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Posts Tagged ‘escrava’

– Não sei se me poderás domar…

Esta frase, meio desafio e meio apelo, dissera-lha a noiva no dia em que a pedira ao pai, no ano longínquo de 1959. Tal como ele, Helena pertencia a uma das famílias mais proeminentes da vila, mas não faltara quem o tentasse dissuadir do enlace. As comadres, sempre ciosas dos bons costumes, viam na filha do notário uma liberdade nos modos, uma sensualidade no olhar e nos movimentos, que lhes despertavam as piores suspeitas.

– Sabe muito… – rosnavam.

– Passa a vida no café…

E se alguém lhes objectasse que Helena, quando entrava no café da vila, ia sempre acompanhada pelas suas colegas do Magistério Primário, não desarmavam:

– Já foi vista a fumar, em Braga… Também o pai, é do reviralho, deve ensinar-lhe essas liberdades.

O pai de Helena, tal como o de Bernardo, estava, com efeito, conotado com a oposição a Salazar; mas enganava-se quem supusesse que ao seu liberalismo político correspondia um igual liberalismo de costumes. Pelo contrário, inquietava-se com o comportamento da filha e com os zunzuns de cujos ecos se apercebia.

Não assim os Santaclara, salazaristas fiéis, no que respeita os filhos homens. Como proprietários rurais, excediam em fortuna a família de Helena somada à de Bernardo; mas nunca nenhum deles, apesar de várias gerações terem passeado por Coimbra a sua bravata, se tinha chegado a formar. E se o filho mais velho participava na administração das propriedades familiares, já o mais novo, Leandro, empregava o seu tempo em caçadas e arruaças, nos bordéis do Porto, e na perseguição às moças da terra.

Mas disto tudo, no seu regresso a Coimbra depois de pedir Helena ao pai, Bernardo só pensava nas palavras da noiva. Porque precisaria Helena de ser domada? Nada nela indicava uma natureza selvagem, apenas uma natural vivacidade que a ele o atraía. Adolescente ainda, Bernardo tinha visto no circo um homem que tirava, com um chicote comprido, o cigarro da boca de outro; e não descansara enquanto não aprendera a manejar esta arma com a mesma destreza. Começara por procurar o próprio artista, que, depois de o avisar que o chicote que usava era uma arma letal, não se recusara a vender-lhe um dos que tinha de reserva nem a dar-lhe as primeiras lições. Depois tivera que se ensinar a si próprio, treinando horas infinitas até transformar o chicote de três metros numa extensão do seu próprio braço e dos seus próprios dedos. Ao falar em ser domada, Helena fizera com que se estabelecesse no espírito do noivo uma ligação incómoda entre esta expressão e aquilo que nunca passara, para ele, duma habilidade de circo e de um desporto.

Nem pensou no chicote quando as cartas de Helena começaram a rarear e a apresentar um certo tom de desafio ou menosprezo. Mas veio-lhe imediatamente ao espírito quando alguém veio propositadamente a Coimbra para o avisar que Helena era vista frequentemente no café com Leandro e que este se gabava junto dos amigos de se ter já gozado dela.

– Não gozou, não… Eu conheço a Helena.

– Também penso assim – respondeu-lhe o amigo. – Mas também sei como ela é insatisfeita com a vida da aldeia, e como gosta do perigo. E o Leandro é perigoso que chegue para a atrair… Anda a dizer que se apareceres por lá a desafiá-lo te enfia, desculpa, uma bala nos cornos.

Nesse mesmo dia Bernardo despiu a capa e batina, envergou o fato com que viajava entre a vila e Coimbra e meteu-se no automóvel que o pai lhe tinha oferecido por completar com distinção o terceiro ano de Direito. Chegado à vila, perguntou por Helena. Estava no café. E acompanhada de Leandro, conforme Bernardo verificou ao entrar, de chicote na mão, neste estabelecimento.

– Com que então, gozaste-te da minha noiva – disse Bernardo.

– Eu nunca disse isso – defendeu-se Leandro, enquanto Helena olhava para ele como se o visse pela primeira vez.

– E enfiavas-me uma bala nos cornos… Tens aí com quê?

– Eu nunca disse isso…

– Se não tens, arma-te e anda ter comigo cá fora. Helena, já para o meu carro.

Leandro estava armado, com efeito, mas nunca se tinha servido do revólver para outra coisa que não fosse tiro ao alvo: latas, garrafas, cães  vadios e uma vez, bêbedo, um relógio de parede no café. Saiu para a praça com a arma na mão, nauseado com a ideia de ser obrigado a um duelo. Quando viu que Bernardo não tinha à vista mais que o chicote, apontou tão atabalhoadamente que o tiro foi atingir um dos bebedouros do jardim central, fazendo com que um repuxo de água se erguesse no ar e encharcasse os circunstantes.

Bernardo, por sua vez, só tinha utilizado o chicote em alvos inanimados, mas manteve o sangue-frio suficiente para enrolar o chicote no braço direito de Leandro e puxar, fazendo-o largar a arma. Depois, de cada vez que o outro se baixava para a apanhar aplicava-lhe um golpe nas costas que o desequilibrava e lhe rasgava a roupa, tingindo-a de sangue a pouco e pouco. Quando se cansou deste jogo, fez com que a ponta do chicote se enrolasse na pistola e puxou-a para si, segurando-a na mão esquerda.

– Não dispares, Bernardo! Não o mates! Não te desgraces, homem! – ouviu gritar de todos os lados.

Mas não era sua intenção matar Leandro. Com um golpe final de chicote retalhou-lhe a face esquerda, cortando tão fundo que lhe deixou os dentes à vista.

– Levem esse desgraçado ao hospital para o coserem, antes que sangre como um porco – ordenou. – Duma bela cicatriz já não se livra.

E enquanto os colegas de farra do adversário, que não o tinham defendido antes, se precipitavam agora para o socorrer, Bernardo voltou-lhes as costas e dirigiu-se ao automóvel onde Helena o esperava, encolhida no extremo do banco corrido. Tomou a estrada alcatroada que conduzia para fora da vila, virando logo a seguir para o caminho de terra batida que levava a uma das quintas da família. Helena, que sabia a casa abandonada e meio em ruínas, arriscou uma pergunta:

– Também me vais chicotear?

– Com este chicote? Não. Retalhava-te toda.

Ao chegar ao portão meio coberto de silvas, parou o carro e tirou o bolso um canivete suíço, que abriu numa lâmina com dentes como uma serra.

– Descalça-te e vai cortar uma vergasta naqueles bambus.

– Descalça porquê?

– Por penitência.

– Quer dizer que ainda me queres?

– Veremos. Vai lá.

No interior poeirento da casa, Helena sentiu-se tão incapaz de recusar o abraço de Bernardo como seria incapaz de recusar o castigo. Quando sentiu a mão dele levantar-lhe o vestido e insinuar-se-lhe entre as coxas, abriu um pouco as pernas; mas ele só lhe afastou as calcinhas para o lado para se certificar que estava molhada e para introduzir o dedo até onde foi possível.

– Bom. Ainda estás virgem.

– Perdoa… – murmurou Helena.

– Por estares virgem?

– Por te ter levado a pensar que….

– E virgem vais continuar, até casarmos.

Mas mandou-a despir para o castigo. Tomada duma vertigem, Helena obedeceu. Quando ele terminou, mandou-a vestir e levou-a para casa. À ansiedade dos pais dela respondeu com a exigência de que a fizessem examinar por uma parteira para determinar se estava virgem. À saída da mulher, chamou-a de parte, passou-lhe discretamente para a mão uma nota de quinhentos escudos e murmurou-lhe ao ouvido:

– A quem lhe perguntar, Dona Ermelinda, conte o que viu, mas não tudo o que viu. Está-me a entender?

A mulher acenou que sim. As vergastadas no corpo de Helena ficariam em segredo. Mas Bernardo sabia que ela daria a entender a toda a gente, por alusões e silêncios, que ele não era homem para sofrer vexames.

Faltava combinar o casamento. A sós com Helena, Bernardo ordenou:

– Quando fores combinar a data com o padre, vais confessar-te. Vais pedir-lhe a absolvição pelo escândalo que provocaste e vais pedir-lhe que te dê a penitência de casar descalça.

– Descalça, Bernardo? Vou morrer de vergonha!

– Não vais. Quando chegar o dia, já toda a vila se terá habituado à ideia. Ou pensas que a modista vai guardar segredo, como o padre?

– Está bem… Mas vou de branco, não vou? Isso ainda mereço…

– De branco, e de flor de laranjeira.

Na noite de núpcias, antes de a penetrar, Bernardo avisou:

– Vai doer.

– Tanto melhor – respondeu Helena. E depois de ele gozar nela:

– Tua escrava… Meu Senhor.

Agora, passados mais de cinquenta anos, recordando isto tudo, Bernardo sorriu. Quase todas as personagens desta história tinham já morrido: Leandro, a parteira, o padre, a modista, os pais de Helena. A própria Helena, seu único amor. E a ele poucos meses restavam de vida: se se cumprisse a promessa do médico, em breve se juntaria a ela.

Durante décadas, os filhos e os netos tinham encarado com naturalidade o hábito de Helena andar sempre descalça em casa. E os vergões da vergasta, frequentemente renovados, tinham permanecido o seu segredo de amantes.

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Passeando por Praga, deparei com uma exposição do fotógrafo Jan Saudek, autor da imagem que volto a publicar depois de o ter feito antes sem saber de quem era. Fiquei contente com a possibilidade que o acaso me deu de corrigir o meu erro; e a visão duma obra tão original nos temas e nas técnicas constituiu um dos pontos altos da minha viagem à República Checa.

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brand-st-05-cCap. 35: FERRO EM BRASA

[ … ] Raul não ficou surpreendido quando Teresa se ajoelhou à sua frente trazendo nas mãos um embrulho com cerca de setenta centímetros de comprimento. Ao abri-lo, deparou com uma caixa em couro que tinha na tampa o mesmo símbolo que Teresa exibia no piercing do umbigo: uma elipse longa, aberta nos extremos, em que se inscreviam as iniciais RM [ … ]. A caixa era um estojo, e alojado nele encontrava-se um ferro de marcar gado: um belo objecto, com o cabo em raiz de nogueira, uma haste em aço inoxidável, e na ponta o mesmo design que estava gravado na tampa. Raul tirou o ferro do lugar: lá estava a elipse, lá estavam as iniciais do seu nome [ … ]. Gravadas ao longo da haste, podiam ler-se as palavras Made in the USA by Unionized Labor. Um ferro de marcar gado, pensou Raul; e a sua única propriedade a que se podia chamar gado estava ali mesmo, ajoelhada à sua frente, perscrutando-lhe o rosto.

– Este ferro – disse Raul – és tu a dizer-me que não passas duma cabeça de gado.

– E acaso sou mais do que isso? – perguntou Teresa. – Acaso desejo ser mais do que isso?

Teresa, implacável Teresa. Lúcida, consistente, intransigente Teresa. Incapaz de um eufemismo.

[ … ]

– Tens a certeza? – perguntou Raul. – É isto que queres?

– Há muito tempo que tenho a certeza, meu senhor.

– Não podia ser uma tatuagem? Seria permanente na mesma, e dar-me-ia um prazer igual.

– Perdoa, meu senhor – disse Teresa – mas desta vez não é do teu prazer que se trata.

Raul ergueu uma sobrancelha:

– Nem do teu, espero?!

– Não, meu senhor – disse Teresa. – Do meu, ainda menos. Posso contar-te uma coisa? Quando foi o incêndio no Luna Rossa… O Ettore e eu tínhamos combinado que no dia seguinte eu ia fazer uma tatuagem, um “T” de “Tedeschi”. Mas houve o incêndio, e tudo mudou. Anos mais tarde, quando começou a parecer-me possível voltar a ter um senhor, veio-me um pressentimento, uma certeza, sei lá, que se isso acontecesse ele me marcaria a fogo. Essa certeza manteve-se sempre, mas começou a estar cada vez menos presente no meu espírito… até ao incêndio do Red Moon, que trouxe tudo de volta. E agora esse senhor és tu. Falei em pressentimento, mas exprimi-me mal, não é bem isso: é como se essa marca já estivesse invisível no meu corpo desde o Luna Rossa e tivesse chegado agora a altura de a tornar visível. Uma tatuagem seria uma falsificação, um sucedâneo.

E para ti, pensou Raul, um sucedâneo é tão desprezível como um eufemismo…

– O teu domínio queima, meu senhor – prosseguiu Teresa. – Sempre senti isso. Um bocado de tinta aguada não me designaria como coisa tua. Mas uma marca a fogo no meu corpo transformar-nos-ia [ … ].

Mais um risco a correr, portanto, pensou Raul. Todas as fichas numa jogada. Porque não me pedes antes que arrisque a minha vida? Arriscá-la-ia por ti, de bom grado.

– Já pensaste na dor que vais sofrer? – perguntou.

