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Posts Tagged ‘História de O’

Durante muito tempo vivi a minha orientação sexual de dominante sem a compartilhar com ninguém que não fossem aquelas mulheres, tão ingénuas como eu era, com quem me relacionei desta forma. Só quando descobri a Internet é que verifiquei que há muita gente a fazer muitas das perguntas que eu e elas fazíamos; e que há muita gente a encontrar, não só as mesmas respostas, mas respostas que nunca nos tinham ocorrido.

Uma questão que sempre se me pôs é a que dá o título a este artigo, por isso não me surpreendi quando a vi aparecer recorrentemente nos foruns e nos blogues. Quero referir-me em particular a duas mulheres que me disseram isto mesmo: “Eu quero ser a escrava perfeita.” (não estavam a falar em relação a mim.) Disseram-no as duas em contextos diferentes e com significados diferentes, mas em ambos os casos ficou subentendido o que elas não disseram explicitamente: “Eu quero encontrar o Senhor perfeito.”

Ora eu não acredito, nem em escravas perfeitas, nem em Senhores perfeitos; e isto pela simples razão que não acredito em seres humanos perfeitos. Acredito, sim, em relacionamentos perfeitos entre Senhor e escrava – relacionamentos estes cuja perfeição não só admite, como requer, a imperfeição de ambos. Não se pode aperfeiçoar o que já é perfeito, e para mim a perfeição num relacionamento consiste no aperfeiçoamento constante e perpétuo, quer do Senhor, quer da escrava.

Escravas perfeitas e Senhores perfeitos só existem na literatura. Na “História de O”, por exemplo: no início da narrativa, O é uma escrava imperfeita que tem um relacionamento imperfeito com um Senhor imperfeito, e no fim transformou-se na escrava perfeita que tem com um Senhor perfeito um relacionamento perfeito. Não quero dizer mal da “História de O”: pelo contrário, entendo que se trata de uma obra literária de primeiríssimo plano e do maior clássico da literatura erótica do século XX. Além disso é uma obra que transformou a minha vida e também, tenho a certeza, a vida de muitas outras pessoas. Mas isto não impede que seja uma obra de ficção, e o que é perfeito na ficção raramente é perfeito na vida.

A arte da narrativa tem grandes dificuldades. Entre elas conta-se a necessidade de adequar o enredo à caracterização das personagens, de fazer com que tanto um como a outra sejam plausíveis (pelo menos dentro das convenções da própria narrativa); e, se for uma obra extensa, um romance, a necessidade de fazer com que as personagens evoluam duma maneira consistente, quer com o enredo, quer com as suas características básicas. Nada disto é fácil, e tudo isto é conseguido brilhantemente na “História de O”. Podemos falar aqui de perfeição, mas é de perfeição literária que se trata. A perfeição do vivido é outra coisa.

No início da narrativa, O é uma escrava imperfeita. Há regras a que não consegue obedecer. Está proibida de olhar os Senhores nos olhos, mas fá-lo. Merece ser punida e é punida. No fim, contudo, já atingiu a perfeição. Já não merece ser punida. É claro que o continua a ser, mas é-o sem outra razão para além da vontade arbitrária do Senhor. A punição deixou de corresponder à necessidade ética de corrigir comportamentos e passou a corresponder à necessidade estética de exprimir a perfeição atingida.

Como é que se chega a esta perfeição? Primeiro, pelo treino; e logo a seguir pela exclusão deliberada de um factor de perturbação e complicação, que é o amor. Num dos momentos cruciais do romance, Sir Stephen diz a O: “Você confunde amor com obediência. Você obedecer-me-á sem me amar e sem que eu a ame.” Quando li esta frase pela primeira vez senti um misto de excitação e perturbação, e nunca mais deixei de reflectir sobre ela. Não é que não a tivesse compreendido: pelo contrário, compreendi muito bem o seu cabimento na lógica da narrativa. Mas a lógica da narrativa não é a lógica da vida, e muito menos a da vida que eu quero viver: nesta, o amor não é uma irrelevância, nem um obstáculo à perfeição, mas sim a própria perfeição.

