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Posts Tagged ‘orgasmo’

A beleza suprema da mulher

(Publicado no Blogger a 28/11/06)

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Eram oito da noite de sexta-feira e Mariana estava a pôr a mesa para Ricardo. Só para ele, porque hoje ia servi-lo sem participar na refeição como se fosse uma criada. Quanto a ela, já tinha comido: uma salada com cubos de queijo, pão torrado e um molho à base de iogurte magro.

Ricardo, calculava Mariana, devia estar neste momento a sair do seu gabinete em Heidelberg e a fazer-se à estrada num carro alugado, para estar com ela o mais cedo possível. Ia chegar cansado e sem jantar, depois de um dia de trabalho duro e de duas ou três horas a conduzir na Autobahn.

Não valia a pena cozinhar-lhe uma ceia completa, ele ficava sempre sem apetite quando viajava. Em vez disso Mariana preparou tostas, uma tábua de queijos e uma tacinha com framboesas e abriu uma garrafa de vinho, que deixou num aparador a respirar. A seguir dispôs velas aromáticas na sala, deixou a caixa de fósforos à mão, subiu a temperatura no termóstato, ligou o dispositivo de aquecer as toalhas na casa de banho e preparou os óleos para a massagem que tencionava dar ao amante se ele não se agarrasse logo a ela e não a arrastasse para a cama.

Tomou duche antes de tomar banho, como as gueixas; lavou a cabeça, enrolou o cabelo molhado numa toalha, meteu-se na banheira com sais aromáticos, enxugou-se, amaciou o corpo com um creme perfumado, secou e escovou o cabelo.

Tinha-se depilado toda de manhã. Quando o dono lhe ordenara que fizesse isto, tinha protestado, mas agora estava a gostar de se ver lisa como uma menina impúbere.

Pintou as unhas dos pés e das mãos com a mistura de vernizes de que ele gostava: metade transparente, um quarto cor de rosa pálido, um quarto branco-pérola. Vestiu-se e maquilhou-se como ele tinha dito que queria: saia comprida e rodada em tons de terra e laranja, semi-transparente, sem calcinhas; corpo nu da cinta para cima; cinto de fantasia; bijutaria profusa nos pés, nos pulsos, no pescoço, nas orelhas e sobre o peito; um pouco de rouge, muito pouco, na cara; baton cor de framboesa nos lábios e nos mamilos. Pôs umas chinelas, para usar até ao momento em que ele tocasse à campainha de baixo: Ia recebê-lo como ele tinha mandado, com os pés nus em sinal de respeito; mas também, em sinal do mesmo respeito, com eles limpos.

Quando a campainha tocou guardou as chinelas e foi-se pôr à porta do apartamento para ele não ter que esperar no patamar. Ao sentir-lhe os passos abriu-lhe a porta; lá vinha ele, arrastando o seu velho trolley de viagem azul. Na mão esquerda trazia um ramo de rosas vermelhas atadas com um fio de ráfia: devia ter-se picado nelas ao sair do carro ou ao tocar à campainha, porque trazia um arranhão entre o polegar e o indicador que ainda ressumava perolazinhas de sangue.

Mariana franqueou-lhe a entrada, fechou a porta atrás dele e, mal lhe dando tempo a pousar o trolley, lançou-se-lhe ao pescoço. Ricardo correspondeu apaixonadamente a este beijo, atrapalhado apenas por ter só um braço livre; com o outro mantinha afastado dela o ramo das rosas, para que não a picassem. Quando ele por fim lhe entregou o ramo Mariana levou-o ao nariz, aspirou-lhe o perfume, e ajoelhou com um gesto natural e gracioso para beijar a mão do amante.

– Anda para a sala. Tens fome?

– Não tenho muita…

Mas depois de tirar o casaco e de ir à casa de banho sentou-se à mesa. Mariana, ajoelhada, pousava a cabeça nas coxas dele beijava-lhe a mão quando ele a acariciava. Só se levantou uma vez, para lhe servir o vinho. Duas tostas, dois cubos de queijo, algumas framboesas que ele ia comendo ou dando a comer à amante, e meio copo de Barolo: a isto se resumiu a refeição de Ricardo.

– Estás cansado, meu querido.

– Um pouco. Preciso de tomar um duche.

– Senta-te no sofá, eu dispo-te.

Ricardo fechou os olhos e deixou-se despir como um menino ensonado. A meio do duche Mariana foi ter com ele para acabar de o ensaboar. No fim ajudou-o a secar e levou-o de novo para a sala.

– Deita-te no sofá. Vou dar-te uma massagem para te tirar essa tensão dos ombros.

– Se fizeres isso ainda adormeço aqui mesmo e depois não te sirvo para nada – respondeu ele com um sorriso.

– Não faz mal. Deita-te. Espera, vou pôr aí uma toalha.

Mariana tirou todos os ornamentos que trazia no corpo e pôs-se nua para ter mais liberdade de movimentos. À massagem que deu ao dono com as mãos acrescentou umas carícias com os seios e com o sexo depilado que o fizeram ronronar como um gato.

– Hmmm, tão bom…

A previsão que Ricardo tinha feito de adormecer não se cumpriu completamente. Terminada a massagem rolou do sofá para cima do tapete, pôs-se de barriga para cima, fechou os olhos e estendeu os braços como uma criança a pedir mimo:

– Vem cá, minha escrava…

Mariana trepou para cima dele, montou-o e começou a acariciar-lhe o pénis ainda flácido com a vulva acetinada e húmida. Ricardo sorriu, consolado:

– Tão bom…

A erecção que tinha tido lugar intermitentemente desde que Ricardo tinha entrado em casa de Mariana não tardou a estabelecer-se de novo com renovada pujança, e Mariana empalou-se nela com um suspiro de prazer.

Começou então uma noite memorável, com Mariana a movimentar vigorosamente os quadris, para cima e para baixo, para a frente e para trás, para os lados, em círculos, e com Ricardo a erguer-se ao encontro dela, mais fundo, mais fundo.

Por vezes ela inclinava-se toda para trás para conseguir o ângulo que mais a excitava, mas o pénis dele estava tão retesado que lhe doía ao ser vergado para baixo. Então puxava-a com força para si de modo a sentir-lhe os seios contra o peito; ela soprava como um gato assanhado mas obedecia, e deixava pender a cabeça para a frente de modo a poder acariciá-lo também com os cabelos.

Ricardo sentia o orgasmo quase a chegar mas, fosse pelo cansaço que sentia, fosse por estar por baixo, ou fosse ainda pela dor que Mariana lhe provocava quando se inclinava para trás, a excitação em que estava só crescia sem se resolver num desenlace. Por vezes o cansaço dos músculos levava-o a ficar passivo enquanto Mariana dançava por cima dele, mas logo o desejo, louco, o obrigava a acelerar e ampliar as estocadas que dava na amante.

Mariana veio-se. E veio-se outra vez. E veio-se outra e outra, tantas vezes que não as pôde contar, tantas vezes que a certa altura já não tinha orgasmos separados, tinha um único orgasmo que continuava e continuava e parecia nunca mais acabar.

Por fim – depois, quando olharam para o relógio, viram que passava das quatro da manhã – Ricardo deu um urro cavernoso, e num último, prodigioso arranque esvaiu-se todo dentro dela, que arquejava «dá-me, dá-me tudo» e se veio também pela última vez nessa noite.

Nem se lavaram. Conseguiram ir os dois, aos tropeções, da sala para o quarto, onde se deitaram em cima da cama e adormeceram imediatamente. Quando acordaram tinham, ele o pénis quase em carne viva, ela a vagina em idêntico estado, e no tapete sobre o qual tinham feito amor vieram a encontrar uma pequena mancha de sangue que nunca vieram a saber se era dele ou dela.

Mariana acordou tarde e viu o amante ainda adormecido ao seu lado. Durante a noite tinham arranjado maneira de puxar o edredon para cima deles, e ainda bem porque a casa estava um pouco fria. Começou preguiçosamente a dar pequenos beijinhos na cara de Ricardo e viu como mesmo a dormir o rosto dele se adoçava num ligeiro sorriso. Depois pousou a cabeça no travesseiro e deixou-se ficar numa deliciosa indolência até o ver acordar e espreguiçar-se.

Esta visão deu-lhe vontade, como que por contágio, de se espreguiçar também e de bocejar longamente.

– Tens fome, meu querido?

– Mais que fome, estou esfaimado. Se não me dás de comer, como-te a ti.

– Então deixa-me tomar duche primeiro, depois tomas tu enquanto eu te preparo o pequeno-almoço.

Ricardo ainda fechou os olhos por uns minutos. Depois levantou-se, vestiu o roupão, calçou os chinelos de quarto e dirigiu-se para a casa de banho, de onde Mariana estava a sair embrulhada numa toalha.

Ao enxugar-se – vigorosamente, como era seu costume – reparou que lhe doía ao esfregar o pénis com a toalha, apesar de esta ser invulgarmente fofa e macia. A pele estava muito vermelha e sensível. Tinham sido horas seguidas de fricção no corpo da amante, e ainda bem que ela estava depilada e macia, porque aquele tempo todo a roçá-lo com os pelos púbicos teria sido mais do que poderia aguentar.

Quando entrou na sala de roupão e chinelas, Mariana já estava vestida, com uma saia preta pelos tornozelos e uma blusa de seda branca. A mesa estava posta e da cozinha vinha um cheiro bom de café e torradas com manteiga.

– Senta-te. Vai bebendo o sumo, que eu já te trago o resto.

À porta da cozinha estavam umas chinelas.

– Vou calçar-me. A tijoleira da cozinha está muito fria. Posso?

– Sim, hoje podes, mas só na cozinha.

Um ruído de louça e talheres a remexer, um súbito aroma a ovos fritos a a bacon, e lá vinha Mariana com um cesto enorme de torradas.

– Vai comendo enquanto estão quentes.

Sentou-se em frente ao dono para beber o sumo de laranja e depois levantou-se, com uma torrada na mão para ir de novo à cozinha. Quando regressou trazia uma travessa de ovos mexidos com bacon e salsichas, e mais torradas. Pôs música a tocar no leitor de CD’s (a sonata de violino e piano «Primavera», de Beethoven), e sentou-se a comer. Por vezes dava-lhe na boca um pedacinho de torrada, ou ele a ela. Serviu muesli misturado com iogurte de cereja, que comeu com um apetite igual ao do amante. Por fim foi à cozinha buscar o café.

– Queres mais?

– Só se for mais café.

– Então vou buscá-lo quente, não bebas esse.

Ficaram mais de meia hora à mesa, a beber café, a pegar nas mãos um do outro e a conversar de coisas sem importância. Quando viram as horas era quase uma da tarde.

– Ai… Ainda vou ter que arrumar isto tudo…

– Eu ajudo-te.

– Não, vai-te vestir.

Ricardo vestiu as suas calças de bombazina cor de mel e uma camisa de flanela aos quadrados, com uma T-shirt por baixo. Não demorou muito a vestir-se e a calçar as peúgas: ainda teve tempo de arrumar a sala e o quarto e fazer a cama enquanto Mariana terminava de lavar a louça e limpar a cozinha.

De tarde foram passear em Brugges, ao longo dos canais. Pararam em frente ao edifício gótico da Câmara Municipal, viram as montras nas ruas centrais, fizeram algumas compras num supermercado. O Equinócio da Primavera já tinha passado, a hora tinha mudado, os dias estavam mais longos e estava sol, mas não se demoraram na rua: depois de lancharem numa confeitaria voltaram para o apartamento de Mariana, onde ficaram sentados a ouvir música e a conversar enquanto lhes apeteceu.

– Daqui a pouco vou fazer o jantar – disse Mariana, abraçando o amante e dando-lhe um beijo. – Queres tomar alguma coisa antes?

– Sim, meu amor. Tens um whisky?

– Já to vou dar. Deixa-te estar sentado.

Mas em vez de se dirigir para o armário das bebidas Mariana meteu-se no quarto, de onde emergiu uns minutos depois com um vestido que Ricardo não lhe conhecia: cintado, preso aos ombros por alças, com uma saia pelos tornozelos muito rodada, e todo às riscas verticais em vários tons de rosa. Na sua versão original devia ter um forro, mas era fácil de ver que Mariana o tinha tirado e que não trazia nada por baixo.

– Gostas do meu traje de escrava?

– Muito. Vestiste-o para me servires o whisky?

– O whisky e não só. Mas espera, primeiro vou-te calçar os chinelos.

Os chinelos de Ricardo estavam no armário da entrada. Mariana foi-os buscar, ajoelhou-se e descalçou o dono, beijando-lhe cada um dos pés depois de tirar a respectiva peúga e antes de lhe pôr o chinelo. Concluída esta tarefa pôs música no leitor de CD’s – Shepherd Moons, da cantora irlandesa Enya – trouxe um tabuleiro que enganchava no sofá, e sobre este pôs um naperon, um copo de cristal e um cinzeiro.

– Um cinzeiro? – admirou-se Ricardo

– Sim. Hoje vais fumar. E não discutas.

A seguir tirou duma gaveta um estojo de cabedal para dois charutos, uma caixa de fósforos e um aparelho de cortar as pontas, e pousou tudo no tabuleiro ao lado de Ricardo. O estojo continha dois Cohibas.

– Não tinhas mais em que gastar o teu dinheiro? – ralhou Ricardo.

Mariana riu-se, foi ao armário das bebidas, tirou uma garrafa de whisky por abrir e mostrou o rótulo ao amante

Cigar? – disse ele. – Não conhecia essa marca.

– Na loja disseram-me que era muito bom. E que era o ideal para acompanhar um bom havano.

Ricardo riu-se e preparou-se para abrir a garrafa, mas a amante deteve-o:

– Não. Tu não fazes nada. Eu sirvo.

Obediente, Ricardo recostou-se no sofá e ficou a contemplar com um olhar de ternura a sua escrava que se esforçava, ajoelhada, por abrir a garrafa. Depois de o ter conseguido deitou no copo dois dedos de whisky, cortou as pontas a um dos charutos, meteu-o na boca e acendeu-o, rolando-o entre os dedos como tinha visto o dono fazer. Ricardo viu-a sugar as bochechas para dentro para puxar o fumo, exactamente como fazia qundo lhe chupava o sexo, e com um brilho nos olhos acariciou-lhe o cabelo.