– Há meses que penso nela, meu dono, e morro de medo. Mas o medo não é importante.

– Vai ser muito, muito pior que qualquer chicote. Estás preparada para isto?

– Não, meu senhor, mas estarei na altura. [ … ]. Para mim, ser marcada pela tua própria mão seria a maior felicidade do mundo. Quando Manfredi mandou marcar a Chiara…

– A Chiara está marcada a fogo?

– Está, sim, meu senhor. Foi marcada nos Estados Unidos, o Avvocato não quis ser ele a fazê-lo…

Nos dias que se seguiram, Raul teve que decidir o que faria. Marcar uma escrava com um ferro em brasa era uma ideia que sempre se tinha situado, para ele, no campo da fantasia. Neste campo, dava-lhe prazer. Mas agora era chamado a considerar essa ideia como uma possibilidade real [ … ]. Agora que tinha que decidir, tinha que se interrogar. A questão menos importante era se a perspectiva lhe dava prazer: admitia que sim, mas era um prazer sem o qual podia bem passar, e enormemente desproporcional à dor de Teresa. Traria este acto algum benefício para Teresa, para ele próprio, ou para os dois? Se o trouxesse, seria enorme; mas também o custo seria enorme, se o acto se revelasse desastroso. Tinha ele a coragem necessária? [ … ] O processo era seguro? Estava sujeito a consequências indesejadas? Que precauções exigia? Como se executava na prática? Raul ignorava isto tudo, e não ia marcar Teresa a ferro quente sem estar completamente seguro do que fazia.

[ … ].

Ao mesmo tempo que se entregava a esta introspecção, Raul procurava obter toda a informação objectiva que o pudesse ajudar. O primeiro elemento desta informação, encontrou-o logo na embalagem do ferro: uma folha de instruções pormenorizada, que contemplava não só a utilização do instrumento em animais, mas também em seres humanos. Na Internet, a informação que encontrou era incompleta e contraditória: não podia fiar-se nela. Não podia perguntar a um médico, por razões óbvias. [ … ]. Telefonou a Manfredi, que confirmou a importância que este ritual teria para Teresa. Compreendia as dúvidas de Raul, simpatizava com elas, mas só podia ajudar na vertente prática: queria Raul que ele, Manfredi, lhe aparecesse no Porto acompanhado por um especialista de confiança? Raul respondeu que sim, mas que se reservava, até ao último minuto, a escolha de abortar a operação.

Of course – respondeu Manfredi [ … ].

Entretanto, a vida prosseguia. Menos de uma semana depois de regressar do Brasil, Teresa voltou às aulas de pompoar. Muitas colegas suas estavam já adiantadas nos exercícios com vibrador, mas Teresa voltou atrás por recomendação da professora, e na primeira aula fez exercícios sem instrumentos e com bolas ben-wa. Achou esta precaução exagerada: nessa tarde, quando chegou a casa, introduziu na vagina o vibrador ligado. Para sua surpresa, sentiu um pouco de dor, devida talvez ainda à colocação dos piercings; mas aquele outro sofrimento que tanto se parecia com prazer tinha desaparecido quase por completo. Se consigo meter este, pensou, mais facilmente meterei o óvulo, que é mais pequeno… Tomou uma decisão: no dia seguinte, antes de sair para a aula de dança do ventre, introduziu na vagina o óvulo de controlo remoto. Entregou o controlo a Ana e pediu-lhe que carregasse algumas vezes no botão, o mais possível de surpresa, enquanto a lição durasse [ … ].

– Quando é que chega o homem do gado? – perguntou Ana depois da aula.

– O quê? – disse Teresa.

– Poça! Gado rachado, como nós as duas. O americano que marca gado rachado.

Teresa não pôde deixar de se rir da formulação escolhida por Ana.

– Chega amanhã de manhã, via Newark. Vai o Raul buscá-lo com o Avvocato.

– O Avvocato está cá? Gostava de o conhecer.

– Chega logo à noite, com a Chiara.

– E tu, estás preparada?

– Quem é que pode dizer que está preparado para uma coisa destas? – disse Teresa. – Claro que não estou preparada: estou aterrorizada. Mas o que manda não é o meu terror, é a minha vontade.

– A tua? – disse Ana. – Não é a do teu dono?

– A minha vontade subjuga-se à do meu dono [ … ]; mas se a minha vontade não fosse mais forte que o meu medo, pensas que poderíamos levar isto por diante?

[ … ].

O americano chamava-se Zebediah Pyke. Vinha de sapatilhas, blusão e boné de baseball; só o rosto, talhado a machado, e a pele curtida, faziam lembrar [um cowboy]. Trazia uma quantidade enorme de bagagem, muito mais do que seria de esperar para uma estadia de quatro dias. Reconheceu imediatamente Manfredi e saudou-o com um “Hi, Orrie” que deixou o Avvocato imperturbável.

Hi, Zeb – respondeu. – This is Raul Morgado. Raul, o Zeb chama-me Orrie porque o meu nome próprio é Orazio.

Isto era novidade para Raul, que simpatizou com o à-vontade de Zeb.

Hi, Raul – disse o americano, pronunciando “Rol”; e apertou-lhe a mão com firmeza.

[ … ].

No apartamento, passaram à conversa séria. Primeiro: sabia Teresa o que estava planeado e no que consistia? Então que o descrevesse pelas suas próprias palavras. Consentia nesse procedimento? Consentia em que a marca lhe fosse aplicada por Raul, apesar de aconselhada em contrário? Sabia que o processo era extremamente doloroso? Teresa respondeu que sim a tudo, e Zeb pediu-lhe que assinasse um documento nesse sentido. Quanto a Raul, Zeb tinha sido informado que ele se reservava o direito de abortar o procedimento até ao último minuto; mas, caso o fizesse, teria que o pagar na mesma por inteiro. Estava de acordo? Raul respondeu que sim. Zeb faria todos os esforços para que Raul adquirisse a competência necessária para marcar a sua escrava; mas se no fim não o considerasse competente, marcá-la-ia ele próprio, ou sairia sem se responsabilizar pelo que acontecesse a seguir. Estava Raul também de acordo com isto?

Raul pediu um momento para falar a sós com Teresa e retirou-se com ela para o escritório [ … ]. Quando regressaram à sala, Raul perguntou se podia ver a marca de Chiara.

– Mostra – disse Manfredi à mulher.

A Dottoressa Chiara Manfredi era uma senhora elegante de meia-idade, com o cabelo louro cortado à pajem, deixando a nuca a descoberto; naquele dia, trazia blusa de seda, saia pelo joelho, um pouco travada, e sapatos rasos: era em tudo uma profissional discreta, uma académica respeitada. Sem hesitar nem perder o aprumo, desapertou um fecho ao lado da saia e tirou-a pelos pés, desvendando umas calcinhas brancas rendadas. Quando as baixou, Teresa compreendeu porque nunca lhe tinha visto a marca: eram apenas duas pequenas iniciais, OM, em estilo cursivo e sem bordadura. Estavam inscritas na púbis depilada, onde qualquer biquíni reduzido as esconderia. Era uma marca bonita, um pouco em relevo e apenas mais rosada do que a pele em redor; e o lugar em que estava gravada também era bonito: um monte-de-vénus mais saliente e rechonchudo do que a magreza de Chiara faria prever.

A um sinal de Manfredi, Chiara vestiu-se de novo. Zeb perguntou se podia ver o ferro [ … ]. Ainda bem que a elipse era aberta nas pontas e que o arco do R era também aberto. Isto reduzia o risco de que a pele não queimada viesse agarrada quando o ferro fosse retirado [ … ]. O tamanho da marca limitava os lugares onde podia ser aplicada: com dez centímetros de largura e sete de altura, teria que ser nas nádegas. O melhor lugar seria a parte de cima, um pouco abaixo dos rins, mas este não era um lugar discreto: seria visível quando Teresa usasse um biquíni ou qualquer peça de roupa muito decotada atrás.

– Não me importa a discrição – respondeu Raul. – Uma marca é para se ver. Vamos marcá-la aí.

[ … ].

Para essa tarde, Zeb ia necessitar de um espaço onde se pudesse acender um fogareiro. Depois de verificar que o apartamento de Raul dispunha de um terraço adequado no último andar, quis saber se o mesmo existia no lugar onde ele pensava marcar Teresa. Raul telefonou à Baronesa e ela assegurou-lhe que o Justine dispunha dum pequeno espaço nas traseiras e de um fogareiro. A questão seguinte, disse Zeb, era onde amarrar Teresa: teria que ficar perfeitamente firme e imóvel [ … ]. Raul levou-o ao quarto dos castigos e mostrou-lhe o móvel que mandara fazer: uma mesa de comprimento igual à altura de Teresa e largura igual à das suas ancas, com aros de latão a toda a volta e uma ranhura funda na espessura do tampo. Tal como as outras peças de mobiliário, estava aparafusada ao chão. Milena foi despachada para comprar a fita de embalagem autocolante que era necessária para a primeira lição de Raul: como prender a sua escrava de modo a que ficasse perfeitamente imóvel. Enquanto esperavam, Teresa, meio perdida num nevoeiro de apreensão, só prestou atenção a Chiara, quando esta contou como tinha sido marcada. Tinha sido num rancho perto de Houston. Tinham-na levado para um telheiro e amarrado a uma banca de barriga para cima. Zeb interrompeu para dizer que essa era a sua posição preferida para marcar a fogo uma mulher, porque era aquela em que era mais fácil e mais rápido prestar-lhe os primeiros cuidados depois de a marcar. Orazio, continuou Chiara, decidira vendar-lhe os olhos. Depois tinha-se sentado junto dela, falando-lhe baixinho ao ouvido, chamando-lhe nomes ternos, fazendo-lhe perguntas sobre recordações passadas. Chiara não conseguia deixar de pensar no ferro em brasa, mas, quando Manfredi insistia nas perguntas, tinha que fazer um esforço para lhe responder: só isto a tinha impedido de se entregar ao pânico. A dor tinha sido a pior que jamais sofrera, mas tinha passado; e a marca era tão bonita, não era? Teresa reconhecia vagamente que a marca era bonita; mas aquela dor terrível, que já tinha passado para Chiara, estava ainda seu no futuro [ … ]. Não duvidava, nem da sua coragem, nem da de Raul. Chegado o momento, tinha a certeza que Zeb autorizaria que o seu dono a marcasse pela sua própria mão; acreditava apaixonadamente que o que se ia fazer era o melhor para Raul e para si própria; mas não se podia impedir de ficar ensimesmada como um soldado na trincheira, nas horas que antecedem o ataque.

Quando Milena chegou com a fita autocolante, Zeb pediu-lhe que começasse a preparar o braseiro, tarefa esta em que Chiara se propôs ajudar. A Raul, a Teresa e ao Avvocato, pediu que o seguissem até ao quarto dos castigos e levassem o ferro. Pediu ainda a Teresa que se despisse e se deitasse na banca de barriga para baixo com as pernas um pouco afastadas. Para o que iam fazer a seguir, não era preciso amarrá-la, mas esta era a posição em que tudo ia acontecer. Antes de mais nada, Raul tinha que aprender a pegar no ferrol: os dedos firmemente à volta do cabo de madeira, segurando-o virado para baixo. Raul pôs-se do lado em que queria marcar Teresa, que era o esquerdo, e segurou o ferro por cima dela com a haste em posição vertical. Não, disse Zeb: o ferro tem que ficar perpendicular à pele e não ao tampo da mesa. Raul que reparasse: ali, onde ele queria a marca, o corpo dela tinha um declive.

Raul aproximou o ferro da nádega de Teresa, mas Zeb disse que era demasiado perto. Se parasse o ferro ali, Teresa sofreria inutilmente, porque sentiria a queimadura com antecedência. Devia pôr o ferro em posição um pouco acima, aí a quatro polegadas. Quatro polegadas era o quê? Dez centímetros? Raul tentou executar à letra as instruções de Zeb, que não pareceu insatisfeito com o primeiro resultado. Manfredi, que os estava a observar, reparou que o americano estava tão atento às expressões e à linguagem corporal de Raul como ao seu desempenho. Está à procura de sinais de nervosismo excessivo, pensou. Mas em parte estava enganado: Zeb estava também atento a sinais de nervosismo insuficiente. Se os notasse em Raul, abortaria o processo da mesma maneira que o abortaria por nervosismo a mais.

Depois de treinar duas ou três vezes o posicionamento inicial, era altura de treinar o contacto entre o ferro e a carne. Primeiro o movimento, que tinha que ser rápido, preciso, uniforme e em linha recta. Depois a pressão adequada: firme, mas não exagerada. Não, assim não chegava. Não, assim era demais. Assim estava bem, podia repetir. Depois, a duração: três segundos no mínimo, no máximo cinco.

– E como é que decido entre três e cinco? – perguntou Raul.

