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Posts Tagged ‘penetração’

Finalmente, mais um excerto do meu romance. Corresponde à segunda metade do capítulo 5.

O tempo tinha arrefecido e foi-lhes agradável regressar ao aconchego do apartamento. Teresa tirou as sandálias e o casaquinho e perguntou a Gustavo:

– Que música queres ouvir?

– Hmmm… – disse ele. – Tens Miles Davis?

– Tenho para aí alguma coisa – disse ela, e pôs-se a procurar entre os CD’s.

Por fim encontrou o que queria.

– Vais gostar disto – disse.

E enquanto a música começava a tocar baixinho dirigiu-se para Gustavo e fez menção de se sentar de novo aos pés dele.

– Assim não – deteve-a ele. – Toda nua.

– Toda nua?! – sorriu ela.

– Toda nua.

Teresa abriu mais o sorriso:

– Se o meu Senhor manda…

E sem mais demora despiu e arrumou toda a roupa que trazia vestida, que se resumia afinal à saia e à blusa. Depois sentou-se na mesma posição em que estivera antes, e enquanto ele lhe ia acariciando ora os cabelos, ora os seios, ora qualquer outra parte que achasse à mão, começou a conversar com ele sobre as trivialidades do dia: as compras dela, a viagem dele, a maçada em que os aeroportos se vão transformando cada vez mais… Por vezes caíam em confortáveis silêncios, durante os quais não faziam mais do que ouvir a música e tocar suavemente um no outro. Quando o CD chegou ao fim Teresa trocou-o e assim ficaram os dois, a embeber-se lentamente da presença um do outro.

– Vamos para a cama? – disse Teresa, quando o viu bocejar.

– Vamos.

– Então anda.

Na casa de banho mostrou-lhe o que tinha previsto para o acolher:

– Este é o teu roupão… as tuas toalhas… os teus chinelos…

Enquanto um tomava duche, o outro lavou os dentes. Secaram-se um ao outro com as toalhas. E por fim, sem que Gustavo se preocupasse em fazer uso do roupão ou dos chinelos que Teresa tinha disposto para ele, dirigiram-se nus para a cama, que Teresa abriu rapidamente e onde colocou duas enormes almofadas.

Na cama abraçaram-se e começaram a percorrer com as mãos e os lábios o corpo um do outro. Desde o primeiro toque Teresa sentiu a erecção de Gustavo, mas como ele não se mostrou apressado ela também não. Via-lhe, porém, as olheiras e os olhos um pouco raiados de sangue: estava cansado da viagem, e da lauta refeição que ela lhe tinha dado.

– Estás cansado, meu Senhor.

Gustavo sorriu-lhe:

– Estou, mas não tanto que não possa fazer as honras à última iguaria deste banquete…

Teresa, apalpando-lhe o pénis, respondeu:

– Isso estou eu a ver. Mas deita-te para trás, queres? Deixa-me ficar por cima e fazer todo o trabalho…

Gustavo deitou-se de barriga para cima no meio da cama, apoiou comodamente a cabeça na almofada, fechou os olhos e dispôs-se a gozar os prazeres que Teresa lhe proporcionasse. Esta passou-lhe uma coxa por cima do corpo, pegou-lhe no pénis e guiou-o para dentro de si, começando a mexer os quadris com movimentos lentos mas seguros. Conforme a inclinação que ela dava o corpo, Gustavo sentia-lhe a carícia, por vezes dos cabelos, por vezes dos seios macios. Abandonando a sua atitude passiva, pôs os braços à volta dela e começou a acariciar-lhe com mão firme as costas, as nádegas e a parte de trás das coxas. Ao sentir estas carícias, Teresa inclinou-se sobre ele e murmurou-lhe ao ouvido:

– Dá-me umas palmadas…

Antes de lhe dar a primeira palmada, Gustavo ainda continuou a apalpar-lhe as nádegas durante algum tempo. Depois ergueu a mão direita a uma altura suficiente para que ela ganhasse velocidade ao descer sobre o corpo de Teresa. Não bateu com força: estava mais interessado no efeito sonoro do que na sensação provocada.

– Sim… – disse Teresa; e começou a beijar Gustavo no peito ao mesmo tempo que soltava os quadris numa dança fogosa.

Com a segunda palmada Gustavo procurou abranger ambas as nádegas de Teresa; esta reagiu como a um choque eléctrico, com um repelão de todo o corpo, e redobrou os beijos apaixonados com que cobria o corpo do amante. Mas a terceira palmada estragou tudo: no momento em que a palma da mão atingiu o corpo de Teresa, Gustavo sentiu uma angústia tão intensa como inexplicável. O ar pareceu-lhe subitamente gelado, o sexo ficou-lhe flácido, e recordou a imagem, que julgava ter esquecido, dum rosto de mulher no Kosovo. Com um som que era em parte suspiro, em parte gemido, e em parte grito de protesto, rolou na cama de modo a sair de dentro da amante.

– Que foi?! – perguntou ela, alarmada. – Que foi, meu querido?!

– Não sei… Não sei bem. Lembrei-me duma coisa, duma coisa de que não devia ter-me lembrado.

Teresa juntou de novo as pernas mas continuou inclinada sobre ele, numa posição de tanta intimidade como a anterior, mas inteiramente doutra ordem. Os seios, pendendo suavemente sobre o peito dele, continuavam a ser um afago; mas agora este afago confortava-o em vez de o excitar.

– Conta-me, meu amor. Conta-me tudo.

E Gustavo contou. A mulher chamava-se Merita. Nunca tinha sido possível apurar a sua idade exacta, mas devia ter entre os vinte e os trinta anos. Quando ele, acompanhado duma psicóloga e duma agente da polícia local, entrou na sala onde ela estava a fim de tomar algumas notas, ela correu para um canto e ficou lá encolhida a olhar para ele com os olhos dum animal acossado. Teve que sair. Explicaram-lhe depois que era sempre aquela a sua reacção na presença de um homem, e que se as duas mulheres o tinham levado com elas era porque tinham tido esperança que ela estivesse a ultrapassar este trauma. A história dela era como a de tantas outras: um oficial das forças de manutenção de paz precisava duma mulher e de um apartamento para a guardar. As máfias locais estavam em posição de lhe fornecer estas comodidades, por um preço razoável. Merita era uma jovem viúva de guerra, sem família nem amigos que a protegessem. Foi fácil raptá-la, adaptar à pressa uma casa isolada e levá-la para lá, e entregar a chave ao cliente. Segundo os testemunhos recolhidos pelos psicólogos, Merita tinha sido, antes de ser raptada, uma mulher voluntariosa e senhora do seu nariz, perfeitamente capaz de regatear duramente no mercado da aldeia e de responder taco a taco a qualquer agressão física ou verbal. A mulher que os soldados, na sequência duma denúncia anónima, encontraram na casa isolada não era nada disto: era um animalzinho aterrorizado, incapaz de se exprimir por palavras, obediente a meia dúzia de ordens específicas dadas em inglês, mas aparentemente incapaz de compreender quaisquer outras palavras, mesmo na sua própria língua. O facto de ela reagir a ordens em inglês permitiu que se descobrisse rapidamente que o oficial em causa era um americano; e como estes tinham as suas próprias estruturas de justiça militar, separadas da estrutura multinacional em que Gustavo estava integrado, o caso passou rapidamente para as mãos deles; e Gustavo, envolvido em muitos outros, tinha-o esquecido até agora.

– Ainda bem que a coisa passou para as mãos deles – disse Gustavo, enquanto Teresa lhe afagava levemente os ombros e o peito. – O tipo acabou por ser condenado a uma pena muito mais dura do que aquela a que nós o condenaríamos. Mas mesmo assim leve demais. E queres saber o que me deu mais volta à cabeça?

Teresa beijou-o ao de leve no peito:

– Diz…

– Fisicamente, esta mulher estava de boa saúde. Consegues imaginar isto? De boa saúde. Um pouco desnutrida, mas veio a saber-se mais tarde que o homem até era cuidadoso com a alimentação dela; ela é que muitas vezes não queria ou não conseguia comer. E não tinha quaisquer marcas de maus tratos: o fulano reduziu-a ao que a reduziu com base apenas em técnicas em pressão psicológica e em palmadas no rabo. Ainda agora não compreendo: vi outras mulheres com queimaduras, com marcas permanentes no corpo com vestígios das torturas mais inconcebíveis, e mesmo assim menos degradadas psicologicamente do que ela. Ela própria tinha suportado, durante a sua vida de casada, maus tratos piores, sem que a sua auto-estima fosse afectada por isto. E este gajo, só com a palma da mão, fez dela o que fez…

Ditas estas palavras, Gustavo calou-se. Teresa, vendo-o perdido em pensamentos, respeitou este silêncio e limitou-se a beijá-lo de vez em quando, enquanto ele a acariciava, quase distraidamente, nas costas.

– Foi disto que me lembrei – recomeçou ele subitamente. – E subiu por mim acima um asco, uma vergonha…

Teresa deixou que o silêncio se prolongasse de novo. Por fim, sem deixar de o acariciar como a um animal nervoso, disse:

– Mas antes de ires para o Kosovo já tinhas feito isto com mulheres…

– Tinha, claro que tinha – respondeu Gustavo.

– E não sentiste nojo, nem vergonha, nem culpa…

– Não, é claro que não. Senti prazer, e elas também.

Teresa recomeçou a beijá-lo e a acariciá-lo sem dizer nada. Quando entendeu que tinha passado tempo suficiente, perguntou-lhe:

– E com a tua mulher?

– Com a Isabel? A Isabel é um caso aparte. É diferente de qualquer outra pessoa que eu já tenha conhecido, homem ou mulher. Parece-me incapaz de sentir dor ou prazer… Não, não é bem isso: sente dor e prazer, mas com muito pouca intensidade.

– Fisicamente, queres tu dizer?

– Fisicamente, psicologicamente, moralmente… De todas as formas. De início não me apercebi disto. Mas com o tempo comecei a acreditar que para ela o único verdadeiro prazer é ter dinheiro e o único verdadeiro sofrimento é não o ter.

– Não é caso único…

– Que eu conheça, é. E depois há outra coisa, que não sei se é impressão minha: o corpo dela parece feito de borracha dura. Tem uma consistência diferente, que parece que não é de mulher nem de homem… Estou a explicar-me muito mal.

– Não faz mal. Continua.

– Uma vez assisti a uma coisa… trilhou-se a fechar a porta do carro. Ficou com um daqueles vergões vermelhos, muito brancos nas bordas… Sabes? Olha-se para aquilo e vê-se logo que causou uma dor horrível.

– E ela?

– Qualquer outra pessoa teria dado um grito, soltado um palavrão, segurado com a outra mão a parte atingida… Ela não. Olhei para a cara dela e o que vi foi uma expressão petulante, de contrariedade, como se alguém ou alguma coisa tivesse falhado uma obrigação qualquer para com ela…

– Deixava-te bater-lhe?

– Quando eu me portava bem, quer dizer, quando fazia alguma coisa que pudesse conduzir a uma promoção, ou a mais dinheiro. Mas deixava-me bater-lhe como me deixava beijá-la, ou fodê-la: tanto lhe fazia. E eu acabei por me desinteressar tanto duma coisa, como das outras. Nos últimos anos do nosso casamento deixámos de ter relações sexuais.

Chegada a conversa a este ponto, pareceu a Teresa que era chegada a altura de menos palavras e mais acções. Os beijos e as carícias que não tinha parado de dar a Gustavo tornaram-se de novo mais deliberados, e ele correspondeu concentrando-se mais no corpo dela. Mas não recuperou a erecção anterior, ainda que o pénis lhe pulsasse um pouco e ficasse meio direito. Teresa deixou que este período de carícias recíprocas se prolongasse como se estivesse disposta a contentar-se com ele a noite inteira. Mas por fim, quando o viu sorriu de prazer, disse-lhe:

– Meu Senhor… Se a tua escrava te pedir muito uma coisa, tu fazes-lha?

– O que é?

– É uma coisa que não vais querer.

– Como assim?! Julguei que os senhores é que pediam às escravas coisas que elas não queriam…

– Não pedem, ordenam. E as escravas obedecem. Eu não te estou a ordenar, estou-te a pedir…

– Seja, estás-me a pedir. E é uma coisa que eu não vou querer…

– Sim.

– E que tu me pedes por uma razão qualquer que não me dizes…

– Sim. Uma boa razão, disso estou certa. Terás que confiar em mim. Terás que confiar muito em mim. Prometes?

Aos ouvidos de Gustavo isto soou como um desafio ao qual se misturava um apelo e uma dádiva. E tinha-se comprometido a aceitar todas as dádivas, mesmo as mais imprevisíveis, que lhe viessem desta mulher imprevisível. Sorriu para si próprio: aquele pedido tão humilde era na realidade uma ordem. Bem merecia esta Teresa o seu nome. Respondeu:

– Sim, Teresa, prometo. Seja o que Deus quiser.

Teresa encarou-o, muito séria:

– Meu Senhor, vês ali, entre a zona de dormir e a de estar, aquela cadeira muito sólida. Repara que não tem braços. Peço-te por favor que me leves até ela, que te sentes, que me estendas de bruços sobre o teu colo e que me dês uma severa e prolongada tareia de palmadas. Peço-te que faças isto mesmo que não tenhas prazer. Peço-te que o faças mesmo que sintas vergonha ou culpa. E não é para eu ficar com as nádegas rosadas: é para ficar com elas vermelhas, vermelhas escuras. És capaz de fazer isto que a tua escrava te pede?

Ricardo afastou para o lado as roupas da cama, com um gesto tão violento que caíram no chão e os deixaram aos dois nus sobre os lençóis. Segurou Teresa rudemente pelos ombros e afastou-a de si a todo o comprimento dos braços, como que para a ver melhor. Fixou nela os olhos irados e encontrou em resposta um olhar sereno e directo. Com um gesto brusco saiu da cama e foi sentar-se na cadeira.

– Anda! – comandou. – De que estás à espera?

Teresa foi ter com ele sem pressa mas sem hesitação. Viu-o rígido na cadeira, a tremer de cólera mal contida. Ainda bem. Era exactamente assim que o queria naquele momento: furioso. Logo que chegou deitou-se de bruços sobre o colo dele e esperou pela primeira palmada. Esta, tal como ela previra, não foi meiga. Nem foram meigas as que se lhe seguiram; cada uma detonava no apartamento como um tiro, e se não fossem as paredes grossíssimas do edifício os vizinhos teriam motivos para ficar intrigados.

Logo aos primeiros golpes Teresa ficou a saber que Gustavo sabia bem castigar uma mulher. Dominada pela dor, mal conseguia estar atenta ao sinal de que estava à espera; mas finalmente sentiu o pénis do amante a enrijar e a erguer-se, obrigando-a a ajeitar-se para criar uma abertura entre o corpo dela e o dele de modo a acomodar esta erecção. As palmadas dadas por um Gustavo excitado não eram mais suaves do que as que lhe tinha dado o Gustavo furioso de minutos antes, mas eram mais espaçadas, mais dirigidas a zonas específicas. A dor, quase intolerável, levava-a a gemer, ou mesmo a soltar um pequeno grito de vez em quando. De que cor teria agora as nádegas? De um vermelho tão escuro como o que tinha pedido? Não sabia, mas o ritmo regular das pancadas indicava que o castigo estava para durar.

Quando ele parou, Teresa ouviu-lhe a respiração arfante e sentiu as pingas de suor que caíam sobre ela. Estava cansado. Mas em vez de terminar o castigo, passou a utilizar a mão esquerda – o que tornaria as palmadas menos dolorosas para Teresa se não tivesse as nádegas já tão sensíveis. Ouviu-o arfar cada vez mais alto, sentiu-lhe o suor cada vez mais abundante, mas mesmo assim as palmadas não pararam durante muito tempo. Teresa já tinha sofrido castigos mais dolorosos do que este, mas todos eles tinham sido aplicados com chicotes ou outros instrumentos. Nunca imaginara que um castigo aplicado com a mão pudesse ser tão severo.

Enfim, uma pausa. Ouviu, vinda lá de cima, a voz rouca, e ainda um pouco zangada, do amante:

– Já chega?

Ai chegava, chegava! E de que maneira! Tinha as nádegas em fogo, e parecia-lhe que não seria capaz de suportar nem o toque duma pena. Mas em vez de responder “sim”, arranjou força e ousadia para dizer:

– Tu é que sabes, meu Senhor.

A estas palavras, Gustavo mudou de novo para a mão direita e assentou-lhe uma série de palmadas que foram com toda a certeza as mais fortes dessa noite. Quantas? Seis, dez, doze; Teresa, perdida de dor, não pôde contá-las. Por fim levantou-se bruscamente da cadeira, sem cuidar que a atirava ao chão. Inclinou-se para lhe pegar por um pulso e puxou-a para a cama, obrigando-a a segui-lo meio a correr, meio aos tropeções. Ao aterrar de costas, Teresa sentiu a dor provocada pelo contacto entre os lençóis e a sua pele dorida. Mas mal teve tempo para soltar um ai, porque Gustavo já a penetrava duma estocada só, fazendo-a estremecer toda com o embate dos corpos. As estocadas seguintes não foram menos rudes, mas ela já não lhe sentiu a rudeza, nem a dor das nádegas doridas a embater na cama, porque desde a primeira penetração foi avassalada por uma sucessão de orgasmos, ou por um só orgasmo interminável, que lhe obliteraram qualquer vestígio de dor.

Gustavo, por seu lado, ao penetrar Teresa, já não estava movido por qualquer vestígio de cólera, mas sim por um puro, inocente desejo, por uma exultação avassaladora. O fogo em que ardia fogo que tinha-o purificado, pelo menos por agora, de toda a vergonha, de toda a culpa e de toda a ira. Dominou-se para prolongar o prazer, mas não tentou dominar o vigor nem a amplitude dos seus movimentos sobre o corpo receptivo da fêmea.

Depois de tudo terminar deixaram-se ficar, fazendo travesseiro e colchão do corpo um do outro. Quando por fim olharam de novo para o rosto um do outro, Teresa sorriu para Gustavo e disse:

– Hmmm… Meu Senhor, se soubesses como eu estava a precisar duma coisa assim…

Gustavo devolveu-lhe o sorriso:

– Eu também, podes ter a certeza.

Teresa deu-lhe uma sapatada de brincadeira:

– Ah, sim?! Andavas precisado, era? E deste conta do que me fizeste?

Ricardo encolheu os ombros:

– As palmadas? Claro que me dei conta. Ficaste com o rabo da cor daquele Barolo que bebemos ao jantar… Aliás, mais daqui a bocado tenciono inspeccioná-lo para ver se já está na cor certa ou se ainda é preciso ajustá-la.

Desta vez Teresa deu-lhe um murro:

– Não estou a falar das palmadas, estúpido! Estou a falar da maneira perfeitamente desaustinada como me possuíste a seguir. Amanhã nem sei se vou conseguir andar. Ou então vou andar por aí de pernas abertas… Achas isto bem?!

– Oops! – fez Gustavo.

– Deixa lá – disse Teresa. – Como já te disse, era disso que estava precisada.

Depois de um breve silêncio Gustavo recomeçou a conversa:

– Só não entendo uma coisa. Disseste-me várias vezes que a dor física não te excita nem te dá prazer…

– E é verdade.

– Mas quando eu te penetrei depois daquela tareia estavas tão excitada que começaste logo a vir-te. Afinal as palmadas excitaram-te ou não?

Teresa suspirou e ficou um momento a ordenar as ideias.

– Olha, Gustavo – disse por fim. – Se aquelas palmadas me tivessem sido dadas por um homem a quem eu não amasse, não me teriam dado prazer nenhum. Sei disto por experiência. Se me tivessem sido dadas para me forçar a uma submissão indesejada, não me teriam provocado outra coisa que não fosse revolta. Entendes isto?

– Claro que entendo.

– O meu prazer não esteve em ser castigada. Esteve em poder ser castigada. Esteve em tu teres esse direito. Nunca mais te pedirei um castigo como te pedi hoje, mas aceitarei sempre com gratidão todos os que me deres, por mais severos que sejam. Não me interessa que mos dês por eu os ter merecido, ou que mos dês porque te dá prazer. Em todo o caso dar-mos-ás porque tens esse direito. É isto que precisas de saber.

– E achas que ainda não sei?

– Não acho, tenho a certeza: ainda não o sabes suficientemente. Mas hoje fizemos progressos: o teu corpo, ao menos, já sabe muito bem que sou propriedade tua.

Estas palavras, disse-as Teresa já num bocejo. Gustavo ia responder-lhe, mas viu que não valia a pena: ela já estava a dormir. Levantou-se da cama, pegou nas roupas que tinha lançado ao chão, cobriu com elas a amante, deitou-se ao lado dela e adormeceu por sua vez.

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Alice chegou virgem ao seu décimo sexto aniversário. Tinha sido este o seu trato com Ricardo e Mariana: acolitá-los nos seus amores e nos seus rituais, mas nunca os tocar sexualmente nem ser tocada por eles. O contacto físico não lhe era proibido quando resultasse duma necessidade prática, como pentear Mariana ou ajudá-la a vestir-se, ou até como expressão casual de afecto, mas enquanto manifestação erótica estava fora dos limites estabelecidos.

Do mesmo modo, ninguém se importava que ela os visse nus no quarto de banho ou na piscina, nem que assistisse sem intervir aos seus amplexos de amantes ou aos seus rituais de Senhor e escrava. Afinal tinha sido isto mesmo que ela tinha pedido para aprender quando tinha reunido toda a sua coragem, anos antes, para se abeirar de Ricardo. Assim, assistiu muitas vezes, aparentemente sem outra emoção que não fosse uma intensa mas remota curiosidade, à penetração de Mariana por Ricardo; à liberdade absoluta com que ele lhe usava a vagina, a boca, a abertura anal, fazendo-a gemer de prazer ou gritar de dor; e até aos castigos físicos, muitas vezes cruéis, que ele a fazia sofrer e ela depois agradecia beijando-lhe a mão.

A tudo isto ela assistia como à mais convencional das rotinas. Porém todos os três sabiam que esta impassibilidade era apenas uma aparência e que por trás dela se escondia um veemente desejo de aprender.

Se Alice entrasse sem bater, como era regra, numa parte da casa onde Ricardo se preparasse para possuir ou punir Mariana, ou onde algum dos dois estivesse despido para o duche ou para o banho de sol, fazia e dizia com naturalidade o que tivesse a fazer ou a dizer, e demorava-se o que tivesse a demorar-se: nem menos, nem mais. A mesma regra se aplicava às gémeas Circe e Atena; e em menor grau a quaisquer criadas que Ricardo e Mariana tivessem ao seu serviço, a quem eram pagos salários elevados em troca desta discrição.

Apesar deste despudor institucionalizado, Alice coibia-se um pouco de aparecer nua perante os donos da casa. Sabia que um dia havia de ter, tal como Mariana, um Senhor, mas este Senhor não seria Ricardo; e não via razão para que este desfrutasse com demasiada frequência da visão de um corpo em cuja posse não estava interessado.

Com Circe e Atena não mostrava o mesmo pudor, nem as gémeas em relação a ela. Deusas, ninfas ou génios tutelares, era-lhes igual mover-se pela casa nuas ou envoltas nos seus panejamentos azul-poeira; ou ainda, revezando-se, vestidas como empregadas domésticas tradicionais, indumentária esta que de tão incongruente lhes dava um ar de deusas ou princesas disfarçadas, como numa comédia barroca.

Por outro lado, diante de deusas qualquer espécie de roupa parece vã e qualquer pudor parece frívolo: daí que Alice aceitasse ser banhada e vestida pelas gémeas com a mesma naturalidade com que Mariana aceitava os mesmos serviços de Alice.

Alice não tinha namorado. Também isto fazia parte do trato que fizera com Ricardo. Na escola as outras raparigas achavam estranho que ela se calasse quando a conversa tratava de namoros e aventuras eróticas. Era uma geração em que as raparigas se gabavam, como em gerações anteriores só os rapazes, das suas proezas sexuais: aventuras reais ou imaginadas, bebedeiras, excessos de toda a ordem, acrobacias inverosímeis, penetrações diversas. Só ela não entrava nestas conversas – ela, e também as bem comportadas, as tímidas, as “chocas”; mas ninguém confundia Alice com estas. O silêncio discreto de Alice não provinha de timidez ou fraqueza; as jovens feras que eram as suas colegas sentiam isto, ainda que confusamente; e como não a sentiam vulnerável não a perseguiam nem atormentavam como com crueldade e gáudio faziam às “chocas”. Pelo contrário, olhavam-na com uma mistura de curiosidade e temor, enquanto ela sorria interiormente do saber rudimentar que elas exibiam como se de sofisticação e experiência se tratasse.

Circe e Atena deambulavam frequentemente, juntas ou separadas, pelo mundo mediterrânico. Eram umas estranhas viagens, que nunca se percebia bem se eram de negócios, de família ou de turismo; corriam deste modo a Europa toda; uma vez foram à Índia, onde Alice viu pela primeira vez gente parecida com as gémeas no corpo, na cor e nas feições; outra vez foram ao Sul de Marrocos, onde Alice viu as mulheres berberes de rosto destapado, com decorações que pareciam tatuagens no rosto e nas mãos; os tuaregues, que também são berberes, vestiam-se como as gémeas, dos mesmos tons de azul. Por toda a parte as duas irmãs aparentavam ter familiares, amigos ou associados: mas um dos seus destinos mais frequentes era a Tunísia, o bairro de Túnis correspondente à antiga Cartago dos Fenícios, e foi aqui que se deu a primeira grande viragem no destino de Alice.

Na estação arqueológica estava quase sempre um rapaz muito novo que pelo aspecto poderia ser um parente próximo das gémeas: tão escuro de pele como elas, mas com as feições e o cabelo de um europeu.

Alice viu-o pela primeira vez nos arredores da estação arqueológica de Cartago, sentado num banco desdobrável, diante de um pequeno cavalete, a desenhar. Ao passar com Circe e Atena em direcção ao alojamento que lhes tinha sido destinado, a adolescente mal teve tempo de reparar nele: um vulto envolto nos mesmos panos azuis e cor de lousa que as suas mentoras habitualmente usavam e que a faziam sentir ridícula nos seus jeans de marca e blusões de couro – roupas europeias, urbanas, industriais, que a isolavam do ar e do mundo à sua volta. O jovem teria talvez dezoito ou vinte anos, mas Alice não teve tempo para o ver melhor.

As gémeas saudaram-no com um aceno, ao que ele respondeu com outro para logo se concentrar de novo no trabalho. Alice não viu o que ele estava a desenhar, mas a única coisa que lhe podia servir de modelo era uma massa de cactos, daqueles cujo fruto a se chama figo do diabo ou figo do inferno. Depois, quando ele lhe foi apresentado – chamava-se Harun e apesar do ar de família não foi mencionado qualquer parentesco entre ele e as gémeas – Alice encontrou-se perante um jovem adulto que, apesar de ser apenas um pouco mais velho do que ela, mostrava a autoridade e a experiência de um homem maduro – um homem que suscitava o respeito e mesmo a deferência de todos os presentes, incluindo as gémeas. Tinha no olhar e na postura a altivez meio selvagem duma ave de rapina: o mesmo orgulho que Alice conhecia em Ricardo, um modo de olhar para ela que só não era insolente porque parecia pertencer-lhe por direito incontestável.

Naquele minuto Alice soube sem qualquer dúvida que tinha encontrado o seu Senhor, e que não tinha errado na sua decisão quando iniciara a sua aprendizagem junto de Ricardo e Mariana.

Alice, a rebelde, a selvagem, a virgem guerreira meio punk e meio gótica; Alice, a rebarbativa, a sarcástica – sentiu-se uma fêmea diante de Harun: uma femeazinha macia e dengosa como tantas a quem sempre desprezara. Nos dias que se seguiram começou a prestar-lhe pequenos serviços: transportava-lhe o cavalete, levava-lhe chá de menta muito quente, que é o que melhor mata a sede nos grandes calores do Magrebe, ou ficava simplesmente sentada na poeira ao lado dele, à espera de lhe poder ser útil de qualquer outra maneira.

Começou a vestir caftan em lugar dos seus jeans e T-shirts, a calçar babuchas mouriscas em lugar dos seus característicos Doc Martens.

E depois, de novo em Portugal, tantas vezes falou de Harun às gémeas, tão repetidamente traiu a fascinação que sentia por ele, que Circe acabou por lhe dizer:

– A menina descanse, há-de ser dele.

E esta expressão, “ser dele”, que a jovem teria desprezado um ou dois meses antes como linguagem de telenovela, parecia-lhe agora apropriada e justa – como era apropriada e justa, não era preciso dizê-lo, aplicada a Mariana e a Ricardo.

Nas viagens que fazia com as gémeas encontrava-se muitas vezes com ele, fosse por acaso ou por desígnio: na Tunísia, em Heidelberg, em Paris, em Brugges. Ou então era ele que visitava as gémeas em Braga, onde Ricardo o recebia como se já o conhecesse de antes.

Às vezes fazia-se acompanhar de namoradas, o que provocava em Alice, que já se sentia com direitos sobre ele, ciúmes terríveis.