Levadas a bom termo todas estas tarefas Mariana sentou-se no chão aos pés de Ricardo e começou a contar-lhe todos os pormenores da sua mais recente exposição. De vez em quando levantava-se, animada, e ia buscar um quadro que se tinha esquecido de lhe mostar antes, ou fotografias de outros quadros, que lhe ia dispondo sobre os joelhos para ele ver. Entusiasmada, explicava-lhe as novas técnicas que tinha aprendido desde a última visita: as tintas, os betumes, os vernizes, as areias coloridas, as espátulas, os pincéis, as folhas e as bagas recolhidas no bosque e coladas na tela.

Ao esmorecer da conversa Ricardo inclinou-se para a frente, segurou-lhe o queixo e beijou-a ternamente nos lábios.

– Agora vou-te possuir, minha escrava.

– Sim…

Mariana num instante se pôs nua, o vestido saía pela cabeça e ela não trazia mais nada sobre o corpo.

– Deita-te aqui no sofá – disse Ricardo. Quando a viu deitada ajoelhou-se sobre o tapete, debruçou-se sobre ela e começou a cobri-la de beijos, começando nos ombros, subindo ao pescoço, aos olhos, às orelhas e à comissura dos lábios, e descendo aos seios. Por longos minutos não fex mais nada além de lhe lamber e chupar os mamilos enquanto lhe insinuava a mão entre as coxas. Mariana começou logo a abrir um pouco as pernas, ou melhor, as pernas abriam-se-lhe por si próprias, sem que ela sequer o notasse. Sem pressa nenhuma Ricardo foi descendo com os lábios ao longo do corpo dela, às vezes voltando para cima em direcção aos seios e ao pescoço, mas indo sempre um pouco mais abaixo de cada vez que descia. Meteu-lhe a língua no umbigo, beijou-lhe os flancos do sovaco à anca, explorando-lhe com a língua os espaços entre as costelas, e ao lamber-lhe o monte de Vénus depilado sentenciou:

– Sim, estás mesmo macia, com a língua é que se nota…

… e depois, cruelmente, começou de novo a subir-lhe pelo corpo acima.

Se a boca que Mariana tinha entre as pernas tivesse voz, teria gritado de frustração. Mas não por muito tempo, porque de repente Ricardo afastou-lhe as coxas com as mãos e beijou-lhe o sexo como se lhe beijasse a boca, para logo moderar este ímpeto e começar a procurar-lhe com os lábios e a língua todas as dobras e minúsculas refegas. A língua procurava, dardejante, o botão do amor, para logo o abandonar e tentar insinuar-se no interior da vagina ou para lamber todo o comprimento da vulva.

Quando começou a chupar-lhe o clítoris mais vigorosamente, como se o quisesse sugar e engolir, ouviu-a dizer:

– Meu senhor… Posso-me vir?…

Ricardo nunca tinha imposto a Mariana que pedisse autorização para ter orgasmo e agora ela própria, sem que ele entendesse bem porquê, inaugurava esta regra.

– Não, minha escrava, não podes.

Mas continuou a beijá-la até já não poder distinguir se os sons que ela fazia eram de prazer ou de sofrimento. Por fim, cansado, parou, e começou a percorrer com os lábios e a língua o caminho oposto ao que tinha feito antes até lhe chegar de novo à boca, que beijou, enleando a língua na dela apaixonadamente. Só então se levantou, devagar, mantendo a boca unida á dela e esperando até ao último segundo para a largar.

– Espera um pouco – disse, e dirigiu-se para o quarto.

Saiu de lá pouco depois, competemente nu, e trazia na mão uma fita vermelha que Mariana reconheceu imediatamente: era a prenda que ela lhe tinha dado por ocasião dum encontro anterior, também em Brugges.

– Dá cá as mãos.

Mariana estendeu-lhe as mãos com os pulsos cruzados. Ricardo atou-as rapidamente com uma ponta da fita, mandou-a esperar, foi ao trolley buscar a máquina fotográfica e começou a ordenar-lhe que assumisse poses: de joelhos, posternada, exibindo as marcas e as equimoses da vergasta, de pé, com os braços erguidos, mostrando os pulsos amarrados… Mariana acedia a tudo, obediente, meiga, apaixonada. Ricardo apercebeu-se nela dum estado de espírito invulgar: um dengue, uma excitação, um roçar-se por ele como que por acaso, uma intensidade, uma atenção ardente ao momento vivido…

– Não me deixaste ter orgasmo… Meu amor…

Isto disse Mariana a certa altura, baixando os olhos, num momento em acabava de se ajoelhar e mostrava à objectiva os pulsos atados. E Ricardo sentia nela, por baixo da mansidão e da obediência, o fogo larvar dum desejo que se satisfazia na insatisfação.

Quando acabou de a fotografar, não a desamarrou: mandou-a deitar de costas no tapete e amarrou a outra ponta da fita de seda ao cano do aquecimento, no ponto em que este saía do chão. Estendido sobre ela sem lhe fazer peso, voltou a beijá-la e começou a percorrer-lhe o corpo com as mãos numa carícia firme como se faz aos animais.

– Meu senhor…

– Diz.

– Vais possuir-me?

– Vou, sim, minha escrava.

– Queria pedir-te…

Ricardo apertou-lhe o seio esquerdo e chupou-lhe o mamilo antes de a encorajar a continuar:

– Querias pedir-me…

– Queria pedir-te que fosses meigo. Estou tão dorida de ontem…

Ricardo deu uma risada:

– Vou ser meigo, sim. Até porque eu também estou dorido, tenho tudo em carne viva…

Mariana já tinha as pernas abertas: Ricardo penetrou-a numa carícia longa e, sem chegar a ir até ao fundo, começou a mover dentro dela a ponta do pénis, beijando-a ao mesmo tempo profusamente nos lábios e nos seios. Com as mãos amarradas, Mariana não o conseguia abraçar, por isso o envolvia com as coxas, acariciando-lhe com os calcanhares a barriga das pernas e a parte de trás dos joelhos.

– E desta vez posso vir-me, meu senhor?

– Não, minha escrava, não podes. Ocupa-te só do meu prazer.

No gemido que Mariana soltou misturava-se um imenso lamento com um prazer novo, um prazer que ela não conhecia. Começou a mover as ancas e a tentar controlar os músculos da vagina de maneira a apertar e a chupar o sexo do amante, a dar-lhe o parzer que ele lhe exigia e ao qual tinha obviamente todo o direito, a erguer os seios de encontro ao peito dele para o acariciar brandamente, até que o sentiu acelerar os movimentos e ejacular dentro dela com um gemido que parecia, também ele, um lamento.

Admirou-se por não sentir frustração nem ressentimento por não ter gozado, mas sim uma enorme vontade de continuar a servir. «Serei na verdade assim tão fêmea e tão escrava?», pensou; e quando o dono rolou de cima dela para o chão começou a chegar-se para ele, a acariciá-lo com as pernas e com os pés, já que tinha as mãos amarradas. Todo o corpo dela era movimento, e todos os seus movimentos iam no sentido de se chegar ao dono, de o acariciar, de lhe suplicar um toque ou uma palavra. Lembrou-se de ter dito uma vez a Ricardo que ele a tinha «desligado»; pois bem, agora estava «ligada», com toda a sua energia de fêmea apaixonada a fluir-lhe no corpo e todos os sistemas a funcionar em alerta máximo.

– Desamarra-me, meu senhor…

Assim que Ricardo a desamarrou Mariana começou a fazer-lhe festas e beijá-lo por todo o corpo

– Estou tão louca… Não me deixaste ter orgasmo, e estou tão louca…

– É, estou intrigado com uma coisa… Porque é que me pediste autorização? Eu por mim era capaz de nunca me ter lembrado de to proibir– disse Ricardo..

– Não sei o que é que me deu. Disseste-me muitas vezes que uma escrava não tem direito ao prazer, se calhar foi por isso.

– Disse, e tu concordaste. Mas fizeste bem em lembrar-me … De hoje em diante tens que pedir sempre autorização.

Mariana revirou os olhos e fez uma careta, logo desmentida pela grinalda de beijos com que cobriu o peito do amante:

– Oh, não, o que é que eu fui dizer! – exclamou, numa aflição fingida. – O que pode uma pobre escrava fazer para servir o seu senhor, se ele até até a proíbe de se vir?

– Uma pobre escrava, não sei, mas se esta rica escrava que aqui está está assim tão empenhada em servir o seu senhor, pode muito bem ir para a cozinha, por exemplo, e fazer o jantar para ele, que está cheio de fome…

Mariana, a rir-se, começou a bater com os seus pequenos punhos no peito de Ricardo

– Cafajeste… sem vergonha… Escravidão é escravidão, não é?!

– Pois é… – disse Ricardo.

E quando viu Mariana levantar-se quase de um salto, vestir o roupão, entregar-lhe o dele e dirigir-se à cozinha, acrescentou:

– E descalça, se fazes favor. Não quero cá essa história de tijoleira fria, como de manhã. Lugar de fêmea é descalça na cozinha.

Mariana deteve-se o tempo suficiente para lhe deitar a língua de fora, mas afastou com o pé as chinelas que estavam no chão à saída da sala.

De dentro da cozinha levantou a voz:

– Tenho aqui Quiche Lorraine, é só pôr no micro-ondas. Queres?

– Pode ser, gosto bem de quiche. E o vinho de ontem ainda deve estar bom, era uma pena deitar fora uma garrafa quase inteira.

Ao pôr a mesa, ao servir o jantar, durante a refeição, Mariana continuou a exibir o comportamento que tanto intrigava e encantava Ricardo. A todas as oportunidades havia um seio a roçar um braço, ou então apenas um sorriso, um suspiro, um baixar de olhos, um rubor…

– Anda cá, escrava.

– Para quê?

– Anda cá. Levanta a saia.

Quando Mariana chegou junto dele Ricardo introduziu-lhe a mão entre as coxas.

– Estás toda molhada…

– Pois estou… Não me deixaste vir, patife…

– Não estás bem?

– Estou bem, estás farto de saber que estou mesmo muito bem… Não sei como é que isto me pode dar tanto prazer… Mas se daqui a pouco eu entrar em combustão espontânea, já sabes porque foi. Nunca te devia ter pedido autorização.

– É… Pela boca morre o peixe… Mas não te preocupes: amanhã não vai acontecer o mesmo porque vais ter castigo em vez de sexo.

– Está bem… Podes castigar-me, mas também quero sexo.

– Também, o quê?

– Eu sei, não tenho quereres. Vou dizer doutra maneira: também gostava que o meu senhor possuísse a sua escrava. Está bem assim?

– Melhor. Mas ao castigar-te também estou a possuir-te, não te esqueças. Em todo o caso, o castigo amanhã é por ser o nosso último dia. Quero deixar-te marcas que durem até ao próximo encontro.

– Sim, meu querido, também quero ficar marcada. Mas para as marcas nunca desaparecerem o melhor era eu fazer uma tatuagem…

– E hás-de fazê-la, com as minhas iniciais.

Antes de responder, Mariana bebeu um gole de vinho.

– Hmmm, isso deixa-me louca… Louca para ser possuída outra vez pelo meu senhor…

– Primeiro vamos acabar de jantar. E desconfio que mesmo depois disso vais ter um bocado de trabalho para me provocar outra erecção.

O jantar foi rápido, e Mariana arrumou a cozinha num instante. Quando regressou à sala encontrou Ricardo sentado no sofá. Sem hesitação nem preliminares ajoelhou-se no tapete à frente dele, afastou-lhe para os lados as abas do robe e tomou-lhe o sexo na boca. Assim que sentiu bem rijo, atirou o roupão para cima do sofá deitou-se de costas no tapete:

– Anda…

Entre o momento em que saiu da boca da amante e o momento em que se colocou entre as coxas dela em posição de a penetrar, Ricardo quase perdeu a erecção: Mariana teve que o chupar de novo para que ele finalmente lhe penetrasse a vagina – com o pénis um pouco flácido, mas que uma vez dentro dela recuperou a rigidez dos embates anteriores. Estavam ambos bastante doridos, mas mesmo assim Ricardo possuiu Mariana sem hesitação ou demora, indo e vindo nela até que a viu ficar vermelha: primeiro a cara e depois o pescoço, o peito e os seios. Viu-a abrir a boca como se fosse gritar, ouviu-lhe a rápida e forte inalação de ar, cavalgou-lhe o frenesim urgente dos quadris e finalmente assistiu, empolgado, ao gozo da sua escrava: um orgasmo sumptuoso, uma convulsão sísmica que lhe soltou todas as energias acumuladas no corpo e na alma desde que ele a tinha mandado deitar no sofá duas horas antes.

O dia seguinte amanheceu com bom tempo. Algumas nuvens, poucas, juntavam-se ocasionalmente e faziam chover umas raras gotas de água. Ricardo e Mariana foram passear para junto do canal e dos moinhos de vento: ele de calças castanhas com vinco, pullover cor de mel, casaco de cabedal castanho escuro e chapéu de feltro, ela de saia comprida, blusa de seda e casaquinho vermelho. Almoçaram num pavilhão com vista para o canal, conversando sobre o fim de semana que projectavam passar em Paris quando o tempo estivesse um pouco mais quente.

Lá fora a relva estava húmida e muito verde.

– Apetecia-me descalçar-me e correr nesta relva – disse Mariana.

– E a mim apetecia-me mandar-te descalçar.

– Mas não posso, estou de collants e não posso tirá-los diante de toda a gente.

– De collants?! Na presença do teu dono?! Vais mas é já ao quarto de banho para os tirar, e de castigo não voltas a calçar-te hoje.

Mariana ainda alegou o frio, o incómodo, as pessoas à volta; mas acabou por obedecer, um pouco embaraçada no princípio, mas pouco tempo depois corria o jardim descalça com a singeleza impudente duma criança à solta. Ricardo não voltou a permitir-lhe que se calçasse nem no jardim, nem no caminho de casa. E se no jardim o espectáculo duma senhora bem vestida mas de pés nus pareceu banal a quem o viu, o mesmo não se passou percurso que mais tarde fizeram de braço dado nas ruas cheias de gente. Mas o garbo altivo de Ricardo desarmava os olhares e, comunicando-se a Mariana, convertia-lhe o pejo em euforia.