Good question – respondeu Zeb. – Viu a marca de Chiara? Quando a fiz, mantive o contacto por três segundos. Se quer que a sua escrava fique com uma marca mais nítida e mais escura, deve manter o contacto por quatro ou cinco segundos; but let me have another look at the iron.

Revirou o ferro nas mãos, medindo com os olhos todos os espaços entre as linhas, e concluiu:

– Quatro segundos é melhor. Com cinco, podíamos ter problemas ao retirar o ferro.

[ … ].

Quando Zeb se deu por satisfeito, passou à lição seguinte: como amarrar Teresa. O objectivo, explicou, era segurá-la de modo a que lhe fosse de todo impossível mover as nádegas, mas de modo também a que fosse possível libertá-la instantaneamente em caso de necessidade.

– E de onde pode provir essa necessidade? – perguntou Raul.

A necessidade podia provir de Teresa entrar em estado de choque. Se isto acontecesse, seria preciso prestar-lhe os primeiros socorros adequados. Se estes não resultassem, o que era muito improvável, seria preciso prestar-lhe os cuidados médicos que ele, Dr. Zebediah Pyke, diplomado pela Harvard Medical School, e membro da American Medical Association, estava habilitado e equipado para prestar.

– Equipado? – perguntou Raul. – Quer dizer que tem medicamentos nessa maleta?

– Medicamentos e outras coisas, tudo documentado de modo a passar na alfândega na mais absoluta legalidade. Don’t worry.

– Mas se a Teresa entrar em choque…

– Não vou entrar em estado de choque nenhum – disse Teresa, com tão absoluta segurança que ninguém ousou acrescentar uma palavra a este pronunciamento.

– Continuemos – disse Raul por fim.

Zeb ordenou que Teresa mantivesse os braços cruzados a fazer de almofada. Nesta posição, atou-lhe os antebraços um ao outro com duas voltas de corda rematadas por um simples laço. Usou os mesmos laços de puxar pela ponta para lhe prender os cotovelos e os pulsos a dois aros de latão. Qualquer pessoa poderia desamarrar Teresa em segundos, ou ela própria em minutos. Raul e Manfredi acharam este sistema demasiado frágil para imobilizar completamente uma pessoa, mas não disseram nada. Zeb explicou que nesta fase não lhe interessava a imobilidade completa de Teresa, mas sim definir a sua posição: o importante era que os nós pudessem ser desfeitos instantaneamente.

– Não vou mesmo entrar em estado de choque – disse Teresa.

Raul e o Avvocato, que a conheciam, começaram a acreditar nela, mas Zeb prosseguiu como se ela não tivesse falado. Atou-lhe os tornozelos com a mesma desenvoltura com que lhe tinha atado os pulsos; bastaria que ela se debatesse um pouco para ficar livre. Atou-lhe a parte superior de cada coxa ao aro de latão mais próximo, e depois a parte inferior, junto ao joelho.

Fourteen granny knots – disse Zeb, como que falando consigo mesmo – Catorze lacinhos. Conte-os você mesmo, Orrie. Quantos são?

Orazio Manfredi obedeceu conscienciosamente e concluiu:

They’re fourteen alright, Zeb.

Very well – disse o Dr. Zebediah Pyke. – Se eu der a ordem de desatar, não pense noutra coisa que não seja em desatá-los, e depressa. Comece pelos braços. OK?

That’s OK, Zeb.

O que verdadeiramente ia segurar Teresa era a fita adesiva. Zeb começou por lhe prender a cintura, dando várias voltas por cima e por baixo da banca. Depois prendeu-lhe a pélvis, as coxas e os ombros, por baixo dos braços. Quando Zeb lhe mostrou o X-acto que tinha pousado na banca, Raul compreendeu que as ranhuras no rebordo eram para que a fita ficasse em falso e fosse possível cortá-la num segundo. Com Teresa assim amarrada, Zeb quis que Raul repetisse o treino com o ferro.

– Sente a diferença? – perguntou.

Raul sentia uma diferença, com efeito. A inclinação da pele era agora ligeiramente diferente. Também a consistência da carne, assim amarrada, era outra: era preciso um pouco mais de força.

O treino da manhã terminou assim. Milena serviu o almoço. Zeb levantou-se algumas vezes para ir ao pátio ver como estava a progredir o braseiro, juntando-lhe eventualmente mais um pouco de carvão. O aço é um mau condutor do calor, o que significa que é difícil aquecer a zona de queima até uma temperatura uniforme. Zeb rejeitou a sugestão de aquecer o ferro nos bicos de gás: umas partes ficariam quentes demais enquanto outras não o ficariam o suficiente. O melhor processo era o braseiro: introduzir a zona de queima no meio das brasas, deixar de fora a maior parte da haste, virar o ferro periodicamente e esperar até que a zona de queima apresentasse uma cor entre o cinzento escuro e o vermelho. Enquanto o ferro aquecia, trouxe para o quarto dos castigos umas almofadas em cabedal muito fino.

– Tome o peso a isto – pediu ele a Raul, passando-lhe para as mãos uma delas.

– É pesada – disse Raul.

Era pesada porque estava cheia de silicone de modo a imitar a consistência do corpo humano. De cada vez que Zeb treinava alguém, destruía várias destas almofadas, e esta era uma das razões por que os seus serviços eram tão caros.

– Estou a ver – disse Raul.

Zeb pediu-lhe que fosse buscar o ferro que estava a aquecer no pátio; Raul que não se apressasse: durante o percurso, o ferro quase não perderia calor. Entretanto prendeu uma almofada à banca e, quando Raul regressou, disse-lhe:

Here’s your female. Agora marque-a.

Raul fez tudo errado. Não pôs o ferro na posição correcta nem à distância certa, aproximou-o numa linha irregular, que tentou corrigir tarde demais; suou, a mão tremeu-lhe, e ao fim dos quatro segundos retirou o ferro com um movimento hesitante, como que a medo.

I’ve seen worse – foi o único comentário de Zeb.

Mas a Raul pareceu-lhe que era impossível pior: a marca que tinha deixado na almofada era uma coisa feia e informe. A ideia de que Teresa pudesse passar o resto da vida com semelhante deformidade no corpo punha-o doente. Enquanto o ferro voltava a aquecer, passou em revista os seus erros. Na almofada havia ainda espaço para mais duas ou três tentativas: a segunda resultou muito melhor do que a primeira, mas ainda assim Zeb teve um defeito a apontar:

– Está a ver aqui a linha indistinta? É onde a sua mão tremeu durante o contacto. Terá que fazer muito melhor para eu o deixar aproximar-se duma mulher a sério.

Quando Raul conseguiu dez marcas perfeitas seguidas, Zeb deu o dia por concluído e explicou-lhe como se limpava o ferro [ … ].

Nessa noite, Raul parecia sentir uma fascinação especial pelas nádegas de Teresa e ela pelas mãos dele, que beijou mais vezes nessa noite do que habitualmente numa semana. Depois de se terem abraçado e beijado longamente, e quando Teresa, já toda aberta e molhada, se preparava para receber na vagina o seu senhor, ouviu-o dizer:

– Dá-me o teu cuzinho, escrava…

Com um gemido que era ao mesmo tempo de ansiedade e frustração, Teresa procurou na mesinha de cabeceira o frasco de gel. Ela própria lubrificou o pénis do dono, mas, quando lhe ofereceu o frasco, ele recusou, dizendo:

– Faz tu, escrava.

Guiando-se só pelo tacto, Teresa aplicou o gel no seu próprio ânus, tendo o cuidado de não se atrapalhar com a pressa: se ficasse mal lubrificada, seria ela a sofrer. A penetração foi dolorosa, como ela esperava, e Raul não lhe acariciou o sexo enquanto a possuía por trás; e contudo, pela primeira vez na vida, sentiu nesta penetração prazer suficiente para a levar a um orgasmo.

– Meu senhor, posso vir-me?

Raul, um pouco surpreendido, autorizou-lhe o clímax e, quando lhe sentiu os primeiros espasmos, esvaiu-se também dentro dela.

O dia seguinte começou com várias repetições do amarrar e desamarrar de Teresa. Durante a tarde, Raul treinou com o ferro quente, destruindo mais umas tantas almofadas de silicone. As marcas saíram todas perfeitas, apesar de Raul continuar a dar alguns sinais de nervosismo. Agora que tivera tempo para pensar, o Avvocato entendia porque é que Zeb preferia um Raul ligeiramente nervoso a um Raul perfeitamente calmo: é que na hora da verdade não estaria calmo de certeza, e apesar dos nervos teria que fazer bem o seu trabalho. Ao fim da tarde, Zeb deu-se por satisfeito: declarou que ia aproveitar a manhã do dia seguinte para conhecer um pouco o Porto e despediu-se. Às seis da tarde de sábado, alguém o iria buscar para o levar ao Justine, onde daria a Raul um ligeiro treino final antes da cerimónia, que teria lugar às nove e meia. Estariam presentes, como testemunhas: bondarina e o seu Dono; a Baronesa e o seu submisso; kathy e o seu Dono; Ana e Miguel; a professora de dança do ventre de Teresa – que esta, num impulso de última hora, se atrevera a convidar, e que, para sua surpresa, aceitara; Orazio e Chiara Manfredi; e Carolina, que adivinhara que algo do género estava para acontecer e pedira para assistir.

No sábado, a seguir ao almoço, Igor apresentou-se em casa de Raul, acompanhado pelo submisso da Baronesa, para ajudarem a desaparafusar a banca e a pô-la na carrinha alugada. O submisso da Baronesa, apesar do seu aspecto frágil, e o Avvocato, apesar da idade, ajudaram; e pouco depois a banca estava no Justine, aparafusada ao chão no lugar que ocuparia de futuro.

Enquanto Zeb e os convidados não chegavam, Teresa foi o centro das atenções. Igor, bondarina, a Baronesa, Raul, todos a rodeavam e mimavam, arrancando-lhe um débil sorriso ou uma curta frase. Às seis, chegaram o Avvocato e Chiara trazendo Zeb. Às nove, prepararam-se para a chegada dos convidados: competiria a Teresa recebê-los e a cumprimentá-los à porta, toda nua por baixo duma capa comprida, segura no pescoço só por um botão. Às nove e meia, o braseiro, no pátio, estava aceso; e o ferro de marcar gado estava à temperatura certa. Zeb, ao chegar, disse que era seu dever perguntar a Raul se queria Teresa anestesiada. Teresa, muito pálida, acenou que não com a cabeça, e Raul recusou a oferta. Zeb perguntou se podia, nesse caso, dar-lhe um sedativo que não a poria a dormir mas lhe reduziria o medo. Teresa voltou a acenar que não, mas desta vez Raul aceitou. A Baronesa pôs música a tocar – Canto Gregoriano – e os convidados sentaram-se. Teresa dirigiu-se para junto da banca, tirou a capa, que entregou a Chiara, ajoelhou-se nua aos pés de Raul para lhe beijar as mãos e os pés, e ergueu-se de novo. Na sala, ninguém falava. Do outro lado da banca, estava Zeb, e junto ao topo o Avvocato: Teresa fez uma vénia a cada um e disse-lhes “obrigada por tudo” em voz sumida. Depois deitou-se de bruços na banca, onde os três a amarraram e amordaçaram. Zeb procurou-lhe uma veia nas costas da mão. Teresa sentiu a picada e logo depois sentiu-se relaxar: dava-se conta de tudo, mas tudo parecia muito longe.

Os dados estão lançados, pensou Raul. Rien ne va plus.

Chiara dirigiu-se ao pátio, de onde voltou para anunciar que o ferro estava pronto. Teresa não viu o sinal de Zeb: viu Raul sair do seu campo de visão e ouviu-lhe os passos no regresso, rodeando a banca pelo lado oposto. Não viu o ferro, mas imaginou-o, a haste em aço claro, a ponta vermelha-escura. Começou a respirar o mais devagar e o mais profundamente que podia, como lhe ordenava Zeb numa voz calma, quase hipnótica. Sentiu Raul de pé, junto ao seu flanco esquerdo; de onde ele estava, irradiava o calor do ferro, que ela sentia à distância. Esta sensação de calor intensificou-se subitamente: agora era quando ele punha a superfície de queima em posição. Teresa procurava manter a respiração funda e lenta que Zeb lhe prescrevera, quando de repente a trespassou uma dor imensa que lhe fez perder a vista, que lhe endoidou a vista e a fez ver a sala toda branca, como se a luz de mil sóis a tivesse inundado. Ouviu, muito ao longe, a voz de Raul, que contava até quatro. Não sentiu a retirada do ferro, nem reparou quando Zeb lhe levantou as pálpebras para lhe ver os olhos. Antes de a desamarrarem, puseram-lhe um penso. A dor abrandou. Depois sentiu a picada duma injecção na outra nádega: é para a dor, disse Zeb. Passado um bocado, a dor abrandou mais um pouco.

Perfect – disse Zeb.

