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Cap. 34: TITÂNIO

Entretanto havia a viagem ao Brasil, documentos a regularizar, dossiers médicos a organizar, contactos a estabelecer… Os piercings de Teresa iam ser aplicados por um cirurgião, porque os aros de titânio não podiam ser trabalhados no local. Os furos tinham que ter à partida o diâmetro e a curvatura correctos, e o acesso a eles exigia incisões, de modo a que os aros, completos com os ilhós em que deslizariam, entrassem de lado; e por fim havia que suturar estas incisões. Este procedimento exigia uma anestesia local e era muito mais complicado que o que se pratica nos ateliers, mas a cicatrização, devido à precisão dos cortes, ia demorar menos que os dois meses habituais.

O voo para São Paulo demorou quase dez horas, e a transferência para a clínica mais uma. Na mesma noite em que chegou, Teresa ficou internada: o dia seguinte seria dedicado a exames e análises, e no terceiro seriam implantados os anéis. A própria clínica, situada ao lado do parque Ibirapuera, tratou do alojamento de Raul num hotel próximo. Assim, pôde estar presente na primeira consulta com o cirurgião, que já tinha em seu poder um modelo dos quatro piercings que ia colocar. Cada peça consistia em dois anéis que entrariam parcialmente na carne de Teresa. Estes anéis, distantes um do outro por cerca de um centímetro, estavam unidos por uma barra que ficaria de fora; desta barra saía outra, na ponta da qual havia mais um aro. Esta barra engatava, por meio de ranhuras, na que lhe correspondia no lábio oposto, de modo a que os lábios ficassem apertados naquele ponto e os aros da ponta ficassem justapostos sobre a longitude da vulva.

– Reparem os senhores que o engate não é perfeito – disse o cirurgião. – Há um pouco de folga. Isto é propositado: os engates não podem ter arestas vivas, para não machucar; e têm que engatar sem repuxar os tecidos. Depois de os aros de cima engatarem… assim… será possível segurá-los com um cadeado. A senhora deseja piercings de cada lado do clítoris e da vagina, não é verdade?

– Sim – disse Raul – mas a uretra tem que ficar livre…

– Vou dizer-lhe a verdade: com os dois piercings apertados no lugar, a uretra ficará um pouquinho constrangida. Não terá dificuldade em urinar, mas vai ter que fazer uma higiene mais cuidada…

– Sim, nós sabemos.

– A cicatrização não vai demorar tempo demais, porque a incisão vai ser muito exacta e a sutura também. Mas precisa ter alguns cuidados. Quero falar neles aos dois para ter certeza que entendem.

– Faça favor – disse Raul.

– Hoje, a senhora irá para a o seu quarto e fará exames. Se tudo estiver certo, será operada amanhã de manhã. É uma operação muito simples, com anestesia local. Algumas suturas serão bio-solúveis, outras terão que ser removidas à medida que não sejam necessárias. Logo que possível, a senhora deverá mover um pouco os implantes para eles não colarem aos tecidos, mas sempre com muito cuidado. Não tente engatar os anéis exteriores antes de passarem três semanas. Não poderá fazer sexo vaginal antes de seis semanas, e espere oito semanas antes de usar os cadeados.

– E sexo anal? – perguntou Teresa.

– Pode fazer sexo anal passadas quatro semanas, mas tem que fazer logo a seguir uma higiene muito completa de toda essa parte de seu corpo, usando um bom anti-séptico. Agora a enfermeira vai levar a senhora ao seu quarto. O senhor poderá vir de visita a qualquer hora entre as dez da manhã e as dez da noite. Se tudo correr como esperamos, ficará internada três dias: hoje para preparação e exames, amanhã para a operação e mais um para tratamento pós-operatório. No último dia, o senhor também deverá estar presente para a enfermeira ensinar alguns cuidados que deve ter. Depois, a senhora deve descansar, não pode fazer muito esforço; pena que não possa visitar nossa cidade como ela merece.

– E pompoar, quando posso fazer? – disse Teresa.

– Exercícios de Kegel? Pode fazer daqui a quatro ou cinco dias: até ajuda a recuperar. Mas ao princípio faça com muito cuidado, ouviu? Se lhe doer, nem que seja um pouquinho, pare logo.

Depois disto, Raul foi posto delicadamente na rua. Um funcionário da clínica conduziu-o de automóvel ao hotel. No dia seguinte só o deixaram visitar Teresa de tarde: encontrou-a um pouco combalida e impaciente por não a deixarem pôr-se de pé. Para a entreter, Raul descreveu-lhe o hotel, o passeio que tinha dado de manhã, alguns factos que tinha apurado sobre a clínica:

– Sabes que como teu acompanhante tenho direito a alguns tratamentos de graça? Limpeza facial, drenagem linfática… tenho que ver melhor o catálogo.

Teresa fez-lhe sinal de que lhe queria falar ao ouvido, e quando ele se inclinou disse-lhe:

– Só não os deixes modificar-te o pénis, gosto dele exactamente como é.

E ao sentir-se sacudida de riso acrescentou, como se a culpa fosse dele:

– Ai, não me faças rir, que me dói…

Raul deu o suspiro os homens que dão há milénios quando confrontados com a injustiça feminina, ajeitou-lhe a inclinação da cama para ela ver melhor a televisão, beijou-lhe os lábios e perguntou:

– Estás bem assim?

– Estou bem, não te preocupes. Que livros são esses?

– Alguns são para ficar aqui, os outros para eu levar para o hotel.

– Não vais sair à noite?

– Não é preciso. Ligo para a recepção e eles mandam-me uma moça da cor e feitio que eu quiser.

– Para te acender o charuto e servir o whisky, não é?

– Pois claro. Para que mais havia de ser?

– Então manda-a passar por aqui para eu a ensinar. Não quero o meu senhor mal servido…

Riram-se os dois e ficaram algum tempo de mão dada, um pouco enleados, sem saberem bem o que dizer um ao outro. Por fim, foi ela que o mandou embora:

– Anda, vai. Também precisas de descansar. Eu fico bem, daqui a pouco apago a luz.

O dia seguinte foi passado na clínica, onde Teresa já podia passear uns minutos nos jardins.

– Esta coisa ainda me incomoda – disse ela no fim de um destes passeios.

– Dói-te?

– Não, quase não me dói. Mas sinto que são objectos estranhos… Hei-de habituar-me, está claro.

No terceiro dia Teresa teve alta. Antes de sair, uma enfermeira levou-a com Raul a um quarto mobilado como o duma casa particular, com um quarto de banho normal, e ensinou-lhes alguns procedimentos que teriam que seguir no futuro: muita água, muito sabonete, muita água oxigenada, muita circulação de ar, e tudo sempre o mais seco possível.

– Melhor andar de saia sem calcinha, moça… Não vai ter vergonha, vai?

Agora, havia que ocupar os dias. Teresa achava frustrante ter forças para andar e não o poder fazer tanto quanto queria. Os passeios no parque eram dados em passo lento, o que, se por um lado os fazia durar mais, por outro impacientava Teresa, que sempre gostara de caminhar depressa. Raul apontava-lhe os animais e as plantas, que naquele início de primavera brasileira animavam o parque com sons e com cores: assim conseguia que ela se detivesse por momentos e não forçasse demais o corpo.

Na primeira noite que passaram juntos, Teresa decidiu que era tempo de voltar a assumir os seus deveres de escrava: depois dos beijos profusos e das demoradas carícias do reencontro, ajoelhou-se à frente dele, num gesto tão gracioso que dava a impressão de já nada lhe tolher os movimentos, e pediu:

– Meu senhor, não queres gozar na minha boca? Há tanto tempo que não te sirvo…

Raul olhou-a nos olhos:

– Lembras-te de como eu te ensinei, minha escrava?

– Como não havia de me lembrar, meu senhor? Vou-te mostrar…

Raul desapareceu no quarto de banho da suite – aqui dizia-se banheiro – para reaparecer cheirando a sabonete e vestido com o pijama que ela lhe tinha oferecido. Sentou-se na poltrona e ordenou:

– Anda cá, escrava, e abre-me o pijama.

Quando Teresa obedeceu, compreendeu a razão de ele ter vestido o pijama: estava completamente depilado na púbis e na zona genital, e tinha querido fazer-lhe uma surpresa.

– Ficas bonito, meu senhor – disse Teresa.

Gostava, com efeito, de o ver assim. Agradava-lhe que ele não tivesse depilado as pernas nem as coxas, particularmente junto às virilhas, onde a pelugem é mais sedosa. Só depilara o escroto, a púbis e o ventre até ao umbigo. O pénis, assim, parecia maior, e viam-se melhor os testículos.

– Quando voltar a servir-me de ti pela vagina – explicou Raul – não quero que os meus pelos se enredem nos teus piercings. Comecei a fazer depilação a laser aqui na clínica. Em Portugal, continuo.

Teresa sabia que o seu prazer não contava, mas não se pôde impedir de sentir que agora era mais agradável metê-lo na boca, sem ter que cuspir pelos. Começou a chupá-lo como ele lhe tinha ensinado, com ternura e respeito; mas desta vez experimentou uma técnica que tinha inventado: virar a cabeça para os lados de modo a poder acariciar-lhe a glande com a mucosa macia do interior das bochechas. De que ele gostou, não teve dúvidas. Mas também ela tinha uma necessidade o satisfazer, uma necessidade que não era física mas emocional: renovar a dádiva de si que estava no centro do seu amor por ele. Por isso se dedicou tanto, por isso apressou a carícia até sentir a boca inundada de esperma.

Limpou-o com a boca e com a língua: outra vantagem de ele se ter depilado era que esta limpeza era agora muito mais fácil. Depois sentou-se no chão, apoiou a cabeça nos joelhos dele e disse:

– É estranho como chupar-te me faz sentir propriedade tua mais do que qualquer outra coisa… e já estava a precisar de me lembrar, meu amor. Nunca deixes de usar a minha boca.

– Não, minha querida – respondeu Raul. – Também eu te sinto mais escrava quando te ajoelhas para me servir, e não quero nunca prescindir de te possuir assim…

Dois dias depois de sair do hospital, Teresa foi com Raul ao consultório do cirurgião. O médico ficou tão satisfeito com a evolução dela que chamou Raul para junto de si:

– Venha, venha ver… Olhe aqui, no interior dos anéis, como os tecidos estão a cicatrizar… Se continuarem assim, as cicatrizes vão ficar quase invisíveis, e os aros vão ficar bem firmes… É bom sua mulher ter os labia majora tão grandes e resistentes. Mas não se esqueçam que a cicatrização completa demora muito mais que a cicatrização visível… É importante que respeitem os prazos que eu lhes dei.

– Nós sabemos, doutor – disse Teresa. – Vamos respeitá-los à risca…

Teresa não se permitia a impertinência de andar calçada no hotel: considerava que este era, de momento, a casa de Raul, onde tinha de mostrar humildade e respeito; mas nos jardins ele mandou que ela usasse havaianas: um passo em falso, provocado por qualquer pedra no caminho, seria perigoso.

Nos dias seguintes, Teresa tirou os pontos. Onde os anéis de titânio lhe entravam na carne, a pele estava muito fina e rosada, mas não lhe doía nem apresentava sinais de inflamação. Um automóvel alugado com motorista permitiu-lhe visitar com Raul alguns centros de interesse e percorrer duma ponta à outra a enorme Avenida Paulista. Uma noite, aproveitaram a proximidade do Auditório Ibirapuera para irem ouvir a Sinfonia Fantástica de Berlioz: o edifício de Niemeyer impressionou-os, e a música, furiosamente romântica, harmonizava-se com o seu estado de espírito. Passavam, porém, tanto tempo no hotel que Raul ganhou o hábito de se servir de Teresa pela boca mais vezes por dia do que seria de esperar de um homem com quase cinquenta anos. Teresa, que já tinha aprendido muito sobre as preferências dele nesta área, teve ocasião de aprender ainda mais, agora que nada se interpunha entre ela e a pele dele: a infinita leveza com que era preciso beijá-lo ou tocá-lo no escroto, o prazer que era possível dar-lhe passando-lhe a língua no períneo, a maior profundidade a que era agora possível engoli-lo e a necessidade de reaprender a não se engasgar … A ideia de se dedicar durante várias semanas exclusivamente a chupá-lo seduzia-a particularmente, a ponto de nem lhe interessar muito que ele a acariciasse. Tinha-lhe dito um dia que por vezes fantasiava não ser para ele mais do que uma cona; pois agora tinha a oportunidade de não ser mais do que uma boca; durante alguns dias concentrou-se em aproveitá-la e não se importou de andar com os maxilares sempre doridos. Agora que fazia cada vez mais da boca uma vagina de substituição, Teresa achava-se cada vez menos no direito de falar. Sem que ele lho ordenasse, ganhou o hábito de pedir autorização antes de iniciar qualquer conversa:

– Posso falar, meu senhor?