Jantaram pelo caminho. Quando entrou em casa Mariana levava os pés gelados. Mas antes de ir tomar um duche quente ainda se apresentou diante de Ricardo com uma bacia de água quente para lhe lavar os pés cansados, lhe calçar os chinelos, lhe servir uma bebida e lhe acender um charuto.

Depois de tomar duche não se vestiu, envolveu-se em véus transparentes e dançou para ele, tirando-os um a um.

Ricardo assistia beberricando o seu whisky e puxando uma fumaça ocasional. Só os olhos a rir denotavam a atenção com que seguia todos os movimentos da sua amada.

– Vem cá.

– Sim, mas ainda me deves um castigo – disse Mariana.

E Ricardo viu que sem ele notar ela tinha ido ao quarto buscar a vergasta vermelha e lha tinha posto ao alcance da mão.

(Publicado no Blogger a 20/09/06)

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Me perdoe
Se o quadradismo de meus versos
Vai de encontro aos intelectos
Que não usam coração
Como expressão
.

Vinícius de Moraes

kn-11-lA verdadeira história de Mariana e Miguel só começou vinte anos depois de Marta e ele se terem conhecido em Coimbra, onde frequentavam o mesmo curso na Universidade.

Nesse tempo tanto um como outro tinham outros amores. Ao de Marta tinham-lhe os pais, professores de Grego no liceu, posto o nome de Ulisses. Era um jovem atlético, musculoso, com lábios sensuais e longas pestanas, que impunha a todos os lugares em que se encontrasse uma presença carnal e morna. A pele era macia e acetinada, e tinha uma cor de pão ligeiramente torrado; e numa época em que quase todos os rapazes usavam barbas e bigodes, Ulisses apresentava-se perfeitamente escanhoado, a sombra azul da barba misturada com o corado saudável da face. Tinha sempre raparigas à sua volta; e a robustez física de que fazia alarde alargava-se – pelo menos a acreditar nas confidências que ele próprio fazia, indiscriminadamente, a amigos e amigas, – à firmeza e às dimensões do membro viril.

E contudo havia alguma coisa de ambíguo, de demasiado óbvio, na sua virilidade. Uma parte de Marta achava-o demasiadamente belo, demasiadamente sensual e seguro de si; e muitos anos mais tarde havia de dizer a Miguel, numa noite de insónia e reminiscência: “Sim, o Ulisses era bonito; mas olha que tu também eras; já nessa altura eras um bonito homem.”

Depois de Coimbra, Marta tinha mantido contacto com Ulisses durante o tempo suficiente para assistir à sua decadência física e moral; mas Miguel, que nunca mais o tinha visto, lembrava-se apenas do jovem que podia ter servido de modelo a Louis David. Marta achava isto um disparate; mas Miguel achava Ulisses parecido com o guerreiro nu, em primeiro plano no quadro, que segurava um dardo nas pontas dos dedos, delicadamente, como se o sangue e o suor da guerra, a paixão das mulheres, lhe fossem de todo alheias.

Ulisses era, além do mais, requintado; e era-o mais do que convém quando se tem vinte anos. Sabia escolher um vinho, um filme, uma mulher, e nunca lhe faltava a palavra certa para exprimir o seu desdém pelas imperfeições dos outros; fossem estas de inteligência, de maneiras, de gosto, ou – as mais imperdoáveis – de beleza física. As farpas que atirava tinham por alvo os ingénuos, os mal vestidos, os desajeitados, os feios; e lançava-as com a leveza de quem não dá importância às feridas que provoca, mas só à elegância do lançamento.

A relação de Marta com Ulisses não durou muito tempo, nem deixou nela marcas profundas. Marta nunca chegou a ter grandes ilusões acerca do namorado, e cedo se apercebeu dos seus defeitos maiores: vaidade, superficialidade, preguiça, hedonismo. Quanto a ela, só o seu sentido de humor e a sua ausência de vaidade lhe permitiram suportar por algum tempo a displicência com que ele a tratava. Falta de vaidade, porém, não implica falta de dignidade ou de amor-próprio, e o namoro acabou por se esgotar sem ruído e sem recriminações, por desinteresse recíproco.

Diferente era a relação de Miguel com a Lena: uma paixão escancarada pelas ruelas da Alta. Quem os conhecia conhecia-os juntos, a Lena e o Miguel. Lena – como de resto também Miguel – era uma estrela menor no pequeno firmamento da Faculdade: se não pela beleza, como Ulisses, pelo êxito académico e pela panache intelectual.

Nem Miguel nem Marta eram promíscuos por natureza, e não se sentiam especialmente atraídos pela ideia de trair os respectivos parceiros. Mas a época era avessa a compromissos sentimentais; e nos meios em que se moviam a liberdade de costumes era uma forma indispensável de afirmação política, e só o ciume era tabu. Miguel tinha com Lena longas conversas a este respeito, das quais concluíam sempre que nenhum dos dois tinha o direito de usufruir do outro em exclusivo. Quanto a Marta, não precisou de discutir o assunto com Ulisses: bastou-lhe assistir à sucessão de casos em que ele se foi envolvendo, quase semana a semana, enquanto mantinha a sua ligação com ela.

Enquanto Lena e Ulisses se espalhavam pelo mundo no exercício da sua liberdade, Marta e Miguel ficavam entregues a si mesmos, e cada vez mais um ao outro. Estudavam juntos, conversavam, passeavam, e um dia, inevitavelmente, naturalmente, sem se interrogarem demasiado sobre o sentimento que os unia, foram para a cama juntos. Depois fizeram-no outra vez, e outra; e apesar de os seus encontros nunca terem passado de esporádicos, foi nessa altura que começaram a conhecer-se e talvez a amar-se.

Entretanto terminaram os cursos. Começaram a trabalhar. Viajaram. Depois, cada um para seu lado, casaram; encontraram-se ainda algumas vezes, e acabaram por se perder de vista.

Quando voltaram a encontrar-se – para um almoço, uma reunião de curso convocada por um antigo condiscípulo – tinham já filhos crescidos; e no momento em que se viram todo o seu passado desabou de súbito sobre eles: tanto o que realmente fora como, e não com menos peso, o que poderia ter sido. É de espantar que ao sentarem-se à mesa lado a lado, e só poderia ter sido lado a lado, não tivesse saltado entre os dois uma chispa de paixão, ofuscando os restantes convivas. Nesse dia trocaram endereços.

Mais tarde encontraram-se, em Coimbra. Era no Verão. Marta levava um vestido decotado, todo às flores, e Miguel pensou que ela não trazia soutien. Almoçaram frugalmente num restaurante perto da Universidade e foram sentar-se no jardim da Sereia, num banco entre as árvores. Falaram do passado, da profissão, das famílias, dos filhos. Tocaram-se nas mãos, olharam-se nos olhos. Depois desceu sobre eles um silêncio: não de embaraço, mas de expectativa. O Verão ia muito seco, mas dentro do jardim as árvores estavam carregadas de sombras e a fonte barroca desfazia-se sob os líquenes que lhe comiam a pedra. O banco de madeira começava a decompor-se; e tudo ressumava a mesma humidade, discreta como um choro contido.

“Agora vou-te beijar,” disse Miguel, de súbito.

Assim que ele a abraçou, sem hesitação nem timidez, Marta reconheceu-lhe o toque das mãos; e era o mesmo de há vinte anos, leve como o de quem não põe limites à ternura, ou firme e assertivo, como quem naturalmente se assenhoreia do que é seu.

Abraçaram-se até doer, beijando-se no banco do jardim como um par de jovens namorados. Beijos na boca, prolongados ou breves, copiosos, nos olhos, na face, nos lábios: como se na eternidade deste momento nada mais fosse necessário para os contentar do que estes abraços e estes beijos. Beijos em grinalda, disseram, quando foi preciso dizer alguma coisa. Beijos em cascata. Depois foram passear para o Jardim Botânico, que não é longe, e que também é poiso de namorados; e aí, sentados noutro banco, falaram dos seus amores de juventude: de como já nessa altura a sua primeira fome era sempre de beijos, de como a sua intimidade era entremeada de ficções e fantasias.

“Uma das coisas que me lembro mais vezes são as histórias que tu me contavas,” disse Marta. “Tantas histórias. E eu fascinada a ouvir-te. Raparigas orientais, sultões e haréns, sedas, perfumes…”

“Histórias de senhores e escravas, se bem me lembro. E essas coisas, sabes, ainda hoje me dizem muito.

”Eu sei,” disse Marta, e abraçou-se de novo a ele. Tinham sido jovens naquele tempo, e agora que voltavam a encontrar-se o que tinham diante de si era o começo da velhice.

Depois, num impulso, quiseram ir à praia. Uma das propensões que ambos conservavam desde a juventude era a de adoradores do sol – capazes, já no princípio dos anos setenta, quando em Portugal ainda não se falava de nudismo como prática viável, de caminhar quilómetros ao longo da costa para exporem o corpo todo aos raios solares. Tanto um como o outro sentiam, sem que o soubessem exprimir ou disso fizessem grande caso, que qualquer vestuário que se use, por reduzido que seja, nos domínios do sol, do mar e do vento, profana sempre qualquer coisa de sagrado.

Meteram-se no carro e foram para a Figueira da Foz. Durante o trajecto Mariana não parou de tocar em Miguel, de lhe pegar na mão ou, se ele se soltava para conduzir, de lhe acariciar o joelho e a coxa. Atravessaram a cidade sem parar, subiram a serra da Boa-Viagem, e no caminho encontraram uma vereda que levava à praia. Só à chegada se deram conta de uma dificuldade: no porta-bagagens havia uma toalha esquecida, mas nem um nem outro tinham trazido fato de banho. Tiveram por isso que caminhar por muito tempo sobre a areia mole até encontrarem um recanto onde pudessem ficar à vontade. Marta estendeu-se ao sol, vestida apenas com as suas cuequinhas brancas de renda, e Miguel, que ao princípio conservara os shorts de algodão, acabou depois por tirá-los e ficar nu. Conversaram e beijaram-se, tomaram-se do sol, e acariciaram-se; mas não fizeram amor – a não ser que já esteja a fazer amor quem mata uma fome antiga de beijos e carícias. Não tinha sido ainda para isso que se tinham encontrado: não precisaram de palavras para o saber.

O caminho de regresso pela areia mole deixou-os exaustos. Quando estavam quase a chegar à vereda que os havia de levar ao carro Miguel deu por falta dos sapatos e teve de voltar atrás por eles. Não tinham levado nem uma garrafa de água: quando voltaram ao carro aquecido pelo sol estavam desidratados; e quando quiseram rir-se de si mesmos e da sua pequena aventura no deserto, a voz e o riso sairam-lhes da garganta como um murmúrio ressequido.

Num café à beira da estrada beberam água a grandes goles e os corpos, hidratados, puderam de novo produzir a necessária porção de suor e lágrimas e saliva. Agora podiam falar, e talvez ocasionalmente, conforme as palavras ditas, ver nos olhos um do outro um ressumar de lágrimas. Foi a partir desse momento que souberam com certeza absoluta que no encontro seguinte se iam tornar amantes.

E com efeito: mais tarde, quando a época balnear já tinha passado, passaram um fim de semana na praia. Não tiveram dificuldade em alugar um apartamento com vista para o mar. De manhã e ao fim da tarde já fazia frio, e a maior parte das lojas e cafés estavam fechados. As horas de sol passavam-nas na areia, na praia mais deserta que puderam encontrar. Desta vez tinham trazido fatos de banho mas o adiantado da época permitiu-lhes ficar nus, abrigados numa reentrância da areia. Nunca pararam de se beijar, como se com esta infinita sucessão de beijos pudessem recuperar o tempo que tinham passado longe um do outro. É por vezes assim que se mitiga o choro no peito antes que chegue aos olhos: talvez proviesse daí o sufoco, a vertigem, o esvaimento desses beijos.

Comeram iogurtes, fruta e sanduiches, que Marta preparou na altura. Numa garrafa traziam a água que lhes serviu para beber e para lavar as mãos. Enlaçaram-se em cima da toalha, ele por cima, penetrando-a com alguma dificuldade enquanto lhe beijava a boca; e entremearam as carícias com risos e gracejos, exorcisando o desconforto do lugar, a areia que se insinuava por todos o lados, a possibilidade de serem surpreendidos por algum passante inocente ou voyeur experimentado, e exibindo um ao outro, com alguma melancolia, as marcas que a idade já lhes ia deixando nos corpos.

No apartamento tomaram duche um de cada vez, pudicamente. Marta vestiu o seu roupão de cetim branco e calçou uns chinelos do mesmo tecido. Depois de comerem ficaram algum tempo à conversa diante do televisor. Deitaram-se como um casal com anos de convívio, ela em camisa de noite, os chinelos arrumados ao lado da cama, ele em pijama às riscas. O visível prazer que encontravam nesta pacatez partilhada despertou-lhes de novo o riso: os dois namorados aventurosos que se tinham enlaçado na praia deserta revelavam-se afinal dois velhos amantes ciosos do seu conforto. “Meu amor quarentão,” dizia Marta. “Meu amante serôdio.”

Depois abraçaram-se, colaram a boca um à do outro, e começaram mais uma das intermináveis séries de beijos de que nunca, mesmo anos depois, haviam de se cansar. Das bocas e das faces os beijos passaram aos corpos. A camisa de noite de Marta tinha botões à frente; Miguel abriu-os para lhe beijar os seios. Os mamilos eram de um cor-de-rosa escuro e tinham a falsa transparência das framboesas que ela lhe tinha servido de tarde, na praia. As mãos dele percorriam-lhe o corpo, devassando-lhe os seios, as coxas e as nádegas com a mesma liberdade insolente de havia vinte anos.

Quando a camisa de noite se tornou um empecilho Marta tirou-a por sobre a cabeça. Depois foi a vez das roupas dele; e quando se encontraram os dois despidos puxaram os lençóis de novo para cima, num estranho acesso de pudor; como se não tivessem estado também nus na praia, poucas horas antes, à vista de quem passasse. E também esta inconsistência lhes foi ocasião de riso: riam-se de si próprios, das suas fragilidades, das histórias absurdas que inventavam a propósito dos incidentes do dia.