Se alguém viu Teresa sorrir um pouco neste momento, por certo não acreditou nos seus olhos. Mas ela sorriu porque tinha um segredo: Raul tinha passado o teste a que ela o sujeitara. E ela própria também. O que era uma queimadura, por dolorosa que fosse, comparada com isto? Mas a dor ainda era intensa. Teresa descobriu que, se voltasse a respirar fundo e lentamente, a dor se tornava mais fácil de suportar. Começou a tomar uma consciência mais nítida das coisas. Alguém a beijou no rosto: era Chiara. Depois Raul, muito pálido:

– Estás bem?

Teresa tentou um sorriso:

– Estou bem.

[ … ]

– Amo-te muito, minha escrava – disse Raul.

Teresa sentiu o coração a bater com mais força, e Zeb, que lhe tomava o pulso e olhava para o relógio, sorriu levemente.

– Amo-te tanto, meu dono!

E todos a devem ter ouvido, porque o ambiente da sala mudou: estava agora mais enfeitado de sorrisos, como se todos os presentes partilhassem um triunfo.

– Vamos sentá-la – disse Zeb.

Com várias mãos a ajudá-la, Teresa sentou-se na banca onde tinha sido marcada.

– Põe a cabeça entre os joelhos e respira fundo.

Passado um bocado, perguntaram-lhe se conseguia levantar-se e ela fez que sim com a cabeça. Lentamente, conduziram-na para uma cadeira onde a sentaram, ainda nua, e lhe lançaram uma manta por cima.

– É preciso vesti-la – disse alguém.

Give her time – respondeu Zeb. – Daqui a pouco, ela própria vai conseguir vestir-se.

Mediu-lhe a tensão arterial, os batimentos cardíacos e a temperatura: estava tudo normal. Teresa olhou à sua volta: onde estava Carolina? Viu-a de pé, pálida, a suar e agarrada às costas de um sofá para não cair.

– A minha irmã não está bem, ajudem-na.

Em dois passos rápidos, Zeb pôs-se junto de Carolina, sentou-a e agachou-se para lhe ver os olhos.

Can you see me? Who am I? – perguntou.

– Zeb – disse Carolina.

Zebediah notou como a respiração se normalizava e como a cor lhe voltava ao rosto.

– Tragam-lhe um pouco de água – ordenou.

Depois fez-lhe os mesmos exames que fizera a Teresa.

She’s gonna be alright – concluiu.

Quando Teresa se sentiu melhor, pediu a bondarina que a ajudasse a vestir-se e que a trouxesse depois para junto da irmã.

– Deixem-nos um momento sozinhas – pediu.

Do outro extremo da sala não se podia ouvir o que estavam a dizer; mas, pelos gestos e expressões, a conversa pareceu dividir-se em várias fases: primeiro, Carolina pegou na mão de Teresa; depois pareceram zangadas; a seguir foi Teresa a pegar na mão de Carolina; por fim abraçaram-se, e Carolina desatou num choro desabalado que só pouco a pouco, sob os beijos da irmã, foi acalmando. Por fim, à hora de abrir o clube e deixar entrar os clientes, estavam as duas numa conversa amena: igual, para quem visse, a qualquer outra conversa entre duas irmãs que se dão bem.

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Arminda tinha a chave do apartamento da filha, mas raramente lá ia sem ela lá estar, e nunca sem autorização. Um dia, Joana pediu-lhe que passasse por lá e lhe levasse uma pasta que lá tinha; depois, quando jantassem as duas, poderia entregar-lha, evitando assim que ela tivesse ir a casa primeiro.

– Depois de jantar ainda vais para a Faculdade?

– Tenho que ir – respondeu Joana. – Há uma coisa que tem que ficar pronta ainda hoje.

Arminda pegou na pasta e já vinha a sair quando uma curiosidade súbita a levou a voltar para trás e ir espreitar o quarto. E viu, sobre a cama, uma vergasta. Era vermelha, revestida dum tecido que parecia o das velas dos barcos. O punho era de cabedal preto, em tiras entrançadas. Na ponta tinha outra tira de cabedal, dobrada sobre si própria. Estava atada a meio com uma fita de seda preta que formava um laço e a identificava como um presente.

O laço foi o que mais a chocou.

Conduziu o carro até casa tentando controlar o batimento do coração, concentrando-se no trânsito, tentando imaginar toda a espécie de explicações inocentes para o que tinha visto; mas não conseguiu imaginar nenhuma.

– Ouve lá – disse à filha, mal ela lhe entrou em casa. – O que é aquilo que estava em cima da tua cama?

Joana nem se deu ao trabalho de perguntar à mãe com que direito lhe tinha ido meter o nariz no quarto.

– É uma vergasta, mãe – respondeu serenamente.

– Que é uma vergasta, sei eu. O que não sei é o que está a fazer uma vergasta em cima da tua cama. Foi o Rui que ta deu?

– Não, mãe; eu é que a vou dar ao Rui.

Arminda retirou-se de rompante para a cozinha. A filha seguiu-a e começou a ajudá-la em silêncio.

– Nunca pensei que o Rui tivesse essa tara de ser vergastado. Nem nunca pensei que uma filha minha se prestasse a essas poucas-vergonhas.

Joana suspirou. Não devia ter deixado a vergasta tão à vista, mas a verdade é que nem sequer se lembrara. Alguma vez teria que ter esta conversa, mas não esperava tê-la tão cedo; e era muito difícil.

– O Rui não gosta de ser vergastado, mãe. Quem vai ser vergastada, sou eu.

Pronto, está dito, pensou; agora, seja o que Deus quiser.

Arminda voltou-se para ela, desvairada:

– Eu, nunca! Nunca, ouviste?! Nunca admitiria que o teu pai me pusesse um dedo em cima!

– Nem ele o faria, mãe.

– Lá nisso, tens tu razão! O fulano pode ser uma besta e um sacana, mas nunca me tocou!

– Ao passo que o Rui, que está longe de ser uma besta ou um sacana, é perfeitamente capaz de me dar meia dúzia de vergastadas no rabo.

A Arminda, no estado emocional em que estava, estas palavras da filha pareceram dum cinismo atroz. Remeteu-se a um espesso silêncio, que só foi quebrado quando a filha lhe disse que Rui lhe tinha proposto viverem juntos e ela aceitara.

– Ai sim? Felicidades – respondeu Arminda, secamente.

Joana suspirou e tentou conciliar a mãe.

– O pai nunca te bateu, e ainda bem. Tu nunca o admitirias. A mim, também não. E se calhar, algumas vezes, fez mal em não me dar umas palmadas.

Arminda voltou-lhe as costas e encolheu os ombros, recusando aplacar-se. As palmadas de que a filha precisara em criança, tinha-lhas dado ela; mas com uma criança é diferente, pensou.

– Até amanhã, mãe – disse Joana ao sair.

– Até amanhã.

Só muito depois é que ocorreu a Arminda que as palmadas que dera à filha, por justas e necessárias que fossem, tinham sido dadas a uma criança que não se podia defender, e que nunca tinha consentido nelas; mas que Joana, adulta, não só se sabia defender muito bem, como era competente para dar o seu consentimento. Nessa noite não dormiu, consumida por uma ira tumultuosa contra a filha, contra Rui e contra si própria.

Voltou a nunca se encontrar com Rui nas tertúlias semanais, mas desta vez não ocultou às suas amigas a animosidade que nutria contra ele e a filha: só lhes ocultou, por muito tempo, o motivo dessa animosidade. Rui, por seu lado, começou a aparecer com menos frequência, por vezes acompanhado de Joana, que algumas amigas da mãe conheciam desde criança. Nunca deram mostras de retribuir a amargura de Arminda; nunca revelaram o seu motivo, nem fingiram que não o conheciam; nunca deixaram que as outras senhoras pensassem que ela tinha ciúmes; e nunca permitiram que alguém lhe atribuísse as culpas pela desavença. Arminda não tinha razão, mas tinha as suas razões, que eles compreendiam; não tencionavam voltar atrás nas suas decisões pessoais – que não disseram quais eram – mas esperavam que um dia Arminda as aceitasse e se reconciliasse com eles. Em suma: a cabra que havia em Joana aflorava cada vez menos à superfície, e as amigas da mãe não sabiam se deviam atribuir isto a hipocrisia ou à influência de Rui.

Os meses seguintes foram dedicados, por parte de Joana, à minuciosa aprendizagem dos ritos e das regras da sua nova condição. Nesta aprendizagem encontrava, por vezes, prazeres novos e imprevistos; mas também humilhações que lhe seriam insuportáveis senão tivesse decidido, teimosamente, levar até às últimas consequências a experiência iniciada e o compromisso assumido. Descobrira, com surpresa, que o castigo físico a afectava pouco: não lhe dava prazer, mas só era difícil de suportar enquanto durava. Submeteu-se a ele desde o início e nunca recusou deixar-se manietar para o sofrer. Custou-lhe muito mais submeter-se a actos que a humilhavam ou embaraçavam, sobretudo perante terceiros. Também lhe custou muito a habituar-se a ordens ou a regras cujo propósito não compreendesse e às que lhe parecessem caprichosas ou fúteis. Rui nem sempre se explicava:

– Basta que seja este o meu prazer – dizia, por vezes, quando ela o questionava.

Joana começou a compreender que qualquer ordem ou regra, mesmo que aparentemente não tivesse sentido nem propósito, servia ao menos para lhe lembrar que estava sujeita ao prazer de Rui.

Mas o que mais lhe custou, de longe, a ponto de quase a fazer desistir, foi perder o direito de escolher as suas próprias roupas. Não é que Rui tivesse mau gosto, mas tinha um gosto diferente do dela; e ao transitar lentamente do seu estilo, que era o da profissional competente, para o estilo boémio construído por Rui, sentia que estava a perder identidade. Quando confessou isto a Rui, ele respondeu:

– Essa identidade que estás a perder é falsa; essa mulher não és tu.

Quando Joana ouviu isto, a cabra veio à superfície:

– E tu é que sabes quem eu sou, suponho?! A identidade que me deres é que é verdadeira?!

– Se não for verdadeira – respondeu Rui, placidamente – havemos ambos de nos dar conta disso, e bem depressa. Estaremos a tempo de construir outra. O que te posso garantir, é que essa outra não obedecerá a qualquer convenção pré-fabricada.

– E a tua vontade? E o teu prazer?

– Serão determinantes, é claro – disse Rui. – Não serás só o que já és, serás também o resultado da educação que eu te der.

Por muito brutais que estes propósitos parecessem a Joana, tinha que reconhecer que a primeira coisa que dissera a Rui – que dissera à mãe, para ser mais exacta – é que precisava de quem a educasse.

Este mesmo período foi, para Arminda, de lenta reconciliação com a filha. Por mais que o não quisesse ver, não podia deixar de notar que Joana andava melhor: mais serena, mais feliz, mais segura de si e menos agressiva. Mantinha a animosidade contra Rui: em parte por teimosia, em parte por ciúmes, em parte pela ideia de incesto que a relação, irracionalmente, lhe sugeria; mas também porque não conseguia suportar a ideia de ver a filha maltratada e humilhada às mãos de um homem de quem fora amiga e que sempre se lhe apresentara como gentil e inofensivo.

– E é mesmo gentil, mãe – dizia-lhe Joana. – Gentil, honesto e justo. Inofensivo não é, certamente: mas quanto a isto, foi ele que te iludiu, ou tu que te iludiste?

Foi muito a custo, e ao fim de muita insistência, que Arminda aceitou encontrar-se com a filha e com Rui em casa deste. Não se surpreendeu por Joana a receber descalça: numa das raras ocasiões em que, vencida pela curiosidade, sondara a filha sobre pormenores da sua vida, ela contara-lhe o que os pés nus simbolizavam e as ordens que tinha de nunca se calçar em casa. Recordava-se da tendência que Joana tivera, em criança e adolescente, de se descalçar sempre que podia; e de como ela tinha reprimido esta tendência, a ponto de a filha ter interiorizado a sua aversão a andar descalça e se ter habituado, como ela, a nunca sair da cama sem enfiar os pés nuns chinelos. Agora, ao obedecer a Rui, Joana estava finalmente a desobedecer à mãe; e esta não deixou de se aperceber deste facto.

Arminda cumprimentou Rui com alguma distância, distância esta que ele respeitou, embora deixasse claro que estava na disposição de a transpor. A casa pareceu-lhe decorada totalmente à homem: não notou a mão da filha em nenhum pormenor. Na sala, Rui convidou-a a sentar-se no sofá.

– Fica aqui com o Rui, mãe – disse Joana. – Eu vou buscar uma bebida.

Quando Joana regressou com três copos de vinho branco num tabuleiro, Arminda deu-se conta, de repente, que sempre tinha sido ela a servir a filha à mesa, e que mantivera este hábito mesmo depois de ela se tornar adulta. Rui agradeceu e fez sinal com os olhos a Joana que se sentasse no sofá ao lado da mãe, que ficaria assim entre os dois.