Algumas vezes teve a surpresa de o ouvir dizer não, a ele que tanto gostava de a ouvir; mas estes silêncios impostos eram preenchidos, por um lado, por uma tensão erótica que a fazia cantar por dentro, e por outro por toda uma linguagem de gestos e olhares que era quase uma telepatia. Mas este período mágico tinha que terminar. No dia anterior ao do regresso a Portugal, Teresa, meio morta de vergonha, telefonou para a recepção a perguntar se lhe podiam indicar uma sex-shop que não fosse longe dali. Deram-lhe a indicação pedida, mas informaram-na que o próprio hotel poderia mandar entregar no quarto qualquer artigo mais corrente que a senhora desejasse. Era apenas um lubrificante, disse Teresa. Se era só isso, não precisava de ir à sex-shop: quando voltasse ao quarto, depois de a faxineira o arrumar, encontraria o que desejava no banheiro. E foi assim que Teresa deu a Raul a última abertura do seu corpo que lhe faltava utilizar. Bastou-lhe deitar-se nua sobre a cama, colocar uma bisnaga de lubrificante sobre a mesinha de cabeceira de modo a que ele reparasse, e pôr-se de bruços à espera.

– Queres dar-me o teu cuzinho? – perguntou Raul.

– Não te posso dar o que não é meu – respondeu Teresa. – O meu cu sempre foi teu, mesmo que nunca te tenhas querido servir dele. Mas, se não é ousadia uma escrava exprimir um desejo, gostava que te servisses dele hoje.

Raul deu uma risada:

– É verdade, já é meu – observou. – E é verdade, és uma escrava muito ousada.

– Aqui dizem abusada – interrompeu Teresa.

– Ousada ou abusada, vou-te fazer a vontade: prepara-te, porque não vou ter dó de ti.

Despiu o roupão e começou a acariciar as nádegas de Teresa, que se levantavam de encontro à mão dele como se tivessem vontade própria. A esta carícia seguiram-se duas ou três leves palmadas, que lhe rosaram a pele e a fizeram respirar um pouco mais fundo. Quando a viu ficar um pouco excitada, Raul pôs um pouco de gel nos dedos e começou a massajá-la em volta da abertura de trás, aproximando-se cada vez mais do centro e acabando por lhe introduzir o dedo indicador, primeiro só até à primeira articulação, depois até à segunda, por fim até à base.

Quando lhe encostou ao ânus a ponta do pénis, que também tinha lubrificado cuidadosamente, disse-lhe que fizesse força para fora, como se estivesse a fazer sair qualquer coisa e não a deixá-la entrar. Teresa sorriu: este truque, conhecia-o ela dos seus anos de puta. Sempre tinha tentado evitar o sexo anal, mas nem sempre isto dependera da sua vontade. Mas agradou-lhe que Raul a tratasse como a uma jovem inocente; e de facto, desde a última vez que tinha sido possuída por trás, tinham-se passado tantos anos que o rabo se apertara de novo. Apesar Raul de ter tido todo o cuidado em lubrificá-la e em lubrificar-se, teve muito menos ao penetrá-la. Isto agradou a Teresa: sexo por trás é para doer, pensou; e embora gemesse de dor, virou a cara para e entreabriu os lábios num convite a que ele a beijasse.

O voo de volta foi mais difícil para Teresa do que tinha sido o de ida. Raul tinha comprado lugares em primeira classe, para que Teresa, sentada sobre os seus piercings, tivesse mais amplitude para ajustar a sua posição no assento – necessidade esta que ter o rabo dorido tornava agora mais premente. Reservara um lugar junto à coxia, para que ela se pudesse pôr de pé algumas vezes. Mas tratava-se dum voo nocturno, e Teresa também dormiu não podia passar o tempo todo a passear pela coxia.

Chegaram a Pedras Rubras, estremunhados, às nove da manhã. À sua espera estava Milena, muito engomada no seu uniforme de empregada, e com ela Ana e Miguel, que os acompanharam a casa. Depois do pequeno-almoço, Raul mandou Teresa deitar-se no sofá, levantou-lhe a saia e examinou-lhe o sexo: nos pontos de inserção dos piercings, a carne estava um pouco inchada e avermelhada. Depois do duche, que tomaram juntos, Raul fez questão que ela se secasse bem antes de ele próprio aplicar a pomada desinfectante e anti-inflamatória que o médico tinha receitado. Passaram o resto da manhã na cama, a descansar e a conversar. Almoçaram em casa, servidos por Milena, que pôs sobre a cadeira de Teresa a almofada mais macia que havia em casa; e de tarde passearam um pouco a pé: foram até à Rotunda da Boavista, à Casa da Música, tiraram fotografias um ao outro como um par de namorados e pediram a um casal de turistas que os fotografasse juntos.

– Espere, deixe-me tirar os sapatos! – disse Teresa.

Enquanto a senhora, já de cabelos brancos, lhe segurava os sapatos para que não ficassem caídos no chão a estragar a foto, o marido tirava-lhes o retrato, sorrindo com indulgência da veleidade romântica de Teresa.

De novo em casa, Raul foi para o escritório e mandou Teresa de novo para a cama: queria-a de pé ou deitada; mas sentada, o mínimo possível. À noite não quis possuí-la por trás: era sua intenção fazê-lo raramente, de modo a que a abertura se mantivesse sempre apertada. Ele também acha que por trás é para doer, pensou Teresa; e pôs no beijo que deu a Raul um pequeno extra de ternura.

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Cap. 31: SEIS VERGASTADAS E MAIS UMA

Desde que Teresa se tinha habituado a dançar para Raul depois de jantar, mostrando-lhe os progressos que fazia nas aulas, estava-se a tornar mais frequente Raul jantar sozinho, servido por Teresa e Milena. Isto evitava que Teresa tivesse que mudar de roupa duas vezes, e por outro lado dava lugar a uma competição lúdica entre as duas para ver quem organizava o serviço mais requintado. Esta competição levou a tais extremos de formalismo que não raras vezes acabavam as duas, acompanhadas por Raul, perdidas de riso perante uma invenção protocolar particularmente absurda. Mas se o protocolo excessivo e barroco do jantar era puro divertimento, as danças de Teresa perante Raul eram, pelo contrário, um assunto muito sério. Nestas danças, Teresa não estava limitada ao formato da dança do ventre e usava por isso de uma liberdade que não podia exercer nas aulas. Por vezes dançava vestida, outras nua ou meia nua; por vezes fazia dança do ventre, outras dança livre ou dança jazz; outras ainda inspiravam-se em gestos e estilos populares de todos os continentes. Dava-lhe especial prazer, dançando nua, fazer com que a atenção de Raul se concentrasse nas suas mãos ou nos seus braços; ou pelo contrário, estando completamente vestida, pôr em evidência as partes mais íntimas do corpo.
Na noite que se seguiu à da experiência com o vibrador, Teresa apareceu com a parte inferior do corpo coberta de panos transparentes, sobrepostos de modo a formar uma saia multicolor: carmim, vermelhão, siena queimado, laranja, roxo, amarelo indiano. A cinta era tão baixa que, se Teresa não estivesse depilada, lhe deixaria à mostra parte dos pelos púbicos. Logo de início, Raul notou uma rigidez que não era habitual nos movimentos de Teresa: os movimentos habituais estavam lá todos – o ondular dos músculos da barriga, o rolar das ancas, o sacolejar para os lados e para a frente, as órbitas descritas em forma de oito, o tremer dos seios e dos quadris – mas tudo muito controlado, muito deliberado, muito preso, sem a desenvoltura de que Teresa começava a ser capaz. A que se poderia dever esta regressão?
A resposta tornou-se óbvia quando Teresa deu por terminada a primeira fase da dança, que era feita com os pés assentes no chão e sem sair do sítio, e tentou fazer uma pirueta. Nesse momento, Raul ouviu o som surdo de alguma coisa mole mas pesada a cair no chão; e viu um dos pés nus de Teresa a dar um pontapé involuntário nas bolas ben-wa que acabavam de lhe cair da vagina.
– Anda cá – disse Raul. – Senta-te no meu colo.
Com Teresa ao colo, titilando-lhe distraidamente um dos mamilos, Raul começou a fingir que lhe ralhava:
– Com que então, experiências! Quem te mandou fazer isso? Deve ter sido a tua professora de pompoar, ou então a de dança do ventre, porque eu não me lembro de te ter dado essa ordem…
Teresa corou:
– Não foi ninguém… Foi ideia minha…
Raul riu-se de novo e deu-lhe uma pequena palmada de baixo para cima num dos seios, de modo a fazê-lo saltar.
– Suponho – especulou – que quando um senhor quer ter uma escrava com ideias, tem que se sujeitar a que algumas delas não sejam muito boas. E esta não foi muito boa, pois não?
– Pois não, meu senhor. Desculpa.
Raul deu-lhe uma palmada no rabo, desta vez com força, e ordenou:
– Então vai lá lavar as bolas e depois vem dançar para mim como deve ser.
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa, pondo-se de pé com um movimento álacre e esfregando o sítio onde tinha levado a palmada.
E de facto, depois de voltar e de pôr a música outra vez no início, soltou os quadris e dançou tão bem e tão fluentemente como habitualmente o fazia. Introduziu nesta dança, porém, um movimento que Raul reconheceu da noite anterior: aquele gesto peculiar de retraimento e entrega em que o corpo parece ansiar precisamente por aquilo de que foge. Era o movimento com que tinha reagido ao vibrador, e Raul gostou tanto que sugeriu a Teresa que o mostrasse à professora na aula e pedisse a sua opinião. Teresa assim fez: além de mostrar o movimento (para o qual a professora imediatamente inventou uma série de variações que treinou com as alunas), contou-lhe o episódio humilhante das bolas ben-wa caídas no chão e pontapeadas. Em vez de a censurar, porém, a professora aprovou a tentativa, dizendo à turma que algumas das melhores dançarinas do ventre eram pompoaristas; mas que se alguma aluna quisesse tentar o que Teresa tinha tentado, o melhor era preparar-se para treinar muito tempo até conseguir.

[ … ]

Desde esse dia, Teresa começou a treinar todos os dias em frente ao espelho. Teve que reaprender tudo a partir das técnicas mais elementares, ao mesmo tempo que progredia sem as bolas nas técnicas mais avançadas. Já conseguia introduzir na vagina a primeira bola ben-wa, embora ainda tivesse que ajudar a segunda com o dedo, e a certa altura já era capaz de as segurar tempo suficiente para sair de casa por curtos períodos com elas postas.
Tudo isto, junto com a dor quase diária da depilação eléctrica, começou a fazer com que a consciência que Teresa tinha do seu corpo se começasse a centrar na sua zona genital.
– Às vezes quase sinto o desejo – confidenciou uma vez a Raul – de não ser para ti mais do que uma cona, um buraco ao teu dispor.
A estas palavras, Raul abraçou-a.
– É um desejo teu que não vou satisfazer muitas vezes, mas compreendo-te bem: também eu, por vezes, desejaria libertar-me desta carga de humanidade e não ser mais que um falo… Não é possível, felizmente, caso contrário seríamos puros vegetais; ou se nos restasse alguma consciência, a vida seria um inferno.
– Bem sei – respondeu Teresa. – Mas às vezes…
– Sim, às vezes… – respondeu Raul. – Mas o que não pode ou não deve ser realizado, pode muitas vezes ser representado: e tu agora vais dançar a tua coninha para mim.
E Teresa, rindo, fez precisamente o que ele mandava.

[ … ]

À noite, em casa, Teresa manteve o vestido branco para jantar com Raul e se sentar depois aos pés dele. Antes de se irem deitar, Raul perguntou-lhe:
– Vamos tentar ir hoje um bocadinho mais longe com o vibrador?
– Meu senhor querido, sou tua… Só te peço que me amarres como da outra vez, senão ainda passo pela vergonha de tentar fugir.
Diga-se em abono de Teresa que em momento algum daquela noite se debateu seriamente contra as cordas que a sujeitavam; mas várias vezes se lhe acendeu nos olhos a mesma luz de loucura que Raul tinha visto uns dias antes. Mas o vibrador entrou mais fundo; manteve-se ligado mais tempo; e o período de recuperação que se seguiu foi mais rápido e mais fácil. Terminado o exercício, Teresa serviu Raul mais uma vez com a boca: como se fosse intenção dele que nestas noites o vibrador fosse, para o sexo dela, a última memória.
Poucos dias depois, Raul quis ir mais longe.
– Preciso de te amarrar? – perguntou.
– Não, meu querido – respondeu-lhe Teresa. – Acho que desta vez não vai ser preciso.
Quase foi preciso, mas Raul nunca o soube. Raul penetrou Teresa várias vezes com o vibrador ligado, mas ela, embora se debatesse e desse abundantes sinais de aflição, não chegou àquela fronteira de quase loucura aonde tinha sido preciso ir buscá-la nas outras noites: não só se manteve neste mundo sem ajuda, como chegou a um grau de excitação sexual em que Raul raramente a tinha visto.
Assim que Raul pousou o vibrador, penetrou-a duma vez; e assim que a penetrou, ela explodiu num orgasmo grandioso, sem ter tempo sequer de pedir licença. Com Raul ainda rígido dentro dela, Teresa começou, assim que se sentiu capaz, a aplicar as técnicas de pompoar que já dominava; e ao senti-lo quase a gozar, gozou também, desta vez com autorização. Por muito tempo ficaram abraçados; mas depois de apagarem as luzes, depois de os corações pararem de bater com tanta força e os pulmões de respirar com tanto esforço, Teresa entendeu chegada a altura de confessar:
– Tive um orgasmo sem licença, meu senhor.
– Sim, minha escrava, tiveste – respondeu Raul.
– Mereço um castigo.
– Mereces, sim.
– Meu senhor querido, não quero ser castigada. Tenho medo.
– Quem te garante que o castigo vai ser severo? – disse Raul. Provavelmente já sofreste pior às minhas mãos, sem merecer. E desta vez mereces, não mereces?
– Sim, meu senhor, mereço – respondeu Teresa, num murmúrio. – Por isso é que vai ser pior que qualquer outro castigo. E vais castigar-me, não vais?
– Sim, vou. Amanhã, às seis da tarde, no quarto dos castigos. Seis vergastadas fortes. Avisa a Milena que a essa hora não estamos para ninguém.
– Sim, meu dono – disse Teresa.
Quis virar-se para o outro lado, para que Raul não se desse conta das lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Era o primeiro castigo premeditado que recebia: nunca tinha acontecido com Ettore, e muito menos, nos seus anos de puta, com os seus clientes, que iam e vinham e faziam o que lhes ocorresse no momento. Acabou por não virar as costas a Raul: ele saberia entender as suas lágrimas. Quando ele se voltou para a sua posição de dormir, Teresa abraçou-se a ele por trás e ficou a ouvir-lhe a respiração. O que sentiu ela antes de adormecer? Prazer, nenhum. Medo, certamente: um pouco. Tristeza, também, e melancolia. Esperança, porque lhe parecia que estava a ser conduzida pelo caminho certo. O que não sentia de todo era revolta.