Debaixo das roupas da cama Miguel inclinou-se sobre ela. Marta enterneceu-se quando ele a cobriu com o lençol, como que para a proteger da devassa dos seus próprios olhos. Sob a carícia dele sentiu que as coxas se lhe começavam a afastar como se tivessem vontade própria; mas durante muito tempo tudo o que ele fez foi beijá-la, de novo na boca e nos seios, mas agora também nas coxas e no ventre e por fim, deliciosamente, no sexo. Timidamente, aflorou-lhe ela também com os lábios a ponta do pénis, como lhe tinha feito apenas uma vez no tempo dos seus amores juvenis; mas Miguel, concentrado em beijá-la, mal pareceu aperceber-se de como ela lhe retribuía a carícia.

Marta começou a mover-lhe os lábios ao longo do sexo, a explorar-lhe a glande com a ponta da língua. À medida que a sua própria excitação progredia ia-se sentindo mais afoita, e queria ouvi-lo gemer como ela própria não se conseguia impedir de o fazer. Finalmente sentiu-o reagir: da cabeça que se lhe aninhava entre as coxas subiu-lhe até aos ouvidos um gemido que lhe pareceu meio de prazer, meio de protesto, e aquele beijo dele, tão sábio e tão firme, transformou-se numa carícia vaga e trôpega, como se a boca com que lhe explorava as dobras do sexo tivesse perdido o norte, embriagada, distraída.

Subitamente Miguel estendeu-se por cima dela e procurou-lhe a boca. Marta não tinha muita vontade de provar nos lábios do amante os sabores do seu próprio corpo; mas não teve tempo nem presença de espírito para recusar o beijo que ele lhe pedia, agora que lhe sentia o falo erecto e urgente às portas da vagina, penetrando-a de um movimento só. Miguel estava apoiado sobre os cotovelos e sorria-lhe; por vezes baixava a cabeça para lhe beijar a boca, ou desviava-lhe o cabelo dos olhos e da face, desejoso de a olhar. Quando quis penetrá-la mais fundo, passou-lhe os braços por detrás dos joelhos e ergueu-lhos quase até aos ombros, batendo o ventre contra o dela, trás, trás, trás, com um ruído seco de palmadas. E depois, quando precisou de descansar os braços e se lhe deitou todo estendido sobre o corpo suado, o ruído dos embates mudou, platch, platch, platch, como quem bate com a mão aberta num pano encharcado.

De repente Miguel saiu de dentro dela. “Anda tu por cima, agora.”

Por um minuto Marta gozou a sensação de ter o amante imobilizado; mas depois também teve prazer no movimento que ele começou a fazer para cima com os quadris, num vai-vem que era amplo e vigoroso e contudo não lhe retirava a ela o domínio dos seus próprios movimentos. Sentiu que ele a puxava para si, mas libertou-se-lhe do abraço e foi-se levantando a pouco e pouco até ficar sentada sobre ele.

O que Marta mais desejava neste momento era inclinar-se toda para trás, vergando para baixo o pénis do amante de modo a senti-lo duro e firme no ponto exacto em que o queria. Mas viu-lhe o trejeito de dor, ouviu-lhe o “não” murmurado e sentiu-lhe as mãos na cintura, puxando-a, impedindo-a de se inclinar mais para trás do que já estava; e para se compensar desta limitação redobrou a rapidez e o vigor com que o cavalgava, mais rápido, mais forte, mais fundo.

E Miguel, o que sentia ele? Antes de mais uma dor, o pénis erecto demais, repuxado para baixo como um ramo de árvore prestes a quebrar-se; mas sentia também, nos quadris, uma vontade urgente de soltar o corpo e o ventre até que se tornassem independentes da mente e da vontade; e finalmente, nas mais duras e mais fundas raízes do corpo, os chamamentos de um orgasmo que se lhe anunciava do lado de lá da dor e do desconforto. Da dor que o obstruía, que se lhe antepunha, que era preciso que terminasse. E o que ele ouvia eram os suspiros e os arquejos de Marta, e os seus próprios, os sons dos corpos batendo um no outro, as palavras desconexas, meu amor, minha querida, assim, assim é bom. E também os carros na rua, as ondas no mar, o vento nas janelas, e tudo isto se integrava, por uma alquimia inexplicável, nos sons do amor e do prazer.

Mas o que Miguel via, o que ele via nesta hora prodigiosa, era uma imagem de beleza absoluta: sentada sobre ele, cavalgando-o como uma amazona furiosa, a cintura fina, o ventre liso, os seios juvenis raiados de veias azuladas, Marta tinha inclinado para trás a cabeça. Os cabelos negros, desgrenhados como os de uma feiticeira, combinavam-se com o preto das sobrancelhas e das pestanas para lhe endurecer os traços do rosto, e era um rosto de índia, de matriarca; um totem, uma máscara africana. E via-lhe ainda, maravilhado, a boca meio aberta num ricto de sofrimento; os olhos fechados num esforço de concentração; os dois vincos fundos, como parêntesis, dos dois lados da boca; o rubor que lhe tingia as faces e o pescoço do mesmo cor-de-rosa escuro dos mamilos.

Do pescoço sobressaía-lhe o cordame reteso dos tendões e das veias. Miguel teve a certeza de que nunca em toda a história do mundo uma mulher tinha sido tão perfeitamente bela como Marta no momento do prazer; e viu na imagem que tinha diante dos olhos a justificação da sua própria existência neste momento. A dor que o desexcitava, a certeza de estar cada vez mais longe do orgasmo que o corpo há tão longos minutos lhe pedia, nada disso tinha importância comparado com a contemplação que desejaria eterna deste corpo, destes seios, deste rosto de deusa agonizante. Quis largar-lhe a cintura, deixá-la inclinar-se para trás à sua vontade; mas não conseguiu, não era possível, a dor ia acabar por torná-lo flácido, tão incapaz de ter prazer como de o dar à amante. Para se manter erecto abraçou-a; depois puxou-a para si até lhe sentir os seios sobre o peito e rolou para cima dela sem a largar.

Marta não teve orgasmo; teve-o Miguel, tanto mais intenso quanto mais difícil e mais dolorosamente perseguido. Os primeiros gemidos com que o prazer dele se anunciou pareceram de aflição aos ouvidos de Marta; mas o que se lhes seguiu foi um rugido, um grito exultante como ela nunca tinha ouvido a nenhum outro homem com quem tivesse feito amor; e no momento em que ele se lhe desfez em sémen dentro da vagina também a respiração se lhe desfez num riso solto, meu amor meu amor minha querida, uma girândola festiva de beijos e palavras e suspiros: e Marta viu naquele orgasmo dele, tão solto e confiante, tão bonito, tão mais de mulher que de homem, uma dádiva e uma entrega.

Por vezes o melhor é quando dois amantes se reencontram na cama, frescos do duche, lassos do amor, para conversar enquanto o sono não vem. A conversa de travesseiro serviu para falarem de amor, o que na circunstância queria dizer falar de sexo: o que cada um já tinha feito, o que gostaria ou não se importaria de fazer um dia, o que não faria de maneira nenhuma. E foi também durante esta conversa que ficaram delineadas as primeiras das ficções com que ao longo do tempo haviam de se explicar um ao outro: trovador e castelã, édipo e esfinge, cavaleiro e rainha, chefe bárbaro e princesa cativa; e ainda guru e feiticeira, dois velhos mirrados, meio bruxos, procurando conchas numa praia tropical; mas também desde já, e sobretudo, e sempre, Senhor e escrava.

Mas não foi ainda desta vez que inventaram Mariana. Adormeceram falando, que é o mais delicioso dos adormecimentos para amantes apaixonados. Acordaram a meio da noite para que os corpos se unissem de novo; e quando ela se deitou por cima dele na escuridão, beijando-o ternamente, deixando que os cabelos lhe caissem sobre o rosto, a imagem que Miguel teve dela foi a de horas antes, plantada sobre ele, majestosa, totémica, agonizante de esforço. Como se uma árvore poderosa, a Árvore do Mundo, Yggdrasil, estivesse misturando as suas raízes com as dele.

“Sim, minha rainha. Minha deusa. Goza. Goza muito. Goza tudo. Se soubesses como és bela no prazer!” E ao dizer isto sentiu um choro que não era de amargura avolumar-se-lhe no peito, porque as meras palavras não podiam fazer ver à amante a completa verdade da visão que o dominava. Durante todo o tempo não cessou de lhe murmurar palavras de amor e homenagem, deusa, castelã, rainha.

Marta ouvia-lhe estas palavras mais com o coração do que com os ouvidos, que lhe iam ficando surdos aos meros ruídos do mundo; e embora elas lhe enchessem o peito de um éter subtil que a embriagava; e lhe fizessem correr o sangue com mais força, e lhe endoidassem os quadris, não a distraíram tanto que a não deixassem ver a fragilidade exposta com que o amante neste momento se lhe mostrava.

Ninguém tem o direito de se entregar assim a alguém, pensou, eu agora se quisesse podia magoá-lo terrivelmente, podia destruí-lo. E comparou-o com os animais, os gatos e os cães que temos em casa para nosso prazer e companhia. Os animais, esses, olham para nós sem saber que está nas nossas mãos alimentá-los ou bater-lhes, acarinhá-los ou abandoná-los; mas uma pessoa, um ser humano, tem o dever de saber tudo isso, e de se precaver. Foi por isso com um laivo de irritação, mas também com a mais escrupulosa doçura, que Marta possuiu o corpo de Miguel, naquela noite em que se debruçou sobre ele, cobrindo-o todo com os seios e os cabelos.

“Dá-me, dá-me tudo,” disse-lhe, abraçando-o com força. Miguel abriu muito os olhos, encheu o peito com uma golfada de ar, e soltou um longo gemido que a ela lhe soou tão aflito como exultante; e Marta sentiu a ejaculação que a inundava. Mas desta vez o orgasmo maior, o climax de espanto e maravilha, foi o dela, gritado ao mundo sem cuidar que atravessasse paredes, despertasse pássaros, alarmasse vizinhos.

Quando Miguel a beijou encontrou-lhe o rosto molhado. Acendeu a luz, alarmado, e viu que chorava, um choro discreto que lhe corria pelo o rosto sem lho deformar. Os olhos não lhos viu vermelhos, nem as feições distorcidas, apenas um pequeno sorriso entre lágrimas. Sentiu que ela lhe escondia a cara no ombro, molhando-lho também, e tremendo um pouco. Depois o tremor passou. Miguel abraçou-a com força, sem falar, e pôs-se a entristecer ao lado dela, até que o sono os consolou, e o sol da manhã os alegrou de novo.

(Publicado no Blogger a 18/12/05)

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Agora que estou a chegar ao fim das “Histórias de Mariana” resolvi intercalar a escrita dela com a escrita dum novo romance, do qual ainda não tenho o título. O texto que se segue é um prólogo em que é apresentada a principal personagem masculina e uma personagem feminina que também será, provavelmente a principal. É uma narrativa que tem muito menos de auto-biográfico de que a outra e que estará mais organizada quanto ao enredo. Espero que gostem.

Subitamente Miguel deu por si brandindo a vergasta. O punho entrançado era de cabedal verdadeiro, e não lhe escorregava na palma da mão como aconteceria se fosse de material sintético. Miguel não se recordava da última vez que se encontrara naquela situação, mas sabia, como se sabe nos sonhos, que ela não lhe era estranha; pelo contrário, tinha-a vivido muitas vezes e sabia exactamente o que tinha que fazer. Não precisou dos olhos para saber que o punho entrançado que segurava na mão era preto, que o resto do instrumento era feito de um material duro e flexível como bambu e estava coberto de seda vermelha, que a mulher prosternada a seus pés, de quem sentia nos tornozelos o bafo quente e a macieza dos cabelos, era a sua “prima” Letícia, que conhecia desde a adolescência e que sempre lhe tinha sido apresentada pela família como exemplo a seguir.

Olhou para baixo e viu a sua própria mão segurando o instrumento de castigo: os nós dos dedos brancos com a força que fazia, os pelos macios sobre a pele clara. Mais abaixo, o seu próprio sexo erecto e recurvo, erguendo-se de entre os pelos negros do púbis. A abaixo de tudo o corpo de Letícia, as mãos dela voando-lhe sobre as pernas numa carícia ansiosa, o cabelo escuro espraiado sobre os ombros sardentos, a forma dos quadris e das nádegas como o corpo dum violoncelo.

Miguel nunca tinha visto Letícia nua, e surpreendeu-se um pouco com a robustez do corpo, com os músculos que se adivinhavam por baixo da fina camada de gordura feminina. Era uma mulher grande e atlética, muito branca de pele: sem roupa adquiria o porte clássico duma estátua de mármore.

Na lógica do sonho não lhe pareceu estranho estar assim com Letícia a seus pés. Nem lhe pareceu estranho que ela lhe pedisse perdão e castigo (por uma falta que ele se recordava nitidamente ter existido sem se recordar em que tinha consistido).

– Ajoelha-te diante do sofá – ordenou Miguel. – Cruza os braços sobre o assento e pousa neles a cabeça.

O sofá era baixo: para fazer o que Miguel ordenava, Letícia tinha que ficar com o rabo empinado no ar. Obedeceu prontamente, porém – o que não surpreendeu Miguel e lhe pareceu, no sonho, perfeitamente natural. Mas uma parte dele, talvez a parte que começava a acordar, sentiu surpreendeu-se vagamente por não estar surpreendido.

Uma vez, outra vez, Miguel vibrou algumas fortes chibatadas, não só no rabo empinado de Letícia, mas também nas costas, nas coxas e na pele especialmente sensível entre as coxas e as nádegas. Letícia sofreu a maior parte dos golpes apenas com um estremecimento e um gemido, apenas se debatendo e gritando um pouco ao receber os mais dolorosos; mas mesmo assim voltando sempre à posição que lhe tinha sido ordenada para receber a punição até ao fim.

– Agora vira-te para mim – disse Miguel. – E agradece-me.

– Obrigada, meu Senhor – disse Letícia.

