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Cap. 34: TITÂNIO

Entretanto havia a viagem ao Brasil, documentos a regularizar, dossiers médicos a organizar, contactos a estabelecer… Os piercings de Teresa iam ser aplicados por um cirurgião, porque os aros de titânio não podiam ser trabalhados no local. Os furos tinham que ter à partida o diâmetro e a curvatura correctos, e o acesso a eles exigia incisões, de modo a que os aros, completos com os ilhós em que deslizariam, entrassem de lado; e por fim havia que suturar estas incisões. Este procedimento exigia uma anestesia local e era muito mais complicado que o que se pratica nos ateliers, mas a cicatrização, devido à precisão dos cortes, ia demorar menos que os dois meses habituais.

O voo para São Paulo demorou quase dez horas, e a transferência para a clínica mais uma. Na mesma noite em que chegou, Teresa ficou internada: o dia seguinte seria dedicado a exames e análises, e no terceiro seriam implantados os anéis. A própria clínica, situada ao lado do parque Ibirapuera, tratou do alojamento de Raul num hotel próximo. Assim, pôde estar presente na primeira consulta com o cirurgião, que já tinha em seu poder um modelo dos quatro piercings que ia colocar. Cada peça consistia em dois anéis que entrariam parcialmente na carne de Teresa. Estes anéis, distantes um do outro por cerca de um centímetro, estavam unidos por uma barra que ficaria de fora; desta barra saía outra, na ponta da qual havia mais um aro. Esta barra engatava, por meio de ranhuras, na que lhe correspondia no lábio oposto, de modo a que os lábios ficassem apertados naquele ponto e os aros da ponta ficassem justapostos sobre a longitude da vulva.

– Reparem os senhores que o engate não é perfeito – disse o cirurgião. – Há um pouco de folga. Isto é propositado: os engates não podem ter arestas vivas, para não machucar; e têm que engatar sem repuxar os tecidos. Depois de os aros de cima engatarem… assim… será possível segurá-los com um cadeado. A senhora deseja piercings de cada lado do clítoris e da vagina, não é verdade?

– Sim – disse Raul – mas a uretra tem que ficar livre…

– Vou dizer-lhe a verdade: com os dois piercings apertados no lugar, a uretra ficará um pouquinho constrangida. Não terá dificuldade em urinar, mas vai ter que fazer uma higiene mais cuidada…

– Sim, nós sabemos.

– A cicatrização não vai demorar tempo demais, porque a incisão vai ser muito exacta e a sutura também. Mas precisa ter alguns cuidados. Quero falar neles aos dois para ter certeza que entendem.

– Faça favor – disse Raul.

– Hoje, a senhora irá para a o seu quarto e fará exames. Se tudo estiver certo, será operada amanhã de manhã. É uma operação muito simples, com anestesia local. Algumas suturas serão bio-solúveis, outras terão que ser removidas à medida que não sejam necessárias. Logo que possível, a senhora deverá mover um pouco os implantes para eles não colarem aos tecidos, mas sempre com muito cuidado. Não tente engatar os anéis exteriores antes de passarem três semanas. Não poderá fazer sexo vaginal antes de seis semanas, e espere oito semanas antes de usar os cadeados.

– E sexo anal? – perguntou Teresa.

– Pode fazer sexo anal passadas quatro semanas, mas tem que fazer logo a seguir uma higiene muito completa de toda essa parte de seu corpo, usando um bom anti-séptico. Agora a enfermeira vai levar a senhora ao seu quarto. O senhor poderá vir de visita a qualquer hora entre as dez da manhã e as dez da noite. Se tudo correr como esperamos, ficará internada três dias: hoje para preparação e exames, amanhã para a operação e mais um para tratamento pós-operatório. No último dia, o senhor também deverá estar presente para a enfermeira ensinar alguns cuidados que deve ter. Depois, a senhora deve descansar, não pode fazer muito esforço; pena que não possa visitar nossa cidade como ela merece.

– E pompoar, quando posso fazer? – disse Teresa.

– Exercícios de Kegel? Pode fazer daqui a quatro ou cinco dias: até ajuda a recuperar. Mas ao princípio faça com muito cuidado, ouviu? Se lhe doer, nem que seja um pouquinho, pare logo.

Depois disto, Raul foi posto delicadamente na rua. Um funcionário da clínica conduziu-o de automóvel ao hotel. No dia seguinte só o deixaram visitar Teresa de tarde: encontrou-a um pouco combalida e impaciente por não a deixarem pôr-se de pé. Para a entreter, Raul descreveu-lhe o hotel, o passeio que tinha dado de manhã, alguns factos que tinha apurado sobre a clínica:

– Sabes que como teu acompanhante tenho direito a alguns tratamentos de graça? Limpeza facial, drenagem linfática… tenho que ver melhor o catálogo.

Teresa fez-lhe sinal de que lhe queria falar ao ouvido, e quando ele se inclinou disse-lhe:

– Só não os deixes modificar-te o pénis, gosto dele exactamente como é.

E ao sentir-se sacudida de riso acrescentou, como se a culpa fosse dele:

– Ai, não me faças rir, que me dói…

Raul deu o suspiro os homens que dão há milénios quando confrontados com a injustiça feminina, ajeitou-lhe a inclinação da cama para ela ver melhor a televisão, beijou-lhe os lábios e perguntou:

– Estás bem assim?

– Estou bem, não te preocupes. Que livros são esses?

– Alguns são para ficar aqui, os outros para eu levar para o hotel.

– Não vais sair à noite?

– Não é preciso. Ligo para a recepção e eles mandam-me uma moça da cor e feitio que eu quiser.

– Para te acender o charuto e servir o whisky, não é?

– Pois claro. Para que mais havia de ser?

– Então manda-a passar por aqui para eu a ensinar. Não quero o meu senhor mal servido…

Riram-se os dois e ficaram algum tempo de mão dada, um pouco enleados, sem saberem bem o que dizer um ao outro. Por fim, foi ela que o mandou embora:

– Anda, vai. Também precisas de descansar. Eu fico bem, daqui a pouco apago a luz.

O dia seguinte foi passado na clínica, onde Teresa já podia passear uns minutos nos jardins.

– Esta coisa ainda me incomoda – disse ela no fim de um destes passeios.

– Dói-te?

– Não, quase não me dói. Mas sinto que são objectos estranhos… Hei-de habituar-me, está claro.

No terceiro dia Teresa teve alta. Antes de sair, uma enfermeira levou-a com Raul a um quarto mobilado como o duma casa particular, com um quarto de banho normal, e ensinou-lhes alguns procedimentos que teriam que seguir no futuro: muita água, muito sabonete, muita água oxigenada, muita circulação de ar, e tudo sempre o mais seco possível.

– Melhor andar de saia sem calcinha, moça… Não vai ter vergonha, vai?

Agora, havia que ocupar os dias. Teresa achava frustrante ter forças para andar e não o poder fazer tanto quanto queria. Os passeios no parque eram dados em passo lento, o que, se por um lado os fazia durar mais, por outro impacientava Teresa, que sempre gostara de caminhar depressa. Raul apontava-lhe os animais e as plantas, que naquele início de primavera brasileira animavam o parque com sons e com cores: assim conseguia que ela se detivesse por momentos e não forçasse demais o corpo.

Na primeira noite que passaram juntos, Teresa decidiu que era tempo de voltar a assumir os seus deveres de escrava: depois dos beijos profusos e das demoradas carícias do reencontro, ajoelhou-se à frente dele, num gesto tão gracioso que dava a impressão de já nada lhe tolher os movimentos, e pediu:

– Meu senhor, não queres gozar na minha boca? Há tanto tempo que não te sirvo…

Raul olhou-a nos olhos:

– Lembras-te de como eu te ensinei, minha escrava?

– Como não havia de me lembrar, meu senhor? Vou-te mostrar…

Raul desapareceu no quarto de banho da suite – aqui dizia-se banheiro – para reaparecer cheirando a sabonete e vestido com o pijama que ela lhe tinha oferecido. Sentou-se na poltrona e ordenou:

– Anda cá, escrava, e abre-me o pijama.

Quando Teresa obedeceu, compreendeu a razão de ele ter vestido o pijama: estava completamente depilado na púbis e na zona genital, e tinha querido fazer-lhe uma surpresa.

– Ficas bonito, meu senhor – disse Teresa.

Gostava, com efeito, de o ver assim. Agradava-lhe que ele não tivesse depilado as pernas nem as coxas, particularmente junto às virilhas, onde a pelugem é mais sedosa. Só depilara o escroto, a púbis e o ventre até ao umbigo. O pénis, assim, parecia maior, e viam-se melhor os testículos.

– Quando voltar a servir-me de ti pela vagina – explicou Raul – não quero que os meus pelos se enredem nos teus piercings. Comecei a fazer depilação a laser aqui na clínica. Em Portugal, continuo.

Teresa sabia que o seu prazer não contava, mas não se pôde impedir de sentir que agora era mais agradável metê-lo na boca, sem ter que cuspir pelos. Começou a chupá-lo como ele lhe tinha ensinado, com ternura e respeito; mas desta vez experimentou uma técnica que tinha inventado: virar a cabeça para os lados de modo a poder acariciar-lhe a glande com a mucosa macia do interior das bochechas. De que ele gostou, não teve dúvidas. Mas também ela tinha uma necessidade o satisfazer, uma necessidade que não era física mas emocional: renovar a dádiva de si que estava no centro do seu amor por ele. Por isso se dedicou tanto, por isso apressou a carícia até sentir a boca inundada de esperma.

Limpou-o com a boca e com a língua: outra vantagem de ele se ter depilado era que esta limpeza era agora muito mais fácil. Depois sentou-se no chão, apoiou a cabeça nos joelhos dele e disse:

– É estranho como chupar-te me faz sentir propriedade tua mais do que qualquer outra coisa… e já estava a precisar de me lembrar, meu amor. Nunca deixes de usar a minha boca.

– Não, minha querida – respondeu Raul. – Também eu te sinto mais escrava quando te ajoelhas para me servir, e não quero nunca prescindir de te possuir assim…

Dois dias depois de sair do hospital, Teresa foi com Raul ao consultório do cirurgião. O médico ficou tão satisfeito com a evolução dela que chamou Raul para junto de si:

– Venha, venha ver… Olhe aqui, no interior dos anéis, como os tecidos estão a cicatrizar… Se continuarem assim, as cicatrizes vão ficar quase invisíveis, e os aros vão ficar bem firmes… É bom sua mulher ter os labia majora tão grandes e resistentes. Mas não se esqueçam que a cicatrização completa demora muito mais que a cicatrização visível… É importante que respeitem os prazos que eu lhes dei.

– Nós sabemos, doutor – disse Teresa. – Vamos respeitá-los à risca…

Teresa não se permitia a impertinência de andar calçada no hotel: considerava que este era, de momento, a casa de Raul, onde tinha de mostrar humildade e respeito; mas nos jardins ele mandou que ela usasse havaianas: um passo em falso, provocado por qualquer pedra no caminho, seria perigoso.

