavar a louça, a arrumar a cozinha – tarefas que lhe competiam a ela, escrava, e que hoje estava proibida de desempenhar. Depois ouviu a água do duche a correr na casa de banho, os armários e as gavetas do quarto a abrir e a fechar. Por fim ouviu os passos de Victor, calçado não já de botas, mas com as babuchas de cabedal macio que trouxera de Marrocos. Com o sentido da audição aguçado pela falta de visão, ouviu como as palmilhas de couro lhe batiam levemente, ao andar, nas solas dos pés, e percebeu por este ligeiríssimo estalar que ele não trazia peúgas.

Sentia-o agora junto dela, quase encostado. Cheirava a sabonete e a dentífrico e trazia o roupão de cetim.

– Levanta-te. Anda comigo.

Com a mão na mão dele, seguiu-o às cegas para a casa de banho.

– Toma. Já tem pasta.

Era a escova de dentes.

– Toma o teu copo.

Dunya bochechou, escovou os dentes, bochechou de novo. Cuspiu a água para o lavatório. Sentiu Victor a abrir a torneira e a lavar a bacia, salpicando-a um pouco.

– Queres ir à sanita?

– Sim – disse dunya, que precisava urgentemente de urinar.

Victor conduziu-a à sanita, depois ao bidé, depois ao lavatório para lavar as mãos, e por fim de novo para a sala, onde a fez ajoelhar no tapete virada para o sofá.

– Apoia os cotovelos na almofada.

Dunya assim fez, e sentiu-o desatar-lhe o nó do sarong, deixando-a nua. A mão dele a acariciar-lhe as nádegas. Uma leve palmada. Outra carícia. Quis perguntar ao amante se ele a ia sodomizar, mas não se atreveu. Dunya nunca tinha sido sodomizada. Tinha ouvido dizer que doía muito.

– Pode doer muito, ou pouco, ou até nada. Depende de como eu fizer. Na altura decidirei – dissera-lhe Victor quando ela tinha ousado perguntar.

Mas quando ele parou de lhe acariciar as nádegas não foi para a sodomizar. De repente, sem aviso, dunya ouviu um silvo que tão bem conhecia e imediatamente sentiu uma dor atroz, como uma queimadura, nas duas bochechas do rabo. Deu um salto no lugar e não conseguiu evitar um grito.

– Quieta.

Dunya pôs-se de novo em posição e afundou a cara nas almofadas do sofá para não gritar. Tinha medo que os vizinhos ouvissem. Victor nunca a tinha punido assim de chofre; habitualmente começava por a acariciar com a vergasta, depois vergastava-a levemente e ia tornando os golpes gradualmente mais fortes.

Mas o pior não era isto, o pior era não ver, não seguir com os olhos os movimentos do amante, não controlar nada.

Uma segunda vergastada, mais acima. Dunya não conseguiu conter as lágrimas e sentiu como lhe empapavam a venda. E uma terceira, muito mais dolorosa, na parte superior das coxas, junto ao vinco das nádegas. Preparou-se para receber uma quarta vergastada, e uma quinta, se era assim que ele se queria servir dela hoje, era assim que ela o queria servir.

Mas não, as vergastadas pararam à terceira. A uma ordem de Victor, levantou a parte superior do corpo e recuou um pouco de modo a dar-lhe espaço entre ela e o sofá. Sentiu-o passar por ela, o cetim do robe roçando-lhe o corpo nu, e sentar-se diante dela com as pernas um pouco abertas.

Ia servir-se dela pela boca, então. Dunya respirou fundo, agora sabia o que fazer. Primeiro, a saudação necessária: inclinou-se para o chão, procurou às apalpadelas os pés do dono e começou a beijá-los lentamente, com um respeito infinito. Para os ver, não dispunha dos olhos, só das mãos, dos lábios e da língua. Por isso se esmerou ainda mais do que de costume em acariciá-los, em beijá-los, em lambê-los por entre os dedos.

Uma carícia dele deu-lhe a entender que a homenagem estava concluída; era altura de começar a dar-lhe outro tipo de prazer. Devagar, começou a beijar o amante pelas pernas acima. Admirou-se por não sentir o menor vestígio de impaciência e por a lentidão lhe ser tão agradável: era por não o ver, comprendeu. Para contemplar o corpo dele só tinha as mãos e os lábios e isto tornava necessário que cada centímetro quadrado de pele fosse acariciado e beijado. E apercebeu-se de que ele também não tinha pressa: a carícia que lhe fazia nos cabelos não era leve por displicência ou arrogância, como a que lhe tinha feito enquanto jantava, mas pelo propósito de não a distrair da sua tarefa.

