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Posts Tagged ‘nudismo’

Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas […].

Camilo Pessanha

[…] J’eusse aimé vivre auprès d’une jeune géante[…];
Parcourir à loisir ses magnifiques formes;

Ramper sur le versant de ses genoux énormes,

Et parfois en été, quand les soleils malsains,

Lasse, la font s’étendre à travers la campagne,

Dormir nonchalamment à l’ombre de ses seins,

Comme un hameau paisible au pied d’une montagne.

Baudelaire

Circe surgiu no apartamento de Mariana em resposta a um anúncio: “Artista (f) procura modelo feminino. Não precisa de ser magra nem jovem. Deverá ser capaz de posar nua, em posições incómodas e por períodos prolongados. Belezas menos convencionais serão especialmente bem-vindas.”

O anúncio, em francês e holandês, apareceu durante três dias no jornal de maior circulação de Brugges; e um igual esteve afixado durante uma semana no supermercado onde Mariana fazia as suas compras. Mas durante muito tempo as respostas que houve vieram de mulheres e raparigas tão feias e tristes, ou pior, tão banalmente bonitas, que Mariana quase desanimou. Um dia finalmente, à hora de jantar, quando já começava a acreditar que não existia em toda a região uma figura de mulher que lhe interessasse, encontrou o que procurava.

Primeiro foi uma voz ao telefone, mais uma numa longa série. Mas se por uma voz se pode tirar uma aparência, a desta mulher devia ser notável. Era uma voz grave como a de um homem, mas feminina na cor e na textura: uma voz de veludo negro. Se Mariana fosse desafiada a explicar como é que uma voz pode ter cor, não saberia fazê-lo; mas insistiria em que esta a tinha claramente. E de resto: se no rigor abstracto da óptica o negro é ausência de cor, na concreta materialidade dos pigmentos ele pode ser, pelo contrário, a sua saturação extrema: de modo que bastará a mais ligeira diluição para que um pó aparentemente negro se revele no seu verdadeiro azul, carmim, castanho, roxo.

Era assim o negro desta voz. Mariana pôs-se a imaginar como seria a sua possuidora, e a imagem que se lhe formou na mente foi a duma Madona de Murillo, leitosa e túrgida, com longos cabelos negros apartados ao meio. Mas menos meiga e menos doce: a voz era acariciante e carinhosa, mas também havia nela autoridade. Uma enfermeira, talvez, ou uma professora, experiente e segura de si, competente a gerir emoções e a domar rebeldias.

Mas na manhã seguinte quem se lhe apresentou à porta foi uma negra enorme, com quase dois metros de altura, ombros massivos e ancas que ameaçavam não caber nos umbrais. Estava toda vestida de azul-escuro: os tons eram vários, mas todos opacos, alguns quase negros; e em todos os tecidos a pureza do azul era quebrada por um leve matiz de poeira, como se o próprio deserto se tivesse misturado nas tintas de os tingir. As roupas ocultavam-lhe as formas do corpo: véus e écharpes, um turbante, um caftan, numa profusão de panos artesanais que só lhe deixavam ver a face, as mãos, e os pés calçados de sandálias. A pele era dum negro perfeito, com reflexos azulados, e mal contrastava, a não ser pela textura luzidia, com a escuridão das roupas. Não trazia jóias nem outros enfeites, e não sorriu ao cumprimentar Mariana. No todo sombrio só se diferençavam os olhos enormes e luminosos, com pupilas de um castanho dourado.

Bonjour. Je m’apelle Circe, et je viens pour l’annonce.

Seja qual for a língua que de momento falamos, o nosso nome dizemo-lo quase sempre com a pronúncia da nossa: Circe pronunciou o dela em português e Mariana respondeu-lhe na mesma língua.

– Bom dia, faça favor de entrar.

Para passar a soleira da porta Circe baixou um pouco a cabeça, embora não tivesse necessidade de o fazer. Com ela em pé lá dentro a sala parecia mais pequena; Mariana, meio maravilhada, e consciente do contraste que a sua pequena estatura fazia com a da visitante, apressou-se a convidá-la a sentar-se no sofá. Este era um móvel sólido e espaçoso, capaz de acolher nas suas funduras qualquer corpo humano, por grande que fosse; e a sala pareceu que recuperava as suas dimensões habituais.

Mas depressa se tornou evidente que Mariana e Circe tinham mais em comum do que as suas diferenças físicas fariam supor. No falar eram ambas calmas, comedidas, e nos modos mostravam uma reserva benevolente que contribuiu, mais do que o teria feito uma loquacidade indiscriminada, para que depressa se sentissem à vontade uma com a outra. Quando Mariana lhe mostrou os seus quadros os comentários da jovem foram pertinentes e sem elogios excessivos. Tratava-se de alguém com gosto e cultura, o que agradou a Mariana.