Nos dias seguintes, Teresa tirou os pontos. Onde os anéis de titânio lhe entravam na carne, a pele estava muito fina e rosada, mas não lhe doía nem apresentava sinais de inflamação. Um automóvel alugado com motorista permitiu-lhe visitar com Raul alguns centros de interesse e percorrer duma ponta à outra a enorme Avenida Paulista. Uma noite, aproveitaram a proximidade do Auditório Ibirapuera para irem ouvir a Sinfonia Fantástica de Berlioz: o edifício de Niemeyer impressionou-os, e a música, furiosamente romântica, harmonizava-se com o seu estado de espírito. Passavam, porém, tanto tempo no hotel que Raul ganhou o hábito de se servir de Teresa pela boca mais vezes por dia do que seria de esperar de um homem com quase cinquenta anos. Teresa, que já tinha aprendido muito sobre as preferências dele nesta área, teve ocasião de aprender ainda mais, agora que nada se interpunha entre ela e a pele dele: a infinita leveza com que era preciso beijá-lo ou tocá-lo no escroto, o prazer que era possível dar-lhe passando-lhe a língua no períneo, a maior profundidade a que era agora possível engoli-lo e a necessidade de reaprender a não se engasgar … A ideia de se dedicar durante várias semanas exclusivamente a chupá-lo seduzia-a particularmente, a ponto de nem lhe interessar muito que ele a acariciasse. Tinha-lhe dito um dia que por vezes fantasiava não ser para ele mais do que uma cona; pois agora tinha a oportunidade de não ser mais do que uma boca; durante alguns dias concentrou-se em aproveitá-la e não se importou de andar com os maxilares sempre doridos. Agora que fazia cada vez mais da boca uma vagina de substituição, Teresa achava-se cada vez menos no direito de falar. Sem que ele lho ordenasse, ganhou o hábito de pedir autorização antes de iniciar qualquer conversa:

– Posso falar, meu senhor?

Algumas vezes teve a surpresa de o ouvir dizer não, a ele que tanto gostava de a ouvir; mas estes silêncios impostos eram preenchidos, por um lado, por uma tensão erótica que a fazia cantar por dentro, e por outro por toda uma linguagem de gestos e olhares que era quase uma telepatia. Mas este período mágico tinha que terminar. No dia anterior ao do regresso a Portugal, Teresa, meio morta de vergonha, telefonou para a recepção a perguntar se lhe podiam indicar uma sex-shop que não fosse longe dali. Deram-lhe a indicação pedida, mas informaram-na que o próprio hotel poderia mandar entregar no quarto qualquer artigo mais corrente que a senhora desejasse. Era apenas um lubrificante, disse Teresa. Se era só isso, não precisava de ir à sex-shop: quando voltasse ao quarto, depois de a faxineira o arrumar, encontraria o que desejava no banheiro. E foi assim que Teresa deu a Raul a última abertura do seu corpo que lhe faltava utilizar. Bastou-lhe deitar-se nua sobre a cama, colocar uma bisnaga de lubrificante sobre a mesinha de cabeceira de modo a que ele reparasse, e pôr-se de bruços à espera.

– Queres dar-me o teu cuzinho? – perguntou Raul.

– Não te posso dar o que não é meu – respondeu Teresa. – O meu cu sempre foi teu, mesmo que nunca te tenhas querido servir dele. Mas, se não é ousadia uma escrava exprimir um desejo, gostava que te servisses dele hoje.

Raul deu uma risada:

– É verdade, já é meu – observou. – E é verdade, és uma escrava muito ousada.

– Aqui dizem abusada – interrompeu Teresa.

– Ousada ou abusada, vou-te fazer a vontade: prepara-te, porque não vou ter dó de ti.

Despiu o roupão e começou a acariciar as nádegas de Teresa, que se levantavam de encontro à mão dele como se tivessem vontade própria. A esta carícia seguiram-se duas ou três leves palmadas, que lhe rosaram a pele e a fizeram respirar um pouco mais fundo. Quando a viu ficar um pouco excitada, Raul pôs um pouco de gel nos dedos e começou a massajá-la em volta da abertura de trás, aproximando-se cada vez mais do centro e acabando por lhe introduzir o dedo indicador, primeiro só até à primeira articulação, depois até à segunda, por fim até à base.

Quando lhe encostou ao ânus a ponta do pénis, que também tinha lubrificado cuidadosamente, disse-lhe que fizesse força para fora, como se estivesse a fazer sair qualquer coisa e não a deixá-la entrar. Teresa sorriu: este truque, conhecia-o ela dos seus anos de puta. Sempre tinha tentado evitar o sexo anal, mas nem sempre isto dependera da sua vontade. Mas agradou-lhe que Raul a tratasse como a uma jovem inocente; e de facto, desde a última vez que tinha sido possuída por trás, tinham-se passado tantos anos que o rabo se apertara de novo. Apesar Raul de ter tido todo o cuidado em lubrificá-la e em lubrificar-se, teve muito menos ao penetrá-la. Isto agradou a Teresa: sexo por trás é para doer, pensou; e embora gemesse de dor, virou a cara para e entreabriu os lábios num convite a que ele a beijasse.

O voo de volta foi mais difícil para Teresa do que tinha sido o de ida. Raul tinha comprado lugares em primeira classe, para que Teresa, sentada sobre os seus piercings, tivesse mais amplitude para ajustar a sua posição no assento – necessidade esta que ter o rabo dorido tornava agora mais premente. Reservara um lugar junto à coxia, para que ela se pudesse pôr de pé algumas vezes. Mas tratava-se dum voo nocturno, e Teresa também dormiu não podia passar o tempo todo a passear pela coxia.

Chegaram a Pedras Rubras, estremunhados, às nove da manhã. À sua espera estava Milena, muito engomada no seu uniforme de empregada, e com ela Ana e Miguel, que os acompanharam a casa. Depois do pequeno-almoço, Raul mandou Teresa deitar-se no sofá, levantou-lhe a saia e examinou-lhe o sexo: nos pontos de inserção dos piercings, a carne estava um pouco inchada e avermelhada. Depois do duche, que tomaram juntos, Raul fez questão que ela se secasse bem antes de ele próprio aplicar a pomada desinfectante e anti-inflamatória que o médico tinha receitado. Passaram o resto da manhã na cama, a descansar e a conversar. Almoçaram em casa, servidos por Milena, que pôs sobre a cadeira de Teresa a almofada mais macia que havia em casa; e de tarde passearam um pouco a pé: foram até à Rotunda da Boavista, à Casa da Música, tiraram fotografias um ao outro como um par de namorados e pediram a um casal de turistas que os fotografasse juntos.

– Espere, deixe-me tirar os sapatos! – disse Teresa.

Enquanto a senhora, já de cabelos brancos, lhe segurava os sapatos para que não ficassem caídos no chão a estragar a foto, o marido tirava-lhes o retrato, sorrindo com indulgência da veleidade romântica de Teresa.

De novo em casa, Raul foi para o escritório e mandou Teresa de novo para a cama: queria-a de pé ou deitada; mas sentada, o mínimo possível. À noite não quis possuí-la por trás: era sua intenção fazê-lo raramente, de modo a que a abertura se mantivesse sempre apertada. Ele também acha que por trás é para doer, pensou Teresa; e pôs no beijo que deu a Raul um pequeno extra de ternura.

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Cap. 31: SEIS VERGASTADAS E MAIS UMA

Desde que Teresa se tinha habituado a dançar para Raul depois de jantar, mostrando-lhe os progressos que fazia nas aulas, estava-se a tornar mais frequente Raul jantar sozinho, servido por Teresa e Milena. Isto evitava que Teresa tivesse que mudar de roupa duas vezes, e por outro lado dava lugar a uma competição lúdica entre as duas para ver quem organizava o serviço mais requintado. Esta competição levou a tais extremos de formalismo que não raras vezes acabavam as duas, acompanhadas por Raul, perdidas de riso perante uma invenção protocolar particularmente absurda. Mas se o protocolo excessivo e barroco do jantar era puro divertimento, as danças de Teresa perante Raul eram, pelo contrário, um assunto muito sério. Nestas danças, Teresa não estava limitada ao formato da dança do ventre e usava por isso de uma liberdade que não podia exercer nas aulas. Por vezes dançava vestida, outras nua ou meia nua; por vezes fazia dança do ventre, outras dança livre ou dança jazz; outras ainda inspiravam-se em gestos e estilos populares de todos os continentes. Dava-lhe especial prazer, dançando nua, fazer com que a atenção de Raul se concentrasse nas suas mãos ou nos seus braços; ou pelo contrário, estando completamente vestida, pôr em evidência as partes mais íntimas do corpo.
Na noite que se seguiu à da experiência com o vibrador, Teresa apareceu com a parte inferior do corpo coberta de panos transparentes, sobrepostos de modo a formar uma saia multicolor: carmim, vermelhão, siena queimado, laranja, roxo, amarelo indiano. A cinta era tão baixa que, se Teresa não estivesse depilada, lhe deixaria à mostra parte dos pelos púbicos. Logo de início, Raul notou uma rigidez que não era habitual nos movimentos de Teresa: os movimentos habituais estavam lá todos – o ondular dos músculos da barriga, o rolar das ancas, o sacolejar para os lados e para a frente, as órbitas descritas em forma de oito, o tremer dos seios e dos quadris – mas tudo muito controlado, muito deliberado, muito preso, sem a desenvoltura de que Teresa começava a ser capaz. A que se poderia dever esta regressão?
A resposta tornou-se óbvia quando Teresa deu por terminada a primeira fase da dança, que era feita com os pés assentes no chão e sem sair do sítio, e tentou fazer uma pirueta. Nesse momento, Raul ouviu o som surdo de alguma coisa mole mas pesada a cair no chão; e viu um dos pés nus de Teresa a dar um pontapé involuntário nas bolas ben-wa que acabavam de lhe cair da vagina.
– Anda cá – disse Raul. – Senta-te no meu colo.
Com Teresa ao colo, titilando-lhe distraidamente um dos mamilos, Raul começou a fingir que lhe ralhava:
– Com que então, experiências! Quem te mandou fazer isso? Deve ter sido a tua professora de pompoar, ou então a de dança do ventre, porque eu não me lembro de te ter dado essa ordem…
Teresa corou:
– Não foi ninguém… Foi ideia minha…
Raul riu-se de novo e deu-lhe uma pequena palmada de baixo para cima num dos seios, de modo a fazê-lo saltar.
– Suponho – especulou – que quando um senhor quer ter uma escrava com ideias, tem que se sujeitar a que algumas delas não sejam muito boas. E esta não foi muito boa, pois não?
– Pois não, meu senhor. Desculpa.
Raul deu-lhe uma palmada no rabo, desta vez com força, e ordenou:
– Então vai lá lavar as bolas e depois vem dançar para mim como deve ser.
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa, pondo-se de pé com um movimento álacre e esfregando o sítio onde tinha levado a palmada.
E de facto, depois de voltar e de pôr a música outra vez no início, soltou os quadris e dançou tão bem e tão fluentemente como habitualmente o fazia. Introduziu nesta dança, porém, um movimento que Raul reconheceu da noite anterior: aquele gesto peculiar de retraimento e entrega em que o corpo parece ansiar precisamente por aquilo de que foge. Era o movimento com que tinha reagido ao vibrador, e Raul gostou tanto que sugeriu a Teresa que o mostrasse à professora na aula e pedisse a sua opinião. Teresa assim fez: além de mostrar o movimento (para o qual a professora imediatamente inventou uma série de variações que treinou com as alunas), contou-lhe o episódio humilhante das bolas ben-wa caídas no chão e pontapeadas. Em vez de a censurar, porém, a professora aprovou a tentativa, dizendo à turma que algumas das melhores dançarinas do ventre eram pompoaristas; mas que se alguma aluna quisesse tentar o que Teresa tinha tentado, o melhor era preparar-se para treinar muito tempo até conseguir.