Era estranho como o corpo dele, sentido com as mãos e com a boca, lhe parecia diferente do corpo visto com os olhos. Havia partes que lhe pareciam mais duras ou mais moles, superfícies mais ásperas e mais macias, refegos de pele mais fundos ou mais planos. A pouco e pouco dunya foi-se entregando toda à exploração do corpo de Victor, os lábios a e língua nos joelhos dele, nas coxas, nas virilhas, por fim no pénis, e as mãos erguidas para o peito como as duma suplicante.

– Agora, escrava.

Dum movimento só dunya engoliu o pénis do dono e começou a mover a cabeça para cima e para baixo, tendo o cuidade de não o tocar com os dentes. A venda, longe de lhe dar a ilusão de estar a chupar um pénis qualquer, permitia-lhe concentrar-se mais do que nunca nas características próprias que faziam do pénis de Victor tão reconhecível para ela como o rosto. E permitia-lhe também concentrar-se nos movimentos e carícias que tinha aprendido com ele e de que sabia que ele gostava: o lento deslizar dos lábios ao longo da haste, os chupões vigorosos na glande, a exploração com a língua da grossa veia de baixo, os movimentos à volta da glande, as pequenas estocadas na abertura da ponta.

Estava cansada, os múscuos do maxilar doiam-lhe, mas não queria parar. Sentiu a mão do dono na nuca e pensou que ele a quisesse acariciar ou forçá-la a engoli-lo ainda mais fundo – mas não, o que ele fez foi retirar-lhe a venda num movimento rápido.

Das luzes da sala, estava apenas aceso o candeeiro com a lâmpada mais fraca – mas que mesmo assim dava luz suficiente para que dunya visse, com os seus olhos habituados à escuridão, o membro viril que tinha diante dos olhos.

E foi como se o visse pela primeira vez. Cada pormenor, cada veia azulada, o rosado escuro e a prodigiosa macieza da glande; a não menos prodigiosa tesão que o arqueava para cima; a grossura invulgar; a cor de mármore; as rugas finíssimas; a pele delicada: o ligeiro pulsar; o modelado subtil das formas – tudo naquele momento contribuía para transformar o pénis de Victor em algo mais real que a realidade – um raio de luz, um ceptro de realeza ou divindade, um talismã.

Dunya sentiu que um êxtase a possuía; e foi neste êxtase que inclinou de novo a cabeça como quem diz uma oração; que o tomou de novo na boca como quem recebe um sacramento; e que o adorou com todo o seu ser até a boca e a garganta se lhe inundarem de luz e de esperma.

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Então, para ver se a menina era quem dizia, a velha re­solveu pôr-lhe uma ervilha seca debaixo do col­chão, porque, se fosse uma princesa, fa­cilmente a sentiria. E com efeito, na manhã seguinte, a menina queixou-se que alguma coisa a tinha magoado toda a noite. Mas o Rei ainda não acreditava, e as aias puseram outro colchão, e outro, e outro, até que viram que a menina sentia a ervilha mesmo de­baixo de sete colchões.

