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Posts Tagged ‘massagem’

Alguns dias depois, foi Doce-Amiga ao balneário do palácio. As outras escravas esmeraram-se em dar-lhe o melhor dos banhos. Lavaram-lhe as pernas, os braços, a cabeça; massajaram-na; usaram caramelo para a depilar; esfregaram-lhe almíscar puro nos cabelos; tingiram-lhe as unhas das mãos e dos pés; alongaram-lhe as pestanas e as sobrancelhas, sombreando-as; queimaram-lhe aos pés braseiros de incenso e âmbar, perfumando-a toda; depois, lançaram-lhe sobre o corpo uma toalha rescendente a flores de laranjeira e a rosas, envolveram-lhe os cabelos numa outra toalha, fumegante, e conduziram-na por fim à câmara que lhe fora reservada e onde a mulher do vizir, a mãe do belo Ali-Nur, a esperava.

O Livro Das Mil e Uma Noites.

Marta acordou quando Camila entrou no quarto e correu as cortinas.

“Venho ajudá-la a vestir-se. Vai estar muito calor, hoje.”

Ao passar pela jovem, que a esperava à porta do quarto de banho, Marta roçou-lhe ao de leve, com a sua carne nua, o blusão de couro eriçado de enfeites metálicos. Mais uma vez se surpreendeu ao notar-lhe a frágil estatura: a rapariga era tão enérgica e senhora de si que parecia maior do que realmente era. “A dois metros de distância,” pensou Marta, “parece tão grande como os meus filhos; mas ainda é mais pequena do que eu.”

Camila seguiu-a até à banheira. Não a deixou lavar-se sozinha: molhou-a e ensaboou-a toda com um sabonete que cheirava a folhas verdes, pôs-lhe shampoo no cabelo, três vezes, enxaguando bem de cada vez; depois secou-a, penteou-a, vestiu-a e levou-a ao dono, que a esperava na biblioteca.

Ali tomaram os três o pequeno almoço, servidos por uma grande rapariga submissa e loira, chamada Rosa, contratada temporariamente para o serviço doméstico. Duas grandes portas envidraçadas davam para o jardim. Assim que Rosa levantou a mesa e se retirou o amante de Marta fechou a porta.

“Agora quero ver-te bem. Caminha um pouco pela sala.”

Marta caminhou com a cabeça erguida, descalça como tinha vindo do quarto. Ao virar-se para o dono pôs as mãos na nuca, fazendo escorrer entre os dedos o cabelo, que tinha escuro e longo. Este movimento fez com que se erguesse o curto bolero que trazia, mostrando a parte inferior dos seios: não estavam tão bronzeados como o resto do corpo, e o azul das veias transparecia sob a pele dourada. O bolero era vermelho escuro, ricamente bordado a ouro. A saia tinha a cintura muito baixa, de modo que deixava a descoberto a maior parte do ventre; era uma peça cor de açafrão, quase transparente, que lhe chegava aos tornozelos. Debaixo do tecido, o triângulo muito escuro do púbis era apenas uma sombra entre outras, talvez a mais negra. O cinto que segurava a saia era feito de pequenas moedas de ouro.

Quando Marta alongou o corpo Camila reparou em como os músculos das costas se lhe moviam debaixo da pele, e não pôde deixar de se comover com as duas covinhas gémeas logo acima das nádegas, com o sulco ao longo da espinha. Miguel viu-a erguer os braços, e notou o requebro com que a sua escrava se lhe oferecia. O ventre distendeu-se com este movimento; um umbigo perfeito marcava-lhe o centro. Viu-a atirar a cabeça para trás num movimento de dança e pôr um pé para a frente, só com as pontas rosadas dos dedos a tocar no chão envernizado. A racha ao longo da saia abriu-se, descobrindo a coxa esquerda e revelando, à volta do tornozelo, uma argola de moedas iguais às do cinto.

A um sinal do amante Marta correu para ele, risonha, com um tilintar de moedas, e atirou-se-lhe nos braços numa brincadeira destinada a fazer-lhe perder o equilíbrio; mas ele agarrou-a e dançou com ela à volta da biblioteca, rindo e beijando-lhe a cara, e passando-lhe os dedos pelo cabelo. Depois despiu-lhe o bolero, fazendo-lho deslizar sobre a cabeça; e Marta ajudou-o erguendo de novo os braços. O rubor que a coloriu até aos seios devia-se tanto à excitação que começava a sentir como à consciência de que qualquer pessoa que passasse no jardim – a criada Rosa, ou o homem que vinha tratar das plantas – a poderia ver, assim nua, através das vidraças. Marta estava de costas para a varanda, e quando sentiu as mãos do amante sobre as nádegas soube que este gesto seria imediatamente visível a quem olhasse para dentro da sala.