[ … ]

– Traz-me um chá e uma torrada ao escritório – pediu.
Quando Teresa entrou com o chá, Raul agradeceu-lhe e disse-lhe que depois a chamava. Chamou-a às seis em ponto, para lhe ordenar que se despisse e que o esperasse no quarto dos castigos. Teresa, a tremer, obedeceu; e ele chegou logo a seguir, ordenando-lhe que se debruçasse com o rabo empinado sobre a banca do lado direito das colunas, onde já uma vez a tinha amarrado para a punir.
– Hoje não te vou amarrar – disse Raul. – São só seis vergastadas. Quero que as contes tu própria em voz alta: se não contares alguma, essa não vale. Por cada vez que abandones a posição recebes uma vergastada a mais. Está tudo claro?
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa.
Ouviu os passos de Raul, que se colocava por trás dela, e ouviu o silvo no ar quando ele tomou o peso à vergasta. Subitamente, um novo silvo, e uma dor insuportável. Gemeu, e depois de ter gemido começou a sentir que um estranho silêncio se erguia entre eles. De que estava Raul à espera?
– Escrava… – ouviu-o murmurar.
E subitamente lembrou-se: tinha que contar as vergastadas.
– Uma! – exclamou em voz alta, grata pelo tempo que lhe tinha sido concedido.
Nova vergastada:
– Duas!
A terceira foi a pior até ao momento; Teresa contorceu-se toda, mas não levantou os pés do chão. Contou, com a voz embargada:
– Três.
Era uma crueldade ou uma gentileza ele não a ter amarrado? Teresa não sabia. A quarta vergastada atingiu-a muito em cima, quase na cinta, mas a quinta acertou-lhe na prega entre as coxas e as nádegas, provocando-lhe uma dor atroz que a levou a deitar-se para o chão.
– Quatro! Cinco! – contou.
– Sim, cinco – disse Raul calmamente. Mas ganhaste mais uma porque saíste da posição. Volta para o teu lugar.
Teresa voltou para a banca do castigo.
– Seis! – gritou.
E pensar que com esta, tivesse ela tido um pouco mais de coragem, podia estar o castigo terminado! Com as pernas a tremer obrigou-se a ficar onde estava, de nádegas empinadas, aguardando a última vergastada, a pior, a menos necessária; e quando ela veio foi quase com alívio que rouquejou:
– Sete!
Sete, finalmente. Teresa endireitou-se dirigiu-se para o lavatório instalado num canto da sala, lavou a cara, secou-se, e virou-se para o espelho de corpo inteiro que ali tinha sido colocado, virando-se de maneira a poder ver as marcas que tinha nas nádegas. Eram de um vermelho rosado, apenas mais escuro nos sítios em que se cruzavam. Este tinha sido o pior de todos os castigos, não por ser o mias doloroso, porque tinha sido um castigo verdadeiro: a punição duma falta cometida. Olhou para Raul, que estava com a vergasta na mão, à espera. Claro, ainda faltava a conclusão. Teresa deu um passo para Raul, beijou-lhe a mão que segurava a vergasta, beijou a própria vergasta e disse as palavras rituais:
– Obrigada, meu senhor, pelo castigo que me deste.
Isto, em voz alta; mas a seguir, ainda de joelhos, enquanto ele se afastava para pendurar a vergasta, repetiu, numa voz tão baixa que ele não a chegou a ouvir:
– Obrigada, meu querido…

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Não se trata aqui dum excerto, mas de vários, tirados de capítulos diferentes do romance. Em todo o caso, espero que agradem aos meus leitores habituais.

Não custou tanto a Teresa percorrer descalça o caminho até ao carro como tinha custado à vinda. Tinha outra questão a preocupá-la: se o facto de ter posto um soutien por baixo da blusa transparente constituía ou não uma desobediência, e em caso afirmativo que punição iria receber. No carro ficou silenciosa: discutir esta questão com Raul seria indigno se não a discutisse primeiro consigo própria. Quando ele lhe tinha estabelecido a regra de nunca usar soutien na sua presença, isto aplicava-se em todos os casos, ou só a quando a roupa era opaca? Em todos os casos, é claro: se assim não fosse, ele tê-lo-ia dito. Decidiu não mencionar a transparência da blusa: isso seria uma mera desculpa e rebaixá-la-ia aos olhos dele e dos seus próprios. O facto que tinha que assumir é que não tinha tido coragem e por isso tinha desobedecido. Isto, sim, podia ser dito, porque era a verdade.

− Vais-me castigar, meu senhor, não vais?

Raul, que estava a manobrar para entrar na garagem do prédio, demorou um pouco a responder.

− Porque é que achas isso? – perguntou.

− Pois, porque eu mereço…

− Mereces, sem dúvida. Mas diz-me uma coisa: achas que te vou castigar sempre que mereceres?

Pergunta difícil, pensou Teresa. Calou-se para reflectir enquanto saiam do carro e entravam no elevador, e no fim deixou falar a intuição:

− Não, meu senhor. Acho que vai haver vezes em que eu vou merecer castigo e tu não mo vais dar. Sei que não és um homem cruel…

O elevador tinha chegado ao último andar; Teresa interrompeu-se enquanto Raul abria a porta; mas uma vez dentro de casa, e já com os agasalhos despidos, retomou o que tinha a dizer:

− Não és um homem cruel, e tenho a certeza que na altura certa és capaz de perdoar uma desobediência… mas esta não é a altura certa, e tu sabes isso tão bem como eu.

Foi a vez de Raul ficar sem palavras. Sabia que Teresa estava a falar por intuição, mas nem por isso era menos implacável na sua lucidez. Restava-lhe a ele confiar na sua própria intuição, que o mandava ser igualmente lúcido e igualmente implacável.

− Vai tomar um duche – ordenou. – Não te seques. Vem ter comigo toda nua, e ainda molhada. Traz um dos meus chinelos marroquinos. Estarei à tua espera na sala.

Enquanto Teresa se ia preparar, Raul serviu-se dum whisky e começou a beberricá-lo enquanto percorria a sala para trás e para diante, pálido e inquieto. Já tinha aplicado castigos dolorosos a mulheres, sempre a pedido delas ou com o seu consentimento; mas nunca o tinha feito a uma mulher que amasse, e estava agora a descobrir que neste caso o consentimento dela, ou mesmo o seu pedido explícito, não chegavam para que o fizesse de consciência perfeitamente tranquila. Lembrando-se que Teresa ia estar molhada quando viesse, foi ao outro quarto de banho buscar algumas toalhas com que proteger da água um dos sofás de couro. Quando ela se lhe apresentou, deixando um rasto de água no chão atrás de si, trazia, além do chinelo que ia servir para a punir, uma écharpe de seda.

− Meu senhor, desculpa, é para me servir de mordaça, se consentires. Tolero tão mal a dor física… não sei se me poderei impedir de gritar.

Raul acenou com a cabeça. Tinha os lábios apertados um contra o outro e notava-se-lhe uma palidez nas narinas e à volta da boca. Teresa aproximou-se dele e encostou-lhe a cara ao peito, sem se importar de o molhar.

− Não encontrei cordas em parte nenhuma… nem tenho mais écharpes; não me vais poder amarrar, meu querido, mas vou fazer tudo por tudo por não me debater.

Raul acenou de novo e disse:

− Abre a boca. Fizeste bem em arranjar uma mordaça. Trinca bem o pano.

Depois de lhe fazer uma festa na cara, amordaçou-a e ordenou-lhe que se debruçasse sobre o braço esquerdo do sofá, com os pés no chão e o peito e a cara apoiados no assento. Teresa assim fez, e Raul, vendo que o corpo dela começava a secar, passou-lhe a borda da mão pelas costas, empurrando para as nádegas as gotas de água que a salpicavam. Teresa, ajoelhada com o rabo para cima, gemeu um pouco, consciente que o castigo sobre a pele molhada seria mais doloroso.

Raul ainda demorou algum tempo a encontrar a melhor maneira de segurar o chinelo na mão. Depois, sem hesitar, deu o primeiro golpe com toda a força que tinha. Teresa deu um salto e deixou-se cair para o chão, mas logo se levantou e voltou a assumir a posição em que estava. Já tinha esquecido a dor provocada por castigos mais severos, e este parecia-lhe quase insuportável; mas estava decidida a não dar parte de fraca. Raul iniciou então uma série de golpes, num ritmo lento e regular que indicava não estar aqui em questão a obtenção de qualquer espécie de prazer, nem para a sua escrava, nem para si próprio. Durante todo o castigo não houve uma única vez em que Teresa se conseguisse manter quieta entre duas pancadas, mas conseguiu ao menos, com um esforço enorme, manter as nádegas em posição. Quando as lágrimas lhe vieram aos olhos, o que aconteceu logo aos primeiros golpes, virou a cara para as costas do sofá para que Raul as não visse; mas a certa altura não conseguiu mais evitar que os ombros se lhe sacudissem em soluços. O facto de Raul continuar o castigo sem ter estes soluços em consideração provocou nela um quase orgulho, um quase alívio: não seria pelas lágrimas que alguma vez o poderia controlar.

Não contou os golpes, nem se deu conta que ele os estivesse a contar. A dor tornou-se a tal ponto uma eternidade que a certa altura Teresa perdeu a expectativa, a esperança, e até o desejo de que ela alguma vez acabasse. Mas acabou: a primeira indicação que teve disto foi sentir a mão de Raul a desatar o nó da mordaça, e depois a mão dele a pegar-lhe no queixo e a virar-lhe o rosto, e depois os lábios dele a beijar-lhe as faces molhadas. Assim que pôde falar, murmurou:

− Meu senhor querido, perdoa-me…

Raul pôs-se muito sério:

− Ouve bem, Teresa D’Ávila. Nunca mais me peças perdão depois de eu te ter castigado. Um castigo decidido por mim e dado por mim apaga tudo, nem que seja só uma reguada na palma da mão: depois de terminar não tenho mais nada a perdoar-te.

Teresa, que entretanto se tinha estendido a todo o comprimento do sofá, ergueu-se sobre um cotovelo e ofereceu-lhe a boca para que ele a beijasse.

− Eu sei, meu senhor – disse-lhe por fim. – Não te estava a pedir perdão por ter ido de soutien, estava-te a pedir perdão por estar ainda a chorar…

Raul beijou-lhe de novo os olhos.

− Isso talvez seja porque este castigo foi um castigo mesmo – sugeriu. – Se tivesse sido para meu prazer ou meu capricho, acho que neste momento estarias já a sentir algum prazer, se é verdade o que me contaste de ti sobre este assunto.

− Sim, estaria a sentir prazer; mas agora não estou. Estou feliz, o que é diferente; mas prazer, não sinto. Era por isso que te estava a pedir perdão.

− Se é por isso, estás perdoada – respondeu Raul, rindo. – Quanto ao prazer, vamos já tratar disso. Pelo menos do meu, que é para o que tu serves.

Teresa riu-se também, por entre as lágrimas. Estendeu os braços para o abraçar e disse-lhe ao ouvido:

− Lá por isso, se sirvo só para o teu prazer, de que é que estás à espera para te servires de mim?

E foram os dois abraçados para o quarto, onde ele com efeito se serviu dela tão copiosamente que não adormeceram antes das cinco da manhã.

[ … ]

Nos dias seguintes Manfredi tratou de negócios: não só dos de Teresa, presumiu Raul, mas também dos doutros clientes que pudessem ter interesses no Norte de Portugal. Só no próprio dia da partida teve tempo para aceitar o convite de Raul. Para entrar no quarto dos castigos era necessário subir um degrau: isto, explicou Raul, porque o isolamento sonoro e o revestimento do chão tinham obrigado a levantar o pavimento doze centímetros. Ainda bem que a casa era antiga e o quarto grande, com tecto alto, de outro modo teria ficado minúsculo com a grossura do isolamento. As paredes estavam revestidas a tijolo maciço em cor natural, com um verniz mate.