– Tenho uma notícia a dar-te, Arminda – disse Rui. – Vou casar com a Joana.

Arminda, que era cada vez mais contra o casamento como instituição e não desejava ver a filha mais presa a Rui do que já estava, não ficou contente com a notícia.

– E para que é que vão casar? – perguntou. – Não estão bem como estão? Para que querem vocês um papel passado?

– O papel não é importante – disse Rui. – O que é importante, para mim, é ter alguém a quem deixar o que é meu. Se eu morresse agora, iria tudo para os meus sobrinhos do Canadá, que mal conheço, e a Joana ficava a ver navios. Acho que tenho o direito de deixar as minhas coisas à pessoa de quem gosto.

Contra isto não havia argumentos, pensou Arminda. E a naturalidade com que Rui tinha falado em gostar de Joana… Sentiu um impulso de simpatia para com ele, mas logo o reprimiu: nunca fora interesseira e não queria sê-lo agora. Mas Joana não tinha nada o ar de se estar a sacrificar por dinheiro. Pelo contrário: ao olhar para ela, Arminda notou-lhe um ar resplandecente que a levou a perguntar, tomada duma súbita suspeita:

– Por acaso não estarás grávida?

Joana deu uma risada franca, como Arminda não lhe ouvira havia muito tempo:

– Grávida, mãe?! Não, está descansada. Por enquanto, o Rui e eu queremos ser só dois.

E se a filha estivesse grávida, que mal teria isso? Com um filho em casa, pensou Arminda, não se poderia entregar tão livremente a jogos eróticos que a mãe nem queria imaginar.

– Vê lá, não adies muito. Olha que já não és uma criança, e o tempo passa.

– Terei isso em conta – disse Rui.

Está a informar-me, pensou Arminda, que a decisão será dele. O impulso de simpatia que sentira começou a desvanecer-se. Mas também me está a informar que está disposto a dar à Joana o que ela sempre quis. O ex-marido de Joana nunca quisera filhos, e esta tinha sido uma das causas do divórcio.

– E vou deixar de trabalhar – disse Joana. – Já apresentei o meu pedido de exoneração.

Ah, não. Isto, não. Deitar fora anos de estudo e de formação profissional?! Abortar uma carreira que mal começara?! Ficar na dependência dum homem?!

– E o que és que vais fazer? Vais passar o resto da vida a estupidificar no meio dos tachos e das panelas?

– Ora, ora, mãe – disse Joana. – Sabes muito bem que nunca gostei do meu trabalho; e sabes que hoje em dia, no nosso país, para uma pessoa da minha idade, não há carreiras, só há empregos, e precários ainda por cima. Tu vais-te reformar quando fizeres sessenta anos; eu reformo-me aos trinta, é tudo. E não vou estupidificar, vou viajar com o Rui pelo mundo todo.

Durante o jantar, Arminda não parou de oscilar entre sentimentos contraditórios. Pedro, um homem trabalhador e pacato, que parecera ter todas as condições para fazer a filha feliz, fizera-a profundamente infeliz; Rui, que parecia ter tudo para a destruir e anular, fazia-a resplandecer; a filha parecia que estava a deitar fora tudo o que a geração de Arminda tinha conquistado para as mulheres, e no entanto dava mais a sensação de estar a ganhar terreno que a perdê-lo. Tudo isto era demasiado para ela assimilar rapidamente, mas teria que o assimilar sob pena de ficar isolada num mundo que deixara de compreender. Não é por aí que vou ficar velha, decidiu; e foi a partir desta decisão que começou a dar o benefício da dúvida a Rui e à filha.

Recomeçou a comparecer na tertúlia nos mesmos dias que Rui. As amigas foram convidadas para o casamento. A pouco e pouco, foi-lhes permitido que se apercebessem da natureza da relação entre Rui e Joana, e isto deu lugar a semanas de debate.

– Se é assim que eles querem, deixá-los – decidiu por fim a mais velha, que era madrinha de Joana.

É claro que não foram felizes para sempre. Tiveram doenças, tiveram conflitos, tiveram que enfrentar a velhice; dos dois filhos que Rui fez a Joana, um deu-lhes problemas muito graves durante a adolescência; e Rui, quando morreu, deixou na vida muitas pontas soltas que Joana teve de atar sozinha. Por outro lado, enquanto viveram, nunca se arrependeram de terem decidido ser senhor e escrava. Se morrer sem arrependimento é a única vitória possível do homem sobre a vida e sobre os deuses, a vida deles foi um êxito total.

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Quando Rui propôs a Joana que fizessem exames médicos para poderem ter sexo sem preservativo, ela viu nisto a vontade dele de dar estabilidade à sua relação. Ficou contente mas não quis mostrar este agrado; e a cabra que havia nela fê-la perguntar:

– Porquê? Queres fazer-me algum menino, é?

Rui ignorou o sarcasmo:

– Se alguma vez te quiser fazer um menino, informo-te primeiro. Para já, o que quero é criar as bases para que haja uma confiança absoluta entre nós.

Joana não tinha nada contra fazerem análises, pelo contrário; a reacção que tivera viera-lhe duma vontade súbita de espicaçar Rui, e o facto de ele não se deixar espicaçar desarmou-a. Ficou ela de marcar a data para as análises, de preferência numa clínica onde poucas pessoas os conhecessem, e passaram a outros assuntos.

Joana viu nesta conversa uma para abordar uma questão em que andava a pensar:

– Posso perguntar-te uma coisa? O que querias tu dizer quando disseste à minha mãe e às amigas dela que da tua porta para dentro, só admitias uma escrava?

– Queria dizer isso mesmo – respondeu Rui. – Deixei-as pensar que aquilo era retórica para as calar, é claro, mas a ti digo-te que lhes estava a dizer a verdade sobre a minha orientação sexual.

– Não dás nada essa ideia – disse Joana.

– Não? Tens a certeza?

Joana corou, o que a fez zangar-se consigo mesma. Lembrou-se que nos primeiros dias da sua relação com Rui, ainda antes de o ter seduzido, ele lhe tinha dado a entender que não gostava muito de a ver de calças; e desde então ela passara a usar saias ou vestidos com cada vez maior frequência. Era a primeira vez que mudava a sua maneira de vestir por causa da vontade de um homem, ademais tão vagamente expressa. Quando se zangava consigo, Joana descarregava sempre noutra pessoa, e foi o que fez agora:

– Claro que tenho a certeza. Não te estou a ver a mandar numa mulher. Pelo contrário: até me parece que a minha mãe tem razão quando diz que te deixas dominar facilmente.

Rui sorriu:

– E tem razão, a tua mãe. Deixo-me dominar com a maior das facilidades quando o que está em jogo não me interessa. Com os mais fracos que eu, sou muito dócil: é uma ironia que me diverte. Mas também te quero fazer uma pergunta: que querias tu dizer quando confessaste à tua mãe que eras uma cabra e precisavas de dono? Também te devo dizer que não dás nada essa ideia.

– Como, não dou? Ainda há bocado…

– Ah, sim – disse Rui. – Há bocado, com efeito. Só tenho duas perguntas: porque diabo queres tu deixar de ser uma cabra, admitindo que o és? E se é isso que queres, porque diabo não o fazes sozinha? Para que precisas tu de um dono?

– E tu, para que diabo precisas tu duma escrava?

– Eu nunca disse que precisava duma escrava. Já precisei, já tive, e agora estou bem como estou. O que eu disse foi que só aceitava uma mulher em minha casa na qualidade de escrava; mas estou perfeitamente disposto a aceitar a alternativa mais provável, que é ficar sozinho.

Joana calou-se, olhando para baixo com os punhos cerrados. Como uma miúda birrenta, pensou Rui. Por fim, sem deixar de olhar para baixo, respondeu:

– Preciso de dono porque estou farta de lidar com homens que não respeito. Tu és o primeiro a quem respeito desde há muito tempo.

– Sim – sorriu Rui. – Ainda agora foste muito respeitosa para mim.

– Não é disso que se trata – disse Joana. – Não é por ser ocasionalmente sarcástica que preciso de dono: é porque sou mesmo uma cabra, e estou farta disso.

Rui ficou silencioso por tanto tempo que Joana pensou se não teria dito alguma coisa que o fizesse zangar. Mas disse, por fim:

– Olha, Joana. Há muitas espécies de dono, e nada garante que eu seja o dono de que precisas. Se alguma vez levar uma escrava para minha casa, nada garante que possas ser tu: podemos ter noções muito diferentes do que é uma escrava.

– Não me estou a oferecer como tua escrava – disse Joana.

– Nem eu como teu dono – disse Rui. – Pelo menos, ainda não. E pode ser que eu queira uma escrava já feita, e não uma a quem ainda seja preciso educar.

– E eras tu que me educavas?

– Dizes que és uma cabra, não dizes? Então, para continuar com metáforas de animais, terias que passar de cabra a cadela: isto seria uma educação. Seria também um esforço enorme e muito demorado, e eu teria de estar disposto a fazê-lo.

– Então não estás disposto.

– Posso vir a estar, mas teria de contar com a tua colaboração. Já não tenho idade para perder tempo com meninas que pensam que querem ser escravas.

Joana voltou um pouco atrás na conversa:

– Cadela, dizes tu? O que quer dizer isso, cadela?

– Quer dizer que quando eu te fizer sinal tens que vir com o rabo a abanar, mesmo que uns minutos antes eu to tenha feito pôr entre as pernas.

– Isso não vai ser nada fácil – disse Joana. – Nada fácil, mesmo.

– Não vai ser? – disse Rui – Já estás a pressupor que vamos tentar? Tem calma: primeiro vamos ver se a nossa relação resulta noutros planos, ao mesmo tempo que vemos se aquilo em que estamos a pensar é viável. Para já, vou-te dar três palavras para meditar, e um dia destes peço-te a tua reacção.

– Que palavras?

– Servir, obedecer, sofrer – disse Rui.

– Se é isso, posso dizer-te já…

– Não podes nada – disse Rui. – Podes dizer-me quando eu te perguntar.

Fizeram os exames médicos, esperaram pelos resultados, voltaram a fazê-los e esperaram de novo. Joana recomeçou a tomar a pílula. Começaram a ter relações sexuais sem preservativo, o que implicava já um primeiro compromisso, que era a fidelidade recíproca. Não se falou, porém, em viverem juntos. Veio o divórcio de Rui e resolveu-se a partilha dos bens, o que lhe permitiu remodelar uma casa que herdara, um pouco degradada e muito desconfortável: não o fizera antes para que a ex-mulher não pudesse dizer que o tinha feito com dinheiros comuns. Joana acompanhou esta remodelação, que foi completa: demolição de paredes internas, rearranjo das divisões, isolamento térmico e acústico, caixilharias novas, janelas com vidros duplos ou triplos, climatização, transformação em jardim do matagal nas traseiras.

A obra mais difícil foi na cave, onde o chão foi rebaixado um metro para aumentar a altura. Rui manteve as paredes em pedra tosca, mas revestiu o tecto com material isolante e instalou aquecimento a partir do soalho.

Joana, vendo que Rui não media despesas, perguntou à mãe:

– Como é que o Rui pode fazer aquelas obras todas com a pensão dele? Com a reforma antecipada, não pode ter ficado a receber muito.

– O Rui não depende da pensão – respondeu Arminda. – Com o que herdou, pode viver muito bem dos rendimentos.

Isto explicava uma decisão de Rui que Joana tinha considerado excêntrica: a de organizar a vida em função das temporadas de ópera do S. Carlos, do Scala, do Met, do Teatro del Liceo em Barcelona, do Covent Garden, do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e de festivais como o de Glyndebourne e Bayreuth. Esta agenda incluía lugares tão remotos como Manaus ou Sidney e exigia bem mais que doze viagens por ano – o que chegava para não o deixar estupidificar. Comprava os bilhetes pela Internet com meses de antecedência, tal como as viagens e o alojamento.

– Compro sempre a dobrar – explicara. – Para o caso de ter companhia.

A companhia, embora ele não o dissesse expressamente, seria ela; se os afazeres profissionais não a deixassem ir, seria algum amigo ou amiga; ou em último caso iria ele sozinho, assumindo o prejuízo. Só uns dias depois desta conversa é que Joana notou que ele nem sequer tinha posto a hipótese de ela, podendo, não querer ir; e que ela própria também não a tinha levantado. Eis-me, portanto, a obedecer, concluiu. O curioso é que nunca era claro se o que ele lhe solicitava era uma sugestão, um pedido ou uma ordem; nem se a resposta dela era anuência ou obediência; mas era claro, em contrapartida, que Joana fazia tudo o que Rui queria como nunca fizera com ninguém. Servir, obedecer, sofrer, pensou. Sobre o obedecer, começava a estar elucidada; e, se quisesse ser honesta consigo própria, teria que reconhecer que também estava a aprender alguma coisa sobre o servir. Na cama, embora Rui lhe desse mais prazer do que qualquer outro homem lhe tinha dado, tornara-se óbvio desde o primeiro dia que o único prazer que contava era o dele; e ela, não só aceitara isto, como se sentira feliz por aceitá-lo. Restava o sofrer: sobre isto, Joana não fazia a menor ideia do que sentia, e não saberia responder se Rui a interrogasse.