– Que direito tem a menina a ter ciúmes? – perguntavam-lhe as gémeas, quando ela, não podendo mais, ousava queixar-se. – Ainda não é dele; e mesmo quando for propriedade dele, ele não vai ser de certeza propriedade sua. Se além da menina ele quiser ter uma, ou duas, ou dez escravas, estará no seu direito, e a menina só terá que se dar com elas o melhor que puder.

− Mas o Ricardo só tem a Mariana – objectava a jovem.

− Pois tem, mas isso é uma decisão só dele, que tem a ver só com a natureza dele. A natureza do senhor Harun pode ser parecida com a do senhor Ricardo neste aspecto, mas também pode ser muito diferente: a menina é que vai ter que se adaptar.

Nada disto diminuía os ciúmes de Alice, exacerbados pelo facto de as suas rivais tratarem Harun com uma deferência que nelas lhe parecia servil e falsa: e iludia-se pensando que se a mesma deferência fosse exibida por ela própria, então seria sem dúvida dignificada e honesta.

Uma destas efémeras namoradas, uma jovenzinha muito loura e muito branca, vestida à oriental, que só falava alemão, pareceu-lhe de todas a mais fingida (ou a mais iludida) com a docilidade exagerada de que fazia alarde, tão contrária ao pendor bravio que Alice sabia ser o seu.

– Não se preocupe – dizia-lhe Circe. – Ele já reparou na menina há muito tempo, embora não o mostre. E quer a menina para ele. Essas namoradas com que a menina o via não passam de submissas: nenhuma foi propriedade dele de verdade como a menina há-de ser.

O que era uma submissa? Alice sabia o que era uma escrava: era uma mulher como Mariana, a quem ela tinha escolhido como modelo e ideal de vida. Mas não sabia o que significava a palvra “submissa” a não ser como adjectivo, e isso era o que tanto ela como Mariana eram em relação aos seus Senhores; e Circe também não a esclareceu. De tudo isto só se depreendia, concluiu Alice, que se estava a preparar qualquer coisa que ela não podia saber mas de que todos em casa de Ricardo tinham conhecimento. Por ela, tudo bem, podia esperar.

Como que para confirmar esta impressão, a certa altura Harun começou a aparecer sozinho. Na Europa não usava a djalaba nem os panejamentos com que Alice o tinha conhecido na Tunísia: em vez disso apresentava-se no traje convencional de um europeu que não quer dar nas vistas: botas Timberland, jeans nem muito novas nem muito velhas, e T-shirt de algodão sem desenhos nem letras. Sobre isto punha, pelo tempo frio, um robusto blusão de aviador; e no resto do ano um blusão em cabedal preto, fino e flexível, sem adornos.

Depressa ganharam o hábito de andar juntos. Calcorrearam, nos seus diversos encontros, as ruas de Túnis, de Braga, de Lisboa, de Heidelberg, de Brugges. Ao princípio caminhavam lado a lado pelas ruas, depois ela foi ganhando o hábito de caminhar um pouco atrás dele – não ostensivamente, como as magrebinas com quem muitas vezes se cruzavam, mas discretamente, a meio passo de distância ou menos. Nos recantos dos jardins, nos vãos das portas, trocaram alguns beijos e carícias, manifestações de afecto que só a pouco e pouco se foram erotizando, e que ao erotizar-se foram adquirindo, por vezes, o carácter de um tributo respeitosamente prestado e graciosamente recebido.

Não foram precisas muitas palavras para que a certa altura se estabelecesse entre os dois um daqueles compromissos de que só os muito jovens são capazes: e se era nítido para ambos, tanto como para quem os conhecesse, que havia entre eles um contrato tácito, era igualmente nítido que não era, nem eles queriam que o fosse, um contrato entre iguais.

Tal como Ricardo e Mariana, também Circe e Atena seguiam com atenção esta coreografia de aproximação recíproca.

– A menina sabe que quando fizer dezasseis anos – disse-lhe Atena um dia – já pode deitar-se com um homem sem que ele vá preso. É a lei aqui em Portugal.

Alice não entendeu muito bem a que propósito veio este aviso, se aviso era. Para ela, a Virgem Guerreira, estas leis eram um disparate. Não se considerava uma “menor”. “Se eu quiser ir com um homem, ninguém tem nada com isso”, pensava; “e depois disso, se eu não quiser, também ninguém me obriga, e se obrigar não são cá precisos polícias nem tribunais para lhe fazer pagar bem caro o atrevimento.”

− É por isso que andam todos a preparar o meu aniversário como se fosse a coroação da Rainha de Inglaterra? – retorquiu, subitamente furiosa. – Decidiram que eu ia ser desflorada no meu dia de anos? E quem é que decidiu isso? A minha opinião não conta?

– Ninguém decidiu que a menina vai ser desflorada – respondeu Atena. – Quanto à opinião da menina, por hoje ainda conta; se vai contar ou não no seu dia de anos, isso depende do que combinar com o senhor Harun daqui até lá. O que se vai comemorar não é a desfloração da menina, que pode acontecer ou não acontecer nesse dia. O que se vai festejar é a menina passar a ser uma mulher aos olhos de todos. E esta festa vai ser só o princípio, depois vão ser precisas outras cerimónias… Esta parte vai ser só entre nós, as mulheres. A senhora também vai ajudar.

No espírito de Alice a ira deu lugar à curiosidade:

– A Mariana? Ajudar em quê? Que rituais são esses?

– Depois verá. Não vai querer entregar-se ao seu Senhor ainda fechada, como uma ignorante…

O décimo sexto aniversário de Alice comemorou-se em Braga, na moradia de Ricardo. Quem tivesse assistido, de fora, à minúcia e vagar dos preparativos poderia concluir que ia haver uma longa lista de convidados. Mas não: de Heidelberg foi convidado o casal Liebknecht, Gunther e Silke, em casa de quem Mariana tinha jantado uma vez. De Túnis veio Harun, claro está; e não podia faltar a tia meio hippie de Alice, ou melhor, tia-avó, que no seu tempo tinha corrido meio mundo para depois tomar conta dela quando a menina deixou de ter outros familiares vivos. Esta tia tinha nome de pedra preciosa: Safira; e da prontidão com que tinha acedido ao pedido de Alice para se confiar à educação pouco convencional que lhe dariam Ricardo e Mariana a adolescente concluiu que o conhecimento de Safira e Ricardo, ou de Safira e Mariana, já vinha muito de trás. Para a ocasião a tia de Alice ataviou-se das suas mais belas sedas indianas – as mais escuras e discretas que tinha, de modo a permitir que a sobrinha brilhasse por contraste. Ao todo eram sete pessoas à mesa, com as gémeas a servir, vestidas de criadas – mas não criadas ocidentais, antes servas turcas de fantasia, com as suas calças de harém, os pés descalços, o fez vermelho na cabeça e o bolero curto que não apertava à frente e deixava ver, ao abrir-se, os seios nus.

Os anos duma mera adolescente preparam-se e comemoram-se geralmente em poucas horas: não foi assim com o aniversário de Alice. O maior esforço e despesa foram para as flores que encheram a casa e para as decorações do jardim. Mas a azáfama mais visível começou no dia anterior, com as compras de última hora e com a necessidade de ir buscar os convidados ao aeroporto.

No jantar de festa Mariana usou, para adornar o pescoço, os pulsos e os pés, minúsculas safiras a condizer com o caríssimo, mas severo, vestido azul. Do mesmo azul a gravata de Ricardo, usada com camisa branca a fato cinzento. Gunther e Silke estavam de preto, como competia ao estilo da sua relação; e contrastando com toda esta severidade, Harun esperava de pé, junto à mesa, envolto numa indumentária sumptuosa de príncipe saudita, à cintura uma adaga com o punho e na bainha cobertos de pedras preciosas.

Alice foi, como lhe competia, a última a entrar na sala. Tal como todas as mulheres presentes, estava descalça; mas os pés mal se lhe viam sob a larga roda do vestido de debutante, todo em tons de rosa. As gémeas tinham gasto horas a lavá-la, a perfumá-la, a vesti-la, a penteá-la, a fazer-lhe uma leve maquilhagem, a enfeitá-la – tiara, brincos, colar, pulseira e uma fina corrente de ouro à volta do tornozelo direito, ligada por uma fiada de brilhantes a um anel no dedo do pé.

Harun recebeu-a, muito formal, à porta da sala de jantar e conduziu-a ao seu lugar à mesa, onde a fez sentar. Um ano antes Ricardo tinha começado a treinar Alice, que nunca tinha bebido álcool, a apreciar vinhos: e hoje ela podia, na sua festa, acompanhar cada prato com a bebida apropriada, um pouco de Chablis no fundo do copo, um tinto precioso do Douro a acompanhar a carne, Porto à sobremesa, champanhe aos brindes. De tudo quase só o suficiente para molhar os lábios. Vieram as prendas: de Ricardo um relógio, de Mariana um conjunto de roupa interior bordada, da tia Safira um caftan em seda, dos Liebknecht um alfinete para usar ao peito, das gémeas uns brincos.

Harun deu-lhe uma pulseira de rubis.

Depois de ela a desembrulhar e pôr no pulso fez-se um silêncio na sala, como se a dádiva desta pulseira, que era no feitio daquelas a que se chama “escrava”, fosse o sinal combinado para algo de momentoso. No meio deste silêncio Harun levantou-se e ficou um momento, pálido e muito grave, a olhar de frente para Ricardo.

– Ricardo – disse Harun, – também eu, apesar de não fazer anos, tenho uma dádiva a pedir. Você sabe que dádiva é, todos aqui sabem. A Alice, que hoje se torna aos nossos olhos uma mulher, tem estado à sua guarda. Eu e ela fomos aprendendo a conhecer-nos; e concluímos os dois, sem margem para dúvidas, que é destino dela pertencer-me e destino meu possuí-la. Sabemos ambos, e agradecemos-lho do fundo do coração, que você nunca quis exercer sobre ela os direitos de um dono, mas também nunca recusou exercer as responsabilidades de um mentor. É nesta sua qualidade que ma entregará, se quiser aceder ao meu pedido − que também é o dela: aqui e agora, diante de todos; para que também ela, como a sua Mariana, tenha o Senhor que quer.

Alice corou um pouco. As palavras que ela própria tinha ajudado a escrever e a decorar soavam-lhe agora, saídas da boca de Harun, como um improviso surpreendente e ousado. Olhando à sua volta, viu todos suspensos da resposta de Ricardo, como se também eles estivessem, de facto, surpreendidos.

Ricardo pôs-se de pé e encarou Harun; mas antes de responder desviou dele o olhar, virou-se para Alice, e perguntou:

– Alice, ouviste o pedido que o Harun me fez. Ouviste-o dizer que é também o teu pedido. Isso é assim?

Alice teve que se esforçar para dizer em voz firme e clara as palavras que tinha preparado:

– O meu Senhor Harun falou por mim, Ricardo. É a ele que quero pertencer.

Mas Ricardo não se virou logo para Harun. Olhando para a tia de Alice, disse ainda:

– Safira, ouviu o Harun pedir-me que lhe entregasse a Alice; podia igualmente ter-lho pedido a si, que é a única familiar que ela tem e sempre foi bem-vinda nesta casa. Por isso quero perguntar-lhe: Consente você também, tal como eu consinto, nesta entrega?

Safira sorriu e acenou, com lágrimas nos olhos.

– Pois bem – decidiu Ricardo. – Vá para ali, Harun, se faz favor, onde todos o possam ver. E tu, Alice, vai até ele; beija-lhe a mão em sinal do teu respeito.

Alice levantou-se da cadeira com as pernas a tremer. Levantando o vestido para não enredar nele os pés, dirigiu-se ao seu companheiro de tantas aventuras, agora quase irreconhecível na sua gravidade de homem feito; e pegou-lhe na mão para a beijar. Era uma mão magra e morena, de dedos finos e longos. Pôs nela os lábios, demoradamente, e depois ergueu o olhar ao encontro do dele, que a abraçou e beijou enquanto à volta da mesa as mulheres enxugavam uma ou outra lágrima.

Nessa noite Alice passou o serão sentada no tapete aos pés de Harun, como Mariana aos pés de Ricardo. Tinha tido um dia cheio: além de se preparar para a festa de anos tinha sido recrutada pelas gémeas – ela que nunca desempenhava tarefas domésticas – para preparar o quarto de Harun. Agora, sentada aos pés dele, lembrava-se que só tinham posto uma almofada na cama. A cama de Ricardo era sempre feita com duas almofadas embora Mariana dormisse muitas vezes no chão aos pés da cama e não ao lado do dono. Alice achava estranho que a cama de Harun não tivesse sido preparada também para ela, mas não ousou perguntar porquê. Cansada como estava, e com sono, não pensou em despedir-se e ir para o seu quarto. Pareceu-lhe que devia seguir o exemplo de Mariana, que por mais cansada que estivesse nunca se ia deitar antes do dono; e por outro lado não sabia o que ainda se esperava dela no fim deste seu dia de aniversário. Claro que se entregaria alegremente a Harun se isso lhe fosse exigido; mas não se imaginava ainda a servi-lo como Mariana fazia a Ricardo. Suspeitava intimamente que tudo isto era um mal entendido, que não passava duma miúda insignificante como as outras, que se iniciam sexualmente com miúdos meio parvos. Harun era um homem, com toda a complexidade e força de um homem verdadeiro. E Alice, mesmo que lhe fosse exigido servi-lo nessa mesma noite – o que faria de bom grado, e com carícias plenas – não ousaria ainda pôr o nome de escravidão à sua relação com ele, uma ligação incipiente que, comparada com o amor de Ricardo e Mariana – enraizado, complexo, variado, inabalável – seria ainda superficial e pobre.

Ao serão não se conversou muito: Ricardo pôs música clássica a tocar bastante alto, optando desta vez, não pela sua preferida música de câmara, mas sim por grandes orquestrações sinfónicas de pendor orientalizante ou exótico: o Bolero de Ravel, os Quadros de uma Exposição de Mussorgsky, as Danças Polovtsianas de Borodin, a Dança do Sabre de Khachaturian, as Czardas de Monti, as diversas marchas húngaras ou turcas de Mozart, Beethoven, Brahms – e naturalmente a peça preferida de Alice, aquela que a tinha despertado para a música clássica: a Sinfonia Fantástica de Berlioz, com toda a sua profusão de danças macabras, missas negras, reuniões de bruxas, procissões nocturnas e marchas para o suplício.

Apesar de ter aprendido a gostar de música clássica, especialmente das grandes composições sinfónicas de pendor místico ou romântico, a música preferida de Alice não era esta. No seu quarto e no MP3 tinha Loreena McKennitt, Enya e os Clannad, os Nightwish, grupos de black metal, Mafalda Veiga entre os portugueses, e ainda grupos tão diversos como The Cult, os Joy Division, os Bauhaus, os Pink Floyd ou os Red Hot Chilli Peppers, ou nomes individuais que iam de Peter Murphy a Frank Zappa; mas na sala e na biblioteca de Ricardo não era isto que geralmente se ouvia e Alice não se sentia lá deslocada.

Gunther e Silke beberam bastante, Safira também. Ricardo, Mariana e Alice só um pouco de vinho, o necessário para fazer civilizada justiça a cada prato. E Harun nem isso, só o champanhe do brinde que Ricardo propôs em honra de Alice, que hoje deixava de ser criança e começava a sua nova vida de mulher. Por insistência de Gunther, cantou-se a seguir ao jantar: uma canção tradicional de estudantes de Heidelberg, da qual pelos vistos todos os mais velhos sabiam a letra. Uma das estrofes ficou particularmente na memória de Alice:

Vivant omnes virgines Faculae, formosae; Vivant et mulieres, Tenerae, amabiles, Bonae, laboriosae, Bonae, laboriosae.

Por fim Harun retirou-se com Ricardo para o escritório deste. Gunther foi para o jardim fumar um dos charutos de Ricardo. Mariana começou a arrumar a sala e a cozinha na companhia de Atena e Silke, mas, quando Alice fez menção de as ajudar, a outra gémea – que ao contrário da irmã tinha trocado o seu fantasioso uniforme de criada turca pelos seus habituais panejamentos azuis – fez-lhe sinal para que a seguisse.

No quarto fê-la despir completamente e ordenou-lhe que se deitasse em cima da cama. Debruçando-se sobre o corpo dela, começou a examiná-la minuciosamente, dos dedos dos pés aos cabelos, tomando notas num pequeno caderno. Por fim ordenou-lhe que se sentasse em frente ao toucador.

– Esta vai passar a ser a sua rotina todas as noites – observou.

Alice obedeceu. O toucador era muito baixo na zona do espelho, e quando a jovem, a uma ordem de Circe, abriu as pernas, viu reflectida a fenda do sexo e os lábios rosados da vulva por entre a pelugem sedosa que a velava tenuemente de negro.

– Olhe bem para si. Veja o que tem a dar ao seu dono. Os pelos em baixo são para ficar: é assim que ele gosta. Depois, quando ele a tiver visto nua, podemos ter que lhes dar outro corte. O cabelo é para crescer. As unhas, vai passar a usá-las curtas e cortadas em quadrado. Esses vernizes pretos ou vermelhos que gosta de usar acabam hoje: a partir de agora serão nacarados ou transparentes, ou rosa pálido. E para já a primeira coisa que vamos fazer é tirar-lhe o verniz das mãos e dos pés.

No toucador estavam já o frasco de acetona e as bolas de algodão que iam servir para isto.

– Chegue o banco para trás, se não se importa – ordenou Circe.

Logo que teve espaço ajoelhou-se aos pés de Alice e começou a remover-lhe meticulosamente o verniz das unhas: primeiro as mãos, depois os pés. Com um leite de limpeza tirou-lhe a maquilhagem escura à roda dos olhos e o bâton cor de sangue que lhe avermelhava os lábios. Feito isto, molhou-lhe o cabelo com um spray, escovou-lho a direito e aparou-lhe algumas pontas mais espigadas, repetindo que aquilo era mesmo para crescer.

– Agora vá lavar os dentes.

Alice assim fez, com pasta e escova e com uma máquina cuja cabeça rotativa lhe limpava todo o interior da boca com um finíssimo mas forte jacto de água.

– Tire os piercings, por favor.

Alice não tinha outros piercings que não fossem um no umbigo, outro na ala do nariz e os brincos, mas mostrou-se renitente:

– Não vou poder usar mais piercings?

– Provavelmente vai – respondeu Circe. – Mas serão os que o seu dono ordenar, e não os que a menina quiser.

Sem resposta para isto, Alice obedeceu.

– Agora um duche – apressou-a Circe. – Ande, mexa-se.

No duche lavou-lhe o cabelo três vezes com champô; depois, com sabonete, o corpo todo, da cabeça aos pés. Para não molhar as roupas tinha-se posto também nua, e Alice sentia-se minúscula junto daquele corpo negro e gigantesco que a dominava completamente. Especial atenção foi dada ao ânus e à vagina: para lavar aquele Circe introduziu-lhe diversas vezes o dedo molhado em sabonete, e depois sem nada, só com o jacto de água do chuveiro. Esta última penetração doeu um pouco, mas Alice fez por não dar mostras disto. Lavar por dentro o sexo de Alice sem lhe romper o hímen exigiu o recurso a um irrigador vaginal com uma cânula muito fina, que as grandes mãos de Circe manejaram com uma delicadeza surpreendente.

“Tanta coisa por causa duma convenção sem importância como a virgindade”, pensou Alice. “Uma membranazinha que não vale nada.” Contudo não deixava de se sentir lisonjeada com a atenção que toda a gente à sua volta prestava à tal membrana, como se todos naquela casa, incluindo a sua tia libertária e meio hippie, tivessem voltado ao século XIX ou à primeira metade do seguinte.

Terminado o duche, Circe secou Alice com uma toalha felpuda e alisou-lhe os cabelos com uma escova. Fazendo-a sentar num pufe, rapou-lhe cuidadosamente os pelos debaixo dos sovacos e depilou-lhe as pernas com cera quente. Depois de lhe observar cuidadosamente as sobrancelhas, decidiu deixá-las como estavam: eram negras, rectas e espessas, mas combinavam bem com os olhos escuros e brilhantes, os lábios carnudos e as duas covinhas aos cantos da boca.

– Posso-me vestir? – perguntou a jovem, quando pensou que a toilette estava pronta. Circe sorriu antes de responder:

– Ainda falta um bocado. Tem que aprender a cuidar de si para o seu dono, sabia?

–E esta toilette toda é para ir ter com o Harun?

– Quando ele a mandar chamar sou eu que a levo. Isto é, se a mandar chamar, pode não se querer servir da menina esta noite. Não é para ir ter com ele que se está a preparar,vai ser assim todas as noites: nunca se irá deitar sem estar arranjada.

– E vou ter-te a ti para me arranjares todas as noites?

– Por pouco tempo, só até ter a sua criada. E além disso vai ter que aprender a fazer muitas coisas sozinha. Agora chega de conversa, as senhoras estão à espera, venha comigo.

Alice imaginou-se a ter uma criada, ela, a miúda meio selvagem que passava a vida a entrar e a sair, como um gato, da casa de Ricardo; mas a ideia não lhe desagradou e deixou-se conduzir, nua, através dos corredores da casa, até um compartimento junto ao quarto de Ricardo que Mariana utilizava muitas vezes como sua sala de estar privada. Sentadas no sofá ou em pufes estavam todas as mulheres que tinham estado presentes ao jantar: mas o que chamou imediatamente a atenção de Alice foi o objecto que se encontrava no centro da sala: uma sólida e pesada base de madeira da qual sobressaía, erguendo-se na vertical, um falo em ébano ou pau preto, minuciosamente esculpido com signos cabalísticos que lhe davam um aspecto rugoso, não muito diferente daquele que a tessitura das veias dá a um pénis natural. Só a glande, perfeita na forma, era perfeitamente lisa, como a de um pénis verdadeiro. Pénis verdadeiros, erectos, Alice só tinha visto um, o de Ricardo, e tocado noutro, o de Harun. À luz das velas, que eram a única iluminação da sala e espalhavam no ar um perfume de incenso, Alice não podia ver o falo de ébano em todos os seus pormenores, mas notou que era todo a direito, sem a ligeira curvatura para cima do pénis de Ricardo. Seria isto uma imperfeição? Ou seria que nem todos os pénis eram como o de Ricardo? Seria o de Harun assim como este, a direito? Impossível era não ver neste artefacto um objecto precioso, talvez sagrado, longamente trabalhado e utilizado com veneração ao longo de décadas ou séculos. Ao polimento perfeito somava-se um brilho oleoso que se manifestava nos reflexos alaranjados das velas.

As mulheres entoavam, muito baixo, uma espécie de cantilena da qual Alice não foi capaz de distinguir nem as palavras, se as havia, nem a melodia, nem o ritmo.

− Curve-se – ordenou Circe. – Agarre os tornozelos com as mãos.

Em vez de obedecer, Alice perguntou:

− Onde está o Harun?

− Sabe que a menina está aqui – respondeu-lhe Circe num tom doce. – Sabe o que lhe vai acontecer, só não sabe aquela parte que é um segredo de mulheres. Autorizou tudo. Agora faça o que eu lhe disse, se faz favor.

Tudo isto estava muito longe do que a jovem esperara para aquela noite. Mas obedeceu, levada por um sentimento de inevitabilidade, e também pelo efeito hipnótico da cantilena das mulheres, da luz das velas, do aroma a incenso, e ainda por um certo prazer da aventura que a impelia a entregar-se de olhos fechados ao que desse e viesse.

Pôs as mãos nos tornozelos. Sentiu que Circe se aproximava dela por trás e lhe acariciava o sexo muito levemente. Depois sentiu que lhe era passado um unguento ao longo dos lábios vaginais, primeiro só por fora, depois cada vez mais por dentro até lhe lubrificar toda a vulva até ao hímen. Levantando um pouco a cabeça viu Atena, que lubrificava cuidadosamente, a todo o comprimento, o falo negro que se erguia do chão e que pareceu subitamente enorme aos olhos da jovem.

Esta preparação, e os cânticos cada vez mais ritmados que a acompanhavam, prolongaram-se por tanto tempo que Alice deu por si a desejar que tudo terminasse, que Circe, ou Atena, ou uma das outras pegasse naquele instrumento – que era óbvio que ia servir para a sua desfloração − e lho introduzisse no corpo, pouco importava se com brutalidade ou meiguice: contanto que por fim acontecesse.

Mas não foi assim que as coisas se passaram. A cantilena das mulheres consistia agora num arfar lento que soava como a respiração dum atleta cansado, ritmo este que algumas delas acompanhavam com leves batidas das mãos sobre a carpete. Circe ordenou a Alice que se pusesse de pé, com as pernas ligeiramente abertas, sobre o falo de ébano e que se fosse agachando sobre ele até lhe sentir a ponta à entrada da vagina. Alice assim fez. Procurou empalar-se nele um pouco mas quando sentiu um laivo de dor parou e elevou-se de novo uns milímetros. De novo se baixou até sentir dor, e começou assim um movimento de vai-vem quase imperceptível, gemendo um pouco com a dor e com o esforço. À sua volta as mulheres gemiam em uníssono com ela, num ritmo lento como o dela, como se todas elas estivessem também a forçar as articulações dos joelhos e das coxas e como se todas sentissem a mesma dor. O falo negro, firme no chão, era o centro da sala, o centro do mundo, o centro do corpo de Alice; nada mais lhe importava, naquele momento, do que vencer com a brandura da sua carne a rigidez implacável que pouco a pouco se ia introduzindo nela.

Ninguém a forçava, ninguém a ajudava. Circe e Atena tinham-se sentado com as outras mulheres e respiravam agora, e gemiam, ao mesmo ritmo que elas. E esta respiração, este canto, ia subindo de volume, acelerando o ritmo, controlando o corpo de Alice como uma música irresistível. Até que num dos movimentos descendentes, levada pelo cântico das mulheres, a jovem se empalou completamente e soltou um grito de dor, prontamente abafado mas logo ecoado nas vozes das outras.

Assim se manteve durante um momento, agachada, com os quadris imóveis, os olhos fechados, a cabeça lançada para trás, lançando um longo suspiro que ela própria não saberia dizer se já era de alívio, se ainda de dor. As outras mulheres estavam agora todas de pé à volta dela, segurando-a para que não se desequilibrasse, alisando-lhe o cabelo, enxugando-lhe o suor, murmurando-lhe palavras que eram carícias. Passado um longo momento recomeçou o movimento para cima e para baixo, muito levemente, muito a medo, como que para experimentar a sensação. Quando por fim parou, as mulheres não a fizeram levantar imediatamente: esperaram que ela abrisse os olhos e que a respiração se lhe normalizasse, para então a ajudarem, lentamente e com infinitos cuidados, a retirar o falo de dentro do corpo.

− Não te ponhas já de pé – disse-lhe a tia, que se aproximara de maneira a que as suas cabeças quase se tocassem. − Senta-te um pouco sobre os calcanhares. Queres ver uma coisa?

Quando Alice, ainda um pouco aturdida, acenou que sim, Safira desprendeu da base de madeira o falo de ébano, sobre o qual se podia ver um pequeno farrapo de sangue, e mostrou-o à sobrinha:

− Vou dizer-te um segredo. Foi este mesmo falo de ébano que me desflorou a mim, há muitos anos. É um objecto sagrado. Eu era ainda mais nova do que tu és agora, e vivia em África, longe de tudo. Os meus pais tinham morrido, os meus outros familiares ainda não tinham dado com o meu paradeiro e eu estava com a minha tribo adoptiva, o meu pai e a minha mãe adoptivos: o dia em que me tornei mulher, com toda a aldeia a acarinhar-me, foi um dos mais felizes da minha vida. Depois, quando os meus parentes brancos me foram buscar, a minha mãe preta deu-mo como presente de despedida: sabia que não voltaria a ser usado naquela aldeia, que as autoridades brancas não o permitiriam. E eu, mais tarde, por razões que talvez te conte um dia, dei-o à Mariana.

Alice estava demasiado confusa para saber o que pensar desta revelação. Como qualquer adolescente, tinha pensado muito no fim da sua virgindade, e como todas elas tinha sonhado com uma ocasião cheia de afecto e magia; mas pensara sempre que essa magia e esse afecto lhe viriam contidas no apaixonado abraço dum homem – quantas fantasias solitárias tinha tido em que os protagonistas tinham sido (não contando com a habitual colecção de celebridades) primeiro Ricardo, e depois Harun! Nunca pensara que lhe viessem, numa onda avassaladora e quente, dum círculo de que faziam parte as duas mulheres importantes da sua vida: a tia Safira, que a ensinara a nunca ligar a convenções, e Mariana, que invejara e aprendera a admirar pela absoluta dádiva de si que fizera a um Senhor. Mesmo as gémeas, que tinham presidido à cerimónia com a majestade de duas deusas, e até Silke Liebknecht, tinham contribuído para criar não só o ambiente certo, mas o universo certo para uma iniciação que ela nunca quisera trivial e não fora, de facto, trivial.

Mas ainda era virgem ou já não era?