– Só tive duas dificuldades – explicou Raul. – A primeira foi desmontar o pavimento irradiante para o instalar depois de novo sobre a camada de isolamento. Isto só o vai tornar mais eficiente, é claro, mas deu uma trabalheira. A outra foi explicar estas colunas – e apontou para duas grossíssimas traves de madeira que se erguiam, separadas uma da outra por pouco mais que um metro, do chão ao tecto – aos homens que cá andaram a trabalhar.

– Difícil, porquê? – perguntou Manfredi.

– Tive que as fixar ao chão original e ao tecto original, e isto só podia ser antes das obras. Gastei dezasseis cantoneiras de aço e 96 parafusos de 8x80mm. Quando os homens me perguntaram se eu queria isto para pendurar motores de automóveis, tive que inventar uma coisa qualquer, que ia fixar barras para fazer ginástica… Ficaram a olhar para mim como para um lunático.

Manfredi deu uma pequena risada:

– Pois é, as vicissitudes dum dominante… people have no idea.

[ … ]

O que Raul decidiu, afinal, em relação ao quarto dos castigos, foi construir uma plataforma resistente, assente sobre traves fixas às paredes e às colunas, onde Teresa, de pé, ficasse com as nádegas à altura mais conveniente para a mão dele. Sobre essa plataforma ser-lhe-ia possível fixar dois móveis pesados: num deles, uma espécie de divã abaulado, podia fazer deitar a sua escrava, de barriga para cima, com os quadris e o ventre a um nível meio metro mais alto do que a cabeça e os pés, de modo a poder fustigá-la comodamente no ventre e no peito. As pernas ficariam mais fechadas ou mais abertas conforme as argolas que ele escolhesse para lhe amarrar os tornozelos ou as coxas. A superfície deste móvel seria acolchoada de modo a que Raul não magoasse os joelhos ou os cotovelos quando a possuísse sobre ele. O outro móvel era um banco alto, também acolchoado, onde Teresa se podia debruçar de modo a ficar com o rabo empinado, e do outro lado com a cabeça livre de modo a poder ser possuída pela boca.

Raul, que queria que estes móveis fossem sólidos, bonitos, bem construídos, bem acabados, de madeira nobre e couro da melhor qualidade, não teve outro remédio senão mandá-los fazer em Paços de Ferreira, dizendo que os destinava a uma nova espécie de ginásio. As argolas que serviriam para prender Teresa – anéis metálicos com cinco centímetros de diâmetro e um de grossura, presos à madeira por uma haste em forma de parafuso com seis centímetros de comprimento e sete milímetros de espessura junto à base – teriam que ser de bronze, para que Teresa tivesse a responsabilidade de as manter sempre limpas e brilhantes. Além disso, por razões estéticas de que Raul não prescindia, a parte em forma de anel tinha que ser separada da parte em parafuso por um batente circular com doze ou quinze milímetros de diâmetro. Nas lojas de ferragens e de “faça você mesmo” que Raul visitou não havia nada disto. Foi às lojas de artigos náuticos mais tradicionais de Matosinhos, onde lhe disseram que noutros tempos, talvez, mas que hoje era tudo fibra de vidro e aço cromado. Acabou por ter de mandar fazer o que queria numa oficina de fundição.

Enquanto esperava que as argolas de bronze ficassem prontas, chegaram mais caixotes de Milão: chicotes, vergastas, canas, vibradores, algemas, correntes, cadeados, pénis de borracha ou silicone, cordas macias de seda ou abrasivas de cânhamo, sapatos, sandálias, botas, roupas de couro, de cetim, de seda, opacas, transparentes, soltas, apertadas, para além de uma série de outros objectos que Raul nem sabia para que serviam. Resolveu pendurar alguns em ganchos nas paredes, dispor numa bancada os que pensava utilizar, e comprar um armário com vitrina para expor os restantes. Para as roupas e sapatos, resolveu comprar um armário fechado, que não podia ser grande demais para não atravancar o aposento. Algumas destas roupas teriam que ficar, juntas com as do dia-a-dia, no roupeiro embutido do corredor, junto ao quarto, que tinha ficado reservado para Teresa e já continha algumas peças de roupa que ela tinha deixado ficar nas visitas anteriores.

[ … ]

Chegados ao apartamento, Teresa ficou encantada com o quarto dos castigos, embora tanto ela como Raul já tivessem a ideia muito nítida de que aquela decoração e aqueles instrumentos não correspondiam exactamente ao tipo de relação que tinham em mente. O que aquele quarto exprimia era um domínio e uma submissão formais, ritualizados, estilizados, balizados por regras e limites, e muito centrados na punição física; enquanto o que eles pretendiam era algo de muito menos formal e muito mais radical e consequente. Como Teresa disse a Raul, não era tanto um estilo de vida como uma opção de vida.

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Como escrevi abaixo, não vou publicar aqui capítulo a capítulo o meu segundo livro, como publiquei conto a conto o primeiro. Isto não impede que ofereça aos leitores deste blogue, de vez em quando, um excerto. Este que se segue encontra-se perto do final do segundo capítulo. Espero que gostem.

– O que é que leu no livro que o pôs assim a pensar? – perguntou Teresa.

– A maneira como homens e mulheres delimitam territórios – respondeu Gustavo. – Repara: isto passa-se em Veneza. Há dois irmãos de meia-idade que regressam do funeral da mãe. São ambos casados. Reúnem-se em casa de um deles, com alguns amigos íntimos, para tomar café e comer bolos. São gente culta, de classe média alta, os homens têm o hábito de ajudar em casa. E contudo quem vai imediatamente para a cozinha são as duas noras da falecida e a neta adolescente. Na sala ficam os homens, o neto do sexo masculino, e as mulheres que não pertencem à família imediata. Fica-se com a sensação que se algum destes entrasse na cozinha, seria expulso como um intruso, e que aquelas mulheres do Venetto, emancipadas e cultas, defenderiam o seu lugar na cozinha com a mesma ferocidade que qualquer camponesa semi-analfabeta da Calábria.

– No fundo somos todas iguais – riu-se Teresa.

– Posso perguntar-te uma coisa? – disse Gustavo.

Teresa pôs-se subitamente séria:

– Pode perguntar-me sempre tudo.

A simplicidade desta resposta fez com que Gustavo corasse um pouco, mas prosseguiu:

– Porque é que andas sempre descalça?

– Não ando sempre descalça. Só um mês por ano, durante as férias. Faço-o para me sentir livre. E para sentir uma continuidade entre o mundo e o meu corpo. Tenho necessidade disso.

– Foi isso que disseste à chefe de sala, no refeitório?

– Disse-lhe que se fosse para não poder andar à vontade, não teria escolhido Porto Colom como destino de férias. Acho que ela compreendeu.

– E o facto de te chamares Teresa de Ávila deve ter ajudado…

Riram-se os dois. A partir deste ponto a conversa prosseguiu com aquelas aparentes banalidades que são na realidade essenciais entre duas pessoas que se começam a conhecer. Se gostam mais do Verão, se do Inverno, se são aventureiros ou conservadores no comer e no beber, se gostam de andar de avião, se fazem exercício, os livros e a música de que gostam, que família têm e que relações têm com ela, o que os encanta e o que os irrita nos outros… Por fim Teresa bocejou, e Gustavo disse que talvez fosse horas de irem dormir.

– Desculpe… – disse Teresa.

– Não peças desculpa – disse Gustavo. – Eu também já tenho um pouco de sono.

Nas noites seguintes, a seguir ao jantar, Gustavo não voltou a fazer-se acompanhar de um livro. Nem voltou a aproximar-se do bar: servir-lhe o whisky tinha-se tornado, por acordo tácito, tarefa de Teresa. A única diferença é que o seu lugar de encontro deixou de ser sempre o átrio do hotel e passou a ser também, por vezes, o terraço junto às piscinas. Quando se encontravam aqui, Teresa sentava-se numa cadeira de plástico ao lado de Gustavo, mas quando era no átrio continuou a sentar-se sempre na carpete. Na terceira noite, quando Gustavo disse que se ia deitar, Teresa anunciou:

– Subo consigo.

Porque é que esta honesta simplicidade, que transparecia tantas vezes nas palavras de Teresa, tinha o condão de fazer corar Gustavo? Inclinou-se para ela, beijou-a ao de leve na boca, e respondeu-lhe com igual simplicidade:

– Vamos.

No elevador não se abraçaram nem beijaram, mas a proximidade a que a estreiteza do espaço os obrigava fez com que Gustavo sentisse o cheiro a sabonete que vinha do corpo de Teresa, misturado com o odor inconfundível da excitação sexual feminina. Havia ainda outros aromas, provenientes duma sacola que ela, contra o que era hábito, trazia a tiracolo. E que cheiro estaria ela a sentir, provindo dele? A sabonete, sem dúvida; mas será que a excitação dum homem tem cheiro, sobretudo se ainda na fase inicial?

Logo que ficaram sós, Teresa perguntou a Gustavo qual era, habitualmente, a primeira coisa que fazia quando chegava ao quarto.

– Geralmente vou um bocado para a varanda – respondeu ele, um pouco surpreendido com a pergunta. – Sento-me na cadeira, fumo um charuto e fico a olhar para o mar.

– Então faça isso mesmo – respondeu-lhe Teresa. – Faça de conta que eu não estou cá. Não se preocupe, quando voltar para dentro ainda me vai encontrar: não me vou embora sem a sua permissão.

Este era o início mais estranho que Gustavo alguma vez tinha visto par um encontro sexual; mas um certo sentido da novidade e da aventura levou-o a entrar no jogo. Afastou para o lado a cortina que separava o quarto da varanda, abriu a porta de correr, e ia a pegar na caixa dos charutos quando a voz de Teresa o deteve:

– Espere. Eu levo-lhe os charutos.

Que fazer senão obedecer? Era claro para Gustavo que tudo isto era um jogo, do qual Teresa conhecia as regras e ele não. Saiu para a varanda, sentou-se na cadeira de plástico branco, puxou para mais perto a mesa do mesmo material e esperou. Passado uns segundos apareceu a jovem, trazendo consigo não só a caixa de charutos, mas também o isqueiro e o aparelhinho de desenroscar que ele usava para cortar as pontas. Agachada ao lado dele, Teresa procedeu calmamente a esta operação, acendeu o charuto rodando-o entre os dedos, tirou a primeira baforada e ofereceu-lho. Seria claro para quem a estivesse a ver que não era a primeira vez que ela prestava a alguém este serviço. Depois, sem falar, retirou-se para o quarto, correu a cortina e a porta de vidro, e não voltou a dar mais sinal de si que não fosse algum ruído ocasional e ténue.

Sozinho na varanda, Gustavo esforçou-se por imaginar que estava igualmente sozinho em todo o aposento, e que lá dentro ao pé da cama não se encontrava, à sua espera, uma mulher jovem e atraente, a primeira com quem tinha um encontro íntimo desde havia meses. E de certo modo teve êxito nesta imaginação: durante os quarenta e cinco minutos que um charuto daquele tamanho e consistência demorava a fumar – tempo este que ele precisou de toda a sua auto-disciplina para não encurtar com baforadas nervosas – o pátio sob a varanda foi-se esvaziando de gente, o calor que um dia de sol tinha acumulado nos ladrilhos foi-se dissipando, e a presença silenciosa de Teresa no interior do quarto foi adquirindo quase a imponderabilidade de um sonho.

E foi um cenário de sonho, aquele com que Gustavo se deparou quando entrou de novo no quarto: a luz eléctrica apagada; velas acesas, perfumadas, dispostas em todos os lugares possíveis e nalguns que ele nunca imaginaria; taças com pétalas de flores; no toucador, na secretária, nas mesinhas de cabeceira, pratinhos minúsculos com tâmaras e amêndoas; e na cama, coberta por um fino lençol que não lhe velava a nudez, os cabelos escuros espalhados sobre o travesseiro, estava Teresa.

Estes preparativos tão elaborados falaram bem alto, como era intencional e óbvio, à sensualidade de Gustavo; mas antes disso, por uma fracção de segundo, falaram-lhe também ao entendimento. E o que lhe murmuraram foi que o que lhe estava a ser proposto era algo mais do que uma aventura de férias: agora competia-lhe a ele, pela maneira como agisse nos segundos e nos minutos seguintes, aceitar ou não esta proposta.

E foi isto que Gustavo fez: como a cama era baixa, precisou de pôr um joelho no chão para se inclinar sobre Teresa; nesta posição, beijou-lhe cerimoniosamente a testa, os olhos e a boca; em vez de a destapar, ajeitou-lhe o lençol sobre o corpo, como se fosse para lhe desejar boa noite; e por fim, aproximando a boca do ouvido dela, murmurou-lhe:

– Teresa, ainda não sei muito bem quem tu és, nem o que és; nem sei muito bem o que é que me estás a dar neste momento, só sei que é alguma coisa de muito importante; mas declaro aqui que seja o que for, aceito. Sejam as consequências quais forem, aceito.

Teresa tirou os braços de sob os lençóis para lhos lançar ao pescoço, e assim se beijaram durante um longo minuto. Então Gustavo levantou-se, entrou na casa de banho para lavar da boca o cheiro do charuto, despiu-se completamente e voltou para junto de Teresa, deitando-se ao lado dela debaixo dos lençóis. Abraçado a ela, sentiu que o sexo se lhe intumescia. Ela também o sentiu, porque comprimiu contra ele o ventre macio.