Conto tradicional

O dono de Mariana tinha alugado uma casa nas dunas. Era uma casa antiga com rudes paredes caiadas de branco e ocre, na espessura das quais se abriam frestas, nichos, portas em arco. Estas paredes eram tão grossas que os umbrais das portas se pareciam com minúsculos corredores abobadados – pelo menos aos olhos de Mariana, habituada, na sua casa de paredes finas em Lisboa, a que o único curto passo com que saía de um compartimento a levasse ao seguinte. O pavimento era um quadriculado rústico de terracota avermelhada, mais escuro e brilhante no inte­rior da casa do que no exterior. Nos terraços, o mesmo pavimento, calcinado pelo sol e despolido pelo vento e pela areia, tinha adquirido com os anos um belo tom de salmão avelu­dado e claro. No chão dos terraços restava sempre, por muito que se varresse, uma ténue palha friável, exalada pelo vento como num hausto de África – resíduos de algas e de relva seca, fragmentos de ortigas e de cactos, tão ressequidos e frágeis que era possível, sem que a mão se picasse, reduzi-los a pó entre dois dedos.
Quando chegaram o sol já estava baixo, mas ainda brilhava com suficiente intensidade para que todas as cores na praia se diluíssem numa brancura obses­siva e cruel. Sob um sol menos violento o vestido de Mariana seria cinzento claro; a esta luz, e em contraste com a pele morena, parecia tão branco como todo o resto da paisagem.
Mariana trazia sandálias brancas de verniz, e vinha nua por baixo do vestido. Tinha quarenta anos, um rosto mais novo que a idade, e um corpo mais novo que o rosto. Havia muito que desejava acompanhar o amante num fim de se­mana como este, mas só à última hora se decidira a fazê-lo. Gabriel, o marido, estava no estrangeiro, numa feira industrial. O que Mariana deixava atrás de si era uma família cada dia mais independente e um heterónimo, Marta, que era a pessoa representada no seu bilhete de identidade.
No automóvel Miguel tinha-lhe ordenado que despisse a roupa interior. Conse­guiu tirar as cuecas sem que ninguém a visse no meio do trânsito: bastou-lhe soer­guer-se no assento e fazê-las deslizar ao longo das coxas e das pernas. Mas ao contorcer-se para tirar o soutien não pôde evitar que dos outros carros lhe pudessem ver os seios.
O cabelo já o trazia solto antes de entrar no carro. Ao lado do amante Mari­ana sentiu-se mais nua no seu vestido do que se estivasse nua de verdade. Teve de súbi­to vontade de o beijar, de o tocar, de lhe pedir que parasse o carro ali mesmo, entre as ár­vores. Com a mão esquerda acariciou-lhe o cabelo, os olhos nele, indagadores.
Ele aceitava-lhe as carícias sem as retribuir, atento à estrada. Mas esta aten­ção era puramente mecânica. Mariana sabia bem que a mais profunda atenção do seu amante estava virada para ela. O desapego que ele, com um exagero deliberado e subtil, fazia gala em exibir-lhe, era um jogo, uma auto-ironia. Como se lhe dis­sesse, «vê, sou um homem, não posso deixar de sepa­rar as coisas». Bastava ler-lhe o rosto: cada carícia dela despertava nele uma reacção discreta mas consciente: nada mais, muitas vezes, do que o olhar a dançar ale­gremente entre ela e a estrada, ou um meio sorriso a adoçar-lhe o perfil.
O colóquio de velhos amigos que mantiveram durante a viagem foi para am­bos uma disciplina e um comprazimento. Foi uma conversa decorosa, entre­meada de silêncios confortáveis, que manteve o seu tom plácido mesmo quando Mariana começou a acariciá-lo através das calças. E quando ele a sentiu, com as suas pe­quenas mãos de menina púbere, abrir-lhe os jeans e procurar-lhe o sexo, só a voz um pouco enrouquecida lhe traiu perturbação.
Mal os dois amantes entraram em casa abraçaram-se, boca contra boca numa fome acumulada em semanas de ausência, em horas de viagem. A interva­los inter­rompiam o abraço para cumprir as tarefas necessárias: pôr comida no frigorífico, desfazer as malas, dispor as escovas no quarto de banho. Tomaram duche um de cada vez, pudicamente, como sempre faziam nas primeiras horas de cada encon­tro.
Entretanto fez-se noite. Miguel pôs música a tocar. Enlaça­dos no sofá, de roupão, ao som de Brahms, falaram de si e das suas vidas: a família, a profissão, as pequenas vitórias quotidianas sobre a morte e sobre os deuses. O dono da casa, que Maria­na não conhecia, tinha-se esforçado por tor­ná-la confortável: electricidade, gás, fri­gorífico, alta fidelidade, e um enorme quarto de banho em mármore branco: pró­prio para princesas e odaliscas, pensou Mariana. E achou estranho que o quarto de dormir, contrariamente ao resto da casa, não tivesse luz eléctrica.