Circe falava português sem qualquer sotaque que Mariana pudesse identificar: nem sotaque africano, nem brasileiro, nem de qualquer região de Portugal, nem ainda qualquer dos sotaques que uma longa permanência no estrangeiro faz adquirir. Pela fala, portanto, não era possível determinar-lhe a origem. Nem pela aparência: passada a surpresa inicial Mariana começou a reparar que excepto pela cor a sua gigantesca visitante não tinha traços de africana; nem de índia, ou indiana, ou melanésia, ou aborígene australiana. Na forma da cabeça, na ossatura da face, fazia antes lembrar uma gitana andaluz, ou talvez, pensou Mariana, uma actriz italiana do pós-guerra: Sofia Loren, Claudia Cardinale.

Enquanto se observavam reciprocamente, as duas mulheres tomaram chá, conversaram, falaram de horários e de remunerações; e no momento de decidir foi a própria jovem que disse, com a naturalidade de alguém a quem a profissão de modelo não é estranha:

– Quer que me ponha nua?

Agora, sem os panos de Tuaregue que a escondiam, a sua compleição era mais obviamente europeia: um corpo mítico de valquíria. Não era gorda, mas sim apenas a versão em ponto grande de uma bela jovem saudável e em forma. Os pulsos, que seriam robustos numa pessoa de estatura normal, eram delicados em proporção com o seu corpo gigantesco; os dedos eram longos e finos; o pescoço gracioso. Tinha a cinta alta, o tórax curto; e não tinha os calcanhares salientes duma africana. Todo este conjunto assentava firmemente em dois grandes pés de tipo grego, redondos e grossos como os duma lavradeira mas bonitos e bem proporcionados.

Mas nenhuma deusa escandinava ou grega, ragazza romana ou camponesa ibérica, ou mesmo cigana andaluz, poderia, por mais sol que tivesse apanhado ao longo da vida, ter a pele de um negro tão carregado. Que um corpo tão caucasiano na estrutura estivesse revestido por uma pele tão retintamente africana era sem dúvida motivo de espanto; e Mariana teve de se esforçar por compreender porque é que encontrava nele qualquer coisa de familiar. Por fim lembrou-se das formas idealizadas das estátuas gregas: Vénus de Milo, Vénus de Cirene, todas as deusas nuas do Louvre: bastava imaginá-las esculpidas em basalto negro em vez de mármore branco para reconhecer em Circe as suas formas.

Mais espantoso, porque sem relação com nada que Mariana alguma vez tivesse conhecido, era o volume deste corpo, sustentado na sua postura erecta por uma larga, sólida ossatura. Os braços, as pernas, o tronco deixavam entrever as formas dos bíceps, deltóides, peitorais maiores e menores, abdominais, glúteos, trapézios, toda uma pletora de formas e relevos que se lhe moviam e deslizavam por baixo da superfície do corpo como se cada um tivesse a sua vida própria. As nádegas eram firmes e imponentes: por baixo da pele era possível adivinhar a disposição dos músculos, como num mapa anatómico, apenas velados por uma fina camada de gordura subcutânea. A cintura varonil parecia estreita em contraste com as ancas e os ombros; os seios generosos eram nela pequenos; e as sandálias, quando as tirou, ficaram em evidência no vestíbulo, vastas, sólidas, conspícuas, impossíveis de arrumar num canto como os discretos sapatinhos de Mariana.

De onde poderia ter vindo este ser prodigioso? Dias mais tarde, quando Mariana finalmente se atreveu a perguntar-lho, a resposta foi: – Do Egipto, nasci no Egipto, mas levaram-me de lá ainda menina.

Depois vivera em Portugal, perto de Coimbra, e já nem sequer falava árabe. Mariana conhecia bem Coimbra, e não se lembrava de alguma vez ter visto mencionar uma figura como a de Circe, que dificilmente passaria despercebida numa cidade tão pequena. E não queria que um ser assim pudesse ter vindo prosaicamente de Coimbra, ou mesmo do Cairo: só podia ter vindo doutra dimensão, doutra galáxia, duma civilização mais forte e mais justa do que a nossa; ou então, por meio de uma qualquer máquina do tempo, do futuro distante; ou ainda do passado longínquo, de quando as raças humanas ainda não se tinham separado e sobre a terra caminhavam gigantes.