− Nota bem que ainda és virgem – disse-lhe a tia, como se lhe tivesse adivinhado os pensamentos. – Só tens o hímen rasgado, é tudo. Na minha tribo isso significava que a menina já era mulher e estava pronta para servir o guerreiro que a comprasse. Mas os meus parentes vieram-me buscar antes que um guerreiro me comprasse aos meus pais adoptivos, e foi assim que passei os anos seguintes: mulher e virgem pelo critério da tribo, menina e virgem pelo critério dos meus parentes, a quem nunca contei a minha desfloração. Nem os meus parentes a teriam compreendido: teriam mandado arrasar a aldeia e prender toda a gente. Mesmo sem isso, só pelo facto de a tribo me ter adoptado, moveram influências para colocar na região um administrador e uma missão católica…

Circe aproximou-se das duas e interrompeu a conversa, estendendo a mão a Alice para a ajudar a levantar-se:

− Acha que consegue vir até à banheira?

Para as outras mulheres estas palavras foram o sinal para abandonar a sala, o que fizeram despedindo-se de Alice com beijos e carícias. O quarto de banho que Mariana compartilhava com Ricardo, e onde agora se ia completar a iniciação da jovem, estava equipado com uma banheira de hidromassagem que Circe encheu até mais de meio. Adicionou-lhe sais aromáticos e esperou que Alice se metesse na água, que estava escaldante. Alice experimentou com um pé:

– Está quente! Não consigo entrar!

− Entra devagarinho – respondeu Circe.

Muito devagar, Alice introduziu um pé na água, depois o outro, e começou a agachar-se, molhando com chapadas de água cada parte do corpo antes de a mergulhar para se ir habituando à temperatura. A pele clara ia ficando cada vez mais vermelha. De repente soltou um pequeno grito de dor: a carne tenra do sexo, dorida da invasão a que tinha sido sujeita pouco antes, tinha acabado de tocar na água quente. Por fim conseguiu sentar-se e suspirou de alívio enquanto se reclinava para trás com os olhos fechados. O corpo, mesmo as partes que não estavam imersas na água quente, estava todo molhado de suor ou do vapor de água, e os cabelos colavam-se-lhe à cara.

– Está bem, menina? –perguntou-lhe Circe.

Como única resposta Alice soltou um suspiro de satisfação. Circe ligou o dispositivo de hidromassagem e disse:

– Então descanse um pouco e relaxe. Eu já volto.

Alice começou a deixar-se invadir por uma grande calma à medida que o corpo se adaptava à temperatura da água. Quando Circe voltou – Alice reparou que estava de novo vestida com os seus panejamentos azuis – trazia numa bandeja duas flûtes de champanhe.

– Para bebermos juntas.

Alice ainda protestou um pouco, não estava habituada ao álcool e já tinha bebido ao jantar; mas Circe, ignorando todas as objecções, pôs-lhe o champanhe na mão e ergueu o copo:

– À sua felicidade, minha querida. Que a sua vida esteja sempre de acordo com o seu destino.

Alice sorveu o champanhe em pequenos goles, fazendo-o durar. Que observação enigmática, esta de Circe… Então a vida não está sempre, por definição, de acordo com o destino de cada um? Ou dar-se-á o caso de haver destinos que não se realizam? Talvez haja, concluiu. Talvez uma vida falhada seja isso mesmo. Talvez o mais indigno cativeiro seja uma pessoa falhar o seu destino, mesmo que este destino seja a escravidão; e talvez a única verdadeira liberdade seja realizá-lo.

Quando o vinho deixou de estar fresco e de lhe saber bem, pousou o que restava na plataforma de mármore à cabeça da banheira e fechou de novo os olhos, até que a água lhe começou a parecer fria.

– Não quero mais…

Era tempo de sair da banheira. Tinha a pele vermelha, as pontas dos dedos encarquilhadas, e sentia-se mais limpa do que alguma vez estivera. Circe envolveu-a, sem a secar, num roupão de pano turco e conduziu-a de novo ao seu quarto, onde a fez deitar nua sobre um toalhão estendido na cama e lhe passou por todo o corpo um creme hidratante, deliciosamente macio e perfumado. Não negligenciou nenhuma prega do corpo, nem mesmo os refegos mais íntimos entre as coxas, e demorou-se na tarefa com tanto vagar que Alice se começou a sentir sonolenta.

Mas antes que adormecesse Circe obrigou-a a levantar-se e a sentar-se numa poltrona com os pés mergulhados numa bacia de água quente que foi buscar à casa de banho. Sentada num pufe à frente da jovem, começou a tratar-lhe das mãos: arranjou-lhe as cutículas, cortou-lhe e limou-lhe as unhas e envernizou-lhas com uma mistura de vernizes que tinha preparado: metade transparente, um quarto cor de pérola nacarada, um quarto cor-de-rosa pálido. Enquanto o verniz secava, começou a tratar-lhe dos pés:

– Que solas de selvagem – observou.

Alice tinha, com efeito, as solas dos pés duras e ásperas, e foi necessário amaciar-lhas longamente com pedra-pomes. À medida que a água da bacia arrefecia, Circe substituía-a de maneira a mantê-la sempre quente. Por fim secou-lhe os pés, colocou-lhe bolas de algodão entre os dedos e tratou-lhe das unhas usando todos os instrumentos duma pedicura profissional – ou pelo menos assim parecia a Alice, para quem esta experiência era nova. Terminou este tratamento pintando-lhe as unhas com a mesma mistura de vernizes que tinha usado nas mãos.

Por esta altura a jovem tinha o cabelo quase seco: Circe passou-lhe um pouco de espuma de pentear e começou a escovar-lho com repetidas passagens de escova, mais de cem, até que ficou completamente seco só pela acção da escova, e brilhante como ela poucas vezes o tinha visto. Pôs-lhe creme no rosto, massajando suavemente com as pontas dos dedos. Como maquilhagem limitou-se a sombrear-lhe um pouco os olhos e a sublinhar discretamente as linhas das pálpebras: os lábios, naturalmente vermelhos, ficaram por pintar.

O verniz das unhas estava completamente seco; Circe amaciou as mãos e os pés de Alice com outro creme e fê-la levantar e rodar sobre si mesma para uma última inspecção.

– Está pronta – declarou. – Ponha este vestido.

– Sem nada por baixo?

– Sem nada por baixo.

Já não era o vestido de debutante que ela usara ao jantar, mas um traje formal em estilo romântico: um vestido de noiva se não fosse preto e roxo.

– Agora as jóias – disse Circe.

Por brincos pôs-lhe umas grandes argolas de prata, que juntamente com o cabelo cuidadosamente despenteado lhe davam um ar meio de cigana. Pôs-lhe colares à volta do pescoço, de vários comprimentos e materiais. Pulseiras nos braços, correntes nos tornozelos, e no dedo anelar esquerdo um anel com uma pedra negra. Alice já conhecia este anel: tinha visto outros iguais nas mãos de Mariana, Ricardo, Harun e outras pessoas. Sabia o que ele significava: que o seu portador era Senhor ou escravo de alguém. O metal de que era feito, cinzento escuro e muito leve, chamava-se titânio. Ajeitou o anel no dedo, como que para confirmar a sua aceitação, e perguntou:

– É agora que vamos ter com o meu dono?

– Não. Agora esperamos que ele a mande chamar. Já lhe disseram que a cerimónia com as mulheres terminou. Ou pode mandar dizer que podes ir para a cama, se tiver mais em que pensar do que em servir-se de ti.

E foi assim que Alice se sentou na pequena poltrona ao canto do quarto, entre expectante e desconsolada, com um vago sorriso no rosto, de pés nus e vestida como para uma festa, à espera de qualquer coisa ou de nada.

Mas não foi preciso esperar muito até que o telemóvel de Circe tocasse e ela dissesse, depois de escutar uns segundos, que sim, que já iam.

– Junte os pulsos atrás – ordenou Circe. – Está com sorte. O seu Senhor quer vê-la.

Alice deixou que a outra lhe prendesse os pulsos com duas pulseiras de prata unidas por um cadeado. Assim presa – lembrando-se de todas as vezes que tinha visto Mariana arranjada de forma semelhante, e do misto de admiração, inveja e receio que tinha sentido – foi conduzida ao quarto de Harun, quarto que ela própria tinha ajudado a preparar com tanto cuidado e minúcia.

Harun estava de pé, como que à espera, com um robe de cetim cor de creme sobre um pijama de seda da mesma cor, e tinha calçadas umas chinelas marroquinas de couro na cor natural. Saudou Circe primeiro; e a seguir, com um sorriso terno, saudou a jovem:

– Olá, Alice.

Alice quis responder “olá, meu Senhor”, mas não ousou. Ousá-lo-ia alguma vez? Em tom sumido, respondeu:

– Olá, Harun.

– Dispa-a – disse Harun a Circe.

Era fácil. O vestido abria por trás com um fecho éclair e as alças podiam ser desprendidas, de modo que foi possível tirá-lo sem libertar os pulsos da jovem. Alice nunca se tinha mostrado completamente nua a Harun, mas durante um longo namoro já tinha sentido muitas vezes as mãos dele debaixo da roupa, acariciando-lhe a cinta, os seios e por vezes, deliciosamente, o ventre. Agora não sentia vestígios de pudor ou vergonha, nem outra coisa que não fosse um enorme orgulho por se apresentar nua e bela, depois de uma tão longa e minuciosa preparação, diante dele. Quando ele a mandou dar uma volta sobre si mesma para que ele a visse toda, obedeceu com prazer, fazendo questão de empinar provocantemente os seios e as nádegas como se estivesse há longo tempo habituada a exibir-se assim.

Quando a viu de novo virada para si, Harun fez um gesto discreto em direcção ao chão. Circe, atenta a este sinal, disse docemente à jovem:

– Ajoelhe-se, minha querida.

Com as mãos presas não era fácil obedecer graciosamente a esta ordem, mas Alice conseguiu fazê-lo de um modo não demasiadamente desajeitado, o que suscitou a Harun um sorriso de aprovação.

– Tire-lhe as pulseiras – ordenou.

E para Alice, quando a viu com as mãos livres:

– Abre-me o roupão.

Com o roupão aberto, a jovem viu a ponta do pénis que lhe espreitava da abertura das calças de pijama. A um gesto dele, Alice tirou-lho completamente para fora: já lhe tinha tocado várias vezes e conhecia a sensação de o sentir crescer e enrijar-lhe nas mãos, mas nunca o fizera com esta liberdade, sem camadas de roupa a constrangê-la. Mais uma vez o sentiu crescer. Viu que era diferente do de Ricardo: todo a direito, como o falo de ébano de há pouco. A glande, avermelhada e macia, fez nascer nela um desejo que nunca tinha sentido antes.

– Posso dar-lhe um beijo? – inquiriu, timidamente.

Harun sorriu de novo:

– Sim, podes, meu amor. Um dos teus deveres, de futuro, vai ser servir-me com a boca. Mas não quero só um beijo, quero muitos. Beija-me o pénis já hoje como a escrava que vais ser, e não pares até eu to permitir.

Lembrando-se da reverência e respeito com que as mulheres da casa tinham rodeado, horas antes, o falo de ébano que a tia Safira trouxera de África há tantas décadas, a jovem começou a beijar cuidadosamente o falo vivo do seu dono, mal ousando, por vezes, um movimento de sucção. Sabia, pelo que tinha visto Mariana fazer a Ricardo, que também o podia lamber, chupá-lo, introduzi-lo na boca até ao fundo; mas não queria fazer isto sem que lhe fosse ordenado, e além disto tinha um pouco de medo de se engasgar ou ter vómitos. Assim foi prolongando uma longa sucessão de pequenos beijos na glande de Harun; e sentia ao fazer esta carícia um prazer que não saberia explicar mas que era real e intenso.

Harun, por seu lado, parecia disposto a contentar-se toda a noite com aquela carícia incipiente: foi afagando os cabelos da sua jovem amante e só ao fim de logos minutos acabou por dizer:

­– Chega, minha querida. Agora ajuda-me a despir…

Alice levantou-se para lhe tirar o roupão, que entregou a Circe para que o guardasse. Depois o casaco do pijama, que era de modelo antiquado, com botões à frente.

– Beija-me os mamilos – ordenou Harun.

Alice flectiu um pouco os joelhos para obedecer. Segurou-se às ancas do amante e começou a beijar-lhe o peito e os ombros. Sentia-se agora mais afoita, e foi quase sem hesitação que começou a dar-lhe chupões com alguma força, a que Harun reagia murmurando “sim”, “sim minha querida”, “sim minha escrava”. Com as mãos nas ancas do dono, a tentação de lhe baixar as calças do pijama era quase irresistível, tanto mais que o pénis, embora ainda visivelmente erecto, se encontrava agora de novo tapado pelo tecido. Mas quando fez menção de lhe baixar as calças ele deteve-a:

– Não, minha escrava, primeiro os chinelos.

Desta vez a jovem não precisou de qualquer ordem: sabia que ao despir o dono a regra era beijar-lhe as partes do corpo dele que ia pondo a nu. Já era assim com Mariana e Ricardo, e a ela parecia-lhe ser este um procedimento perfeitamente justo e natural. Posternando-se, beijou-lhe os pés com vagar e ternura, e ao fazê-lo começou a sentir que o seu ser se diluía num vórtice em que ela própria cada vez mais era nada e o dono daquele corpo que beijava cada vez mais era tudo.

– Agora o resto – ouviu-o dizer, como que de muito longe.

O resto era as calças, que Alice puxou para baixo numa pressa febril, ansiosa por ter de novo ao alcance dos lábios aquele ceptro real de ponta tão macia; mas Harun só lhe permitiu mais um beijo antes de interromper a carícia, ordenando-lhe que fosse para junto da cómoda e tirasse todas as jóias que tinha no corpo.

Que instinto levou Alice a deixar para o fim os brincos? Como poderia ela, ainda tão jovem, saber que o remover dos brincos duma mulher é por vezes, para o homem que a observa, um espectáculo completo de strip-tease? O certo é que o fez, e é certo também que esta acção não passou despercebida a Harun, que sorriu de novo. Quando a viu nua de roupas e de jóias, pegou-lhe na mão e conduziu-a à cama, que ele próprio abriu para que ela se deitasse. Cobriu-a ternamente, deu-lhe um rápido beijo na boca a que ela tentou responder lançando-lhe os braços ao pescoço, sem que ele todavia o permitisse.

Quando a viu deitada, Harun virou-se para Circe:

– Ponha a esteira para ela aos pés da cama, por favor. E ligue o candeeiro de halogéneo. Depois pode deixar-nos sós. Amanhã venha buscá-la para começar a instrução. Cuide bem dela: deixo-a entregue a si e à sua irmã durante a minha ausência.

Enquanto Circe cumpria estas instruções – a esteira consistia somente num fino colchão em espuma de borracha, num saco-cama e numa pequena almofada – Harun deu a volta à cama e deitou-se ao lado de Alice, que estava dividida entre a felicidade de estar na cama ao lado dele pela primeira vez na vida e a consciência de que esse privilégio não lhe ia ser concedido pela noite inteira. E que instrução era aquela que ia começar no dia seguinte? E porque falava o seu amado duma ausência? Para onde ia ele, logo depois de a ter feito mulher?

Mas não se atreveu a perguntar nada: ele faria o que quisesse e ela, escrava, esperaria sempre por ele o tempo que fosse preciso.

Assim que os dois jovens ficaram sós, Harun afastou de novo para trás as roupas da cama e, debruçando-se sobre a sua escrava, começou a examiná-la da cabeça aos pés, miudamente, interessando-se tanto pela textura das sobrancelhas – que alisou com um dedo – como pela forma das orelhas, o recortado dos lábios, as expressões que lhe perpassavam pelo rosto quando ele lhe beliscava na nádega ou lhe acariciava levemente um mamilo. Assim foi descendo pelo corpo dela abaixo, atento e curioso, entremeando esta observação minuciosa com pequenos beijos em cada parte do corpo que visitava: nos cantos da boca, na covinha do queixo, na base do pescoço, nos ombros, na curva do cotovelo… Alice estava tão temerosa como ansiosa pelo momento em que ele lhe examinaria a vulva, os lábios vaginais que sentia húmidos, o clitóris intumescido. Desejou que a luz não estivesse tão forte, mas depressa entendeu que isto era intencional, e resignou-se. Os beijos ternos que ele lhe ia dando por toda a parte excitavam-na e tranquilizavam-na ao mesmo tempo, e foi sem hesitar que abriu as pernas quando ele mandou; apenas fechou os olhos e virou a cara para o lado, para não se ver observada de um modo tão objectivo e impessoal. Sentiu o dedo dele tocar-lhe na carne mais íntima, ouviu-o suspirar. Surpreendeu-se quando se sentiu beijar ali, onde nunca tinha sido beijada; e não foi um beijo leve como os outros, mas uma chupadela franca que a deixou atónita e desejosa de que alguma coisa, qualquer coisa, viesse ocupar o vazio que lhe parecia ter-se feito naquele instante no seu ventre.

Mas logo a seguir, sem que esta breve carícia tivesse tempo de a satisfazer, o exame continuou, pelas coxas, pelos joelhos – que Harun apalpou pela frente e pelos lados como se nada houvesse mais importante no mundo como a forma exacta das rótulas da sua amada. Apalpou-lhe as pernas abaixo do joelho como já lhe tinha apalpado as coxas, sentindo as diferentes texturas da pele. As articulações dos tornozelos, tão delicadas, foram também objecto da mais funda atenção: olhadas, tocadas, flexionadas, testadas. Os dedos dos pés foram separados e os intervalos entre eles escrutinados – ainda bem, pensou Alice, que se tinha lavado tanto – e até dos tendões dos pés, dos maléolos interno e externo, das veias azuis sob a pele, das rugas transversais nas solas, foi tomada devida nota.

Por esta altura Alice sentia que ninguém, nem mesmo ela própria, conhecia tão bem o seu corpo como o conhecia Harun; mas ele ainda a mandou virar de barriga para baixo e recomeçou a ver tudo: os tendões atrás dos tornozelos, as dobras na parte de trás dos joelhos, as linhas de separação entre as coxas e as nádegas, o orifício anal e depois as duas pequenas concavidades no fundo das costas; e a sucessão das vértebras, o rego longitudinal entre as duas massas musculares do tronco, a saliência das omoplatas, a delicadeza enternecedora da nuca.

Durante todo este exame, que se prolongou por um período de tempo que Alice seria incapaz de calcular, o membro viril de Harun manteve-se sempre erecto. Como podia ele resistir, pensou Alice, a lançar-se sobre ela e a possuí-la sem delongas? Poderia aplicar-se a este homem ainda tão jovem aquilo que Mariana dissera várias vezes de Ricardo – que era senhor do seu pénis e não escravo dele?

– Agora vira-te para cima – ouviu-o dizer, por fim.

Alice virou-se de barriga para cima, abrindo as pernas sem que isso lhe fosse ordenado. Ou melhor, não foi ela que abriu as pernas, foram elas que se abriram a si próprias, as traidoras, as desavergonhadas, prontas a abrir caminho ao invasor. Harun saiu da cama para ir desligar o candeeiro, deixando acesa apenas a luz suave que iluminava o quarto anteriormente. De volta para junto dela, pôs-lhe o joelho entre as coxas, beijou-a fundamente na boca, acariciou-lhe os seios e as orelhas, beijou-lhe os olhos e o pescoço; e de repente Alice deu-se conta de que a glande do dono lhe acariciava a vulva molhada, movendo-se para trás e para diante ao longo dos lábios vaginais, titilando-lhe o clitóris; as mãos tinha-as Harun ocupadas em massajar-lhe os seios e apalpar-lhe as nádegas; o que lhe acariciava a vulva, embora sem a penetrar, era o seu sexo erecto. Ergueu os quadris para se aproximar mais dele, para aumentar a deliciosa pressão que a carne dele fazia sobre a dela, mas ele não tinha pressa e continuou por muito tempo a fazer-lhe carícias com o pénis à entrada da vagina. Quando ele por fim fez menção de a penetrar, Alice dise num murmúrio:

– Sim, meu Senhor. Possui-me. Sou tua… Já fui aberta para ti, como tu mandaste…

Harun entrou nela com um movimento só, suave mas firme. Esta penetração, seguindo-se tão de perto à desfloração operada pelo falo de pau preto, não foi tão indolor como Circe lhe tinha dado a entender, mas a dor foi bem-vinda para Alice, trouxe-a um pouco de volta à terra quando se sentia já a desprender-se do mundo. Depois de a penetrar, Harun ficou por muito tempo imóvel dentro dela, abraçando-a, beijando-a, murmurando-lhe ao ouvido “meu amor”, “minha escrava”… E só se começou a mover, lentamente, gentilmente, quando a dor abrandou e ela própria começou a oscilar timidamente os quadris, primeiro para frente e para trás, ao encontro do pénis que a enchia, depois também para os lados e em círculos, numa dança que ninguém lhe tinha ensinado mas em que ela se descobria subitamente perita.

Os movimentos de Harun iam-se tornando amplos e fortes, impetuosos, exigentes; e ela, ainda virgem segundos antes, procurava harmonizar com estes movimentos os seus próprios. Mas não o conseguiu por muito tempo porque uma sensação a avassalou que a fez esquecer-se de si, esquecer-se dele, esquecer-se de tudo o que não fosse aquela inexprimível delícia que a transformava num ser sem pensamento, sem passado, sem futuro. Não era o primeiro orgasmo que sentia, nem sequer o primeiro orgasmo provocado por Harun, mas era o primeiro que experimentava com o corpo assim invadido. A pouco e pouco esta sensação foi-se atenuando, mas Harun mantinha-se dentro dela, beijando-a, amando-a, de modo que a onda de prazer em que tinha perdido o pé refluiu, mas não para longe. Olhou para os olhos do amante e viu-os sorrir:

– Estou orgulhoso de ti… Minha escrava…

De novo a onda. E de novo, e de novo, até que Alice se esqueceu que alguma vez tinha conhecido um mundo que não consistisse num perpétuo orgasmo, um mundo que tivesse um “em cima” e um “em baixo”, um “dentro” e um “fora”, um “eu” e um “outro”.

Só lentamente retomou o pé, como um nadador a quem uma onda enorme e inesperada tivesse envolvido e sacolejado nas profundidades. Harun, agora completamente solto, penetrava-a com violentas estocadas, que ela recebia avidamente, como uma mártir em êxtase receberia os golpes da lança que lhe tirava a vida. Por entre a névoa do seu próprio prazer, Alice via o rosto de Harun: um rosto contorcido, um rosto belo, um rosto torturado que de repente se abriu num urro; e um jacto quente invadiu-lhe as entranhas, soltando nela ainda um último espasmo.

Por muito tempo Harun permaneceu em cima dela, a cabeça para o lado, apoiada na almofada. Alice teve pela primeira vez consciência de como ele era pesado. “O peso do meu dono”, pensou; “estou a sentir sobre mim o peso do meu dono”; e empenhou-se, apesar do ligeiro desconforto físico que sentia, em fazer do seu corpo o leito mais aprazível para o descanso do seu Senhor.

Mas Harun acabou por rolar para o lado, libertando-lhe os movimentos começando a abraçá-la, a beijá-la, até que ela lhe disse:

– Que bom… Agora estou a ficar com sono… Com tanto sono… Meu amor… Dás-me autorização que durma?

– Eu também tenho sono, – disse ele – mas ainda não te vou dar licença de adormecer, minha escrava. Primeiro vais ainda lavar-me o sexo, que será sempre o teu dever depois de eu te ter possuído.

– Oooh… Tem que ser? Tenho tanto sono…

– Tem que ser, meu amor. Hoje e sempre, por mais sono que tenhas. Anda, vai. Basta um toalhete com água morna e sabonete.

Meio trôpega, Alice dirigiu-se à casa de banho. Não sentia ressentimento nem revolta, nem a tarefa lhe parecia prosaica em comparação com o êxtase de há momentos; sentia, sim, um amor acrescido por este Senhor que se servia dela para as tarefas mais humildes com o mesmo à-vontade com que a usava na cama. De regresso ao quarto, lavou-o cuidadosamente. Depois voltou a humedecer o toalhete, agora só com água, e voltou para junto dele a fim de lhe retirar os restos de sabonete. Harun, de barriga para cima na cama, entregava-se a estes cuidados com os olhos fechados e os braços pesadamente caídos sobre os lençóis. Depois de o lavar, Alice foi à casa de banho fazer as suas próprias abluções. Quando voltou para junto de Harun ele já se tinha posto por baixo da roupa e estava em posição de dormir; mas quando a sentiu deitar-se ao lado dele ainda a abraçou e beijou chamando-lhe meu amor, minha escrava, até que a sentiu bocejar e gemer de sono.

− Meu Senhor, gostava de ficar abraçada a ti a noite inteira. Mas tenho tanto sono… Posso virar-me de costas para ti, para estar mais à vontade?

Harun fez-lhe uma festa no rosto antes de responder:

– Ouve com atenção, minha escrava, enão fiques triste. Essa autorização que me pedes, conto dar-ta muitas vezes de futuro. Muitas vezes mas nem sempre. Mas hoje não ta dou, hoje é dia de saberes o teu lugar, que é aos meus pés. Por isso mandei a Circe preparar a esteira. Há-de haver sempre uma esteira para ti aos pés da minha cama.

Alice não se tinha esquecido da esteira, mas ousara esperar que Harun se tivesse esquecido dela depois ter partilhado com ela tanto prazer e de a ter tratado com tanta ternura. Mas não tinha resposta que pudesse dar, só uma pergunta:

– Agora?

Harun acariciou-lhe de novo o rosto e beijou-a ao de leve nos lábios:

− Agora, minha escrava.

Alice, mesmo sabendo que o seu dever era obedecer com presteza a qualquer ordem, cumpriu esta com infinitas delongas. Durante algum tempo ainda manteve os lábios em contacto com os dele e depois, à medida que afastava os lençóis para se levantar, ainda o foi beijando no peito e na barriga. Já com uma perna fora da cama e um joelho no chão, ainda procurou com a boca o sexo dele para o beijar e chupar suavemente por tanto tempo quanto ousou.

– Vai, minha escrava – repetiu ele por fim. − Mas primeiro beija-me os pés.

Circe veio acordá-la de manhã cedo. Quando Alice gemeu, ainda tonta de sono e sem se lembrar onde estava, a outra pôs-lhe um dedo sobre os lábios.

− Venha – murmurou. – Não faça barulho, o seu dono ainda está a dormir.

− Mas… − objectou Alice.

Queria dar um beijo a Harun, mas Circe não permitiu:

− Não o acorde, menina. Não se preocupe, vai ter oportunidade de se despedir dele.

À espera de Alice, no seu quarto, estava um fato de treino e umas spatilhas de jogging.

− Vista-se – disse a outra. – Vai dar duas voltas ao quarteirão. Mas antes disso vá à cozinha, beba um copo de água e coma uma maçã.

− Tenho fome…

− Come depois. Ande, despache-se, hoje começa a sua escola e não temos muito tempo.

De que escola estava Circe a falar?

− Da escola que os senhores organizaram para si, é claro. Há muitas coisas que o seu dono quer que aprenda: quanto a isso foi muito claro.

Que matérias podia querer Harun que ela aprendesse? Alice tinha terminado a escolaridade obrigatória com as classificações mais elevadas e sempre partira do princípio que ia continuar a estudar; o quê, não sabia, mas imaginava que teria a ver com a sua condição de leitora voraz. Ainda não se tinha inscrito em nenhum curso, e agora, pelos vistos, alguém tinha escolhido por ela.

A manhã estava fresca. O que Alice tinha a fazer antes do pequeno-almoço era simples: dar duas voltas ao quarteirão, uma em marcha rápida e a outra em passo de corrida. Depois foi outro grande copo de água, um duche rápido e um pequeno-almoço substancial, servido na cozinha por Circe e Atena, refeição esta que a jovem, embrulhada num roupão, devorou como uma loba.

− Vá-se vestir – disse-lhe Circe por fim. – Ponha uma saia curta e larga, que não lhe prenda os movimentos, e uma T-shirt. Ponha calcinhas e soutien. Deixe-se estar descalça. Depois vá ter com os senhores à biblioteca.

Na biblioteca, à espera de Alice, estavam Circe e a sua irmã Atena, sentadas no chão; Ricardo, numa poltrona; aos pés dele, sentada sobre os calcanhares, Mariana; e ao piano uma mulher de cerca de trinta anos que Alice não conhecia: uma mulher bonita, um pouco anafada e de ar bondoso, que lhe foi apresentada como a sua futura professora de música.

− Música? Vou aprender música? – perguntou, admirada.

− Faz parte do currículo que o Harun determinou para ti – respondeu Ricardo. – Como oriental que é, considera a música e a dança prendas indispensáveis numa escrava. Mas como oriental ocidentalizado, não tem qualquer objecção ao piano. Portanto vais ser pianista: ninguém espera de ti virtuosismo, para isso é preciso ter talento e começar cedo, mas o teu dono exige que te tornes uma amadora competente − e sobretudo uma conhecedora razoável que não o envergonhe quando forem os dois juntos a um concerto. Também vais estudar outras matérias; eu e a Mariana fizemos algumas sugestões, assim como a tua tia, e das gémeas vieram algumas bem interessantes.