Por única iluminação havia no quarto uma lam­parina, como a lâmpada de Aladino. O amante de Mariana deitou fora o azeite velho, trocou o pavio por um novo, lavou a lâmpada cui­dadosamente, e encheu-a com um óleo perfumado que trouxera num frasco. O acender da candeia foi um acto ritual, e foi iluminados por ela que os dois aman­tes, pela pri­meira vez desde há demasiado tempo, se viram nus.
Como explicar que a redescoberta dos corpos seja sempre mais comovida do que a primeira descoberta? O maravilhar-se é igual, ou sempre renovado; a urgên­cia, muitas vezes, também; mas entre a primeira vez e a segunda a inquie­tação é diferente. Ao temor do outro sucede o temor, mais nobre, do deus que no outro existe sempre. E com efeito: foi com o mais respeitoso e inquieto dos cuidados que os dois revisitaram, no corpo um do outro, os lugares do amor. Cada prega, cada textura de pele, cada recôndita mucosa exigiu ser reconhecida e saudada antes que o sexo e o riso se soltassem na noite. E os amantes acabaram por se encontrar face a face, suados, embevecidos, na imemorial posição dos casais: ela com as pernas abertas e os joelhos er­guidos e os pés fincados no colchão, e o cabelo em desali­nho sobre os olhos; ele apoiado nos joelhos e nos cotovelos para não lhe fazer peso. Foi com esta singeleza que fizeram amor: de frente, mais atentos um ao outro que ao prazer obtido.
Para a primeira fome bastou este amor convencional e doméstico, e a longa conversa que se lhe seguiu. Mas a meio da noite, quando ela o acordou, amorosa, para que a possu­ísse, já não se contentaram com tão pouco. «Funde-te em mim», exigiu Ma­riana, e isto também queria dizer «morre em mim». E ele: «És minha, entrega-te, quero-te toda, agora.» O tempo agora era de urgências irrecusáveis. Os lençóis caíram no chão, afastados por mãos impacientes. Os corpos, suados e nus, trepavam, arquejantes, por cima um do outro, no cumprimento duma tarefa estrénua e transcendente. Amaram-se assim, rudemente, sem palavras de amor, apenas com instruções pe­remptórias: «mais acima», «continua», «pára», «vira-te», «beija-me».
Quando por fim se dispuseram a dormir tinham os corpos macerados. A cama era uma plataforma de tijolo e cimento com um colchão de folhelho muito firme, como ainda hoje se fabricam alguns, e sobre este um de espuma sintética. Mariana começou a achá-la desconfortável. E com efeito vie­ram a descobrir um seixo da praia entre os dois colchões. Era um pequeno seixo muito polido e muito duro e os amantes começaram a rolá-lo preguiçosamente no corpo um do outro, numa brincadeira que era uma carícia.
O amante de Mariana amava as texturas ásperas do mundo físico: a areia grossa sob a sola dos pés, a queimadura do sol, o vento abrasivo sobre a pele, a boca seca de sede no fim das caminhadas – ou, para dizer melhor, gostava do con­traste entre as rudezas da vida e as suas branduras. Uma roupa interior cara, de al­godão macio, umas peúgas de seda, um talco perfumado, eram noutras ocasiões luxos a que se entregava com um abandono feminino. Mariana compartilhava com ele esta sensualidade bipolar. Ambos gostavam de cami­nhar como deuses no deslumbramento da praia, sem outras provisões que um livro e uma maçã, e sem outra roupa que a pele tisnada.
Esta afinidade era sem dúvida uma das raízes do sentimento que tinham um pelo outro. Miguel comprazia-se em ver nela uma princesa do mundo das fadas, capaz de sentir uma ervilha por baixo de sete colchões. Mas comprazia-se sem se iludir, num jogo um pouco perverso: quem ele amava no mundo real – que em todo o caso não é mais do que uma ficção de outro género – era esta mulher de sangue e carne que agora dormia e respirava ao seu lado, exalando um leve odor de cama quente. Era uma mulher pequena e graciosa como uma princesa oriental, habituada às massagens, ao exercício físico, à alimentação regrada. Tinha o cabelo de um castanho quase preto, brilhante de saúde, solto e comprido como o duma adoles­cente. Os olhos eram de um verde extraordinário, muito escuro. Apesar de ter tido dois filhos, era esbelta de corpo; a finura da cinta acentuava uma redondeza femini­na nas ancas e nas nádegas. O Verão ia adiantado, e Ma­riana, que passava na praia muito do seu tempo livre, tinha já adquirido o tom de chá forte que era a sua cor estival.
Quando acordou estava sozinha na cama. A janela estava aberta e na pa­rede em frente resplendecia um rectângulo de luz branca. Da cozinha vinha um cheiro de torradas. Levantou-se, puxou os lençóis para trás e foi para o quarto de banho. Depois do duche foi tomar o pequeno almoço, em roupão e chinelas de cetim. A mesa estava posta com torradas, chá, leite, manteiga e compota.