E foi quando ela, ainda de joelhos, lhe beijou as mãos, e lhas molhou de lágrimas, que Miguel teve um orgasmo e acordou. Demorou algum tempo a compreender onde estava: na cama, em casa da mãe, no seu antigo quarto de estudante. Que diriam elas, a mãe, a tia, se a empregada lhes contasse que tinha encontrado os lençóis do menino sujos de esperma? E que diria Letícia, que estava a passar o fim-de-semana lá em casa e dormia no quarto ao lado do dele, se soubesse a que perversas fantasias tinha dado azo?

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Eram oito da noite de sexta-feira e Mariana estava a pôr a mesa para Ricardo. Só para ele, porque hoje ia servi-lo sem participar na refeição como se fosse uma criada. Quanto a ela, já tinha comido: uma salada com cubos de queijo, pão torrado e um molho à base de iogurte magro.

Ricardo, calculava Mariana, devia estar neste momento a sair do seu gabinete em Heidelberg e a fazer-se à estrada num carro alugado, para estar com ela o mais cedo possível. Ia chegar cansado e sem jantar, depois de um dia de trabalho duro e de duas ou três horas a conduzir na Autobahn.

Não valia a pena cozinhar-lhe uma ceia completa, ele ficava sempre sem apetite quando viajava. Em vez disso Mariana preparou tostas, uma tábua de queijos e uma tacinha com framboesas e abriu uma garrafa de vinho, que deixou num aparador a respirar. A seguir dispôs velas aromáticas na sala, deixou a caixa de fósforos à mão, subiu a temperatura no termóstato, ligou o dispositivo de aquecer as toalhas na casa de banho e preparou os óleos para a massagem que tencionava dar ao amante se ele não se agarrasse logo a ela e não a arrastasse para a cama.

Tomou duche antes de tomar banho, como as gueixas; lavou a cabeça, enrolou o cabelo molhado numa toalha, meteu-se na banheira com sais aromáticos, enxugou-se, amaciou o corpo com um creme perfumado, secou e escovou o cabelo.

Tinha-se depilado toda de manhã. Quando o dono lhe ordenara que fizesse isto, tinha protestado, mas agora estava a gostar de se ver lisa como uma menina impúbere.

Pintou as unhas dos pés e das mãos com a mistura de vernizes de que ele gostava: metade transparente, um quarto cor de rosa pálido, um quarto branco-pérola. Vestiu-se e maquilhou-se como ele tinha dito que queria: saia comprida e rodada em tons de terra e laranja, semi-transparente, sem calcinhas; corpo nu da cinta para cima; cinto de fantasia; bijutaria profusa nos pés, nos pulsos, no pescoço, nas orelhas e sobre o peito; um pouco de rouge, muito pouco, na cara; baton cor de framboesa nos lábios e nos mamilos. Pôs umas chinelas, para usar até ao momento em que ele tocasse à campainha de baixo: Ia recebê-lo como ele tinha mandado, com os pés nus em sinal de respeito; mas também, em sinal do mesmo respeito, com eles limpos.

Quando a campainha tocou guardou as chinelas e foi-se pôr à porta do apartamento para ele não ter que esperar no patamar. Ao sentir-lhe os passos abriu-lhe a porta; lá vinha ele, arrastando o seu velho trolley de viagem azul. Na mão esquerda trazia um ramo de rosas vermelhas atadas com um fio de ráfia: devia ter-se picado nelas ao sair do carro ou ao tocar à campainha, porque trazia um arranhão entre o polegar e o indicador que ainda ressumava perolazinhas de sangue.

Mariana franqueou-lhe a entrada, fechou a porta atrás dele e, mal lhe dando tempo a pousar o trolley, lançou-se-lhe ao pescoço. Ricardo correspondeu apaixonadamente a este beijo, atrapalhado apenas por ter só um braço livre; com o outro mantinha afastado dela o ramo das rosas, para que não a picassem. Quando ele por fim lhe entregou o ramo Mariana levou-o ao nariz, aspirou-lhe o perfume, e ajoelhou com um gesto natural e gracioso para beijar a mão do amante.

– Anda para a sala. Tens fome?

– Não tenho muita…

Mas depois de tirar o casaco e de ir à casa de banho sentou-se à mesa. Mariana, ajoelhada, pousava a cabeça nas coxas dele beijava-lhe a mão quando ele a acariciava. Só se levantou uma vez, para lhe servir o vinho. Duas tostas, dois cubos de queijo, algumas framboesas que ele ia comendo ou dando a comer à amante, e meio copo de Barolo: a isto se resumiu a refeição de Ricardo.

– Estás cansado, meu querido.

– Um pouco. Preciso de tomar um duche.

– Senta-te no sofá, eu dispo-te.

Ricardo fechou os olhos e deixou-se despir como um menino ensonado. A meio do duche Mariana foi ter com ele para acabar de o ensaboar. No fim ajudou-o a secar e levou-o de novo para a sala.

– Deita-te no sofá. Vou dar-te uma massagem para te tirar essa tensão dos ombros.

– Se fizeres isso ainda adormeço aqui mesmo e depois não te sirvo para nada – respondeu ele com um sorriso.

– Não faz mal. Deita-te. Espera, vou pôr aí uma toalha.

Mariana tirou todos os ornamentos que trazia no corpo e pôs-se nua para ter mais liberdade de movimentos. À massagem que deu ao dono com as mãos acrescentou umas carícias com os seios e com o sexo depilado que o fizeram ronronar como um gato.

– Hmmm, tão bom…

A previsão que Ricardo tinha feito de adormecer não se cumpriu completamente. Terminada a massagem rolou do sofá para cima do tapete, pôs-se de barriga para cima, fechou os olhos e estendeu os braços como uma criança a pedir mimo:

– Vem cá, minha escrava…

Mariana trepou para cima dele, montou-o e começou a acariciar-lhe o pénis ainda flácido com a vulva acetinada e húmida. Ricardo sorriu, consolado:

– Tão bom…

A erecção que tinha tido lugar intermitentemente desde que Ricardo tinha entrado em casa de Mariana não tardou a estabelecer-se de novo com renovada pujança, e Mariana empalou-se nela com um suspiro de prazer.

Começou então uma noite memorável, com Mariana a movimentar vigorosamente os quadris, para cima e para baixo, para a frente e para trás, para os lados, em círculos, e com Ricardo a erguer-se ao encontro dela, mais fundo, mais fundo.

Por vezes ela inclinava-se toda para trás para conseguir o ângulo que mais a excitava, mas o pénis dele estava tão retesado que lhe doía ao ser vergado para baixo. Então puxava-a com força para si de modo a sentir-lhe os seios contra o peito; ela soprava como um gato assanhado mas obedecia, e deixava pender a cabeça para a frente de modo a poder acariciá-lo também com os cabelos.

Ricardo sentia o orgasmo quase a chegar mas, fosse pelo cansaço que sentia, fosse por estar por baixo, ou fosse ainda pela dor que Mariana lhe provocava quando se inclinava para trás, a excitação em que estava só crescia sem se resolver num desenlace. Por vezes o cansaço dos músculos levava-o a ficar passivo enquanto Mariana dançava por cima dele, mas logo o desejo, louco, o obrigava a acelerar e ampliar as estocadas que dava na amante.

Mariana veio-se. E veio-se outra vez. E veio-se outra e outra, tantas vezes que não as pôde contar, tantas vezes que a certa altura já não tinha orgasmos separados, tinha um único orgasmo que continuava e continuava e parecia nunca mais acabar.

Por fim – depois, quando olharam para o relógio, viram que passava das quatro da manhã – Ricardo deu um urro cavernoso, e num último, prodigioso arranque esvaiu-se todo dentro dela, que arquejava «dá-me, dá-me tudo» e se veio também pela última vez nessa noite.

Nem se lavaram. Conseguiram ir os dois, aos tropeções, da sala para o quarto, onde se deitaram em cima da cama e adormeceram imediatamente. Quando acordaram tinham, ele o pénis quase em carne viva, ela a vagina em idêntico estado, e no tapete sobre o qual tinham feito amor vieram a encontrar uma pequena mancha de sangue que nunca vieram a saber se era dele ou dela.

Mariana acordou tarde e viu o amante ainda adormecido ao seu lado. Durante a noite tinham arranjado maneira de puxar o edredon para cima deles, e ainda bem porque a casa estava um pouco fria. Começou preguiçosamente a dar pequenos beijinhos na cara de Ricardo e viu como mesmo a dormir o rosto dele se adoçava num ligeiro sorriso. Depois pousou a cabeça no travesseiro e deixou-se ficar numa deliciosa indolência até o ver acordar e espreguiçar-se.

Esta visão deu-lhe vontade, como que por contágio, de se espreguiçar também e de bocejar longamente.

– Tens fome, meu querido?

– Mais que fome, estou esfaimado. Se não me dás de comer, como-te a ti.

– Então deixa-me tomar duche primeiro, depois tomas tu enquanto eu te preparo o pequeno-almoço.

Ricardo ainda fechou os olhos por uns minutos. Depois levantou-se, vestiu o roupão, calçou os chinelos de quarto e dirigiu-se para a casa de banho, de onde Mariana estava a sair embrulhada numa toalha.

Ao enxugar-se – vigorosamente, como era seu costume – reparou que lhe doía ao esfregar o pénis com a toalha, apesar de esta ser invulgarmente fofa e macia. A pele estava muito vermelha e sensível. Tinham sido horas seguidas de fricção no corpo da amante, e ainda bem que ela estava depilada e macia, porque aquele tempo todo a roçá-lo com os pelos púbicos teria sido mais do que poderia aguentar.

Quando entrou na sala de roupão e chinelas, Mariana já estava vestida, com uma saia preta pelos tornozelos e uma blusa de seda branca. A mesa estava posta e da cozinha vinha um cheiro bom de café e torradas com manteiga.

– Senta-te. Vai bebendo o sumo, que eu já te trago o resto.

À porta da cozinha estavam umas chinelas.

– Vou calçar-me. A tijoleira da cozinha está muito fria. Posso?

– Sim, hoje podes, mas só na cozinha.

Um ruído de louça e talheres a remexer, um súbito aroma a ovos fritos a a bacon, e lá vinha Mariana com um cesto enorme de torradas.

– Vai comendo enquanto estão quentes.

Sentou-se em frente ao dono para beber o sumo de laranja e depois levantou-se, com uma torrada na mão para ir de novo à cozinha. Quando regressou trazia uma travessa de ovos mexidos com bacon e salsichas, e mais torradas. Pôs música a tocar no leitor de CD’s (a sonata de violino e piano «Primavera», de Beethoven), e sentou-se a comer. Por vezes dava-lhe na boca um pedacinho de torrada, ou ele a ela. Serviu muesli misturado com iogurte de cereja, que comeu com um apetite igual ao do amante. Por fim foi à cozinha buscar o café.

– Queres mais?

– Só se for mais café.

– Então vou buscá-lo quente, não bebas esse.

Ficaram mais de meia hora à mesa, a beber café, a pegar nas mãos um do outro e a conversar de coisas sem importância. Quando viram as horas era quase uma da tarde.

– Ai… Ainda vou ter que arrumar isto tudo…

– Eu ajudo-te.

– Não, vai-te vestir.

Ricardo vestiu as suas calças de bombazina cor de mel e uma camisa de flanela aos quadrados, com uma T-shirt por baixo. Não demorou muito a vestir-se e a calçar as peúgas: ainda teve tempo de arrumar a sala e o quarto e fazer a cama enquanto Mariana terminava de lavar a louça e limpar a cozinha.

De tarde foram passear em Brugges, ao longo dos canais. Pararam em frente ao edifício gótico da Câmara Municipal, viram as montras nas ruas centrais, fizeram algumas compras num supermercado. O Equinócio da Primavera já tinha passado, a hora tinha mudado, os dias estavam mais longos e estava sol, mas não se demoraram na rua: depois de lancharem numa confeitaria voltaram para o apartamento de Mariana, onde ficaram sentados a ouvir música e a conversar enquanto lhes apeteceu.

– Daqui a pouco vou fazer o jantar – disse Mariana, abraçando o amante e dando-lhe um beijo. – Queres tomar alguma coisa antes?

– Sim, meu amor. Tens um whisky?

– Já to vou dar. Deixa-te estar sentado.

Mas em vez de se dirigir para o armário das bebidas Mariana meteu-se no quarto, de onde emergiu uns minutos depois com um vestido que Ricardo não lhe conhecia: cintado, preso aos ombros por alças, com uma saia pelos tornozelos muito rodada, e todo às riscas verticais em vários tons de rosa. Na sua versão original devia ter um forro, mas era fácil de ver que Mariana o tinha tirado e que não trazia nada por baixo.

– Gostas do meu traje de escrava?

– Muito. Vestiste-o para me servires o whisky?

– O whisky e não só. Mas espera, primeiro vou-te calçar os chinelos.

Os chinelos de Ricardo estavam no armário da entrada. Mariana foi-os buscar, ajoelhou-se e descalçou o dono, beijando-lhe cada um dos pés depois de tirar a respectiva peúga e antes de lhe pôr o chinelo. Concluída esta tarefa pôs música no leitor de CD’s – Shepherd Moons, da cantora irlandesa Enya – trouxe um tabuleiro que enganchava no sofá, e sobre este pôs um naperon, um copo de cristal e um cinzeiro.

– Um cinzeiro? – admirou-se Ricardo

– Sim. Hoje vais fumar. E não discutas.

A seguir tirou duma gaveta um estojo de cabedal para dois charutos, uma caixa de fósforos e um aparelho de cortar as pontas, e pousou tudo no tabuleiro ao lado de Ricardo. O estojo continha dois Cohibas.

– Não tinhas mais em que gastar o teu dinheiro? – ralhou Ricardo.

Mariana riu-se, foi ao armário das bebidas, tirou uma garrafa de whisky por abrir e mostrou o rótulo ao amante

Cigar? – disse ele. – Não conhecia essa marca.

– Na loja disseram-me que era muito bom. E que era o ideal para acompanhar um bom havano.

Ricardo riu-se e preparou-se para abrir a garrafa, mas a amante deteve-o:

– Não. Tu não fazes nada. Eu sirvo.