Começou a desenhá-la logo no primeiro dia, a pintá-la em todas as posições, nua ou vestida, sentada, deitada, de pé, com os braços erguidos de modo a realçar a musculatura das costas e dos ombros; ou então em posições contorcidas, esforçadas, a ponto de as formas representadas no papel ou na tela se tornarem dificilmente reconhecíveis como partes dum corpo humano e assumirem os traços duma paisagem fantástica. Tudo isto Circe aceitava com uma paciência infinita, como se o movimento e a imobilidade, o conforto e o desconforto, lhe fossem iguais. Nunca falava, a menos que para comunicar uma informação necessária; e tudo o que dizia era claro, articulado e directo, o sim sim, o não não, cada conclusão extraída das premissas sem relutância nem esforço. Nos intervalos da pose vestia o caftan azul, e punha-se por vezes a arrumar a casa, com uma economia de movimentos que transfigurava a lida doméstica numa serena coreografia. Mariana limpava os pincéis, punha em ordem os crayons, os boiões, os tubos de tinta, e punha música a tocar; e entretanto Circe dava a volta à casa, cuidadosa e interessada, arrumando, ajeitando, limpando. Quando falava era para dizer “estas janelas já estão outra vez a precisar de ser limpas ” ou “não sei de onde vem tanto cotão”; e ao fazer estas observações práticas a sua voz grave tornava-se ainda mais macia.

Em breve Mariana viu tanta ordem na sua mansarda boémia como a que reinava na sua casa em Lisboa; e embora não tivesse a certeza que este estado de coisas lhe agradasse totalmente, gostava de ser assim mimada, de não ter que lavar sempre a louça, limpar tantas vezes o chão, a casa de banho, as janelas. E de resto toda esta actividade deu-lhe assunto para uma série de quadros que mais tarde veio a ter grande êxito: Circe com os braços esticados, prendendo as cortinas nas sanefas; ou curvada sobre a vassoura; ou sentada no chão com as pernas cruzadas, pregando um botão.

Mariana sentia-se grata pela ajuda mas constrangida. Por fim foi a jovem ela própria quem formalizou a situação:

– Eu podia fazer-lhe as limpezas, se a senhora quisesse.

E não era preciso que Mariana lhe pagasse muito; já ganhava bem a posar para os quadros.

Mariana nunca teria ousado fazer ela própria esta proposta, e sentiu-se aliviada. Mas depressa se viu que os horários de Circe como empregada doméstica e modelo nem sempre eram compatíveis. Nem de resto as prioridades das duas: Mariana tendia a sacrificar as tarefas domésticas à pintura, enquanto que Circe não tolerava deixar sequer um prato a escorrer no lava-loiça.

Até que uma manhã quem apareceu a Mariana foi, não uma, mas duas jovens gigantes.

– Esta é a minha irmã. Chama-se Atena e vem-me ajudar.

E acrescentou, desnecessariamente:

– Ela e eu somos gémeas.

Dizer que Mariana ficou surpreendida seria dizer pouco. Sabia que Circe tinha uma irmã; mas não imaginara que fossem gémeas idênticas, e ao ver ali em duplicado, no patamar estreito dum prédio citadino, uma figura que mesmo no singular era suficientemente vasta para não passar despercebida nas amplidões do Valhalla, sentiu que algo de fundamental se alterava na sua noção do possível.

Atena. Circe e Atena. Os olhos garços da recém-chegada tinham um tom mais acinzentado do que os da irmã, mas esta foi a única diferença entre elas de que Mariana se pôde aperceber naquele momento. Ao princípio a função de Atena consistia em ocupar-se ocasionalmente da casa quando a irmã estava demasiado ocupada com o seu dever principal, mas com o tempo as funções das duas foram-se tornando intermutáveis. Não foi pedido a Mariana que pagasse a Atena, nem ela se ofereceu para o fazer. A sua combinação era com Circe, a quem afinal pagava dois salários; e Circe por sua vez combinava com a irmã a divisão do dinheiro e do trabalho. O sistema era vantajoso para todas: Mariana nunca sabia de antemão qual das duas irmãs lhe ia comparecer no apartamento, ou se iam comparecer as duas, mas sabia que podia contar sempre pelo menos com uma. O cozinhar reservava-o Mariana quase sempre para si própria, especialmente quando o amante a visitava: preparar-lhe o comer, servir-lho à mesa, eram prazeres a que não renunciava.

Poucos dias depois de ser apresentada a Victor, Circe chegou ao apartamento com uma muda de roupa num saco e fechou-se imediatamente no quarto de banho. Quando saiu vinha completamente transformada: o vestido, num xadrez miúdo cor de salmão e branco, ficava-lhe dois centímetros abaixo do joelho, e era rematado no pescoço por um colarinho branco de pontas redondas. Branco era também o avental, com duas alças largas que se cruzavam nas costas. Nos pés, umas alpergatas de pano-cru. Era até ao último pormenor um uniforme de empregada doméstica numa casa portuguesa. Mariana admirou-se que Circe o tivesse encontrado numa loja de Brugges, e à sua medida.

