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Cap. 38: VAIVÉM

[ … ] Depois da aula, em casa, Teresa serviu o almoço a Raul; à tarde viu um filme, sentada aos pés dele, sem saber o que aconteceria a seguir. À noite, Milena serviu o jantar sozinha porque Teresa recebera ordem de se arranjar com especial cuidado para o jantar.

– Fica de seios nus, mas não os maquilhes – disse Raul. – Põe os teus rubis.

Para acompanhar o jantar, Raul escolheu Mozart: a Sinfonia nº 38, o Concerto de Piano nº 23 e Eine Kleine Nachtmusik. Terminada a comida e a música, ordenou a Teresa que fosse buscar Ana, que estaria à sua espera, a casa de Miguel.

– Veste o teu casaco mais quente por cima do tronco nu, põe um cachecol e um gorro, mas não te calces. Deixa aqui a Ana, volta para casa do Miguel e fica à disposição dele até ele te mandar para casa.

Atordoada, Teresa nem sequer foi capaz de dizer “sim, meu senhor”, mas também não pensou em desobedecer. Estava desvendado o mistério: ia ser emprestada a outro homem; o seu dono, o seu senhor querido, de quem pensara ser a única escrava, ia servir-se doutra mulher; e não sabia qual das duas coisas lhe doía mais. Foi ao quarto de banho e arranjou-se para sair, sempre com aquele “sim, meu senhor,” que não dissera, a soar-lhe aos ouvidos como um mantra. Agasalhou-se, pegou nas chaves do Smart, desceu ao estacionamento, entrou no carro e foi onde Raul a enviara.

A própria Ana lhe abriu a porta, muito agasalhada mas, tal como Teresa, com os pés nus.

Durante o percurso não falaram. Cada uma estava perdida na contemplação do futuro imediato: iam ser cedidas, iam ser traídas. Não: traídas, não. Ambas se davam conta, mais agudamente que nunca, que Raul e Miguel não lhes pertenciam. Talvez tenha passado pela cabeça de Ana revoltar-se; mas, ao ao ver a expressão de Teresa – pálida, orgulhosa e decidida a obedecer custasse o que custasse – resolveu-se a orientar o seu comportamento pelo dela. Teresa entrou com o carro na garagem subterrânea e acompanhou Ana até à porta do apartamento para a entregar a Raul.

– Entra, Ana – disse este. – E tu, Teresa, podes ir. Obedece ao Miguel em tudo.

Sim, meu senhor, pensou Teresa. Fez o segundo percurso até casa de Miguel num estado de perturbação ainda maior do que tinha feito o primeiro. Já não contemplava apenas o seu futuro próximo, mas o presente que se desenrolava atrás de si, entre Raul e Ana. Sim, meu senhor. Estariam estas palavras, neste momento, a ressoar também na cabeça de Ana? Ou, mil vezes pior, estariam a sair-lhe dos lábios, dirigidas a Raul? Apertou o volante com as mãos até os nós dos dedos lhe ficarem brancos: Não, não era possível. Tudo, menos isso.

Miguel recebeu-a à porta. Ajudou-a a tirar o casaco, pegou-lhe no cachecol e no gorro, que arrumou, e quando a viu nua da cinta para cima não fez qualquer comentário.

– Anda comigo – disse.

O aquecimento central não era tão eficiente aqui como no apartamento de Raul, mas a temperatura não era demasiado desconfortável, nem para os pés nus, nem para o tronco nu de Teresa. Seguiu Miguel para o quarto, onde ele lhe ordenou que acabasse de se despir e tirasse as jóias.

Teresa obedeceu prontamente e em silêncio. Miguel encostou-se à ombreira da porta a vê-la tirar a saia e as jóias.

– Anda cá – disse Miguel.

Teresa avançou até ficar de pé a meio metro dele, que lhe tomou as mãos para as aquecer por um momento entre as suas e depois a beijou na boca, que ela não abriu mas também não fez força para manter fechada.

– Despe-me – disse ele.

Teresa começou por lhe tirar a T-shirt preta e arrumou-a nas costas duma cadeira. Como devo agir, pensou Teresa, com um homem que não é o meu senhor, mas a quem tenho que obedecer? Não lhe beijaria os pés, a não ser que ele lho ordenasse, nem lhe daria quaisquer outras mostras duma humildade que não sentia em relação a ele; mas obedeceria em tudo, e esforçar-se-ia o mais que pudesse para lhe dar prazer. Ajoelhou-se para o descalçar: as sapatilhas eram difíceis de tirar, tinham muitos cordões e era preciso fazer força. Ainda de joelhos, desapertou-lhe o cinto e as calças. Miguel ajudou-a a tirar-lhas, levantando alternadamente os pés; ela endireitou-as e arrumou-as junto com a T-shirt. As cuecas tinham uma mancha húmida que as tornava transparentes. Ajoelhou-se para lhas tirar, mas desta vez não se voltou a erguer: atirou as cuecas para junto da outra roupa e só então olhou para o membro erecto à sua frente. Era diferente do de Raul, mais comprido e mais fino, e completamente a direito. Como não tinha sido circuncidado, a glande era mais vermelha e parecia molhada.

– Chupa-me o pénis.

Sim, meu senhor, disse ela intimamente a Raul; não te deixarei ficar mal. Tomou na boca este pénis que não conhecia: havia de usar as carícias que Raul lhe tinha ensinado, ou as que tinha aprendido nos seus anos de puta? Qual destas opções honraria melhor o seu senhor? A primeira, claro: Raul tinha emprestado a Miguel a sua própria escrava, não uma puta qualquer apanhada na rua. Miguel gemeu de prazer com esta carícia, que ela continuou até ele lhe ordenar que se deitasse na cama e abrisse bem as pernas, entre as quais se ajoelhou para lhe ver o sexo. Viu os anéis de titânio que o transfixavam, fê-los oscilar um a um com a ponta do dedo e suspirou:

– Se eu pudesse, mandava fazer o mesmo à Ana…

Passou-lhe a mão lentamente pelo ventre, pelas ancas, beijou-lhe os seios, e finalmente ordenou:

– Estás seca, masturba-te um pouco.

Teresa enrubesceu até ao peito, mas obedeceu. Se estivesse com Raul, não estaria seca; estaria já quase à beira dum orgasmo. Mas Miguel tinha direito a que ela lhe apresentasse uma vagina bem lubrificada, que ele pudesse penetrar à vontade. Começou a acariciar o clítoris, imaginando que eram os dedos de Raul, até que ficou pronta a ser possuída. Miguel pôs um preservativo, deitou-se sobre ela, penetrou-a sem brutalidade – mas também sem uma ternura excessiva que só a humilharia – e começou a mover-se dentro dela. Teresa não teve qualquer dificuldade em usar as técnicas do pompoar, que se estavam a tornar automáticas para ela. Os movimentos dele tornaram-se mais rápidos e vigorosos e a respiração mais ofegante. E foi neste momento que Teresa sofreu a maior humilhação da sua vida:

– Vem-te agora – disse Miguel.