– Teresa…

– Estou aqui, Gustavo. Juntinha a si. Pronta para si. O que quer fazer comigo?

– Tudo, minha querida. Tudo. E tu? O que queres fazer comigo?

– Eu? Não pense nisso. Nunca pense nisso. Eu não tenho importância. Já me deu tudo o que eu queria quando me disse “aceito”… Agora trata-se do que o senhor quiser.

Gustavo, já excitado, sentiu uma excitação diferente e muito mais intensa ao ouvir estas palavras. Não se tratava só de excitação física, porque logo o primeiro contacto com o corpo nu de Teresa lhe tinha provocado uma erecção que quase lhe doía, de tão rija e tão túrgida. Nem só de desejo, porque esse era desde antes quase irresistível; era, sim, uma carga de energia, uma sensação de que tudo era possível agora e sempre. Quase se sentia capaz de flutuar no ar, se quisesse, por pura força de vontade, e a partir do ar penetrar, como um anjo, a carne feminina que se abria abaixo dele para o receber.

Afastou para o lado o lençol que lhes cobria os corpos, e pela primeira vez viu Teresa nua. Já lhe tinha notado, pelo balancear das saias rodadas, a largura das ancas; via agora que esta largura lhe vinha, não de qualquer gordura a mais, mas da estrutura óssea e da musculatura vigorosa. A cinta estreita mas bem musculada, os braços roliços mas firmes, o ar de flexibilidade, suavidade e força que emanava dela toda, tudo isto apontava para o mesmo:

– Fazes dança do ventre?

– Sim, há alguns anos. Mas não sou profissional, apenas uma amadora razoável. Hei-de dançar para si… Quer?

Gustavo não respondeu. Estranhamente, apesar de toda a sua excitação, não tinha pressa: era como se a energia de que se sentia repassado fosse inesgotável e eterna. Pôs-se a examinar e a sopesar os seios de Teresa, que numa dançarina profissional seriam talvez um pouco grandes demais, mas nela eram perfeitos.

Teresa, docilmente, punha-se a jeito para todos os toques, sem deixar de o acariciar com as mãos ávidas.

– Agrado-lhe? Quero tanto agradar-lhe…

Gustavo voltou a não responder. Esta pergunta era daquelas a que se responde sempre sim, seja esta resposta verdade ou mentira; e este sim seria uma daquelas respostas em que nenhuma mulher acredita, por verdadeira que seja.

– Vira-te de barriga para baixo – ordenou.

Teresa obedeceu sem hesitar. Seria intenção dele possuí-la pela abertura de trás? Se fosse, ela ficaria contente por ser assim possuída; mas não, tudo o que ele queria era continuar o exame minucioso a que a estava a sujeitar. As costas, como o resto do corpo, eram as duma dançarina; as nádegas, as duma Vénus Calipígia. Correu-lhe as mãos pela nuca, afastando para os lados o cabelo. Poucas partes do corpo, como a nuca, fazem duma mulher mais mulher. Mesmo nas feias a nuca costuma ser linda; e esta era bela da cabeça aos pés. A carícia que Gustavo lhe fez nas costas foi quase uma massagem; e ela, impedida de retribuir pela posição em que estava, começou a arquear-se e a ronronar como uma gata, toda entregue à mão que a afagava.

Nas nádegas a carícia foi diferente: ora uma passagem leve da mão, ora uma leve palmada para ver como oscilavam e tremiam. Teresa gemeu:

– Se o senhor quiser pode bater com mais força…

Gustavo achou suficiente bater apenas com a força necessária para lhe ver a pele enrubescer. Mas à luz quente das velas a mudança de cor mal se notava: noutra ocasião, à luz do dia… Continuou a examiná-la: a parte de trás das coxas, a dobra do joelho, que beijou, os calcanhares redondos e macios: como podia uma mulher que tanto andava descalça ter uns pés assim cuidados? Pedra-pomes diária, sem dúvida, cremes emolientes, pedicura frequente…

– Vira-te outra vez – ordenou.

E quando ela se pôs de novo de barriga para cima:

– Abre as pernas.

Gustavo ainda não sabia que, para Teresa, a ordem seca de abrir as pernas era mais excitante que longos minutos de preliminares e carícias. Procurou-lhe, com o pénis rígido, a abertura do sexo, e encontrou-a suficientemente molhada para se poder enterrar nela logo naquele momento, num movimento súbito. Mas não o fez: decidiu atormentá-la, mesmo que para tal tivesse também que se atormentar a si próprio. Por vezes fazia menção de a penetrar, chegava a entrar nela um pouco, para logo recuar e recomeçar a série infindável de beijos que lhe ia dando na boca, nos seios, na zona lateral do tórax, onde se conhecem as costelas… ou então percorria-lhe lentamente, com a ponta do membro, todo o rego entre o clítoris e a abertura anal, resistindo à tentação de entrar nela sempre que lhe passava entre os lábios vaginais.

Teresa nada ousava pedir, muito menos exigir. O desejo dela, via-o ele bem no modo como escarranchava as coxas e o abraçava com as pernas, tentando puxá-lo para dentro – para logo as fechar um pouco, a uma ordem dele, até ficarem no ângulo que ele queria. Ou na súplica das mãos que lhe palpavam o rosto, como as dum mendigo o de um santo, tentando descortinar uma promessa na posição dos lábios ou do queixo. Ou nos gemidos inarticulados, ou no arquear ansioso do corpo ao encontro do dele.

Penetrou-a por fim até ao fundo, num movimento lento, a que se seguiram outros igualmente lentos em que entrava nela e saía dela completamente. Era isto que ela queria. Era isto que ela não queria. Era este o seu prazer. Era esta a sua tortura. Oh, poder ela ser trespassada de vez, como a santa sua homónima pela lança do anjo, que lhe arrancava as entranhas!

Mas por fim Gustavo tinha tão pouco poder para se recusar à energia que o impelia como Teresa para a convocar; e o pénis dele tornou-se, sim, em lança de fogo, e trespassou-a, sim, até às entranhas, e fê-la morrer, sim, uma, duas, várias mortes. Gustavo viu-a fechar os olhos, abrir a boca num “O” perfeito, exalar, como quem exala a vida, o prazer último e completo. E quando ele próprio se esgotou nela sentiu ainda, no mais fundo de si, o reservatório inesgotável de virilidade que as palavras dela lhe tinham dado a conhecer.

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Sítio do Picapau Amarelo

(Dedicado à autora do blog Boneca Insuflável)

A Emília andava num desconsolo: por mais que fizesse não conseguia atrair a atenção do Anjinho. por mais olhares que lhe lançasse, por mais vezes que lhe tocasse ao de leve, por mais que ao conversar com ele lhe roçasse no braço, acidentalmente é claro, com a maminha minúscula…

– É isso! – disse a Narizinho, em tarde de confidências. – O nosso mal é que parecemos umas tábuas de engomar, sem peito, nem nada… E olha que o teu Anjinho gosta é de mamas, não é como o meu Escamudo que gosta de mim assim, magra… Agora o teu Anjinho, não me digas que nunca o viste a olhar para a Tia Nastácia.

– Para a Tia Nastácia?! – escandalizou-se a Emília. – Aquela velha gorda?!

– Pois, será velha e gorda, mas manda-me cá umas mamas e um bum-bum, que faz favor! E não é só o teu Anjinho. O Visconde de Sabugosa, ainda no outro dia…

A Emília ficou a empreender naquilo. Também ela tinha reparado nos olhares libidinosos que o Anjinho, o Visconde, e até o Saci lançavam na direcção da Tia Nastácia. E ela própria, Emília, para dizer a verdade, gostaria de se ver com formas um pouco mais … como dizer … arredondadas. Já tinha pensado até em ir consultar o Dr Caramujo para pôr uns implantes de silicone nos seios e nas nádegas, mas tinha um pouco de medo … E por outro lado não queria mudar totalmente a aparência física, vamos que depois não gostava de se ver ao espelho?!

– Tem de ser mesmo silicone? – Perguntou-lhe o Dr Caramujo ao ser informado do dilema. – É que se não, tenho aqui umas próteses insufláveis. Enche de ar, fica grande, esvazia, fica pequeno outra vez.

– E por onde sai o ar? – perguntou a Emília, espantada.

– Por um tubinho igual a este. Sai na parte do corpo que você quiser.

A operação foi um sucesso. A saída do tubinho, em silicone rosado, ficou entre as coxas da Emília, dando a impressão que a boneca, em vez de um clitoris, tinha dois. E o Anjinho, depois de experimentar, nunca mais quis outra coisa: nunca se fartou de soprar no cochicho da menina.

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Alguns dias depois, foi Doce-Amiga ao balneário do palácio. As outras escravas esmeraram-se em dar-lhe o melhor dos banhos. Lavaram-lhe as pernas, os braços, a cabeça; massajaram-na; usaram caramelo para a depilar; esfregaram-lhe almíscar puro nos cabelos; tingiram-lhe as unhas das mãos e dos pés; alongaram-lhe as pestanas e as sobrancelhas, sombreando-as; queimaram-lhe aos pés braseiros de incenso e âmbar, perfumando-a toda; depois, lançaram-lhe sobre o corpo uma toalha rescendente a flores de laranjeira e a rosas, envolveram-lhe os cabelos numa outra toalha, fumegante, e conduziram-na por fim à câmara que lhe fora reservada e onde a mulher do vizir, a mãe do belo Ali-Nur, a esperava.

O Livro Das Mil e Uma Noites.

Marta acordou quando Camila entrou no quarto e correu as cortinas.

“Venho ajudá-la a vestir-se. Vai estar muito calor, hoje.”

Ao passar pela jovem, que a esperava à porta do quarto de banho, Marta roçou-lhe ao de leve, com a sua carne nua, o blusão de couro eriçado de enfeites metálicos. Mais uma vez se surpreendeu ao notar-lhe a frágil estatura: a rapariga era tão enérgica e senhora de si que parecia maior do que realmente era. “A dois metros de distância,” pensou Marta, “parece tão grande como os meus filhos; mas ainda é mais pequena do que eu.”

Camila seguiu-a até à banheira. Não a deixou lavar-se sozinha: molhou-a e ensaboou-a toda com um sabonete que cheirava a folhas verdes, pôs-lhe shampoo no cabelo, três vezes, enxaguando bem de cada vez; depois secou-a, penteou-a, vestiu-a e levou-a ao dono, que a esperava na biblioteca.

Ali tomaram os três o pequeno almoço, servidos por uma grande rapariga submissa e loira, chamada Rosa, contratada temporariamente para o serviço doméstico. Duas grandes portas envidraçadas davam para o jardim. Assim que Rosa levantou a mesa e se retirou o amante de Marta fechou a porta.

“Agora quero ver-te bem. Caminha um pouco pela sala.”

Marta caminhou com a cabeça erguida, descalça como tinha vindo do quarto. Ao virar-se para o dono pôs as mãos na nuca, fazendo escorrer entre os dedos o cabelo, que tinha escuro e longo. Este movimento fez com que se erguesse o curto bolero que trazia, mostrando a parte inferior dos seios: não estavam tão bronzeados como o resto do corpo, e o azul das veias transparecia sob a pele dourada. O bolero era vermelho escuro, ricamente bordado a ouro. A saia tinha a cintura muito baixa, de modo que deixava a descoberto a maior parte do ventre; era uma peça cor de açafrão, quase transparente, que lhe chegava aos tornozelos. Debaixo do tecido, o triângulo muito escuro do púbis era apenas uma sombra entre outras, talvez a mais negra. O cinto que segurava a saia era feito de pequenas moedas de ouro.

Quando Marta alongou o corpo Camila reparou em como os músculos das costas se lhe moviam debaixo da pele, e não pôde deixar de se comover com as duas covinhas gémeas logo acima das nádegas, com o sulco ao longo da espinha. Miguel viu-a erguer os braços, e notou o requebro com que a sua escrava se lhe oferecia. O ventre distendeu-se com este movimento; um umbigo perfeito marcava-lhe o centro. Viu-a atirar a cabeça para trás num movimento de dança e pôr um pé para a frente, só com as pontas rosadas dos dedos a tocar no chão envernizado. A racha ao longo da saia abriu-se, descobrindo a coxa esquerda e revelando, à volta do tornozelo, uma argola de moedas iguais às do cinto.

A um sinal do amante Marta correu para ele, risonha, com um tilintar de moedas, e atirou-se-lhe nos braços numa brincadeira destinada a fazer-lhe perder o equilíbrio; mas ele agarrou-a e dançou com ela à volta da biblioteca, rindo e beijando-lhe a cara, e passando-lhe os dedos pelo cabelo. Depois despiu-lhe o bolero, fazendo-lho deslizar sobre a cabeça; e Marta ajudou-o erguendo de novo os braços. O rubor que a coloriu até aos seios devia-se tanto à excitação que começava a sentir como à consciência de que qualquer pessoa que passasse no jardim – a criada Rosa, ou o homem que vinha tratar das plantas – a poderia ver, assim nua, através das vidraças. Marta estava de costas para a varanda, e quando sentiu as mãos do amante sobre as nádegas soube que este gesto seria imediatamente visível a quem olhasse para dentro da sala.

