Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘odalisca’

Hoje fartei-me de escrever e não correu mal, mas não se tratou de nada que sirva para publicar no blog. A jeito de compensação deixo-lhes esta imagem, de que espero que gostem:

Read Full Post »

Autor: M’Ahmed ben Chérif Effendi
Tradução: Vanderdecken

Não muito longe da cidade de Herat, capital do Afeganistão, numa rua que reflecte os raios ardentes do Sol oriental, erguem-se as abóbadas de um extenso palácio árabe, cujas torres se elevam como picos nevados até ao céu azul profundo. Um enorme portão de madeira, com arabescos exóticos formados pelas cabeças negras e redondas de pregos de ferro que atestam a antiguidade do edifício constitui a entrada principal deste palácio encantador e magnífico. Uma pesada aldraba de cobre, cuja sonora batida reverbera nos espaçosos jardins por detrás do portão, desperta, na imobilidade da paisagem adormecida pelo calor, ecos surdos que se propagam lentamente. Mas de costume ninguém aparece por detrás destes muros opacos de fortaleza antiga, por trás destas pedras carcomidas pela idade; não se distingue nenhum som para além da campainha rouca na coleira do cão de guarda. E contudo move-se e vive nesta imponente construção todo um povo, e toda a pompa do mundo, todas as subtilezas do gosto, todas as fantasias da riqueza se acumulam no interior destes muros desbotados pelo Sol.

Estamos aqui em casa de Manoubia, antiga escrava dum Paxá em Constantinopla. Esta Manoubia, uma circassiana de sessenta e cinco a setenta anos, alta, seca de carnes, exibindo ainda as marcas duma antiga dignidade e distinção, tornara-se a esposa legítima e única herdeira dos bens do Paxá, e tinha comprado este conjunto de edifícios com a finalidade de abrir um negócio de escravos.

Todos os luxos, todos os confortos tinham sido aqui reunidos para poupar os clientes à impressão desconfortável de se encontrarem em casa de uma traficante de carne humana. E quem aqui entrasse teria que acreditar que fora transportado para um Reino de Fadas, para um dos Jardins do Amor do paraíso maometano. Nisto era Manoubia uma artista, conhecia todos os segredos da voluptuosidade, e na sua morada até o gosto mais blasé se contentava. Por todo o lado estavam espalhadas poltronas e divãs que com as suas almofadas macias convidavam aos abraços mais invulgares e lascivos. Um exército de camareiras, de eunucos com pele de ébano, de jovens rapazinhos com ricas librés multicolores executava as mais variadas tarefas e enfeitava os vastos jardins, que rescendiam a flor de laranjeira e a jasmim. Nas longas galerias ladeadas de colunas e revestidas com tapetes orientais multicolores, e nas salas enormes os grossos tapetes amorteciam os passos dos atarefados serviçais.

E cada passo nesta casa misteriosa, cada nova impressão é um novo encanto que nos atrai ao êxtase de um amor verdadeiramente livre, um amor sem obstáculos nem remorsos. Tudo aqui apela ao amor, tudo convida ao amor: assim está organizado o comércio de escravas da velha Manoubia, aquela que em tempos foi a esposa de um Paxá turco…

Para compreender a história que se segue são indispensáveis algumas observações sobre a disposição dos compartimentos e sobre o género de negócios da circassiana. Quem quer que seja que queira comprar um escravo ou uma escrava encontra aqui tudo o que possa desejar; há aqui mercadorias humanas para todos os gostos e para todos os preços: raparigas e rapazes de pele branca, morena, castanha ou negra, desde crianças de colo até aos dezoito anos no caso dos rapazes ou aos vinte e cinco no caso das raparigas.

O portal de entrada conduz a um átrio imenso e daí a um dos vários jardins rodeados de muros. Neste jardim encontram-se vários espaçosos pavilhões, cada um dos quais serve um dado propósito e que estão todos separados uns dos outros. Aqui, por exemplo, está o pavilhão das virgens, cuja condição intocada é garantida ao comprador que procura um casamento legítimo. Estas jovens, que recebem todas uma educação esmerada, estão divididas em duas classes: a primeira para os clientes mais distintos, a segunda para as pessoas vulgares. As da segunda classe estão habituadas às tarefas domésticas e conhecem-nas exaustivamente; as da primeira sabem cantar, tocar instrumentos e elaborar bordados artísticos como exige o gosto oriental. Mas a circassiana possui também jovens mulheres que fisicamente ainda são virgens, mas foram contudo treinadas em todas as artes do amor e conhecem os caminhos secretos que conduzem àquela delícia celestial que mergulha todo o seu ser numa loucura voluptuosa. Dos encontros com estas artistas do amor o corpo de um homem sai quebrado e exausto, mas o espírito continua insatisfeito e exige novas sensações. Estas jovens estão destinadas aos haréns dos Senhores ricos e poderosos para serem as Huris inventivas de Paxás concupiscentes e blasés.

Estas três categorias de mulheres são apresentadas ao comprador completamente vestidas, só o rosto e as mãos aparecem livres de véus. Mas os tecidos de seda que envolvem os corpos jovens e elegantes estão dispostos de uma forma tão artificiosa que deixam adivinhar tudo o que os olhos não vêem. As jovens dos primeiros dois grupos, as destinadas ao casamento, só são apresentadas ao comprador depois de este ter sido informado de todas as suas particularidades e qualidades; no caso do terceiro grupo esta explicação tem lugar na presença da própria.