A primeira lição de música de Alice não foi particularmente excitante, consistindo apenas em infindáveis exercícios de colocação dos dedos sobre uma superfície plana – nem sequer o teclado do piano, apenas o tampo de uma mesa – seguido de instruções pormenorizadas sobre a colocação do banco em frente ao piano e sobre a maneira como se devia sentar. Depois a professora fê-la ouvir na aparelhagem da biblioteca o inevitável Für Elisa de Beethoven, do qual lhe ensinou a seguir alguns acordes desgarrados, os mais fáceis, prestando especial atenção ao ângulo dos dedos sobre as teclas. Para surpresa da jovem, que esperava que a primeira lição consistisse numa interminável repetição de escalas, esta actividade não ocupou mais do que alguns dos minutos finais.

Depois desta aula Mariana informou Alice do currículo completo: música, como já tinha visto; inglês, no qual se esperava dela que se tornasse proficiente, e em que de resto já tinha sido boa aluna na escola básica; francês e árabe, dados os longos períodos que passaria no Norte de África; literatura, que teria que conhecer tanto quanto possível nas línguas originais; história; história da arte; história das ideias e das mentalidades; religiões comparadas; esgrima; danças de salão; informática; matemática; lógica e pensamento crítico; ginástica geral e acrobática; dança do ventre; e pompoar, é claro: o dono dela dava especial importância ao pompoar.

Alice nem sequer sabia o que era o pompoar:

− Que é isso?

− Basicamente é a arte de controlar os músculos vaginais. Ou antes, se quisermos ser pedantes, os músculos circunvaginais, mas geralmente ninguém diz assim.

− Circunvaginais? Isso quer dizer que eu tenho músculos à volta da vagina? Não sabia tal coisa… E é possível mexê-los à vontade?

− Tens, e bem fortes – sorriu Mariana. – E nem imaginas o que se pode fazer com eles.

Alice tentou por um momento mover aqueles músculos que Mariana lhe dizia que tinha, mas foi como se lhe tivessem pedido que mexesse as orelhas.

− E para que serve isso? – indagou, pouco convencida.

− Ui, para tanta coisa… Para teres mais a noção do teu corpo, para começar. Para um dia poderes ter filhos com mais segurança e menos dor. Para seres mais saudável durante mais tempo nas tuas partes femininas. Para dares prazer ao teu dono, evidentemente. E até para poderes dar prazer a ti própria sem teres que te tocar com os dedos, se estiveres para aí virada… O pompoar é uma coisa que todas as mulheres deviam saber.

− E a Mariana sabe? Então porque é que nunca me falou nisso?

− Só sei que existe, mas nunca aprendi. Por isso é que vou ser tua colega: o Ricardo andava há algum tempo com vontade de me mandar aprender.

− E há professores disso? – insistiu Alice.

− Professores, não: professoras – corrigiu Mariana. – Vais conhecer a tua em breve. Acho que vais gostar dela. É uma senhora indiana de origem goesa e fala português perfeito. Chama-se Sadhana e vai também ser a tua professora de dança do ventre. “Sadhana” significa estudo, treino prolongado, realização, aprendizagem… Um nome de bom augúrio para nós duas.

Pompoar, dança do ventre… Nada disto desagradava a Alice, pelo contrário. Na sua imaginação via-se já como uma odalisca, versada nas artes ocultas que fazem de um senhor escravo da sua escrava… Mas aquela profusão de matérias que lhe tinha sido anunciada, como ia ela ter tempo para tudo? Ricardo, que assistira à conversa sem parecer que lhe dava atenção, sentiu-se divertido com o alarme dela e tranquilizou-a:

− Não vai ser tudo ao mesmo tempo, é claro. De esgrima e de danças de salão, por exemplo, vais ter só uma aula cada duas semanas. A esgrima é uma preparação para outras coisas, as danças de salão são para aprenderes a não te pores rígida nos braços de um homem, a entregares o corpo… Isso é importante para qualquer homem, acredita em mim. Nas literaturas não vais ter dificuldade nenhuma: ainda há poucos anos eras capaz de passar uma tarde inteira empoleirada numa árvore com um livro na mão. Agora não é em cima duma árvore, é num canto qualquer da casa, mas o difícil é encontrar-te sem um livro. As outras matérias vão ser cursos com diferentes durações: acaba um, começa outro. Uma boa parte da tua educação virá das viagens, das conversas, das leituras, das pessoas que conheceres… Só há duas coisas em que vais ter lições toda a vida: a dança do ventre e o pompoar. Pelo menos é isso que diz o Harun.

− Isso, e ler livros – respondeu Alice, num tom meio desafiador. – Acho que nunca vou deixar de ler.

− Ah, sim, ler. Outra das paixões do teu dono. Assunto de conversa não vos vai faltar…

Mas a aula seguinte não foi de literatura, mas sim já de pompoar, o que em muito contribuiu para satisfazer em Alice a curiosidade suscitada pela conversa que tinha tido com Mariana. Sadhana, a quem a jovem foi apresentada logo a seguir, era uma indiana de longos cabelos pretos e pálpebras inferiores muito escuras. Teria talvez trinta e poucos anos, e a postura do corpo era direita como a duma bailarina ou duma artista de circo – porém sem a rigidez que apresentaria uma mulher europeia igualmente erecta. A primeira ordem que deu a Alice e Mariana foi que se despissem completamente:

− Este é um estudo que fazemos nuas. – explicou, com um sotaque muito ligeiro que aos ouvidos destreinados das suas alunas soava mais africano do que asiático. − Sempre nuas.

A sala estava quente, quase sufocante e as duas obedeceram de bom grado.

− Sentem-se nesses colchões de ginástica.

Não foi sem um pouco de inveja que Alice observou que Mariana, que tinha mais que o dobro da sua idade – quase o triplo – mostrava mais flexibilidade do que ela ao sentar-se com as pernas cruzadas sob o corpo. Quando Sadhana as viu sentadas, despiu-se também: primeiro as sandálias, depois o sari que lhe deixava à mostra o umbigo, o choli branco de mangas curtas, e por fim o saiote comprido de cor lisa. Alice ficou um pouco surpreendida por ela não trazer calcinhas nem qualquer outra roupa sob o saiote, mas veio a saber mais tarde que este costume ainda é seguido por algumas mulheres indianas mais tradicionais e é geralmente considerado perfeitamente decente.

Enquanto a professora se sentava, não sobre um colchão de ginástica como as suas alunas, mas sobre um simples tapete, Alice teve tempo de lhe ver o sexo completamente livre de pelos, mas o que mais a fascinou foram os bicos dos seios e as aréolas, grandes e de um castanho tão escuro que eram quase negras.

Admirou-se também quando a viu sentar-se com toda a agilidade na posição de lótus: Sadhana, apesar da cintura estreita e da respeitável musculatura que se lhe adivinhava por baixo da fina camada de gordura, não tinha um corpo miúdo e esbelto como o de Mariana: pelo contrário, tinha um corpo a que com justiça se poderia chamar roliço. E a situação tinha para Alice o mérito da novidade: nunca antes tinha tido uma aula toda nua com a professora também nua.

− O que lhes vou ensinar – disse Sadhana – não é ainda, no que lhes diz respeito, uma arte. Um dia poderá sê-lo, se tiverem o talento e a persistência necessárias, mas por enquanto é só uma técnica. Por isso não vou admitir aqui fantasias nem romantismos: só trabalho e mais trabalho. Estamos entendidas?

Alice murmurou que sim, intimidada, e Mariana inclinou ligeiramente a cabeça.

− Então vamos começar. Pensem em fazer da vagina uma boca capaz de puxar o lingam para dentro ou de o empurrar para fora, equipada com uma língua capaz de o acariciar a todo o comprimento; e pensem em fazer dela ao mesmo tempo uma mão forte capaz de o apertar e de o prender.

− O que é o lingam? – perguntou Alice. – E é possível ter assim tanta força na vagina?

− O lingam é o membro viril. É assim que vem no Kama Sutra; mas vocês podem dar-lhe o nome que quiserem. E a vagina pode ser uma das partes mais fortes do corpo da mulher, tal como as coxas. Mas chega de teoria. Estão prontas para começar?

Alice declarou-se não só pronta, mas ansiosa por começar. Mariana limitou-se mais uma vez a acenar que sim.

− De certeza? – insistiu a professora. – Têm a bexiga vazia? O melhor é irem primeiro à casa de banho, se não daqui a pouco temos tudo encharcado.

− Já está? – continuou, quando elas regressaram. – Então quando se sentarem outra vez nos colchões fiquem em cima dos resguardos, porque enquanto não estiverem habituadas os primeiros exercícios podem fazer com que saiam algumas gotas de xixi.

Os resguardos eram daqueles que se compram em qualquer supermercado para proteger as camas das crianças pequenas e dos muito velhos, absorventes numa face e impermeáveis na outra.

− Agora – prosseguiu a mestra – façam força para urinar … se saírem algumas gotas não faz mal. Estão a fazer força? Óptimo, agora vem a parte difícil. Parem de fazer força, mas parem de repente, e façam força para não urinar. Certo? Puxem o xixi outra vez para dentro, vá, com toda a força.

− Não sou capaz – disse Alice.

− É claro que é capaz – respondeu a professora. – A menina não é diferente das outras. Não pare de fazer força para dentro. Está a fazer?

Alice não sabia para que servia aquilo, mas empenhou-se em seguir as instruções da professora. Apesar de ter a bexiga vazia, sentia de novo vontade de urinar. Olhou de relance para Mariana, que não lhe pareceu mais confortável do que ela.

− Agora quero que façam força alternadamente para dentro e para fora. Está bem? Agora para fora… agora para dentro… outra vez para fora… Vão ficar um pouco cansadas, e com muita vontade de fazer xixi, mas não faz mal. Há um ponto a que temos que chegar ainda hoje, e depois descansam.

Mariana e Alice já tinham vontade de descansar, mas não pararam de repetir o exercício que Sadhana lhes tinha ordenado.

− Continuem. Não parem. O que eu quero agora é que ao fazerem força para fora e para dentro se tentem dar conta dos músculos que estão a usar.

Mariana foi a primeira a pensar que tinha encontrado a parte do corpo de que estava à procura. O fundo do ventre doía-lhe um pouco. Seria aí?

− É uma dor surda, como a que se sente depois de um exercício puxado? – perguntou Sadhana. – Sim? Então já está onde tem que estar. São esses os músculos que a senhoravai aprender a controlar, mas hoje ainda não quero que tente fazer isso. Já é muito bom que os sinta.

Este pequeno diálogo deu a Alice a pista de que precisava para se orientar no seu próprio corpo. Também ela sentia um pouco de dor. Era ali, pelos vistos, que tudo se passava.

Sadhana estava satisfeita: tinham sido feitos progressos e era tempo de dar a aula por terminada. Mas antes que se despedissem Mariana quis fazer ainda uma pergunta:

− Sadhana, há uma coisa que eu não entendo. Os músculos que controlam a vagina são os mesmos que controlam o acto de urinar?

− Sim, quanto a um deles – respondeu a professora. – Não quanto aos outros. Mas a acção de uns reflecte-se nos outros, e foi por isso que comecei a vossa instrução utilizando músculos que vocês aprenderam a controlar quando ainda eram pouco mais que bebés. Vocês não se lembram, nenhuma de nós se lembra, mas a instrução que os vossos pais vos deram nessa altura não foi mais fácil nem menos demorada do que a que eu vos estou a dar agora.

− Mas a mim parece-me que já consigo controlar esses músculos um bocadinho. Cansa-me muito, mas acho que consigo.

− É natural – disse a professora. – Há muitos caminhos para chegar às coisas, e às vezes chegamos a elas quase por acaso. Lembra-se de como lá chegou?

− Não tenho a certeza de estarmos a falar da mesma coisa – respondeu Mariana. – Mas uma vez estava com o meu dono, ele estava quase parado dentro de mim, e eu de repente tive que tossir. Quando tossi ele disse-me que tinha sentido um aperto no pénis e pediu-me que fizesse outra vez. Eu não conseguia, mas então tossi de propósito e ele disse-me que o tinha apertado outra vez, mas com menos força. Depois, com o tempo, aprendi a apertá-lo sem tossir, mas não o faço muitas vezes seguidas porque me cansa muito e passado um bocado já não sou capaz.

− Estou a ver – disse a professora. – E sim, esses músculos que a senhora accionou foram os seus músculos circunvaginais. A tosse faz mover o diafragma e envolve também todos os outros músculos abdominais. A razão porque o apertou com menos força da segunda vez é que a tosse foi forçada. Mas é bom que já tenha uma ideia do que se espera de si.

Ao ouvir isto, Alice obrigou-se a tossir, mas não sentiu nada em baixo, nem mesmo nas partes do corpo que estavam doridas.

− Muito bem – disse a professora. – Agora um aviso: fora da aula não comecem a forçar nem a reter o xixi. Isso pode tornar-se muito desconfortável, além de ser perigoso se abusarem. Se conseguirem mover um pouco os músculos da vagina, então podem ir treinando enquanto fazem outras coisas. Mas só os da vagina, e se não conseguirem também não faz mal: ainda não estou a contar com isso.

E com efeito: nos dias e semanas que se seguiram Alice e Mariana começaram a exercer algum controlo sobre as suas vaginas. Enquanto treinavam esta capacidade estavam terminantemente proibidas de mover os quadris:

− A essa batota não quero que se habituem, nem mesmo no princípio – dizia-lhes, sempre que detectava um movimento suspeito. – A técnica do xixi e a técnica da tosse também são batotas, mas vão ser muito mais fáceis de desaprender quando chegar a altura.

E o facto é que as batotas se foram tornando cada vez menos necessárias. Mariana foi a primeira a conseguir controlar sempre que queria os músculos vaginais, o que a professora atribuiu ao grão de experiência que já tinha, mas Alice não lhe ficou muito atrás.

− Engraçado – comentou Mariana num dia em que a lição lhe tinha corrido especialmente bem. − Às vezes, ao fazer isto, sinto assim uns espasmos dentro do corpo iguais aos que sinto quando tenho um orgasmo.

A professora sorriu, satisfeita.

− Isso é bom, muito bom mesmo. E a Alice? A menina também sente esses espasmos?

− Eu, não – confessou a jovem. – Nem sequer ainda notei que sentisse espasmos quando me venho. Também, ainda não me vim assim tantas vezes, portanto não posso falar muito.

A estas palavras todas as três se riram.

− Descanse – disse a professora. – Ainda tem muito tempo para aprender. E a menina tem uma vantagem: o seu dono sabe praticar uma arte que é uma espécie de equivalente masculino do pompoar. Há homens, sobretudo no Oriente, que aprenderam a fazer com o pénis mais ou menos o mesmo que vocês estão a aprender a fazer com a vagina: movê-lo sem mover os quadris. Trata-se de controlar um músculo chamado músculo pubococcígeo, que os homens também têm mas que é mais difícil para eles exercitar.

− O meu Senhor às vezes faz isso – interrompeu Mariana.

− Ai sim? O seu dono consegue fazer isso? Então a senhora é uma escrava com sorte – disse Sadhana. – A vantagem disto é que se o homem tiver um orgasmo e a mulher também, estando os dois perfeitamente imóveis, o espasmo de que fala a Mariana não se perde no meio de todas as outras sensações.

Nos dias que se seguiram a esta conversa a professora não lhes ensinou nada de novo. Só as mandou repetir, e repetir, e repetir o que já tinham aprendido.

− Repitam até não poderem mais – dizia sempre. − Repitam até lhes doer tudo, das coxas à cintura. Mesmo quando estiverem a fazer outras coisas, sentadas a comer, sentadas numa aula, deitadas na cama à espera de adormecer, podem repetir estes exercícios. Mas só com a vagina, entenderam? Não vos quero a remexerem-se nas cadeiras para as outras pessoas verem, nem a fazer que tossem, nem muito menos a fazer avarias com o xixi. Entendido? Se for para fazer tolices prefiro que não façam exercícios nenhuns fora das aulas.

Ao princípio Alice achava quase impossível contrair e relaxar a vagina sem mover os quadris: como pode o cérebro dar ordens a um músculo, ou a um conjunto de músculos, cuja simples existência a sua detentora ignorava umas semanas antes? A pouco e pouco, porém, começou a ser capaz, e até a encontrar motivo de intenso divertimento sempre que se encontrava sentada, por exemplo, à mesa de um café e exercitava vigorosamente, sem que as pessoas à sua volta se apercebessem, os órgãos genitais. Só não conseguia fazer isto com as pessoas da casa: Ricardo e Mariana apercebiam-se sempre do que ela estava a fazer, bem como as gémeas e, é claro, Sadhana. Mesmo a tia Safira, com o seu ar desligado de tudo, notava nada o que ela estava a fazer; resultado, talvez, da experiência adquirida em décadas de viagens por África e pelo Oriente.

Um dia, ao fazer os seus exercícios, sem que o tivesse querido e sem que nada o fizesse prever, Alice teve um orgasmo. Apressou-se a informar a professora, que encolheu os ombros e se limitou a confirmar o que já Mariana lhe tinha dito: as contracções e distensões vaginais também podem servir para uma mulher dar prazer a si própria.

− Mas evite fazer isso – acrescentou. – Não é bom dar a uma arte nobre um uso trivial.

Mariana chegava exausta ao fim de cada aula, e Alice ainda mais. Saiam mais cansadas das aulas de pompoar do que das de dança do ventre, apesar de estas não serem propriamente fáceis. Durante semanas sentiram o ventre repassado duma dor surda, que só a pouco e pouco foi desaparecendo e fazia com que nunca perdessem a consciência do centro feminino dos seus corpos. Nem mesmo Alice, durante as aulas de árabe e de matemática, que eram as que lhe exigiam maior concentração, chegava a perder esta consciência do corpo que lhe permeava todos os momentos da vida.

Alice só tinha Mariana como condiscípula nas aulas de pompoar e de dança do ventre. Nesta disciplina a indumentária obrigatória começou por ser uma saia muito rodada, feita de um tecido muito flexível mas também muito mais pesado do que Alice tinha imaginado. Isto, explicou Sadhana, porque tinham que aprender desde o primeiro dia o peso das saias e o modo como ele afectava o seu balancear. Da cinta para cima podiam usar uma T-shirt, ou um soutien, ou nada, como quisessem. Jóias ou enfeites é que ainda não.

Assim se iniciou para Alice uma rotina mais exigente do que a que tinha conhecido em qualquer outra escola, rotina esta que só era salva da monotonia pela alternância constante entre o esforço intelectual e o esforço físico.

Nas noites em que a ausência do dono lhe doía mais, habituou-se a deixar a sua cama e o seu quarto e a ir dormir no chão, aos pés da cama dele, como tinha feito na noite em que ele a tinha possuído. Nas manhãs que se seguiam a estas noites acordava dorida, e se nesse dia as lições fossem mais exigentes do ponto de vista físico o trabalho tornava-se mais penoso.

Um dia, numa aula de dança, e sem que a professora lho ordenasse, experimentou combinar as contracções do pompoar com os movimentos que estava a fazer com os quadris. A professora apercebeu-se imediatamente mas, em vez de a censurar ou de lhe ordenar que se concentrasse na dança, fez um gesto com a cabeça que pareceu à jovem ser de aprovação.

− Muito bem, está a aprender – foi o seu comentário.

Depois desta aula Alice quis saber a razão por que Sadhana tinha aprovado o seu gesto. Não a tinha ela proibido de usar os movimentos dos quadris para auxiliar os da vagina?

− Mas não foi isso que a menina fez, pois não? – fez-lhe notar a professora. – Não usou um movimento como muleta para auxiliar o outro. Pelo contrário, deu a cada um deles o seu melhor esforço e procurou que eles se completassem. Não estou zangada consigo; pelo contrário, estou contente.

Como se toda a gente tivesse estado à espera deste desenvolvimento, o dia em que esta conversa teve lugar marcou o início de toda uma nova rotina em casa de Ricardo. Nessa mesma noite foi anunciado que Harun viria no dia seguinte para uma estadia prolongada. Alice mal dormiu. Mas a meio da manhã, quando o dono chegou, Alice tinha começado a sua aula de dança do ventre e não foi dispensada dela para o ir cumprimentar.

− Não fique triste, vai tê-lo a assistir – disse-lhe a professora. – E vai ter também o dr. Ricardo. A diferença que que faz quando há homens a assistir, vai a menina descobri-la logo ao começar, ainda mais sendo um deles o seu dono. Se não ficar nervosa demais, vai dançar melhor do que nunca: é este o efeito que os homens têm na dança. Agora, um aviso: a menina pode tentar seduzir o seu Senhor com o seu desempenho, mas não pense sequer em tentar impressioná-lo, e muito menos em dominá-lo. Ele já viu muito melhor do que a menina, por isso se tentar impressioná-lo, em vez de o seduzir pela autenticidade dos seus sentimentos, ele notá-lo-á logo e sentirá desprezo por si. Mostre-lhe apenas o que já sabe: é isso que ele espera de si e é isso que o fará orgulhar-se de si. Mostre ao seu dono o que sente por ele, e pode ter a certeza que ele ficará contente com o seu desempenho.

Claro que nada nestas palavras diminuiu o nervosismo de Alice. Entrou na sala, vestida com a uma saia igual às que usava nas aulas e com um choli que lhe deixava o ventre a descoberto. Continuavam a ser-lhe proibidas jóias ou enfeites. Por enquanto só lá estavam as mulheres: Safira, que se levantou da cadeira onde estava sentada para lhe dar um beijo; as gémeas, de pé como estátuas nos extremos da sala; Silke e Mariana, sentadas no chão sobre os calcanhares, junto do sofá vazio que ocupava a posição de honra. A ela, mandaram-na ajoelhar no centro do espaço deixado livre em frente ao sofá. Ao fim de uma espera que lhe pareceu interminável, viu Harun entrar na sala, conversando animadamente com Ricardo. Alice, a quem não tinha sido dada a oportunidade de receber à porta o seu amado, nem de saudar o seu Senhor, nem muito menos de se lhe lançar nos braços como lhe pedia o corpo e o coração, pôde agora saudá-lo de longe, inclinando a cabeça até ao chão. Harun respondeu à saudação: não apenas com o inclinar de cabeça protocolar, mas com um sorriso de encorajamento e um brilho nos olhos que tanto podia ser de orgulho como de amor. Alice viu como ele se sentava no sofá ao lado de Gunther e Ricardo e sentiu como os três homens enchiam a sala com a sua presença, como a não enchiam as mulheres apesar de serem em maior número. Naquele momento Alice soube com a mais absoluta certeza que era para eles que ia dançar, e não para a professora, nem para Mariana, nem para qualquer outro ser do seu próprio sexo.

A um sinal de Sadhana, pôs-se de pé, esperou pela música e começou. Esperara concentrar-se toda em Harun, mas logo se deu conta que a presença de Gunther e Ricardo também contribuía para que ela pusesse na sua dança um suplemento de alma que era uma homenagem – compreendia-o agora – não só ao seu próprio dono, mas também aos outros dois. Não tentou combinar com a dança as contracções do pompoar: essas, reservava-as para a noite, para quando Harun a mandasse chamar. Mas a certa altura, sem que tivesse feito alguma coisa por isso, sentiu que um espasmo de prazer lhe sacudia o fundo do ventre.

No último tempo da dança, quando ajoelhou aos pés de Harun, ele tomou-a nos braços, olhou-a longamente no fundo dos olhos e beijou-a de tal maneira que lhe fez saber que a sua dança de novata lhe tinha agradado tanto como se tivesse sido executada pela artista mais experiente e perfeita.

À noite, na cama, quando o dono a penetrou, Alice esforçou-se por aplicar tudo o que tinha aprendido durante as longas semanas precedentes. Harun sorriu deste esforço:

− Calma, minha querida. Estás a dar-me muito prazer, e de futuro hás-de dar-me muito mais; mas o que conta por enquanto não é o que me dás de prazer, é o que me dás de alma. Concentra-te nisso: foi essa a dádiva que desejei este tempo todo…

− Sim, meu Senhor, sou toda tua… de corpo e de alma…

Mas a verdade é que não era capaz de distinguir bem entre a dádiva do corpo e a dádiva da alma que ele lhe pedia. Para ela não se tratava duma alternativa entre entregar-se a ele completamente ou dar-lhe o prazer mais intenso de que fosse capaz, mas simduma conjugação entre as duas coisas: entregar-se e dar-lhe prazer.

A ordem que ele lhe deu a seguir resolveu este dilema:

− Fica quieta com os quadris – disse-lhe ele – e mostra-me o que aprendeste com a Sadhana.

O que Alice tinha aprendido até ao momento era ainda muito pouco, mas pôs todo o seu brio em mostrar-lho – e com alguns resultados, como pôde ver na expressão do amante. Tinha parado, obedientemente, de mover os quadris; e ele, quando a sentiu imóvel, parou também, mas isto só por fora, porque por dentro ela sentiu que o sexo do dono tinha ganho como que vida própria: um pássaro inquieto no ninho, um furão na toca, um aríete, uma cabeça de touro a erguer-se e a baixar-se, uma alavanca poderosa que tinha no corpo dele o seu fulcro e raiz.

E foi logo no auge desta delícia que ele a proibiu de ter orgasmo! De tão inesperada e injusta, a ordem trouxe-lhe lágrimas aos olhos – mas então que força foi aquela que a levou a agarrar-se a ele ainda com mais força, a puxá-lo para dentro de si ainda mais gulosamente, e a dizer-lhe indistintamente “sim, sim, meu querido, goza tu, goza sozinho, serve-te de mim … Eu não sou nada, não sou ninguém, deixa-me só servir o teu prazer…”

Mais tarde nessa noite, quando ele voltou a possuí-la, proibiu-lhe de novo o orgasmo. Só lho permitiu à terceira vez – ou melhor, ordenou-lho – quando a noite já começava a clarear e a ela lhe parecia que estava demasiado cansada para ter prazer. Como podia ela obedecer? Tinha o ventre dorido, os músculos cansados, e parecia-lhe que todos os conhecimentos de pompoar que tinha adquirido a tinham abandonado. Mas chamou à memória todos os sonhos, todas as fantasias, todas as saudades que tinha sentido, as noites solitárias em que se tinha masturbado, deitada no chão aos pés da cama dele; e estas lembranças, e as carícias dele, e os beijos dele, e os sábios movimentos do membro viril que tão depressa a acariciava, macio, como a invadia, ávido e rijo – tudo isto foi enfim suficiente para a fazer explodir na apoteose que lhe tinha sido ordenada e por que ela tão longamente anelara.

Depois ficaram a conversar:

− Desta vez vou ficar bastante tempo aqui em casa do Ricardo. Trouxe duas moças da Tunísia, uma para ser tua criada, a outra para ser criada da Mariana. A tua é solteira, tive que trazer também um irmão dela para tomar conta dela e arranjei-lhe um emprego temporário aqui em Braga. A da Mariana tem o marido na Tunísia e se ela ficar cá vai ser preciso o Ricardo mandá-lo vir e arranjar-lhe um emprego aqui em Braga. Enquanto a tua não aprender português, vais ter que falar francês com ela. Sabes francês? Só o da escola? Não faz mal, aprendes. Não são escravas, são imigrantes legais, com os papéis em ordem, direitos laborais e bons ordenados; mas foram bem informadas da tua condição, e da condição da Mariana, e da Silke, e não se escandalizarão com o que virem e ouvirem. E também não se vão importar de andar descalças, acham natural. O que nunca vais é vê-las de saias curtas ou mangas curtas… Depois, quando me for embora, levo-te comigo para a nossa casa de Túnis. Nessa altura levo também a Sadhana e algumas das tuas outras professoras que aceitaram continuar connosco. Também temos um apartamento em Paris e uma casa na Suíça, em Appenzell… Vamos andar sempre de um lado para o outro.

− Tens assim tantas casas? Deves ser muito rico – murmurou Alice, já com o sono a embargar-lhe a voz.

− Tenho o suficiente para viver como quero – respondeu Harun.

− Isso é ser muito rico – decidiu Alice.

Com esta conversa tinha ficado um pouco mais desperta. Enroscada a Harun, ainda perguntou:

− E o Ricardo, também é rico? Sempre me pareceu rico…

− Não. Rico, exactamente rico, não é. Mas tem uma profissão bem paga, e rendimentos próprios que herdou dos pais… A Mariana é mais rica do que ele, e além disso vende bem os quadros que pinta. Fez partilhas com o ex-marido que não a deixaram mal… De modo que também eles podem viver mais ou menos como lhes apetece.

− É bom, poder viver como nos apetece – disse Alice. – Ou melhor, no meu caso e no da Mariana, como apetece aos nossos donos. Não é?

Harun mal a ouviu. Veio-lhe um enorme bocejo, de repente. Encostou o rosto ao de Alice, que também estava meio morta de sono mas ainda perguntou:

− Meu Senhor… Hoje também vou dormir no chão?

− Não, hoje não. Hoje dormes aqui comigo.