[ … ]

Desde esse dia, Teresa começou a treinar todos os dias em frente ao espelho. Teve que reaprender tudo a partir das técnicas mais elementares, ao mesmo tempo que progredia sem as bolas nas técnicas mais avançadas. Já conseguia introduzir na vagina a primeira bola ben-wa, embora ainda tivesse que ajudar a segunda com o dedo, e a certa altura já era capaz de as segurar tempo suficiente para sair de casa por curtos períodos com elas postas.
Tudo isto, junto com a dor quase diária da depilação eléctrica, começou a fazer com que a consciência que Teresa tinha do seu corpo se começasse a centrar na sua zona genital.
– Às vezes quase sinto o desejo – confidenciou uma vez a Raul – de não ser para ti mais do que uma cona, um buraco ao teu dispor.
A estas palavras, Raul abraçou-a.
– É um desejo teu que não vou satisfazer muitas vezes, mas compreendo-te bem: também eu, por vezes, desejaria libertar-me desta carga de humanidade e não ser mais que um falo… Não é possível, felizmente, caso contrário seríamos puros vegetais; ou se nos restasse alguma consciência, a vida seria um inferno.
– Bem sei – respondeu Teresa. – Mas às vezes…
– Sim, às vezes… – respondeu Raul. – Mas o que não pode ou não deve ser realizado, pode muitas vezes ser representado: e tu agora vais dançar a tua coninha para mim.
E Teresa, rindo, fez precisamente o que ele mandava.

[ … ]

À noite, em casa, Teresa manteve o vestido branco para jantar com Raul e se sentar depois aos pés dele. Antes de se irem deitar, Raul perguntou-lhe:
– Vamos tentar ir hoje um bocadinho mais longe com o vibrador?
– Meu senhor querido, sou tua… Só te peço que me amarres como da outra vez, senão ainda passo pela vergonha de tentar fugir.
Diga-se em abono de Teresa que em momento algum daquela noite se debateu seriamente contra as cordas que a sujeitavam; mas várias vezes se lhe acendeu nos olhos a mesma luz de loucura que Raul tinha visto uns dias antes. Mas o vibrador entrou mais fundo; manteve-se ligado mais tempo; e o período de recuperação que se seguiu foi mais rápido e mais fácil. Terminado o exercício, Teresa serviu Raul mais uma vez com a boca: como se fosse intenção dele que nestas noites o vibrador fosse, para o sexo dela, a última memória.
Poucos dias depois, Raul quis ir mais longe.
– Preciso de te amarrar? – perguntou.
– Não, meu querido – respondeu-lhe Teresa. – Acho que desta vez não vai ser preciso.
Quase foi preciso, mas Raul nunca o soube. Raul penetrou Teresa várias vezes com o vibrador ligado, mas ela, embora se debatesse e desse abundantes sinais de aflição, não chegou àquela fronteira de quase loucura aonde tinha sido preciso ir buscá-la nas outras noites: não só se manteve neste mundo sem ajuda, como chegou a um grau de excitação sexual em que Raul raramente a tinha visto.
Assim que Raul pousou o vibrador, penetrou-a duma vez; e assim que a penetrou, ela explodiu num orgasmo grandioso, sem ter tempo sequer de pedir licença. Com Raul ainda rígido dentro dela, Teresa começou, assim que se sentiu capaz, a aplicar as técnicas de pompoar que já dominava; e ao senti-lo quase a gozar, gozou também, desta vez com autorização. Por muito tempo ficaram abraçados; mas depois de apagarem as luzes, depois de os corações pararem de bater com tanta força e os pulmões de respirar com tanto esforço, Teresa entendeu chegada a altura de confessar:
– Tive um orgasmo sem licença, meu senhor.
– Sim, minha escrava, tiveste – respondeu Raul.
– Mereço um castigo.
– Mereces, sim.
– Meu senhor querido, não quero ser castigada. Tenho medo.
– Quem te garante que o castigo vai ser severo? – disse Raul. Provavelmente já sofreste pior às minhas mãos, sem merecer. E desta vez mereces, não mereces?
– Sim, meu senhor, mereço – respondeu Teresa, num murmúrio. – Por isso é que vai ser pior que qualquer outro castigo. E vais castigar-me, não vais?
– Sim, vou. Amanhã, às seis da tarde, no quarto dos castigos. Seis vergastadas fortes. Avisa a Milena que a essa hora não estamos para ninguém.
– Sim, meu dono – disse Teresa.
Quis virar-se para o outro lado, para que Raul não se desse conta das lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Era o primeiro castigo premeditado que recebia: nunca tinha acontecido com Ettore, e muito menos, nos seus anos de puta, com os seus clientes, que iam e vinham e faziam o que lhes ocorresse no momento. Acabou por não virar as costas a Raul: ele saberia entender as suas lágrimas. Quando ele se voltou para a sua posição de dormir, Teresa abraçou-se a ele por trás e ficou a ouvir-lhe a respiração. O que sentiu ela antes de adormecer? Prazer, nenhum. Medo, certamente: um pouco. Tristeza, também, e melancolia. Esperança, porque lhe parecia que estava a ser conduzida pelo caminho certo. O que não sentia de todo era revolta.

[ … ]

– Traz-me um chá e uma torrada ao escritório – pediu.
Quando Teresa entrou com o chá, Raul agradeceu-lhe e disse-lhe que depois a chamava. Chamou-a às seis em ponto, para lhe ordenar que se despisse e que o esperasse no quarto dos castigos. Teresa, a tremer, obedeceu; e ele chegou logo a seguir, ordenando-lhe que se debruçasse com o rabo empinado sobre a banca do lado direito das colunas, onde já uma vez a tinha amarrado para a punir.
– Hoje não te vou amarrar – disse Raul. – São só seis vergastadas. Quero que as contes tu própria em voz alta: se não contares alguma, essa não vale. Por cada vez que abandones a posição recebes uma vergastada a mais. Está tudo claro?
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa.
Ouviu os passos de Raul, que se colocava por trás dela, e ouviu o silvo no ar quando ele tomou o peso à vergasta. Subitamente, um novo silvo, e uma dor insuportável. Gemeu, e depois de ter gemido começou a sentir que um estranho silêncio se erguia entre eles. De que estava Raul à espera?
– Escrava… – ouviu-o murmurar.
E subitamente lembrou-se: tinha que contar as vergastadas.
– Uma! – exclamou em voz alta, grata pelo tempo que lhe tinha sido concedido.
Nova vergastada:
– Duas!
A terceira foi a pior até ao momento; Teresa contorceu-se toda, mas não levantou os pés do chão. Contou, com a voz embargada:
– Três.
Era uma crueldade ou uma gentileza ele não a ter amarrado? Teresa não sabia. A quarta vergastada atingiu-a muito em cima, quase na cinta, mas a quinta acertou-lhe na prega entre as coxas e as nádegas, provocando-lhe uma dor atroz que a levou a deitar-se para o chão.
– Quatro! Cinco! – contou.
– Sim, cinco – disse Raul calmamente. Mas ganhaste mais uma porque saíste da posição. Volta para o teu lugar.
Teresa voltou para a banca do castigo.
– Seis! – gritou.
E pensar que com esta, tivesse ela tido um pouco mais de coragem, podia estar o castigo terminado! Com as pernas a tremer obrigou-se a ficar onde estava, de nádegas empinadas, aguardando a última vergastada, a pior, a menos necessária; e quando ela veio foi quase com alívio que rouquejou:
– Sete!
Sete, finalmente. Teresa endireitou-se dirigiu-se para o lavatório instalado num canto da sala, lavou a cara, secou-se, e virou-se para o espelho de corpo inteiro que ali tinha sido colocado, virando-se de maneira a poder ver as marcas que tinha nas nádegas. Eram de um vermelho rosado, apenas mais escuro nos sítios em que se cruzavam. Este tinha sido o pior de todos os castigos, não por ser o mias doloroso, porque tinha sido um castigo verdadeiro: a punição duma falta cometida. Olhou para Raul, que estava com a vergasta na mão, à espera. Claro, ainda faltava a conclusão. Teresa deu um passo para Raul, beijou-lhe a mão que segurava a vergasta, beijou a própria vergasta e disse as palavras rituais:
– Obrigada, meu senhor, pelo castigo que me deste.
Isto, em voz alta; mas a seguir, ainda de joelhos, enquanto ele se afastava para pendurar a vergasta, repetiu, numa voz tão baixa que ele não a chegou a ouvir:
– Obrigada, meu querido…

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Cap. 29: LABIA MAJORA

Havia alguns minutos que Raul, debruçado sobre Teresa na cama, acariciava e beijava a sua escrava, que dava pequenos gemidos e retribuía brandamente as carícias dele. Pouco a pouco, as mãos e os lábios dele foram-se aproximando da vagina de Teresa, que começou lentamente a afastar as coxas para lhe facilitar o acesso. Raul acariciava-lhe os pequenos lábios e o clítoris, beijando-os e sugando-os com toda a leveza de que era capaz.

− Deixa-me ver bem a tua coninha, minha escrava.

Teresa, flutuando no mar morno da sua excitação, não entendeu: então ele não a estava a ver bem? Viu-o levantar-se, sair do quarto, e voltar com um candeeiro, que colocou aos pés da cama e acendeu.

− Abre mais as pernas.

Teresa obedeceu. Isto não era excitante, não dava prazer, não significava nada que ela entendesse, mas, para quem se deu a alguém, confiar é obedecer: Raul sabia com certeza o que estava a fazer. Parte da excitação que Teresa sentira regressou, apesar da luz forte, quando Raul recomeçou a tocar-lhe a vulva, afastando com os dedos os grandes lábios, tocando-lhe o clítoris, examinando o capucho que o escondia parcialmente, apalpando por fora a parte que se oculta no interior do corpo. Era como o toque do ginecologista, que a deixava fria, mas ao mesmo tempo era o toque do amante, que a deixava em brasa: mais uma sensação nova para juntar às que Raul lhe provocava. Raul sabia que o clítoris de Teresa era bem mais longo do que parecia, e se parecia pequeno, era porque só a ponta aflorava à superfície do corpo. Procurou seguir-lhe a raiz com os dedos e conseguiu-o em parte, mas não teve a sensibilidade suficiente para se dar conta do ponto em que a raiz do clítoris se bifurca, rodeia a uretra pelos dois lados e se vai ligar à vagina. Depois seguiu-lhe com os dedos os pequenos lábios, beijando-os de vez em quando, mas aparentemente mais atento ao exame que estava a fazer do que ao prazer que pudesse dar ou obter. Apertou-lhe os lábios exteriores um contra o outro: eram bastante carnudos, e apesar da excitação de Teresa, ocultavam por inteiro os lábios interiores, que eram mais estreitos do que o habitual, e frisados como pétalas de cravo.