Abraçado a ela, de pé, o amante afagou-a com a mão, começando nas nádegas e percorrendo toda a extensão das costas até à nuca, numa longa carícia. Ao segurar-lhe a cabeça sentiu sob os polegares a pele macia da face. Muito terno agora, quase hesitante – enquanto ela se lhe enlaçava, os braços à roda do pescoço, a boca suplicando beijos; e se erguia no bico do pé direito, tentando rodear-lhe a cintura com a coxa esquerda; e fazia tilintar as moedas que lhe pendiam do tornozelo, na tentativa de subir por ele acima – ele tacteava-lhe suavemente o rosto com as pontas dos dedos, como um cego, aprendendo-o todo, acariciando a textura de pêssego junto aos ouvidos, percorrendo o delineamento onduloso dos lábios. Marta tentava beijar-lhe os dedos, no ávido esforço de lhe reter o toque; e ele sentiu este apelo, mas ainda assim, com cruel deliberação, não demorou a carícia, nem aceitou os lábios que ela lhe oferecia. Em vez disso puxou-a para si abruptamente, desequilibrando-a. Susteve-a então nos braços; curvou-se para lhe beijar o pescoço; e chupou-lhe e mordeu-lhe a carne morena até a deixar coberta de marcas avermelhadas. Depois segurou-a pelos ombros e olhou-a nos olhos:

“Tira o resto da roupa,” ordenou. “Deixa ficar a corrente que tens no tornozelo.”

Quando a viu nua abraçou-a de novo. Com os dedos abertos de uma das mãos segurou-a pela cinta; a outra estava-lhe assente nas nádegas, puxando-lhe o corpo de encontro ao dele.

Marta procurou obedecer a esta pressão apertando-se contra ele ainda com mais força; depois libertou-se gentilmente e ajoelhou-se para o despir. Quando terminou ergueu-se de novo de encontro ao amante, que pôde finalmente sentir-lhe o corpo sem impedimento: a dureza das costelas no fundo do tórax; a firmeza elástica do ventre; e o mais macio de tudo, a ternura absoluta dos seios.

Como um gato que brinca com a presa capturada antes de a consumir, assim o amante de Marta se pôs a brincar com ela. Beijou-lhe a boca de fugida, primeiro num dos lábios, depois noutro, depois na comissura dos dois, e depois várias vezes no mesmo sítio. De vez em quando, subitamente, enrolava a língua na dela, mas antes que ela conseguisse corresponder já ele tinha voltado à tarefa minuciosa de lhe beberricar beijos à roda da boca. Ao mesmo tempo esticava o braço para baixo, por trás do corpo dela, apalpando-lhe as nádegas e procurando, apesar da diferença de estaturas, introduzir-lhe a mão entre as coxas. Embora ela se erguesse em bicos de pés para o ajudar os dedos dele não conseguiam chegar-lhe ao sexo: ficou-se-lhe a carícia pelo rego macio entre o ânus e a vagina.

Para Marta, este afago era delicioso. Era também tantalizante: a qualquer momento, pensou, ia conseguir despojar-se do seu próprio peso, que a prendia ao chão, e flutuar ao encontro do amante. Parecia-lhe que estava quase a conseguir; quando chegasse lá acima ia enfim sentir-lhe a carícia dos dedos no clitóris, e a boca, finalmente firme, contra a sua.

Por fim ele decidiu curvar-se para a beijar de vez, num trago fundo e prolongado que lhes matasse a sede aos dois. Sentiu os lábios femininos que se abriam para ele e comprimiu-os com os seus, e delineou-os firmemente com a língua antes de lha introduzir profundamente na boca.

Finalmente.

O tempo tinha parado. Sentada numa poltrona, Camila olhava os dois amantes, com um livro esquecido no regaço. Uma ligeira brisa matinal soprou da janela, perturbando a imobilidade das cortinas e acariciando-lhes os corpos nus. Um perfume seco, estival, a carqueja e glicínias, insinuou-se na sala. A boca de Marta parecia querer fundir-se, de tão macia, na do amante; ao beijar-lhe os lábios, ele teve a sensação que a ia sorver toda num hausto, que ia encher os pulmões com a sua substância; que o corpo da fêmea se tinha tornado desprovido de peso e que se estava a transformar numa espécie de nuvem, num fluído cor de carne, morno, tangível, inebriante, e que este fluído o ia permear todo.

Marta trepava por ele e à roda dele, erguia-se para ele como um perfume, um farrapo de fumo, um génio saído de uma lâmpada, até que acabou por lhe fazer sentir na ponta do pénis a maciez húmida dos lábios vaginais, que o beijavam famintos. Tinha conseguido subir o suficiente: podia agora deixar-se descer de novo, lentamente, empalando-se no sexo erecto com um único, continuado movimento. Durante a penetração não interromperam o beijo. Ele, carregado com ela e de pé, mal se podia mexer; e ela começou a rolar suavemente as ancas de modo a compensar-lhe a incapacidade de executar o vaivém regular e ritmado de que ambos precisavam.