Voltando à vida real e às minhas conhecidas a quem me referi acima: ambas relacionam, embora de maneira diferente, a noção de perfeição com a de castigo e com a de obediência. Uma sustenta que não pode ser castigada, pelo menos fisicamente, porque nada do que um dominante lhe faça está para além do que consegue suportar; a outra diz que uma escrava perfeita não pode ser castigada porque a sua vontade estará de tal maneira sintonizada com a do seu Senhor que a desobediência se torna impossível, e o castigo, consequentemente, desnecessário. A razão por que a noção de obediência desagrada a ambas é basicamente a mesma: num relacionamento entre um Senhor perfeito e uma escrava perfeita, a vontade de um coincide necessariamente com a do outro; logo, a escrava fará sempre de livre vontade tudo aquilo que o Senhor quer que ela faça; logo, o Senhor nunca precisará de invocar qualquer dever de obediência por parte da escrava.

Na vida real, esta perfeição, assim entendida, não me parece nem possível, nem desejável. Imaginemos que dois seres chegavam a este ponto: como poderíamos então distinguir entre o Senhor e a escrava? Numa relação destas faria tanto sentido dizer que ela era escrava dele como dizer que ele era escravo dela. Ambas as afirmações seriam verdadeiras; e ambas seriam falsas. Na “História de O”, a tentativa de excluir o amor acaba por falhar: O e Sir Stephen acabam por se amar. Mas esse amor não resulta numa vida em comum: atingida a perfeição, não têm mais para onde ir e o fim sugerido na história é a morte voluntária de O com a permissão do amante.

E no entanto eu desejo a perfeição. Não a perfeição narrativa, cuja lógica só pode desembocar na morte; mas a perfeição na vida, uma perfeição que tem em conta a humanidade, e portanto a imperfeição, quer do Senhor, quer da escrava. A perfeição neste relacionamento não depende duma impossível perfeição dos seus intervenientes, mas sim do seu lento, constante e infindável aperfeiçoamento. Neste relacionamento perfeito há lugar a castigos: o compromisso inicial pode cobrir todas as contingências futuras, mas estas não podem ser todas previstas e inevitavelmente chegará o dia em que a escrava sentirá: “eu não posso fazer isto, eu não quero fazer isto, eu não posso aguentar isto”. E há lugar a ordens dadas pelo Senhor e obedecidas pela escrava, porque chegará inevitavelmente o momento em que a vontade de um não coincidirá com a do outro; e o compromisso que assumiram é de que nestes casos a vontade do Senhor prevalece. E é neste momento – não nos momentos em que a obediência é tão fácil que nem é sentida como obediência, ou a punição tão fácil de suportar que nem é sentida como punição – que a perfeição do relacionamento se revela ou não. Não é perfeito o relacionamento em que a escrava obedece sempre porque quer sempre obedecer: perfeito, sim, é o relacionamento em que a escrava obedece mesmo quando não quer, e aceita sofrer mesmo o que não tem a certeza de suportar. A vida duma escrava não é fácil.

É esta uma das mensagens de Polly Peachum no ensaio “Violência no Jardim” que estou a traduzir e a publicar neste blogue. É a mensagem de alguém que tem a autoridade de ter vivido aquilo de que fala, a autoridade acrescida de ter reflectido profundamente sobre essa vivência, e a autoridade suprema de ter atingido na sua relação, sem ser ela própria perfeita, um grau de perfeição e exigência muito para lá do que a maioria de nós desejamos ou somos capazes.

Se a escravidão voluntária é um contrato em que uma das partes se compromete a que nunca mais seja tida em conta a sua vontade, é também um contrato em que as duas partes se obrigam a procurar juntas a perfeição, sabendo à partida que nunca a hão-de alcançar. Juntas, mas não exactamente lado a lado: o esforço do Senhor tem que ser um pouco maior; ele tem que ir um pouco mais à frente; porque pode falhar em muitas coisas, mas não no seu dever de guiar a escrava a bom porto. E isto também é difícil.

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haasDuvido que haja muitas escravas ou submissas que nunca se tenham feito esta pergunta. E lembro-me que a certa altura, na História de O, Sir Stephen diz à protagonista que não deve confundir obediência com amor: Você ama René, mas a mim obedecer-me-á sem me amar e sem que eu a ame.