No dia seguinte foi a vez de Atena vir fardada. Sem dizer nada a Mariana tinham adquirido ou confeccionado uma colecção de uniformes, iguais em tudo menos nas cores do xadrez: cor-de-rosa e branco, beije e branco, amarelo e branco, azul claro e branco. Quando uma se vestia assim a outra conservava os seus panejamentos sombrios; e era sempre esta que se despia para servir de modelo a Mariana.

Os papéis desempenhados estavam assim claros: num canto do palco o modelo, noutro a criada. Mas porque se haviam elas de dar a tanto trabalho e despesa? Só para definir os seus papéis? Em Lisboa as empregadas de Marta nunca tinham usado uniforme. E agora eram precisamente estas duas, estas deusas ou feiticeiras surgidas das brumas, que pelas suas próprias razões se vestiam como duas criadinhas de Cascais ou do Restelo.

O que tornava o disfarce inverosímil, porém, era a sua escala massiva: e comparando uma no seu uniforme doméstico com a outra nos seus panos exóticos ninguém podia deixar de ver na primeira a figura mais incongruente.

Quanto à intenção deste jogo, tinha alguma coisa a ver com Victor, ou melhor, com Mariana e Victor. Por alguma razão os uniformes tinham aparecido logo a seguir à primeira visita deste. Em breve se tornou aparente que as duas irmãs estavam na disposição de permanecer no apartamento, a desempenhar as suas tarefas, mesmo na presença do amante de Mariana: como se se tivessem apercebido duma vontade desta de lhe oferecer à chegada todo um teatro feminino em que o cenário, a iluminação e o guarda-roupa se encontrassem ao serviço de um mesmo encantamento.

Mariana não sabia se queria ou não oferecer a Victor este teatro, mas intuía que o amor, no seu luxo maior, na sua mais elaborada tradição, requer criadas, ajudantes, intendentes, se não mesmo pajens e eunucos; e era claramente este papel que Circe e Atena tinham reservado para si próprias. De discreta, a sua presença foi-se transformando em tutelar, como se tivessem assumido como seu encargo particular o favorecimento dos amores a que assistiam. De resto era sempre possível deixar os amantes sozinhos no quarto ou na sala, que tinham boas e sólidas portas de carvalho, e procurar que fazer noutra parte da casa. Deste modo podiam reaparecer no momento oportuno com um sumo de frutos, um copo de água, uma chávena de chá: luxos orientais para quem descansa de refregas amorosas.

Numa destas ocasiões Circe entrou no quarto, silenciosa e descalça, quando os dois amantes repousavam nus depois do amor. Estava calor, e não queriam sobre o corpo nem o peso dum lençol. Circe pousou o tabuleiro, pegou num leque que Mariana tinha posto na parede como decoração, sentou-se sobre os calcanhares junto da cama e começou refrescá-los suavemente, entoando baixinho uma cantilena que podia ser de embalar ou de outra coisa. Sonolentos, os amantes não eram capazes de distinguir as palavras, só de sentir a frescura do ar sobre a pele nua como mais uma carícia.. E foi assim que recomeçaram a acariciar-se, uns minutos ou talvez uma hora mais tarde, sem se importarem com a presença da jovem, tão silenciosa, tão discreta.

Nesse ano, em meados de Maio, Victor fez a Mariana uma visita prolongada. Tão prolongada, desta vez, que não sentiram a necessidade de dedicar cada minuto a abraçar-se, a beijar-se, a fazer amor, num frenesim que mal deixa de ser o da chegada já é o da despedida; tiveram tempo de passear, de ir às compras e aos espectáculos, de caminhar ao longo dos canais. E tiveram tempo, para deleite de ambos, de fazer a sua vida quotidiana na presença um do outro. Sentado ao computador, com os óculos de ver ao perto empoleirados na ponta do nariz, um monte de fichas em cima da secretária, Victor escrevia; e perto dele, diante dum cavalete, enfiada numa decrépita sweat-shirt, Mariana desenhava ou pintava. Durante longos minutos não falavam; e quando algum deles saía da sua concentração era para encontrar o olhar do outro e trocar com ele um sorriso de perfeito contentamento.

O único embaraço, e ainda assim momentâneo, neste idílio resultou de Mariana estar por esta altura a trabalhar num quadro de Circe. Neste quadro, um nu de grande formato, a jovem aparecia reclinada, de frente para o espectador, usando apenas o seu turbante azul, e Mariana não se sentia no direito de lhe pedir que posasse nua na presença de Victor.