E ela teve o orgasmo que não tencionara ter, um orgasmo intenso que a obrigou a abraçar Miguel, a colar-se a ele apaixonadamente, a procurar-lhe a boca e a língua como procurava a boca e a língua de Raul; e tudo isto desencadeado por duas pequenas sílabas, uma ordem seca dada por outro homem. Já sabia que o seu corpo obedecia a Raul sem intermediação da sua vontade, e tinha orgulho em tê-lo treinado para isto; mas nunca imaginara que este treino o fizesse obedecer assim a outro homem. Quem era ela, a quem o seu próprio corpo não obedecia? Em que se estava ela a transformar? Passara os últimos meses a transformar-se, deliberada e metodicamente, na escrava de Raul; mas nunca tinha sido sua intenção tornar-se no seu próprio ser uma escrava, obediente por reflexo a certas ordens, dadas num certo tom fosse por quem fosse. Não tinha sido ela a transformar-se nisto; tinha sido Raul que a transformara. Sentiu uma indignação que lhe subia ao peito, logo cancelada pelas palavras que tantas vezes dissera, e não em vão: sou tua, faz de mim o que quiseres. Se estava a transformar-se, não no que planeara, mas no que Raul queria, isto não podia ser senão justo. Era humilhante, esta obediência reflexa a outro homem; mas não a fazia escrava dele: fazia-a, sim, mais escrava de Raul. Virou a cara para não ver Miguel, mas sentiu com agrado as suas carícias. Ficou-lhe grata quando ele, pudicamente, foi tomar duche sozinho e lhe permitiu que fizesse o mesmo. Já não o encontrou no quarto, onde vestiu a saia e pôs as jóias. Foi encontrá-lo na sala, já vestido, e sentiu vergonha dos seus seios nus como não tinha sentido ao entrar. Miguel deu-lhe um beijo leve na boca, a que ela correspondeu, e disse:

– Podes ir, o Raul telefonou. Não entres na garagem: espera à porta do prédio. Tranca o carro. Abre-o só para deixar entrar a Ana.

Mas Miguel ajudou-a rapidamente a vestir-se e deu-lhe um beijo à despedida, desta vez na cara.

Ao ficar sozinho com Ana, Raul pegou-lhe na mão e conduziu-a à sala.

– Entra, Ana. Põe-te à-vontade. Dá cá o casaco.

Ana tirou os agasalhos, que ele entregou a Milena para que os arrumasse.

– Dá uma volta para eu te ver – disse Raul.

Ana rodou sobre si mesma e voltou-se de novo para ele.

– Estou bem? – perguntou.

Estava linda, pensou Raul. Não estava de seios nus, como Teresa, mas sim com um top que lhe descobria o umbigo. A saia, preta e um pouco transparente, tinha a cinta muito descaída, e caía em pregas largas até aos tornozelos. Todos os adornos eram de prata, e o cabelo estava cuidadosamente penteado de modo a parecer que o não estava.

– Senta-te – disse Raul.

Ana sempre tinha visto Teresa sentada no chão, nunca no sofá, mas sentiu um certo acanhamento que a impedia de fazer o mesmo. Ia sentar-se na borda do sofá quando Raul lhe disse:

– Podes sentar-te no chão. Queres tomar alguma coisa?

Ana acenou que não. Raul pegou-lhe na mão, sentou-se no sofá, muito perto dela, e perguntou-lhe:

– Sabes para o que estás aqui?

– Para fazer tudo o que o senhor mandar – disse Ana.

– Então anda comigo, minha querida.

Quando chegaram ao quarto, Ana quis dar-se algum tempo. Não se sentia pronta para se despir já, como uma puta; e tinha necessidade de falar, de se justificar.

– O senhor vai-me possuir?

– Sim, querida, vou-te possuir – respondeu Raul, pronto a dar-lhe o tempo de que ela precisasse.

– Sabe, o Miguel é o único homem a quem me submeti até hoje… Já não era virgem quando comecei com ele, mas nunca tinha sido submissa de ninguém.

– E agora vai difícil obedecer-me.

– Um pouco – respondeu Ana. – Mas com o senhor sou capaz. Foram o senhor e o Miguel que decidiram sozinhos, não foram? A Teresa não entrou nessa decisão…

– Fomos nós sozinhos – respondeu Raul.

Esta resposta tornava tudo mais fácil. Se Teresa tivesse conspirado contra ela…

– Estão no seu direito… – murmurou. – Quer que me dispa agora?

Raul mandou-a tirar só o top. Ana tinha os seios um pouco mais pequenos que os de Teresa, de forma cónica, e com as aréolas dum rosado muito claro que quase não fazia contraste com a pele. Tapou-se com as mãos, mas logo se destapou, como se tapar-se fosse uma falta. Raul sorriu:

– Uma escrava não tem direito ao pudor, não é, minha querida?

– É verdade… – murmurou Ana, corando.

Raul mandou-a tirar a saia e deitar-se na cama, onde ficou apoiada sobre um cotovelo, olhando para ele enquanto ele se despia. Raul era o homem mais velho que Ana já tinha visto nu: não soubera o que esperar, mas afinal era um homem como os outros, mais atraente que muitos. A primeira carícia que ele lhe fez, entre o pescoço e o ombro, fê-la estremecer; mas devolveu-lha, tocando-lhe no peito; e beijou-o timidamente na boca. Raul deitou-se de costas, cruzou as mãos sob a nuca e disse:

– Anda tu por cima, Ana. Mostra-me o que sabes fazer.

Ana tinha a certeza que sabia fazer tudo. A experiência que tinha com homens era muito pouca, limitava-se quase só a Miguel. Sabia dar prazer a Miguel, e portanto devia ser capaz de dar o mesmo prazer a Raul. Pôs-se de gatas por cima dele, deixando pender os colares e as correntes, e começou a beijá-lo nos olhos, nas orelhas, na boca, nos mamilos… Quando estendeu a mão para lhe agarrar no pénis, ele disse que não, ainda não… Ainda não, porquê? Miguel gostava… Mas obedeceu e continuou a beijá-lo, progredindo devagar até lhe chegar ao sexo depilado, tão confortável de meter na boca. Quando começou a chupá-lo, sentiu a mão dele entre as pernas, que abriu para lhe dar espaço.