Obediente, Ricardo recostou-se no sofá e ficou a contemplar com um olhar de ternura a sua escrava que se esforçava, ajoelhada, por abrir a garrafa. Depois de o ter conseguido deitou no copo dois dedos de whisky, cortou as pontas a um dos charutos, meteu-o na boca e acendeu-o, rolando-o entre os dedos como tinha visto o dono fazer. Ricardo viu-a sugar as bochechas para dentro para puxar o fumo, exactamente como fazia qundo lhe chupava o sexo, e com um brilho nos olhos acariciou-lhe o cabelo.

Levadas a bom termo todas estas tarefas Mariana sentou-se no chão aos pés de Ricardo e começou a contar-lhe todos os pormenores da sua mais recente exposição. De vez em quando levantava-se, animada, e ia buscar um quadro que se tinha esquecido de lhe mostar antes, ou fotografias de outros quadros, que lhe ia dispondo sobre os joelhos para ele ver. Entusiasmada, explicava-lhe as novas técnicas que tinha aprendido desde a última visita: as tintas, os betumes, os vernizes, as areias coloridas, as espátulas, os pincéis, as folhas e as bagas recolhidas no bosque e coladas na tela.

Ao esmorecer da conversa Ricardo inclinou-se para a frente, segurou-lhe o queixo e beijou-a ternamente nos lábios.

– Agora vou-te possuir, minha escrava.

– Sim…

Mariana num instante se pôs nua, o vestido saía pela cabeça e ela não trazia mais nada sobre o corpo.

– Deita-te aqui no sofá – disse Ricardo. Quando a viu deitada ajoelhou-se sobre o tapete, debruçou-se sobre ela e começou a cobri-la de beijos, começando nos ombros, subindo ao pescoço, aos olhos, às orelhas e à comissura dos lábios, e descendo aos seios. Por longos minutos não fex mais nada além de lhe lamber e chupar os mamilos enquanto lhe insinuava a mão entre as coxas. Mariana começou logo a abrir um pouco as pernas, ou melhor, as pernas abriam-se-lhe por si próprias, sem que ela sequer o notasse. Sem pressa nenhuma Ricardo foi descendo com os lábios ao longo do corpo dela, às vezes voltando para cima em direcção aos seios e ao pescoço, mas indo sempre um pouco mais abaixo de cada vez que descia. Meteu-lhe a língua no umbigo, beijou-lhe os flancos do sovaco à anca, explorando-lhe com a língua os espaços entre as costelas, e ao lamber-lhe o monte de Vénus depilado sentenciou:

– Sim, estás mesmo macia, com a língua é que se nota…

… e depois, cruelmente, começou de novo a subir-lhe pelo corpo acima.

Se a boca que Mariana tinha entre as pernas tivesse voz, teria gritado de frustração. Mas não por muito tempo, porque de repente Ricardo afastou-lhe as coxas com as mãos e beijou-lhe o sexo como se lhe beijasse a boca, para logo moderar este ímpeto e começar a procurar-lhe com os lábios e a língua todas as dobras e minúsculas refegas. A língua procurava, dardejante, o botão do amor, para logo o abandonar e tentar insinuar-se no interior da vagina ou para lamber todo o comprimento da vulva.

Quando começou a chupar-lhe o clítoris mais vigorosamente, como se o quisesse sugar e engolir, ouviu-a dizer:

– Meu senhor… Posso-me vir?…

Ricardo nunca tinha imposto a Mariana que pedisse autorização para ter orgasmo e agora ela própria, sem que ele entendesse bem porquê, inaugurava esta regra.

– Não, minha escrava, não podes.

Mas continuou a beijá-la até já não poder distinguir se os sons que ela fazia eram de prazer ou de sofrimento. Por fim, cansado, parou, e começou a percorrer com os lábios e a língua o caminho oposto ao que tinha feito antes até lhe chegar de novo à boca, que beijou, enleando a língua na dela apaixonadamente. Só então se levantou, devagar, mantendo a boca unida á dela e esperando até ao último segundo para a largar.

– Espera um pouco – disse, e dirigiu-se para o quarto.

Saiu de lá pouco depois, competemente nu, e trazia na mão uma fita vermelha que Mariana reconheceu imediatamente: era a prenda que ela lhe tinha dado por ocasião dum encontro anterior, também em Brugges.

– Dá cá as mãos.

Mariana estendeu-lhe as mãos com os pulsos cruzados. Ricardo atou-as rapidamente com uma ponta da fita, mandou-a esperar, foi ao trolley buscar a máquina fotográfica e começou a ordenar-lhe que assumisse poses: de joelhos, posternada, exibindo as marcas e as equimoses da vergasta, de pé, com os braços erguidos, mostrando os pulsos amarrados… Mariana acedia a tudo, obediente, meiga, apaixonada. Ricardo apercebeu-se nela dum estado de espírito invulgar: um dengue, uma excitação, um roçar-se por ele como que por acaso, uma intensidade, uma atenção ardente ao momento vivido…

– Não me deixaste ter orgasmo… Meu amor…

Isto disse Mariana a certa altura, baixando os olhos, num momento em acabava de se ajoelhar e mostrava à objectiva os pulsos atados. E Ricardo sentia nela, por baixo da mansidão e da obediência, o fogo larvar dum desejo que se satisfazia na insatisfação.

Quando acabou de a fotografar, não a desamarrou: mandou-a deitar de costas no tapete e amarrou a outra ponta da fita de seda ao cano do aquecimento, no ponto em que este saía do chão. Estendido sobre ela sem lhe fazer peso, voltou a beijá-la e começou a percorrer-lhe o corpo com as mãos numa carícia firme como se faz aos animais.

– Meu senhor…

– Diz.

– Vais possuir-me?

– Vou, sim, minha escrava.

– Queria pedir-te…

Ricardo apertou-lhe o seio esquerdo e chupou-lhe o mamilo antes de a encorajar a continuar:

– Querias pedir-me…

– Queria pedir-te que fosses meigo. Estou tão dorida de ontem…

Ricardo deu uma risada:

– Vou ser meigo, sim. Até porque eu também estou dorido, tenho tudo em carne viva…

Mariana já tinha as pernas abertas: Ricardo penetrou-a numa carícia longa e, sem chegar a ir até ao fundo, começou a mover dentro dela a ponta do pénis, beijando-a ao mesmo tempo profusamente nos lábios e nos seios. Com as mãos amarradas, Mariana não o conseguia abraçar, por isso o envolvia com as coxas, acariciando-lhe com os calcanhares a barriga das pernas e a parte de trás dos joelhos.

– E desta vez posso vir-me, meu senhor?

– Não, minha escrava, não podes. Ocupa-te só do meu prazer.

No gemido que Mariana soltou misturava-se um imenso lamento com um prazer novo, um prazer que ela não conhecia. Começou a mover as ancas e a tentar controlar os músculos da vagina de maneira a apertar e a chupar o sexo do amante, a dar-lhe o prazer que ele lhe exigia e ao qual tinha obviamente todo o direito, a erguer os seios de encontro ao peito dele para o acariciar brandamente, até que o sentiu acelerar os movimentos e ejacular dentro dela com um gemido que parecia, também ele, um lamento.

Admirou-se por não sentir frustração nem ressentimento por não ter gozado, mas sim uma enorme vontade de continuar a servir. «Serei na verdade assim tão fêmea e tão escrava?», pensou; e quando o dono rolou de cima dela para o chão começou a chegar-se para ele, a acariciá-lo com as pernas e com os pés, já que tinha as mãos amarradas. Todo o corpo dela era movimento, e todos os seus movimentos iam no sentido de se chegar ao dono, de o acariciar, de lhe suplicar um toque ou uma palavra. Lembrou-se de ter dito uma vez a Ricardo que ele a tinha «desligado»; pois bem, agora estava «ligada», com toda a sua energia de fêmea apaixonada a fluir-lhe no corpo e todos os sistemas a funcionar em alerta máximo.

– Desamarra-me, meu senhor…

Assim que Ricardo a desamarrou Mariana começou a fazer-lhe festas e beijá-lo por todo o corpo

– Estou tão louca… Não me deixaste ter orgasmo, e estou tão louca…

– É, estou intrigado com uma coisa… Porque é que me pediste autorização? Eu por mim era capaz de nunca me ter lembrado de to proibir– disse Ricardo..

– Não sei o que é que me deu. Disseste-me muitas vezes que uma escrava não tem direito ao prazer, se calhar foi por isso.

– Disse, e tu concordaste. Mas fizeste bem em lembrar-me … De hoje em diante tens que pedir sempre autorização.

Mariana revirou os olhos e fez uma careta, logo desmentida pela grinalda de beijos com que cobriu o peito do amante:

– Oh, não, o que é que eu fui dizer! – exclamou, numa aflição fingida. – O que pode uma pobre escrava fazer para servir o seu senhor, se ele até até a proíbe de se vir?

– Uma pobre escrava, não sei, mas se esta rica escrava que aqui está está assim tão empenhada em servir o seu senhor, pode muito bem ir para a cozinha, por exemplo, e fazer o jantar para ele, que está cheio de fome…

Mariana, a rir-se, começou a bater com os seus pequenos punhos no peito de Ricardo

– Cafajeste… sem vergonha… Escravidão é escravidão, não é?!

– Pois é… – disse Ricardo.

E quando viu Mariana levantar-se quase de um salto, vestir o roupão, entregar-lhe o dele e dirigir-se à cozinha, acrescentou:

– E descalça, se fazes favor. Não quero cá essa história de tijoleira fria, como de manhã. Lugar de fêmea é descalça na cozinha.

Mariana deteve-se o tempo suficiente para lhe deitar a língua de fora, mas afastou com o pé as chinelas que estavam no chão à saída da sala.

De dentro da cozinha levantou a voz:

– Tenho aqui Quiche Lorraine, é só pôr no micro-ondas. Queres?

– Pode ser, gosto bem de quiche. E o vinho de ontem ainda deve estar bom, era uma pena deitar fora uma garrafa quase inteira.

Ao pôr a mesa, ao servir o jantar, durante a refeição, Mariana continuou a exibir o comportamento que tanto intrigava e encantava Ricardo. A todas as oportunidades havia um seio a roçar um braço, ou então apenas um sorriso, um suspiro, um baixar de olhos, um rubor…

– Anda cá, escrava.

– Para quê?

– Anda cá. Levanta a saia.

Quando Mariana chegou junto dele Ricardo introduziu-lhe a mão entre as coxas.

– Estás toda molhada…

– Pois estou… Não me deixaste vir, patife…

– Não estás bem?

– Estou bem, estás farto de saber que estou mesmo muito bem… Não sei como é que isto me pode dar tanto prazer… Mas se daqui a pouco eu entrar em combustão espontânea, já sabes porque foi. Nunca te devia ter pedido autorização.

– É… Pela boca morre o peixe… Mas não te preocupes: amanhã não vai acontecer o mesmo porque vais ter castigo em vez de sexo.

– Está bem… Podes castigar-me, mas também quero sexo.

– Também, o quê?

– Eu sei, não tenho quereres. Vou dizer doutra maneira: também gostava que o meu senhor possuísse a sua escrava. Está bem assim?

– Melhor. Mas ao castigar-te também estou a possuir-te, não te esqueças. Em todo o caso, o castigo amanhã é por ser o nosso último dia. Quero deixar-te marcas que durem até ao próximo encontro.

– Sim, meu querido, também quero ficar marcada. Mas para as marcas nunca desaparecerem o melhor era eu fazer uma tatuagem…

– E hás-de fazê-la, com as minhas iniciais.

Antes de responder, Mariana bebeu um gole de vinho.

– Hmmm, isso deixa-me louca… Louca para ser possuída outra vez pelo meu senhor…

– Primeiro vamos acabar de jantar. E desconfio que mesmo depois disso vais ter um bocado de trabalho para me provocar outra erecção.

O jantar foi rápido, e Mariana arrumou a cozinha num instante. Quando regressou à sala encontrou Ricardo sentado no sofá. Sem hesitação nem preliminares ajoelhou-se no tapete à frente dele, afastou-lhe para os lados as abas do robe e tomou-lhe o sexo na boca. Assim que sentiu bem rijo, atirou o roupão para cima do sofá deitou-se de costas no tapete:

– Anda…

Entre o momento em que saiu da boca da amante e o momento em que se colocou entre as coxas dela em posição de a penetrar, Ricardo quase perdeu a erecção: Mariana teve que o chupar de novo para que ele finalmente lhe penetrasse a vagina – com o pénis um pouco flácido, mas que uma vez dentro dela recuperou a rigidez dos embates anteriores. Estavam ambos bastante doridos, mas mesmo assim Ricardo possuiu Mariana sem hesitação ou demora, indo e vindo nela até que a viu ficar vermelha: primeiro a cara e depois o pescoço, o peito e os seios. Viu-a abrir a boca como se fosse gritar, ouviu-lhe a rápida e forte inalação de ar, cavalgou-lhe o frenesim urgente dos quadris e finalmente assistiu, empolgado, ao gozo da sua escrava: um orgasmo sumptuoso, uma convulsão sísmica que lhe soltou todas as energias acumuladas no corpo e na alma desde que ele a tinha mandado deitar no sofá duas horas antes.

O dia seguinte amanheceu com bom tempo. Algumas nuvens, poucas, juntavam-se ocasionalmente e faziam chover umas raras gotas de água. Ricardo e Mariana foram passear para junto do canal e dos moinhos de vento: ele de calças castanhas com vinco, pullover cor de mel, casaco de cabedal castanho escuro e chapéu de feltro, ela de saia comprida, blusa de seda e casaquinho vermelho. Almoçaram num pavilhão com vista para o canal, conversando sobre o fim de semana que projectavam passar em Paris quando o tempo estivesse um pouco mais quente.

Lá fora a relva estava húmida e muito verde.

– Apetecia-me descalçar-me e correr nesta relva – disse Mariana.

– E a mim apetecia-me mandar-te descalçar.

– Mas não posso, estou de collants e não posso tirá-los diante de toda a gente.

– De collants?! Na presença do teu dono?! Vais mas é já ao quarto de banho para os tirar, e de castigo não voltas a calçar-te hoje.