− Mas primeiro lavo-te, meu Senhor… Não é?

Harun sorriu, agradado com a boa memória e com a obediência de Alice.

− Claro…

Apenas cumprido o rito da lavagem, adormeceram os dois, abraçados. Quando ela acordou ele estava ainda a dormir. Com todo o cuidado, para não o acordar antes do tempo, deslizou toda para debaixo das cobertas e tomou-lhe na boca o pénis flácido, sentindo-o endurecer lentamente e fazendo um jogo de adivinhar o que aconteceria primeiro: Harun acordar, ou começar a corresponder ainda adormecido à carícia da amante. Mas quando ele, sem fazer mais que uns ligeiros movimentos com as ancas e sem dar outros sinais que a prevenissem, lhe descarregou na boca uma quantidade de esperma que quase a fez engasgar, Alice deu-se conta de que nos últimos momentos quem estivera a fazer um jogo fora ele, fingindo-se ainda adormecido quando a carícia já o tinha despertado completamente. Encantado com esta pequena vitória sobre a sua escrava, Harun abraçou-se a ela, risonho e feliz, e cobriu-lhe de beijos o rosto e a boca. Depois deu-lhe uma leve palmada nas nádegas e disse-lhe, ainda a rir:

− Chega de beijoquices. Estou aqui sequioso por um chá e a minha escrava ainda não mo foi buscar…

Com uma risadinha, Alice pulou para fora da cama:

− É para já…

Enrolou à volta das ancas a saia com que se apresentara a Harun na noite anterior, e, sem sequer cuidar de se cobrir da cinta para cima, apressou-se em direcção à cozinha, sentindo que tudo estava bem com o mundo. Na cozinha encontrou uma mulher que não conhecia e que a ajudou a preparar o tabuleiro sem dar mostras de ter reparado nos seus seios nus: devia ser uma das tunisinas de quem Harun lhe tinha falado.

Com a presença de Harun em casa de Ricardo, a disciplina na educação de Alice perdeu um pouco da sua rigidez: mas não no que diz respeito às lições de pompoar, nem às de dança do ventre; e muito menos quanto à escrupulosa toilette nocturna de Alice, que nunca foi descurada no mais pequeno pormenor. Este ritual era cumprido todas as noites com a ajuda da nova criada de Alice, uma jovem de olhos amendoados chamada Aischa.

Alice tinha prazer neste luxo; mas Mariana achava que era perfeitamente capaz de tratar do seu próprio corpo e que não precisava de criada nenhuma.

− Para que queremos nós uma empregada? – perguntava por vezes a Ricardo. – Para a lida da casa temos cá mulheres que cheguem; e para tua criada particular basto eu, que sou feliz em sê-lo. Ou não sabes disto?

− Sei, sim, minha querida – respondia Ricardo. – E melhor criadinha do que tu, nunca a poderia desejar. Mas não te esqueças que tens outros deveres…

E para lhe mostrar quais eram esses deveres dava-lhe a mão a beijar, ou introduzia-lha entre as coxas. Mariana, pacificada, sorria e entregava-se à carícia; e ao fim de pouco tempo adaptou-se à presença de Leila, a segunda tunisina – uma mulher entre os trinta e os quarenta anos, anafada e bem disposta, que depressa mostrou inestimáveis talentos, não só como empregada doméstica, mas também como cabeleireira, manicura, pedicura e massagista. O seu constante bom humor não poupava ninguém, nem mesmo Ricardo; e a própria Mariana não conseguiu muitas vezes impedir-se de se rir ao vê-la imitar o tom pausado e sério com que o dono da casa tinha dado certa ordem ou tomado determinada decisão.

Quanto às aulas de pompoar, a fase seguinte consistiu em habituar Alice e Mariana a distinguir três secções diferentes nas suas vaginas.

− Têm que sentir a vagina – ensinou-lhes Sadhana – como um tubo composto por três anéis: um logo atrás da entrada, o outro no meio, e o outro lá mesmo no fundo, junto ao útero.

Tomar consciência destas três secções, e aprender a contraí-las e relaxá-las independentemente umas das outras, foi bem mais difícil e demorado do que tinha sido controlar a vagina no seu todo. Nuas e suadas na sala aquecida, Alice e Mariana tentavam uma posição, depois outra, voltavam por vezes aos truques iniciais do xixi e da tosse, esforçavam-se, insistiam, desesperavam. Nem Harun, nem Ricardo, nem homem nenhum era admitido na sala; não só porque Sadhana nunca admitiria mostrar-se nua à sua frente, mas também porque os esforços, o sofrimento e o ocasional desespero das duas alunas não eram um espectáculo próprio para aquilo a que a professora chamava, com o seu humor discreto, a delicada sensibilidade masculina.

Nas aulas de dança do ventre, pelo contrário, os homens eram bem-vindos: não só Harun e Ricardo, mas quaisquer amigos que pudessem estar de visita.

O Raqs Shaqi dança-se sempre melhor na presença de um homem – dizia a professora, como quem recita uma evidência.

Mas Alice tinha lido algures que a dança do ventre era na sua origem uma espécie de rito iniciático entre mulheres, algo de que os homens estavam excluídos, uma ginástica para o parto, uma manifestação espiritual do tempo do matriarcado… Que só depois, com o patriarcado e com o colonialismo, é que se tinha feito dela um espectáculo para excitar e seduzir os homens.

− Isso é o que as americanas dizem – respondeu a professora. – Têm aquela coisa calvinista de pôr dum lado o que é espiritual e do outro o que é corporal… E como são calvinistas, são feministas, e acham que agradar aos homens as diminui. Não é que não tenham razão quando falam nos rituais, na preparação do parto, nas cumplicidades e nos segredos femininos: só não percebem que nisto tudo cabe muito bem o nosso prazer em seduzir os homens, em lhes agradar, em lhes prestar homenagem. A presença dos homens, o prazer deles nos nossos corpos, nada disto faz de nós menos mulheres, pelo contrário: faz de nós mais fortes e mais mulheres. Assim como o nosso prazer na masculinidade deles faz deles mais fortes e mais homens. Qualquer mulher oriental entende isto, só para as ocidentais é que é difícil. E para as americanas, então…

Sadhana ficou absorta um momento. Mariana e Alice ainda a ouviram dizer baixinho, falando para si própria:

− O Raqs Shaqi… contra os homens… uma coisa hostil… doidas, completamente doidas.

Como que para sair desta absorção apertou os lábios, abanou a cabeça e dirigiu-se às alunas em tom decidido:

− Hoje não quero que dancem para mim. Imaginem que são a Xerazade, que estão a dançar para o Sultão e que amanhã ele vos pode mandar cortar a cabeça se hoje não achar interessante o vosso desempenho.

De aula para aula tanto Alice como Mariana faziam progressos. Mariana, com a sua aptidão natural, levava Sadhana a lamentar muitas vezes o desperdício que era ela não ter começado a aprender em adolescente ou criança. Alice era maior e mais robusta do que Mariana, e apesar da sua juventude era um pouco mais rígida de cintura; mas no cômputo geral as duas andavam a par. O primeiro adereço que a professora lhes permitiu foi um cinto dourado com guizos para usar à roda das ancas – com o aviso solene de que só teriam direito a outros enfeites ou instrumentos, nomeadamente as castanholas metálicas chamadas “snujes” que Alice não se cansava de pedir, quando soubessem mover as ancas de maneira a que os sons emitidos pelos guizos tivessem um ritmo compatível com o da música.

Alice era sempre das duas a que fazia mais perguntas

− Porque é que a dança do ventre não se dança com os seios nus? As saias, eu compreendo, podem completar os movimentos do corpo, até se pode dizer que também dançam. Mas uma coisa ali parada, a apertar o peito, que não faz nada além de esconder o corpo, para que é que serve?

− O Raqs Shaqi pode dançar-se também de seios nus – respondia pacientemente a professora. – E até meados do século XX esse foi o costume em certas regiões do Sul de Marrocos, por exemplo…. E na Antiguidade: há representações de dançarinas com os seios nus no antigo Egipto, na Índia… e, muitas vezes, completamente nuas.

− Está bem, mas agora? – insistia a jovem.

− Agora, não se pode esperar de uma dançarina que dedique tanto tempo e esforço a aperfeiçoar a sua arte para depois ser confundida com uma stripper qualquer ou com uma lap dancer sem escola. As americanas podem estar erradas em rejeitar a parte que é sedução na dança do ventre, mas têm razão em não querer utilizar a sua arte para excitar qualquer ignorante com dinheiro para pagar a entrada num clube nocturno. Não é só uma questão de puritanismo, também é de integridade artística. Há uma definição de prostituição com que eu concordo: prostituição é tudo aquilo que põe o que é nobre ao serviço do que é vil ou trivial. Até pode ser um poeta a fazer slogans publicitários, por exemplo: é prostituição na mesma. E as dançarinas profissionais de Raqs Shaqi têm toda a razão em não se quererem prostituir. Além disso há uma vantagem concreta em usar uma peça de roupa na parte superior do corpo a que possam ser afixados guizos: se estes tiverem um som que se distinga dos que são afixados às ancas e aos tornozelos, uma dançarina que seja dotada pode criar ritmos mais intrincados.

− Lá por isso, os guizos também se podem prender aos mamilos com piercings ou com molas – retorquiu Alice. – Mas está bem, nunca tinha pensado nisso em termos de integridade artística. É tudo mais complicado do que parece, não é?

Sadhana acenou com a cabeça.

− Não quer dizer que no Oriente, nalguma ocasião privada, perante um público conhecedor, uma grande artista não possa actuar muito mais nua do que de costume, e até actuar melhor por estar mais nua. Aí já não se trata de prostituição, estão a compreender? Quanto a vocês duas, veremos. No vosso caso o problema da integridade artística não se põe. A vossa dádiva aos vossos donos não foi vil nem trivial, caso contrário eu não estaria aqui a ensinar-vos. É como eu dissse: veremos.

E ainda Alice, noutra ocasião:

− Senhora professora, já ouviu falar em Gothic Bellydance?

− Já ouvi falar, e já vi fazer – respondeu a professora. – Mas nunca fiz nem ensinei.

− Eu gostava de aprender.

− Dança do ventre gótica: só me faltava essa! Mas a questão não é o que a menina gostava de aprender, é o que o seu dono quer que aprenda. Fale com ele, e se ele autorizar talvez eu aceite estudar isso consigo. Se a dança do ventre gótica acrescentar alguma coisa às outras variedades, é a maneira de também eu aprender alguma coisa; se não lhes acrescentar nada, então não me interessa: terá que a estudar sozinha.

No pompoar, depois de aprenderem bem o ritmo ternário correspondente aos três anéis imaginários em que dividiam a vagina, foram introduzidas ao ben-wa: duas bolas metálicas, ligeiramente maiores que bolas de ping-pong e unidas por um fio. A professora convidou as duas alunas a sopesar estas bolas: não eram leves, mas o que mais as surpreendeu foi o facto de não terem um centro de gravidade estável: era como se dentro delas se movessem outras bolas, umas mais pesadas do que as outras. Eram próprias para introduzir na vagina, disse a professora, e por isso tinham outro fio que ficava de fora e permitia tirá-las. Podiam ser usadas para vários fins, um dos quais era auxiliar a aprendizagem que estavam a fazer.

Assim começou uma nova fase nesta aprendizagem, que durou, no que diz respeito a Mariana, até ao dia em que ficou sem a professora. O fim da estadia de Harun em casa de Ricardo representou uma viragem na vida de todos. Mariana e Ricardo estavam a poucos meses de acabar o seu trabalho em Brugges e Heidelberg: depois disso passariam a repartir a vida entre Lisboa e Braga, acompanhadas por Leila, que se tinha prontificado a ficar em Portugal como sua empregada desde que o marido também pudesse vir. No seu regresso a Túnis, Harun far-se-ia acompanhar duma comitiva que não ficaria mal a um jovem príncipe: além de Alice, seguiriam com ele Sadhana, a professora de música e a de inglês, a criada Aischa, e o irmão de Aischa, a quem tinha sido oferecido o emprego de motorista de Alice. A vida de Harun e Alice não se repartiria, como a de Ricardo e Mariana, por duas cidades num só país, mas por várias cidades em três continentes. Gunther e Silke já tinham regressado a Heidelberg há muito tempo.

Quanto às gémeas, era tempo de assumirem os seus deveres de matriarcas e guias no seu clã espalhado pelo mundo, que nunca ninguém chegou a saber se era uma tribo, uma família, uma sociedade secreta, um grupo religioso ou uma empresa.

Não era uma despedida definitiva: sem dúvida que se voltariam todos a encontrar, todos juntos ou em grupos mais pequenos, ao sabor da hospitalidade e das viagens. Quando Mariana se viu privada da sua professora, os seus progressos na dança do ventre já tinham chegado ao ponto em que executava todos os movimentos básicos e dominava meia-dúzia dos ritmos principais; quanto ao pompoar, já tinha começado a treinar com o ben-wa e chegara ao ponto em que conseguia puxar para dentro ambas as bolinhas, mas ainda só conseguia expulsar uma.

− Continue a treinar – disse-lhe Sadhana. – Se quiser ir mais longe no Raqs Shaqi tem que ter lições, mas o pompoar é só uma questão de treinar todos os dias.

− Não se preocupe, senhora professora – interrompeu Alice, sorrindo por entre as lágrimas da despedida. – Vou estar em contacto com ela todos os dias pela Internet e se ela se desmazelar digo ao Ricardo.

Do aeroporto do Porto, onde tiveram lugar as despedidas finais, até à moradia de Ricardo em Braga não se demora mais do que três quartos de hora pela auto-estrada. Mal entraram no carro e se viram sozinhos um com o outro, Ricardo ordenou a Mariana que levantasse a saia e pôs-lhe a mão entre as coxas para lhe acariciar o sexo. Ao sentir o fio do ben-wa, perguntou:

− O que é isto?

Mariana explicou. E Ricardo, rindo, decidiu logo ali que, a partir do momento em que chegassem a casa, Mariana ficaria nua toda a semana seguinte, minuto por minuto e segundo por segundo, para que ele pudesse verificar a assiduidade com que ela cumpria os exercícios que a professora lhe tinha prescrito. Mariana riu-se também e chegou-se para mais perto dele. Milhares de metros acima de ambos, o avião que levava para longe os seus amigos descreveu uma larga curva no ar e entrou na rota que o plano de voo lhe tinha destinado.

(Publicado no Blogger a 31/05/08 e revisto a 01/06/08 )

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Capítulo 2


Depois desta descrição longa mas necessária chegamos finalmente à história da chegada e estadia do Príncipe Hassan-Khan. O Príncipe veio a casa de Manoubia para comprar uma esposa: a bela Djamila, pérola das pérolas, uma íntima amiga de infância da irmã dele, Kora. Djamila e Hassan já estavam apaixonados, já que a irmã lhe tinha contado da linda escrava, que depois veio a conversar frequentemente com ele na companhia da sua amiga Kora. Como Djamila tinha passado bastante tempo no palácio do Príncipe, tinha podido conhecer os seus futuros sogros e afeiçoar-se a eles; e no que a estes diz respeito, chegaram a endeusar a encantadora jovem. É portanto um amor puro aquele que atrai os dois jovens, misturado sem dúvida com aquele poderoso desejo sensual que só os orientais possuem em grau tão elevado.

O Khan, que tipificava o homem circassiano em toda a sua beleza, tinha uma figura em que a força se combinava com a flexibilidade, o lado sombrio com um garbo encantador. Tinha na verdade a força do tigre e a agilidade da pantera. A sua testa larga e lisa prolongava-se num nariz recto, enquanto os olhos cinzentos como o aço exprimiam, ora uma ternura infinita, ora uma fria crueldade. Envolto no seu caftan negro bordado a prata, com o gorro de astracã enterrado na cabeça até ao meio da testa, sapatos de couro amarelado, tinha um aspecto verdadeiramente belo e majestoso. E quando entrou, montado num nobre cavalo, em casa de Manoubia, houve sem dúvida muitos lindos olhos, escondidos por véus orientais, virados com amor e desejo na direcção deste elegante cavaleiro.

Hassan deixou os soldados da sua escolta a uma certa distância, apeou-se do cavalo cujas rédeas entregou a um servidor, e aproximou-se a pé do portal do palácio. A sua chegada já tinha sido anunciada, pois quando chegou aos pesados portões estes abriram-se e um serviçal apressou-se ao encontro do Príncipe para o aliviar do leve saco de viagem. Hassan tinha naturalmente a intenção de se restabelecer com um banho, depois de descansar algumas horas, dos esforços da longa cavalgada; e para este fim tinha trazido alguns artigos de higiene.

Depois de atravessar a porta, encontrou-se num pátio revestido a mármore e rodeado por uma galeria gótica de colunas a que os arcos, duma irregularidade genuinamente árabe, davam uma impressão de movimento sem que por isso perdessem uma certa graciosidade. E nestas horas do crepúsculo, durante as quais os últimos raios ardentes do dia se perdem no infinito horizonte violáceo que se estende sob o firmamento como um oceano, a vista era com efeito magnífica. Entre as colunas, que a intervalos eram interrompidas por balaustradas semi-circulares, pendiam lâmpadas de ouro de correntes de prata; no meio encontrava-se uma fonte em mosaico, de cuja figura principal, que consistia num grupo de três leões, caía uma água fresca e clara. E as lágrimas destes leões, que talvez chorassem pelas suas belas fêmeas, corriam para um reservatório em que se reflectia a floresta de colunas e os arcos recortados da galeria circundante.

Este pátio, a única parte do palácio original que permanecia inalterada, conservava a pura beleza do estilo oriental em todo o seu esplendor e simplicidade; tinha sido construída quando o Grande Mogul ainda residia em Djeli. E nas imediações uma inaudita acumulação de toda a sorte de verdura completava a impressão tão exótica como imponente suscitada por esta residência principesca em quem ainda mal lá tinha entrado…

Manoubia estava à espera do seu visitante. Tinha posto de parte a sua habitual distância majestática para receber o seu hóspede real com a maior amabilidade. Entregou-o com grande dignidade aos cuidados de dois enormes negros com cerca de dois metros de estatura a quem encarregou de conduzir o Príncipe. Estes negros, vestidos de veludo vermelho e verde, assemelhavam-se a dois titãs que tivessem perdido o caminho da ilha de Cítera com os seus ornamentos de festa.

Logo apareceu também o administrador da casa, o genro de Manoubia, que endereçou ao Khan estas palavras:

– Poderoso Senhor! Allah abençoou a nossa casa ao permitir que os teus indignos servos te recebam por um momento – a ti, o grande Hassan-Khan, o Senhor tão amado como temido! Bendita seja a areia calcada pelo teu augusto pé! Que as flores em que descanse o teu olhar misericordioso nunca mais murchem! Que a fonte murmurante que ouvires nunca mais cesse de celebrar esse dia ditoso! Poderoso Senhor! Esta casa é tua, e nós, os teus servos insignificantes, esperamos com respeito as tuas ordens.

O Khan agradeceu com um sorriso e prosseguiu o seu caminho para o pavilhão do meio. Ao chegar ao limiar a porta abriu-se, como que movida por uma força sobrenatural; o Príncipe deu alguns passos para dentro e encontrou-se num enorme vestíbulo, uma espécie de grande salão cujas paredes estavam ornadas com pinturas e tapeçarias artísticas de valor inestimável; os pés afundavam-se nos tapetes macios; sofás estofados a seda rodeavam a sala; banquinhos de pau-rosa, embutidos com madrepérola, espalhavam-se aqui e ali numa aparente desordem.

De cada lado da porta estavam de pé dois rapazinhos, dois jovens Adónis, com bochechas coradas, o denso cabelo preto caindo aos caracóis. As bocas eram como cerejas, os dentes eram, nas palavras do poeta, “uma gota de leite numa rosa”. Estavam ambos ataviados com calções de seda azuis apertados sob os joelhos por bandas elásticas. As pernas roliças e carnudas estavam nuas. Traziam além disso camisas da mais fina cambraia, através das quais lhes reluzia a fresca pele do peito. Boleros escarlates cobriam-lhes as costas e as mangas arregaçadas deixavam ver os braços brancos e roliços. Uns chapelinhos árabes assentavam-lhes meio de esguelha na cabeça e as longas borlas caiam-lhes sobre os ombros.

Enquanto o Khan admirava este quadro encantador, abriu-se lentamente no fundo da sala uma porta, e uma aparição, maravilhosa como um sonho, tornou-se visível. Era a bela Zima, neta de Manoubia, com cerca de vinte e dois anos de idade e duma beleza verdadeiramente invulgar. Poderíamos dar-lhe o nome de uma antiga Bacante ao vê-la assim no seu quimono japonês com ramos de roseira bordados. Dois solitários sumptuosos pendiam-lhe das pequenas orelhas rosadas, e uma fileira de diamantes rodeava-lhe a orgulhosa garganta alabastrina.

O Khan tinha-se virado ao ouvir o fru-fru da seda e ficou imóvel e encantado perante esta bela aparição.

Subitamente, com um movimento gracioso, Zima deixou escorregar para o chão o seu quimono e ficou de pé em todo o esplendor da sua carne nua. Ficou assim, por um momento, nesta pose encantadora e natural. Deixou que os olhos coruscantes do Príncipe lhe percorressem todo o corpo; e então deu três passos em frente, ajoelhou-se-lhe aos pés e beijou-lhe cheia de respeito as pontas dos sapatos. Achando que para exprimir todo o seu respeito não era suficiente ajoelhar-se perante o Khan, estendeu-se toda no chão sobre a barriga, abraçou os tornozelos do Príncipe e cobriu-os de beijos. Este curvou-se e fez deslizar suavemente as mãos sobre todo o corpo da jovem mulher. Experimentou um prazer infinito em beliscar e acariciar esta carne branca e firme, e a cada carícia sentia o corpo divino dela ser percorrido por um tremor lascivo.

Também Hassan começou a dar mostras duma viva excitação. O seu membro ergueu-se por baixo das calças de montar e nos cantos dos lábios apareceu-lhe uma espuma esbranquiçada.

Finalmente a jovem ergueu-se até ficar de joelhos e o Príncipe, galante, pegou-lhe pelos seios e obrigou-a assim a pôr-se de pé. Por um momento ainda permaneceu ela assim, imóvel sob aquele olhar masculino brilhante de desejo; então Hassan deu um passo para ela, apertou-a contra o peito e disse-lhe baixinho:

– Quero, querida Zima, receber de ti o primeiro beijo que me for dado nesta casa.

Com modo insinuante ela toma-o pela mão, condu-lo com delicadeza a um sofá e faz com que ele se sente. Ajoelha-se diante dele e abre-lhe as calças com cuidado e perícia. Depois de pôr assim a nu o sexo do Príncipe, segura-lhe o membro, sem lhe tocar com as mãos, com a boca e com a língua e mantém-no um momento comprimido entre os lábios: sente como ele fica cada vez mais erecto e como lhe bate contra o céu da boca.

Recua para melhor recomeçar. Inclina o seu lindo, pálido rosto sobre esta vara rígida e avermelhada, comprime-a com as maçãs do rosto contra o ventre do homem e deixa-a percorrer todo o seu rosto. Sucede-se agora sem interrupção uma série das mais deliciosas carícias. Tão depressa introduz no sovaco o membro completamente erecto como o comprime com as mãos contra a maciez da barriga e das coxas, como ainda o envolve no seu exuberante cabelo castanho. Finalmente despe-lhe completamente as calças e senta-se com pequenos gritos fervorosos e suspiros contidos no colo do seu amante.

– Estou contente contigo, Zima – disse ele. – Deita-te agora neste lugar onde já vais servir o meu desejo, e diz-me como te queres entregar a mim. Diz-me que alegria vais experimentar quando eu penetrar o teu corpo esbelto e doce. Diz-me que sensação vais ter quando a prova do meu amor inundar as tuas entranhas. Diz-me também que espécie de abraço preferes, para que no momento do clímax possamos ambos experimentar a mais alta felicidade.

– Poderoso Senhor, – respondeu ela. – Eu não passo da tua escrava, o meu corpo pertence-te, farás com ele o que os teus desejos exigirem, e eu hei-de sofrê-lo, o meu amor por ti só aumentará com isso. Se me penetrares, Poderoso Senhor, ficarei feliz, porque és belo, és como eu te sonhei, o teu membro viril é imponente e atrai na sua direcção todo o meu corpo. Que o nosso abraço dure até à minha morte, de modo a que a prova do teu amor me avassale até à derradeira paixão! Poderoso Senhor, sou a tua escrava!

Com um olhar ordena a um dos dois rapazes presentes que traga uma cadeia de ouro e manda-o prender-lhe os pulsos nas costas, como sinal de submissão ao seu Senhor. Este ergue-lhe gentilmente as pernas e ata-lhe os tornozelos com a ajuda duma fita de seda. Então introduz-lhe o membro entre as barrigas das pernas, que Zima se põe imediatamente a mexer para trás e para diante. Então ele começa a subir pelo corpo dela acima, tão devagar que mal se nota, até lhe chegar ao ventre com a ponta do pénis. Mais uma vez começa a passear a glande dura e vermelha pelo corpo branco da sua escrava, aconchega-a entre os dois seios macios, acaricia-lhe com ela os lábios húmidos, envolve-lha no cabelo. A uma ordem sua os rapazes libertam os rapazes os braços e as pernas de Zima dos seus grilhões, abrem-lhe ligeiramente as coxas e erguem-lhe os joelhos até ficarem encostados ao corpo. Zima espera nesta posição, completamente imóvel, o ataque vitorioso do seu Senhor; mas este não se apressa e oferece a visão do seu falo erecto aos dois rapazes, que observam com curiosidade este monstro que tanto se avantaja em tamanho às suas pilas. Quando Zima se apercebe disto, ordena a um, de seu nome Achmed, que segure na mão o objecto da sua curiosidade. O rapaz obedece imediatamente, mas mal toca o membro do Khan este dá um rugido e lança-se sobre a mulher como uma fera sobre a presa.

Mas apesar deste movimento brusco Achmed não largou o membro, e aproveita para o apontar ao lugar certo, puxando para trás o prepúcio e afastando os pelos púbicos de Zima, que se tinham atravessado parcialmente sobre a entrada. O rapaz parece encontrar um grande prazer neste jogo, e o par permite-lhe que se entregue a ele, tolerando a lentidão intencional com que o faz. O calção de Achmed avoluma-se visivelmente no lugar do membro viril!

Finalmente, no paroxismo da ânsia, o Príncipe introduz-se completamente, com um poderoso movimento das ancas, arrancando à sua escrava um grito de dor. Sem domínio sobre si próprio, morde-a nos ombros, e uma gota de sangue aparece como uma pérola sobre a neve da pele. Puxa o pau completamente para fora para imediatamente o introduzir de novo até ao fundo, enquanto ela executa com o ventre movimentos rotativos que aumentam ainda mais o desejo dos dois. Com a sua rija lança acaricia-lhe repetidamente o clitóris, ora por trás, ora pelos lados. Os seus corpos estão unidos, entrelaçados, pressionados um contra o outro e já constituem um só corpo. Os seus movimentos, apesar de desenfreados, mostram-se cheios de ritmo e harmonia. Ele abraça com as coxas as da escrava e arranha-lhe a pele com as unhas. Os lábios de um estão colados aos do outro e Zima suga com paixão a língua e a respiração do seu Senhor. Ele torna-se brutal, e ela, a escrava, permanece dócil e paciente.

– Chega o rosto ao meu! – ordena ele – e não te mexas!

Ou então:

– Agora descanso eu, trabalha tu! Faz com que eu me venha, ou és chicoteada!

E ela começa a trabalhar enquanto ele se mantém imóvel sobre ela; movimenta a parte inferior do corpo para a frente, para trás e em círculos, e acaricia-lhe a ponta do membro com os lábios da vulva: uma arte que poucas mulheres dominam.

Subitamente os músculos dele contraem-se como por efeito de uma cãibra; ele entrelaça-se nela ainda mais apertado e aperta num derradeiro beijo os lábios contra o belo pescoço da mulher.

Ela sente o membro dele a engrossar dentro dela – e sente o corpo inundado… Finalmente os nervos dele cedem e ele cai pesadamente sobre ela, onde descansa por algum tempo.

Durante todo o tempo que durou este abraço quatro jovens negras vestidas de cambraia vermelha, verde e amarela, que tinham entrado despercebidas na sala, abanaram grandes leques sobre eles para impedir uma transpiração exagerada. E sobre um tamborete, numa taça de defumar, ardia uma mistura de âmbar e íris que enchia o aposento com um perfume entorpecente.

No momento do climax as núbias largaram os leques, e a primeira tomou uma taça de ouro, a segunda uma esponja, a terceira uma toalha de seda e a quarta um vaporizador de perfume.

O Khan tinha-se erguido e Zima levantou-se do sofá. Ajoelhando-se diante dele, lavou-lhe meigamente o membro com água perfumada e secou-o longamente com infinitos cuidados. E como o Príncipe se tinha libertado a pouco e pouco das suas roupas e estava quase nu, cobriu-o com um roupão longo de seda.