Cansados deste esforço, e sem fôlego devido ao beijo, acabaram por ter que se apartar. O pénis estava tão rígido, e a vagina de Marta tão apertada à volta dele, que quando ele a deixou Camila ouviu um pequeno som molhado, plop, como o desrolhar de uma garrafa. Com uma ligeira palmada nas nádegas nuas de Marta, o amante conduziu-a em direcção uma grande mesa de trabalho junto à janela:

“Anda depressa.”

Fê-la deitar-se atravessada sobre o tampo da secretária, os seios achatados contra a frescura do vidro, pernas abertas, os pés fincados no chão. Quando o amante lhe segurou os pulsos, Marta disse: “Vais amarrar-me.” Como se tivesse estado à espera desta deixa, Camila tirou de uma gaveta quatro grossos cordões de seda vermelha.

“A pequena sabia,” pensou Marta. “Sabia exactamente onde estavam as cordas.” Este pensamento fez com que lhe esmorecesse a excitação. O que lhe estava agora a acontecer obedecia talvez a uma encenação concebida noutro tempo e noutro lugar. Tudo à sua roda, a sala aprazível, a brisa suave, ganhou os contornos de um cenário, de um mundo irreal e distante onde talvez a mesma representação se viesse repetindo desde há muito.

Como num sonho, sentiu que o amante lhe atava os pulsos e os tornozelos às quatro pernas da secretária. Para fazer isto, ele teve que lhe passar pela frente mais do que uma vez, com o pénis rígido ao nível dos olhos dela. Marta via-lhe claramente a ponta rosada, as veias perto da superfície, os sucos que ela própria produzira e que o cobriam como um verniz ainda húmido. Virando a cabeça para o lado podia ver um dos cordões vermelhos que a prendiam; e lembrou-se doutra ocasião, em Brugges, quando ele lhe tinha amarrado os pulsos com as fitas de seda vermelha que ela própria lhe oferecera.

O dono montou-a por trás. Desde o primeiro contacto, logo que a glande lhe tocou no sexo, Marta acendeu-se no mais estranho dos orgasmos: um clímax lento, um fogo subterrâneo que lhe pareceu prolongar-se por várias horas, mas que na realidade só durou o tempo em que ele a possuiu. Impedida, pelas cordas que a prendiam, de ver o amante, contentou-se com escutar-lhe os sons do prazer. E foi com alegria – mas as cordas, como é que Camila sabia – e com um sentimento de triunfo – e quantas outras mulheres – e finalmente com uma espécie de êxtase, que ela lhe sentiu o apressar do fôlego, e lhe ouviu a voz enrouquecer de excitação, e suportou finalmente os últimos embates impiedosos que lhe comprimiram o ventre contra a dureza do vidro.

O amante de Marta sentiu o seu próprio orgasmo avolumar-se-lhe nas raízes do corpo. A posição em que estava não lhe permitia beijá-la na boca, mas ainda tinha nos lábios a memória do beijo violento que tinham trocado antes. Ainda sentia o sabor da boca da mulher, levemente salgada por uma gota de sangue. Sangue dele ou dela? Os aromas do sexo combinavam-se com o cheiro a sabonete do chuveiro matinal. Tanto a pele dela como a dele estavam molhadas e escorregadias nos pontos de contacto, secas e macias onde só as tocava a brisa do jardim. Por trás de Marta, olhando-a, viu-a abanar a cabeça para a esquerda e para a direita num gesto de recusa ou avidez; e pareceu-lhe que o corpo dela estava a reagir aos impulsos nervosos do seu próprio cérebro, que os gestos dela exprimiam o seu próprio avassalamento perante a enormidade das sensações que o invadiam – sim agora é agora, sim, não, ainda não; sim. Sim! – e os sons que ela produzia, de dor ou prazer, tornavam-se os únicos sons do mundo, e estes sons de fêmea corriam para dentro dele e inundavam-no, e enchiam-no até a pressão se tornar quase intolerável, e finalmente derramavam-se para fora dele, transmutados na sua própria voz, no seu próprio esperma: como se o ar que se lhe escapava num largo sopro pela laringe, e o líquido que lhe corria incontido pelas raízes do corpo, fossem o mesmo fluído torrencial e ingovernável.

Marta mal notou que o dono a desamarrava. Da biblioteca passava-se por uma porta para um pequeno quarto de banho, para onde ele a conduziu. Com a assistência de Camila, o amante ajudou-a a lavar e a secar. No fim levaram-na os dois para um grande sofá e sentaram-se junto dela, um de cada lado: ele tinha-se vestido, e Camila trazia, como sempre, as suas calças de ganga preta, blusão de cabedal, e botas. Durante quase uma hora Marta permaneceu nua entre os dois, quase sem falar, a ouvir-lhes a conversa e a responder-lhes às carícias, e sentindo no corpo – mas só ela é que o sentia – o leve sopro de Verão que entrava pelas janelas.

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