Abraçado a ela, de pé, o amante afagou-a com a mão, começando nas nádegas e percorrendo toda a extensão das costas até à nuca, numa longa carícia. Ao segurar-lhe a cabeça sentiu sob os polegares a pele macia da face. Muito terno agora, quase hesitante – enquanto ela se lhe enlaçava, os braços à roda do pescoço, a boca suplicando beijos; e se erguia no bico do pé direito, tentando rodear-lhe a cintura com a coxa esquerda; e fazia tilintar as moedas que lhe pendiam do tornozelo, na tentativa de subir por ele acima – ele tacteava-lhe suavemente o rosto com as pontas dos dedos, como um cego, aprendendo-o todo, acariciando a textura de pêssego junto aos ouvidos, percorrendo o delineamento onduloso dos lábios. Marta tentava beijar-lhe os dedos, no ávido esforço de lhe reter o toque; e ele sentiu este apelo, mas ainda assim, com cruel deliberação, não demorou a carícia, nem aceitou os lábios que ela lhe oferecia. Em vez disso puxou-a para si abruptamente, desequilibrando-a. Susteve-a então nos braços; curvou-se para lhe beijar o pescoço; e chupou-lhe e mordeu-lhe a carne morena até a deixar coberta de marcas avermelhadas. Depois segurou-a pelos ombros e olhou-a nos olhos:

“Tira o resto da roupa,” ordenou. “Deixa ficar a corrente que tens no tornozelo.”

Quando a viu nua abraçou-a de novo. Com os dedos abertos de uma das mãos segurou-a pela cinta; a outra estava-lhe assente nas nádegas, puxando-lhe o corpo de encontro ao dele.

Marta procurou obedecer a esta pressão apertando-se contra ele ainda com mais força; depois libertou-se gentilmente e ajoelhou-se para o despir. Quando terminou ergueu-se de novo de encontro ao amante, que pôde finalmente sentir-lhe o corpo sem impedimento: a dureza das costelas no fundo do tórax; a firmeza elástica do ventre; e o mais macio de tudo, a ternura absoluta dos seios.

Como um gato que brinca com a presa capturada antes de a consumir, assim o amante de Marta se pôs a brincar com ela. Beijou-lhe a boca de fugida, primeiro num dos lábios, depois noutro, depois na comissura dos dois, e depois várias vezes no mesmo sítio. De vez em quando, subitamente, enrolava a língua na dela, mas antes que ela conseguisse corresponder já ele tinha voltado à tarefa minuciosa de lhe beberricar beijos à roda da boca. Ao mesmo tempo esticava o braço para baixo, por trás do corpo dela, apalpando-lhe as nádegas e procurando, apesar da diferença de estaturas, introduzir-lhe a mão entre as coxas. Embora ela se erguesse em bicos de pés para o ajudar os dedos dele não conseguiam chegar-lhe ao sexo: ficou-se-lhe a carícia pelo rego macio entre o ânus e a vagina.

Para Marta, este afago era delicioso. Era também tantalizante: a qualquer momento, pensou, ia conseguir despojar-se do seu próprio peso, que a prendia ao chão, e flutuar ao encontro do amante. Parecia-lhe que estava quase a conseguir; quando chegasse lá acima ia enfim sentir-lhe a carícia dos dedos no clitóris, e a boca, finalmente firme, contra a sua.

Por fim ele decidiu curvar-se para a beijar de vez, num trago fundo e prolongado que lhes matasse a sede aos dois. Sentiu os lábios femininos que se abriam para ele e comprimiu-os com os seus, e delineou-os firmemente com a língua antes de lha introduzir profundamente na boca.

Finalmente.

O tempo tinha parado. Sentada numa poltrona, Camila olhava os dois amantes, com um livro esquecido no regaço. Uma ligeira brisa matinal soprou da janela, perturbando a imobilidade das cortinas e acariciando-lhes os corpos nus. Um perfume seco, estival, a carqueja e glicínias, insinuou-se na sala. A boca de Marta parecia querer fundir-se, de tão macia, na do amante; ao beijar-lhe os lábios, ele teve a sensação que a ia sorver toda num hausto, que ia encher os pulmões com a sua substância; que o corpo da fêmea se tinha tornado desprovido de peso e que se estava a transformar numa espécie de nuvem, num fluído cor de carne, morno, tangível, inebriante, e que este fluído o ia permear todo.

Marta trepava por ele e à roda dele, erguia-se para ele como um perfume, um farrapo de fumo, um génio saído de uma lâmpada, até que acabou por lhe fazer sentir na ponta do pénis a maciez húmida dos lábios vaginais, que o beijavam famintos. Tinha conseguido subir o suficiente: podia agora deixar-se descer de novo, lentamente, empalando-se no sexo erecto com um único, continuado movimento. Durante a penetração não interromperam o beijo. Ele, carregado com ela e de pé, mal se podia mexer; e ela começou a rolar suavemente as ancas de modo a compensar-lhe a incapacidade de executar o vaivém regular e ritmado de que ambos precisavam.

Cansados deste esforço, e sem fôlego devido ao beijo, acabaram por ter que se apartar. O pénis estava tão rígido, e a vagina de Marta tão apertada à volta dele, que quando ele a deixou Camila ouviu um pequeno som molhado, plop, como o desrolhar de uma garrafa. Com uma ligeira palmada nas nádegas nuas de Marta, o amante conduziu-a em direcção uma grande mesa de trabalho junto à janela:

“Anda depressa.”

Fê-la deitar-se atravessada sobre o tampo da secretária, os seios achatados contra a frescura do vidro, pernas abertas, os pés fincados no chão. Quando o amante lhe segurou os pulsos, Marta disse: “Vais amarrar-me.” Como se tivesse estado à espera desta deixa, Camila tirou de uma gaveta quatro grossos cordões de seda vermelha.

“A pequena sabia,” pensou Marta. “Sabia exactamente onde estavam as cordas.” Este pensamento fez com que lhe esmorecesse a excitação. O que lhe estava agora a acontecer obedecia talvez a uma encenação concebida noutro tempo e noutro lugar. Tudo à sua roda, a sala aprazível, a brisa suave, ganhou os contornos de um cenário, de um mundo irreal e distante onde talvez a mesma representação se viesse repetindo desde há muito.

Como num sonho, sentiu que o amante lhe atava os pulsos e os tornozelos às quatro pernas da secretária. Para fazer isto, ele teve que lhe passar pela frente mais do que uma vez, com o pénis rígido ao nível dos olhos dela. Marta via-lhe claramente a ponta rosada, as veias perto da superfície, os sucos que ela própria produzira e que o cobriam como um verniz ainda húmido. Virando a cabeça para o lado podia ver um dos cordões vermelhos que a prendiam; e lembrou-se doutra ocasião, em Brugges, quando ele lhe tinha amarrado os pulsos com as fitas de seda vermelha que ela própria lhe oferecera.

O dono montou-a por trás. Desde o primeiro contacto, logo que a glande lhe tocou no sexo, Marta acendeu-se no mais estranho dos orgasmos: um clímax lento, um fogo subterrâneo que lhe pareceu prolongar-se por várias horas, mas que na realidade só durou o tempo em que ele a possuiu. Impedida, pelas cordas que a prendiam, de ver o amante, contentou-se com escutar-lhe os sons do prazer. E foi com alegria – mas as cordas, como é que Camila sabia – e com um sentimento de triunfo – e quantas outras mulheres – e finalmente com uma espécie de êxtase, que ela lhe sentiu o apressar do fôlego, e lhe ouviu a voz enrouquecer de excitação, e suportou finalmente os últimos embates impiedosos que lhe comprimiram o ventre contra a dureza do vidro.

O amante de Marta sentiu o seu próprio orgasmo avolumar-se-lhe nas raízes do corpo. A posição em que estava não lhe permitia beijá-la na boca, mas ainda tinha nos lábios a memória do beijo violento que tinham trocado antes. Ainda sentia o sabor da boca da mulher, levemente salgada por uma gota de sangue. Sangue dele ou dela? Os aromas do sexo combinavam-se com o cheiro a sabonete do chuveiro matinal. Tanto a pele dela como a dele estavam molhadas e escorregadias nos pontos de contacto, secas e macias onde só as tocava a brisa do jardim. Por trás de Marta, olhando-a, viu-a abanar a cabeça para a esquerda e para a direita num gesto de recusa ou avidez; e pareceu-lhe que o corpo dela estava a reagir aos impulsos nervosos do seu próprio cérebro, que os gestos dela exprimiam o seu próprio avassalamento perante a enormidade das sensações que o invadiam – sim agora é agora, sim, não, ainda não; sim. Sim! – e os sons que ela produzia, de dor ou prazer, tornavam-se os únicos sons do mundo, e estes sons de fêmea corriam para dentro dele e inundavam-no, e enchiam-no até a pressão se tornar quase intolerável, e finalmente derramavam-se para fora dele, transmutados na sua própria voz, no seu próprio esperma: como se o ar que se lhe escapava num largo sopro pela laringe, e o líquido que lhe corria incontido pelas raízes do corpo, fossem o mesmo fluído torrencial e ingovernável.

Marta mal notou que o dono a desamarrava. Da biblioteca passava-se por uma porta para um pequeno quarto de banho, para onde ele a conduziu. Com a assistência de Camila, o amante ajudou-a a lavar e a secar. No fim levaram-na os dois para um grande sofá e sentaram-se junto dela, um de cada lado: ele tinha-se vestido, e Camila trazia, como sempre, as suas calças de ganga preta, blusão de cabedal, e botas. Durante quase uma hora Marta permaneceu nua entre os dois, quase sem falar, a ouvir-lhes a conversa e a responder-lhes às carícias, e sentindo no corpo – mas só ela é que o sentia – o leve sopro de Verão que entrava pelas janelas.

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Então, para ver se a menina era quem dizia, a velha re­solveu pôr-lhe uma ervilha seca debaixo do col­chão, porque, se fosse uma princesa, fa­cilmente a sentiria. E com efeito, na manhã seguinte, a menina queixou-se que alguma coisa a tinha magoado toda a noite. Mas o Rei ainda não acreditava, e as aias puseram outro colchão, e outro, e outro, até que viram que a menina sentia a ervilha mesmo de­baixo de sete colchões.