Raul começou por lhe tactear os lábios exteriores da vulva, de comissura a comissura, primeiro de um lado e depois do outro. A seguir, percorreu a fenda entre eles e, quando chegou ao extremo desta, continuou a acariciá-la entre as pernas, no rego entre a vulva e o ânus. Regressando à vulva, mais fina e mais comprida que a de Teresa, separou-lhe com os dedos os lábios exteriores e começou a afagar-lhe os interiores, que eram nela muito rosados e um pouco proeminentes. O toque de Raul era duma delicadeza extrema: Ana nunca tinha sido acariciada neste lugar por uma mulher, mas imaginava que seria assim, e era muito bom… Por um momento perdeu a concentração, mas ouviu Raul, que lhe dizia:

– Ana, presta atenção, não pares…

Não podia parar de chupar Raul. Estava ali para o servir: tinha sido essa a ordem, muito clara, que Miguel lhe dera. Mas como podia ela ignorar aqueles dedos que se lhe insinuavam pelos folhos da vulva, lubrificados pelos sucos da vagina? Raul descobria-lhe agora o pequeno capuz que lhe escondia o clítoris; este já tinha a pontinha de fora, mas Raul, com infinitos cuidados, afastou o capuz para trás de maneira a descobri-lo mais, e começou a titilar com movimentos rápidos o botãozinho que tinha deixado a descoberto. Ana não sabia o que queria, se queria que ele continuasse a fazer isto por toda a eternidade ou que a penetrasse e possuísse sem delongas. Mas sabia o que Miguel havia de querer: que ela se concentrasse e continuasse, até ordem em contrário, a chupar o melhor que soubesse o pénis de Raul. A ordem em contrário não se fez esperar muito:

– Vem agora, minha querida. Empala-te em mim.

Ana assim fez, com um pequeno gemido. Coleou por Raul acima, deitou-se sobre ele com as pernas abertas, pegou-lhe no pénis para o apontar exactamente à abertura da vagina, e baixou-se sobre ele, sentindo como ele a enchia por dentro. Os movimentos de Raul dentro dela foram, ao princípio, quase imperceptíveis: queria dar-lhe oportunidade de mostrar do que era capaz; e ela, que não queria outra coisa, começou a combinar o que sabia que agradava a Miguel com o que sabia de pompoar.

Raul, deliciado, reteve o orgasmo. Começou a acariciar Ana nas nádegas e nas costas, beijando-lhe a boca, os mamilos, o pescoço sempre que ela se inclinava o suficiente para lhe chegar ao alcance dos lábios. Viu-lhe corar o rosto e o peito, ouviu-lhe a respiração transformar-se num gemido e logo a seguir num arquejo; sentiu como os músculos da vagina se apertavam, já não como no pompoar, mas num tremor involuntário; e esvaiu-se dentro dela com três estocadas fortes, ouvindo-a exclamar:

– Sim, Miguel, sim, vem-te em mim, meu querido!

Mais tarde, com ela estendida sobre ele, escondendo o rosto na curva do braço, ouviu-a dizer:

– Que vergonha, Raul… Chamei-lhe Miguel…

Raul riu-se, obrigou-a a encará-lo e respondeu:

– Tolinha… Pensas que isso me ofendeu? Pelo contrário, até me lisonjeou. Mas agora vá, toca a lavar e a vestir, que tens o teu dono à espera.

Teresa parou o Smart à porta do prédio. Alguém devia ter coordenado as coisas muito bem, porque não passaram mais do que uns segundos até Ana aparecer. Um grupo de rapazes e raparigas, à conversa ali perto, devem ter ficado um pouco admirados ao vê-la dirigir-se para o carro toda agasalhada, mas descalça. Teresa ligara o aquecimento: esperou que Ana se ajeitasse com o cinto de segurança e arrancou: a quinta vez que fazia o mesmo percurso nessa noite. Ao princípio não disseram nada, embora por vezes Ana desse a impressão de querer dizer alguma coisa. Por fim, não se conteve:

– Como te tratou o Miguel?

Teresa não compreendeu: queria Ana saber se Miguel a tinha tratado bem? Que importância tinha isso? Não eram ambas escravas?

– Não é isso – disse Ana. – O que é que ele te chamou? Chamou-te minha escrava?

– Não – disse Teresa, elucidada. – Chamou-me sempre Teresa.

Teresa gostou de sentir Ana relaxar ao seu lado, como que aliviada de um peso.

– E o Raul – perguntou. – Chamou-te minha escrava?

– Não, chamou-me Ana e minha querida. E eu também não lhe chamei meu senhor.

Teresa envolveu-se toda no prazer desta resposta: Raul fizera com Ana o que quisera, mas não lhe chamara minha escrava.

– Também me chamou tolinha…

Então puseram-se as duas a rir, em paroxismos tais que Teresa teve que parar o carro até recuperar o controlo sobre si mesma. Tolinha… e de cada vez que uma delas dizia esta palavra, a outra respondia:

– Cala-te, não me faças rir.

E assim foram até casa de Miguel, onde Teresa esperou que Ana entrasse, gelando de novo os pés.

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(Nota: este conto acabou por ocupar treze páginas no Word. Decidi por isso dividi-lo em três partes e publicá-lo aqui três dias seguidos. Espero que gostem.)

– O Rui lá acabou por deixar a mulher – disse Arminda à filha, enquanto punham a louça na máquina.

– Quem é o Rui? – perguntou Joana.

Arminda pôs uma pastilha de detergente na máquina e escolheu o programa.

– Ora, quem é o Rui. Já te falei tantas vezes dele: é o meu colega que costuma aparecer ao almoço… O Rui Tavares, de medicina interna… Aquilo com a mulher já andava muito tremido.

– Ah, já sei: na tertúlia que fazes com as tuas colegas reformadas. Já estou a ver a cena: o homem arranjou outra fulana e saiu de casa. Típico. Não tarda nada, o meu pai faz o mesmo.

– Tomara eu – disse Arminda. – Mas o Rui não saiu por causa de mulher nenhuma. Quer viver sozinho, numa casa em que ninguém mande a não ser ele. Alugou um apartamento, fez a mudança, começou a mobilá-lo, meteu os papéis para o divórcio, e só no fim disto tudo é que nos disse.

Ainda faltava limpar o lava-louças e o fogão, mas Joana deteve-se com o pano na mão para se virar para a mãe:

– E tens a certeza que não foi por causa de outra?

– Se fosse, nós sabíamos. A Carmo e a Lúcia fizeram uns telefonemas e ninguém sabe de nada.

– E não será larilas, esse teu Rui Tavares?

– Só se for, mas não me parece. Com o currículo dele… Mas agora não tem ninguém. O que é estranho é ter sido ele a deixar a mulher, e não ela a ele. Mas sabes como é, ele é que tem o dinheiro… Mas também não é homem para deixar a mulher a passar mal.

Joana, às vezes, não entendia a mãe: estava farta de ver casamentos falhados, a começar pelo seu próprio e pelo da filha; e quando via algum terminar, a primeira coisa que lhe ocorria era organizar outro.

– Já estou a perceber: tu e as tuas amigas estão mortinhas, é por fazer de casamenteiras. Deixem o homem em paz… O que ele quer deve ser sossego.

– É o que ele diz: que já tem idade para aguentar uns meses de celibato, e que tão cedo não quer ver mulher nenhuma dentro de portas. E quando a Carmo começou a insistir demais, ele calou-a logo: mulher, em casa dele, só se fosse uma escrava.

– Bem feito – disse Joana. – Aposto que vos embatucou a todas.