− Perfeito – murmurou para si mesmo.

Era bom que Raul considerasse que ela tinha uma vulva perfeita, mas perfeita para quê? Teresa ignorava a razão deste exame a frio, que começava a excitá-la quase tanto como a excitaria uma verdadeira carícia; mas não ousou fazer qualquer pergunta. Em todo o caso, o exame não durou muito mais: Raul levantou-se, desligou o candeeiro e retomou as carícias de havia pouco, até que o corpo de Teresa se contorceu numa convulsão de prazer. Raul manteve-a no cume durante tanto tempo quanto foi capaz, para depois a trazer de volta muito lentamente. Teresa sentia-o muito excitado – bastava sentir-lhe a dureza do pénis – mas, como era típico dele, sem pressa nenhuma de a penetrar. O que queria ele agora dela? Começou a beijá-lo na cara, nos ombros e no pescoço. Raul começou a tocar-lhe sucessivamente os seios, os flancos, as ancas, testando-lhes a textura e a firmeza.

− Meu senhor, posso fazer-te uma pergunta? – disse Teresa. − O que foi aquilo há bocado? Estavas a brincar aos médicos?

Raul riu-se, beijou-a na comissura dos lábios e respondeu:

− Não é bem isso, minha escrava. São duas coisas que tenciono mandar fazer-te. Uma depilação definitiva…

– Hmmm… – respondeu Teresa. – Não sei se vou gostar… mas tu é que decides, claro.

– Claro – concordou Raul. – Amanhã tens uma consulta marcada. Andei a ver qual era a melhor clínica do Porto. O tratamento completo vai demorar de um a dois anos, até que os pelos não voltem a crescer, mas os resultados vão começar a ver-se logo a partir do primeiro.

− Sei como é – disse Teresa. – E qual é a outra coisa que me vais fazer?

− Vou mandar pôr-te piercings na vulva, nos lábios maiores. Mas isso é para mais tarde, e vai ter que ser feito em S. Paulo.

− Em S. Paulo? Que piercings tão especiais são esses? Pensei que bastava chegar ali à Baixa a qualquer casa de tatuagens e sair de lá meia hora depois com os piercings postos…

Raul começou a acariciar-lhe a vulva com a mão enquanto lhe respondia.

− Estes vão ser mesmo especiais. Vão ser em titânio e desenhados para o fim que tenho em vista.

Teresa soltou um gemido:

− Meu senhor… sou tua, farás de mim o que quiseres… mas agora estou a imaginar que me vais fazer as coisas mais inconcebíveis, sem eu saber o que é… Não vai ser nada que te impeça de me possuir, pois não?

Raul deu uma risada branda:

– E eu alguma vez ia querer deixar de te possuir? Não, meu amor, não vai ser nada disso. O que pode, é impedir que outros te possuam… Não te importas?

– Eu? Não, meu senhor. Até fico excitada… saber que sou só tua, mesmo fisicamente… que não me pertenço, mas a ti… mas gostava que me mostrasses outra vez isso mesmo; posso-te pedir isso?

Como poderia Raul não perdoar? Antes de a penetrar, recomeçou a acariciá-la e a beijá-la longamente na vagina, nos pequenos lábios e no clítoris, e, em cada ponto em que ele tocava, Teresa perguntava a si mesma: vai ser aqui? Vou ser furada aqui? Não a perturbava usar piercings: já tinha tido furos nos mamilos que depois tinham acabado por cicatrizar e desaparecer. Minutos mais tarde, quando lhe pediu licença para gozar, ele negou-lha; e ela ficou acordada durante horas, trespassada daquela estranha energia, daquele estranho prazer que não sabia explicar, sentindo-o dormir ao seu lado, saciado. Em cada dia que passavam juntos, parecia a Teresa que a sua escravidão se aprofundava mais um pouco. Tinha consentido nas modificações que Raul se propunha fazer-lhe no corpo, sem mesmo perguntar quais eram; apenas lhe pedira que lhe mostrasse mais uma vez que não se pertencia a si própria, mas a ele. Mas Teresa reflectia também que o que se aprofundava não era tanto a sua escravidão como o domínio de Raul sobre ela, um domínio cada vez mais envolto em ternuras e cuidados, como dizia Carolina, mas cada vez mais livre de culpas e de escrúpulos.

Noutra noite, numa noite de castigo, Teresa jantou à mesa com Raul – com a sua saia mais sumptuosa, e coberta de jóias como era regra, mas nua da cinta para cima. Milena, que servia a refeição, sorria-lhe de vez em quando e acariciava-lhe o ombro, como para lhe dar coragem; e Teresa bem precisava de coragem para suportar o que lhe estava reservado para daí a pouco.

Com efeito, Raul, depois de ter bebido o seu whisky e fumado o seu charuto, com ela todo o tempo a beijar-lhe os pés, mandou-a esvaziar a bexiga e esperar por ele, toda nua e sem jóias, no quarto dos castigos. Teresa esperou de pé, com a cabeça baixa e os braços caídos ao longo do corpo. Quando Raul entrou, não ergueu os olhos para ele, mas reparou que tinha mudado de roupa e estava agora de chinelos, pijama e roupão. Quando ele lhe pôs a mão no queixo para a obrigar a erguer a cabeça e lhe dar um beijo na face, Teresa fechou os olhos, virou-se para ele e ofereceu-lhe docemente os lábios.

− Deita-te na banca da esquerda, de barriga para cima.

Era a banca abaulada: deitada sobre ela, Teresa ficava com a pélvis mais alta que a cabeça e os pés. Tinha ido nessa tarde à consulta marcada na clínica de beleza: depois de a examinarem, tinham-na rapado com uma lâmina e feito vários testes antes de lhe fazerem o primeiro tratamento com luz pulsada. Era uma sensação estranha estar assim exposta, com o sexo completamente depilado, mais nua do que alguma vez se tinha sentido. Sentiu que Raul lhe amarrava o pulso direito, apertando a corda com força e atando-o a uma das argolas de bronze no canto da banca. Depois amarrou-lhe os tornozelos, escolhendo as argolas de bronze que a faziam afastar mais as pernas. Entretanto, ajeitando o corpo em direcção à cabeceira da banca, Teresa tinha conseguido aliviar a tensão da corda que lhe prendia o pulso; mas, com as pernas presas, isto já não lhe foi possível quando ele lhe amarrou o pulso esquerdo. Voltando aonde tinha começado, Raul desatou o pulso que tinha amarado em primeiro lugar e puxou a corda antes de o atar outra vez; e assim deu várias voltas à banca, esticando as cordas mais um pouco, sempre pela mesma ordem, até não ser possível a Teresa aliviar a tensão.

As cordas, assim apertadas, faziam-lhe doer. Quando Teresa pensou que já estava imobilizada, Raul ainda a prendeu com mais cordas nas coxas, junto aos joelhos, obrigando-a a escarranchar ainda mais as pernas. Não a amordaçou nem a vendou: embora a posição incómoda em que ela tinha a cabeça não lhe permitisse seguir todos os movimentos do dono pela sala, permitia-lhe ver alguns. Agora é que ele vai buscar o chicote, pensou Teresa; ainda bem que ele a tinha mandado esvaziar a bexiga, caso contrário talvez não pudesse evitar encharcar-se de medo. Mas Raul, quando voltou para junto dela, não trazia chicote nem vergasta, mas sim dois pequenos objectos que ela só identificou quando ele lhos prendeu aos mamilos: duas molas que a fizeram arquejar de dor. O que quer que ele tencionasse fazer a seguir, era preciso esperar que a dor abrandasse, caso contrário não sentiria mais nada. Enquanto esperava, ele alisou-lhe os cabelos e ofereceu-lhe a mão aos lábios para que ela a beijasse. Isto deu-lhe tempo a sentir algo mais do que a dor nos mamilos, que era agora uma sensação surda. Raul passou um dedo a todo o comprimento da vulva exposta de Teresa, que se deu conta de que estava completamente molhada. Meteu-lhe o dedo na boca, para que ela provasse os seus próprios sucos, e trepando para cima da banca, introduziu-lhe o pénis na vagina.

Pompoar – ordenou-lhe.

Teresa já estava suficientemente adiantada nas lições de pompoar para que alguns dos movimentos se lhe tivessem tornado quase instintivos, mas desta vez era-lhe exigido mais do que isso. Concentrou-se nas técnicas que ainda não tinha automatizado; e esta concentração, conjugada com o desconforto da sua posição, fez com que a onda do orgasmo, ainda pequena, que mal lhe começava a crescer ao largo do corpo, se aplanasse de novo. Não pediu autorização para ter orgasmo; para quê, se mesmo sem orgasmo o prazer que sentia era tão intenso, e se o prazer que soubesse dar Raul o compensaria amplamente? Sentiu que os movimentos dele se tornavam cada vez mais fluidos e que exigiam dele cada vez menos esforço, apesar de serem cada vez mais amplos e mais fortes; ouviu-lhe a respiração cada vez mais sonora, mas também cada vez mais solta; e preparou-se para acolher dentro de si, com alegria e amor, o jacto de esperma em que ele se esvairia em breve. Mas Raul, quase no momento de atingir o clímax, ainda lhe ordenou:

− Vem-te agora, escrava. Dá-me o teu prazer.

E, em obediência esta ordem, a prega de mar que antes, ao largo, se aplanara, a pequena onda que fora para Teresa uma promessa, cresceu de novo, agigantou-se, adquiriu no topo uma crista de espuma, curvou-se sobre a praia do seu corpo e desabou sobre ela, arrastando-a, virando-a em todas as direcções, mais uma vez perdida. Escrava, puta, galdéria, pensou, que me venho assim só porque um homem manda. Mas estes insultos que dirigia a si mesma não eram sinceros: não podia enjeitar a alegria e o orgulho que a invadiam; e puta não era de certeza, a não ser de Raul.

Mal acabou de a possuir, Raul levantou-se e limpou o pénis com dois toalhetes húmidos, tirados de uma embalagem que Milena tinha guardado para esse efeito num dos armários. Calçou os chinelos, vestiu-se, e começou a desamarrar Teresa tão metodicamente como a tinha amarrado. No fim, tirou-lhe as molas dos mamilos, causando-lhe uma dor bem maior do que lhe tinha causado ao pô-las.

− Não te levantes ainda, espera um pouco – ordenou.

Dirigindo-se para a cabeceira da banca, pôs uma mão por baixo da nuca de Teresa e outra por baixo dos ombros e soergueu-a devagar.

− Sentes-te bem? – perguntou.

Ao som afirmativo dela, ergueu-a mais um pouco e disse:

− Agora roda o corpo devagar e põe os pés no chão.