Depois da refeição, que tomaram os dois vagarosamente, e das arrumações necessárias, o amante pediu-lhe que lhe preparasse uma chávena de café.
«Mas primeiro tira as chinelas», acrescentou. «Quero que fiques descalça. E põe esta roupa.» E mostrou-lhe uma saia magnífica de cigana rica, e uma blusa branca tão transparente que ela sentiu um calor na cara à ideia de a usar na rua. De um saco saíram cachos de bijutaria, brincos, colares, pulseiras, numa profusão orien­tal. Mariana, que não gostava de enfeites, deixou-se encantar desta vez.
Mas ia ter que andar descalça? E se quisessem sair de casa?
«Não quis exigir-to antes,» disse ele. «Da última vez que to pedi – lembras-te? – não quiseste obedecer-me.» Nesse dia talvez estivesse frio, e Miguel não tinha insistido; mas exigia-lho agora.
De agora em diante, seria para ela – impensável – uma falta de respeito – usar sapatos quando estivesse sozinha com ele. Mariana bem o sabia, porque perguntava? Sem mais palavras retirou-se para o quarto. Havia muito que co­nhecia – e, é preciso dizê-lo, amava – como símbolos imemoriais de submissão, o cabelo solto, os pés nus. E de facto nunca tinha prendido o cabelo diante do amante. Mas ousara esperar que ele nunca lhe exigisse o outro símbolo, o mais penoso; e porque se furtara uma vez a esse desconforto trivial, obrigava-o agora a pôr em palavras um senti­mento que as devia dispensar.
De regresso à sala, descalça, ricamente vestida, e nem por isso contrita, Ma­riana esmerou-se em servir o homem que a amava e que agora tão explicita­mente se assumia como seu senhor. Achou uma bandeja e um pano bordado, e dispôs-lhes por cima o pires, a chávena, a cafeteira. Depois, ignorando a excita­ção que a invadia, olhou o amante de frente e perguntou-lhe se também podia tomar um café. A um sinal afirmativo foi buscar uma chávena e sentou-se-lhe aos pés no tapete, diante do sofá.
Ficou assim, sem falar, sentindo a mão do amante no cabelo, numa longa ca­rícia, até que ele a mandou pôr de pé. Quando ela obedeceu, ele levantou-lhe a saia e acariciou-lhe o sexo com a mão toda; e ela deixou-se elanguescer, abrindo um pouco as pernas. Mas ele não quis possuí-la: ao fim de uns segundos levantou-se também, segurando-lhe na mão.
«Põe o pé aqui, no ladrilho. Sente-o bem. Fecha os olhos. O que te vou pedir não é fácil.» Em Lisboa Marta não sentiria senão o frio, o descon­forto. Mas ela aqui era a Mariana, e havia muitas coisas que Mariana não podia sentir da mesma maneira que Marta. «Coisas físicas, sim,» prosseguiu Miguel. «Também coisas físicas. O chão está frio? Ora, estamos no Verão. Tenta sentir se uns ladrilhos estão mais frios que os outros. Onde passam canos, ou bateu o sol, estão mais quentes. Sentes a diferença?»
De olhos fechados, Mariana entrou no jogo. Primeiro com um pé, depois com ambos, tacteava o chão, e dava-se conta de que o pavimento artesanal era irregular na forma, nas dimensões e na temperatura; as juntas eram de espessura diferente, os ladrilhos estavam dispostos a alturas desiguais, os cantos eram mais macios ou mais vivos uns de que os outros. Era um chão nascido de mãos huma­nas, feito de barro como os homens, tão vivo e orgânico como um tapete de lã ou um soalho de pinho. Aquilo que num pavimento in­dustrial seria dureza e desa­mor, era aqui fres­cura e afago. Quem sabe quantas mulheres antes dela, quando a casa era uma pobre habi­tação de pescadores ou camponeses, teriam, descalças e humildes, acarici­ado este barro com os pés calejados? E ela, apesar de os ter tão mimosos, como poderia recusar a carícia que o barro lhe devolvia?
Mariana, que vivia a sua própria escra­vidão com serenidade e alegria, sentiu uma revolta militante contra a servidão daquelas mulheres. Há muito que tinha decidido que mais vale servir por escolha do que ser livre por acidente. Se o seu amado lhe exigia que o servisse descalça, era seu dever de escrava prestar-lhe esta homenagem. Mas o que ele não sabia é que ao fazê-lo ela estava também – noblesse oblige – a cumprir um dever de princesa, a homenagear tam­bém as mulheres que nunca tinham tido escolha, que tinham sido sempre obri­gadas a viver, desamadas e ignoradas, ao serviço duma natureza cega e duma humanidade brutal; mulheres e raparigas que nunca foram senhoras de si o bastan­te para se po­derem dar a um senhor.
Uma palavra do amante interrompeu-lhe estes pensamentos:
«Vamos.»