Deram as duas uma última volta à cozinha, até que Joana disse:

– Queres ver um filme que eu trouxe? É com o George Clooney…
O filme, afinal, não era grande coisa, e a certa altura nem a mãe, nem a filha lhe estavam a dar grande atenção. Joana, que tinha ficado a remoer as últimas palavras da mãe, disse por fim:

– Essa coisa da escrava…

– Que escrava? – perguntou Arminda.

– A que o teu amigo disse que deixava entrar em casa. Se calhar era ele o homem para mim: de algum tempo para cá tenho andar a pensar que o que eu preciso, é de dono.

Uma parvoíce destas não merecia resposta, mas Arminda não se conteve:

– Passaste-te de todo, ou quê? Primeiro, o Rui é quase da minha idade. Segundo, é do tipo sonhador e poético, não ia estar para te aturar. E terceiro, depois do que passaste com o Pedro, a última coisa em que devias estar a pensar era em ter dono. Trata mas é de acabar o doutoramento e faz como eu, não penses em homens.

O filme, afinal, começou a ser interessante, e o Clooney era um pedaço de homem. Ficaram as duas absorvidas, mãe e filha, até que começaram a rolar no ecrã os créditos finais. Depois de desligar a televisão e o aparelho de DVD e de ter arrumado o filme, Joana entrou na cozinha, onde a mãe tinha aquecido leite para as duas e aberto um pacote de bolachas.

– Ó mãe, tu sempre és muito ingénua. Conheces-me tão bem, sabes a cabra que eu sou, até para ti…

– Ai, lá isso, és.

– E acreditaste em tudo o que eu te disse sobre o Pedro. A maior parte das sacanices que eu te disse que ele me fez, fui eu que lhas fiz a ele, e tu nem desconfiaste: correste logo em socorro da filhinha.

– É, tens razão, sou uma grande parva – disse Arminda. – Mas se é assim, porque não voltas para ele?

– Isso queria ele. Parece que gosta de levar na cara, o desgraçado. Eu é que nem o quero ver à minha frente. Então o teu amigo chama-se Rui Tavares e é internista, não é?

Arminda pousou a caneca e virou-se para a filha, muito séria:

– É, mas agora sou eu que te digo que o deixes em paz.

Joana sorriu:

– Não tenhas medo, eu sei defender-me.

– Pois é, isso estou eu a ver – disse Arminda. – O meu medo não é por ti, é por ele. Se fizeres mal ao meu amigo, não penses que te perdoo.

Joana levantou-se e beijou a mãe:

– E eu quero lá o teu amigo para alguma coisa? Estou como tu: não quero pensar em homens. Olha, vou para casa. Até amanhã.

– Até amanhã – disse Arminda. – Tranca as portas do carro e guia com cuidado.

Arminda era pediatra a tempo inteiro no hospital de Santo António, o mesmo em que Rui trabalhava. Joana, que não tinha conseguido entrar para Medicina, tirara uma licenciatura enfermagem; mas o trabalho não lhe dava prazer, e por isso continuava a estudar: fizera um mestrado e estava agora a concluir, de forma competente mas sem grande entusiasmo, um doutoramento. O trabalho e a tese quase não lhe deixavam tempo para mais nada, mas quando podia ia a concertos de música clássica ou jazz. Já conhecia de vista os frequentadores mais assíduos da Casa da Música, mas nunca quis travar conhecimento com nenhum; até que um dia, numa das bibliotecas da Faculdade de Medicina, encontrou um deles com uma tarjeta identificadora na lapela: Rui Tavares, médico.

– Conheci o teu amigo Rui – disse mais tarde à mãe. – É muito simpático, e não me parece que seja quase da tua idade. Apresentei-me como tua filha e estivemos a conversar.

– Eu sei – disse Arminda. – Ele disse-me que tomou um café contigo. Diz que te achou doce e sensível, o trouxa. Eu só não o avisei que tivesse cuidado porque não lhe quis pôr ideias na cabeça, mas aviso-te a ti.

Joana não respondeu. Não podia levar a mal à mãe que chamasse trouxa a Rui; ela própria se admirava com o seu comportamento em relação a ele. A ironia estava em que a sua doçura não tinha sido fingida, pelo menos de forma consciente: tinha-se mostrado como realmente era – ou como realmente era junto dele – ou talvez, ainda, como gostaria de ser.

Nos meses que se seguiram, continuou a encontrar-se com Rui para tomar café ou ir a um espectáculo. Porque havia de ir cada um sozinho quando podiam ter companhia? O que sossegava Arminda quanto a estes encontros era que Rui os mencionava quando estava com ela e com as amigas. A filha também não fazia segredo deles; e continuou a não fazer segredo quando ganhou o hábito de ir tomar um copo com Rui depois de irem ao cinema ou a um concerto. Só começou a parecer a Arminda que as coisas estavam a ir longe demais quando estas saídas começaram a ser precedidas de jantares a dois. Rui já não dizia que não queria nada com mulheres e não lhe contava todos os encontros que tinha com Joana, nem esta todos os que tinha com ele; mas, ora por um, ora por outro, lá ia sabendo de quase todos, e se não lhos contavam todos era decerto porque já os tinham como adquiridos.

Uma noite, depois de terem ido à ópera no Coliseu, Joana sugeriu que tomassem um copo em casa dela. Usavam nas suas saídas, alternadamente, os respectivos automóveis, e desta vez tinha-lhe calhado levar o seu. Não chegaram a tomar o tal copo: assim que tiraram os casacos, ela abraçou-se a ele e beijou-o na boca, ao que ele respondeu com entusiasmo. Colada a ele, Joana sentiu-lhe o sexo a intumescer. Levara um vestido muito decotado nas costas, sem soutien, e, quando sentiu a mão dele a insinuar-se por baixo do tecido, afastou-se um pouco e disse:

– Comprei preservativos…

Rui ficou com ela a noite toda. Tinha pedido a aposentação antecipada e não tinha que ir trabalhar na manhã seguinte. Quando Joana se levantou para ir para o hospital de S. João, deixou-lhe um bilhete a dar-lhe um beijo, a dizer-lhe onde estavam as coisas para o pequeno-almoço e a pôr-lhe a casa à disposição. Deixava-lhe uma chave para ele dar quatro voltas na fechadura quando saísse.

À hora de almoço, ele telefonou-lhe para lhe mandar um beijo e marcar novo encontro. Não, nessa noite não podia ser, Joana ia estar de serviço. Na noite seguinte, sim. Jantar? Podia ser, e depois podiam ir ao cinema: havia um filme que ela estava com vontade de ver.

Ao passar por casa, ao fim da tarde, Joana tinha à sua espera, já metido numa jarra com água, um ramo de rosas vermelhas. Sentimentalismo idiota, pensou; este afinal é como os outros. Mas este princípio de decepção passou-lhe quando leu o bilhete: Pedi à florista que não tirasse os espinhos. Espero que gostes. E gosto, pensou Joana. Gosto muito dos espinhos.