A um sinal seu os dois rapazes ergueram um reposteiro e subiram todos ao primeiro andar, onde uma refeição aguardava o Príncipe: bolos e sorvetes em finas taças de porcelana, bebidas refrescantes em cálices de ouro e prata. Zima, ainda nua, estendeu-se sobre um dos numerosos sofás que davam à sala o seu carácter, enquanto o Príncipe se sentava ao seu lado à maneira turca sobre uma das almofadas de veludo que estavam espalhadas pelo chão.

As quatro escravas núbias dispuseram então sobre o corpo de Zima os vários pratos em que consistia a refeição, e o Khan fez a sua refeição sobre a carne perfumada da sua amada, tomando-lhe um bolo da concavidade do pescoço ou um bombom da barriga, mordendo com os dentes uma peça de fruta que ela segurasse com as coxas. Ela oferecia-lhe por vezes, com os seus dentinhos brancos, um doce, ou então era ele que procurava com os lábios uma amêndoa que se lhe tivesse escondido no monte de Vénus. Os dois rapazes serviam-no de sumo de laranja e xarope gelado em taças de prata.

Chegada ao fim a refeição, ela chegou-lhe, com os dedos rosados dos pés, um cigarro aceso, e ele fumou, fazendo com que se elevassem em direcção ao tecto as nuvens azuladas de tabaco oriental. O Príncipe tinha-se estendido sobre as almofadas, feliz por viver ainda no corpo os mesmos encantos que tão agradavelmente lhe cansavam os músculos…

Demorou-se uma hora bem medida nesta inactividade, durante a qual Zima, para o distrair, mandou vir músicos, cantores e dançarinas mouras. Um alegre prelúdio instrumental abriu o concerto. Então seguiram-se ritmos cada vez mais lentos, cantilenas, odes frívolas e melodias sérias. A um sinal de Zima salta para o primeiro plano uma odalisca de pouco mais de quinze primaveras, retorcendo-se em movimentos lascivos à cadência do «Eoud», e executa uma «Rita», uma dança sensual e lenta. Quantos encantos se alojam nas linhas deste corpo insinuante, que as madeixas negras dos cabelos encobrem parcialmente! Com mais vivacidade do que uma gazela, mais flexível do que um junco, desdobra os membros como as ondas de um riacho sem deixar de transmitir a impressão de uma indolência sensual. Percute com os dedinhos rosados o seu tamborim e move-o para que não o abafem as mangas compridas.

Chega a vez de quatro outras que se tomam pelas mãos, e ora se afastam, ora se aproximam umas das outras, ora se abraçam pelo pescoço e pela cintura, ora se repelem, e assim representam todas as fases do amor.

Este espectáculo encantador espicaça de novo os sentidos do Khan, e nos seus olhos penetrantes brilha o desejo. Zima, atenta, apercebe-se disto e prepara-se para oferecer ao seu Senhor mais uma sessão de volúpia, ainda mais inventiva e lasciva do que a primeira. A sua intenção é que o Príncipe deixe a casa de Manoubia com o espírito enfeitiçado, o corpo exausto e os sentidos saciados; e está disposta para isso a inventar para ele encenações inauditas e requintes antigos. Por ordem sua os músicos e as dançarinas deixam a sala deixando-os sós com as quatro escravas núbias e com os dois rapazes.

− Poderoso Senhor – começa Zima – a tua escrava notou que os teus desejos estão de novo despertos. Queres que estes dois rapazinhos insignificantes te acompanhem a um aposento onde te espera água fresca e perfumada para banhar o teu nobre corpo? Ajudar-te-ão a lavar e servirão também o teu desejo. Os seus lábios, vermelhos como a cereja madura, hão-de beijar respeitosamente as partes mais íntimas do teu corpo. Com as suas mãos ternas e macias hão-de acariciar a tua carne por toda a parte que queiras. Desvendarão ao teu olhar os seus prazeres secretos, mostrar-te-ão o que costumam fazer um com o outro quando estão sozinhos ao meio-dia, quando o Sol do Oriente lhes enerva os sentidos e os conduz à licenciosidade. Queres, Senhor, que nós os três te ajudemos a gozar? Permites esta honra aos teus escravos?

− Vamos – respondeu o Príncipe laconicamente.

Ergueu-se e seguiu a jovem mulher pelos longos corredores até à sala de banho.

Esta sala merece ainda uma breve descrição, pois é verdadeiramente bela na sua simplicidade. O meio consiste num tanque de ónix vermelho, ao qual se desce por alguns degraus. Este tanque está rodeado por uma galeria de arcos redondos sustentados por colunas de mármore branco. As paredes estão ornamentadas com pinturas árabes pintadas à mão sobre a pedra nua. Aqui e ali alguns divãs, e é tudo. Não há cortinas, não há tapetes, só mármore e pedra.

Hasan senta-se sobre um divã e Zima, ladeada pelos dois rapazes, ajoelha-se à sua frente. Puxa para si o rapaz mais novo, de seu nome Ali, despe-lhe o bolero e o calção, e diz, acariciando com os dedos a carne rosada e jovem do tronco nu:

− Vê, poderoso Senhor, como é doce este corpo! Vê estes bracinhos roliços, debaixo dos sovacos já se nota uma pelagem macia. Vê esta barriguinha branca, as pregas amorosas da pele em que qualquer homem desejaria dar um beijo.

Pouco a pouco despe-lhe os calções, e o rapaz, que pela primeira vez se vê despido perante um estranho, fica vermelho de vergonha.

− Vê, Poderoso Senhor, estou-lhe a abrir o calção, e já se lhe entrevê a cabecinha do sexo; já a vais ver toda, Senhor, porque este corpo pertence-te. Ei-lo, aqui está o pauzinho; como é pequeno, meu Amo, em comparação com o teu grande membro, e como é agradável acariciá-lo! Já começa a erguer-se; o teu olhar, ao incidir sobre esta parte do seu corpo, faz com que o seu espírito seja presa de desejos sensuais. Se eu acariciar este pequeno membro, ele ejaculará, se quiseres, diante dos teus olhos; mas vou fazer isso com toda a suavidade para que o prazer dos teus olhos dure mais tempo. Ele está envergonhado mas feliz, porque tu estás a olhar enquanto eu o faço ejacular. Vê, o membro dele está a ficar intumescido e vermelho; puxo-lhe o prepúcio para trás, para que a sua excitação aumente… Agora faço uma pausa para te mostrar o seu lindo cuzinho. Observa esta carne firme e rosada; entre estas bochechas, Senhor, hás-de gozar, se for esse o teu desejo. A abertura é estreita porque ele ainda é virgem, mas tu terás o cuidado de não o rasgar. O teu pénis é tão grosso e o seu corpo tão pequeno.

O Khan observava esta cena com enlevo, o seu membro crescia sob o leve tecido de seda que lhe envolvia o corpo. Mas dominou a sua ânsia ardente por mais um momento e ordenou:

− Ali, tu és um homem! Mostra que o és! Esta mulher é uma cadela, mais do que isso, é a tua escrava, enfia-lhe o teu pau na boca!

O jovem obedece, hesitante.−

− Muito bem. Tira o pau para fora e mete-lhe na boca a tua bolsinha entre os lábios… isso mesmo, e tu, Zima, acaricia-o de novo, ou não estás a ver que ele tem vontade?

A jovem mulher obedece. Passa um braço pela cintura do rapaz e apalpa-lhe com a mão livre os testículos, acaricia-lhe o pequeno membro, aperta-o com os lábios, esfrega-o com as pontas dos seios e toca-lhe com as pálpebras fechadas; depois toma-o ma boca e chupa-o ternamente, ao que o rapaz responde com suspiros entrecortados. Por fim torna-se necessária uma interrupção para evitar uma ejaculação imediata.

− Está bem assim – diz o Príncipe. – Ali, é hoje que vais perder todas as tuas virgindades; agora vais-te servir desta mulher, que é tua. Mete-lhe a tua lança na parte de trás, para começar, e faz o que eu fiz: morde-a nas costas, percebes, ela é a tua escrava! Bom, agora entra-lhe pela frente e deita-te em cima dela; ela terá que te fazer como me fez a mim – mas não te venhas, que ainda tens mais coisas para fazer. Agora sai de dentro dela e escuta: tu és o senhor desta mulher, portanto bate-lhe, maltrata-a, a esta cadela que aqui está!

O rapaz faz tudo o que o homem lhe ordena, e na sequência da última ordem bate na sua amiga com tanta força que de vez em quando lhe arranca um grito de dor. Os golpes chovem de todos os lados; primeiro palmadas nas nádegas, depois nas pernas, na barriga, entre as coxas e finalmente na cara…

O príncipe, satisfeito, atira com o roupão para o chão, aproxima-se de Ali e mete-lhe o sexo na boca. Isto traz o rapaz finalmente ao paroxismo, já não se consegue dominar, o esperma esguicha-lhe do sexo e cai sobre as coxas do Khan. Este sorri e ordena a Zima que o limpe com a língua. Puxa para si o rapaz, que está ainda mais envergonhado, e introduz-lhe de novo o membro entre os lábios. Ali lambe com entusiasmo esta nova espécie de chupa-chupa enquanto Hassan lhe acaricia com a mão os longos caracóis castanhos… O Príncipe recua, mas Ali segura-lhe o membro com as mãos e introdu-lo de novo na boca, acariciando os testículos do seu Senhor como antes lho tinha feito Zima. Contudo pode observar-se nos seus movimentos alguma hesitação e uma certa timidez, pois não ousa fazer tudo aquilo a que os seus desejos o impelem: a vergonha modera-lhe ainda o desejo. Subitamente ergue a mão para o peito do seu senhor e os olhos dos dois encontram-se…

Enlouquecido de desejo, o príncipe agarra ali pelas ancas e arremessa-o sobre um divã. Precipita-se sobre ele e tenta penetrá-lo. Mas Ali é virgem, e o obstáculo é tanto maior porque Hassan é fortemente constituído. Mas a dificuldade só lhe aumenta a fúria, o Khan já não se reconhece a si mesmo; Segura o membro com uma mão, e segurando-se assim dá uma estocada tão forte que se introduz completamente no corpo do rapaz. Este dá um salto de dor, o movimento do Príncipe foi tão rápido e brusco que ele se sente assassinado. O terror invade-o e contudo não ousa sequer gritar. Sente o membro do seu Senhor a mover-se dentro dele, e este membro parece-lhe de um comprimeto imensurável. O Khan morde-o na nuca e arranha-o com as mãos em garra, mas não consegue chegar a um clímax. A crise aproxima-se e afasta-se de novo no momento em que ele acredita que está mesmo à beira de se vir. Este impedimento irrita-o ainda mais, fá-lo dar urros, insultar o jovem, ameaçá-lo com as maiores crueldades, e põe nele a culpa da sua momentânea impotência enquanto lhe aperta nas mãos o pequeno pénis. Mas este começa de novo a sentir uma excitação extraordinária, começa a sentir prazer neste amplexo. Move agora por sua vez o cuzinho, mas só ousa fazê-lo docemente porque receia uma censura. Move-se também na mão que lhe segura o membro. Mais um momento, e gozará na mão do seu Amo, sente que está a ficar completamente rígido, e procura deter a ejaculação. Mas subitamente sente-se inundado, sente um líquido quente que jacto a jacto se lhe introduz no corpo, sente-o nas entranhas, e esta sensação é-lhe tão agradável que ele próprio não se contem e liberta na mão do Khan um copioso jacto de esperma.

Assim ficam os dois deitados lado a lado com o corpo cansado e o espírito saciado, e parece que o prolongar deste abraço é para eles um novo prazer. Não querem separar-se, tão agradável é para cada um deles o calor do corpo do outro. Finalmente o Príncipe retira o membro do corpo do rapaz. Este experimenta um sentimento bizarro de dor e vergonha; contudo ergue-se imediatamente para ajudar Zima a lavar o sexo do Senhor. Hassan, sentado no divã, chama o rapaz para o seu lado, acaricia-lhe os caracóis castanhos e cobre-o de palavras ternas, abraça-o com sentimento, grato pelo prazer que Ali lhe deu, e agradece-lhe a oferta do seu corpo. Fazem um belo par: a cabeça rosada do rapaz junto do ombro do homem forma com o rosto severo do Khan um contraste digno do pincel de um artista! A relação entre os dois está estabelecida – e Manoubia acaba de vender mais um escravo. De resto, tudo o que até agora aconteceu tem apenas este único fim: o amor dos sentidos anda sempre nesta casa de mãos dadas com o amor do lucro…

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Hoje é dia de Ele vir.

Ontem depois do trabalho fui à esteticista e à cabeleireira. A mocinha queria cortar-me o cabelo mais curto. Pelos ombros, disse ela. O que é que estas mocinhas sabem de alguma coisa? O meu Senhor gosta dos meus cabelos compridos…

– Não – disse eu à mocinha. – É só acertar nas pontas.

E hoje a manhã toda vai ser para me preparar. Começo nua. Nem sequer me visto para tomar o pequeno-almoço. Para quê? Corto com uma tesoura, o mais curto que posso, os pelos do púbis. Deito-os ao lixo. Terá ficado algum caído no chão?

Aproveito este pensamento para aspirar a casa toda. Já a aspirei ontem, mas não faz mal. Olho à volta: está tudo arrumado.

Meto o cabelo numa touca impermeável e vou tomar duche. Lavo-me toda com champô para bebés. Primeiro lavo-me entre as pernas: meto o dedo na vagina e no ânus, o mais fundo que posso, para me lavar por dentro. A seguir lavo-me toda: começo nos ombros, nos sovacos, vou descendo, limpo bem o umbigo, volto a lavar-me entre as pernas, e assim até aos pés, dedo a dedo.

Enxugo-me. Tiro a touca e prendo o cabelo atrás em rabo-de-cavalo. Pego numa gilette nova, no gel de barbear d’Ele, num espelho de mão, e sento-me na borda da banheira para me rapar entre as pernas. Estou concentrada. Não tenho pressa. Trabalho minuciosamente, cantarolando. Quando me dou conta do que estou a trautear, sorrio: é um fado, a Rua do Capelão. No fim lavo-me de novo da cinta para baixo, seco-me e ponho a toalha no cesto da roupa suja. Daqui a pouco, quando tomar banho outra vez, vou utilizar uma toalha lavada; mas também essa irá para a roupa suja logo a seguir.

Quero claridade. Tenho as janelas abertas, as cortinas corridas para os lados. Se do prédio em frente me virem nua pela casa, pois que vejam. É altura de fazer a cama – muito bem feita para Ele a desfazer – e de pôr a mesa, embora esteja certa de que Ele não vai querer comer. Desimpeço a mesinha junto ao sofá e ponho nela um tabuleiro: a garrafa de whisky, um copo, um cinzeiro, a caixa humidificadora com os charutos d’Ele. Abro a tampa e vejo o higrómetro: 70% de humidade, como Ele gosta. Ao lado, a guilhotina de cortar as pontas e uma caixa de fósforos nova.

Ponho música a tocar. Recomeço a cuidar de mim. Encho a banheira com água muito quente e sais de banho e entro nela muito devagar para não me escaldar. Fecho os olhos. Respiro fundo os vapores perfumados. Fico assim a enlanguescer, a acalmar, e pouco a pouco vou fazendo com que o coração me bata mais compassado. Quando a música pára de tocar saio da banheira, seco-me e arrumo rapidamente a casa de banho.

Passo por todo o corpo um creme perfumado. Ponho umas gotas de perfume atrás das orelhas. As unhas das mãos e dos pés estão arranjadas desde ontem com o verniz meio transparente de que Ele gosta. Pinto os lábios de cor-de-rosa escuro e os mamilos da mesma cor.

Sento-me diante do espelho, desprendo o cabelo e começo a escová-lo. Vou contando: cem passagens da escova a todo o comprimento. Para me aproximar mais do espelho abri as pernas. Vejo o meu sexo lisinho. Não é como o duma criança, o sexo duma criança é só uma rachinha e do meu espreitam os lábios da vulva, como duas pétalas rosadas. Com quarenta anos de idade nunca tinha visto bem o meu sexo.

Estou molhada. Perco a conta. Recomeço.

O cabelo está liso e brilhante. Prendo-o com ganchos para Ele depois desprender. Enfeito-me com tudo o que tenho que tenha pedras vermelhas: os brincos de turmalinas que me caem quase até aos ombros, o colar e a pulseira do mesmo conjunto. Ponho ao pescoço um fio de ouro com um pendente de rubis. Outra pulseira, esta só de ouro. Um fio de ouro à volta da cinta, uma pulseira em metal dourado, que comprei de propósito, no antebraço, um enfeite de tornozelo com campainhas.

Estou pronta. Só falta a saia, ou melhor, as saias; mas essas, só as ponho no último segundo, quando ele já me tiver dado o toque no telemóvel a dizer que está a chegar. Sento-me no sofá toda nua, com um livro, à espera.

Ainda é cedo. Leio o meu livro. De vez em quando olho para as saias para ver se não me esqueci de as pôr à mão. Quando o telemóvel toca, arrumo o livro na estante e começo a vestir-me. Primeiro a saia azul forte, transparente, debruada a ouro na fímbria. Por cima, a saia carmim. Vejo-me ao espelho: vista à transparência a saia de baixo parece violeta. Por cima de tudo uma saia dum vermelhão muito aberto, quase cor-de-laranja. Todas as três são abertas de lado até à cintura e eu disponho as aberturas de modo a quase coincidirem. Por um momento quase tenho pena de ter rapado o sexo, a sombra do púbis ficaria bonita à transparência. Mas não, estou a pensar mal: as saias são três, não se conheceria nada. É melhor assim, como Ele ordenou.

A campainha toca. É Ele. Abro a porta de baixo e entreabro a de cima. Estou pronta. Sinto o meu próprio cheiro de fêmea. Se o meu Senhor me penetrasse logo ao transpor da porta, sem sequer um beijo de saudação, entraria por mim dentro sem o menor entrave.

(Publicado no Blogger a 19/08/07)

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Cryseis era a mulher mais bela que Pedro tinha visto em toda a sua vida.
Esta convicção surgiu-lhe de repente, sem avisar, com a força duma evidência, três semanas depois de terem começado a viver juntos. Já se conheciam havia anos, tinham sido colegas, depois amigos, depois algo mais do que amigos; e Pedro, que sempre tinha considerado Cryseis uma mulher bonita, deu-se conta de repente que bonita e bela são coisas muito diferentes.

Se lhe pedissem para explicar a beleza de Cryseis, Pedro não o saberia fazer. Saberia dizer, sim, porque é que a considerava bonita: o cabelo castanho escuro caído pelos ombros, os olhos brilhantes, a boca carnuda, as feições regulares… uma mulher bonita como tantas outras, bem vestida, bem tratada, com formas um pouco cheias demais para o gosto corrente. Se alguma coisa nela transcendia o comum das mulheres bonitas, era a pele muito clara e muito lisa, com reflexos de pérola nas redondezas dos ombros, dos seios e das nádegas. Pedro apreciava devidamente esta e outras perfeições, porém não a ponto de considerar Cryseis mais do que bonita. Isto, até ao momento em que repentinamente abriu os olhos.

Cryseis não era alta nem magra. Não tinha as pernas invulgarmente compridas. Não dava ares de rapazinho adolescente nem de potro recém-nascido. Dava, sim, ares de mulher; e isto, numa época em que a beleza feminina é desvalorizada a favor da beleza andrógina, leva a que as mulheres verdadeiramente belas sejam muitas vezes invisíveis.

Na relação de Pedro e Cryseis, Pedro sempre tinha sido o parceiro dominante, mesmo quando eram só amigos. Um dia, ainda nessa época, tinham combinado ir ao teatro com outras duas pessoas. Cryseis tinha-se atrasado, fazendo com que os outros só pudessem entar na sala ao intervalo. Depois, em casa de um deles, alguém tinha sugerido meio a brincar que a causadora do atraso devia ser punida com palmadas no rabo.

– Só se for o Pedro a dar-mas – disse Cryseis.

Pedro olhou para ela e viu que ela lhe olhava para as mãos com um certo ar concentrado e atento que ele conhecia muito bem. Pedro ainda não sabia – havia de sabê-lo nessa mesma noite – que era este o rosto de Cryseis nos momentos de excitação sexual; mas sabia que este sobrolho um pouco franzido, este ligeiro entreabrir dos lábios, eram indicações de que ela estava a viver um momento intensamente.

– Então vem cá. Deita-te de bruços sobre os meus joelhos – disse Pedro.

E depois de lhe levantar o vestido assentou-lhe quatro vigorosas palmadas nas nádegas, o que causou ao casal de amigos – que esperavam assistir apenas a um par de palmadinhas simbólicas – um pouco de admiração e embaraço.

Nessa noite Pedro dormiu pela primeira vez na cama de Cryseis. No momento em que ele a penetrou pela primeira vez, ela disse-lhe «sou tua». E algumas semanas mais tarde, num entardecer de Outono, conversando sobre o futuro num banco de jardim:

– Eu sou tua, faz de mim o que quiseres.

Pedro assim fez. Uma das coisas que fez dela foi ordenar-lhe que passasse a usar só saias ou vestidos e se desfizesse de quaisquer peças de roupa que fechassem entre as pernas – com excepção de alguns pares de calcinhas para quando estivesse menstruada.

Mais tarde trocaram os apartamentos em que viviam por um maior. Três semanas depois Pedro descobriu um par de jeans no armário de Cryseis e deitou-o ao lixo, o que provocou a primeira discussão entre eles. A discussão terminou num beijo durante o qual Pedro bebeu as lágrimas de Cryseis, beijo este seguido de palmadas, depois de carícias e suspiros, finalmente duma cópula durante a qual ela foi proibida, pela primeira vez, de ter orgasmo.

No dia seguinte Cryseis comprou uma vergasta. À noite ofereceu-a a Pedro. E foi nesse momento que ele, ao ver na sua amada um olhar tão limpo, tão directo, tão sem medo, um olhar que ele já tinha visto tantas vezes mas a que nunca tinha dado verdadeira atenção – foi nesse momento que Pedro, finalmente, a viu deveras.

(Publicado no Blogger a 18/08/06)

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I’ve been your slave baby
Ever since I been your babe.
I’ve been your slave
Ever since I been your babe,
But before I be your doll
I’ll see you in your grave
.

Billie Holiday

salome_by_franz_von_stuck_19062“Quero que escolhas um nome,” disse Miguel. “Será o teu nome de escrava.”

Marta tardou em responder. A conversa de hoje continuava outras anteriores; a fantasia que convocava tinham-na já várias vezes vivido, e tinham achado nela um prazer intenso, a que só uns laivos de constrangimento davam um tempero acre; mas para além do prazer e do constrangimento visitava-os um outro sentimento mais misterioso e raro, vizinho das lágrimas e do riso, a que que não sabiam dar outro nome que não fosse alegria.

Hoje tinham passado a tarde no jardim da Sereia. Quando vinham a Coimbra era sempre com encontro marcado, quando as profissões e os deveres familiares lho permitiam, abandonando ela a sua galeria de arte em Lisboa, e saindo ele de Braga, da Universidade onde ensinava. Os arruamentos de saibro do jardim pareciam-lhes agora mais estreitos do que no seu tempo de estudantes, as árvores mais desgrenhadas, com ramos esgalhados e folhas carcomidas. Estavam os dois abraçados num banco, em frente ao lago central do jardim. Noutros bancos enlaçavam-se jovens pares de namorados, da idade que tinha sido a deles quando aqui vinham quase diariamente.

“Às vezes dou a mim mesma o nome de Mariana,” disse Marta por fim. “Numas coisas que escrevo. Coisas minhas. Mas também pode servir para – ”

Miguel apertou-lhe a mão com mais força.

“Mariana. Fica-te bem.” O nome dizia bem com os olhos dela, com os modos dela. De agora em diante Miguel chamar-lhe-ia Mariana quando quisesse que lhe respondesse a escrava.

Marta escondeu o rosto no ombro do amante. “Sim, meu amor” murmurou; e ficou à espera que ele a chamasse desde já pelo seu novo nome, sabendo que qualquer resposta que desse a essa chamada seria já como que uma genuflexão. Mas nas horas que se seguiram ele tratou-a sempre por Marta, ou então pela infinidade de nomes carinhosos que só não são ridículos no léxico dos namorados; e ela acreditou que a conversa no jardim tinha sido apenas mais uma de muitas, uma excitante fantasia de palavras em que ele lhe falava de a amarrar e possuir, ou de lhe ordenar gestos impensáveis, nudezes impossíveis: como caminhar pelas ruas com um vestido transparente, sem soutien nem calcinhas, ou então descalça como há vinte anos as ciganas.

E depois, no restaurante em Coimbra, e na Figueira da Foz, no hotel, foi sempre pelo nome dela que continuou a tratá-la, e também na cama, quando fizeram amor. Foi só a meio da noite que ele, sentindo-a acordada a seu lado, lhe pôs num seio uma mão proprietária e a chamou pelo seu novo nome: “Vem cá, Mariana.”

“Sim, meu amor,” respondeu ela, com o coração a bater-lhe mais depressa. “Estou aqui.” O abraço com que se enlaçaram foi igual aos outros, talvez mais firmes as mãos de Miguel no corpo dela, ou mais meiga – mas não o era sempre? – a boca dela na dele. Quando, ao fim das primeiras carícias, serve-me, amor, beija-me, Mariana, ela se deitou ao comprido por cima dele, ele começou a roçar-se contra ele, nudez sobre nudez; e durante este tempo não parou de lhe falar nem de lhe exigir que falasse.

“Como te chamas?”

“Marta; a tua Marta.”

“Sim; a minha Marta; mas também a Mariana. Diz: sou a Mariana.”

“Sou a Mariana, meu amor.”

“E eu quem sou, Mariana?”

Marta, ou agora talvez Mariana, soltou um longo gemido. Era tão difícil falar, assim excitada, a excitação cortava-lhe a voz, e para mais ter que dizer aquelas palavras, palavras que se lhe enovelavam na garganta, refractárias.

“És o meu amante. O meu amor. O meu – o meu senhor.”

“E tu, o que és?”

“Ooooh, meu amor, meu querido. Sabes bem que sou tua, toda tua.”

“És minha o quê?”

“Oooh, meu amor. A tua escrava, meu querido. A tua escrava. Se tu assim o queres. Toda tua, meu amor.” E contra a macieza de Mariana a o corpo dele tinha a inamovível dureza da lei, como bastão ou ceptro ou espada simbólica.

“Ouve-me bem,” disse-lhe ele, numa voz entrecortada pela excitação e também por uma certa incredulidade perante o que estava ousando dizer. “A Marta é a minha amada; e a minha amante; e tu, Mariana –”

Mariana era talvez uma ficção, mas correspondia a alguma coisa que em Marta era real, e ela bem o sabia.

“Ou não sabes?” Perante a aquiescência muda de Marta, Miguel prosseguiu: “Tu, Mariana, és a minha serva, a minha escrava. Pertences-me completamente. Os meus direitos sobre ti são todos, os teus sobre mim nenhuns.”

Mariana podia pensar que tudo aquilo era um jogo, uma fantasia; e era-o talvez, de facto, no que dizia respeito a Marta. Mas Mariana era realmente propriedade de Miguel; não se tratava aqui dum papel representado para dar prazer quer a um, quer a outro.

Excitada como estava, Mariana mal estava em condições de ouvir o dono, e muito menos de lhe acompanhar o discurso; mas isto não a impediu de compreender – fosse com o cérebro ou com o coração, ou com o sangue que lhe afluía ao rosto e ao peito e ao ventre – a medida exacta do que se lhe exigia; e por isso o seu sim foi quase um soluço, e o beijo com que o acompanhou quase uma súplica.

E enquanto durou aquele abraço Mariana foi ouvindo e repetindo, sempre às portas de um orgasmo que durante todo o tempo lhe foi negado, as condições da sua escravidão: primeiro os seus direitos, que eram nenhuns, depois os seus deveres, que eram servir e obedecer. Obedecer absolutamente, tanto no que lhe desse prazer como no que lhe causasse sofrimento ou repugnância. O corpo de Mariana não lhe pertencia a ela, mas a ele, que tinha o direito de se servir dele quando e como quisesse; e não só pela vagina, mas também pela boca e pelo ânus. E ela repetia, desviando o olhar, como uma menina no colégio obrigada a pedir desculpa: o meu corpo é propriedade tua, podes possuir-me quando quiseres, pela vagina, pela boca, pelo ânus. São teus os meus seios, as minhas coxas, as minhas mãos, mas também a minha vontade; e a minha sensibilidade; e a minha inteligência. Tu és o meu dono, o meu senhor, o meu amo. Só a tua vontade conta, e o teu prazer. Tens todos os direitos sobre mim, e eu nenhum sobre ti. Só me compete obedecer-te, e servir-te, e não tenho nenhum direito. Nem ao prazer: uma escrava não tem direito ao prazer.

Acreditaria Marta completamente naquilo que estava a dizer? Certamente que não, como poderia? Mas Mariana sim; e Mariana era parte dela, inseparável, criada por ela, posta por ela ao serviço de Miguel; uma vez convocada à realidade da existência e da acção nunca regressaria, sem deixar traço da sua passagem, ao limbo ficcional que ocupara no mundo secreto de Marta.