Mariana pegou nos óculos escuros, em toalhas de praia, no protector solar, e seguiu-o. A areia escaldava. Não havia ninguém na praia e os dois amantes pude­ram ficar nus, como gostavam, ao sol e ao vento. Quando tiveram fome co­meram fruta, e quando tiveram sede beberam pequenos goles de água tépida, como viajan­tes num deserto, de modo a que sobrasse sempre alguma para o ou­tro. Ousaram mesmo passear nus ao longo da praia – não transversalmente, como pudicamente fazem os nudistas – até uma zona coberta de seixos que magoa­vam um pouco os pés. Os seixos eram rosados como a carne, tinham uma enganadora redondeza de coisas vivas – mas Mariana sentia neles, ao pisá-los, uma inflexibilidade impie­dosa e mineral. Mas tinha aprendido em menina a procurar alianças no mundo das coisas brutas, e sabia que nestas alianças é à carne, não à pedra, que compete adaptar-se. Mariana pisou os seixos cuidadosamente, moldando os pés às suas formas. Quem sabe a que outras formas inflexíveis teria ainda que moldar o corpo?
Às cinco ou seis da tarde foram à cidade comprar provisões. No grande ar­mazém anónimo Mariana sentiu vergonha da blusa translúcida, embaraçada tanto pelo despeito oculto das mulheres como pelo óbvio interesse dos homens. Mas mais tarde, ao pôr do sol, quando saíram para jantar na intimidade de um pe­queno restaurante, foi a nudez dos pés, não a dos seios, que a fez sentir vergonha. No mundo de Marta um decote ousado era coisa normal, principalmente à noite – mas não nos lugares onde toda a gente vai, pas devant les doméstiques. Para o seu grupo social, andar-se bem vestido e bem calçado, e apresentar-se de forma apropriada à ocasião e ao lugar, sem atrair as atenções, eram regras mínimas de decência.
Mas descalça, como uma suburbana encalorada, desinibida pelo Verão e pelas férias? E que interessava? Era à beira-mar, o Verão ia quente, e a brisa soprava um ar de loucura. A noite, tépida e perfumada, convidava a que se suspendessem as regras costu­madas. Das matronas suburbanas e das turistas working class que Marta não dese­jaria imitar, nenhuma à sua roda ia sem sapatos: os hábitos estavam a mudar, e o que parecia agora estar em voga eram uns feiíssimos chinelos de piscina, verdes e pretos na maior parte. Pés nus, só os dela e os de uma rapariga alta e elegante que jantava noutra mesa. Estavam pois salvaguardadas as diferenças sociais. E de resto, não seriam ridículos estes preconceitos de casta e de gosto? Não se tinha posto ela própria, no seu hete­rónimo Mariana, no fundo de todas as escalas?
Mas mesmo neste heterónimo, e mesmo no fundo da escala, ela era quem era, tinha gosto e vontade – era, soberanamente, uma pessoa. Tentou imaginar o que seria a sua vida se não habitasse em Alvalade; se não tivesse algum êxito, ainda que modesto, como pintora; se não fosse sócia – ainda que minoritá­ria – de uma galeria de arte bem frequentada; nem fosse casada com um homem rico; e se não vivesse entre gente educada. Como seria o seu mundo se morasse no Cacém, an­dasse de transportes públicos, trabalhasse num salão de cabeleireiro, e fosse divorciada e nunca ti­vesse dinheiro? E se por mais que tentasse não con­seguisse perder peso, e se às vezes brigasse com as colegas, e se de vez em quando bebesse um cálice de licor a mais?
Se nunca tivesse lido um livro – saberia esperar da vida fanta­sia, aventura, espaço, beleza? Se pintasse o cabelo de um louro barato e impossível, se já nada lhe restasse da sua frescura juvenil, e não tivesse sabido construir na ma­turidade uma nova beleza – teria mesmo assim um sentimento tão apurado da sua própria dignidade? E se para pagar os sapatos dos filhos, que os exigiam de marca, tivesse que dormir por vezes com «um senhor muito educado, que a tratava muito bem»? E se os namorados que arranjava fossem cada vez mais falsos e mais grosseiros? E se tudo isto, a sordidez da vida, a falsidade dos homens, lhe fosse pare­cendo cada dia mais normal? Teve por um instante a tentação de construir um outro heterónimo. Um nome afrancesado, Suzete, Arlete. Mas não. Tudo o que essa loura suburbana pudesse dizer ao amante de Mariana seria falso ou supérfluo; e a sua própria obediência representaria, como expressão de amor, não uma submissão apaixonada, mas um bisonho servilismo.
De novo em casa, enquanto o amante tomava duche, tirou de um armário o roupão de pano turco e os chinelos de quarto que queria que ele pu­sesse. Na mesinha ao lado do sofá pôs uma bandeja com uma garrafa de whisky, uma taça com pedras de gelo e um copo. Depois pôs música a tocar, e quando o amante saiu do quarto de banho foi-se lavar também. Quando voltou à sala vinha nua da cinta para cima. A saia era a que ele lhe tinha feito vestir de manhã, e tinha-se ataviado como uma princesa africana, com todos os enfeites que possuía. Encontrou o amante com o copo de whisky na mão. Tinha-se servido de uma porção minúscula e esperava-a no meio da sala, cortes­mente, de pé. Mariana beijou-o na cara, bateu ao de leve com a palma da mão no sofá, para ele se sentar, e ajoelhou-se-lhe aos pés.