– Seduzi o teu amigo – disse Joana à mãe. – Estou a dizer-te isto para que não penses que foi ele.

Arminda sentiu vontade de se atirar à filha e de lhe arranhar a cara toda. Ou então de fazer o mesmo a Rui, que não lhe tinha dito nada. Aquilo parecia-lhe uma espécie de incesto: não sentiria maior revolta se tivesse sido o marido a dormir com a filha. Mas isto era uma idiotice, e é claro que Rui nunca lho poderia dizer: como é que um homem diz a uma mulher, que conhece há anos, que foi para a cama com a filha dela?

Não compareceu ao almoço com as amigas no dia em que Rui costumava ir, nem na vez seguinte. Quando as amigas começaram a achar isto estranho, telefonou a Rui para o telefone fixo. Era verdade, disse ele. Então Arminda descarregou toda a sua raiva: se ele não achava que estava velho para seduzir meninas, se não tinha nojo de si próprio, se não achava que o que tinha feito era uma traição.

– Traição? – disse Rui. – Estás com ciúmes?

Isto fez com que Arminda se calasse e desligasse o telefone. Ciúmes? Como, ciúmes, se entre eles nunca tinha havido, sequer, um desejo fugidio? Rui era livre, Joana era livre, só ela, Arminda, é que não; e por mais que desprezasse o marido, nunca seria capaz de pagar traição com traição. E contudo, era obrigada a reconhecer que Rui não andava longe da verdade. Ciúmes, inveja ou orgulho ferido: a relação entre Rui e Joana depressa seria conhecida, e Arminda não sabia como havia de encarar os amigos quando eles soubessem.

Tanto ela como Rui passaram a comparecer de novo na sua tertúlia, mas, por um acordo tácito, nunca os dois ao mesmo tempo. Quando as amigas lhes perguntavam o que tinha havido entre eles, ambos respondiam que não tinha havido nada; se não se encontravam ao almoço, era porque não calhava.

Joana, por sua vez, lidava com a mãe como se nada se tivesse passado. Não dava pormenores da sua relação com Rui, mas também não evitava o assunto. Às vezes, se viesse a propósito, dizia-lhe que nessa noite dormia em casa dele; e esta naturalidade, que ao princípio era sal esfregado na ferida, acabou por levar Arminda a aceitar como facto consumado a relação entre o amigo e a filha. Foi ela que informou dela as amigas, antes que soubessem por outras vias, e por fim recomeçou a comparecer na tertúlia ao mesmo tempo que Rui. Isto provocou neles e no grupo um certo constrangimento; mas este, à medida que os dois foram aprendendo a tratar-se em público como uma espécie de sogra e genro, e as dinâmicas do grupo se estabilizaram num novo equilíbrio, acabou por se dissipar: a relação entre Rui e Joana estava, por assim dizer, oficializada.

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Cap. 34: TITÂNIO

Entretanto havia a viagem ao Brasil, documentos a regularizar, dossiers médicos a organizar, contactos a estabelecer… Os piercings de Teresa iam ser aplicados por um cirurgião, porque os aros de titânio não podiam ser trabalhados no local. Os furos tinham que ter à partida o diâmetro e a curvatura correctos, e o acesso a eles exigia incisões, de modo a que os aros, completos com os ilhós em que deslizariam, entrassem de lado; e por fim havia que suturar estas incisões. Este procedimento exigia uma anestesia local e era muito mais complicado que o que se pratica nos ateliers, mas a cicatrização, devido à precisão dos cortes, ia demorar menos que os dois meses habituais.

O voo para São Paulo demorou quase dez horas, e a transferência para a clínica mais uma. Na mesma noite em que chegou, Teresa ficou internada: o dia seguinte seria dedicado a exames e análises, e no terceiro seriam implantados os anéis. A própria clínica, situada ao lado do parque Ibirapuera, tratou do alojamento de Raul num hotel próximo. Assim, pôde estar presente na primeira consulta com o cirurgião, que já tinha em seu poder um modelo dos quatro piercings que ia colocar. Cada peça consistia em dois anéis que entrariam parcialmente na carne de Teresa. Estes anéis, distantes um do outro por cerca de um centímetro, estavam unidos por uma barra que ficaria de fora; desta barra saía outra, na ponta da qual havia mais um aro. Esta barra engatava, por meio de ranhuras, na que lhe correspondia no lábio oposto, de modo a que os lábios ficassem apertados naquele ponto e os aros da ponta ficassem justapostos sobre a longitude da vulva.

– Reparem os senhores que o engate não é perfeito – disse o cirurgião. – Há um pouco de folga. Isto é propositado: os engates não podem ter arestas vivas, para não machucar; e têm que engatar sem repuxar os tecidos. Depois de os aros de cima engatarem… assim… será possível segurá-los com um cadeado. A senhora deseja piercings de cada lado do clítoris e da vagina, não é verdade?

– Sim – disse Raul – mas a uretra tem que ficar livre…

– Vou dizer-lhe a verdade: com os dois piercings apertados no lugar, a uretra ficará um pouquinho constrangida. Não terá dificuldade em urinar, mas vai ter que fazer uma higiene mais cuidada…

– Sim, nós sabemos.

– A cicatrização não vai demorar tempo demais, porque a incisão vai ser muito exacta e a sutura também. Mas precisa ter alguns cuidados. Quero falar neles aos dois para ter certeza que entendem.

– Faça favor – disse Raul.

– Hoje, a senhora irá para a o seu quarto e fará exames. Se tudo estiver certo, será operada amanhã de manhã. É uma operação muito simples, com anestesia local. Algumas suturas serão bio-solúveis, outras terão que ser removidas à medida que não sejam necessárias. Logo que possível, a senhora deverá mover um pouco os implantes para eles não colarem aos tecidos, mas sempre com muito cuidado. Não tente engatar os anéis exteriores antes de passarem três semanas. Não poderá fazer sexo vaginal antes de seis semanas, e espere oito semanas antes de usar os cadeados.

– E sexo anal? – perguntou Teresa.

– Pode fazer sexo anal passadas quatro semanas, mas tem que fazer logo a seguir uma higiene muito completa de toda essa parte de seu corpo, usando um bom anti-séptico. Agora a enfermeira vai levar a senhora ao seu quarto. O senhor poderá vir de visita a qualquer hora entre as dez da manhã e as dez da noite. Se tudo correr como esperamos, ficará internada três dias: hoje para preparação e exames, amanhã para a operação e mais um para tratamento pós-operatório. No último dia, o senhor também deverá estar presente para a enfermeira ensinar alguns cuidados que deve ter. Depois, a senhora deve descansar, não pode fazer muito esforço; pena que não possa visitar nossa cidade como ela merece.

– E pompoar, quando posso fazer? – disse Teresa.

– Exercícios de Kegel? Pode fazer daqui a quatro ou cinco dias: até ajuda a recuperar. Mas ao princípio faça com muito cuidado, ouviu? Se lhe doer, nem que seja um pouquinho, pare logo.