Rui tinha erigido na cave duas grossas colunas de madeira, esculpidas com baixos-relevos eróticos.

– Mandei-as fazer na Índia – explicou.

E com efeito as imagens copiavam as dos templos hindus.

– Para que são as colunas? – perguntou Joana.

– Para amarrar uma mulher, por exemplo. Para a punir.

Joana deu uma volta lenta a cada uma das colunas, passando os dedos pela madeira esculpida.

– E pensas que serei eu essa mulher?

– Não faço ideia. Depende de alguma vez vivermos juntos ou não. Podes ser tu ou pode ser outra, mas continuo a dizer que o mais provável é não ser nenhuma. E enquanto andar contigo tenciono ser-te fiel.

Porque não lhe disse Joana, naquela altura que aquela mulher nunca seria ela? Porque se calou? Eis-me com o rabo entre as pernas, pensou; não demorou muito. Continuou a tocar aquelas imagens profusas de mulheres com os seios generosos e redondos e de homens com grandes falos erectos, unidos em todas as posições imagináveis; subiu as escadas com Rui; depois, ao caminharem em direcção ao carro, deixou que ele a abraçasse, e até se chegou mais a ele, sorrindo-lhe, e dizendo a si própria: e agora até estou com o rabo a abanar.

Esta visita à cave de Rui obrigou Joana a pensar na última das palavras que ele lhe tinha proposto para meditar: a palavra sofrer. Tratava-se aqui, como ela compreendia muito bem, de sofrimento físico provocado intencionalmente por outra pessoa. Nunca tivera, nem as tinha agora, fantasias sexuais com a ideia de ser punida fisicamente. Por outro lado, nunca partilhara a vertigem de pânico e revolta com que muitas mulheres encaravam a simples menção desta possibilidade. Teria medo, sim, da violência, do descontrolo; mas se estes elementos fossem retirados da equação, deixando isolada a dor física, verificava, com alguma surpresa, que era capaz de considerar friamente a hipótese de a sofrer.

Uma noite, quando estavam a fazer amor, Rui proibiu-a de ter orgsmo. Joana nunca tinha imaginado que esta ordem pudesse ser dada, e muito menos obedecida, mas deu por si a reprimir o orgasmo que se aproximava, e a conseguir evitá-lo por pouco. Surpreendente foi o prazer que teve nisto, que se prolongou pelo resto da noite e por todo o dia seguinte: uma excitação sexual surda e permanente, que nunca aumentava nem diminuía, nem exigia desenlace. Passou semanas a analisar este prazer inédito, mas não chegou a nenhuma conclusão. Suspeitava que Rui sabia deste prazer e o podia explicar, mas não conversaram sobre ele.

Num fim-de-semana em que tinham ido ao Teatro alla Scala para ver Cecilia Bartoli no papel de Cenerentola, sentaram-se numa esplanada da Galeria Vittorio Emanuele II a fim de comerem qualquer coisa antes do espectáculo. Era um dia quente de Junho, tinham ido com muita antecedência e o sol ainda ia alto. Foi este o momento que Rui escolheu para a inquirir, finalmente, sobre as três palavras que a convidara, meses antes, a considerar.

– Lembras-te delas?

– Lembro – disse Joana. – Servir, obedecer, sofrer.

– E…?

Joana virou a cara:

– Posso fazer isso por ti, se é o que tu queres.

– Já o tens feito – disse Rui.

Joana continuava com a cara virada para o lado.

– Ainda não sofri… – murmurou.

– Mas já me tens servido e obedecido, embora com  moderação. Diz-me: alguma vez tiveste prazer nisso?

Algumas vezes, mas Joana não o quis confessar. Baixou a cabeça, encolheu os ombros, e disse baixinho:

– Não sei…

– Não sabes. Hmmm… Diz-me outra coisa: daquelas três palavras-chave, qual achas que é a mais problemática?

– Não sei – respondeu Joana. – Ainda nenhuma foi problemática para mim.

Rui fez um gesto afirmativo com a cabeça, como que a reconhecer a pertinência da resposta.

– A mais problemática é obedecer – declarou. – É a que dá origem aos maiores mal-entendidos.

Joana sempre achara difícil obedecer a outra pessoa. Admirava-se da relativa facilidade com que obedecia a Rui, mas também era certo que ele nunca lhe pedira nada de difícil. O que ela não sabia era a que mal-entendidos se referia Rui.

– Pensa numa mulher – disse ele. – Numa mulher qualquer. Pensa que se trata duma pessoa com desejos muito fortes e fantasias sexuais muito definidas, mas com inibições e sentimentos de culpa que a impedem de as realizar. Imagina que ela começa a fantasiar com alguém que a obrigue a realizar esses desejos… alguém que lhe permita pensar que não tem culpa, que só está a obedecer, a ser obrigada… não lhe ocorre sequer que lhe possa ser ordenado algo que ela não deseje à partida. Supõe agora que esta mulher encontra um homem como eu, que espera dela obediência; e supõe que a certa altura ele lhe exige alguma coisa que ela nunca previu nem desejou, algo que para ela é doloroso, ou humilhante, ou embaraçoso, e não lhe dá qualquer prazer. E então recusa. Continua a fantasiar com situações em que é obrigada a obedecer, e tem-se sinceramente na conta de submissa; mas o homem pensa que ela está enganada e termina a relação. Qual dos dois achas tu que tem a melhor noção do que é obedecer?

– O homem, é claro – disse Joana.

E corou, porque Rui só uma vez lhe tinha pedido uma coisa que não correspondia a uma fantasia sua; e mesmo dessa vez tinha-lhe proporcionado um prazer cuja existência ela ignorava e que ainda agora não compreendia. Tanto quanto Joana sabia, a mulher hipotética descrita por Rui podia ser ela própria.

– Disseste que estavas disposta a obedecer-me se eu quisesse – disse Rui. – Vamos ver se é verdade: vai lá dentro aos lavabos e deita os sapatos para o lixo.

Joana estava arranjada para ir à ópera. O vestido, dum vermelho acobreado escuro, tinha sido comprado num costureiro da Via della Spiga, numa outra visita a Milão. Na bolsa de mão, minúscula, trazia os brincos, o anel e o colar que tencionava pôr quando estivesse em segurança no interior do teatro. Por ordem de Rui, não trazia calcinhas nem soutien: mas esta ordem não lhe custara a cumprir porque sabia que o vestido tinha sido concebido para ser usado sobre o corpo nu, coisa que ela nunca faria por sua própria iniciativa. Mas esta outra ordem era diferente: não a podia usar como pretexto para fazer o que queria e não ousava; pelo contrário, exigia dela que ousasse o que não queria. Tentou objectar:

– Mas… mas… vou descalça para a ópera?!

– Vais – respondeu Rui placidamente.

– E se não me deixarem entrar?

– Se houver algum problema, eu resolvo-o.

Para esta certeza, não tinha Joana resposta. Como último recurso, usou uma palavra que nunca lhe tinha sido proibida, mas que já lhe soava pouco lícita:

– Mas… mas porquê?!

Rui sorriu levemente antes de responder:

– Por duas razões: a primeira, como te disse, é testar a tua obediência. A segunda é que doravante os teus pés nus serão, aos teus olhos como aos meus, um sinal de humildade e respeito. Se isto não se harmonizar com o que sentes por mim, a minha recomendação é que recuses.

Joana não queria pensar, naquele momento, no que sentia por Rui. Sentia que estava numa encruzilhada: o que decidisse naquele momento determinaria muito do seu futuro, e do futuro dele.

Obedeceu. Na Galeria e na rua, ao atravessar para o teatro, sentiu-se embaraçada quase até à vertigem pelos olhares de curiosidade ou desdém que atraía. Ninguém lhe barrou a entrada no La Scala; e, depois de pôr as jóias, sentiu que atraía menos olhares dentro do teatro do que tinha atraído lá fora.

Isto talvez seja assim, pensou, porque esta gente que aqui está sabe muito bem ver quando um vestido é de luxo e uma jóia verdadeira.

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(Nota: este conto acabou por ocupar treze páginas no Word. Decidi por isso dividi-lo em três partes e publicá-lo aqui três dias seguidos. Espero que gostem.)

– O Rui lá acabou por deixar a mulher – disse Arminda à filha, enquanto punham a louça na máquina.

– Quem é o Rui? – perguntou Joana.

Arminda pôs uma pastilha de detergente na máquina e escolheu o programa.

– Ora, quem é o Rui. Já te falei tantas vezes dele: é o meu colega que costuma aparecer ao almoço… O Rui Tavares, de medicina interna… Aquilo com a mulher já andava muito tremido.

– Ah, já sei: na tertúlia que fazes com as tuas colegas reformadas. Já estou a ver a cena: o homem arranjou outra fulana e saiu de casa. Típico. Não tarda nada, o meu pai faz o mesmo.

– Tomara eu – disse Arminda. – Mas o Rui não saiu por causa de mulher nenhuma. Quer viver sozinho, numa casa em que ninguém mande a não ser ele. Alugou um apartamento, fez a mudança, começou a mobilá-lo, meteu os papéis para o divórcio, e só no fim disto tudo é que nos disse.

Ainda faltava limpar o lava-louças e o fogão, mas Joana deteve-se com o pano na mão para se virar para a mãe:

– E tens a certeza que não foi por causa de outra?

– Se fosse, nós sabíamos. A Carmo e a Lúcia fizeram uns telefonemas e ninguém sabe de nada.

– E não será larilas, esse teu Rui Tavares?

– Só se for, mas não me parece. Com o currículo dele… Mas agora não tem ninguém. O que é estranho é ter sido ele a deixar a mulher, e não ela a ele. Mas sabes como é, ele é que tem o dinheiro… Mas também não é homem para deixar a mulher a passar mal.

Joana, às vezes, não entendia a mãe: estava farta de ver casamentos falhados, a começar pelo seu próprio e pelo da filha; e quando via algum terminar, a primeira coisa que lhe ocorria era organizar outro.

– Já estou a perceber: tu e as tuas amigas estão mortinhas, é por fazer de casamenteiras. Deixem o homem em paz… O que ele quer deve ser sossego.

– É o que ele diz: que já tem idade para aguentar uns meses de celibato, e que tão cedo não quer ver mulher nenhuma dentro de portas. E quando a Carmo começou a insistir demais, ele calou-a logo: mulher, em casa dele, só se fosse uma escrava.

– Bem feito – disse Joana. – Aposto que vos embatucou a todas.

Deram as duas uma última volta à cozinha, até que Joana disse:

– Queres ver um filme que eu trouxe? É com o George Clooney…
O filme, afinal, não era grande coisa, e a certa altura nem a mãe, nem a filha lhe estavam a dar grande atenção. Joana, que tinha ficado a remoer as últimas palavras da mãe, disse por fim:

– Essa coisa da escrava…

– Que escrava? – perguntou Arminda.

– A que o teu amigo disse que deixava entrar em casa. Se calhar era ele o homem para mim: de algum tempo para cá tenho andar a pensar que o que eu preciso, é de dono.

Uma parvoíce destas não merecia resposta, mas Arminda não se conteve:

– Passaste-te de todo, ou quê? Primeiro, o Rui é quase da minha idade. Segundo, é do tipo sonhador e poético, não ia estar para te aturar. E terceiro, depois do que passaste com o Pedro, a última coisa em que devias estar a pensar era em ter dono. Trata mas é de acabar o doutoramento e faz como eu, não penses em homens.

O filme, afinal, começou a ser interessante, e o Clooney era um pedaço de homem. Ficaram as duas absorvidas, mãe e filha, até que começaram a rolar no ecrã os créditos finais. Depois de desligar a televisão e o aparelho de DVD e de ter arrumado o filme, Joana entrou na cozinha, onde a mãe tinha aquecido leite para as duas e aberto um pacote de bolachas.

– Ó mãe, tu sempre és muito ingénua. Conheces-me tão bem, sabes a cabra que eu sou, até para ti…

– Ai, lá isso, és.

– E acreditaste em tudo o que eu te disse sobre o Pedro. A maior parte das sacanices que eu te disse que ele me fez, fui eu que lhas fiz a ele, e tu nem desconfiaste: correste logo em socorro da filhinha.

– É, tens razão, sou uma grande parva – disse Arminda. – Mas se é assim, porque não voltas para ele?

– Isso queria ele. Parece que gosta de levar na cara, o desgraçado. Eu é que nem o quero ver à minha frente. Então o teu amigo chama-se Rui Tavares e é internista, não é?