«Estou bonita?»
«Estás linda. Como sempre.»
Com um movimento vivo Mariana sentou-se no tapete, estendeu uma per­na, e pôs-se a examiná-la criticamente.
«Mas tenho os pés feios.»
Como resposta a esta observação obteve apenas um sorriso e uma carícia. Sentada no chão, dobrou as pernas para debaixo do corpo. Uma sombra de me­lancolia passou-lhe na expressão. Em voz baixa, sem o olhar, prosseguiu:
«Gostei que me obrigasses a andar descalça na rua.»
A música tinha parado. No silêncio que se seguiu Mariana franziu um pou­co o sobrolho. O amante, que a acariciava e beijava, mais uma vez se maravilhou com o imenso mundo, irrepetível e inexplorável, que pressentimos em toda a gente – mas que só entrevemos, com uma espécie de êxtase sagrado, nas pes­soas que amamos.
O que quer que se estava a passar no universo interior de Mari­ana atingiu subitamente um desenlace. Um sorriso desanuviou-lhe o rosto, e olhou ter­namente para o amante. Mas no fundo dos olhos, muito no fundo, muito por trás da ternura, brincavam-lhe duendes. «Era capaz de andar descalça por ti o Verão inteiro.» E começou a enchê-lo de beijos. Não quis levantar-se do tapete, nem permitiu que o amante se lhe juntasse; teve que limitar-lhe as carícias à parte de baixo do corpo. Vindos de cima, ouvia-lhe os gemidos de prazer. E de repente ouviu, numa voz clara, articulada:
«Beija-me, Mariana.»
Ouvir-lhe estas palavras tornara-se para ela, no mais íntimo de si, a mesma coisa que estar já aos pés dele, roçando o chão com os cabelos. Olhou para cima, quis dizer ao amante que lhe pertencia, que não queria mais do que servi-lo, mas ele fê-la calar: «Não fales agora. O que tiveres a dizer, di-lo com beijos.»
O que Mariana tinha a dizer exigia dela, no plano irrevogável dos actos, um gesto que nunca tinha ousado senão em imaginação. Com o sentimento de empre­ender um caminho sem regresso, inclinou a cabeça até ao chão, roçou com os ca­belos macios as pernas do amante, tirou-lhe os chinelos, e começou a bei­jar-lhe os pés, lentamente, apaixonadamente. O tempo tinha parado. De joelhos, Mariana sentiu que estava enfim num lu­gar que era o seu, onde tinha estado mil vezes, e de onde, no mais fundo da reali­dade, nunca tinha chegado a sair.
Não contente com beijar os pés do aman­te, co­meçou a chupar-lhos, a lamber-lhos, a acariciar-lhos com a face e com os cabelos, a tactear-lhes todas as texturas. Na parte de cima a pele era flexível e resistente. Na sola, era macia como a seda, ou áspera como a lixa. E ele, o que estaria a sentir? Mariana queria que as suas carícias fossem elo­quentes, que as sensações que transmitiam se articulassem numa retórica coe­rente.
E a voz dele, num murmúrio: «Beija-me, Mariana.»
Atirando o cabelo para trás, Mariana começou a beijar-lhe as pernas, a lamber-lhe os tornozelos, os joelhos, as coxas, e nesta progressão havia a mesma inevitabilidade que há em certos discursos poderosos, no momento em que toda a argumentação foi apresentada e a conclusão já é inexorável.
O amante de Mariana nunca tinha querido possuí-la pela boca. Outros o ti­nham querido antes dele, e isso tinha-lhes sido quase sempre recusado. Nas vezes que ti­nha ten­tado, Mariana – ou antes, Marta – tinha acabado por sentir a mesma náusea que sentira uma vez em criança, quando o irmão, que estava a ler a história de um orador antigo, e a pretexto de lhe curar uma inexistente gaguez, a convencera a encher a boca de seixos. Por vezes, contudo, gostava de beijar e chupar o pénis do amante, ternamente, com vagar e respeito; e era com um vivo sentimento de prazer que o sentia atingir aquele estado de pulsante intumescência que parecia um concen­trar vibrante de todas as forças da natureza. Mas uma coisa era esta firmeza da carne, animada e viva; outra era ter subitamente na boca a dureza rebarbativa e inani­mada de um corpo estranho, dum pau, duma pedra.
Mariana interrompia sem­pre a carícia antes que chegasse a este ponto. Mas agora tinha de novo diante dos olhos o sexo erecto do dono, e ia bei­já-lo como das outras vezes quando ele a deteve. Ao olhá-lo compreendeu que estava perante uma escolha: desta vez, se começasse, teria que o servir até ao fim. Nada lhe seria poupado.
Há muito que tinha decidido que mais cedo ou mais tarde acabaria por passar esta prova; mas não tinha pen­sado que fosse hoje. «Sou bem tola,» pensou. «Com medo de um sofrimento – de um incómodo – como se isso contasse para alguma coisa. Não sou eu a escrava? Porque é que o meu senhor não há-de tirar de mim o partido que entender?»