Esta frase sempre me perturbou. E pelos vistos perturbou também a autora do romance, já que sentiu a necessidade, mais adiante, de fazer com que Sir Stephen amasse O e com que ela o amasse a ele. Sem este amor, presumo (e sem pretender saber o que se passou no espírito da autora) o enredo deixaria de ser plausível e o livro teria ficado a meio.

O primeiro sentimento a que me referirei é, portanto, o amor. Não o amor sentimental, próprio dos que não conseguem viver sem a presença constante do outro, e que é um amor de escravos; mas o amor na acepção mais nobre da palavra, que se pode definir como a condição de vida em que a felicidade do outro é essencial à nossa. Neste sentido o Senhor amará sempre a sua escrava, não poderá evitá-lo. Pode ser indiferente ao prazer dela, e em muitos casos convém que o seja; ou ao sofrimento dela, e sobretudo à vontade dela; mas não à sua felicidade.

À escrava, é claro, não é indiferente nem o prazer, nem a vontade, nem a felicidade do dono: também neste particular a beleza da relação está no seu equilíbrio radicalmente assimétrico. Além de sentir amor pela sua escrava, o Senhor tem também respeito por ela. Pode humilhá-la, e em alguns casos deve fazê-lo: mas não pode diminuí-la, porque está perante um ser humano único e irrepetível como ele, e se a diminuísse na sua humanidade estaria a diminuir-se a si próprio.

Uma coisa que o Senhor não tem em relação à escrava é qualquer sentimento de superioridade. Pode ser-lhe superior em inteligência, ou em coerência, ou em finura de sentimentos, ou em qualquer outra coisa; mas em tudo isto é igualmente provável que ela lhe seja superior; e o mais provável é que as superioridades de um e de outro se equilibrem reciprocamente, como em qualquer relação baunilha. A submissão da escrava resulta da sua entrega, e não da sua inferioridade, seja ela real ou imaginária. A confusão entre estes dois planos leva muitos aspirantes a Senhores a desenvolver uma arrogância que a médio prazo acabará por torná-los ridículos aos olhos de todos, inclusivamente aos de quem se lhe entregou outrora; e leva algumas submissas a procurar infrutiferamente um Senhor que possam admirar em tudo e para sempre, um ser superior e perfeito que nunca existirá a não ser na sua fantasia.

Um Senhor, para ser Senhor, não tem que ser perfeito nem que se pôr num altar: tem que amar a sua escrava, tem que a respeitar, tem que a subjugar, tem que a guiar e fazer crescer, tem que a punir e recompensar, e acima de tudo tem que saber exactamente o que quer dela. Em matéria de perfeição isto basta, e já não é pouco.

E há finalmente um sentimento que um Senhor que se preze não poderá nunca, em caso algum, em nenhum grau, nutrir pela sua escrava: o sentimento do desprezo. Um Senhor que despreze a sua escrava, e que por desprezo a violente, não é um Senhor: é um oportunista, um abusador e um patife, merecedor de ser abandonado sem hesitação e sem remorsos por aquela que um dia se lhe entregou de boa-fé.

(Publicado no Blogger a 13/05/08 )

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Há coisas na vida que já me resignei a não saber, e uma delas é se as mulheres são naturalmente submissas.

As teorias, conheço-as todas mas não acredito em nenhuma. Falarei portanto das mulheres que conheço pessoalmente: umas autoritárias e dominantes; outras comprometidas ideologicamente com o feminismo e a igualdade entre os sexos; outras ainda – a maioria – indecisas e contraditórias; e outras, finalmente, possuídas pela paixão de obedecer e servir.

Olho para estas mulheres e todas elas, com excepção das feministas doutrinárias, me parecem «naturais». Mas há uma coisa em que as submissas se distinguem das outras: a intensidade com que vivem a sua escolha.

Não se trata aqui de paixão ideológica, mas de algo muito diferente. As submissas não teorizam, vivem. Não é que não sejam inteligentes: são-no tanto como as outras, ou mais, e usam essa inteligência com uma lucidez que por vezes chega a ser arrepiante. Mas é uma inteligência que tem tudo em consideração, até o mistério; e nunca conheci nenhuma submissa que não reconhecesse e celebrasse o mistério da sua natureza.

