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Posts Tagged ‘Florbela Espanca’

Florbela Espanca começa o seu soneto Escrava com as seguintes palavras: “Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor”. Ao longo da minha vida várias mulheres me chamaram “meu dono” e “meu senhor”. A primeira que me chamou “meu Deus” foi a dunya: A primeira e a única, porque depois dela não tive outra escrava. E numa fase da vida em que tomei a decisão de nunca mais procurar activamente uma escrava, é improvável que alguma mulher me volte a chamar “meu dono” ou “meu senhor” – e muito menos “meu Deus”: uma coisa que descobri durante a minha relação com a dunya foi que esta forma de tratamento me desagradava e perturbava seriamente.

Duvido que me seja possível explicar todas as razões deste meu desagrado. Se eu acreditasse em Deus, poderia ver nestas palavras uma blasfémia e um sacrilégio, mas não acredito n’Ele. Uma razão que posso explicar é a seguinte: desde que me lembro tenho a noção profundamente enraizada de que todos os seres humanos são imperfeitos, incluindo eu próprio. Esta noção influencia praticamente todas as minhas atitudes em relação aos outros e a mim próprio, e leva-me a não esperar demasiado de ninguém. Como raramente me iludo, raramente sofro desilusões; e perdoar, para mim, não é especialmente difícil.

Não exijo a ninguém a perfeição. Exijo, sim, o aperfeiçoamento constante; mas mesmo isto só a mim próprio e a quem está directamente sob a minha autoridade. E aqui está uma das coisas que me incomodavam nas palavras da dunya: ao chamar-me “meu Deus” estava, ou a exigir-me a perfeição, ou a declarar-me perfeito. E isto, a meu ver, não era expressão de respeito, mas da mais profunda falta dele, porque equivalia a uma negação da minha humanidade. E se é na minha humanidade, com a sua inerente imperfeição, que eu centro a minha dignidade e o meu orgulho, então tanto me insulta quem pretender fazer de mim mais que humano como menos que humano.

Quando disse à dunya que a expressão “meu Deus” me incomodava e me fazia sentir mais diminuído do que homenageado, foi a vez dela de se ofender. Disse-me que com essa expressão estava a exprimir algo de muito verdadeiro e profundamente sentido, e que se eu lha proibisse estaria a negar-lhe uma forma de exteriorização da qual tinha verdadeira necessidade. Que essa necessidade lhe vinha dum sentimento de reverência, de veneração, de adoração que não conseguia guardar inteiramente dentro de si.

De modo que começámos os dois a tentar descobrir quando e em que circunstâncias essa expressão tinha mais tendência a vir-lhe à boca. Descobrimos que nunca a usava nem sentia vontade de usar quando saíamos juntos; nem quando ela me limpava o chão, me fazia a comida ou me passava a roupa a ferro, mesmo que o fizesse toda nua, ou só de avental, sentindo o meu olhar sobre ela; e mesmo na cama, quando eu a possuía, ou na sala, quando eu a vergastava, era muito raro ela dizer “meu Deus”.

Descobrimos que estas palavras lhe costumavam vir à cabeça e à boca numa situação muito específica: quando estava a meus pés, perante o meu sexo descoberto, tomando-o nas mãos ou na boca.

– Afinal o teu Deus não sou eu – acabei por lhe dizer. – É o meu pénis.

Ela achou que isto talvez fosse verdade; e eu achei que se o fosse isto não me desagradaria tanto. Pelo contrário, até me agradaria: não sei se isto se passa com outros homens, mas confesso que tenho uma forte tendência para sentir que o meu pénis, quando erecto, é a única parte de mim que é perfeita. Ousarei dizê-lo? Ouso: há algo em mim que acredita que o meu pénis erecto é a minha parcela de divindade.

Não vale a pena chamar para aqui as várias culturas e religiões espalhadas pelo mundo em que o culto do falo é um elemento importante. Nem me interessam as explicações sociológicas ou antropológicas deste facto. É uma realidade para a qual só quero olhar do ponto de vista do meu imaginário e dos meus afectos: e aqui este culto encontra uma profunda ressonância.

Que também a encontra nalgumas mulheres, provou-mo a dunya. E nos meus leitores e leitoras? Será que alguém que me está a ler já esteve envolvido em algo de semelhante a esta “adoração do falo”? Aguardo com muito interesse os vossos testemunhos e opiniões, quando mais não seja para saber que não estou sozinho.

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Escrava

Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor,
Eu te saúdo, olhar do meu olhar,
Fala da minha boca a palpitar,
Gesto das minhas mãos tontas de amor!
Que te seja propício o astro e a flor,
Que a teus pés se incline a Terra e o Mar,
Plos séculos dos séculos sem par,
Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor!
Eu, doce e humilde escrava, te saúdo,
E, de mãos postas, em sentida prece,
Canto teus olhos de oiro e de veludo.
Ah! esse verso imenso de ansiedade,
Esse verso de amor que te fizesse
Ser eterno por toda a eternidade!…

Florbela Espanca

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Súplica

Florbela Espanca

Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há muito por te amar.

O meu colo é arminho imaculado
Duma brancura casta que entontece;
Tua linda cabeça loira e bela
Deita em meu colo, deita e adormece!

Tenho um manto real de negras trevas
Feito de fios brilhantes d’astros belos
Pisa o manto real de negras trevas
Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!

Os meus braços são brancos como o linho
Quando os cerro de leve, docemente…
Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te
Nessa cadeia assim eternamente! …

Vem para mim, amor…Ai não desprezes
A minha adoração de escrava louca!
Só te peço que deixes exalar
Meu último suspiro na tua boca!…

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