Sem mais hesitação e sem preliminares tomou o pénis na boca e começou a afagá-lo com os lábios num movimento de vaivém. Não tentou fazer-lhe com a lín­gua as carícias que sabia e de que ele tanto gostava. Desde o primeiro movi­mento procurou introduzi-lo o mais fundo possível, para estar preparada quan­do ele se descontrolasse e o quisesse introduzir todo duma vez. «Não o vou aca­riciar com as mãos,» decidiu. «Vou ficar com elas livres para o controlar um pouco.»
Pondo as mãos e os braços sobre as coxas do amante Mariana sentiu que po­dia controlar os seus próprios movimentos e também, até certo ponto, os dele. Isto deu-lhe mais confiança. Mas quando ele lhe pôs a mão na nuca, pensou que lhe ia agarrar a cabeça para se enfiar nela violentamente. Por um se­gundo entrou em pânico e quase perdeu o autocontrole que empregava em não se en­gasgar. Mas ele só queria acariciar-lhe o cabelo, e Mariana decidiu tentar ad­mi­ti-lo um pouco mais fundo. «Tenho que me manter calma e não perder o ritmo,» pensou. «Se ele me agarrar tenho que estar pronta.»
Mas o amante não chegou a agarrá-la. Em vez disso começou a mexer as an­cas para trás e para a frente, quase imperceptivelmente e sem gestos bruscos, num ritmo fluído que correspondia exactamente ao dela. Pela respiração dele, e pelas palavras quase ininteligíveis que lhe ia dizendo, Mariana sabia que estava mais excitado do que ela alguma vez o tinha sentido; mas mesmo assim não a agarrou, nem nunca lhe tocou com as mãos senão para a acariciar nos braços e no cabelo. Mariana deu-se conta que ele estava propositadamente a deixar-lhe a opção de parar quando quisesse, mas agora era ela que, por uma espécie de tei­mosia, não conseguiria parar. A pouco e pouco o mo­vimento que o amante lhe fazia dentro da boca foi ganhando amplitude, sem perder fluidez e sempre no mesmo ritmo, e a certa altura Mariana viu que já es­tavam a fazer outra coisa, já não sou eu a beijá-lo, nem eu a chupá-lo, é ele a possuir-me, pela boca, sim, apesar de não me estar a agarrar, a possuir-me como nunca imaginei conseguir suportar. E não é tão difícil, não é tão penoso como eu pensava, só algumas lágrimas, estas lágrimas, que tolice, lágri­mas de escrava, e o prazer dele, como é possível, por­que é que ele não me agarra, devia ter medo que eu o largasse, ainda bem que não me está a agarrar, se me agarrasse eu perdia o controle, de certeza que per­dia. E agora, agora, duro demais, inflexível, como uma pedra, mas ele não está a agarrar-me, está no mesmo ritmo que eu, é preciso não perder o ritmo não per­der o ritmo não vou parar ele está quase a vir-se quase a vir-se, agora, o prazer dele, olha o prazer dele. Agora.
Mariana sentiu o dono a esvaír-se-lhe na boca como se a vida se lhe es­gotasse nesse esvaimento, e recebeu-o como quem recebe a vida. Só neste úl­timo segundo é que ele a agarrou, mas antes que ela cedesse ao pânico e à náusea tudo ti­nha termi­nado. Não parou de lhe chupar e lamber o sexo enquanto o não sentiu completamente flácido. No fim ele olhou-a num deslumbramento:
«Mariana – minha escrava – meu amor – »
«Meu amo. Meu dono querido. Descansa agora. Sossega. Sou tua. Não sou? Fiz tudo bem, não fiz? Dei-te tanto prazer… Os teus olhos, se visses agora os teus olhos – »
E quando ele se recostou para trás no sofá Mariana subiu para junto dele e começou a beijá-lo ao de leve na cara e nas pálpebras e começou a falar com ele devagarinho. Passados alguns minutos o amante começou a beijá-la na boca, que ainda tinha o sabor do esperma. Mais tarde levou-a para a cama, e fizeram amor durante toda a noite com o impudor e a ternura de dois adolescentes enamorados. O dia seguinte, até à hora de partir, passaram-no a sós um com o ou­tro, enlaçados, amando-se, passeando na praia, conversando.
Ao fim da tarde desceram à cidade para tomar uma refeição. Numa banca ao ar livre uma senhora comprava uns calções para o marido, que pa­recia disposto a aceitar tudo o que ela decidisse. Era uma mulher dez anos mais nova do que Mariana, e já tinha desistido de si. Estava vestida com uma saia de enrolar so­bre um fato de banho preto e verde, da mesma cor que os chinelos. Ti­nha um passo pesado de autocrata, as costas nuas, dois vincos de gordura em diagonal sobre os rins, e o cabelo pentea­do em volume.
Mariana trazia de novo o vestido cinzento, os pés ainda nus, e na mão as sandálias brancas que havia de calçar quando estivessem quase a chegar a Lis­boa. Por um segundo olhou para a senhora que examinava, desdenhosa, a roupa sobre a banca. E, ao longo dos dois dias e meio que acabavam de passar, nunca como neste exacto momento Mariana se sentira tão escra­va, nem tão feliz.

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