Uma amiga minha, muito activa no meio BDSM, diz-me repetidamente que aconteça o que acontecer – saldem-se~as suas experiências e relações futuras em êxitos ou em fracassos – «baunilha» é que nunca mais. Ouço-a e fico maravilhado perante alguém que – coisa rara nos tempos que correm – sabe exactamente o que quer.

Outra boa amiga – em cujo vocabulário não entram, de resto, expressões como «BDSM» ou «baunilha» – põe as coisas de modo diferente. Exprime-se em termos duma epifania, duma iluminação súbita, duma descoberta. Para ela há, muito nitidamente, o «antes« e o «depois». Houve uma vida dita «normal», depois houve o contacto com um mundo de possibilidades centradas no obedecer e no servir; e agora há a convicção inabalável de pertencer a este mundo.

De onde vêm estas mulheres? De que mundos, de que vidas, de que experiências? Sabe-se que para cada acção há uma reacção igual e oposta: tratar-se-á aqui duma reacção aos excessos doutrinários do feminismo radical? A hipótese é tentadora mas pouco convincente, até porque não faltam zonas de intersecção entre certas formas de submissão e certas correntes feministas (veja-se a este respeito a reacção inicial de Andrea Dworkin, que mais tarde mudou de ideias, à História de O). Mais plausível é tratar-se duma reacção à morte do amor romântico anunciada esta semana pela revista Time: Hollywood já não conta histórias de amor; Humphrey Bogart já não se despede, de coração partido, de Ingrid Bergman; Rhett Butler já não beija apaixonadamente Scarlett O’Hara. No mundo de hoje o amor romântico já não tem lugar: quem ama serve, quem ama está preso, e poucos querem servir ou estar presos.

E contudo…

E contudo lembro-me do amor cortês na Idade Média. Olho para as submissas, tão belas e tão nobres na sua servidão, e lembro-me do amor cortês. Os temas estão lá todos: o serviço, a abnegação, muitas vezes a não-consumação ou a consumação adiada do amor físico. A diferença é que hoje quem está sentado no trono é um homem e quem está de joelhos perante ele é uma mulher. É justo.

Porque são apaixonadas; porque mantêm acesa uma chama que não se pode, não se deve apagar; porque vão ao fundo de si próprias e não têm medo do que lá encontram; porque são as guardiãs do Mistério neste tempo de máquinas e simplismos – por tudo isto, quero prestar hoje a minha homenagem à «d», à «k», à «a», à outra «a», à «i» e a todas as outras submissas e escravas com quem tenho aprendido tanto.

(Publicado no Blogger a 27/08/07)

(Publicado no Blogger a 27/08/o7)

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Estive a rever o filme. Nestas ocasiões é obrigatório dizer-se que o filme é muito inferior ao livro, e neste caso é verdade.


No filme, o amante de O, René, é simplesmente bonito demais. Faz beicinho. Pede, suplica, explica-se, justifica-se. Fica-se com a sensação de que O é que devia ser a Senhora dele, e não ele dela. O actor que faz de Sir Stephen é um canastrão: o seu domínio sobre O é demasiado histriónico para ser credível. Os homens em Roissy são vilões de opereta. Salvam-se Anne-Marie, Jeanne e Yvonne.

No filme foi eliminada uma personagem do livro: Natalie, a irmã mais nova de Jacqueline (Jaqueline é a modelo fotográfica que O acaba por conduzir a Roissy para se submeter ao mesmo treino que ela). A personagem foi suprimida porque tem quinze anos, e entre a data em que o livro foi escrito e a data em que o filme foi produzido tornou-se politicamente incorrecto uma jovem dessa idade pensar em sexo noutros termos que não sejam o da pura diversão – uma espécie de desporto radical – a praticar exclusivamente com miúdos da mesma idade.

No entanto Natalie é uma personagem importante. Não porque intervenha na acção – não intervém – mas porque observa tudo com um olhar inocente – isto é, um olhar sem preconceitos. Natalie legitima O porque não olha para ela politicamente, mas sim com os olhos dos sentimentos. É um olhar velho como o mundo e novo como a manhã.