A própria Circe resolveu este dilema ao dizer que naquela semana Atena estava sem nada que fazer e podia vir arrumar a casa, que já estava a precisar.

– E entretanto, se o senhor não se importar que eu me ponha nua, eu e a senhora podíamos continuar com o quadro do turbante.

Quando chegou o momento de Circe se estender no divã, Victor mostrou-se circunspecto, mas não desdenhoso ou indiferente, perante a sua magnífica nudez; e passado um olhar admirativo inicial continuou a trabalhar com a mesma concentração. Mariana ainda experimentou um certo escrúpulo, misturado com uma réstia de ciúme; mas estes sentimentos depressa se dissiparam à medida que o trabalho se ia tornando mais absorvente. E Atena, nas suas alpergatas silenciosas, entrando e saindo do atelier com chávenas de café, contribuía para o ar de normalidade de toda a cena dando-lhe um ar de domesticidade confortável.

Assim se foi estabelecendo, a pouco e pouco, uma convivência a quatro. Discretas, silenciosas, hieráticas, as duas irmãs foram participando cada vez mais na intimidade dos dois amantes: duas sombras enormes e benévolas que pareciam protegê-los, ao mesmo título que as paredes e as cortinas, do frio exterior e do olhar dos vizinhos.

A única pequena modificação nesta rotina veio a dar-se quando as raparigas se aperceberam da verdadeira natureza da relação entre Mariana e Victor. Um ou outro beijo dela na mão dele, nem sempre tão discreto que passasse despercebido; um circunspecto ajoelhar, uma secreta deferência no servir das refeições; um murmúrio apenas audível, meu senhor, meu dono; tudo isto junto teve para as gémeas um significado que não as escandalizou nem repeliu; e por sinais igualmente subtis tiveram artes de exprimir a sua aprovação.

Menos discretas eram as saias rodadas de Mariana, os pés descalços, a bijutaria profusa e os decotes extremos que punha para receber o amante; e nestas ocasiões Circe e Atena habituaram-se a ficar também elas descalças, uma no seu uniforme de criada, a outra nos seus panejamentos azulados; não em deferência a ele, mas a Mariana, a quem serviam.

No princípio desse Verão choveu muito em Brugges, e esteve frio e nevoeiro. Para as férias Mariana tinha arrendado uma casa no Algarve, e mal podia esperar pelo dia em que caminharia com Victor sob o sol escaldante, respirando um ar perfumado e seco, vibrante com o zumbir dos insectos. Também Circe e a irmã estavam fartas do frio e da humidade, e ofereceram-se para os acompanhar. A casa arrendada era espaçosa; e com as gémeas a assegurar as tarefas domésticas os dois amantes sempre teriam as compras feitas e a comida pronta quando chegassem da praia. Além disso Mariana continuaria a dispor de um modelo, o que permitiria prolongar as férias por um mês ou mais; e depois de um ano sob os céus cinzentos da Flandres estavam todos a precisar dumas longas férias ao sol.

A casa tinha-a Mariana arrendado a um amigo, um pintor de origem algarvia que a herdara dos pais. Era uma casa antiga, tradicional, caiada de branco com uma faixa azul na parte de baixo. A toda a volta cresciam alfarrobeiras, e a partir do meio-dia um enorme pinheiro manso projectava no pátio a sua sombra densa. Neste pátio, protegido por uma densa sebe de olhares estranhos, Victor e Mariana recuperaram o seu gosto antigo de fazer amor ao ar livre. Um carreiro dava acesso à praia: e a mesma praia servia uma urbanização de luxo. Algumas famílias, particularmente se tinham crianças, levavam as criadas em uniforme completo para a areia, onde lhes era permitido tirar os sapatos e sentar-se debaixo do guarda-sol. As patroas mais liberais permitiam-lhes mesmo que se pusessem em fato de banho, mas só ao fim de uma hora ou duas de permanência: tempo suficiente para não haver engano quanto aos estatutos sociais.

Passado o primeiro dia também Circe e Atena começaram a ir para a praia vestidas de criadas. Se este quase disfarce tinha como objectivo exprimir um comentário irónico aos hábitos locais, conseguia-o perfeitamente: o efeito que as jovens produziam, pela estatura, pela cor da pele, pela altivez do porte, era o exacto oposto do apagamento imposto às outras criadas. E ao circularem pelos acessos à praia, descalças, à vontade; ao pisarem com firmeza e displicência, com os seus vastos pés de virgens guerreiras, os pavimentos do condomínio e o carreiro pedregoso do acesso, exibiam mais desenvoltura do que geralmente se admite em serviçais.