Teresa assim fez e Raul perguntou-lhe de novo se estava bem.

− Estou bem, meu senhor.

Raul ordenou-lhe que ficasse sentada mais uns segundos; depois ajudou-a a levantar e conduziu-a ao quarto de banho, onde tomou duche com ela. Teresa viu-se ao espelho. As marcas das cordas eram fundas e estavam muito vermelhas, e demorariam por certo algum tempo a desaparecer. Se passados dois dias, quando tivesse aula de dança do ventre, ainda se notassem, teria que revelar mais um pouco da sua condição.

Mais tarde, deitados na cama, Raul recomeçou a acariciar-lhe o corpo. Ao tocar-lhe os mamilos foi especialmente gentil, mas Teresa, que os tinha muito doridos, arquejou de dor. Mas continua, meu amor, continua… Raul continuou a acariciá-la, voltando de vez em quando aos mamilos. Teresa respondia-lhe com carícias e com beijos cada vez mais apaixonados.

− Meu senhor… meu dono… – disse Teresa por fim. – Não queres voltar a possuir a tua escrava?

Raul possuiu-a com vigor e ternura, não apressando os preliminares, nem a privando depois duma copiosa porção de beijos e carícias; e autorizou-lhe o orgasmo quando ela o pediu. Raul demorou muito tempo: quando o sentiu gozar, Teresa já tinha terminado completamente, mas disse-lhe:

− Sim, meu senhor, sim, goza em mim, goza sozinho na tua escrava… goza muito, meu querido…

Imaginou que Raul, cansado como devia estar, havia de querer a cama toda só para si e a mandaria dormir aos seus pés. Mas ele, em vez de a mandar embora, estendeu-lhe os braços, e nessa noite dormiram enlaçados.

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(Nos últimos tempos tenho descurado muito este meu blog. O último excerto que publiquei foi do capítulo 29, quando depois disso já escrevi mais quinze. Esse trabalho a tempo inteiro explica em parte a minha falta de assiduidade neste site. Como pedido de desculpas aos meus leitores habituais, apresento neste post três passos do romance: um tirado do início do capítulo 31, outro do fim do mesmo capítulo, e finalmente ou tirado do fim do capítulo 32.)

Nos dias seguintes Teresa pensou muito neste estranho prazer de não ter prazer. Primeiro tentou explicá-lo pelo prazer da escravidão, da submissão, da obediência; mas estes eram prazeres de fundo, de baixa intensidade, e o que ela tinha sentido fora duma intensidade que raiava o insuportável. Depois tentou compreendê-lo através duma imagem: o prazer habitual do amor seria então como uma seta que voa solta, sobe muito alto e cai logo a seguir; enquanto o prazer inaudito que sentira era como um papagaio de papel que se mantinha no alto sem poder escapar ao fio que o prendia. Mas esta imagem não abrangia a diferença qualitativa entre as duas sensações: esta que acabava de descobrir nunca poderia, por mais intensa e prolongada que fosse, substituir a outra. O prazer de pairar, o prazer de nunca mais descer, era de natureza muito diferente do prazer de explodir numa flor de fogo que fugazmente iluminava a noite. O que os dois prazeres podiam ter em comum era o pedido de permissão: este, quando atendido, permitia dar mais brilho e amplitude à explosão e fazê-la durar um pouco mais, mas não a fazia qualitativamente diferente de qualquer outro orgasmo. Teresa sentia-se capaz de renunciar para sempre, sem pena, a ter um orgasmo sem autorização: só se um dia, um dia inimaginável, viesse a amar um outro homem que não fosse Raul.

De repente ocorreu-lhe que nesta taxinomia faltava, para que fosse exaustiva, o orgasmo obrigatório. Imaginou-se a responder de imediato, com um abalo violento e obediente, à ordem de Raul “vem-te”. Sentia-se capaz de o fazer se a ordem lhe fosse dada a tempo; já o tinha feito uma vez, de resto; mas agora era precisamente na falta de tempo que estava a dificuldade. Desde que era escrava de Raul começara a chegar ao orgasmo cada vez mais rapidamente e com cada vez menos preliminares, de modo que o prolongamento destes acabava por ser, quando Raul queria, uma refinada tortura. A maior parte das vezes, quando ele lhe ordenasse “vem-te”, já ela estaria a vir-se, não por efeito da ordem, mas por imposição do seu próprio corpo. “O que eu sou, é uma grande galdéria”, pensou, com mais comprazimento que remorso; e este pensamento levou-a a dar um passo de dança na rua, rodando a saia e fazendo com que um senhor elegante, de cabelos brancos e bengala de castão, se virasse para trás e lhe sorrisse.

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Agora que ia aprender mais, Teresa começou a sentir a necessidade de fazer o balanço do que tinha aprendido até aí como submissa e como escrava. A primeira aprendizagem é sobre a dor e o prazer, e faz-se logo na infância. A dor é um mal a evitar, é o anúncio de um perigo. Vem quando batemos com o joelho na esquina da mesa, ou quando estamos doentes, ou quando nos queimamos no fogão. O prazer é bom: vem de comer quando se tem fome, de dormir quando se tem sono, de correr pelo quintal fora quando a energia transborda, abraçar a mãe, de ser atirada ao ar pelo pai e de ser recolhida de novo nos seus braços, depois de um instante de delicioso terror. Até este ponto a aprendizagem de Teresa foi igual à de qualquer outra criança. A primeira divergência surgiu quando Teresa verificou que o maior prazer dos outros miúdos era dominar os seus parceiros – usando às vezes de métodos tão cruéis e requintados que os adultos, se se apercebessem deles, fugiriam com terror dos seus próprios filhos – enquanto o dela era servir e obedecer. Um dia descobriu que havia muitas pessoas capazes de transmutar a dor em prazer: mas ela própria nunca fez esta aprendizagem. Nunca aprendeu a ter prazer directamente na dor. Aprendeu, sim, com Ettore, a submeter-se à dor; mas era a submissão que ela amava, não a dor em si.

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– E o pompoar? [ -perguntou Raul. – ] Não me chegaste a explicar bem o que é isso.

Teresa franziu um pouco o sobrolho.

– Sabes o que é o músculo pubococcígeo?

– Não – respondeu Raul.

– Pois é… Há uma coisa que tu às vezes fazes quando estás com uma erecção, que é mexer o pénis para cima e para baixo sem mover os quadris… Sabias que não há muitos homens capazes de fazer isso?

– Não sabia. Pensava que todos os homens conseguiam.

– Pois é, o músculo pubococcígeo é o músculo que te permite fazer isso. É um músculo, ou melhor, um conjunto de músculos, que vai do osso púbico ao cóccix, e se o treinares sistematicamente vais tornar-te capaz de muito mais do que acenar com o pénis: vais ser capaz de orgasmos múltiplos, de controlar a ejaculação, de te protegeres contra doenças da próstata…

– Hmmmm… Estou a ver que vou ter que pensar nisso a sério. E para as mulheres, qual é a vantagem?

– Ficamos protegidas contra certas doenças e deformações, ficamos mais capazes de controlar os nossos orgasmos, e ficamos capazes de dar muito mais prazer aos homens.

– Aha! E já dá para me fazeres uma demonstração?

– Talvez – disse Teresa. – Porque não experimentamos?

E sem esperar pela resposta de Raul tirou a saia e a écharpe transparente que trazia a servir de blusa, ficando nua. Entretanto também Raul se livrou do roupão e do pijama. Teresa trepou para o colo dele, abriu as coxas e começou a descer até ter o membro viril introduzido até ao fundo.

– Fica quieto um bocadinho, meu senhor, por favor…

Raul começou a sentir que a vagina de Teresa lhe apertava ritmicamente o pénis. A pouco e pouco começou a mover-se para cima e para baixo dentro dela.

– Devagar, meu senhor… ainda não faço isto com facilidade…

Mas Raul não precisou de movimentos violentos para atingir o prazer. Teresa também não fazia outros movimentos que não fossem o apertar e relaxar rítmico da vagina. Poupou o esforço maior para quando Raul estivesse a atingir o climax, e quando tudo terminou perguntou-lhe, beijando-o:

– Foi bom, meu senhor?

Raul retribuiu-lhe o beijo:

– Foi muito bom, meu tesouro. Foi como uma mistura de quando te possuo pela vagina com quando me chupas o sexo.

− E ainda só aprendi a controlar a vagina como um todo, e mesmo assim com muito esforço. Quando aprender a controlar separadamente a entrada, o meio e o fundo, então é que vais ver o que é bom…

− Mal posso esperar – disse Raul. − Se calhar nunca mais vou querer penetrar-te por outro lado…

– Isso não, meu senhor – respondeu Teresa, alarmada. – Sou toda tua, com todas as aberturas do meu corpo. Não me desprezes… E agora que tenho outra vez o cuzinho bem apertado, vou querer que qualquer dia te sirvas também dele.

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Final do Capítulo 29


O intervalo estava a chegar ao fim, a aula que ia dar a seguir era a última. Ligou para o telemóvel de Teresa:

− Onde estás?
− No shopping, a fazer umas compras.
− Falta-te muito?
− Não, já saí do supermercado e agora ando aqui a ver umas lojas.
− Então vai já para casa e espera lá por mim toda nua. Logo que possa vou ter contigo.
− Sim, meu senhor – disse Teresa. – Meu querido…
Raul desligou o telemóvel, mal dedicando um pensamento a quem quer que o tivesse sob escuta. Que lhes fizesse bom proveito. Foi dar a sua aula, saiu imediatamente, meteu-se no carro, parou numa florista e foi para casa, onde presenteou Teresa com um ramo de rosas. Teresa, que já tinha planeado recebê-lo de joelhos, ajoelhou-se para receber as flores. Depois correu para o interior da casa para as pôr numa jarra com água, e voltou para junto de Raul, igualmente apressada, para retomar a saudação planeada no ponto em que a tinha interrompido. Ajoelhando-se de novo, beijou-lhe a mão e disse:
− Aqui estou, toda nua, ao teu dispor. O que queres fazer de mim?
− Segue-me, minha escrava.
Teresa seguiu-o até ao quarto, onde ele, detendo-se, lhe ordenou:
− Agora despe-me.
Teresa começou por lhe tirar a T-shirt. Como ele era mais alto do que ela, teve que se estirar toda para lha fazer deslizar ao longo dos braços, que ele não esticou para cima, mas sim para a frente. A regra, quando ela o despia, era que lhe fosse beijando cada parte do corpo que fosse ficando a descoberta. Teresa obedeceu à regra beijando-lhe os ombros, chupando-lhe um pouco os mamilos, dando-lhe a volta de modo a poder beijar-lhe as costas ao longo da espinha, regressando por fim ao peito. Aproveitou esta oportunidade para o roçar com os seios sempre que pôde, o que, não sendo exigido, dava prazer aos dois. A seguir tirou-lhe os sapatos e as peúgas, beijando-lhe os pés. Por fim tirou-lhe as calças e as cuecas e beijou-lhe o sexo, que tinha segurado entre as mãos postas como que em oração.
− Vem dar-me um duche – disse Raul.
Enquanto ele se dirigia devagar para o quarto de banho, Teresa, numa corrida, deitou no cesto da roupa suja as peúgas, as cuecas e a T-shirt que lhe tinha tirado, e dispôs outras, lavadas, na cadeira ao lado da cama. No quarto de banho pôs o duche a correr, ajustou a temperatura da água e convidou Raul a subir para a banheira, onde começou por lhe molhar o corpo todo. Para o ensaboar teve que subir também para a banheira, e apesar de ter tomado duche meia hora antes também se molhou e ensaboou.
− Deixa-me esfregar-te, meu senhor…
E começou a esfregá-lo, não com as mãos, mas com o corpo todo, abraçando-se a ele pela frente e por trás, ajoelhando-se para lhe chupar o pénis ou para lhe lavar os pés. Raul aceitava estas homenagens serenamente, como algo que lhe era plenamente devido, mas nem por isso deixava de sopesar ocasionalmente um seio da sua escrava, ou de lhe introduzir dois dedos entre as coxas para a fazer sobressaltar. Teresa, atenta ao seu dever, não se queria excitar demais. Depois de passar o chuveiro por si própria e por ele, secou-se a si própria à pressa e a ele com todos os cuidados. Só uma coisa a desgostava ligeiramente: depois do seu primeiro duche tinha passado por todo o corpo um creme perfumado e amaciador, que agora se escoara pelo ralo da banheira.
− Meu dono… − disse. – Eu tinha passado creme no corpo… Queria estar toda macia para ti… Esperas agora um pouco que passe outra vez?
− Pois sim, minha escrava – consentiu Raul. – Mas antes acompanha-me ao quarto para me ajeitares as almofadas e me deixares confortável.
− Sim, meu senhor – disse Teresa, com um sorriso aberto. – Às tuas ordens.
Raul estendeu-se no meio da cama de barriga para cima. Teresa aproveitou o pretexto de o pôr confortável para se roçar levemente nele; mas, quando o viu de sexo completamente erecto, escapou-se, rindo:
− Vou pôr creme…
Raul apoiou a cabeça na almofada, sorriu ligeiramente, descontraiu-se e esperou até ficar com o pénis de novo flácido. Teresa, ao entrar, sorriu-lhe; depois, ajoelhando-se no seu catre, aos pés da cama, começou a beijar-lhe os pés, depois os tornozelos, subindo-lhe lentamente, com os lábios e com a língua, pelas pernas acima. Por vezes detinha-se neste progresso e voltava um pouco atrás, para logo depois recomeçar. Ao chegar-lhe às coxas subiu para cima da cama e ficou de gatas por cima dele, baloiçando para os lados os seios pendentes de modo a afagá-lo com os mamilos. Deteve-se por muito tempo a beijar-lhe o sexo, que encontrou de novo erecto. “Não estás menos pronto do que eu,” pensou, “mas se não me deres outra ordem vamos ter os dois que esperar”. Raul não lhe deu outra ordem, e assim Teresa continuou a trepar por ele acima, lentamente, lentamente, voltando atrás de vez em quando, quando ele menos esperava. Porque se submeteria ele, sendo Senhor, a esta tortura, sabendo que a podia fazer cessar a qualquer momento com uma simples ordem? Talvez soubesse que a sua escrava, ao torturá-lo, se estava a torturar ainda mais a si própria.
− Continua assim, minha escrava.
“Sim, escrava dele,” pensou. Um ser aberto, sem resistências que tivessem que ser vencidas, pronto para dar e receber qualquer prazer a qualquer momento, capaz de submeter o seu senhor à tortura da espera, mas só ao preço de a sofrer em dobro. Estava pronta. Como estava pronta! Mas primeiro havia os mamilos dele a beijar, as mãos dele a levar aos lábios, o ventre dele a acariciar com os seios, o rosto dele a encher de beijos…
− Mais devagar, escrava.
Mais devagar, mas essa palavra, escrava, a penetrá-la como uma lança, como um falo erecto, a fazer com que dentro dela tudo andasse mais depressa, tudo se precipitasse, tudo reclamasse um desenlace.
− Mais devagar…
E ela, devagar, chegava-lhe finalmente aos lábios, beijava-lhos com fúria, enrolava a língua na dele, acariciava com o sexo o sexo dele, sem ousar empalar-se como lhe exigia o corpo, aguardando uma ordem, apenas uma ordem que do mesmo passo a trespassasse e libertasse.
Mas a ordem não veio. Em vez dela veio uma estocada poderosa, dada por ele de baixo para cima com um movimento súbito dos quadris. Tanto bastou para que ela sentisse, eminente, um orgasmo que se anunciava avassalador. E pediu:
− Meu senhor, posso vir-me?
E Raul respondeu:
− Não.
Não?! Como não?! Como deter a avalanche que já se desprendia, a onda que já se agigantava?! Mas Teresa deteve-a, nunca veio a saber como. Numa escala qualquer que encontrou dentro de si, fez com que o prazer que sentia encontrasse um patamar onde pudesse ficar imóvel, sem subir nem descer, mudando de natureza, tornando-se em parte dor, em parte exaltação, mas continuando a ser algo de desmedido, de sublime. Sem perder um átomo desta estranha volúpia, abraçou o amante, sentiu como ele se movia dentro dela, como se derramava, como arquejava num orgasmo talvez igual ao que lhe negara. Manteve o amante dentro de si enquanto ia ficando flácido. Sentia que a vagina se lhe contraía e distendia como se afinal o orgasmo proibido lhe estivesse a vir, embora sem a sensação correspondente. Beijou Raul, como sempre o beijava depois do amor, mas estes beijos tinham uma urgência diferente. Acariciou-o, mas as carícias eram outras, mais vívidas. Disse-lhe que o amava, e isto era tão verdade como das outras vezes, ou ainda mais. Em vez da frustração inicial começava a sentir outra coisa igualmente intensa, mas agora da ordem da esperança; a excitação sexual era agora, por acréscimo, cerebral. Talvez nem sequer sentisse o desejo de enlaçar o corpo noutro corpo, mas sim de flutuar para sempre neste paraíso novo a que não sabia dar nome. Este estado de exaltação manteve-se enquanto tomou duche com Raul, enquanto se vestiu e arranjou para ir almoçar com ele, e continuou depois durante o resto do dia e para lá dele. Ao sair não pediu, como era norma, que ele lhe permitisse calçar-se, mas sim que a deixasse ir descalça, ao que ele acedeu.
Almoçaram no restaurante da Fundação de Serralves. Visitaram o Museu. Nalguns lugares do jardim o chão era um áspero e magoou um pouco os pés de Teresa. Quando chegaram a casa ela serviu-lhe o jantar, sentou-se-lhe aos pés enquanto ele lia, serviu-lhe um whisky, acendeu-lhe um charuto. Conversaram bastante, mas nenhum dos problemas práticos que tinham a resolver veio sequer à baila. À meia-noite foram-se deitar. Antes de adormecer, Teresa deu-se conta que aquele talvez tivesse sido um dos dias mais felizes da sua vida.

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( Do capítulo 18 )

Tinham acabado o exame, tinham decidido tudo o que tinham a decidir, e agora Teresa, deitada de costas na cama, brincava distraidamente com os seus próprios seios enquanto Raul, apoiado num cotovelo, a observava.

− Meu senhor… − disse ela por fim, apertando os seios um contra o outro.

− Sim? – disse Raul.

− Acreditas que possa haver alguma coisa que uma puta nunca tenha feito?

Raul desatou a rir:

− Ora deixa ver, meu tesouro. Nem sei o que te responda. Para te dizer a verdade, nunca pensei muito nisso. Porquê?

− Nada, uma tolice. Nunca nenhum homem gozou entre as minhas mamas. Dá para acreditar?

Raul riu-se de novo:

− É claro que dá para acreditar. Eu também nunca gozei entre os seios duma mulher. É por isso que estás a apertar os teus um contra o outro? Dava-te prazer que eu te fizesse isso?

− O meu prazer não conta, sabes bem – disse Teresa. – Mas sim, acho que me daria prazer ver a cabeça do teu pénis a aparecer e a desaparecer, muito rosada, entre as minhas mamas… E depois ver o teu esperma a sair… E tu, meu senhor? Terias prazer em te servires de mim assim?

− Talvez tivesse. Mas teria de ser com uma lubrificação qualquer, não gosto de esfregar pele seca em pele seca. Vai buscar vaselina ao quarto de banho.

Teresa correu a cumprir esta ordem. Quando regressou, Raul colocado duas almofadas no centro da cama.

− Para apoiares a cabeça – explicou. – Deitas-te do meio da cama para baixo, com as pernas de fora, eu deito-me por cima de ti. As almofadas são para apoiares a cabeça de modo a poderes ver o que está a acontecer. Agora passa um bocado de vaselina entre as mamas, e a seguir sobre o meu sexo.

− Sim, meu senhor – disse Teresa.

Ao passar-lhe vaselina no pénis, Teresa fechou a mão e fez-lhe um movimento masturbatório, que Raul achou mais agradável do que se tivesse sido feito com a mão seca. Teresa deitou-se na posição indicada, Raul estendeu-se por cima dela com os braços esticados de modo a deixar espaço para que ela pudesse erguer a cabeça e ver o seu próprio corpo. Teresa pressionou os seios um contra o outro, apertando entre eles o sexo de Raul: ficou com a glande dele diante dos olhos, e mais uma vez se deu conta de como ela era bonita. Preconceito de amor, sem dúvida: mas Teresa já tinha visto muitos órgãos masculinos, e a muitos tinha-os achado feios e repugnantes, com as suas glandes bulbosas ou as suas formas mal definidas. A glande de Raul era, vista de cima, quase triangular, como a ponta duma seta. Vista de frente, como ela agora a via, mostrava uma abertura suficientemente larga para que o esperma jorrasse dela aos borbotos e não aos esguichos. Na base, no ponto de união com a haste, circundava-a um rebordo muito marcado e ligeiramente rendilhado, como um colarinho quinhentista ou como a rebarba de um dardo, que a fazia mais grossa do que o comum e talvez contribuísse, ocorria agora a Teresa, para o prazer intenso que ele lhe provocava ao penetrá-la. Quando Raul se começou a mover, Teresa pôs-se a imaginar que este movimento se realizava dentro dela: ao ver a glande aproximar-se, imaginava-a a tocar-lhe o colo do útero; quando a via recuar e esconder-se completamente entre os seus seios, imaginava-a a acariciar-lhe os pequenos lábios e a entrada da vagina; e alegrou-se de poder ver com os seus próprios olhos o que se passava nas suas entranhas quando ele a possuía.