E o mundo de Just Jaeckin (o realizador) tem glamour a mais. Do que eu menos gosto no filme, porém, é a cena final em que O apaga um charuto na mão de Sir Stephen. Porquê este gesto? Pela necessidade politicamente correcta de introduzir um factor de simetria na relação entre os dois? Mas isso é pôr tudo ao contrário: a beleza duma relação senhor-escrava está precisamente no equilíbrio radicalmente assimétrico que procura e às vezes alcança.

O livro, esse, é uma obra-prima. Um clássico, não só da literatura erótica, como da literatura em geral. Como assinala Jean Paulhan no prefácio, é um daqueles livros que mudam o leitor para sempre. Livros assim são da ordem da grande literatura.

Talvez um dia alguém faça um bom filme da História de O. O tema merece-o. Com um bom realizador, bons actores e sem concessões, quer ao politicamente correcto, quer à estética «glossy» das agências de modelos.

(Publicado no Blogger a 21/08/07)

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Os 50 anos de A história de O

Konstantin Gavros (*)
La Insignia. Brasil, janeiro de 2004.

Um incontrolável estranhamento nos assalta ao nos depararmos com o nome de uma personagem que se resume a uma insignificante letra “O”. E a primeira reação que temos, ao empreender a leitura, é de que esse signo vazio, esse círculo vazado e tão inexpressivo, esse antinome é a designação correta para uma mulher sem passado, sem história, suspensa em meio a um universo de prazeres que nos perturbam e incomodam, escrava – por sua livre escolha – dos desejos de outrem.

No entanto, a verdade é que não há equivalência entre o nome “O” e o zero – ou qualquer outro conceito que expresse passividade -, ainda que a autora não nos conceda, em momento algum, a descrição física de sua personagem; e ainda que a palavra “não” inexista no vocabulário de O.

De fato, não se pode confundir submissão com passividade. E, nesse sentido, a beleza e a sensualidade de O residem exatamente em suas seguidas ações, exercitando uma crescente submissão por sua própria vontade, buscando um amor cujo fulcro ela descobriu na obediência – uma descoberta que a faz despertar para o fato de que “as correntes e o silêncio, que deveriam amarrá-la no fundo de si mesma, estrangulá-la, sufocá-la, ao contrário, libertavam-na de si mesma.”

Há uma sugestiva semelhança entre essa personagem – que se oferece como uma dádiva irrestrita e permanente – e sua criadora, Pauline Réage. Não se trata, como tentaram alguns, de estabelecermos um paralelo entre a vida sexual da escritora e o universo sadomasoquista que ela desenha em A história de O. Mas trata-se de perceber como a senda percorrida por O – na qual, gradativamente, ela arranca de si as amarras que lhe foram impostas pela sociedade, até alcançar o âmago da sua libido, prostituindo-se a ponto de se sentir “consagrada” – é semelhante a de Réage. Nascida Anne Desclos, no seio de uma família conservadora e católica, ela assumiu, na maturidade, o pseudônimo de Dominique Aury, com o qual se tornaria a respeitada tradutora e editora da casa Gallimard, transformando-se, finalmente, por devoção a seu amante, Jean Paulhan, na escritora Pauline Réage. O périplo dessa instigante mulher, empreendido sob o silêncio e o quase anonimato, é a jornada dos que ousam explorar, sem limites, o seu interior, o que lhe permitiu subjugar os valores artificiais que Anne Desclos aprendera e, dissecando sua libido, dar vida não somente a O, mas também a si mesma, transmutando-se em Réage.

A história de O é, assim, o romance da depuração, no qual autora e personagem se encontram para responder a uma questão essencialmente humana e, portanto, essencialmente erótica: “Por que tanta doçura misturava-se nela ao terror ou por que o terror lhe era tão doce”? A submissa O encontrou sua resposta. E creio que Anne Desclos igualmente, pois, do contrário, o processo de auto-análise teria se interrompido na persona de Dominique Aury.

À parte a censura e as perseguições dos moralistas, A história de O se consagrou como o romance que trouxe à luz do século XX, em 1954, as pulsões sexuais que os preconceituosos repudiam como invenções doentias do marquês de Sade ou perigosas patologias. O livro tornou-se, com o passar dos anos, um símbolo da possibilidade de concretização de uma vasta parcela das nossas fantasias sexuais, corroborando e dando forma aos instintos que buscam na dor, no sofrimento e na humilhação – aplicando-os ou submetendo-se a eles – uma forma radical de prazer.

