Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘limites’

Ouçamos o que nos diz uma escrava: «não aceito ser humilhada». Tentemos entendê-la. Ela tem um Senhor, e ama-o. Define a sua escravidão em três palavras: servir, obedecer, sofrer. É assim que ela sabe e quer amar; e como o seu ideal de amor é infinito, sente como uma imperfeição qualquer limite à sua capacidade de servir, de obedecer ou de sofrer.

Ouçamos o Senhor desta escrava. Ele ama-a, e respeita-a, e nunca perdoaria a si próprio se a humilhasse. As modalidades do seu amor por ela são o domínio e a posse: é assim que ele sabe e quer amá-la. Exige dela que o sirva na perfeição, que lhe obedeça com dedicação e inteligência, que aceite e agradeça o sofrimento que ele lhe provoca. Usa o direito que tem de a punir para a consolar de não ser perfeita. Se a castiga sem ela ter cometido qualquer falta, está-lhe a dizer com cada golpe de vergasta: «és minha, tenho este direito sobre ti, e como o tenho, exerço-o». Ela, que quer ser dele, compreende, aceita e agradece o castigo – e porque se sente possuída, sente-se amada.

Se a castiga por uma falha dela no seu dever de servir e obedecer, está a dizer-lhe: «sei bem, meu amor, que não és perfeita; sei também o quanto queres sê-lo; exijo-te que te aproximes sempre mais da perfeição, mas não te exijo que chegues lá. Ninguém chega lá. Vê: serviste-me mal, ou obedeceste-me mal, ou talvez até me tenhas desobedecido de propósito; mas agora vais saber sofrer bem. Fica sabendo que te amo tanto na tua imperfeição como amaria um anjo».

Com outra escrava, com outro Senhor, tudo isto que estou a escrever seria diferente. Mas mantenhamo-nos com estes dois.

Como poderia este Senhor humilhar esta escrava? Humilharia a sua escrava, certamente, se desprezasse a sua dádiva de serviço, obediência e sofrimento. Se a aceitasse sem lhe dar valor, como se fosse coisa pouca. Quando esta escrava diz que não aceita ser humilhada, está a pedir ao seu Senhor que dê à sua dádiva o valor que ela tem, e que é imenso. Uma escrava tem muito poucos direitos: mas este, tem-no, certamente.

Humilharia a sua escrava, também, se não soubesse reconhecer a diferença entre um limite alegado e um limite real. O limite alegado está aquém do limite real (também por isto ela se sente imperfeita). Ao levá-la-la a ultrapassar um limite alegado, estará no seu direito de Senhor, e não estará a humilhar a sua escrava, mas sim a honrá-la. Se a levar além do que ela quer fazer, continua no seu direito: toda a verdadeira escrava sabe e aceita que faz parte da sua condição fazer muitas vezes o que não quer, e muitas vezes não fazer o que quer. Mas se o seu Senhor a levar além do que ela pode fazer, isso será uma humilhação que deixará feridas, talvez incuráveis.

É difícil para um senhor distinguir entre o que a sua escrava não quer fazer e o que ela não pode fazer – e tanto mais difícil quanto é certo que ela própria pode não saber distinguir. Mas aí a responsabilidade é dele, e não dela.

A escrava tem dignidade; e como tem dignidade, tem vontade; e como tem vontade, tem querer. E tanto tem querer, que quis fazer uma dádiva de si própria; tanto tem querer, que quer ser perfeita. E a beleza terrível da sua escravidão está nisto: ela tem querer, mas não tem quereres.

E é por isso que há momentos em que o senhor respeita a sua escrava tanto mais, quanto mais a humilha. A humilhação é respeito quando ele lhe proíbe quereres; quando lhe proíbe caprichos; quando lhe proíbe certos pudores. São momentos em que é direito dele, e talvez dever dele, humilhá-la; mas não são estas as humilhações que ela tem em mente quando diz «não aceito ser humilhada».

São estas, também, as humilhações que a escrava pode evitar humilhando-se ela antes, num jogo em que ambos – ela e o seu Senhor – encontrarão o mais requintado dos prazeres.

Mencionei acima a «beleza terrível» da escravidão desejada. É terrível porque infunde terror: e não só o infunde na escrava, como em todos à volta, incluindo o seu Senhor. Saiba o Senhor maravilhar-se com tamanha beleza; saiba ele sentir, sem lhe ceder, o terror que esta beleza infunde: saberá assim respeitar a sua escrava; e se entender que deve humilhá-la, saberá fazê-lo só na medida em que esta humilhação eleva os dois.

Anúncios

Read Full Post »

Uma amiga minha disse-me há pouco tempo que uma escrava só tem dois direitos: o de entrar na relação e o de sair dela. Tudo o que esteja entre uma decisão e outra compete exclusivamente ao seu dono.