Quando Raul atingiu o clímax, Teresa assistiu, fascinada, ao jorrar do sémen em borbotos, um dos jactos tão forte que lhe atingiu o queixo e os lábios. Esperou que ele rodasse de cima dela para a cama antes de se limpar com um toalhete húmido. Depois limpou-o a ele, primeiro com a boca e a língua, depois com outro toalhete. Veio-lhe de novo à ideia aquele jacto de esperma mais forte, e de repente imaginou o sémen a entrar-lhe no útero, a fecundá-la… Isso agora nunca poderia acontecer, essa possibilidade tinha-lhe sido roubada para sempre pelas sevícias a que tinha sido sujeita em Itália. E os monstros que lhe tinham causado este dano irreversível continuavam livres de fazer o mesmo a quantas mulheres quisessem, enquanto as mesmas autoridades a que competia detê-los ousavam acusar de maus tratos aquele homem bom que a segurava nos braços e nunca a tinha tratado com outra coisa que não fosse todo o amor e todo o respeito.

Vieram-lhe as lágrimas aos olhos; escorreram-lhe pelo rosto. Raul, inquieto, perguntou-lhe:

− Que foi, meu amor? Que tens?

Teresa pegou num lenço de papel e assoou-se antes de responder:

− Nada, meu senhor, uma tolice… Nunca vou poder ter um filho teu…

Diz-se que para bom entendedor meia palavra basta. Nesta queixa de Teresa entendeu Raul tudo o que ela tinha sentido e pensado no instante anterior. Abraçou-se a ela com mais força, sem falar, e pôs-se a entristecer juntamente com ela até que ambos adormeceram.

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Finalmente, mais um excerto do meu romance. Corresponde à segunda metade do capítulo 5.

O tempo tinha arrefecido e foi-lhes agradável regressar ao aconchego do apartamento. Teresa tirou as sandálias e o casaquinho e perguntou a Gustavo:

– Que música queres ouvir?

– Hmmm… – disse ele. – Tens Miles Davis?

– Tenho para aí alguma coisa – disse ela, e pôs-se a procurar entre os CD’s.

Por fim encontrou o que queria.

– Vais gostar disto – disse.

E enquanto a música começava a tocar baixinho dirigiu-se para Gustavo e fez menção de se sentar de novo aos pés dele.

– Assim não – deteve-a ele. – Toda nua.

– Toda nua?! – sorriu ela.

– Toda nua.

Teresa abriu mais o sorriso:

– Se o meu Senhor manda…

E sem mais demora despiu e arrumou toda a roupa que trazia vestida, que se resumia afinal à saia e à blusa. Depois sentou-se na mesma posição em que estivera antes, e enquanto ele lhe ia acariciando ora os cabelos, ora os seios, ora qualquer outra parte que achasse à mão, começou a conversar com ele sobre as trivialidades do dia: as compras dela, a viagem dele, a maçada em que os aeroportos se vão transformando cada vez mais… Por vezes caíam em confortáveis silêncios, durante os quais não faziam mais do que ouvir a música e tocar suavemente um no outro. Quando o CD chegou ao fim Teresa trocou-o e assim ficaram os dois, a embeber-se lentamente da presença um do outro.

– Vamos para a cama? – disse Teresa, quando o viu bocejar.

– Vamos.

– Então anda.

Na casa de banho mostrou-lhe o que tinha previsto para o acolher:

– Este é o teu roupão… as tuas toalhas… os teus chinelos…

Enquanto um tomava duche, o outro lavou os dentes. Secaram-se um ao outro com as toalhas. E por fim, sem que Gustavo se preocupasse em fazer uso do roupão ou dos chinelos que Teresa tinha disposto para ele, dirigiram-se nus para a cama, que Teresa abriu rapidamente e onde colocou duas enormes almofadas.

Na cama abraçaram-se e começaram a percorrer com as mãos e os lábios o corpo um do outro. Desde o primeiro toque Teresa sentiu a erecção de Gustavo, mas como ele não se mostrou apressado ela também não. Via-lhe, porém, as olheiras e os olhos um pouco raiados de sangue: estava cansado da viagem, e da lauta refeição que ela lhe tinha dado.

– Estás cansado, meu Senhor.

Gustavo sorriu-lhe:

– Estou, mas não tanto que não possa fazer as honras à última iguaria deste banquete…

Teresa, apalpando-lhe o pénis, respondeu:

– Isso estou eu a ver. Mas deita-te para trás, queres? Deixa-me ficar por cima e fazer todo o trabalho…

Gustavo deitou-se de barriga para cima no meio da cama, apoiou comodamente a cabeça na almofada, fechou os olhos e dispôs-se a gozar os prazeres que Teresa lhe proporcionasse. Esta passou-lhe uma coxa por cima do corpo, pegou-lhe no pénis e guiou-o para dentro de si, começando a mexer os quadris com movimentos lentos mas seguros. Conforme a inclinação que ela dava o corpo, Gustavo sentia-lhe a carícia, por vezes dos cabelos, por vezes dos seios macios. Abandonando a sua atitude passiva, pôs os braços à volta dela e começou a acariciar-lhe com mão firme as costas, as nádegas e a parte de trás das coxas. Ao sentir estas carícias, Teresa inclinou-se sobre ele e murmurou-lhe ao ouvido:

– Dá-me umas palmadas…

Antes de lhe dar a primeira palmada, Gustavo ainda continuou a apalpar-lhe as nádegas durante algum tempo. Depois ergueu a mão direita a uma altura suficiente para que ela ganhasse velocidade ao descer sobre o corpo de Teresa. Não bateu com força: estava mais interessado no efeito sonoro do que na sensação provocada.

– Sim… – disse Teresa; e começou a beijar Gustavo no peito ao mesmo tempo que soltava os quadris numa dança fogosa.

Com a segunda palmada Gustavo procurou abranger ambas as nádegas de Teresa; esta reagiu como a um choque eléctrico, com um repelão de todo o corpo, e redobrou os beijos apaixonados com que cobria o corpo do amante. Mas a terceira palmada estragou tudo: no momento em que a palma da mão atingiu o corpo de Teresa, Gustavo sentiu uma angústia tão intensa como inexplicável. O ar pareceu-lhe subitamente gelado, o sexo ficou-lhe flácido, e recordou a imagem, que julgava ter esquecido, dum rosto de mulher no Kosovo. Com um som que era em parte suspiro, em parte gemido, e em parte grito de protesto, rolou na cama de modo a sair de dentro da amante.

– Que foi?! – perguntou ela, alarmada. – Que foi, meu querido?!

– Não sei… Não sei bem. Lembrei-me duma coisa, duma coisa de que não devia ter-me lembrado.

Teresa juntou de novo as pernas mas continuou inclinada sobre ele, numa posição de tanta intimidade como a anterior, mas inteiramente doutra ordem. Os seios, pendendo suavemente sobre o peito dele, continuavam a ser um afago; mas agora este afago confortava-o em vez de o excitar.

– Conta-me, meu amor. Conta-me tudo.

E Gustavo contou. A mulher chamava-se Merita. Nunca tinha sido possível apurar a sua idade exacta, mas devia ter entre os vinte e os trinta anos. Quando ele, acompanhado duma psicóloga e duma agente da polícia local, entrou na sala onde ela estava a fim de tomar algumas notas, ela correu para um canto e ficou lá encolhida a olhar para ele com os olhos dum animal acossado. Teve que sair. Explicaram-lhe depois que era sempre aquela a sua reacção na presença de um homem, e que se as duas mulheres o tinham levado com elas era porque tinham tido esperança que ela estivesse a ultrapassar este trauma. A história dela era como a de tantas outras: um oficial das forças de manutenção de paz precisava duma mulher e de um apartamento para a guardar. As máfias locais estavam em posição de lhe fornecer estas comodidades, por um preço razoável. Merita era uma jovem viúva de guerra, sem família nem amigos que a protegessem. Foi fácil raptá-la, adaptar à pressa uma casa isolada e levá-la para lá, e entregar a chave ao cliente. Segundo os testemunhos recolhidos pelos psicólogos, Merita tinha sido, antes de ser raptada, uma mulher voluntariosa e senhora do seu nariz, perfeitamente capaz de regatear duramente no mercado da aldeia e de responder taco a taco a qualquer agressão física ou verbal. A mulher que os soldados, na sequência duma denúncia anónima, encontraram na casa isolada não era nada disto: era um animalzinho aterrorizado, incapaz de se exprimir por palavras, obediente a meia dúzia de ordens específicas dadas em inglês, mas aparentemente incapaz de compreender quaisquer outras palavras, mesmo na sua própria língua. O facto de ela reagir a ordens em inglês permitiu que se descobrisse rapidamente que o oficial em causa era um americano; e como estes tinham as suas próprias estruturas de justiça militar, separadas da estrutura multinacional em que Gustavo estava integrado, o caso passou rapidamente para as mãos deles; e Gustavo, envolvido em muitos outros, tinha-o esquecido até agora.

– Ainda bem que a coisa passou para as mãos deles – disse Gustavo, enquanto Teresa lhe afagava levemente os ombros e o peito. – O tipo acabou por ser condenado a uma pena muito mais dura do que aquela a que nós o condenaríamos. Mas mesmo assim leve demais. E queres saber o que me deu mais volta à cabeça?

Teresa beijou-o ao de leve no peito:

– Diz…

– Fisicamente, esta mulher estava de boa saúde. Consegues imaginar isto? De boa saúde. Um pouco desnutrida, mas veio a saber-se mais tarde que o homem até era cuidadoso com a alimentação dela; ela é que muitas vezes não queria ou não conseguia comer. E não tinha quaisquer marcas de maus tratos: o fulano reduziu-a ao que a reduziu com base apenas em técnicas em pressão psicológica e em palmadas no rabo. Ainda agora não compreendo: vi outras mulheres com queimaduras, com marcas permanentes no corpo com vestígios das torturas mais inconcebíveis, e mesmo assim menos degradadas psicologicamente do que ela. Ela própria tinha suportado, durante a sua vida de casada, maus tratos piores, sem que a sua auto-estima fosse afectada por isto. E este gajo, só com a palma da mão, fez dela o que fez…

Ditas estas palavras, Gustavo calou-se. Teresa, vendo-o perdido em pensamentos, respeitou este silêncio e limitou-se a beijá-lo de vez em quando, enquanto ele a acariciava, quase distraidamente, nas costas.

– Foi disto que me lembrei – recomeçou ele subitamente. – E subiu por mim acima um asco, uma vergonha…

Teresa deixou que o silêncio se prolongasse de novo. Por fim, sem deixar de o acariciar como a um animal nervoso, disse:

– Mas antes de ires para o Kosovo já tinhas feito isto com mulheres…

– Tinha, claro que tinha – respondeu Gustavo.

– E não sentiste nojo, nem vergonha, nem culpa…

– Não, é claro que não. Senti prazer, e elas também.

Teresa recomeçou a beijá-lo e a acariciá-lo sem dizer nada. Quando entendeu que tinha passado tempo suficiente, perguntou-lhe:

– E com a tua mulher?

– Com a Isabel? A Isabel é um caso aparte. É diferente de qualquer outra pessoa que eu já tenha conhecido, homem ou mulher. Parece-me incapaz de sentir dor ou prazer… Não, não é bem isso: sente dor e prazer, mas com muito pouca intensidade.

– Fisicamente, queres tu dizer?