Desmistificando as práticas sadomasoquistas – tão antigas quanto o animal humano -, Pauline Réage concedeu grandeza e respeitabilidade a todos os que buscam prazer sexual na submissão e na dor: “(…) As partes do corpo mais constantemente ofendidas e que tinham se tornado mais sensíveis pareciam-lhe ao mesmo tempo mais belas, e como que enobrecidas; a boca que se fechava sobre sexos anônimos, os bicos dos seios constantemente acariciados por muitas mãos e os caminhos do ventre entre as coxas abertas, estradas abertas pelo prazer. Admirava-se de que ao ser prostituída viesse a ganhar em dignidade, e no entanto tratava-se de dignidade. Sentiu-se como que iluminada por dentro e via, no seu modo de andar, a calma, e no rosto, a serenidade e o imperceptível sorriso interior que se advinha nos olhos das reclusas.” De fato, com a delicada O, Réage demonstrou que, apesar de nos parecer paradoxal, há uma insuperável auto-estima em atender às exigências da libido.

É a certeza e a coragem de O que nos comovem e nos seduzem. Em sua busca inflexível, sempre movida pelo amor e por um “orgulho insensato”, ela aceita tudo, erigindo um altar à superação de todos os medos, de todos os limites, agarrando-se ao suplício não como uma forma de sublimação de suas frustrações, mas como um dos possíveis caminhos à fruição plena do prazer: “Quando o sofria [o suplício], trairia o mundo inteiro para lhe escapar, e após terminá-lo sentia-se feliz por tê-lo sofrido, tanto mais feliz quanto mais cruel e mais longo tivesse sido.”

Prazer e dor, vida e morte confluem, dessa forma, em um mesmo corpo, em uma mesma vontade, não para dilacerar a consciência dessa apaixonante mulher, mas, ao contrário, para torná-la mais viva, mais resoluta, mais íntegra.

A própria autora nos concede a chave para entendermos o significado desse romance que é um rito de passagem à compreensão de nossas mais fundas pulsões sexuais. No prefácio de seu segundo livro –Retour à Roissy– ela nos alerta que “uma vez que se deslinda a zona fantástica daquela outra, mediante a qual se recuperam as obsessões (sendo a repetição infinita de prazeres e sevícias tão necessária como absurda e irrealizável), tudo se ajusta fielmente, o vivido e o sonhado, tudo se descobre comumente compartido no universo de uma mesma loucura”. É preciso, portanto, superar a ficção, cruzar esse território que é, ao mesmo tempo, sonho e realidade, limite e renascimento, medo e alegria – e investigar o nosso eu. E se tivermos coragem para fazê-lo, talvez possamos descobrir o que Réage concluiu: “Se nos atrevemos a olhá-lo de frente, horrores, maravilhas, sonhos, mentiras, tudo é conjura e liberação.”

Essa O que, ao final da narrativa, emerge indelevelmente marcada nas nádegas, com a cintura adelgaçada, os quadris mais redondos, os seios mais pesados e um anel a lhe perfurar os grandes lábios, essa O transformada pelas torturas, é ela mesma que sussurra para si: “Mas que repouso, que delícia o anel de ferro que fura a carne e que pesa para sempre, a marca que nunca se apagará, a mão de um senhor que sabe apropriar-se sem piedade daquilo que ama.”

Nada é simples quando se trata do amor. E nada é facilmente compreensível quando se trata da sexualidade humana. Em um patamar muito acima dos moralismos e dos preconceitos difundidos pelas religiões, pela mídia e pelos valores pequeno-burgueses, A história de O questiona e acusa todos os que ousam minimizar ou desprezar a riqueza e a complexidade da nossa libido.


(*) Konstantin Gavros é escritor. Assina diariamente o blog A verdade é o sexo, o sexo a verdade. É, também, colunista de Novae.