Mariana ainda alegou o frio, o incómodo, as pessoas à volta; mas acabou por obedecer, um pouco embaraçada no princípio, mas pouco tempo depois corria o jardim descalça com a singeleza impudente duma criança à solta. Ricardo não voltou a permitir-lhe que se calçasse nem no jardim, nem no caminho de casa. E se no jardim o espectáculo duma senhora bem vestida mas de pés nus pareceu banal a quem o viu, o mesmo não se passou percurso que mais tarde fizeram de braço dado nas ruas cheias de gente. Mas o garbo altivo de Ricardo desarmava os olhares e, comunicando-se a Mariana, convertia-lhe o pejo em euforia.

Jantaram pelo caminho. Quando entrou em casa Mariana levava os pés gelados. Mas antes de ir tomar um duche quente ainda se apresentou diante de Ricardo com uma bacia de água quente para lhe lavar os pés cansados, lhe calçar os chinelos, lhe servir uma bebida e lhe acender um charuto.

Depois de tomar duche não se vestiu, envolveu-se em véus transparentes e dançou para ele, tirando-os um a um.

Ricardo assistia beberricando o seu whisky e puxando uma fumaça ocasional. Só os olhos a rir denotavam a atenção com que seguia todos os movimentos da sua amada.

– Vem cá.

– Sim, mas ainda me deves um castigo – disse Mariana.

E Ricardo viu que sem ele notar ela tinha ido ao quarto buscar a vergasta vermelha e lha tinha posto ao alcance da mão.

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Felizmente a exposição tinha terminado. Mariana tinha levado para casa os quadros que tinham ficado por vender (poucos, felizmente), e o galerista tinha ficado de entregar os outros aos respectivos compradores. Para já, não estava com vontade de recomeçar a pintar. Brugges, no fim da Primavera, estava florida e verdejante. As trovoadas dos últimos dias estavam a dar lugar a dias cada vez mais luminosos e Mariana aguardava, numa feliz e serena expectativa, a sexta-feira, dia em que tinha combinado com Ricardo encontrar-se com ele em Paris, na Gare de l’Est.

Ricardo tinha marcado um quarto num hotel muito próximo da estação. O comboio dele tinha chegado cerca de meia hora antes do dela, e logo que se apeou Mariana viu o amante no cais, aproximando-se dela e sorrindo. Abraçaram-se, ela erguendo-se um pouco na ponta dos pés para lhe chegar aos lábios, ele inclinando um pouco a cabeça. O beijo demorou muito tempo, tanto quanto o necessário para preencher os meses de ausência precedentes; no fim, Ricardo acariciou os cabelos e a face de Mariana e deu-lhe a mão a beijar, o que ela fez num movimento rápido depois de olhar à volta e ver que ninguém parecia estar a reparar neles.

Mariana trazia uma saia comprida e rodada, ao estilo do que com o tempo se tinha tornado o seu traje de escrava; e, de acordo com o mesmo código, não trazia soutien, como Ricardo verificou, agradado, ao passar-lhe a mão pelas costas; mas não vinha descalça, trazia os pés enfiados numas socas que a faziam parecer mais alta.

Saíram da estação por uma porta lateral, a que ficava mais perto do hotel. No quarto, demoraram a desfazer as malas porque havia sempre mais um beijo ou uma carícia que interrompia a tarefa. Ricardo tirou da mala a vergasta vermelha que levava sempre quando ia ver Mariana e colocou-a bem visível sobre a escrivaninha. Para limpar o suor e o pó da viagem tomaram um duche rápido, um de cada vez, e vestiram os roupões de cetim que tinham trazido e que já faziam parte do seu ritual – o dela branco-marfim, o dele vermelho escuro com riscas verticais cor de creme.

Os roupões, de resto, pouco ocultavam. A Ricardo, sentado na pequena poltrona do quarto, as abas abriam-se dos lados, descobrindo-lhe as coxas. Mariana, ao ajoelhar à frente do amante, pôde ver-lhe o sexo já meio erecto, ao mesmo tempo que lhe mostrava no decote bambo os seios nus.

Pouco tempo gastaram em carícias, porém. Mariana mal tinha aflorado com os lábios o sexo do dono, e Ricardo mal tinha sopesado os seios oferecidos da sua escrava, quando esta se levantou, despiu o robe e se deitou de costas sobre a cama:

– Vem…

– Sim, minha escrava.

E deitou-se sobre ela para lhe beijar a boca e para logo a seguir a penetrar com uma única estocada que a magoou um pouco.

– Vou vir-me já, minha escrava, não vou aguentar.

– Sim, meu querido, vem-te já, dá-me tudo.

Mas apesar da rapidez com que Ricardo atingiu o orgasmo, Mariana também teve o seu, apesar de nada ter feito por isso e de ter dedicado todos os seus movimentos ao prazer do amante.

Assim ficaram uns minutos, parados, trocando beijos, Ricardo descansando sobre Mariana, o sexo ainda a desintumescer dentro dela, como gostavam os dois.

Da conversa que tiveram na sesta não conto, porque foi igual a todas as que os meus leitores experimentaram na mesma situação. Direi apenas que conversaram entre beijos e carícias, e que passado algum tempo o sexo de Ricardo começou a endurecer e a crescer de novo dentro de Mariana; que esta, sentindo-o, rolou para cima do amante e começou a encorajá-lo com pequenos movimentos rotativos dos quadris; e que desta vez o amor que fizeram se prolongou o suficiente para lhes deixar os corpos macerados e exaustos de prazer.

Por fim sentiram fome; mas, como não lhes apetecia comer em público num restaurante e o hotel não tinha room service, voltaram a lavar-se, vestiram-se e desceram à rua. Nas imediações da Gare de l’Est há ainda pequenas mercearias, lojas de fruta e padarias: compraram pão, fruta, queijo, patés, água e vinho e fizeram um piquenique a dois no quarto enquanto iam desfazendo as malas e arrumando as roupas nos cabides. Ricardo tirou da mala a vergasta que Mariana já conhecia, uma vara flexível, muito bonita, revestida a seda vermelha com a ponta e o punho em cabedal preto, e colocou-a em lugar visível sobre a secretária.

Arrumado o quarto e tomada a refeição, desceram e foram passear para a rua. Começaram a andar na direcção de Pigalle: era longe, mas não tinham pressa, ainda era de dia e o tempo estava bom. Comparada com Brugges e com Heidelberg, Paris pareceu-lhes bastante suja, mas na disposição em que estavam de ter prazer em tudo essa sujidade não foi para eles incómodo. Subiram o Boulevard Magenta divertindo-se como dois adolescentes com tudo o que viam, percorreram Rochechouart aos beijos, passaram o Moulin Rouge e ao anoitecer estavam sentados à mesa, de mãos dadas, num pequeno bar onde uma banda jazz tocava clássicos dos anos quarenta. Já era de noite quando prosseguiram a caminhada até ao fim do Boulevard de Clichy.

De repente deu-lhes a pressa. O corpo de cada um deles pedia o do outro, colado contra si a todo o comprimento. Tinham que ir para o hotel, já, já, sem demora. Tomaram o primeiro táxi que viram, pagaram exageradamente ao motorista, subiram ao quarto e despiram-se atabalhoadamente um ao outro. Por fim, nus, recomeçaram o ritual de beijos e carícias que tinham iniciado no táxi. Nessa noite Ricardo não amarrou Mariana, nem usou nela a vergasta, limitou-se a possui-la uma vez sem contemplações nem piedade, e depois outra vez, com ternura e cruel requinte, no intervalo duma conversa de travesseiro que durou pela noite fora.

No dia seguinte, logo de manhã, foram os dois passear pela cidade. O tempo estava de primavera, um pouco fresco mas com uma promessa de calor para a tarde. As nuvens que no dia anterior tinham visto durante a viagem tinham-se reduzido a uns poucos farrapos muito brancos atrás dos quais o sol raramente se escondia. A luz – a luz era a luz de Paris, inconfundível com a de qualquer outra cidade, uma luz que tinge tudo em que toca dum cinzento nacarado quase branco. Ricardo trazia um blusão de cabedal preto sobre uma T-shirt branca e uns jeans, Mariana uma saia vermelha até aos pés e um top translúcido de seda cinzenta, forrado à frente. Por cima trazia um casaquinho branco e nos pés as socas do dia anterior. Tomaram o Metro para a Place de la Concorde, andaram nos jardins do Louvre e nas Tuilleries, observando os parisienses e os turistas que bebiam refrescos nas esplanadas ou tiravam fotografias junto às fontes.

Subitamente, a meio da ponte de La Concorde, Ricardo exigiu que Mariana se descalçasse, o que ela fez prontamente e entre risos, mas corando um pouco e olhando à volta a ver se alguém reparava. Ele próprio guardou as socas da amante no saco que trazia a tiracolo, tirando-lhe assim a possibilidade de se calçar de novo sem pedir primeiro; Mariana mostrou-se um pouco mais envergonhada do que já estava, mas não se opôs e passado uns minutos estava de novo risonha e descuidada, pendurando-se animadamente no braço de Ricardo enquanto percorriam um pouco do Boulevard Saint-Germain para depois voltar à esquerda de novo em direcção ao rio.

Nas imediações do Museu d’Orsay, numa esplanada, almoçaram; durante o almoço Ricardo permitiu que Mariana se calçasse o tempo suficiente para entrar no restaurante e ir à casa de banho, mas ao mesmo tempo ordenou-lhe que virasse o top de trás para a frente de modo a que o forro ficasse atrás e se vissem os seios à transparência. Mariana protestou um pouco contra esta exigência do seu dono, mas ele sorriu: sabia muito bem que o protesto era um pró-forma, que se ela própria não tivesse mencionado logo de manhã essa possibilidade que o top oferecia não seria ele a dar-se conta dela… e de qualquer modo, com o casaquinho branco vestido mal se notava, como mal se notavam os pés nus por baixo da saia comprida.

Antes de entrarem no museu estiveram os dois sentados nos degraus da entrada lateral, a comer gelados. Nesta posição a saia vermelha de Mariana subia-lhe um pouco pelos tornozelos acima, revelando os pés nus; e Ricardo mandou-a tirar o casaco. Um turista consentiu em fotografá-los juntos: Ricardo sentado um degrau acima de Mariana, as sacolas e os casacos pousados, o top dela mais transparente na fotografia do que parecia ao vivo. Mariana aparece risonha e um pouco envergonhada, a tapar a boca com a mão.

– Posso calçar-me? Não me vão deixar entrar descalça no museu…

– Vamos ver – respondeu Ricardo.

– Mas ao menos visto o casaco…

– Está bem.

À entrada os funcionários mostraram a mais gaulesa das indiferenças perante o traje da visitante. As socas ficaram no vestiário, dentro de um dos sacos, e Mariana descobriu, como havia de confessar mais tarde, que não há maneira mais íntima nem mais confortável de percorrer um museu do que fazê-lo assim, de pés nus sobre o chão polido.

Bem mais áspero era o pavimento na rua. Sobre as pontes de La Concorde, des Invalides, Alexandre III, de l’Alma, Ricardo fotografava Mariana, sempre em movimento, caminhando em direcção a ele ou de perfil, porque se ficasse parada a saia comprida lhe ocultaria os pés. Mariana vestia o casaco sempre que chegava a um lugar com muita gente, não queria mostrar os seios à transparência sob o top cinzento, mas Ricardo estava sempre a ordenar-lhe que o tirasse e ela obedecia, um pouco corada mas sem que isso lhe custasse por aí além.

Por fim habituou-se aos olhares que atraía (poucos e discretos, para dizer a verdade), ou esqueceu-se de sentir vergonha, ou começou a sentir prazer na liberdade do corpo sob o céu primaveril. Atravessou a Place de La Concorde de braço dado com o dono e começou a ver com ele as montras dos antiquários e dos joalheiros na Rue de Rivoli, tão à vontade na sua nudez que foi ele que se lembrou, quando as sombras se começaram a alongar, de a mandar vestir o casaco e de lhe devolver as socas.

Jantaram por ali num pequeno restaurante. Comeram magret de canard e beberam vinho da Borgonha, um Châteauneuf du Pape que devolveu a Mariana, pouco habituada ao álcool, a animação que crepúsculo lhe tirara. A refeição foi rápida porque Ricardo tinha bilhetes para o Crazy Horse e ainda precisavam de ir ao hotel mudar de roupa. Mariana tinha um vestido roxo transparente, com um forro opaco da mesma cor, que tinha comprado numa boutique em Brugges durante um passeio com Ricardo. Calçou umas sandálias prateadas de salto alto, vestiu umas cuequinhas minúsculas de renda lilás e não pôs soutien porque Ricardo não lho autorizou. Com aquele vestido e aquelas sandálias não podia usar dourados: pôs um discreto colar de pérolas, uns brincos de prata, e uma pulseira de escrava também de prata. Ricardo trocou os sapatos desportivos por uns pretos, vestiu umas calças com vinco, uma camisa azul clara e um casaco de cabedal castanho-escuro.

Na recepção do hotel pediram que lhes chamassem um táxi. Ricardo imaginava que o Crazy Horse ficava na zona de Pigalle, nas imediações do Moulin Rouge, mas o táxi levou-os em vez disso para a zona de l’Étoile, não muito longe da Avenue Foch, dos hotéis de luxo e das embaixadas. Um arrumador vestido de smoking conduziu-os aos seus lugares – não em mesas, como tinham imaginado, mas num anfiteatro, com pequenas superfícies à frente das poltronas para os espectadores pousarem as bebidas. O palco era muito mais pequeno do que parecia na televisão, mas, como puderam ver ao longo do espectáculo, dispunha de condições técnicas dignas de qualquer grande sala.

Bonsoir, Monsieur-Dame. Vous désirez?

Two screwdrivers, please – respondeu Ricardo em inglês.

Parfaitement, Monsieur.

Mariana quis saber o que era um screwdriver:

– Isso não quer dizer chave de parafusos?

– Sim, mas também quer dizer vodka com sumo de laranja – respondeu Ricardo. Só não pedi vodka-orange porque não quis falar com este fulano na língua dele.

– Ora aí está uma boa regra – comentou Mariana.

Bebeu um trago e perguntou:

– Porque é que um vodka-laranja se chama chave de parafusos?