– Fisicamente, psicologicamente, moralmente… De todas as formas. De início não me apercebi disto. Mas com o tempo comecei a acreditar que para ela o único verdadeiro prazer é ter dinheiro e o único verdadeiro sofrimento é não o ter.

– Não é caso único…

– Que eu conheça, é. E depois há outra coisa, que não sei se é impressão minha: o corpo dela parece feito de borracha dura. Tem uma consistência diferente, que parece que não é de mulher nem de homem… Estou a explicar-me muito mal.

– Não faz mal. Continua.

– Uma vez assisti a uma coisa… trilhou-se a fechar a porta do carro. Ficou com um daqueles vergões vermelhos, muito brancos nas bordas… Sabes? Olha-se para aquilo e vê-se logo que causou uma dor horrível.

– E ela?

– Qualquer outra pessoa teria dado um grito, soltado um palavrão, segurado com a outra mão a parte atingida… Ela não. Olhei para a cara dela e o que vi foi uma expressão petulante, de contrariedade, como se alguém ou alguma coisa tivesse falhado uma obrigação qualquer para com ela…

– Deixava-te bater-lhe?

– Quando eu me portava bem, quer dizer, quando fazia alguma coisa que pudesse conduzir a uma promoção, ou a mais dinheiro. Mas deixava-me bater-lhe como me deixava beijá-la, ou fodê-la: tanto lhe fazia. E eu acabei por me desinteressar tanto duma coisa, como das outras. Nos últimos anos do nosso casamento deixámos de ter relações sexuais.

Chegada a conversa a este ponto, pareceu a Teresa que era chegada a altura de menos palavras e mais acções. Os beijos e as carícias que não tinha parado de dar a Gustavo tornaram-se de novo mais deliberados, e ele correspondeu concentrando-se mais no corpo dela. Mas não recuperou a erecção anterior, ainda que o pénis lhe pulsasse um pouco e ficasse meio direito. Teresa deixou que este período de carícias recíprocas se prolongasse como se estivesse disposta a contentar-se com ele a noite inteira. Mas por fim, quando o viu sorriu de prazer, disse-lhe:

– Meu Senhor… Se a tua escrava te pedir muito uma coisa, tu fazes-lha?

– O que é?

– É uma coisa que não vais querer.

– Como assim?! Julguei que os senhores é que pediam às escravas coisas que elas não queriam…

– Não pedem, ordenam. E as escravas obedecem. Eu não te estou a ordenar, estou-te a pedir…

– Seja, estás-me a pedir. E é uma coisa que eu não vou querer…

– Sim.

– E que tu me pedes por uma razão qualquer que não me dizes…

– Sim. Uma boa razão, disso estou certa. Terás que confiar em mim. Terás que confiar muito em mim. Prometes?

Aos ouvidos de Gustavo isto soou como um desafio ao qual se misturava um apelo e uma dádiva. E tinha-se comprometido a aceitar todas as dádivas, mesmo as mais imprevisíveis, que lhe viessem desta mulher imprevisível. Sorriu para si próprio: aquele pedido tão humilde era na realidade uma ordem. Bem merecia esta Teresa o seu nome. Respondeu:

– Sim, Teresa, prometo. Seja o que Deus quiser.

Teresa encarou-o, muito séria:

– Meu Senhor, vês ali, entre a zona de dormir e a de estar, aquela cadeira muito sólida. Repara que não tem braços. Peço-te por favor que me leves até ela, que te sentes, que me estendas de bruços sobre o teu colo e que me dês uma severa e prolongada tareia de palmadas. Peço-te que faças isto mesmo que não tenhas prazer. Peço-te que o faças mesmo que sintas vergonha ou culpa. E não é para eu ficar com as nádegas rosadas: é para ficar com elas vermelhas, vermelhas escuras. És capaz de fazer isto que a tua escrava te pede?

Ricardo afastou para o lado as roupas da cama, com um gesto tão violento que caíram no chão e os deixaram aos dois nus sobre os lençóis. Segurou Teresa rudemente pelos ombros e afastou-a de si a todo o comprimento dos braços, como que para a ver melhor. Fixou nela os olhos irados e encontrou em resposta um olhar sereno e directo. Com um gesto brusco saiu da cama e foi sentar-se na cadeira.

– Anda! – comandou. – De que estás à espera?

Teresa foi ter com ele sem pressa mas sem hesitação. Viu-o rígido na cadeira, a tremer de cólera mal contida. Ainda bem. Era exactamente assim que o queria naquele momento: furioso. Logo que chegou deitou-se de bruços sobre o colo dele e esperou pela primeira palmada. Esta, tal como ela previra, não foi meiga. Nem foram meigas as que se lhe seguiram; cada uma detonava no apartamento como um tiro, e se não fossem as paredes grossíssimas do edifício os vizinhos teriam motivos para ficar intrigados.

Logo aos primeiros golpes Teresa ficou a saber que Gustavo sabia bem castigar uma mulher. Dominada pela dor, mal conseguia estar atenta ao sinal de que estava à espera; mas finalmente sentiu o pénis do amante a enrijar e a erguer-se, obrigando-a a ajeitar-se para criar uma abertura entre o corpo dela e o dele de modo a acomodar esta erecção. As palmadas dadas por um Gustavo excitado não eram mais suaves do que as que lhe tinha dado o Gustavo furioso de minutos antes, mas eram mais espaçadas, mais dirigidas a zonas específicas. A dor, quase intolerável, levava-a a gemer, ou mesmo a soltar um pequeno grito de vez em quando. De que cor teria agora as nádegas? De um vermelho tão escuro como o que tinha pedido? Não sabia, mas o ritmo regular das pancadas indicava que o castigo estava para durar.

Quando ele parou, Teresa ouviu-lhe a respiração arfante e sentiu as pingas de suor que caíam sobre ela. Estava cansado. Mas em vez de terminar o castigo, passou a utilizar a mão esquerda – o que tornaria as palmadas menos dolorosas para Teresa se não tivesse as nádegas já tão sensíveis. Ouviu-o arfar cada vez mais alto, sentiu-lhe o suor cada vez mais abundante, mas mesmo assim as palmadas não pararam durante muito tempo. Teresa já tinha sofrido castigos mais dolorosos do que este, mas todos eles tinham sido aplicados com chicotes ou outros instrumentos. Nunca imaginara que um castigo aplicado com a mão pudesse ser tão severo.

Enfim, uma pausa. Ouviu, vinda lá de cima, a voz rouca, e ainda um pouco zangada, do amante:

– Já chega?

Ai chegava, chegava! E de que maneira! Tinha as nádegas em fogo, e parecia-lhe que não seria capaz de suportar nem o toque duma pena. Mas em vez de responder “sim”, arranjou força e ousadia para dizer:

– Tu é que sabes, meu Senhor.

A estas palavras, Gustavo mudou de novo para a mão direita e assentou-lhe uma série de palmadas que foram com toda a certeza as mais fortes dessa noite. Quantas? Seis, dez, doze; Teresa, perdida de dor, não pôde contá-las. Por fim levantou-se bruscamente da cadeira, sem cuidar que a atirava ao chão. Inclinou-se para lhe pegar por um pulso e puxou-a para a cama, obrigando-a a segui-lo meio a correr, meio aos tropeções. Ao aterrar de costas, Teresa sentiu a dor provocada pelo contacto entre os lençóis e a sua pele dorida. Mas mal teve tempo para soltar um ai, porque Gustavo já a penetrava duma estocada só, fazendo-a estremecer toda com o embate dos corpos. As estocadas seguintes não foram menos rudes, mas ela já não lhe sentiu a rudeza, nem a dor das nádegas doridas a embater na cama, porque desde a primeira penetração foi avassalada por uma sucessão de orgasmos, ou por um só orgasmo interminável, que lhe obliteraram qualquer vestígio de dor.

Gustavo, por seu lado, ao penetrar Teresa, já não estava movido por qualquer vestígio de cólera, mas sim por um puro, inocente desejo, por uma exultação avassaladora. O fogo em que ardia fogo que tinha-o purificado, pelo menos por agora, de toda a vergonha, de toda a culpa e de toda a ira. Dominou-se para prolongar o prazer, mas não tentou dominar o vigor nem a amplitude dos seus movimentos sobre o corpo receptivo da fêmea.

Depois de tudo terminar deixaram-se ficar, fazendo travesseiro e colchão do corpo um do outro. Quando por fim olharam de novo para o rosto um do outro, Teresa sorriu para Gustavo e disse:

– Hmmm… Meu Senhor, se soubesses como eu estava a precisar duma coisa assim…

Gustavo devolveu-lhe o sorriso:

– Eu também, podes ter a certeza.

Teresa deu-lhe uma sapatada de brincadeira:

– Ah, sim?! Andavas precisado, era? E deste conta do que me fizeste?

Ricardo encolheu os ombros:

– As palmadas? Claro que me dei conta. Ficaste com o rabo da cor daquele Barolo que bebemos ao jantar… Aliás, mais daqui a bocado tenciono inspeccioná-lo para ver se já está na cor certa ou se ainda é preciso ajustá-la.

Desta vez Teresa deu-lhe um murro:

– Não estou a falar das palmadas, estúpido! Estou a falar da maneira perfeitamente desaustinada como me possuíste a seguir. Amanhã nem sei se vou conseguir andar. Ou então vou andar por aí de pernas abertas… Achas isto bem?!

– Oops! – fez Gustavo.

– Deixa lá – disse Teresa. – Como já te disse, era disso que estava precisada.

Depois de um breve silêncio Gustavo recomeçou a conversa:

– Só não entendo uma coisa. Disseste-me várias vezes que a dor física não te excita nem te dá prazer…

– E é verdade.

– Mas quando eu te penetrei depois daquela tareia estavas tão excitada que começaste logo a vir-te. Afinal as palmadas excitaram-te ou não?

Teresa suspirou e ficou um momento a ordenar as ideias.

– Olha, Gustavo – disse por fim. – Se aquelas palmadas me tivessem sido dadas por um homem a quem eu não amasse, não me teriam dado prazer nenhum. Sei disto por experiência. Se me tivessem sido dadas para me forçar a uma submissão indesejada, não me teriam provocado outra coisa que não fosse revolta. Entendes isto?

– Claro que entendo.

– O meu prazer não esteve em ser castigada. Esteve em poder ser castigada. Esteve em tu teres esse direito. Nunca mais te pedirei um castigo como te pedi hoje, mas aceitarei sempre com gratidão todos os que me deres, por mais severos que sejam. Não me interessa que mos dês por eu os ter merecido, ou que mos dês porque te dá prazer. Em todo o caso dar-mos-ás porque tens esse direito. É isto que precisas de saber.

– E achas que ainda não sei?

– Não acho, tenho a certeza: ainda não o sabes suficientemente. Mas hoje fizemos progressos: o teu corpo, ao menos, já sabe muito bem que sou propriedade tua.

Estas palavras, disse-as Teresa já num bocejo. Gustavo ia responder-lhe, mas viu que não valia a pena: ela já estava a dormir. Levantou-se da cama, pegou nas roupas que tinha lançado ao chão, cobriu com elas a amante, deitou-se ao lado dela e adormeceu por sua vez.

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