Mas o objectivo maior do traje era outro, mais subtil mas igualmente conseguido: criar um pano de fundo para a história de Mariana. Por isso se encarregaram de lhe meter nas malas, além dos vestidos de Verão e das saias rodadas que gostava de usar à beira-mar, um guarda-roupa em tudo semelhante ao de Circe no primeiro encontro; e foram estas as roupas de Tuaregue que ela acabou por usar quase sempre durante o tempo que duraram as férias.

Quem as observasse às três – Mariana muito pequena, muito morena, com os olhos muito brilhantes a espreitar da fundura dos véus; e um pouco atrás dela, flanqueando-a como duas guarda-costas disfarçadas, duas negras, silenciosas e enormes – pensaria talvez numa princesa árabe ou milionária levantina, rigorosamente vigiada, em férias no Ocidente. Mas esta fantasia era desmentida assim que Mariana tirava os panejamentos azuis que a cobriam como um tchador e surgia num diminuto bikini amarelo ou branco, muitas vezes sem a parte de cima, num impudor de europeia emancipada. E havia Victor, com os seus cabelos e olhos claros, sorrindo-lhe, atencioso e cúmplice, trocando com ela comentários e carícias. A este ninguém o tomaria por árabe, arménio, libanês ou egípcio.

Quanto aos homens que frequentavam a praia, não tinham olhos senão para as jovenzinhas felinas e bronzeadas que por vezes paravam junto deles: filhas, sobrinhas, amigas, namoradas de luxo, segundas ou terceiras esposas. Mariana e Victor não lhes interessavam; nem, passado o frisson inicial, Circe e Atena, que embora atraentes eram demasiado exóticas para serem apresentáveis no universo provinciano das elites portuguesas.

Os dois amantes chegavam sempre cedo à praia. Com eles vinham as gémeas, carregando sem esforço aparente os dois guarda-sóis, o tapa-vento, o saco com as toalhas, os protectores solares, a espreguiçadeira de lona para Victor se estender a ler. Tiradas as roupas, Victor ficava com uns calções de praia aos quadrados, Mariana com o seu bikini, e as raparigas com uns grandes fatos de banho pretos e baços, muito subidos no peito e nas costas, que conjuntamente com o negro da pele pareciam absorver a luminosidade do dia.

Por volta das dez e meia, quando começava a haver gente demais, Mariana e Victor pegavam nas toalhas e no guarda-sol mais pequeno e começavam a caminhar ao longo da praia, que naquela zona tinha vários quilómetros de extensão. Passadas poucas dezenas de metros a multidão começava a ser mais esparsa; e, passada mais uma aglomeração ou duas de banhistas, a praia ficava suficientemente deserta para que nela não houvesse outras pegadas além das dos quatro, e das várias espécies de aves que a visitavam vindas da laguna próxima.

Uma vez seguiram por mais de um quilómetro um grupo de aves que corriam ao longo da praia, ao rés da salsugem, levantando voo para aterrar mais adiante quando os humanos se aproximavam demais ou quando uma onda se lhes atravessava no caminho.

Assim que Mariana e Victor se viam sós armavam o guarda-sol, despiam-se completamente e entravam na água de mãos dadas. Assim, nus, o mar parecia-lhes mais quente e acolhedor do que quando eram obrigados a usar fato de banho; e uma réstia de frio que tivessem dissipavam-na num abraço.

Entretanto Circe e Atena voltavam a casa, recolhiam no caminho o outro guarda-sol, punham sanduíches e bebidas numa geleira e regressavam, nos seus uniformes claros, para junto de Mariana e Victor. A atenção que despertavam não parecia afectá-las: carregadas, possantes, impassíveis, seguiam serenamente o rasto dos patrões. Chegadas ao seu destino montavam o guarda-sol maior e o tapa-vento, punham a geleira à sombra, armavam a cadeira de lona e despiam-se calmamente, dobrando e guardando cada peça de roupa à medida que a tiravam. Depois entravam no mar sem a mínima jóia ou enfeite, ou qualquer apontamento de cor: só com os seus fatos de banho negros.

Nestes primeiros dias Mariana e Victor vestiam também os fatos de banho quando saíam da água. Mas voltar a vestir-se, depois de se ter estado gloriosamente nu nas águas castas do mar, é uma humilhação e uma indecência; e nos dias seguintes, à medida que os dois amantes foram adiando cada vez mais o momento de se cobrirem, também Circe e Atena foram fazendo menos questão de baixar os olhos perante a sua nudez.

Foi talvez este à-vontade que tornou possível a ordem que Victor deu uma vez a Circe, no pátio onde tinham acabado de jantar: que rapasse os pelos púbicos de Mariana. Mariana, que não tinha sido consultada, esboçou um pequeno gesto de recusa, ou talvez de surpresa, mas quando a criada trouxe a tesoura, uma gilette nova, o gel de barbear de Victor e o bálsamo hidratante estendeu-se obedientemente de costas sobre a mesa, que Atena tinha coberto com uma toalha de banho lavada.