Because it makes you screw like crazy after you drink it.

Mariana engasgou-se de riso:

– Isso é uma promessa?

– Não, é uma lei da natureza. Logo vais ver.

O espectáculo centrava-se nos efeitos de luz sobre os corpos nus das bailarinas pelos quais o Crazy Horse é famoso, mas incluía também números de cabaret, de ilusionismo, de acrobacia e de comédia. Ao ver um dos números Ricardo e Mariana tiveram dificuldade em conter o riso porque as bailarinas vinham cobertas por uns vestidos transparentes iguais o dela, só com a diferença de não terem forro e de elas estarem completamente nuas por baixo.

Por esta altura já Ricardo e Mariana tinham bebido o seu segundo e último screwdriver. Quando o espectáculo terminou pouco depois, saíram os dois abraçados para a rua, onde tinha começado a chuviscar. Enlaçaram-se sem querer saber da chuva, Mariana colou-se toda ao seu dono, ao seu amante, com os braços à volta do pescoço dele e um pé no ar, na pose clássica dum beijo cinematográfico.

Só depois trataram de arranjar táxi. No banco traseiro do carro, perdidos de riso e de tesão, caíram um sobre o outro. Ricardo ordenou a Mariana que se soerguesse no banco e tirou-lhe as calcinhas, que guardou no bolso do casaco. Depois pôs-lhe a mão direita entre as coxas de modo a que o motorista não visse e começou a acariciar-lhe o sexo, que encontrou alagado.

Mariana teve que se conter para não gemer de prazer. O motorista olhava para eles de vez em quando pelo espelho retrovisor, aparentemente imperturbável, mas era impossível que não se desse conta. Com a sua mão pequenina procurou a saliência nas calças de Ricardo: em parte porque não cabia em si de impaciência, em parte porque o queria distrair da concentração que ele punha em masturbá-la. Um orgasmo ali, num táxi, com o motorista a ver e a ouvir tudo, não podia ser!

O carro seguia a toda a velocidade, cortando as esquinas, às vezes derrapando um pouco, e desmentindo assim a aparente impassibilidade do chauffeur. Depois de os deixar no hotel e receber o preço da corrida o homem arrancou bruscamente, com um chiar de pneus que exprimia o que pensava de semelhantes passageiros. Ricardo e Mariana conseguiam cada vez menos conter o riso: quebrar o cool dum taxista parisiense não é façanha para qualquer um.

Atravessaram assim o átrio do hotel, hílares e abraçados, perante o ar de divertida tolerância do concierge, sem reparar que as calcinhas de Mariana estavam meio caídas do bolso de Ricardo. No quarto, depois de se terem arranjado os dois e de Ricardo ter vestido o roupão, Mariana fechou-se na casa de banho para emergir uns minutos depois com as mesmas sandálias, as mesmas jóias e o mesmo vestido que tinha levado à rua – mas desta vez sem o forro opaco.

– Agora vai haver outra vez Crazy Horse – anunciou.

Ricardo não resistiu a pegar na máquina fotográfica e registar o riso solto da sua escrava, a cabeça lançada para trás, o corpo visto à transparência por baixo do vestido. Capturou-a encostada à porta numa pose de vamp, no meio do quarto a dançar o Charleston, junto à janela a olhá-lo por cima do ombro com os olhos semicerrados. Depois fotografou-a a despir-se: primeiro a tirar os brincos – um dos gestos mais excitantes que uma mulher pode fazer; depois as outras jóias. Ao tirar as sandálias, Mariana atirou-lhe um beijo:

– Pronto, aqui tens de novo a tua escrava descalça.

Ricardo sorriu:

– Ai é? Então amanhã vou querê-la descalça o dia inteiro.

– Julgas que não sou capaz? Eu sou capaz de tudo.

Dum gesto só tirou o vestido. Sentou-se na cama toda nua ao lado do amante e abraçou-se a ele, que a comia com beijos. Abriu-lhe o roupão para lhe procurar e acariciar o sexo erecto, abriu as pernas à mão que lhe subia pelas coxas e retribuiu-lhe apaixonadamente todos os beijos, lábios com lábios e língua. Mas quando ele a quis montar, disse-lhe:

– Espera.

E saltou agilmente para fora da cama, para junto da secretária onde repousava, esquecida, a vergasta vermelha.

– Toma, meu senhor – disse ao amante, estendendo-lha com ambas as mãos. – Castiga a tua escrava.

Se ao perscrutar a sua amante ajoelhada Ricardo a tivesse visto de olhos baixos, como sugere a convenção, não teria pegado na vergasta que ela lhe oferecia. Mas deparou-se com um olhar directo e frontal que não era desafio nem prece, mas sim confiança e certeza. Levantou-se da cama, mal reparando que ao fazê-lo açoitava sem querer, com o pénis erecto, a face da sua amada. De pé diante dela ordenou:

– Então beija a vergasta.

Depois mandou-a deitar de bruços na cama e começou a açoitá-la nas nádegas. Cada açoite deixava uma marca vermelha escura na pele morena. Mariana estremecia ao ouvir cada silvo e gritava baixinho a cada golpe, virando para Ricardo uns olhos que pareciam perguntar porquê; depois enterrou a cara na almofada e ficou assim, gemendo quando a dor era mais forte. A cada pancada o corpo saltava num espasmo, para logo regressar à posição que lhe tinha sido determinada. Nas nádegas de Mariana os vergões formavam agora um padrão em losangos, vermelhos, ligeiramente salientes. Ricardo passou a alternar as vergastadas que lhe dava nas nádegas com algumas nas costas, até aos ombros que tremiam. Ao fim de uma eternidade terminou o castigo com duas vergastadas nas coxas, uma das quais caiu mesmo na dobra das nádegas e arrancou a Mariana um grito que nem a almofada conseguiu abafar.

Mariana deixou-se estar na mesma posição, com a cara escondida, ouvindo o dono mover-se pelo quarto. Sobressaltou-se apenas quando sentiu um flash, e então virou para a máquina fotográfica o rosto lavado em lágrimas.

– Não me tires fotografias, olha o estado em que tenho a cara.

Mas Ricardo queria uma reportagem completa daquela noite. Fotografou-lhe os olhos macerados, as marcas no corpo, o corpo inteiro. Fotografou-a deitada de bruços, sentada na cama, ajoelhada, beijando o instrumento da sua tortura, símbolo da sua servidão.

Depois desembaraçou-se do roupão, que ainda tinha vestido, e deitou-se de costas todo nu no meio da cama, o pénis rígido e arrogante erguido no ar.

– Anda cá, escrava.

Mariana deitou-se ao lado de Ricardo e começou a beijá-lo na cara, secando as lágrimas com os cabelos, os seus e os dele.

– Meu amor…

Lentamente começou a subir para cima dele, primeiro um beijo na boca, uma carícia no peito com os seios macios, depois uma coxa a cobrir-lhe a perna… Ricardo continuava aparentemente impassível, as mãos cruzadas por baixo da nuca, respondendo só com beijos às múltiplas carícias da amante. Esta, mais afoita minuto a minuto, trepava por cima dele, insinuava-se, beijava-lhe o pescoço e os pequenos mamilos de homem, montava nele por fim, escarranchada, beijava-lhe o sexo com os lábios da vulva e procurava empalar-se nele. Mas ele esquivava-se, fugia-lhe com o corpo e consentia apenas em acariciar-lhe a racha com a ponta do pénis.

Mariana começou então a esfregar-se nele, deslizando o sexo molhado para trás e para diante sobre a grossa, túrgida veia que se estendia da raiz à glande. Mas ele deteve-a:

– Não, minha escrava, assim não. Beija-me com os teus lábios de baixo.

Mariana sentiu vontade de ganir, presa por esta ordem do dono como por uma corrente de aço. Pôs-se a tactear a glande do amante – tão grossa, tão macia! – com os lábios do sexo, com o clítoris, com o vestíbulo e a entrada da vagina, até ao lugar onde teria o hímen se ainda fosse virgem.

Este tormento, este prazer, durou uma eternidade, talvez minutos, talvez horas, até que Ricardo subitamente tirou as mãos da almofada para a virar brutalmente de costas, lhe cruzar os pulsos delicados, segurá-los numa das mãos, deitar-se com todo o seu peso em cima dela, e penetrá-la de um só golpe que a fez vir-se imediatamente. Mas ainda não tinha acabado de se servir dela: as estocadas com que a possuía repetiam-se, vigorosas, o ventre dele contra o dela fazia um ruído molhado de palmadas, os joelhos peludos obrigavam-na a abrir as coxas mais e mais, até que ao primeiro orgasmo se seguiu outro, e outro, Mariana nunca veio a saber quantos, o último dos dela acompanhado pelo único do amante.

Por fim ele descansou sobre ela, ofegante, todo o peso do corpo sobre ela, a cabeça repousada no ombro macio, chamando-lhe meu amor, minha escrava linda, o pénis a ficar flácido sem sair da vagina. Mariana sorria-lhe entre lágrimas, dizia-lhe «descansa, meu amor», beijava-lhe o cabelo e, apesar de ainda estar aprisionada debaixo dele, acariciava-o como podia.

Por fim um dos dois fez um movimento para se ajeitar melhor e o sexo dele, já completamente flácido, saiu de dentro dela sem que o pudessem evitar. Mariana levantou-se para se ir lavar e Ricardo voltou a deitar-se de costas, desta vez com um braço a tapar os olhos e o sexo caído para a esquerda sobre o ventre, esperando que Mariana voltasse com toalhas, água morna e sabonete para o limpar como ele gostava.

– Agora vou-te lavar, meu querido.

– Sim, minha escrava, mas primeiro limpa-me com a boca…

E quando Mariana, cumprida esta ordem, se ia a levantar, Ricardo acrescentou:

– E beija de novo a vergasta.

– Sim, meu senhor querido.

Mariana pegou de novo na vergasta, da qual tinha as marcas no corpo, mais vermelhas ainda do que imediatamente a seguir ao castigo; ajoelhou-se, fechou os olhos e beijou-a. Depois pousou-a sobre a cama e começou a lavar o seu senhor com delicadeza e ternura até o perfume do sabonete predominar sobre os odores do sexo que permaneciam no quarto. Por fim deitou-se ao lado dele, abraçou-o, e começaram os dois a fazer o balanço do dia, Mariana descalça no Museu d’Orsay diante dos quadros de Manet e Ingres, a blusa virada de trás para a frente, as lojas na Rue de Rivoli, o peito de pato e o vinho da Borgonha, o Crazy Horse, as bailarinas de roxo, o taxista…

Ricardo possuiu Mariana ainda uma vez nessa noite, meigamente, docemente; esvaiu-se nela e adormeceram os dois.

O domingo amanheceu com sol e poucas nuvens. Ricardo e Mariana saíram do hotel de manhã. Faltando à promessa que tinha feito na noite anterior, Ricardo autorizou que Mariana saísse calçada do hotel, mas em troca proibiu-lhe o casaquinho branco – felizmente estava calor – e exigiu que o top cinzento fosse de novo usado de modo a que se vissem à transparência os seios da amante, muito redondos e um pouco grandes para o tórax estreito. Também a saia era a mesma do dia anterior, comprida, vermelha e um pouco pesada no cair.

Tomaram o metro para Les Halles, onde mudaram para a linha que os havia de levar à Avenue Georges V. Aí chegados, Ricardo ordenou finalmente a Mariana que se descalçasse, o que ela fez prontamente e de boa vontade. Perdida por cem, perdida por mil: pôs à cintura uma écharpe às franjas que tinha pensado vir a pôr mais tarde pelos ombros, se Ricardo autorizasse, para tapar um pouco os seios. Desceram a avenida em direcção à ponte de l’Alma, onde já tinham estado no dia anterior, e depois viraram pela Avenida do Presidente Wilson. À sua esquerda, do outro lado do rio, ia-se agigantando a torre Eiffel, mas não viraram na sua direcção. Subiram a Avenue d’Iéna com todos os vagares, com a amante de Ricardo vestida de cigana a meter o nariz nas ruas transversais, onde moram os elegantes e os milionários, e a escolher para caminhar as superfícies mais lisas dos passeios.

No Arco do Triunfo descansaram e comeram alguma coisa. Desceram a pé os Campos Elísios, divertidos com todas as coisas que viam, grandes ou pequenas, desde a arquitectura de Barão de Haussmann até às lojas, aos turistas e aos pardais que depenicavam no chão. A luz que inundava tudo parecia-lhes mais viva por contraste com as sombras decentes e discretas do Seizième Arrondissement, por onde tinham andado de manhã. Mariana parecia já não se lembrar, ou não se importar, com os pés descalços nem com os seios semi-nus. Nem mesmo depois de atravessarem a Place de La Concorde em direcção à Rue de Rivoli, onde as pessoas andam muito mais apertadas e se vêem de muito mais perto, e de um senhor de idade com aspecto de dandy ter tido um pequeno sobressalto de surpresa ao ver-lhe o peito, nem depois disto ocorreu à amante de Ricardo tapar-se um pouco mais. Só ao fim da tarde pediu ao dono que a deixasse pôr as socas, quando já estavam na estação do metro de Les Halles prontos a regressar ao hotel; mas não insistiu quando ele recusou.

Teve só um pouco de vergonha quando atravessou o átrio do hotel. No quarto, a primeira coisa que fez foi tomar um duche, mas não conseguiu raspar completamente das solas dos pés a sujidade acumulada durante um dia inteiro a pisar a poeira e o alcatrão das ruas.

Comeram os dois no quarto, de roupão, sentados na cama: pão, queijo iogurtes e fruta. Depois, como não queriam abandonar Paris sem brindar com champanhe, mandaram vir uma garrafa e duas flûtes, capricho este que lhes ficou por um preço exorbitante.

No momento de brindar Mariana quis beijar de novo a vergasta, que tinha ficado abandonada em cima da cama e que as camareiras tinham arrumado sobre a secretária. À noite o amor que fizeram foi já uma despedida: abraçaram-se com força, beijaram-se com ânsia, e não adormeceram antes que o céu começasse a clarear.

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Sem título

Não dei título a esta imagem que encontrei na net porque não sei
se lhe hei-de chamar «Libertação» ou «Entrega».

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