Como posição de princípio, esta tem muito que a recomende: é simples, não dá azo a mal-entendidos e se for posta consequentemente em prática acaba por responsabilizar tanto a escrava (que não tem que se estar a perguntar constantemente se determinada ordem é para cumprir ou não), como o senhor (que tem de dosear as suas exigências de modo a não obrigar a escrava a terminar a relação).

E tem também a vantagem de simplificar a velha questão dos limites. O que fazer em relação aos limites duma escrava, isto é, àquilo que ela é ou não capaz de suportar? As respostas que tenho visto escritas falam no «safe, sane and consensual», o que é sem dúvida um bom princípio, mas levanta a questão de saber se os consensos entre dominante e submisso têm um período de validade ou se se vão modificando de minuto a minuto conforme o estado de espírito de um e de outro. A mim parece-me que, se o consenso pode ser posto em causa e renovado a todo o instante, então já não se pode falar verdadeiramente de domínio e submissão.

Há uma corrente minoritária e radical que afirma que numa relação de dominação não há limites, ou se os há existem para serem superados. É uma posição que faz algum sentido em abstracto, mas que na prática pode dar lugar aos piores abusos e que não serve de todo como princípio orientador dos nossos comportamentos.

Outra posição, esta provavelmente maioritária, defende que o senhor deve ter em conta e reconhecer os limites da sua escrava e tentar ir sempre um pouquinho além deles, recuando se necessário e insistindo gentilmente mais tarde. Esta posição, articulada com o princípio atrás referido do «safe, sane and consensual», é uma boa linha orientadora, uma vez que concilia a moderação com um alto nível de exigência; mas, tal como posições as anteriormente referidas, não tem em conta que os limites da escrava podem ser de natureza diversa e que portanto faz sentido tratá-los de formas diversas.

A teoria que proponho postula tês tipos de limites e estabelece três formas de lidar com eles. Os limites de tipo 1 são os que resultam das circunstâncias vitais da existência: filhos, estado civil, emprego, situação finenceira, saúde, etc. Estes limites são externos tanto às pessoas envolvidas como à sua relação, e têm que ser absolutamente respeitados: ninguém vai algemar e punir uma escrava em frente das crianças, por exemplo, nem prendê-la em casa no dia e na hora em que tem de se apresentar no lugar de trabalho, nem encher-lhe o corpo de marcas no dia em que está planeado ela ir para a praia com o marido, nem obrigá-la a beber álcool quando está a tomar antibióticos.

Os limites de tipo 2 são limites internos e têm a ver com o essencial da personalidade de cada um. As pessoas têm diferentes graus de resistência à dor física, por exemplo. Ou têm fobias, ou lidam melhor ou pior com o conflito e com o stress, ou têm pudores e inibições profundamente enraizados. É destes limites que geralmente estamos a falar quando dizemos que se deve ir sempre «um pouquinho além».

Há ainda, porém, os limites a que eu chamo de tipo 3. Trata-se também de limites internos, mas radicam, não na personalidade da escrava, mas na sua fantasia. Uma mulher que durante anos ou décadas sonhou ser dominada deu necessariamente um conteúdo a essas fantasias: gostava que me fizessem isto e aquilo, não gostava que me fizessem aqueloutro… Estas fantasias são perfeitamente legítimas, é claro, mas numa situação de dominação real é preciso que a escrava compreenda que o seu senhor não está ao serviço das suas fantasias.

Que uma mulher, sozinha na cama, se ponha a devanear sobre o que gostava de fazer e sobre o que gostava que lhe fizessem, é óptimo e é saudável; mas passar disto para o estabelecimento de limites do género «Até aqui vou porque me dá prazer, até ali já não porque não mo dá», isto já é um passo que uma escrava «no real» não se pode permitir.

O que fazer quanto aos limites de tipo 3? Deve o senhor ignorá-los pura e simplesmente? Penso que não: deve conhecê-los, usá-los para punir ou recompensar, e até pode, se quiser, fazer suas as fantasias da escrava que lhes deram origem. Mas deve consciencializar-se, e consciencializar a sua escrava, que os limites que radicam só na fantasia da escrava não são verdadeiros limites.

Na prática os limites de tipo 3 podem ser bastante difícil de distinguir dos de tipo 2. A escrava terá tendência a considerar que determinado limite de tipo 3 é na realidade de tipo 2; enquanto um senhor a quem falte sensibilidade pode considerar que um limite de tipo 2 que eventualmente não lhe agrade é na realidade de tipo 3.

Mas para que uma relação senhor-escrava seja bem sucedida e não se desmorone ao primeiro abalo é necessário que ambos estudem honestamente a questão de saber quando é que um limite é um limite.

Read Full Post »