Primeiro manteve as pernas juntas enquanto Circe desbastava o grosso dos pelos, que em Mariana eram esparsos de natureza. Depois teve que as abrir para que a tesoura lhe aparasse os pelos à volta da vagina e do ânus. E por fim, quando chegou a altura de aplicar o gel de barbear, teve que se escanchar toda, os joelhos contra os seios, como nunca até aí fizera na presença duma mulher.

Atena trouxera uma pequena bacia com água muito quente, uma pequena bacia de cobre, comprada em Marrocos, que até então tivera apenas fins decorativos, e algumas pequenas toalhas de pano turco que Circe começou a humedecer na água quente e a aplicar sobre a púbis de Mariana. Quando esta se habituou à temperatura e a água quente lhe começou a parecer morna, Circe espalhou-lhe o gel sobre a pele molhada da púbis, massajando-a com as pontas dos dedos em pequenos movimentos circulares até criar uma espuma branca e densa que pareceu a Mariana um pouco adstringente. Depois, cuidadosamente, esticando entre dois dedos os refegos da pele, começou a rapar-lhe os pelos, primeiro na barriga, e depois na zona mais sensível entre as coxas. Devagar, com infinito cuidado, de modo a não ferir as tenras mucosas mas também a não deixar ficar um único pelo, Circe foi passando a lâmina, repetidamente, primeiro num sentido e depois noutro, de modo a que os dedos, passando a seguir à lâmina, não sentissem a mínima aspereza. Pouco a pouco a espuma foi sendo retirada, e no fim, depois de Circe, e depois Atena, e por fim Victor terem passado a mão sobre o sexo de Mariana e declarado que estava suficientemente liso, a zona foi de novo lavada com água morna, secada com uma toalha felpuda e massajada com o bálsamo hidratante que Victor usava na cara.

A operação terminou com um beijo de Victor no sexo macio de Mariana. Só um pequeno beijo, sob o olhar impassível das gémeas. Mas depois, à noite, a sós com ela na cama, Victor deu a Mariana bem mais do que um beijo: introduziu-lhe a ponta da língua entre os lábios interiores do sexo, procurou-lhe o clítoris e fê-lo intumescer, para em seguida o sorver gulosamente juntamente com as pregas delicadas dos pequenos lábios, ou para lhe introduzir de surpresa a língua na vagina. Assim, alternando estas e outras carícias, Victor levou a sua escrava Mariana a uma série de orgasmos, tantos que ela lhes perdeu a conta, e gritou, gritou sem se importar que as gémeas ouvissem, ou que a ouvissem nas casas em redor.

No dia seguinte Mariana não sabia se se sentia humilhada ou não pela modificação que o dono tinha ordenado no seu corpo. Se era humilhação, aceitava-a de bom grado, como dizia a si mesma ser o seu dever; mas talvez não fosse humilhação, talvez fosse outra coisa de que não sabia o nome e que a deixava mais terna e mais doce diante de Victor. Num plano mais pragmático, depressa se apercebeu duma vantagem inesperada de ter o sexo rapado: a partir de agora, quando o dono a proibisse de usar calcinhas, não tinha mais que se preocupar com a maior ou menor transparência do vestido, já que não existiria a sombra da púbis para lhe denunciar a nudez. Mas um dia em que não tivesse uma acólita para lhe fazer esta toilette, como seria? Seria capaz de se rapar a si própria, talvez com o auxílio dum espelho? Ou fá-lo-ia o próprio Victor? Em todo o caso a operação teria que ser frequente, não queria o desconforto duns pelos curtos e duros entre as coxas macias.

Na praia, por fim, já que todos os quatro se tinham habituado a ver corpos dos outros, e já que os restantes frequentadores daquela parte da praia pareciam estar, tanto quanto a distância e a claridade excessiva o permitiam determinar, também eles nus, acabou por parecer mais natural despirem-se as duas jovens do que vestirem-se Mariana e Victor. Na segunda semana de férias Circe e Atena habituaram-se a já nem trazer os fatos de banho por baixo dos vestidos. Antes de se juntarem na água aos patrões ficavam as duas por uns momentos de pé a olhar para o mar, como duas estátuas de bronze no meio de um deserto.

Nuas, de tão negras, negro sobre negro os cabelos da púbis, davam à praia calcinada e plana a única sugestão de sombra; e Mariana reparava que onde o sol se lhes reflectia na pele o reflexo já não era azulado, como no Inverno em Brugges, mas cor de cobre.