Conto tradicional

O dono de Mariana tinha alugado uma casa nas dunas. Era uma casa antiga com rudes paredes caiadas de branco e ocre, na espessura das quais se abriam frestas, nichos, portas em arco. Estas paredes eram tão grossas que os umbrais das portas se pareciam com minúsculos corredores abobadados – pelo menos aos olhos de Mariana, habituada, na sua casa de paredes finas em Lisboa, a que o único curto passo com que saía de um compartimento a levasse ao seguinte. O pavimento era um quadriculado rústico de terracota avermelhada, mais escuro e brilhante no inte­rior da casa do que no exterior. Nos terraços, o mesmo pavimento, calcinado pelo sol e despolido pelo vento e pela areia, tinha adquirido com os anos um belo tom de salmão avelu­dado e claro. No chão dos terraços restava sempre, por muito que se varresse, uma ténue palha friável, exalada pelo vento como num hausto de África – resíduos de algas e de relva seca, fragmentos de ortigas e de cactos, tão ressequidos e frágeis que era possível, sem que a mão se picasse, reduzi-los a pó entre dois dedos.
Quando chegaram o sol já estava baixo, mas ainda brilhava com suficiente intensidade para que todas as cores na praia se diluíssem numa brancura obses­siva e cruel. Sob um sol menos violento o vestido de Mariana seria cinzento claro; a esta luz, e em contraste com a pele morena, parecia tão branco como todo o resto da paisagem.
Mariana trazia sandálias brancas de verniz, e vinha nua por baixo do vestido. Tinha quarenta anos, um rosto mais novo que a idade, e um corpo mais novo que o rosto. Havia muito que desejava acompanhar o amante num fim de se­mana como este, mas só à última hora se decidira a fazê-lo. Gabriel, o marido, estava no estrangeiro, numa feira industrial. O que Mariana deixava atrás de si era uma família cada dia mais independente e um heterónimo, Marta, que era a pessoa representada no seu bilhete de identidade.
No automóvel Miguel tinha-lhe ordenado que despisse a roupa interior. Conse­guiu tirar as cuecas sem que ninguém a visse no meio do trânsito: bastou-lhe soer­guer-se no assento e fazê-las deslizar ao longo das coxas e das pernas. Mas ao contorcer-se para tirar o soutien não pôde evitar que dos outros carros lhe pudessem ver os seios.
O cabelo já o trazia solto antes de entrar no carro. Ao lado do amante Mari­ana sentiu-se mais nua no seu vestido do que se estivasse nua de verdade. Teve de súbi­to vontade de o beijar, de o tocar, de lhe pedir que parasse o carro ali mesmo, entre as ár­vores. Com a mão esquerda acariciou-lhe o cabelo, os olhos nele, indagadores.
Ele aceitava-lhe as carícias sem as retribuir, atento à estrada. Mas esta aten­ção era puramente mecânica. Mariana sabia bem que a mais profunda atenção do seu amante estava virada para ela. O desapego que ele, com um exagero deliberado e subtil, fazia gala em exibir-lhe, era um jogo, uma auto-ironia. Como se lhe dis­sesse, «vê, sou um homem, não posso deixar de sepa­rar as coisas». Bastava ler-lhe o rosto: cada carícia dela despertava nele uma reacção discreta mas consciente: nada mais, muitas vezes, do que o olhar a dançar ale­gremente entre ela e a estrada, ou um meio sorriso a adoçar-lhe o perfil.
O colóquio de velhos amigos que mantiveram durante a viagem foi para am­bos uma disciplina e um comprazimento. Foi uma conversa decorosa, entre­meada de silêncios confortáveis, que manteve o seu tom plácido mesmo quando Mariana começou a acariciá-lo através das calças. E quando ele a sentiu, com as suas pe­quenas mãos de menina púbere, abrir-lhe os jeans e procurar-lhe o sexo, só a voz um pouco enrouquecida lhe traiu perturbação.
Mal os dois amantes entraram em casa abraçaram-se, boca contra boca numa fome acumulada em semanas de ausência, em horas de viagem. A interva­los inter­rompiam o abraço para cumprir as tarefas necessárias: pôr comida no frigorífico, desfazer as malas, dispor as escovas no quarto de banho. Tomaram duche um de cada vez, pudicamente, como sempre faziam nas primeiras horas de cada encon­tro.
Entretanto fez-se noite. Miguel pôs música a tocar. Enlaça­dos no sofá, de roupão, ao som de Brahms, falaram de si e das suas vidas: a família, a profissão, as pequenas vitórias quotidianas sobre a morte e sobre os deuses. O dono da casa, que Maria­na não conhecia, tinha-se esforçado por tor­ná-la confortável: electricidade, gás, fri­gorífico, alta fidelidade, e um enorme quarto de banho em mármore branco: pró­prio para princesas e odaliscas, pensou Mariana. E achou estranho que o quarto de dormir, contrariamente ao resto da casa, não tivesse luz eléctrica.
Por única iluminação havia no quarto uma lam­parina, como a lâmpada de Aladino. O amante de Mariana deitou fora o azeite velho, trocou o pavio por um novo, lavou a lâmpada cui­dadosamente, e encheu-a com um óleo perfumado que trouxera num frasco. O acender da candeia foi um acto ritual, e foi iluminados por ela que os dois aman­tes, pela pri­meira vez desde há demasiado tempo, se viram nus.
Como explicar que a redescoberta dos corpos seja sempre mais comovida do que a primeira descoberta? O maravilhar-se é igual, ou sempre renovado; a urgên­cia, muitas vezes, também; mas entre a primeira vez e a segunda a inquie­tação é diferente. Ao temor do outro sucede o temor, mais nobre, do deus que no outro existe sempre. E com efeito: foi com o mais respeitoso e inquieto dos cuidados que os dois revisitaram, no corpo um do outro, os lugares do amor. Cada prega, cada textura de pele, cada recôndita mucosa exigiu ser reconhecida e saudada antes que o sexo e o riso se soltassem na noite. E os amantes acabaram por se encontrar face a face, suados, embevecidos, na imemorial posição dos casais: ela com as pernas abertas e os joelhos er­guidos e os pés fincados no colchão, e o cabelo em desali­nho sobre os olhos; ele apoiado nos joelhos e nos cotovelos para não lhe fazer peso. Foi com esta singeleza que fizeram amor: de frente, mais atentos um ao outro que ao prazer obtido.
Para a primeira fome bastou este amor convencional e doméstico, e a longa conversa que se lhe seguiu. Mas a meio da noite, quando ela o acordou, amorosa, para que a possu­ísse, já não se contentaram com tão pouco. «Funde-te em mim», exigiu Ma­riana, e isto também queria dizer «morre em mim». E ele: «És minha, entrega-te, quero-te toda, agora.» O tempo agora era de urgências irrecusáveis. Os lençóis caíram no chão, afastados por mãos impacientes. Os corpos, suados e nus, trepavam, arquejantes, por cima um do outro, no cumprimento duma tarefa estrénua e transcendente. Amaram-se assim, rudemente, sem palavras de amor, apenas com instruções pe­remptórias: «mais acima», «continua», «pára», «vira-te», «beija-me».
Quando por fim se dispuseram a dormir tinham os corpos macerados. A cama era uma plataforma de tijolo e cimento com um colchão de folhelho muito firme, como ainda hoje se fabricam alguns, e sobre este um de espuma sintética. Mariana começou a achá-la desconfortável. E com efeito vie­ram a descobrir um seixo da praia entre os dois colchões. Era um pequeno seixo muito polido e muito duro e os amantes começaram a rolá-lo preguiçosamente no corpo um do outro, numa brincadeira que era uma carícia.
O amante de Mariana amava as texturas ásperas do mundo físico: a areia grossa sob a sola dos pés, a queimadura do sol, o vento abrasivo sobre a pele, a boca seca de sede no fim das caminhadas – ou, para dizer melhor, gostava do con­traste entre as rudezas da vida e as suas branduras. Uma roupa interior cara, de al­godão macio, umas peúgas de seda, um talco perfumado, eram noutras ocasiões luxos a que se entregava com um abandono feminino. Mariana compartilhava com ele esta sensualidade bipolar. Ambos gostavam de cami­nhar como deuses no deslumbramento da praia, sem outras provisões que um livro e uma maçã, e sem outra roupa que a pele tisnada.
Esta afinidade era sem dúvida uma das raízes do sentimento que tinham um pelo outro. Miguel comprazia-se em ver nela uma princesa do mundo das fadas, capaz de sentir uma ervilha por baixo de sete colchões. Mas comprazia-se sem se iludir, num jogo um pouco perverso: quem ele amava no mundo real – que em todo o caso não é mais do que uma ficção de outro género – era esta mulher de sangue e carne que agora dormia e respirava ao seu lado, exalando um leve odor de cama quente. Era uma mulher pequena e graciosa como uma princesa oriental, habituada às massagens, ao exercício físico, à alimentação regrada. Tinha o cabelo de um castanho quase preto, brilhante de saúde, solto e comprido como o duma adoles­cente. Os olhos eram de um verde extraordinário, muito escuro. Apesar de ter tido dois filhos, era esbelta de corpo; a finura da cinta acentuava uma redondeza femini­na nas ancas e nas nádegas. O Verão ia adiantado, e Ma­riana, que passava na praia muito do seu tempo livre, tinha já adquirido o tom de chá forte que era a sua cor estival.
Quando acordou estava sozinha na cama. A janela estava aberta e na pa­rede em frente resplendecia um rectângulo de luz branca. Da cozinha vinha um cheiro de torradas. Levantou-se, puxou os lençóis para trás e foi para o quarto de banho. Depois do duche foi tomar o pequeno almoço, em roupão e chinelas de cetim. A mesa estava posta com torradas, chá, leite, manteiga e compota.
Depois da refeição, que tomaram os dois vagarosamente, e das arrumações necessárias, o amante pediu-lhe que lhe preparasse uma chávena de café.
«Mas primeiro tira as chinelas», acrescentou. «Quero que fiques descalça. E põe esta roupa.» E mostrou-lhe uma saia magnífica de cigana rica, e uma blusa branca tão transparente que ela sentiu um calor na cara à ideia de a usar na rua. De um saco saíram cachos de bijutaria, brincos, colares, pulseiras, numa profusão orien­tal. Mariana, que não gostava de enfeites, deixou-se encantar desta vez.
Mas ia ter que andar descalça? E se quisessem sair de casa?
«Não quis exigir-to antes,» disse ele. «Da última vez que to pedi – lembras-te? – não quiseste obedecer-me.» Nesse dia talvez estivesse frio, e Miguel não tinha insistido; mas exigia-lho agora.
De agora em diante, seria para ela – impensável – uma falta de respeito – usar sapatos quando estivesse sozinha com ele. Mariana bem o sabia, porque perguntava? Sem mais palavras retirou-se para o quarto. Havia muito que co­nhecia – e, é preciso dizê-lo, amava – como símbolos imemoriais de submissão, o cabelo solto, os pés nus. E de facto nunca tinha prendido o cabelo diante do amante. Mas ousara esperar que ele nunca lhe exigisse o outro símbolo, o mais penoso; e porque se furtara uma vez a esse desconforto trivial, obrigava-o agora a pôr em palavras um senti­mento que as devia dispensar.
De regresso à sala, descalça, ricamente vestida, e nem por isso contrita, Ma­riana esmerou-se em servir o homem que a amava e que agora tão explicita­mente se assumia como seu senhor. Achou uma bandeja e um pano bordado, e dispôs-lhes por cima o pires, a chávena, a cafeteira. Depois, ignorando a excita­ção que a invadia, olhou o amante de frente e perguntou-lhe se também podia tomar um café. A um sinal afirmativo foi buscar uma chávena e sentou-se-lhe aos pés no tapete, diante do sofá.
Ficou assim, sem falar, sentindo a mão do amante no cabelo, numa longa ca­rícia, até que ele a mandou pôr de pé. Quando ela obedeceu, ele levantou-lhe a saia e acariciou-lhe o sexo com a mão toda; e ela deixou-se elanguescer, abrindo um pouco as pernas. Mas ele não quis possuí-la: ao fim de uns segundos levantou-se também, segurando-lhe na mão.
«Põe o pé aqui, no ladrilho. Sente-o bem. Fecha os olhos. O que te vou pedir não é fácil.» Em Lisboa Marta não sentiria senão o frio, o descon­forto. Mas ela aqui era a Mariana, e havia muitas coisas que Mariana não podia sentir da mesma maneira que Marta. «Coisas físicas, sim,» prosseguiu Miguel. «Também coisas físicas. O chão está frio? Ora, estamos no Verão. Tenta sentir se uns ladrilhos estão mais frios que os outros. Onde passam canos, ou bateu o sol, estão mais quentes. Sentes a diferença?»
De olhos fechados, Mariana entrou no jogo. Primeiro com um pé, depois com ambos, tacteava o chão, e dava-se conta de que o pavimento artesanal era irregular na forma, nas dimensões e na temperatura; as juntas eram de espessura diferente, os ladrilhos estavam dispostos a alturas desiguais, os cantos eram mais macios ou mais vivos uns de que os outros. Era um chão nascido de mãos huma­nas, feito de barro como os homens, tão vivo e orgânico como um tapete de lã ou um soalho de pinho. Aquilo que num pavimento in­dustrial seria dureza e desa­mor, era aqui fres­cura e afago. Quem sabe quantas mulheres antes dela, quando a casa era uma pobre habi­tação de pescadores ou camponeses, teriam, descalças e humildes, acarici­ado este barro com os pés calejados? E ela, apesar de os ter tão mimosos, como poderia recusar a carícia que o barro lhe devolvia?
Mariana, que vivia a sua própria escra­vidão com serenidade e alegria, sentiu uma revolta militante contra a servidão daquelas mulheres. Há muito que tinha decidido que mais vale servir por escolha do que ser livre por acidente. Se o seu amado lhe exigia que o servisse descalça, era seu dever de escrava prestar-lhe esta homenagem. Mas o que ele não sabia é que ao fazê-lo ela estava também – noblesse oblige – a cumprir um dever de princesa, a homenagear tam­bém as mulheres que nunca tinham tido escolha, que tinham sido sempre obri­gadas a viver, desamadas e ignoradas, ao serviço duma natureza cega e duma humanidade brutal; mulheres e raparigas que nunca foram senhoras de si o bastan­te para se po­derem dar a um senhor.
Uma palavra do amante interrompeu-lhe estes pensamentos:
«Vamos.»