Nos meses que se seguiram a esta jura Marta encontrou-se várias vezes com o amante: quase sempre na sua própria pessoa mas também por vezes na de Mariana. Depois houve um arrefecimento na relação entre os dois, um período de frustrações, desconsolos, desilusões e silêncios. Mariana, anunciou Marta uma vez, foi-se embora para não voltar. No mesmo encontro em que lhe fez este anúncio disse-lhe que tinha havia vários dias uma prenda para ele, mas que no estado em que estava a sua relação não fazia sentido dar-lha.

Foi por esta altura que decidiram os dois, por diferentes razões mas concertadamente, passar um ou dois anos fora de Portugal e das suas famílias. Marta foi para Brugges, trabalhar com uma amiga que tinha uma galeria de arte e estava disposta a ceder-lhe um pequeno apartamento com atelier; e Miguel para Heidelberg para concluir a sua tese de doutoramento.

O seu primeiro encontro depois disto foi em casa dela, em Brugges. Miguel ia dominado por um sentimento de contrição, porque o afastamento que tinha começado em Portugal devia-se em primeiro lugar a ele, e porque durante o primeiro mês em Heidelberg tinha mantido um silêncio vergonhoso, a ponto de lhe suscitar a ela um ultimato, ama-me ou deixa-me. Mas no abraço com que Marta o recebeu viu-se que não queria desculpas nem explicações; e também ele não gostaria de lhas dar, porque ou os actos subsequentes as confirmariam, e não seriam necessárias, ou as contradiriam, e seriam mentirosas.

Mentirosos não foram os corpos, certamente; porque nessa noite, quando Miguel a ia penetrar, ouviu-a dizer claramente, como raras vezes antes: “Sou tua, possui-me.” E na explosão do orgasmo foi como se todas as penas passadas e todas as palavras que tinham ficado por dizer se libertassem também; de modo que quando olharam um para o outro no seu habitual e sempre novo maravilhamento souberam ambos que já não havia, de parte a parte, explicações a dar nem desculpas a pedir, e que todas as dívidas estavam saldadas. No dia seguinte passearam pela cidade ao longo dos canais e na praça do Mercado, e visitaram, num recanto discreto de um jardim, uma estátua de rapariga, personagem, vá lá saber-se até que ponto ficcional, duma canção de Jacques Brel.

(E nós, de quantas outras ficções, além bem entendido da nossa, somos personagens? Porque se a ficção se faz bronze, como na estátua de Marieke, não é menos certo que se faz carne; a tal ponto que o nosso trabalho maior de cada hora – e nenhum humano escapa a esta lei – consiste nesta encarnação.)

Quanto a Miguel e a Marta: tão enlaçados quanto lho permitiam as várias camadas de roupa – e há nestes abraços de Inverno, apesar da inacessibilidade dos corpos, um não sei quê de aconchego que falta aos de Verão – respiraram a humidade do ar, a iminência da chuva, e curvaram a cabeça sob o tecto de nuvens, tão baixo e tão pesado. A água que saturava o ar, que pendia sobre eles, que lhes corria sob os pés, lavava tudo: tudo à volta deles era lavado e fresco, sem uma sugestão de poeira ou fermentação de matéria viva. Je t’aimais tant, diriam talvez um dia Miguel e Marta um ao outro, ou um do outro, entre les tours de Brugges et Ghent. Mas ao caminhar sobre a relva molhada neste jardim da Flandres o que lhes vinha à recordação eram os seus passeios em Portugal, à beira-mar, a secura ríspida das urzes, os arbustos que os protegiam dos olhares indiscretos; e do amor que faziam ao ar livre sob os pinheiros mansos e as azinheiras; e fez-lhes falta o ar mediterrânico que fora a pátria primeira dos seus encontros, com os seus perfumes acres, com a sua poeira estival que lhes sujava os pés e secava as gargantas.

Numa dessas vezes, numa mata cerrada que dava, como uma imensa varanda, sobre a Costa da Caparica (estavam os dois nus sobre uma manta, e Marta, sentada na mesma posição que o modelo de Déjeuner sur l’Herbe, dispunha sobre uma toalha o piquenique que tinha preparado), deram por alguém que se movimentava por entre os arbustos. Um voyeur, também aqui, apesar de não terem visto casas nas proximidades nem outros automóveis além daquele em que tinham vindo. Era um homem atarracado, de meia idade, talvez mais novo do que eles, vestido com umas calças escuras de fazenda e uma camisa branca, e rondava-os de gatas, como um soldado enviado a espiar o inimigo. Para o enxotar bastou um gesto e um riso, e nem foi preciso vestirem-se; mas pouco depois foram-se embora, perdida a vontade de fazer amor.

E agora aqui, em Brugges, nesta Europa húmida e fria que lhes dava, sem sequer parecer aperceber-se da sua existência, toda a privacidade de que necessitavam, riam-se destas aventuras. E recordavam os vestidos estivais de Mariana, compridos e rodados, que Marta tinha trazido na bagagem para vestir quando também aqui fosse Verão.

“Lembras-te daquele meu cinzento, quase branco? Era esse que eu trazia quando me obrigaste a andar descalça na rua pela primeira vez. E do outro, cor de açafrão, que levei a Sesimbra? E da saia azul aos godés?”

Para sairem da chuva e do frio entraram num café, tão aquecido que logo nos primeiros segundos tiveram que despir os agasalhos. As janelas eram vitrais coloridos; tudo, desde os rostos vermelhos dos clientes aos braços roliços das empregadas, sugeria aconchego; e por todo o lado se espalhava o cheiro mole da cerveja.

Mais tarde, no apartamento, sentados os dois no sofá, sentiram como estavam longe de casa. Durante algum tempo não falaram; e os próprios gestos de ternura que trocavam pareciam afectados pelo que Miguel tinha a dizer. Por fim, quando à força de abraços e beijos se dissipou este estranho constrangimento, as palavras surgiram:

“Marta,” disse Miguel, apertando-a nos braços. “Hoje vou tomar posse de ti como minha escrava. Aqui e agora.” E tomava posse dela não só para aquele dia, mas para sempre, e de verdade. Dizendo isto o amante olhava-a nos olhos, e a voz não lhe tremia. “Põe-te nua para me ouvires; e ajoelha-te.”

Marta tirou o vestido, as meias, e a roupa interior que tinha posto para o receber. Era um conjunto em rendas e cetim, dum cinzento pálido quebrado apenas por uma discreta bordadura de florzinhas cor-de-rosa. Depois ajoelhou-se-lhe aos pés, toda nua. Nada disto, para dizer a verdade, a perturbava sobremaneira. Mas as palavras do amante, ditas assim – num momento de ternura e aconchego em que nenhum dos dois tinha, para justificar a sua fantasia de domínio e submissão, a desculpa duma avassaladora excitação sexual – tinham um significado especial, que ela bem entendeu. Pela primeira vez desde que se assumia como seu senhor, Miguel dirigira-se explicitamente a ela, Marta, e não a Mariana. Pois bem, se o que ele desejava era desfazer ambiguidades, também ela o queria, mesmo que para tal deixasse de haver solução de continuidade na sua servidão. Abraçada a ele numa aquiescência muda, beijando-o no peito, ouvia-lhe a cadência estranhamente formal das palavras. A voz adquiria agora ressonâncias de bronze, como se todos os sinos em todas as torres de Brugges tivessem sido convocados em seu reforço:

“São Meus os teus cabelos negros, para que Me deleite neles quando quiser. São Meus os teus olhos, para que Me estejam sempre atentos. São Minhas as tuas lágrimas. É Minha a tua boca, para que Me sorria e Me beije, e para que se abra ao Meu corpo. É Meu o teu riso, como é teu o Meu; e o teu amor, e o Meu amor, também. São Minhas as tuas mãos, para que Me dispam e vistam, para que Me lavem, Me acariciem, Me preparem a comida e Ma ponham na mesa. São Meus os teus seios, para que todos os dias a sua beleza se descubra aos Meus olhos; e para que na sua brandura repouse o Meu cansaço. São Meus os teus braços, mais do que tudo o resto, porque enquanto fores Minha nunca Me hão-de mentir. São Meus os teus quadris, que tão bem sabem dançar para Mim. É Meu o teu sexo, e o teu botão de amor, para que Eu o beije e dedilhe, e todas as aberturas do teu corpo, para que Eu as penetre quando quiser e como quiser. São Minhas as tuas nádegas, Minhas para acariciar ou castigar. São Meus os teus pés, para correres para Mim quando Eu te chamar, e para que descalços afirmem a tua escravidão.”

Marta ouvia tudo isto e consentia em tudo, apesar dos assomos de inquietação e revolta que lhe surgiam do peito; mas não conseguiu encontrar em si própria as palavras de aceitação que ele agora lhe exigia, palavras reflexas das dele em que se reconhecesse escrava e se entregasse como tal. Quando o dono, perante o seu silêncio obstinado, lhe tocou experimentalmente o sexo e o encontrou molhado, ela sentiu mais alívio do que humilhação pela displicência do gesto, como se o seu próprio corpo a dispensasse de falar.

Não tinha tido qualquer relutância ou hesitação em se despir quando ele lho ordenou, nem em se ajoelhar diante dele, nem em beijar-lhe longamente os pés; só as palavras lhe custavam. Quando ele insistiu em que confirmasse por palavras o discurso do corpo só foi capaz de dizer:

“Para quê, meu amor? Se eu já te disse que sim?”

A meio da noite Miguel despertou-a com uma carícia: “Acorda, meu amor. Vira-te para mim.” Obediente e amorosa, abriu-se para que ele a penetrasse; mas não sem que ao mesmo tempo lhe perguntasse, coquette:

“E se agora a tua escrava não quiser?”

“Mas se tu não tens querer,” ousou ele responder, fazendo-a arquejar de surpresa e excitação. E antes que ela pudesse retorquir já a tinha penetrado com um único, fácil movimento; mas depois, em vez de começar a mover-se no ancestral vai-vém dos amantes, ficou imóvel dentro dela, trespassando-a com o sexo rígido, sujeitando-lhe os pulsos, interrogando-a:

“Quem sou eu, Marta?”

“O meu senhor.”

“Quem?”

“O meu senhor. O meu dono.”

“E tu, quem és?”

“A tua escrava.”

“Mais alto.”

“A tua escrava.”

“Mais alto: quem és tu?”

“A tua escrava! A tua escrava! A tua escrava!”

Miguel bem ouviu o que havia de revolta neste grito. Mas momentos depois, quando Marta repetiu num murmúrio as mesmas palavras, a revolta tinha refluído como uma maré, e em seu lugar ouvia-se o que podia ser ternura, ou talvez um outro sentimento que ele não soube definir: “A tua escrava. Só a tua escrava, meu amor.”

“E eu o teu senhor.” Com estas palavras Miguel recomeçou a mover-se dentro dela e a encorajá-la: “Anda. Goza. Goza muito, meu amor. Sente o meu corpo no teu, sente tudo; o teu prazer, olha, é uma maré que sobe; é o mar que te enche, meu amor, que te avassala, é uma onda, assim, meu amor querido, uma onda quente que te inunda, vem-te agora, agora. Dá-me o teu prazer, não mo recuses; não me recuses nada.”

E enquanto a ela o rosto e o peito se lhe coloriam de vermelho, e a respiração lhe vinha em arquejos ansiosos e um longo gemido se lhe escapava da garganta, também a ele lhe veio um orgasmo, mas um orgasmo sem ejaculação, intenso, perfeito, insuportável. Miguel gritou e riu de prazer e frustração, e sentiu naquele momento que morria, que nunca poderia sobreviver a que aquele tanto fosse tão pouco. Mas não saiu de dentro da amante: pôs-se a acariciá-la e a beijá-la, exausto mas ainda erecto, insatisfeito, movendo-se ainda dentro dela em suaves movimentos que a espantaram, como podia ele continuar a possuí-la sem interrupção, depois de ter tido um orgasmo tão forte e tão bonito. Mas sim, era verdade, os movimentos do amante começavam de novo a ganhar em amplidão e vigor, e ela, sim, meu amor, possui-me, agora só para ti, só para o teu prazer. E juntava as pernas, apertava-o, movia-se debaixo dele numa dança do ventre sensual. Tudo isto, porém, a excitava a ela tanto como a ele, e quando ele finalmente ejaculou numa torrente de riso e de triunfo também ela explodiu num segundo orgasmo.

“Tenho um pedido a fazer-te,” disse Miguel a Marta por fim, antes de adormecerem. “Não é uma ordem, é um pedido.”

“Diz, meu querido.”

“É que nunca te arrependas de ser minha escrava. E se um dia deixares de o ser nunca te arrependas de o ter sido.”

“Oh, meu amor. Não, nunca me vou arrepender.” Se é que se podia dizer nunca. Marta não era nada que não tivesse escolhido ser, e nunca aceitara nada que não fosse de olhos abertos. E não sentia nada em relação a isto a não ser orgulho. “Posso ter algumas inibições com certas palavras; mais do que com os actos, como sabes; mas não, não me arrependo de nada. E tu?”

“Não, não me arrependo. Mas às vezes também fico inibido.”

Convencida ou não, Marta não pôde deixar de lhe dar um último abraço: “Boa noite, meu querido. Meu senhor. Dorme bem.”

No dia seguinte, quando se despediram na estação, entregou-lhe um pequeno embrulho. Era a prenda que tinha para ele da outra vez: agora já lha podia dar. Mas só queria que ele a abrisse quando chegares a casa. Durante toda a viagem Miguel procurou dominar a curiosidade. Que prenda seria aquela, tão difícil de dar que tivera de aguardar o momento perfeito? Mas há ocasiões, pensou, em que um senhor que se respeite não pode deixar de obedecer à sua escrava.

Em casa abriu a prenda: era uma fita de seda vermelha, igual a uma que se descrevia numa das histórias que costumava contar à amante: com uma fita assim atara uma das suas personagens os pulsos da amante antes de a possuir sobre o tampo de uma mesa.

Não se pode dizer que Marta vivesse a sua escravidão com a mesma serenidade com que Mariana a tinha vivido. É certo que uma vez, perante uma vacilação do amante, repetiu-lhe que tudo o que tinha aceite, tinha aceite de livre vontade e de olhos abertos. E num outro encontro, em Heidelberg, teve a iniciativa de lhe dizer que ser escrava dele era um privilégio. Mas mais tarde, num telefonema, disse-lhe com alguma condescendência na voz que era tudo um jogo, uma fantasia – o que, sendo verdade, falseava tudo. “Se eu sou tua, tu também és meu.” E numa irada missiva, depois de um encontro que por culpa dele correu mal: “Amo-te, mas o meu amor por ti não me cega nem me faz submissa.”

Um amor lúcido, uma submissão voluntária: eis o que Miguel continuava a exigir de Marta. Também ele era dela, também ele lhe tinha feito presente de si próprio, e alegremente; por isso eram um do outro; nisso tinha ela razão; mas ela que não se iludisse: dos dois só ele era senhor e só ela era escrava. Isto mesmo lho disse numa carta, que ela guardou ou destruiu mas nunca mais mencionou. E disse-lhe também que a única liberdade que lhe consentia estava em deixar de o amar. Mais tarde, em Brugges, lembrou-lhe estas cláusulas, e também que já uma vez, naquele mesmo apartamento, tinha tomado posse dela: “Consentes que renove agora essa posse?”

“Sim,” disse Marta.

“Então ouve-me bem: disseste e escreveste várias vezes que a tua escravidão era um jogo. É verdade: não tenho, nem quero ter, qualquer meio de ta impor. Mas não é uma brincadeira, nem algo que dependa das tuas decisões.”

“Eu sei.”

“E disseste que era uma fantasia, uma ficção. Também é verdade. Mas não é uma mentira. É a nossa ficção, e exprime a nossa verdade.”

“Eu sei, meu amor.”

“Agora põe-te nua.”

Quase nua já ela estava, apenas um robe de cetim por cima da pele. Sem qualquer hesitação obedeceu ao amante, que não parou de a acariciar. Depois, sem que ele lho tivesse ordenado, ajoelhou-se-lhe aos pés e beijou-lhos: carinhosamente, prolongadamente, como lhe tinha dito dias antes, pelo telefone, que tinha vontade de os beijar. Mas quando ele lhe pediu de novo que se lhe entregasse pelas suas próprias palavras, voltou a recusar: “Já me entreguei, estou aqui, de joelhos.”

E, inclinando-se, recomeçou a beijar-lhe os pés. A pouco e pouco foi-lhe subindo pelas pernas acima, primeiro os tornozelos, depois as barrigas das pernas e os joelhos. Miguel tinha umas pernas robustas e hirsutas; e Marta, cuidadosa e lenta, parecia empenhada em que cada centímetro quadrado de pele recebesse o seu quinhão de beijos. Só quando chegou aos joelhos é que começou a apressar-se: a meia dúzia de beijos que lhe deu no interior das coxas foram displicentes em comparação com os outros, como se estivesse agora impaciente por chegar ao fim deste percurso.

E com efeito: Miguel recordava-se de poucas vezes em que Marta lhe tivesse dado, de tão bom grado como hoje, o mais íntimo dos beijos; e com uma vontade tão evidente de o levar ao clímax. Mas deu-se conta apesar dos esforços da amante não ia lá chegar. A vibrante erecção com que tinha começado começava já a esmorecer; e antes que a perdesse deitou-se por cima dela e procurou-lhe a outra boca do corpo.

“Mostra-me o teu rosto,” pediu, numa voz velada pela excitação; e Marta, que lhe beijava o peito, interrompeu a carícia para o olhar nos olhos. Perdido nos olhos da amante, Miguel deu graças a Deus por ter feito do Homem o único animal que consegue copular cara a cara. E no mesmo ritmo com que a penetrava começou a recitar, rouco e arquejante, uma ladaínha:

“Se o meu amor fosse o Sol havia de te escurecer o corpo todo sem nunca te queimar; se fosse o vento havia de dançar à tua volta com as folhas das árvores, sem te tocar. Se fosse …”

Marta largou um gemido que parecia de dor.

“ Se fosse um rio,” continuou Miguel. “Havia de transbordar das margens, e crescer até te beijar os pés. Se fosse a chuva …”

“Sim, meu amor, diz: se fosse a chuva …”

“Se o meu amor por ti fosse a chuva, havia de te vir cantar nas vidraças. A chamar-te para vires dançar nua, na varanda.”

O gemido de Marta era agora um som ininterrupto e os dedos cravavam-se-lhe como garras nas costas do amante, que continuava a falar com voz rouca:

“E havia de te lavar o corpo e os cabelos; e a lua havia de se reflectir na tua pele molhada; e a cidade havia de ficar iluminada por dois luares: o da lua, e o do teu corpo.

“Sim, meu amor, sim. Diz-me. Diz-me tudo. Quero dançar nua na varanda. Dançar para ti. Nua. Na varanda.”

“Ahhh! … Se o meu amor fosse o mar … ah, se fosse o mar! Havia de te envolver nas ondas até tu perderes o pé; e depois havia de te embalar como a um bebé, e depositar-te na areia, salva, com um beijo. E se fosse o cume duma montanha, um pico coberto de neve, havia de capturar o último raio de sol e reflecti-lo nas tuas janelas.”

“Ah! Que bom, meu amor!”

“E se o meu amor por ti fosse um cabritinho, havia de te seguir mansamente, ao sacrifício, para que te alimentasses dele.”

“E se fosse um tigre?”

“Se fosse um tigre! Se fosse um tigre, ah! Aí havia de te despedaçar a carne e os ossos … comer-te … e beber-te … e tu havias de lhe circular nas veias … nas minhas veias de fera … alimentar-me os músculos … os olhos … o cérebro …”

“Sim, meu amor. Meu amor, meu tigre, meu leão. Sou a tua presa, consome-me; consome-me toda, meu querido.”

Miguel já não conseguia falar. Todas as suas forças, todas as sensações que era capaz de experimentar estavam agora dedicadas a um só fim, a uma só urgência, ao impulso irresitível que o obrigava a correr à desfilada para dentro do corpo de Marta. Viu como a amante enrubescia, ouviu-lhe os arquejos desesperados, os ais aflitivos, os esfaimados sins do orgasmo; e por fim também ele soltou a voz, o riso e o sémen numa só libertação, finalmente, finalmente. Depois deixou-se ficar dentro dela, como era seu hábito, beijando-lhe a boca, os olhos e a face, até que da lenta deflação que ia seguir-se resultasse uma suave retirada; e entretanto continuava a mover-se dentro dela num vai-vem quase imperceptível, um gentil arremedo das vigorosas estocadas com que momentos antes a tinha possuído. Durante longos minutos nenhum dos dois falou, contentando-se com trocar beijos e sorrisos; mas por fim, quando já Miguel tinha rolado para cima dos lençóis, e depois de encontrarem uma posição confortável – com a cabeça dela no peito dele – começaram de novo a conversar.

“Sabes, meu querido?” disse Marta. “De que é que eu tive vontade? Quando estavas quase a vir-te tive vontade de te pedir que o fizesses na minha boca. Mas depois inibi-me… Porque é que me inibi?”

“Hmmmm … não sei … por pudor, talvez; por esse teu pudor lindo. Como tudo em ti é lindo.” Mas também era lindo o impudor daquela confissão. Para Miguel a confissão equivalia quase ao acto; e sentia-se feliz por ser cada vez mais livre de se servir da amante como entendesse, e com o seu pleno aval e acordo. Mas como podia ele, como pode qualquer pessoa ser digna de tamanha confiança? “Meu amor, minha escrava,” disse para si mesmo; e abraçou-se a ela com força.

Pela noite fora ainda fizeram amor mais uma vez; entretanto acariciaram-se, beijaram-se, foram à cozinha e ao quarto de banho, beberam água e sumos de fruta; e conversaram sobre todos os assuntos do mundo. Lá para o fim da pausa, no momento em que os corpos lhes recomeçavam a despertar, Miguel ainda disse a Marta que ainda tinha, em Heidelberg, a vergasta que ela lhe tinha oferecido, e que um dia havia de a trazer. Não porque tivesse qualquer prazer em causar-lhe dor – mas porque, tendo sobre ela todos os direitos, tinha também o de a castigar fisicamente; e um direito como este só existe se for realmente exercido. Marta, abraçada a ele, ouvia-o; e sem dizer nada apertou-o ainda mais nos braços, como se com esse abraço quisesse proteger-se, ou protegê-lo.

Quando se levantaram, ia alta a manhã, Marta vestiu o robe e num movimento quase instintivo procurou os chinelos que tinha deixado aos pés da cama. Mas Miguel fez-lhe sinal que não. Não era a primeira vez que ele a proibia de se calçar; mas pela primeira vez desde a sua chegada a Brugges obedeceu-lhe sem relutância. Não se calçou nem mesmo para lhe preparar e servir o pequeno almoço, apesar dos ladrilhos frios que revestiam o chão da cozinha. Depois tomou banho e vestiu-se: blusa branca de seda; saia preta, rodada, de algodão indiano, suficientemente comprida para lhe cobrir os pés nus; arrecadas de ouro nas orelhas. Só pôs meias e sapatos quando chegou o momento de o levar ao comboio.

No cais, ao dizer-lhe adeus, Miguel chamou-lhe “minha escrava de amor”; e a ela, a quem a palavra escrava nunca tinha deixado de doer um pouco, desta vez não lhe doeu. “Adeus, meu senhor,” respondeu sorrindo. E assim que o viu entrar na carruagem virou as costas e afastou-se, para não prolongar a despedida.

(Publicado a 18/01/06)

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Dedicado à Eva, à Ró e à Kris, três Mulheres superiores.

Allegro con brio

“Eu agora era o Gino”.

Marta não pôde deixar de sorrir com a formulação escolhida pelo amante, mais própria das brincadeiras infantis do que do jogo de amor a que neste momento se entregavam. Gino era um dos papéis que Miguel gostava de representar quando faziam amor: um jovenzinho sedutor, mediterrâ­nico na compleição, um efebo trigueiro, delicado de ossos mas com a musculação bem definida de um atleta. Nada disto, é claro, tinha grande seme­lhança com o corpo real deste quarentão já um pouco pesado que se debruçava sobre ela, sorrindo-lhe: mas os gestos do adolescente estavam lá todos, os modos, as infle­xões de voz. Marta não teve dificuldade em ver Miguel tal como ele se lhe propunha à imaginação: os olhos e os cabelos muito pretos e brilhantes sobre a pele tisnada, os cí­lios longos, femininos, o sorriso impudente. E imaginou-o noutros tempos, sob um sol siciliano ou grego, coroado de louros, triunfante no dardo e na corrida: que prémio lhe poderia ela dar senão o seu próprio corpo de mulher madura?

Estavam os dois num pinhal à beira-mar. Para lá chegar tinham percorrido de carro um longo caminho de terra batida. À distância conseguiam ouvir o marulhas das ondas na praia semi-deserta, frequentada apenas por alguns raros pescadores; mas aqui entre as árvores não havia o perigo de serem surpreendidos, e gozavam o luxo de se estenderem nus ao sol, sobre a areia das dunas. A areia estava entremeada de ramos secos, aguçados, e de plantas espinhosas; e Marta, que mesmo nua calçava as sandálias quando precisava de se deslocar uns metros, admirava-se da inconsciência com que Gino caminhava descalço entre os espinhos. Que as roupas se lhes enchessem de palhas e pólen pouco a incomodava, ou a ele. Uma vez tinham chegado a ir à ópera depois de passarem a tarde na mata; e se ela, que morava em Lisboa, tinha podido passar por casa para mudar de roupa, ele tinha ido com as mesmas calças desportivas e o mesmo blusão com que se tinha deitado na erva.

Entre as árvores que rodeavam a clareira havia dois ou três pinheiros mansos, e dos arbustos desprendia-se um perfume agreste que poderia bem ter sido o mesmo quatro mil anos antes: e nus como estavam, sem roupas que os situassem na História, quem os poderia distinguir de um outro par de amantes que milénios antes tivesse procurado o mesmo lugar? Até a comida que tinham trazido com eles poderia ter alimentado esse outro par: pão escuro de trigo, queijo de cabra, uvas passas, vinho tinto, mel.

Assim como Gino era fisicamente diferente de Miguel, também Marta se sentia diferente na sua presença. O seu pequeno corpo grácil e delicado, fino e flexível na cintura, doce e arredondado nas linhas da silhueta, parecia tornar-se-lhe seco e anguloso como o de uma sibila na sua caverna; e o rosto expressivo parecia-lhe endurecido como o de quem passou toda a vida na praia, mulher e mãe de marinheiros, augurando naufrágios.

Gino era egoísta e sôfrego no amor; quando ele a abraçou Marta preparou-se para a sua investida de jovem macho, “espera, espera um pouco, deixa-me pôr esta toalha por baixo,” e ele, “sim, amor, sim,” mas sempre o sexo erecto como um aríete a bater-lhe às portas do corpo, uma cega cabeça de carneiro a exigir entrada. E estes cegos embates, afinal, ao lado, em cima, em baixo; o breve momento de pânico ao senti-los próximos da outra entrada, “não, por aí não, por aí não quero”; os pequenos lábios do sexo esmagados como pétalas, os pelos repuxados – afinal estes embates, e depois a abrupta transposição de um umbral ainda meio seco, impreparado, e por via desta impreparação tão definido como o hímen de uma virgem; os embates cegos, o abrupto romper por ela adentro como uma nova desfloração; toda esta refrega inábil acabava sempre afinal por dar lugar a um deslizar tão macio e tão suave como a mais macia penetração pelo mais suave dos amantes. Virginação e desvirginação no mesmo acto.

Ei-lo agora, Gino, já dentro de Marta, indo e vindo nela sem impedimento nem atrito. O cabelo revolto é nele o que mais invoca o adolescente, e precisa de ser cortado: já faz caracóis na nuca e sobre as orelhas, e algumas madeixas desordenadas colam-se-lhe à testa com o suor. Com um gesto terno Marta acaricia-lhe a face, num convite mudo a que descanse um pouco: que lhe pouse a cabeça sobre os seios, que modere o ímpeto. Depois ajeita o corpo debaixo do dele, flecte os joelhos, planta os pés no chão e prepara-se para encontrar em si própria, na sua resistência ao embate, o espírito do êxtase; já que não será ele, decerto, amante inábil e sôfrego, a fazê-lo descer sobre os dois.

Sempre que Miguel se lhe representa sob a forma de Gino Marta sabe que lhe compete a ela assegurar o seu próprio prazer. Para Gino, encontrar-se dentro dela, por cima dela, face a face, é maravilha suficiente e sempre nova; e não lhe ocorre que esta simples, maravilhosa circunstância a possa deslumbrar menos do que a ele. Mas este entusiasmo ingénuo é o que o torna querido ao coração de Marta. Na sofreguidão de Gino, no suspiro triunfal com que se lhe acolhe ao corpo, sente Marta a devoção de um jovem acólito pela Deusa longamente desejada.