Arminda pousou a caneca e virou-se para a filha, muito séria:

– É, mas agora sou eu que te digo que o deixes em paz.

Joana sorriu:

– Não tenhas medo, eu sei defender-me.

– Pois é, isso estou eu a ver – disse Arminda. – O meu medo não é por ti, é por ele. Se fizeres mal ao meu amigo, não penses que te perdoo.

Joana levantou-se e beijou a mãe:

– E eu quero lá o teu amigo para alguma coisa? Estou como tu: não quero pensar em homens. Olha, vou para casa. Até amanhã.

– Até amanhã – disse Arminda. – Tranca as portas do carro e guia com cuidado.

Arminda era pediatra a tempo inteiro no hospital de Santo António, o mesmo em que Rui trabalhava. Joana, que não tinha conseguido entrar para Medicina, tirara uma licenciatura enfermagem; mas o trabalho não lhe dava prazer, e por isso continuava a estudar: fizera um mestrado e estava agora a concluir, de forma competente mas sem grande entusiasmo, um doutoramento. O trabalho e a tese quase não lhe deixavam tempo para mais nada, mas quando podia ia a concertos de música clássica ou jazz. Já conhecia de vista os frequentadores mais assíduos da Casa da Música, mas nunca quis travar conhecimento com nenhum; até que um dia, numa das bibliotecas da Faculdade de Medicina, encontrou um deles com uma tarjeta identificadora na lapela: Rui Tavares, médico.

– Conheci o teu amigo Rui – disse mais tarde à mãe. – É muito simpático, e não me parece que seja quase da tua idade. Apresentei-me como tua filha e estivemos a conversar.

– Eu sei – disse Arminda. – Ele disse-me que tomou um café contigo. Diz que te achou doce e sensível, o trouxa. Eu só não o avisei que tivesse cuidado porque não lhe quis pôr ideias na cabeça, mas aviso-te a ti.

Joana não respondeu. Não podia levar a mal à mãe que chamasse trouxa a Rui; ela própria se admirava com o seu comportamento em relação a ele. A ironia estava em que a sua doçura não tinha sido fingida, pelo menos de forma consciente: tinha-se mostrado como realmente era – ou como realmente era junto dele – ou talvez, ainda, como gostaria de ser.

Nos meses que se seguiram, continuou a encontrar-se com Rui para tomar café ou ir a um espectáculo. Porque havia de ir cada um sozinho quando podiam ter companhia? O que sossegava Arminda quanto a estes encontros era que Rui os mencionava quando estava com ela e com as amigas. A filha também não fazia segredo deles; e continuou a não fazer segredo quando ganhou o hábito de ir tomar um copo com Rui depois de irem ao cinema ou a um concerto. Só começou a parecer a Arminda que as coisas estavam a ir longe demais quando estas saídas começaram a ser precedidas de jantares a dois. Rui já não dizia que não queria nada com mulheres e não lhe contava todos os encontros que tinha com Joana, nem esta todos os que tinha com ele; mas, ora por um, ora por outro, lá ia sabendo de quase todos, e se não lhos contavam todos era decerto porque já os tinham como adquiridos.

Uma noite, depois de terem ido à ópera no Coliseu, Joana sugeriu que tomassem um copo em casa dela. Usavam nas suas saídas, alternadamente, os respectivos automóveis, e desta vez tinha-lhe calhado levar o seu. Não chegaram a tomar o tal copo: assim que tiraram os casacos, ela abraçou-se a ele e beijou-o na boca, ao que ele respondeu com entusiasmo. Colada a ele, Joana sentiu-lhe o sexo a intumescer. Levara um vestido muito decotado nas costas, sem soutien, e, quando sentiu a mão dele a insinuar-se por baixo do tecido, afastou-se um pouco e disse:

– Comprei preservativos…

Rui ficou com ela a noite toda. Tinha pedido a aposentação antecipada e não tinha que ir trabalhar na manhã seguinte. Quando Joana se levantou para ir para o hospital de S. João, deixou-lhe um bilhete a dar-lhe um beijo, a dizer-lhe onde estavam as coisas para o pequeno-almoço e a pôr-lhe a casa à disposição. Deixava-lhe uma chave para ele dar quatro voltas na fechadura quando saísse.

À hora de almoço, ele telefonou-lhe para lhe mandar um beijo e marcar novo encontro. Não, nessa noite não podia ser, Joana ia estar de serviço. Na noite seguinte, sim. Jantar? Podia ser, e depois podiam ir ao cinema: havia um filme que ela estava com vontade de ver.

Ao passar por casa, ao fim da tarde, Joana tinha à sua espera, já metido numa jarra com água, um ramo de rosas vermelhas. Sentimentalismo idiota, pensou; este afinal é como os outros. Mas este princípio de decepção passou-lhe quando leu o bilhete: Pedi à florista que não tirasse os espinhos. Espero que gostes. E gosto, pensou Joana. Gosto muito dos espinhos.

– Seduzi o teu amigo – disse Joana à mãe. – Estou a dizer-te isto para que não penses que foi ele.

Arminda sentiu vontade de se atirar à filha e de lhe arranhar a cara toda. Ou então de fazer o mesmo a Rui, que não lhe tinha dito nada. Aquilo parecia-lhe uma espécie de incesto: não sentiria maior revolta se tivesse sido o marido a dormir com a filha. Mas isto era uma idiotice, e é claro que Rui nunca lho poderia dizer: como é que um homem diz a uma mulher, que conhece há anos, que foi para a cama com a filha dela?

Não compareceu ao almoço com as amigas no dia em que Rui costumava ir, nem na vez seguinte. Quando as amigas começaram a achar isto estranho, telefonou a Rui para o telefone fixo. Era verdade, disse ele. Então Arminda descarregou toda a sua raiva: se ele não achava que estava velho para seduzir meninas, se não tinha nojo de si próprio, se não achava que o que tinha feito era uma traição.

– Traição? – disse Rui. – Estás com ciúmes?

Isto fez com que Arminda se calasse e desligasse o telefone. Ciúmes? Como, ciúmes, se entre eles nunca tinha havido, sequer, um desejo fugidio? Rui era livre, Joana era livre, só ela, Arminda, é que não; e por mais que desprezasse o marido, nunca seria capaz de pagar traição com traição. E contudo, era obrigada a reconhecer que Rui não andava longe da verdade. Ciúmes, inveja ou orgulho ferido: a relação entre Rui e Joana depressa seria conhecida, e Arminda não sabia como havia de encarar os amigos quando eles soubessem.

Tanto ela como Rui passaram a comparecer de novo na sua tertúlia, mas, por um acordo tácito, nunca os dois ao mesmo tempo. Quando as amigas lhes perguntavam o que tinha havido entre eles, ambos respondiam que não tinha havido nada; se não se encontravam ao almoço, era porque não calhava.

Joana, por sua vez, lidava com a mãe como se nada se tivesse passado. Não dava pormenores da sua relação com Rui, mas também não evitava o assunto. Às vezes, se viesse a propósito, dizia-lhe que nessa noite dormia em casa dele; e esta naturalidade, que ao princípio era sal esfregado na ferida, acabou por levar Arminda a aceitar como facto consumado a relação entre o amigo e a filha. Foi ela que informou dela as amigas, antes que soubessem por outras vias, e por fim recomeçou a comparecer na tertúlia ao mesmo tempo que Rui. Isto provocou neles e no grupo um certo constrangimento; mas este, à medida que os dois foram aprendendo a tratar-se em público como uma espécie de sogra e genro, e as dinâmicas do grupo se estabilizaram num novo equilíbrio, acabou por se dissipar: a relação entre Rui e Joana estava, por assim dizer, oficializada.

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Cap. 34: TITÂNIO

Entretanto havia a viagem ao Brasil, documentos a regularizar, dossiers médicos a organizar, contactos a estabelecer… Os piercings de Teresa iam ser aplicados por um cirurgião, porque os aros de titânio não podiam ser trabalhados no local. Os furos tinham que ter à partida o diâmetro e a curvatura correctos, e o acesso a eles exigia incisões, de modo a que os aros, completos com os ilhós em que deslizariam, entrassem de lado; e por fim havia que suturar estas incisões. Este procedimento exigia uma anestesia local e era muito mais complicado que o que se pratica nos ateliers, mas a cicatrização, devido à precisão dos cortes, ia demorar menos que os dois meses habituais.

O voo para São Paulo demorou quase dez horas, e a transferência para a clínica mais uma. Na mesma noite em que chegou, Teresa ficou internada: o dia seguinte seria dedicado a exames e análises, e no terceiro seriam implantados os anéis. A própria clínica, situada ao lado do parque Ibirapuera, tratou do alojamento de Raul num hotel próximo. Assim, pôde estar presente na primeira consulta com o cirurgião, que já tinha em seu poder um modelo dos quatro piercings que ia colocar. Cada peça consistia em dois anéis que entrariam parcialmente na carne de Teresa. Estes anéis, distantes um do outro por cerca de um centímetro, estavam unidos por uma barra que ficaria de fora; desta barra saía outra, na ponta da qual havia mais um aro. Esta barra engatava, por meio de ranhuras, na que lhe correspondia no lábio oposto, de modo a que os lábios ficassem apertados naquele ponto e os aros da ponta ficassem justapostos sobre a longitude da vulva.

– Reparem os senhores que o engate não é perfeito – disse o cirurgião. – Há um pouco de folga. Isto é propositado: os engates não podem ter arestas vivas, para não machucar; e têm que engatar sem repuxar os tecidos. Depois de os aros de cima engatarem… assim… será possível segurá-los com um cadeado. A senhora deseja piercings de cada lado do clítoris e da vagina, não é verdade?

– Sim – disse Raul – mas a uretra tem que ficar livre…

– Vou dizer-lhe a verdade: com os dois piercings apertados no lugar, a uretra ficará um pouquinho constrangida. Não terá dificuldade em urinar, mas vai ter que fazer uma higiene mais cuidada…

– Sim, nós sabemos.

– A cicatrização não vai demorar tempo demais, porque a incisão vai ser muito exacta e a sutura também. Mas precisa ter alguns cuidados. Quero falar neles aos dois para ter certeza que entendem.

– Faça favor – disse Raul.

– Hoje, a senhora irá para a o seu quarto e fará exames. Se tudo estiver certo, será operada amanhã de manhã. É uma operação muito simples, com anestesia local. Algumas suturas serão bio-solúveis, outras terão que ser removidas à medida que não sejam necessárias. Logo que possível, a senhora deverá mover um pouco os implantes para eles não colarem aos tecidos, mas sempre com muito cuidado. Não tente engatar os anéis exteriores antes de passarem três semanas. Não poderá fazer sexo vaginal antes de seis semanas, e espere oito semanas antes de usar os cadeados.

– E sexo anal? – perguntou Teresa.

– Pode fazer sexo anal passadas quatro semanas, mas tem que fazer logo a seguir uma higiene muito completa de toda essa parte de seu corpo, usando um bom anti-séptico. Agora a enfermeira vai levar a senhora ao seu quarto. O senhor poderá vir de visita a qualquer hora entre as dez da manhã e as dez da noite. Se tudo correr como esperamos, ficará internada três dias: hoje para preparação e exames, amanhã para a operação e mais um para tratamento pós-operatório. No último dia, o senhor também deverá estar presente para a enfermeira ensinar alguns cuidados que deve ter. Depois, a senhora deve descansar, não pode fazer muito esforço; pena que não possa visitar nossa cidade como ela merece.

– E pompoar, quando posso fazer? – disse Teresa.

– Exercícios de Kegel? Pode fazer daqui a quatro ou cinco dias: até ajuda a recuperar. Mas ao princípio faça com muito cuidado, ouviu? Se lhe doer, nem que seja um pouquinho, pare logo.

Depois disto, Raul foi posto delicadamente na rua. Um funcionário da clínica conduziu-o de automóvel ao hotel. No dia seguinte só o deixaram visitar Teresa de tarde: encontrou-a um pouco combalida e impaciente por não a deixarem pôr-se de pé. Para a entreter, Raul descreveu-lhe o hotel, o passeio que tinha dado de manhã, alguns factos que tinha apurado sobre a clínica:

– Sabes que como teu acompanhante tenho direito a alguns tratamentos de graça? Limpeza facial, drenagem linfática… tenho que ver melhor o catálogo.

Teresa fez-lhe sinal de que lhe queria falar ao ouvido, e quando ele se inclinou disse-lhe:

– Só não os deixes modificar-te o pénis, gosto dele exactamente como é.

E ao sentir-se sacudida de riso acrescentou, como se a culpa fosse dele:

– Ai, não me faças rir, que me dói…

Raul deu o suspiro os homens que dão há milénios quando confrontados com a injustiça feminina, ajeitou-lhe a inclinação da cama para ela ver melhor a televisão, beijou-lhe os lábios e perguntou:

– Estás bem assim?

– Estou bem, não te preocupes. Que livros são esses?

– Alguns são para ficar aqui, os outros para eu levar para o hotel.