Mariana pegou nos óculos escuros, em toalhas de praia, no protector solar, e seguiu-o. A areia escaldava. Não havia ninguém na praia e os dois amantes pude­ram ficar nus, como gostavam, ao sol e ao vento. Quando tiveram fome co­meram fruta, e quando tiveram sede beberam pequenos goles de água tépida, como viajan­tes num deserto, de modo a que sobrasse sempre alguma para o ou­tro. Ousaram mesmo passear nus ao longo da praia – não transversalmente, como pudicamente fazem os nudistas – até uma zona coberta de seixos que magoa­vam um pouco os pés. Os seixos eram rosados como a carne, tinham uma enganadora redondeza de coisas vivas – mas Mariana sentia neles, ao pisá-los, uma inflexibilidade impie­dosa e mineral. Mas tinha aprendido em menina a procurar alianças no mundo das coisas brutas, e sabia que nestas alianças é à carne, não à pedra, que compete adaptar-se. Mariana pisou os seixos cuidadosamente, moldando os pés às suas formas. Quem sabe a que outras formas inflexíveis teria ainda que moldar o corpo?
Às cinco ou seis da tarde foram à cidade comprar provisões. No grande ar­mazém anónimo Mariana sentiu vergonha da blusa translúcida, embaraçada tanto pelo despeito oculto das mulheres como pelo óbvio interesse dos homens. Mas mais tarde, ao pôr do sol, quando saíram para jantar na intimidade de um pe­queno restaurante, foi a nudez dos pés, não a dos seios, que a fez sentir vergonha. No mundo de Marta um decote ousado era coisa normal, principalmente à noite – mas não nos lugares onde toda a gente vai, pas devant les doméstiques. Para o seu grupo social, andar-se bem vestido e bem calçado, e apresentar-se de forma apropriada à ocasião e ao lugar, sem atrair as atenções, eram regras mínimas de decência.
Mas descalça, como uma suburbana encalorada, desinibida pelo Verão e pelas férias? E que interessava? Era à beira-mar, o Verão ia quente, e a brisa soprava um ar de loucura. A noite, tépida e perfumada, convidava a que se suspendessem as regras costu­madas. Das matronas suburbanas e das turistas working class que Marta não dese­jaria imitar, nenhuma à sua roda ia sem sapatos: os hábitos estavam a mudar, e o que parecia agora estar em voga eram uns feiíssimos chinelos de piscina, verdes e pretos na maior parte. Pés nus, só os dela e os de uma rapariga alta e elegante que jantava noutra mesa. Estavam pois salvaguardadas as diferenças sociais. E de resto, não seriam ridículos estes preconceitos de casta e de gosto? Não se tinha posto ela própria, no seu hete­rónimo Mariana, no fundo de todas as escalas?
Mas mesmo neste heterónimo, e mesmo no fundo da escala, ela era quem era, tinha gosto e vontade – era, soberanamente, uma pessoa. Tentou imaginar o que seria a sua vida se não habitasse em Alvalade; se não tivesse algum êxito, ainda que modesto, como pintora; se não fosse sócia – ainda que minoritá­ria – de uma galeria de arte bem frequentada; nem fosse casada com um homem rico; e se não vivesse entre gente educada. Como seria o seu mundo se morasse no Cacém, an­dasse de transportes públicos, trabalhasse num salão de cabeleireiro, e fosse divorciada e nunca ti­vesse dinheiro? E se por mais que tentasse não con­seguisse perder peso, e se às vezes brigasse com as colegas, e se de vez em quando bebesse um cálice de licor a mais?
Se nunca tivesse lido um livro – saberia esperar da vida fanta­sia, aventura, espaço, beleza? Se pintasse o cabelo de um louro barato e impossível, se já nada lhe restasse da sua frescura juvenil, e não tivesse sabido construir na ma­turidade uma nova beleza – teria mesmo assim um sentimento tão apurado da sua própria dignidade? E se para pagar os sapatos dos filhos, que os exigiam de marca, tivesse que dormir por vezes com «um senhor muito educado, que a tratava muito bem»? E se os namorados que arranjava fossem cada vez mais falsos e mais grosseiros? E se tudo isto, a sordidez da vida, a falsidade dos homens, lhe fosse pare­cendo cada dia mais normal? Teve por um instante a tentação de construir um outro heterónimo. Um nome afrancesado, Suzete, Arlete. Mas não. Tudo o que essa loura suburbana pudesse dizer ao amante de Mariana seria falso ou supérfluo; e a sua própria obediência representaria, como expressão de amor, não uma submissão apaixonada, mas um bisonho servilismo.
De novo em casa, enquanto o amante tomava duche, tirou de um armário o roupão de pano turco e os chinelos de quarto que queria que ele pu­sesse. Na mesinha ao lado do sofá pôs uma bandeja com uma garrafa de whisky, uma taça com pedras de gelo e um copo. Depois pôs música a tocar, e quando o amante saiu do quarto de banho foi-se lavar também. Quando voltou à sala vinha nua da cinta para cima. A saia era a que ele lhe tinha feito vestir de manhã, e tinha-se ataviado como uma princesa africana, com todos os enfeites que possuía. Encontrou o amante com o copo de whisky na mão. Tinha-se servido de uma porção minúscula e esperava-a no meio da sala, cortes­mente, de pé. Mariana beijou-o na cara, bateu ao de leve com a palma da mão no sofá, para ele se sentar, e ajoelhou-se-lhe aos pés.
«Estou bonita?»
«Estás linda. Como sempre.»
Com um movimento vivo Mariana sentou-se no tapete, estendeu uma per­na, e pôs-se a examiná-la criticamente.
«Mas tenho os pés feios.»
Como resposta a esta observação obteve apenas um sorriso e uma carícia. Sentada no chão, dobrou as pernas para debaixo do corpo. Uma sombra de me­lancolia passou-lhe na expressão. Em voz baixa, sem o olhar, prosseguiu:
«Gostei que me obrigasses a andar descalça na rua.»
A música tinha parado. No silêncio que se seguiu Mariana franziu um pou­co o sobrolho. O amante, que a acariciava e beijava, mais uma vez se maravilhou com o imenso mundo, irrepetível e inexplorável, que pressentimos em toda a gente – mas que só entrevemos, com uma espécie de êxtase sagrado, nas pes­soas que amamos.
O que quer que se estava a passar no universo interior de Mari­ana atingiu subitamente um desenlace. Um sorriso desanuviou-lhe o rosto, e olhou ter­namente para o amante. Mas no fundo dos olhos, muito no fundo, muito por trás da ternura, brincavam-lhe duendes. «Era capaz de andar descalça por ti o Verão inteiro.» E começou a enchê-lo de beijos. Não quis levantar-se do tapete, nem permitiu que o amante se lhe juntasse; teve que limitar-lhe as carícias à parte de baixo do corpo. Vindos de cima, ouvia-lhe os gemidos de prazer. E de repente ouviu, numa voz clara, articulada:
«Beija-me, Mariana.»
Ouvir-lhe estas palavras tornara-se para ela, no mais íntimo de si, a mesma coisa que estar já aos pés dele, roçando o chão com os cabelos. Olhou para cima, quis dizer ao amante que lhe pertencia, que não queria mais do que servi-lo, mas ele fê-la calar: «Não fales agora. O que tiveres a dizer, di-lo com beijos.»
O que Mariana tinha a dizer exigia dela, no plano irrevogável dos actos, um gesto que nunca tinha ousado senão em imaginação. Com o sentimento de empre­ender um caminho sem regresso, inclinou a cabeça até ao chão, roçou com os ca­belos macios as pernas do amante, tirou-lhe os chinelos, e começou a bei­jar-lhe os pés, lentamente, apaixonadamente. O tempo tinha parado. De joelhos, Mariana sentiu que estava enfim num lu­gar que era o seu, onde tinha estado mil vezes, e de onde, no mais fundo da reali­dade, nunca tinha chegado a sair.
Não contente com beijar os pés do aman­te, co­meçou a chupar-lhos, a lamber-lhos, a acariciar-lhos com a face e com os cabelos, a tactear-lhes todas as texturas. Na parte de cima a pele era flexível e resistente. Na sola, era macia como a seda, ou áspera como a lixa. E ele, o que estaria a sentir? Mariana queria que as suas carícias fossem elo­quentes, que as sensações que transmitiam se articulassem numa retórica coe­rente.
E a voz dele, num murmúrio: «Beija-me, Mariana.»
Atirando o cabelo para trás, Mariana começou a beijar-lhe as pernas, a lamber-lhe os tornozelos, os joelhos, as coxas, e nesta progressão havia a mesma inevitabilidade que há em certos discursos poderosos, no momento em que toda a argumentação foi apresentada e a conclusão já é inexorável.
O amante de Mariana nunca tinha querido possuí-la pela boca. Outros o ti­nham querido antes dele, e isso tinha-lhes sido quase sempre recusado. Nas vezes que ti­nha ten­tado, Mariana – ou antes, Marta – tinha acabado por sentir a mesma náusea que sentira uma vez em criança, quando o irmão, que estava a ler a história de um orador antigo, e a pretexto de lhe curar uma inexistente gaguez, a convencera a encher a boca de seixos. Por vezes, contudo, gostava de beijar e chupar o pénis do amante, ternamente, com vagar e respeito; e era com um vivo sentimento de prazer que o sentia atingir aquele estado de pulsante intumescência que parecia um concen­trar vibrante de todas as forças da natureza. Mas uma coisa era esta firmeza da carne, animada e viva; outra era ter subitamente na boca a dureza rebarbativa e inani­mada de um corpo estranho, dum pau, duma pedra.
Mariana interrompia sem­pre a carícia antes que chegasse a este ponto. Mas agora tinha de novo diante dos olhos o sexo erecto do dono, e ia bei­já-lo como das outras vezes quando ele a deteve. Ao olhá-lo compreendeu que estava perante uma escolha: desta vez, se começasse, teria que o servir até ao fim. Nada lhe seria poupado.
Há muito que tinha decidido que mais cedo ou mais tarde acabaria por passar esta prova; mas não tinha pen­sado que fosse hoje. «Sou bem tola,» pensou. «Com medo de um sofrimento – de um incómodo – como se isso contasse para alguma coisa. Não sou eu a escrava? Porque é que o meu senhor não há-de tirar de mim o partido que entender?»
Sem mais hesitação e sem preliminares tomou o pénis na boca e começou a afagá-lo com os lábios num movimento de vaivém. Não tentou fazer-lhe com a lín­gua as carícias que sabia e de que ele tanto gostava. Desde o primeiro movi­mento procurou introduzi-lo o mais fundo possível, para estar preparada quan­do ele se descontrolasse e o quisesse introduzir todo duma vez. «Não o vou aca­riciar com as mãos,» decidiu. «Vou ficar com elas livres para o controlar um pouco.»
Pondo as mãos e os braços sobre as coxas do amante Mariana sentiu que po­dia controlar os seus próprios movimentos e também, até certo ponto, os dele. Isto deu-lhe mais confiança. Mas quando ele lhe pôs a mão na nuca, pensou que lhe ia agarrar a cabeça para se enfiar nela violentamente. Por um se­gundo entrou em pânico e quase perdeu o autocontrole que empregava em não se en­gasgar. Mas ele só queria acariciar-lhe o cabelo, e Mariana decidiu tentar ad­mi­ti-lo um pouco mais fundo. «Tenho que me manter calma e não perder o ritmo,» pensou. «Se ele me agarrar tenho que estar pronta.»
Mas o amante não chegou a agarrá-la. Em vez disso começou a mexer as an­cas para trás e para a frente, quase imperceptivelmente e sem gestos bruscos, num ritmo fluído que correspondia exactamente ao dela. Pela respiração dele, e pelas palavras quase ininteligíveis que lhe ia dizendo, Mariana sabia que estava mais excitado do que ela alguma vez o tinha sentido; mas mesmo assim não a agarrou, nem nunca lhe tocou com as mãos senão para a acariciar nos braços e no cabelo. Mariana deu-se conta que ele estava propositadamente a deixar-lhe a opção de parar quando quisesse, mas agora era ela que, por uma espécie de tei­mosia, não conseguiria parar. A pouco e pouco o mo­vimento que o amante lhe fazia dentro da boca foi ganhando amplitude, sem perder fluidez e sempre no mesmo ritmo, e a certa altura Mariana viu que já es­tavam a fazer outra coisa, já não sou eu a beijá-lo, nem eu a chupá-lo, é ele a possuir-me, pela boca, sim, apesar de não me estar a agarrar, a possuir-me como nunca imaginei conseguir suportar. E não é tão difícil, não é tão penoso como eu pensava, só algumas lágrimas, estas lágrimas, que tolice, lágri­mas de escrava, e o prazer dele, como é possível, por­que é que ele não me agarra, devia ter medo que eu o largasse, ainda bem que não me está a agarrar, se me agarrasse eu perdia o controle, de certeza que per­dia. E agora, agora, duro demais, inflexível, como uma pedra, mas ele não está a agarrar-me, está no mesmo ritmo que eu, é preciso não perder o ritmo não per­der o ritmo não vou parar ele está quase a vir-se quase a vir-se, agora, o prazer dele, olha o prazer dele. Agora.
Mariana sentiu o dono a esvaír-se-lhe na boca como se a vida se lhe es­gotasse nesse esvaimento, e recebeu-o como quem recebe a vida. Só neste úl­timo segundo é que ele a agarrou, mas antes que ela cedesse ao pânico e à náusea tudo ti­nha termi­nado. Não parou de lhe chupar e lamber o sexo enquanto o não sentiu completamente flácido. No fim ele olhou-a num deslumbramento:
«Mariana – minha escrava – meu amor – »
«Meu amo. Meu dono querido. Descansa agora. Sossega. Sou tua. Não sou? Fiz tudo bem, não fiz? Dei-te tanto prazer… Os teus olhos, se visses agora os teus olhos – »
E quando ele se recostou para trás no sofá Mariana subiu para junto dele e começou a beijá-lo ao de leve na cara e nas pálpebras e começou a falar com ele devagarinho. Passados alguns minutos o amante começou a beijá-la na boca, que ainda tinha o sabor do esperma. Mais tarde levou-a para a cama, e fizeram amor durante toda a noite com o impudor e a ternura de dois adolescentes enamorados. O dia seguinte, até à hora de partir, passaram-no a sós um com o ou­tro, enlaçados, amando-se, passeando na praia, conversando.
Ao fim da tarde desceram à cidade para tomar uma refeição. Numa banca ao ar livre uma senhora comprava uns calções para o marido, que pa­recia disposto a aceitar tudo o que ela decidisse. Era uma mulher dez anos mais nova do que Mariana, e já tinha desistido de si. Estava vestida com uma saia de enrolar so­bre um fato de banho preto e verde, da mesma cor que os chinelos. Ti­nha um passo pesado de autocrata, as costas nuas, dois vincos de gordura em diagonal sobre os rins, e o cabelo pentea­do em volume.
Mariana trazia de novo o vestido cinzento, os pés ainda nus, e na mão as sandálias brancas que havia de calçar quando estivessem quase a chegar a Lis­boa. Por um segundo olhou para a senhora que examinava, desdenhosa, a roupa sobre a banca. E, ao longo dos dois dias e meio que acabavam de passar, nunca como neste exacto momento Mariana se sentira tão escra­va, nem tão feliz.

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