Gino não é um homem do mundo; não tem no amor o apuro que num homem do mundo é afeição e respeito, mas também frieza e cálculo. Um amante mais experiente seria capaz de gerir tempos e ritmos, posições e ângulos de ataque, com sabedoria e crueldade, num jogo de dádiva e negação que lhe prolongasse o prazer e lho tornasse, à míngua de desenlace assegurado, insuportável. Mas de tais refinamentos contaremos mais tarde: em Gino seriam deslocados e talvez obscenos.

Marta não queria que o amante tivesse um orgasmo demasiado rápido, e sabia que fizesse ela o que fizesse o pénis que com tanta sofreguidão lhe procurava o fundo do corpo se manteria firme e erecto, ligeiramente curvado para cima, reteso e duro como o dum adolescente. Podia mudar de posição, ajeitar o corpo como entendesse, que ele seguir-lhe-ia sempre os movimentos e permaneceria dentro dela, cravado nela, inextricável. Por exemplo: um movimento das nádegas para trás, um recuo, um retrair do ventre, e Gino já não consegue penetrá-la tão fundo como quer. A pressão maior faz-se agora sobre a entrada da vagina e o movimento faz-se agora ao longo dos pequenos lábios, roçando-lhe o clitóris. Só falta segurá-lo, impedi-lo de recuperar aquele outro ângulo de ataque que lhe pede o desejo imaturo.

Marta vê perpassar na expressão do amante um trejeito de contrariedade: ainda bem, desexcitou-se um pouco, retardou o orgasmo. Para se fazer perdoar, beija-lhe a boca, e remexe-lhe o cabelo como a um miúdo travesso. Depois deixa de tentar controlá-lo: vem-lhe o orgasmo, explosão incerta, e já não lhe é possível saber o que é liberdade e o que é restrição nos movimentos dele. Livre de toda a referência à areia, ao mar, ao mundo, o ventre de Marta não é agora mais do que o lugar virtual de todas as posições que o sexo de Gino poderá ocupar no seu vai-vem frenético. Eis Marta perfeitamente móvel, já que nenhum constrangimento a detém; perfeitamente imóvel, já que nenhuma força a propele; ei-la em liberdade. Agora dá-se toda ao amante, que livremente a penetra, como quer, até onde quer, e se esvai nela em prazer e em riso, como um fauno à solta, triunfante.

Andante – Scherzo

Mas um gesto basta, uma palavra, um capricho, uma subtil modulação no estado de espírito dos amantes, ou então uma mudança de cenário, para que Gino desapareça e em seu lugar surja um dos outros: Baltazar, por exemplo. Num quarto de hotel, claro e arejado. Sentado como um Buda na poltrona ao lado da cama, fresco do duche, cheirando a água de Colónia, a pele amaciada com cremes, calçado com chinelos de pelica e envolto num largo roupão vermelho e branco, Baltazar assiste à actividade doméstica de Marta, que se move pelo quarto arrumando roupas, alisando a cama.

Neste papel Miguel representa-se gordo e meio calvo, um sibarita polido que nunca se esquece de lhe beijar a mão. A pele bronzeada, lisa, esticada como que por uma pressão interior, tem a cor e o brilho discreto do couro antigo. No Miguel dos outros dias a gordura é apenas sugerida pela ligeira curva da barriga: mas este pouco basta para que Marta, de si magra e graciosa, consiga visualizar as largas pregas de carne, a vastidão da pele de Baltazar. Marta habita um mundo onde a magreza e a forma física são de rigor; e custa-lhe a admitir a correspondência metafórica entre a compleição física de Baltazar e uma qualquer faceta real da personalidade de Miguel. Mas na sua repulsa há também fascínio, e de resto Baltazar é tudo menos grosseiro: o corpo está sempre macio e perfumado, os cabelos aparados, as unhas arranjadas. Não se trata aqui de desleixo, mas de uma sensualidade inerte que radica na presença insolente da carne. Junto dele Marta sente-se mais alta, mais esguia, quase sem seios, a pele da face repuxada sobre os ossos: como se lhe competisse a ela compensar com uma magreza de manequim a corporalidade insolente do amante.

As mãos de Baltazar emergem-lhe das mangas enormes, de mandarim. No corpo redondo e sem pelos, na quietude perfeita, há qualquer coisa de oriental; mas Marta associa-o mais a uma certa ideia que tem de Itália, de Roma, do Vaticano. Às vezes trata-o por Monsignore ou Senatore, ou traduz-lhe o nome para Baldassare.

O amante faz-lhe sinal para que se aproxime; depois beija-lhe a mão polidamente e pede-lhe com um gesto que lhe acaricie o peito glabro em que a gordura fez crescer dois seios quase femininos na forma e no tamanho. Marta começa por se despir e descalçar; o roupão e as chinelas de cetim ficam no chão, abandonados. Entreabre-lhe o roupão e começa a beijar-lhe os mamilos de homem, que mesmo erectos mal chegam a sobressair das aréolas; e estas intumescem-se-lhe sob os dedos como pequenas tâmaras castanhas. Baltazar inicia então um jogo de imitação que consiste em retribuir à amante todas as carícias, uma a uma, gesto a gesto. Marta entra no jogo, e procura no corpo dele todas as partes onde quer ser acariciada; e como cada gesto seu é fielmente reflectido nos dele, acaba por ter a sensação de estar a acariciar-se a si mesma por interposta pessoa. Afaga-lhe e beija-lhe os mamilos, e em resposta sente-lhe os dedos curtos nas pontas dos seios, e depois os lábios sinuosos, sensuais. Para melhor o acariciar senta-se-lhe ao colo; põe-lhe a mão na cintura; depois desce-lhe à curva da anca: sob a pequena mão de Marta o flanco de Baltazar é uma massa de carne elástica e consistente, que só uma larga carícia permite abarcar em toda a superfície. A textura e a firmeza da pele fazem lembrar a Marta os luxuosos sofás de couro nos clubes ingleses; e por um momento tem a fantasia de estar num desses sofás, toda nua, embebendo-o com os fluidos que lhe começam a escorrer do corpo.

É ela que o puxa para a cama. O jogo de representações a que se entregam é tão sugestivo que se Miguel, no papel de Baltazar, se deitasse agora por cima de Marta, ela sentir-lhe-ia o peso ficcional como uma realidade física. Com Baltazar é sempre ela que fica por cima, sinuosa, envolvente, ligeira, movendo-se sobre ele em todas as direcções até se lhe empalar no sexo entumescido – mais curto e mais grosso, parece-lhe, e mais escuro, do que o falo nervoso e jovem de Gino. Desta vez, num impulso, sopra-lhe ruidosamente no umbigo, como se faz aos bebés, para os fazer rir. Baltazar exibe uma bela dentadura branca num sorriso; deixa-se acariciar, mimar, despir; e o seu grande corpo nu e sem pelos, de barriga para o ar, todo aos refegos, exprime uma beatitude de bebé satisfeito. Nestas alturas o desejo de Baltazar por ela deixa de ter – pelo menos em comparação com o de Gino – foco, definição, objecto ou urgência; mas nem por isso é menos intenso. A erecção torna-se-lhe menos firme e é a parte superior do corpo que se lhe enrubesce, como a de uma mulher no auge da excitação.

Marta, a quem as mulheres não atraem, tem contudo prazer nesta faceta feminina do amante. A redondeza de Baltazar lembra-lhe a forma esférica, perfeita, do andrógino de Platão. E talvez por isso gosta de fazer amor com ele como as mulheres o fazem – imagina-o ela – umas com as outras. Beija-o, acaricia-o, esfrega-se nele suavemente; e gosta especialmente de roçar levemente o sexo no dele numa carícia que não obriga a nada. Como quem dá um beijo com outros lábios. E com efeito: em casa dos pais de Marta havia uma criada analfabeta que por pudor ou poesia chamava à vagina a boca do corpo. É com os lábios ternos desta boca que Marta aflora a ponta do sexo de Baltazar; mas só por um momento, para não perder o controle e não dar por si a esfregar-se violentamente nele. Para melhor se controlar afasta-se ligeiramente, sem deixar de lhe beijar a face, de lhe acariciar o pescoço e o peito.

Cada um sente ainda no sexo a memória do outro – a memória ainda presente de um outro sexo material e vivo, aquiescente, faminto; e a certeza de que o contacto se restabelecerá em breve transforma o afastamento num prazer mais pungente. Entretanto Marta entrega-se aplicadamente aos beijos, às carícias, debruçada sobre o corpo do amante. Os seios pendem-lhe ternamente sobre a pele bronzeada. E pouco a pouco recomeça a aproximar o sexo do sexo dele. Baltazar é de todos, logo seguido de Jorge, o que mais profusamente a beija quando fazem amor; e Marta tem de novo a sensação de que ele estaria disposto a prolongar indefinidamente o rosário de beijos que lhe dá, de modo a fazer deles, não um preliminar do amor, mas a sua própria substância. E ama-o por isso. Mas não deixa de se dar conta da sua própria excitação, em breve irresistível; e repara também no pénis do amante, ao léu, reteso e virado impudicamente para cima. Como o de um bebé-homem que se prepara para fazer xixi, num arco glorioso e cristalino, no próprio momento em que se lhe muda a fralda. E este ponteiro endurece ou desintumesce ao sabor das carícias que ela lhe faz no peito ou na cara.

Chegou o momento de Marta se deixar penetrar. Por um momento beija o pénis do amante. Só por um ou dois segundos: o prazer de lhe ejacular na boca oferece-o ela algumas vezes aos outros três – por vezes até a Gino, que o aceita com alegria e gratidão – mas nunca a Baltazar. Assim que este sente no sexo a tensão dolorosa de uma erecção completa puxa-a para cima de si e ajeita-a segurando-lhe as ancas, meio agachada. Marta baixa os quadris sobre o falo erecto e começa a executar um movimento de vai-vem que rapidamente ganha em rapidez e amplitude. Mas agora é Baltazar que assume o controlo. À brusquidão sôfrega dos movimentos dela responde ele com um discreto, cruel retraímento, um afastar do corpo que lhe torna os movimentos mais lentos e mais suaves. Não é um movimento débil, pelo contrário: mas a sua força está toda na amplitude, não na rapidez. Marta sente-lhe as mãos nos quadris, sujeitando-a, prendendo-a; e dá largas à sua ânsia num lançar para trás da cabeça, num furioso sacudir dos ombros e dos cabelos, num arquejo impaciente. Se o amante lho permitisse inclinar-se-ia toda para trás, vergando-lhe o pénis dolorosamente para baixo: poderia assim sentir no ponto exacto a forte pressão da glande que o corpo lhe reclama. Baltazar compreende-a bem, mas não lhe faz a vontade. Os olhos, fixos nos dela, estão mais serenos e mais trocistas do que nunca, atentos a todas as expressões de sofrimento ou de gozo.

Marta, que ainda há pouco tratou Gino com a mesma crueldade, acolhe sem protesto esta privação. Mas não sem luta. Suada, macerada, desgrenhada, os cabelos pretos e compridos caídos sobre os olhos; um ricto de esforço na expressão; nos cantos da boca dois vincos de dor ou de prazer; selvagem, concentrada, montada no amante como um apache em guerra, lá vai Marta à desfilada atrás de uma apoteose que tarda, que tarda. A inércia obstinada de Baltazar frustra-a para além do suportável. Sabe muito bem que toda esta contenção tem um objectivo, mas não quer saber de objectivos: quer simplesmente correr até ao fim do fôlego, sem cuidar de saber que género de desenlace vai encontrar na meta; e ele, ele, em vez de se lançar com ela, honestamente, na mesma nobre cavalgada – prossegue, com uma ponderosa determinação que a exaspera, um objectivo.

Um objectivo: a própria palavra é pedestre e vil. O ritmo é, contudo, inexorável, e Marta sente que o seu prazer não vai tardar: há nos movimentos do amante uma força que o convoca, uma força latente. É ela que permite a Baltazar passar-lhe todo o comprimento do pénis pelo clitóris, vagarosamente, sem perder a erecção; e permite-lhe também tocar-lhe na zona da vagina em que ela mais quer ser tocada. Mas só quando entende fazê-lo, e só com a pressão e a duração que entende. Se Marta fosse mulher de dizer impropérios cobriria agora o amante dos piores. Em vez disso chora; e o orgasmo que a assola, quando finalmente vem – convocado só por ele, ordenado só por ele – cai sobre ela como um vasto crepúsculo, enorme e incompreensível como uma calamidade. Como orgasmo é muito mais intenso do que aquele que teria resultado momentos antes, se tal lhe tivesse sido permitido, da sua própria acção; e Marta acolhe-o com um grito prolongado; mas é um grito tanto de revolta como de prazer, e o sorriso com que agradece ao amante não obsta a que lhe molhe o peito com lágrimas de cólera.

Allegro marziale

Gino e Baltazar são seres estivais, muitas vezes suscitados pelo mar ou pela praia. Já Leonardo costuma surgir em ambientes outonais, sugerido às vezes pela chuva lá fora, outras pelo sol dourado de Outubro a entrar no quarto. Leonardo tem afinidades com as adegas de pedra, com o calor das lareiras, com as mesas robustas onde os queijos, os pães e os presuntos despertam apetites saudáveis. Mas também gosta das mesas sensuais que a amante lhe apresenta: mesas requintadas, com vinhos velhos, velas festivas, grandes guardanapos de linho; com morangos, uvas, mirtilos, framboesas; e com foie gras, caviar, champanhe.

Dos amantes virtuais de Marta ele é o que mais raramente se manifesta. Anuncia-se geralmente por uma larga gargalhada, por um atirar para trás da melena, ou por uma ordem peremptória dada num tenor viril – traços estes que nunca deixam de a surpreender porque correspondem, em Miguel, a uma zona habitualmente oculta da sua natureza.

O nome pôs-lho ela num fim de Verão. Tinham combinado ir à praia, à Figueira, mas o tempo ameaçava chuviscos e resolveram antes visitar Conímbriga. Miguel estava de calções e sandálias, revelando as pernas grossas, torneadas. Os pés pareciam tão sólidos como as lages antigas da estrada. “Se em vez de calções trouxesses um daqueles saiotes,” disse-lhe Marta, “serias um perfeito legionário.” E com efeito: com o rosto escanhoado, as pernas nuas, o cinto largo de couro, as grossas sandálias bem assentes no chão, Miguel tinha um ar de militar antigo. Mesmo o cabelo desgrenhado acabava por não destoar: conjugado com um certo gesto muito dele, um atirar para trás da cabeça, tornava-se juba de leão, penacho de guerreiro.

Depois, no quarto do hotel, exigira de imediato vê-la nua; e aceso o desejo, cevara-lho na carne tão prontamente mostrada; e tudo isto sem hesitação, com uma autoridade tão alegre e tão inocente que quaisquer objecções se encontraram desarmadas à partida.

“ O que tu fazes é devassar-me toda. E deitas-te a mim como um leão sobre a presa. Patife. Ainda por cima deixas-me toda excitada,” disse-lhe ela no fim. E mais tarde, deitados os dois a conversar, recapitulando com palavras e risos o amor que acabavam de fazer, o nome tinha surgido de repente:

“É, meu amor: exactamente como um leão. Devias chamar-te… sei lá, Leónidas, Leopoldo… não: Leonardo. Leonardo, o legionário.”

Foi a Leonardo que coube cumprir uma promessa que Miguel fizera a Marta, em Heidelberg. Estavam os dois na cama em casa dele. Tinham feito amor longamente e agora estavam a conversar, cansados e felizes. Ele, que não sabia estar com ela sem lhe tocar, acariciava-lhe a abertura do ânus. “Da próxima vez que estivermos juntos hei-de possuir-te por aqui.” Marta não respondeu. A razão por que ele a queria possuir por trás sabia-a ela, e não podia deixar de estar de acordo: não se tratava tanto do prazer físico que ele pudesse obter, mas sim de deixar claro que nenhuma parte do corpo dela lhe podia estar vedada.

Mas no encontro seguinte, em Brugges, Miguel não cumpriu a promessa. Nem depois, no dia em que tomou formalmente posse dela.

Mas desta vez sim. Era Outono. Ao chegar de Heidelberg entrou no apartamento de Marta com a voz vibrante e a passada firme de Leonardo. Passearam toda a tarde, e quando chegaram casa Marta preparou uma refeição com queijo, fruta, caviar dinamarquês e vinho tinto. O duche tomaram-no juntos. Jantaram sentados aos topos de uma mesa de vidro, embrulhados em robes; e o deslizar do tecido descobria-lhes por vezes, a ela um seio nu, a ele o topo das coxas. O trajo informal contrastava com o requinte da mesa: Marta tinha-se esmerado na escolha das louças e dos talheres, no dispôr das velas e dos guardanapos, no arranjo das flores.

Depois de jantar foram os dois para o sofá; e pouco a pouco, entre beijos e carícias, resvalaram para o tapete do chão. Quase sem notar tinham acabado por ficar nus; e agora colavam-se um ao outro, a todo o comprimento do corpo. O leitor de CD’s tocava o primeiro andamento de “Os Planetas”: Marte, o portador da guerra. As mãos de Leonardo percorriam as costas de Marta da nuca ao fundo das nádegas, devassando-a, e os dedos introduziam-se-lhe entre as coxas, separando-as, espremendo-as; e por fim acariciando-lhe o sexo ao longo dos grandes lábios, dos pequenos lábios, à volta do clitóris.

Os pequenos movimentos suaves e redondos que Marta fazia com os quadris foram-se tornando cada vez mais convulsivos. Leonardo inclinou-se para lhe beijar o sexo; e até nisto era diferente dos outros, de Baltazar por exemplo: enquanto este a titilava com pequenas estocadas da língua, Leonardo sorvia-lhe o clitóris juntamente com uma parte dos pequenos lábios, como se os quisesse beber; e a língua devassava-lhe a taça do sexo, ao longo da vulva, à boca da vagina. Foi assim que Marta se veio, sem um gemido, só com a respiração arquejante e os movimentos sacudidos dos quadris a traír-lhe a turbulência dos sentidos.

Quando Leonardo lhe olhou para a cara viu-lhe os olhos cheios de lágrimas.

“O que tu me fazes,” disse Marta. “As coisas que tu me fazes.”

Sem uma palavra Leonardo começou a beijar-lhe a cara e os olhos, debruçado sobre ela. Já não estavam colados um ao outro; mas Marta sentia-lhe ainda o falo insatisfeito e erecto, passeando-lhe sobre as coxas, sobre o ventre. Assim que o teve ao seu alcance pegou-lhe com as suas pequenas mãos; e sem o largar começou a beijar o corpo do amante, primeiro o peito, os mamilos, depois o ventre ligeiramente arredondado, por fim as coxas. A música continuava a tocar. O primeiro andamento chegara ao fim e um trilar de campaínhas anunciava o segundo: Vénus, o portador da paz.

Quando Marta tomou na boca o sexo do amante sentiu mais uma vez como mudavam as carícias que ele lhe fazia com as mãos. De firmes e determinadas – carícias de Leonardo, mãos de dono – tormavam-se agora hesitantes; e no suspiro que acompanhou esta mudança ia todo um mundo de rendição e de abandono. Durante muito tempo continuou a beijá-lo, a chupá-lo, disposta a retribuir o prazer que ele lhe tinha dado. Mas ao fim de algum tempo sentiu que o pénis se lhe tornava menos duro e que ele a puxava pelos ombros: “Anda cá.”

De novo colados um ao outro, coxas contra coxas, os seios dela contra o peito dele, a mão de Leonardo veio insinuar-se-lhe por entre as pernas, acariciar-lhe o sexo, o rego entre as coxas, e por fim, por longos minutos, insistentemente, o ânus. Mão de dono, de novo. “Quando estiveste em Heidelberg prometi-te que te havia de possuir por aqui,” disse-lhe ele num murmúrio rouco. “Vai ser agora. Se consentires.”

Marta escondeu a cara no ombro do amante. “Sim,” respondeu, numa voz quase inaudível. E enquanto ele se dirigia à casa de banho deitou-se de barriga para baixo, o rosto escondido na curva do cotovelo. Ao regressar Leonardo abriu uma pequena caixa de vaselina – a mesma que tinha utilizado na visita anterior para a possuir entre os seios – e lubrificou-lhe a abertura anal. Depois fez o mesmo a si próprio e apontou-lhe-lhe o pénis firmemente à entrada do ânus; passou-lhe o braço à volta do corpo e começou a acariciar-lhe o clitóris ao mesmo tempo que forçava a entrada a pouco e pouco. A lubrificação revelou-se eficaz; a penetração deu-se mais facilmente do que ambos esperavam; e ao fim de pouco tempo Marta ousou mesmo mexer os quadris como quando ele a penetrava pela outra abertura. A mão que lhe acariciava o sexo parecia-lhe agora, absurdamente, mais devassadora do que o falo que se lhe movia nas entranhas. Na fantasia de Marta Leonardo tornou-se de novo um legionário, um centurião, e ela própria um tenro escravozinho capturado, à falta de mulheres, para serviço dos oficiais. E talvez a fantasia dele estivesse a ser a mesma: a mão dele não se limitava a titilar-lhe o clitóris com as pontas dos dedos, mas abarcava-lhe o conjunto todo da vulva como quem toma o peso a um jovem pénis e respectivos testículos. Mas Leonardo não se fantasiava a fazer amor com um rapazinho. Se agarrava o sexo todo da amante era porque assim o sentia melhor; e era sem ambiguidade um sexo de mulher. A frescura e a redondeza das nádegas de Marta, a resiliência com que lhe amorteciam os embates violentos, as sonoras palmadas do pélvis, sugeriam-lhe não um rapazinho, mas as formas calipígias das mulheres do Sul, cântaros à cabeça, robustas, meneando as ancas sob um sol antigo.

Marta sentiu que os movimentos do amante se aceleravam, que a respiração lhe rouquejava, e que ele se lhe esvaía no fundo das entranhas. Na posição em que estava não podia vê-lo, só podia imaginar de memória as feições descompostas, a adoração e o riso; mas ouviu-lhe a respiração arquejante e as palavras desconexas e o quase grito que era quase uma oração. Ela própria não teve orgasmo; e talvez por isso soube-lhe bem que o amante se não retirasse imediatamente de dentro dela, que se deixasse ficar até que a progressiva flacidez do sexo operasse por si só a separação inevitável.

“Como estás?” perguntou-lhe ele por fim.

“Estou bem. Foi um pouco estranho. Estou contente.”

A música ia agora no quarto andamento: Júpiter, o portador da alegria. E depois de os amantes se virarem um para o outro, de se voltarem a acariciar, de conversarem e rirem, ela ainda lhe disse em voz baixa: “Quero dizer-te uma coisa: isto que me fizeste hoje – podes fazer-mo mais vezes, se quiseres.”

Adagio

E finalmente havia Jorge. Muito velho, muito alto, muito magro, e com uma pele de pergaminho, branca como a de um monge irlandês que há anos não saísse da sua biblioteca. Nos momentos de intimidade doméstica Jorge nunca escolhia um roupão como o de Baltazar, nem a nudez insolente de Leonardo ou Gino, mas um robe de algodão cinzento que era como um hábito monástico. Os pés grandes e ossudos, muito brancos, sobressaiam do cinzento escuro da orla.

Jorge era o asceta. Aparecia por vezes quando Marta e Miguel trabalhavam na mesma sala, absortos nas suas tarefas mas comprazidos com a presença pressentida um do outro. Por vezes Marta via-o levantar os olhos do livro que estava a ler e sorrir-lhe um sorriso tranquilo. Os olhos que a olhavam por cima dos óculos em meia-lua começavam já a ser olhos de homem velho, aquosos, e de um verde mais claro do que os de Miguel. Quando sorria de certa maneira, ou quando a luz do dia lhe incidia mais directamente sobre a face, chegavam a parecer azuis, e Marta lembrava-se da beleza emaciada de certos velhos, da sua pele quase transparente, do seu olhar de meninos. Para Jorge ficar completo só faltava a Marta imaginar a cabeleira ainda comprida e ainda desgrenhada, mas já muito branca e muito rala, deixando entrever o rosado do couro cabeludo.

Faziam amor quase só quando ela se lhe sentava ao colo, feiticeira, com gestos de menina. Os anos que ele acrescentava, no seu papel de Jorge, à sua própria idade, tirava-os ela à sua: vinte ou vinte e cinco anos para cada lado somavam cinquenta de diferença, e davam-lhes a deliciosa sensação de viverem uma relação incestuosa de avô e neta. Quando estava com Jorge Marta gostava de se vestir com uma blusa branca e uma saia curta de colegial, ou então, mais confortavelmente, com uma T-shirt do rato Mickey e umas peúgas de lã. Jorge tomava-a nos braços inesperadamente fortes e interrogava-a sobre as pequenas coisas do dia a dia. Enquanto falava com ela procurava-lhe com a mão ossuda o espaço entre as coxas. Depois masturbava-a; e ela abafava os soluços de excitação escondendo a cara no ombro dele.

Por vezes estendia-se por cima dela, quase cego, e tacteava-a como se só com as mãos lhe fosse possível reconhecê-la com suficiente certeza. Marta guiava-lhe o pénis semi-erecto para o lugar exacto. Esta semi-erecção mal bastava para a penetração inicial, mas uma vez transposto o primeiro portal tornava-se tão firme como a de um jovem. Jorge demorava sempre muito tempo a ter orgasmo, ou nem chegava a tê-lo; os seus movimentos eram por vezes débeis, e frequentemente tinha necessidade de descansar a cabeça no travesseiro, de modo que o tempo que demorava não significava para ela qualquer garantia acrescida de atingir o seu próprio climax.

Podia assim acontecer que nem um nem outro se viessem, e que o amor começado se lhes transformasse a pouco e pouco numa longa sessão de mimos e carícias – até que, quem sabe, Leonardo surgisse de repente, ou Baltazar, ou Gino, e a derrubasse de costas e se derramasse nela. Mas em vez disto podiam simplesmente adormecer os dois; ou podia Jorge começar a acariciá-la ou a beijá-la ternamente no sexo já dorido, tão ternamente e com tanta paciência que Marta acabava finalmente por encontrar o orgasmo, um orgasmo intenso, sereno, sem lágrimas.

Outras vezes podiam estar os dois sentados no sofá, talvez a ler ou a escrever. No leitor de CD’s podia estar a tocar, por exemplo, o quinto andamento de “Os Planetas”: Saturno, o portador da velhice. A mão de Marta insinuava-se então no roupão cinzento de Jorge e procurava-lhe o sexo flácido; e ele sorria-lhe, apertava-lhe a coxa, conversava com ela. Porque era sobretudo de palavras o amor que faziam. De todos os avatares de Miguel, Jorge era o único a ter perfeita consciência de como é perigoso misturar sexo e literatura; mas também era ele que mais prontamente corria, e a fazia correr, este risco. No panteão de Marta era ele o guardião dos labirintos e das ficções: todos os outros, incluindo Miguel, derivavam dele a vida que os animava. Geralmente a conversa retomava um qualquer assunto iniciado durante o dia, e em breve estavam os dois tão empenhados nela que Marta se admirava quando o sexo do amante lhe endurecia na mão como se tivesse uma vida independente da dos órgãos da fala.

Foram assim ganhando o hábito de se masturbarem enquanto conversavam, geralmente tão pouco interessados na conclusão da carícia como na da conversa; e foi nestas sessões que ele a contagiou com a sua predilecção por Edgar Allan Poe, Wilkie Collins, Stevenson. Por vezes contava-lhe histórias em que o maravilhoso ingénuo se unia à perversidade extrema; e se Marta chegava entretanto a um orgasmo, no caso de Jorge acontecia frequentemente que a erecção lhe desaparecia tão gradualmente como tinha aparecido, perdida nos labirintos de palavras em que os dois se tinham embrenhado.

Coda.

Gino, Baltazar, Leonardo, Jorge. Quatro nomes, quatro deuses em que o homem de Marta se compendi­ava para melhor se definir e para melhor a amar. Nenhum deles tinha a complexidade de Miguel: mas desde quando são os deuses tão complexos como os homens que os criaram? Marta dava-se conta que ao representar estes papéis o amante se lhe representava como se via a si próprio e como queria, ou temia, que ela o visse. Por ser Jorge, Leonardo, Baltazar ou Gino, o amante de Marta não deixava de ser Miguel: antes pelo contrário. Todos eles eram ficções, mas nenhum deles era mentira.

E de resto ela própria, Marta, se tinha durante muito tempo representado ao amante através de Mariana; e longe de com isso perder identidade, ganhara-a. Nas representações do amante, como na sua, ia uma dádiva. E nos lugares que ela amava – fosse no Algarve, num quarto branco de adobe, sentindo entrar pela porta o cheiro das alfarrobas; ou no Verão de Roma, num hotel de Roma, com varanda sobre a dolce vita de Roma; ou num pinhal à beira-mar, sobre uma manta, banhada nos últimos calores de um sol de Outono; ou ainda no Inverno, acolhida aos labirintos de uma biblioteca famosa – quando Miguel estava com ela eram estas representações que o completavam, e lhe conferiam a verdade que era a dele, e que o lugar exigia.


(Publicado no Blogger a 22/08/05)

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