– Não vais sair à noite?

– Não é preciso. Ligo para a recepção e eles mandam-me uma moça da cor e feitio que eu quiser.

– Para te acender o charuto e servir o whisky, não é?

– Pois claro. Para que mais havia de ser?

– Então manda-a passar por aqui para eu a ensinar. Não quero o meu senhor mal servido…

Riram-se os dois e ficaram algum tempo de mão dada, um pouco enleados, sem saberem bem o que dizer um ao outro. Por fim, foi ela que o mandou embora:

– Anda, vai. Também precisas de descansar. Eu fico bem, daqui a pouco apago a luz.

O dia seguinte foi passado na clínica, onde Teresa já podia passear uns minutos nos jardins.

– Esta coisa ainda me incomoda – disse ela no fim de um destes passeios.

– Dói-te?

– Não, quase não me dói. Mas sinto que são objectos estranhos… Hei-de habituar-me, está claro.

No terceiro dia Teresa teve alta. Antes de sair, uma enfermeira levou-a com Raul a um quarto mobilado como o duma casa particular, com um quarto de banho normal, e ensinou-lhes alguns procedimentos que teriam que seguir no futuro: muita água, muito sabonete, muita água oxigenada, muita circulação de ar, e tudo sempre o mais seco possível.

– Melhor andar de saia sem calcinha, moça… Não vai ter vergonha, vai?

Agora, havia que ocupar os dias. Teresa achava frustrante ter forças para andar e não o poder fazer tanto quanto queria. Os passeios no parque eram dados em passo lento, o que, se por um lado os fazia durar mais, por outro impacientava Teresa, que sempre gostara de caminhar depressa. Raul apontava-lhe os animais e as plantas, que naquele início de primavera brasileira animavam o parque com sons e com cores: assim conseguia que ela se detivesse por momentos e não forçasse demais o corpo.

Na primeira noite que passaram juntos, Teresa decidiu que era tempo de voltar a assumir os seus deveres de escrava: depois dos beijos profusos e das demoradas carícias do reencontro, ajoelhou-se à frente dele, num gesto tão gracioso que dava a impressão de já nada lhe tolher os movimentos, e pediu:

– Meu senhor, não queres gozar na minha boca? Há tanto tempo que não te sirvo…

Raul olhou-a nos olhos:

– Lembras-te de como eu te ensinei, minha escrava?

– Como não havia de me lembrar, meu senhor? Vou-te mostrar…

Raul desapareceu no quarto de banho da suite – aqui dizia-se banheiro – para reaparecer cheirando a sabonete e vestido com o pijama que ela lhe tinha oferecido. Sentou-se na poltrona e ordenou:

– Anda cá, escrava, e abre-me o pijama.

Quando Teresa obedeceu, compreendeu a razão de ele ter vestido o pijama: estava completamente depilado na púbis e na zona genital, e tinha querido fazer-lhe uma surpresa.

– Ficas bonito, meu senhor – disse Teresa.

Gostava, com efeito, de o ver assim. Agradava-lhe que ele não tivesse depilado as pernas nem as coxas, particularmente junto às virilhas, onde a pelugem é mais sedosa. Só depilara o escroto, a púbis e o ventre até ao umbigo. O pénis, assim, parecia maior, e viam-se melhor os testículos.

– Quando voltar a servir-me de ti pela vagina – explicou Raul – não quero que os meus pelos se enredem nos teus piercings. Comecei a fazer depilação a laser aqui na clínica. Em Portugal, continuo.

Teresa sabia que o seu prazer não contava, mas não se pôde impedir de sentir que agora era mais agradável metê-lo na boca, sem ter que cuspir pelos. Começou a chupá-lo como ele lhe tinha ensinado, com ternura e respeito; mas desta vez experimentou uma técnica que tinha inventado: virar a cabeça para os lados de modo a poder acariciar-lhe a glande com a mucosa macia do interior das bochechas. De que ele gostou, não teve dúvidas. Mas também ela tinha uma necessidade o satisfazer, uma necessidade que não era física mas emocional: renovar a dádiva de si que estava no centro do seu amor por ele. Por isso se dedicou tanto, por isso apressou a carícia até sentir a boca inundada de esperma.

Limpou-o com a boca e com a língua: outra vantagem de ele se ter depilado era que esta limpeza era agora muito mais fácil. Depois sentou-se no chão, apoiou a cabeça nos joelhos dele e disse:

– É estranho como chupar-te me faz sentir propriedade tua mais do que qualquer outra coisa… e já estava a precisar de me lembrar, meu amor. Nunca deixes de usar a minha boca.

– Não, minha querida – respondeu Raul. – Também eu te sinto mais escrava quando te ajoelhas para me servir, e não quero nunca prescindir de te possuir assim…

Dois dias depois de sair do hospital, Teresa foi com Raul ao consultório do cirurgião. O médico ficou tão satisfeito com a evolução dela que chamou Raul para junto de si:

– Venha, venha ver… Olhe aqui, no interior dos anéis, como os tecidos estão a cicatrizar… Se continuarem assim, as cicatrizes vão ficar quase invisíveis, e os aros vão ficar bem firmes… É bom sua mulher ter os labia majora tão grandes e resistentes. Mas não se esqueçam que a cicatrização completa demora muito mais que a cicatrização visível… É importante que respeitem os prazos que eu lhes dei.

– Nós sabemos, doutor – disse Teresa. – Vamos respeitá-los à risca…

Teresa não se permitia a impertinência de andar calçada no hotel: considerava que este era, de momento, a casa de Raul, onde tinha de mostrar humildade e respeito; mas nos jardins ele mandou que ela usasse havaianas: um passo em falso, provocado por qualquer pedra no caminho, seria perigoso.

Nos dias seguintes, Teresa tirou os pontos. Onde os anéis de titânio lhe entravam na carne, a pele estava muito fina e rosada, mas não lhe doía nem apresentava sinais de inflamação. Um automóvel alugado com motorista permitiu-lhe visitar com Raul alguns centros de interesse e percorrer duma ponta à outra a enorme Avenida Paulista. Uma noite, aproveitaram a proximidade do Auditório Ibirapuera para irem ouvir a Sinfonia Fantástica de Berlioz: o edifício de Niemeyer impressionou-os, e a música, furiosamente romântica, harmonizava-se com o seu estado de espírito. Passavam, porém, tanto tempo no hotel que Raul ganhou o hábito de se servir de Teresa pela boca mais vezes por dia do que seria de esperar de um homem com quase cinquenta anos. Teresa, que já tinha aprendido muito sobre as preferências dele nesta área, teve ocasião de aprender ainda mais, agora que nada se interpunha entre ela e a pele dele: a infinita leveza com que era preciso beijá-lo ou tocá-lo no escroto, o prazer que era possível dar-lhe passando-lhe a língua no períneo, a maior profundidade a que era agora possível engoli-lo e a necessidade de reaprender a não se engasgar … A ideia de se dedicar durante várias semanas exclusivamente a chupá-lo seduzia-a particularmente, a ponto de nem lhe interessar muito que ele a acariciasse. Tinha-lhe dito um dia que por vezes fantasiava não ser para ele mais do que uma cona; pois agora tinha a oportunidade de não ser mais do que uma boca; durante alguns dias concentrou-se em aproveitá-la e não se importou de andar com os maxilares sempre doridos. Agora que fazia cada vez mais da boca uma vagina de substituição, Teresa achava-se cada vez menos no direito de falar. Sem que ele lho ordenasse, ganhou o hábito de pedir autorização antes de iniciar qualquer conversa:

– Posso falar, meu senhor?

Algumas vezes teve a surpresa de o ouvir dizer não, a ele que tanto gostava de a ouvir; mas estes silêncios impostos eram preenchidos, por um lado, por uma tensão erótica que a fazia cantar por dentro, e por outro por toda uma linguagem de gestos e olhares que era quase uma telepatia. Mas este período mágico tinha que terminar. No dia anterior ao do regresso a Portugal, Teresa, meio morta de vergonha, telefonou para a recepção a perguntar se lhe podiam indicar uma sex-shop que não fosse longe dali. Deram-lhe a indicação pedida, mas informaram-na que o próprio hotel poderia mandar entregar no quarto qualquer artigo mais corrente que a senhora desejasse. Era apenas um lubrificante, disse Teresa. Se era só isso, não precisava de ir à sex-shop: quando voltasse ao quarto, depois de a faxineira o arrumar, encontraria o que desejava no banheiro. E foi assim que Teresa deu a Raul a última abertura do seu corpo que lhe faltava utilizar. Bastou-lhe deitar-se nua sobre a cama, colocar uma bisnaga de lubrificante sobre a mesinha de cabeceira de modo a que ele reparasse, e pôr-se de bruços à espera.

– Queres dar-me o teu cuzinho? – perguntou Raul.

– Não te posso dar o que não é meu – respondeu Teresa. – O meu cu sempre foi teu, mesmo que nunca te tenhas querido servir dele. Mas, se não é ousadia uma escrava exprimir um desejo, gostava que te servisses dele hoje.

Raul deu uma risada:

– É verdade, já é meu – observou. – E é verdade, és uma escrava muito ousada.

– Aqui dizem abusada – interrompeu Teresa.

– Ousada ou abusada, vou-te fazer a vontade: prepara-te, porque não vou ter dó de ti.

Despiu o roupão e começou a acariciar as nádegas de Teresa, que se levantavam de encontro à mão dele como se tivessem vontade própria. A esta carícia seguiram-se duas ou três leves palmadas, que lhe rosaram a pele e a fizeram respirar um pouco mais fundo. Quando a viu ficar um pouco excitada, Raul pôs um pouco de gel nos dedos e começou a massajá-la em volta da abertura de trás, aproximando-se cada vez mais do centro e acabando por lhe introduzir o dedo indicador, primeiro só até à primeira articulação, depois até à segunda, por fim até à base.

Quando lhe encostou ao ânus a ponta do pénis, que também tinha lubrificado cuidadosamente, disse-lhe que fizesse força para fora, como se estivesse a fazer sair qualquer coisa e não a deixá-la entrar. Teresa sorriu: este truque, conhecia-o ela dos seus anos de puta. Sempre tinha tentado evitar o sexo anal, mas nem sempre isto dependera da sua vontade. Mas agradou-lhe que Raul a tratasse como a uma jovem inocente; e de facto, desde a última vez que tinha sido possuída por trás, tinham-se passado tantos anos que o rabo se apertara de novo. Apesar Raul de ter tido todo o cuidado em lubrificá-la e em lubrificar-se, teve muito menos ao penetrá-la. Isto agradou a Teresa: sexo por trás é para doer, pensou; e embora gemesse de dor, virou a cara para e entreabriu os lábios num convite a que ele a beijasse.

O voo de volta foi mais difícil para Teresa do que tinha sido o de ida. Raul tinha comprado lugares em primeira classe, para que Teresa, sentada sobre os seus piercings, tivesse mais amplitude para ajustar a sua posição no assento – necessidade esta que ter o rabo dorido tornava agora mais premente. Reservara um lugar junto à coxia, para que ela se pudesse pôr de pé algumas vezes. Mas tratava-se dum voo nocturno, e Teresa também dormiu não podia passar o tempo todo a passear pela coxia.

Chegaram a Pedras Rubras, estremunhados, às nove da manhã. À sua espera estava Milena, muito engomada no seu uniforme de empregada, e com ela Ana e Miguel, que os acompanharam a casa. Depois do pequeno-almoço, Raul mandou Teresa deitar-se no sofá, levantou-lhe a saia e examinou-lhe o sexo: nos pontos de inserção dos piercings, a carne estava um pouco inchada e avermelhada. Depois do duche, que tomaram juntos, Raul fez questão que ela se secasse bem antes de ele próprio aplicar a pomada desinfectante e anti-inflamatória que o médico tinha receitado. Passaram o resto da manhã na cama, a descansar e a conversar. Almoçaram em casa, servidos por Milena, que pôs sobre a cadeira de Teresa a almofada mais macia que havia em casa; e de tarde passearam um pouco a pé: foram até à Rotunda da Boavista, à Casa da Música, tiraram fotografias um ao outro como um par de namorados e pediram a um casal de turistas que os fotografasse juntos.

– Espere, deixe-me tirar os sapatos! – disse Teresa.

Enquanto a senhora, já de cabelos brancos, lhe segurava os sapatos para que não ficassem caídos no chão a estragar a foto, o marido tirava-lhes o retrato, sorrindo com indulgência da veleidade romântica de Teresa.

De novo em casa, Raul foi para o escritório e mandou Teresa de novo para a cama: queria-a de pé ou deitada; mas sentada, o mínimo possível. À noite não quis possuí-la por trás: era sua intenção fazê-lo raramente, de modo a que a abertura se mantivesse sempre apertada. Ele também acha que por trás é para doer, pensou Teresa; e pôs no beijo que deu a Raul um pequeno extra de ternura.

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