Depois disto, Raul foi posto delicadamente na rua. Um funcionário da clínica conduziu-o de automóvel ao hotel. No dia seguinte só o deixaram visitar Teresa de tarde: encontrou-a um pouco combalida e impaciente por não a deixarem pôr-se de pé. Para a entreter, Raul descreveu-lhe o hotel, o passeio que tinha dado de manhã, alguns factos que tinha apurado sobre a clínica:

– Sabes que como teu acompanhante tenho direito a alguns tratamentos de graça? Limpeza facial, drenagem linfática… tenho que ver melhor o catálogo.

Teresa fez-lhe sinal de que lhe queria falar ao ouvido, e quando ele se inclinou disse-lhe:

– Só não os deixes modificar-te o pénis, gosto dele exactamente como é.

E ao sentir-se sacudida de riso acrescentou, como se a culpa fosse dele:

– Ai, não me faças rir, que me dói…

Raul deu o suspiro os homens que dão há milénios quando confrontados com a injustiça feminina, ajeitou-lhe a inclinação da cama para ela ver melhor a televisão, beijou-lhe os lábios e perguntou:

– Estás bem assim?

– Estou bem, não te preocupes. Que livros são esses?

– Alguns são para ficar aqui, os outros para eu levar para o hotel.

– Não vais sair à noite?

– Não é preciso. Ligo para a recepção e eles mandam-me uma moça da cor e feitio que eu quiser.

– Para te acender o charuto e servir o whisky, não é?

– Pois claro. Para que mais havia de ser?

– Então manda-a passar por aqui para eu a ensinar. Não quero o meu senhor mal servido…

Riram-se os dois e ficaram algum tempo de mão dada, um pouco enleados, sem saberem bem o que dizer um ao outro. Por fim, foi ela que o mandou embora:

– Anda, vai. Também precisas de descansar. Eu fico bem, daqui a pouco apago a luz.

O dia seguinte foi passado na clínica, onde Teresa já podia passear uns minutos nos jardins.

– Esta coisa ainda me incomoda – disse ela no fim de um destes passeios.

– Dói-te?

– Não, quase não me dói. Mas sinto que são objectos estranhos… Hei-de habituar-me, está claro.

No terceiro dia Teresa teve alta. Antes de sair, uma enfermeira levou-a com Raul a um quarto mobilado como o duma casa particular, com um quarto de banho normal, e ensinou-lhes alguns procedimentos que teriam que seguir no futuro: muita água, muito sabonete, muita água oxigenada, muita circulação de ar, e tudo sempre o mais seco possível.

– Melhor andar de saia sem calcinha, moça… Não vai ter vergonha, vai?

Agora, havia que ocupar os dias. Teresa achava frustrante ter forças para andar e não o poder fazer tanto quanto queria. Os passeios no parque eram dados em passo lento, o que, se por um lado os fazia durar mais, por outro impacientava Teresa, que sempre gostara de caminhar depressa. Raul apontava-lhe os animais e as plantas, que naquele início de primavera brasileira animavam o parque com sons e com cores: assim conseguia que ela se detivesse por momentos e não forçasse demais o corpo.

Na primeira noite que passaram juntos, Teresa decidiu que era tempo de voltar a assumir os seus deveres de escrava: depois dos beijos profusos e das demoradas carícias do reencontro, ajoelhou-se à frente dele, num gesto tão gracioso que dava a impressão de já nada lhe tolher os movimentos, e pediu:

– Meu senhor, não queres gozar na minha boca? Há tanto tempo que não te sirvo…

Raul olhou-a nos olhos:

– Lembras-te de como eu te ensinei, minha escrava?

– Como não havia de me lembrar, meu senhor? Vou-te mostrar…

Raul desapareceu no quarto de banho da suite – aqui dizia-se banheiro – para reaparecer cheirando a sabonete e vestido com o pijama que ela lhe tinha oferecido. Sentou-se na poltrona e ordenou:

– Anda cá, escrava, e abre-me o pijama.

Quando Teresa obedeceu, compreendeu a razão de ele ter vestido o pijama: estava completamente depilado na púbis e na zona genital, e tinha querido fazer-lhe uma surpresa.

– Ficas bonito, meu senhor – disse Teresa.

Gostava, com efeito, de o ver assim. Agradava-lhe que ele não tivesse depilado as pernas nem as coxas, particularmente junto às virilhas, onde a pelugem é mais sedosa. Só depilara o escroto, a púbis e o ventre até ao umbigo. O pénis, assim, parecia maior, e viam-se melhor os testículos.

– Quando voltar a servir-me de ti pela vagina – explicou Raul – não quero que os meus pelos se enredem nos teus piercings. Comecei a fazer depilação a laser aqui na clínica. Em Portugal, continuo.

Teresa sabia que o seu prazer não contava, mas não se pôde impedir de sentir que agora era mais agradável metê-lo na boca, sem ter que cuspir pelos. Começou a chupá-lo como ele lhe tinha ensinado, com ternura e respeito; mas desta vez experimentou uma técnica que tinha inventado: virar a cabeça para os lados de modo a poder acariciar-lhe a glande com a mucosa macia do interior das bochechas. De que ele gostou, não teve dúvidas. Mas também ela tinha uma necessidade o satisfazer, uma necessidade que não era física mas emocional: renovar a dádiva de si que estava no centro do seu amor por ele. Por isso se dedicou tanto, por isso apressou a carícia até sentir a boca inundada de esperma.

Limpou-o com a boca e com a língua: outra vantagem de ele se ter depilado era que esta limpeza era agora muito mais fácil. Depois sentou-se no chão, apoiou a cabeça nos joelhos dele e disse:

– É estranho como chupar-te me faz sentir propriedade tua mais do que qualquer outra coisa… e já estava a precisar de me lembrar, meu amor. Nunca deixes de usar a minha boca.

– Não, minha querida – respondeu Raul. – Também eu te sinto mais escrava quando te ajoelhas para me servir, e não quero nunca prescindir de te possuir assim…

Dois dias depois de sair do hospital, Teresa foi com Raul ao consultório do cirurgião. O médico ficou tão satisfeito com a evolução dela que chamou Raul para junto de si:

– Venha, venha ver… Olhe aqui, no interior dos anéis, como os tecidos estão a cicatrizar… Se continuarem assim, as cicatrizes vão ficar quase invisíveis, e os aros vão ficar bem firmes… É bom sua mulher ter os labia majora tão grandes e resistentes. Mas não se esqueçam que a cicatrização completa demora muito mais que a cicatrização visível… É importante que respeitem os prazos que eu lhes dei.

– Nós sabemos, doutor – disse Teresa. – Vamos respeitá-los à risca…

Teresa não se permitia a impertinência de andar calçada no hotel: considerava que este era, de momento, a casa de Raul, onde tinha de mostrar humildade e respeito; mas nos jardins ele mandou que ela usasse havaianas: um passo em falso, provocado por qualquer pedra no caminho, seria perigoso.