Como se vê, nada disto está de acordo com a noção que muitos ocidentais têm sobre a maneira como se desenrola o comércio de escravos. Pensa-se geralmente que este comércio tem lugar em barracões semelhantes a estábulos, onde o vício e o impudor se tornam repelentes devido à sujidade e à miséria. Em todo o caso estamos aqui a dar conta de uma negociante invulgarmente requintada que sabe excluir do seu trabalho tudo o que possa haver de repugnante e oferecer aos seus clientes a possibilidade de fazerem a sua escolha com todo o sossego, em condições agradáveis e metodicamente. O trato em casa de Manoubia decorre do modo mais cortês, e a moralidade é respeitada, em circunstâncias normais, como no seio da família mais respeitável. A boa reputação de Manoubia espalha-se assim por toda a província, e tanto os grandes Senhores como o último dos camponeses recorrem a Manoubia quando querem fundar a sua felicidade doméstica. Além disso a solicitude de Manoubia não tem limites, como de resto a sua afabilidade, e em nenhuma parte da Europa se desempenha uma actividade deste género com mais tacto e delicadeza.

Finalmente há ainda um quarto grupo a mencionar entre as mercadorias de Manoubia: jovens raparigas e rapazes que já perderam a virgindade antes de Manoubia os ter comprado num qualquer grande harém ou de lhe terem sido enviados por uma dessas negociantes internacionais de pessoas que existem em todo o mundo. Estes são apresentados nus ao cliente, que os apalpa, testa e avalia, um pouco como se se tratasse de um negócio de cavalos.

E para fechar o último e mais numeroso grupo das habitantes da casa: estas são as prostitutas da casa, cuja tarefa é satisfazer todos os desejos dos compradores que vêm de longe ou por qualquer outra razão se hospedam em casa de Manoubia. Esta categoria é constituída por mulheres e rapazes, com os quais qualquer um se pode deleitar, e com os quais todos podem entregar-se às suas paixões favoritas sem vergonha e sem hesitação. As cópulas mais exóticas, as mais anti-naturais variedades da paixão dos sentidos, tudo é permitido a quem pode pagar. Para os amantes de raridades existe mesmo um gabinete onde são apresentados vários fenómenos, como mulheres gigantes, judias argelinas de duzentos a duzentos e cinquenta quilos, uma jovem russa com três seios, um negro monstruoso cujo membro viril tem, quando erecto, nada menos que trinta e cinco centímetros de comprimento, etc…

A casa de Manoubia vêm também homens sem intenção de comprar. Pessoas que apenas querem satisfazer a sua luxúria; muitos têm prazer, por exemplo, em observar mulheres a copular com cães, outros pedem que lhes mostrem homens a ter relações com burras, etc. Uma parte da casa encontra-se mais afastada: um hospital, no qual as escravas grávidas dão à luz e onde também são admitidas jovens livres para serem cuidadas enquanto esperam o parto, e isto gratuitamente na condição que deixem a criança ao estabelecimento. Um Kadi especial vive em casa da mercadora de escravas e está sempre pronto a registar as regras a seguir por Senhor e escrava e a redigir contratos de casamento. Também estão disponíveis escolas de canto, música, prendas domésticas, dança e bordado. Mas também escolas de luxúria, pois neste lugar cada pupilo é educado de acordo com as suas tendências e o seu temperamento. Se uma jovem dá mostras, por exemplo, de ter uma natureza envergonhada e pudica, esta particularidade é reforçada e encorajada através da educação que lhe é dada, para dar ao futuro esposo o prazer acrescido de a violar. Se pelo contrário a jovem for sensual e desavergonhada, então essa falta de vergonha é desenvolvida até à mais extrema obscenidade. Umas aprendem certas danças, outras educam as suas lindas vozes, numa palavra: cada talento é aqui desenvolvido com o maior cuidado e perícia até atingir toda a sua potencialidade. A cada escravo está atribuída uma pequena tábua em que se registam todas as suas particularidades e defeitos, e estas tábuas são entregues aos compradores antes que os objectos em causa lhe sejam apresentados.

Para entreter os clientes a casa possui Bayadères da Índia, dançarinas egípcias, gueixas japonesas, cantores turcos e malabaristas e faquires do Hindustão.

E sobre tudo isto reina sozinha, como uma déspota, a dona da casa. Governa com bondade e brandura as comensais de categoria mais alta, mas é exigente e mesmo cruel em relação a todas as outras. Dirige contudo o seu pequeno mundo com uma mestria e segurança que seriam dignas de um empreendimento mais convencional.

Nota do tradutor: Não se sabe se “M’Ahmed ben Chérif Effendi” é o nome verdadeiro do autor deste romance ou se é um pseudónimo, nem se sabe em que língua ele foi escrito originalmente. A primeira versão conhecida surge em 1908, em francês, com o título “La Marchande d’Esclaves”. Por não ter acesso a esta versão, traduzi a partir da versão “Die Sklavenhändlerin und ihre Liebesopfer” publicada em alemão em 1975.

(Publicado no Blogger a 26/04/08 )

Read Full Post »

Kneeling Odalisque

Erotismo à moda do Século XIX…
……..
……..
……..
……..
……..
……..
……..
……..
……..
…..
…..
…..

Read Full Post »