Depois banhavam-se os quatro, nadavam, comiam. Mariana e Victor deitavam-se nas toalhas, ou sentavam-se, ele na cadeira, ela no chão aos pés dele, e conversavam. Circe procurava algas e moluscos que depois empregava em cozinhados de sabor estranho; e a irmã lia, olhava o horizonte, ou aplicava a Mariana o protector solar.

Ou então conversavam. Um dia Atena contou a seguinte parábola:

– Um homem estava nu na praia deserta. Tinha trazido consigo uns calções e uma toalha, mas ao chegar ao lugar que escolhera tinha-os arrumado fora de vista; e olhando à volta não via mais do que a areia, o céu, as aves, e o mesmo mar de há cinco mil anos. Nas dunas havia a vegetação própria do lugar; e debaixo da areia, sabia-o, havia vida: bivalves, crustáceos, insectos.

Tudo o que o homem desejava era ser parte deste mundo. Olhava para o seu próprio corpo e via-o feito de carne, como os corpos dos outros animais. No caminho para aquele lugar o homem tinha seguido, como Mariana e Victor, um pequeno grupo de aves que caminhavam ao longo da borda de água. As patinhas com que caminhavam eram rosadas e nuas como as mãos e os pés dos homens; e por baixo, na superfície com que pisavam a areia, estavam estriadas de linhas e rugas semelhantes.

Para o homem e para as aves a aspereza e a consistência da areia eram as mesmas; como eram as mesmas a temperatura e a salinidade da água, o brilho do sol e a velocidade do vento. E contudo quem se atreveria a dizer que o homem e as aves estavam a passar pela mesma experiência?

Os olhos com que o homem olhava para o mar eram os mesmos com que tinha lido Homero, Camões, Melville e Conrad. O coração que se lhe sobressaltava com o rugido das ondas era o mesmo que se comovera com o naufrágio de Sepúlveda. O que ele via e sentia, o que ouvia e cheirava, era inseparável dessas memórias. As negras naus de Ulisses, Sila e Caríbdis, as velas brancas do Gama, Marlon Brando no papel de Mr. Christian, amotinado contra o capitão Bligh; Eneias abandonando Dido; o Holandês Voador e a sua jura tremenda; Sandokan, o Tigre da Malásia; as palavras da mãe, não vás ao banho ainda, não fizeste a digestão; e do lado da terra: a areia, o deserto, Beau Geste, Lawrence da Arábia, o calor, a sede sofrida e narrada por gerações de viajantes – de tudo isto se faziam os sentidos com que o homem sentia a textura da areia, o sopro do vento, a frescura do mar, a queimadura do sol. Se em vez de estudioso fosse pescador ou marinheiro, mesmo assim tudo o que agora sentia estaria codificado em gírias, condicionado por disciplinas, ancorado em lembranças.

Despido de todas as roupas, separado de todos os artefactos visíveis, o homem trazia ainda dentro de si um artefacto invisível feito de símbolos, palavras e memórias, com que via, ouvia, saboreava, cheirava e tocava o mundo. Nenhum homem, concluía Atena, pode experimentar directamente a Natureza. A natureza é no homem cultura, e a cultura é no homem Natureza. Mas nem por isso o sonho de enfrentar sem protecção o sol, o vento, o mar, a sede, deixa de ser um belo e nobre sonho; e possam sempre os homens livres partilhar a nudez esplêndida dos deuses.

Nos dias seguintes a esta fábula a rotina do grupo mudou perceptivelmente: os gestos de tirar a roupa, estender-se ao sol, entrar na água, comer, beber, adquiriram um matiz cerimonial, como se tudo se fizesse em homenagem aos elementos. Tudo se tornou mais lento e moderado. A água na geleira já não precisava de estar tão fria, nem a comida de ser tão abundante. Os movimentos, especialmente os de Circe e Atena, pareciam coreografados. E quando as duas se deitavam na areia faziam-no sempre, num rito invariável, uma de cada lado dos amantes: Circe a nascente, a irmã a poente, com o tapa-vento e os guarda-sóis a completar um círculo protector.

E por vezes, ao fim da tarde, quando as carícias preguiçosas de Mariana e Victor lhes acendiam nos corpos o desejo, viravam-se as duas de costas para eles, imperscrutáveis como esfinges. E se o sol ia baixo, e não havia mais ninguém na praia; se as sombras se alongavam; se o vento tinha deixado de soprar; se ao rugido do mar, transformado em murmúrio, se juntava o canto das cícadas; então, por vezes, os amantes – sedentos de humidade, sedentos um do outro, repassados de sol e de espaço – uniam lentamente os corpos; e faziam amor à sombra de Atena.

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