Nos dias seguintes, Teresa tirou os pontos. Onde os anéis de titânio lhe entravam na carne, a pele estava muito fina e rosada, mas não lhe doía nem apresentava sinais de inflamação. Um automóvel alugado com motorista permitiu-lhe visitar com Raul alguns centros de interesse e percorrer duma ponta à outra a enorme Avenida Paulista. Uma noite, aproveitaram a proximidade do Auditório Ibirapuera para irem ouvir a Sinfonia Fantástica de Berlioz: o edifício de Niemeyer impressionou-os, e a música, furiosamente romântica, harmonizava-se com o seu estado de espírito. Passavam, porém, tanto tempo no hotel que Raul ganhou o hábito de se servir de Teresa pela boca mais vezes por dia do que seria de esperar de um homem com quase cinquenta anos. Teresa, que já tinha aprendido muito sobre as preferências dele nesta área, teve ocasião de aprender ainda mais, agora que nada se interpunha entre ela e a pele dele: a infinita leveza com que era preciso beijá-lo ou tocá-lo no escroto, o prazer que era possível dar-lhe passando-lhe a língua no períneo, a maior profundidade a que era agora possível engoli-lo e a necessidade de reaprender a não se engasgar … A ideia de se dedicar durante várias semanas exclusivamente a chupá-lo seduzia-a particularmente, a ponto de nem lhe interessar muito que ele a acariciasse. Tinha-lhe dito um dia que por vezes fantasiava não ser para ele mais do que uma cona; pois agora tinha a oportunidade de não ser mais do que uma boca; durante alguns dias concentrou-se em aproveitá-la e não se importou de andar com os maxilares sempre doridos. Agora que fazia cada vez mais da boca uma vagina de substituição, Teresa achava-se cada vez menos no direito de falar. Sem que ele lho ordenasse, ganhou o hábito de pedir autorização antes de iniciar qualquer conversa:

– Posso falar, meu senhor?

Algumas vezes teve a surpresa de o ouvir dizer não, a ele que tanto gostava de a ouvir; mas estes silêncios impostos eram preenchidos, por um lado, por uma tensão erótica que a fazia cantar por dentro, e por outro por toda uma linguagem de gestos e olhares que era quase uma telepatia. Mas este período mágico tinha que terminar. No dia anterior ao do regresso a Portugal, Teresa, meio morta de vergonha, telefonou para a recepção a perguntar se lhe podiam indicar uma sex-shop que não fosse longe dali. Deram-lhe a indicação pedida, mas informaram-na que o próprio hotel poderia mandar entregar no quarto qualquer artigo mais corrente que a senhora desejasse. Era apenas um lubrificante, disse Teresa. Se era só isso, não precisava de ir à sex-shop: quando voltasse ao quarto, depois de a faxineira o arrumar, encontraria o que desejava no banheiro. E foi assim que Teresa deu a Raul a última abertura do seu corpo que lhe faltava utilizar. Bastou-lhe deitar-se nua sobre a cama, colocar uma bisnaga de lubrificante sobre a mesinha de cabeceira de modo a que ele reparasse, e pôr-se de bruços à espera.

– Queres dar-me o teu cuzinho? – perguntou Raul.

– Não te posso dar o que não é meu – respondeu Teresa. – O meu cu sempre foi teu, mesmo que nunca te tenhas querido servir dele. Mas, se não é ousadia uma escrava exprimir um desejo, gostava que te servisses dele hoje.

Raul deu uma risada:

– É verdade, já é meu – observou. – E é verdade, és uma escrava muito ousada.

– Aqui dizem abusada – interrompeu Teresa.

– Ousada ou abusada, vou-te fazer a vontade: prepara-te, porque não vou ter dó de ti.

Despiu o roupão e começou a acariciar as nádegas de Teresa, que se levantavam de encontro à mão dele como se tivessem vontade própria. A esta carícia seguiram-se duas ou três leves palmadas, que lhe rosaram a pele e a fizeram respirar um pouco mais fundo. Quando a viu ficar um pouco excitada, Raul pôs um pouco de gel nos dedos e começou a massajá-la em volta da abertura de trás, aproximando-se cada vez mais do centro e acabando por lhe introduzir o dedo indicador, primeiro só até à primeira articulação, depois até à segunda, por fim até à base.

Quando lhe encostou ao ânus a ponta do pénis, que também tinha lubrificado cuidadosamente, disse-lhe que fizesse força para fora, como se estivesse a fazer sair qualquer coisa e não a deixá-la entrar. Teresa sorriu: este truque, conhecia-o ela dos seus anos de puta. Sempre tinha tentado evitar o sexo anal, mas nem sempre isto dependera da sua vontade. Mas agradou-lhe que Raul a tratasse como a uma jovem inocente; e de facto, desde a última vez que tinha sido possuída por trás, tinham-se passado tantos anos que o rabo se apertara de novo. Apesar Raul de ter tido todo o cuidado em lubrificá-la e em lubrificar-se, teve muito menos ao penetrá-la. Isto agradou a Teresa: sexo por trás é para doer, pensou; e embora gemesse de dor, virou a cara para e entreabriu os lábios num convite a que ele a beijasse.

O voo de volta foi mais difícil para Teresa do que tinha sido o de ida. Raul tinha comprado lugares em primeira classe, para que Teresa, sentada sobre os seus piercings, tivesse mais amplitude para ajustar a sua posição no assento – necessidade esta que ter o rabo dorido tornava agora mais premente. Reservara um lugar junto à coxia, para que ela se pudesse pôr de pé algumas vezes. Mas tratava-se dum voo nocturno, e Teresa também dormiu não podia passar o tempo todo a passear pela coxia.

Chegaram a Pedras Rubras, estremunhados, às nove da manhã. À sua espera estava Milena, muito engomada no seu uniforme de empregada, e com ela Ana e Miguel, que os acompanharam a casa. Depois do pequeno-almoço, Raul mandou Teresa deitar-se no sofá, levantou-lhe a saia e examinou-lhe o sexo: nos pontos de inserção dos piercings, a carne estava um pouco inchada e avermelhada. Depois do duche, que tomaram juntos, Raul fez questão que ela se secasse bem antes de ele próprio aplicar a pomada desinfectante e anti-inflamatória que o médico tinha receitado. Passaram o resto da manhã na cama, a descansar e a conversar. Almoçaram em casa, servidos por Milena, que pôs sobre a cadeira de Teresa a almofada mais macia que havia em casa; e de tarde passearam um pouco a pé: foram até à Rotunda da Boavista, à Casa da Música, tiraram fotografias um ao outro como um par de namorados e pediram a um casal de turistas que os fotografasse juntos.

– Espere, deixe-me tirar os sapatos! – disse Teresa.

Enquanto a senhora, já de cabelos brancos, lhe segurava os sapatos para que não ficassem caídos no chão a estragar a foto, o marido tirava-lhes o retrato, sorrindo com indulgência da veleidade romântica de Teresa.