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Com excepção da obra-prima literária que é a «História de O» e de alguns títulos de A. N. Roquelaure (pseudónimo de Anne Rice), a literatura «BDSM» diz-me geralmente pouco. É um género preso, como quase toda a ficção erótica, a demasiadas convenções; e estas resultam do facto (lamentável) de poucos editores aceitarem uma história que não dê garantias de pôr o leitor a masturbar-se logo à primeira página.
É por isso que quero deixar aqui registada uma excepção: o livro «Fantasies of a Young Submissive» de Rosaleen Young. Trata-se de um conjunto de histórias cuja autora é alegadamente uma submissa no mundo real. Nesta qualidade a narradora, que se apresenta como modelo BDSM profissional, faz preceder cada história por uma qualquer observação auto-biográfica, por uma fotografia sua, ou por um pequeno poema.
Transcrevo aqui um destes, intitulado «Two Women», e que tem por sub-título «Duma Submissa a uma Feminista»:

If you please, ma’am, who am I
That you should fight for me
Against ‘male oppression’ through the years
So women can be free

I know you strove to prove our worth
Great chance you had to take
Pray do not think I disregard
Your struggles for my sake

You clench your fist and stamp your feet
To see me serve and bow
And take such treatment from a man
That you would not allow

If you please, ma’am, calm your rage
Your gift I’ll not ignore
‘Twas choice you gave me and choice I take
As slave to man once more

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Sou um dominador desde que me lembro: comecei a sê-lo nas minhas fantasias, depois estas foram-se tornando realidade. Já na minha primeira adolescência os meus devaneios eram de domínio sobre escravas belas como anjos e sensuais como gatas.
A minha primeira escrava foi também o meu primeiro amor. Não começámos como Senhor e escrava, começámos como qualquer outro par de namorados, descobrindo-nos reciprocamente a pouco e pouco, antecipando o momento em que nos veríamos nus, descobrindo juntos que chegara o momento de fazermos amor pela primeira vez…
Éramos ambos virgens, e nenhum de nós tinha alguma vez ouvido falar em BDSM. Tínhamos lido Sade e Sacher-Masoch, mas nessa época líamos tudo o que tivesse letras. Amar era para nós o suficiente, as confidências que tínhamos a fazer um ao outro eram muitas e o tempo para as fazer nunca chegava. Durante muitos meses não senti a necessidade de falar à minha namorada das fantasias de domínio que continuava a ter.
O que precipitou a conversa foi um pedido dela – vamos pôr-lhe um nome suposto: Sofia – enquanto fazíamos amor: que lhe batesse. Eu ouvi este pedido com algum alvoroço e satisfi-lo com prazer – mas um pouco a medo. Olhando para trás, considerando o quanto éramos jovens, lembrando-me que éramos os dois de esquerda, progressistas, feministas – admiro-me de ter aceite com tão poucas reservas bater na mulher que amava.
E a minha fantasia não era tanto provocar dor, era obter uma submissão consentida.
Mas não é difícil conciliar a fantasia dum homem que quer ter uma escrava com a fantasia duma mulher que quer ser castigada, principalmente se os dois se amarem e quiserem dar prazer um ao outro. Ao princípio havia como que uma troca, eu castigo-te como tu desejas e tu obedeces-me como eu desejo; mas com o tempo cada um aprendeu a integrar na sua fantasia a fantasia do outro.
Foi então que descobrimos a «História de O». Tornou-se a nossa bíblia, o nosso modelo. Fizemos um chicote artesanal, preto, que passei a usar nela regularmente – depois de lhe ter pedido que o usasse em mim uma única vez, para saber a dor que provocava (era intensa). Desenhei e pintei dezenasde retratos da Sofia vestida como O – de corpete apertado, seios nus, saias longas caindo em largas pregas. Íamos de férias ou de fim de semana, e eu inventava recados para a mandar fazer descalça – comprar-me cigarros, por exemplo.
Não sei qual de nós se lembrou pela primeira vez de a amarrar. Sei que foi com ela amarrada que a possuí analmente pela primeira vez. Na minha ignorância, não sabia ainda como fazê-lo sem dor, e a Sofia, que eu amava, andou dias a sentir a dor daquela penetração.
E pensar que ambos tivemos prazer nesse prolongamento!
Foi a minha primeira escrava. Foi o meu primeiro amor. Foi a minha primeira aprendizagem. Nunca a esquecerei, e nunca deixarei de lhe estar grato.

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