De novo em casa, Raul foi para o escritório e mandou Teresa de novo para a cama: queria-a de pé ou deitada; mas sentada, o mínimo possível. À noite não quis possuí-la por trás: era sua intenção fazê-lo raramente, de modo a que a abertura se mantivesse sempre apertada. Ele também acha que por trás é para doer, pensou Teresa; e pôs no beijo que deu a Raul um pequeno extra de ternura.

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(Nos últimos tempos tenho descurado muito este meu blog. O último excerto que publiquei foi do capítulo 29, quando depois disso já escrevi mais quinze. Esse trabalho a tempo inteiro explica em parte a minha falta de assiduidade neste site. Como pedido de desculpas aos meus leitores habituais, apresento neste post três passos do romance: um tirado do início do capítulo 31, outro do fim do mesmo capítulo, e finalmente ou tirado do fim do capítulo 32.)

Nos dias seguintes Teresa pensou muito neste estranho prazer de não ter prazer. Primeiro tentou explicá-lo pelo prazer da escravidão, da submissão, da obediência; mas estes eram prazeres de fundo, de baixa intensidade, e o que ela tinha sentido fora duma intensidade que raiava o insuportável. Depois tentou compreendê-lo através duma imagem: o prazer habitual do amor seria então como uma seta que voa solta, sobe muito alto e cai logo a seguir; enquanto o prazer inaudito que sentira era como um papagaio de papel que se mantinha no alto sem poder escapar ao fio que o prendia. Mas esta imagem não abrangia a diferença qualitativa entre as duas sensações: esta que acabava de descobrir nunca poderia, por mais intensa e prolongada que fosse, substituir a outra. O prazer de pairar, o prazer de nunca mais descer, era de natureza muito diferente do prazer de explodir numa flor de fogo que fugazmente iluminava a noite. O que os dois prazeres podiam ter em comum era o pedido de permissão: este, quando atendido, permitia dar mais brilho e amplitude à explosão e fazê-la durar um pouco mais, mas não a fazia qualitativamente diferente de qualquer outro orgasmo. Teresa sentia-se capaz de renunciar para sempre, sem pena, a ter um orgasmo sem autorização: só se um dia, um dia inimaginável, viesse a amar um outro homem que não fosse Raul.

De repente ocorreu-lhe que nesta taxinomia faltava, para que fosse exaustiva, o orgasmo obrigatório. Imaginou-se a responder de imediato, com um abalo violento e obediente, à ordem de Raul “vem-te”. Sentia-se capaz de o fazer se a ordem lhe fosse dada a tempo; já o tinha feito uma vez, de resto; mas agora era precisamente na falta de tempo que estava a dificuldade. Desde que era escrava de Raul começara a chegar ao orgasmo cada vez mais rapidamente e com cada vez menos preliminares, de modo que o prolongamento destes acabava por ser, quando Raul queria, uma refinada tortura. A maior parte das vezes, quando ele lhe ordenasse “vem-te”, já ela estaria a vir-se, não por efeito da ordem, mas por imposição do seu próprio corpo. “O que eu sou, é uma grande galdéria”, pensou, com mais comprazimento que remorso; e este pensamento levou-a a dar um passo de dança na rua, rodando a saia e fazendo com que um senhor elegante, de cabelos brancos e bengala de castão, se virasse para trás e lhe sorrisse.

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Agora que ia aprender mais, Teresa começou a sentir a necessidade de fazer o balanço do que tinha aprendido até aí como submissa e como escrava. A primeira aprendizagem é sobre a dor e o prazer, e faz-se logo na infância. A dor é um mal a evitar, é o anúncio de um perigo. Vem quando batemos com o joelho na esquina da mesa, ou quando estamos doentes, ou quando nos queimamos no fogão. O prazer é bom: vem de comer quando se tem fome, de dormir quando se tem sono, de correr pelo quintal fora quando a energia transborda, abraçar a mãe, de ser atirada ao ar pelo pai e de ser recolhida de novo nos seus braços, depois de um instante de delicioso terror. Até este ponto a aprendizagem de Teresa foi igual à de qualquer outra criança. A primeira divergência surgiu quando Teresa verificou que o maior prazer dos outros miúdos era dominar os seus parceiros – usando às vezes de métodos tão cruéis e requintados que os adultos, se se apercebessem deles, fugiriam com terror dos seus próprios filhos – enquanto o dela era servir e obedecer. Um dia descobriu que havia muitas pessoas capazes de transmutar a dor em prazer: mas ela própria nunca fez esta aprendizagem. Nunca aprendeu a ter prazer directamente na dor. Aprendeu, sim, com Ettore, a submeter-se à dor; mas era a submissão que ela amava, não a dor em si.

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– E o pompoar? [ -perguntou Raul. – ] Não me chegaste a explicar bem o que é isso.

Teresa franziu um pouco o sobrolho.

– Sabes o que é o músculo pubococcígeo?

– Não – respondeu Raul.

– Pois é… Há uma coisa que tu às vezes fazes quando estás com uma erecção, que é mexer o pénis para cima e para baixo sem mover os quadris… Sabias que não há muitos homens capazes de fazer isso?

– Não sabia. Pensava que todos os homens conseguiam.

– Pois é, o músculo pubococcígeo é o músculo que te permite fazer isso. É um músculo, ou melhor, um conjunto de músculos, que vai do osso púbico ao cóccix, e se o treinares sistematicamente vais tornar-te capaz de muito mais do que acenar com o pénis: vais ser capaz de orgasmos múltiplos, de controlar a ejaculação, de te protegeres contra doenças da próstata…

– Hmmmm… Estou a ver que vou ter que pensar nisso a sério. E para as mulheres, qual é a vantagem?

– Ficamos protegidas contra certas doenças e deformações, ficamos mais capazes de controlar os nossos orgasmos, e ficamos capazes de dar muito mais prazer aos homens.

– Aha! E já dá para me fazeres uma demonstração?

– Talvez – disse Teresa. – Porque não experimentamos?

E sem esperar pela resposta de Raul tirou a saia e a écharpe transparente que trazia a servir de blusa, ficando nua. Entretanto também Raul se livrou do roupão e do pijama. Teresa trepou para o colo dele, abriu as coxas e começou a descer até ter o membro viril introduzido até ao fundo.

– Fica quieto um bocadinho, meu senhor, por favor…

Raul começou a sentir que a vagina de Teresa lhe apertava ritmicamente o pénis. A pouco e pouco começou a mover-se para cima e para baixo dentro dela.

– Devagar, meu senhor… ainda não faço isto com facilidade…

Mas Raul não precisou de movimentos violentos para atingir o prazer. Teresa também não fazia outros movimentos que não fossem o apertar e relaxar rítmico da vagina. Poupou o esforço maior para quando Raul estivesse a atingir o climax, e quando tudo terminou perguntou-lhe, beijando-o:

– Foi bom, meu senhor?

Raul retribuiu-lhe o beijo:

– Foi muito bom, meu tesouro. Foi como uma mistura de quando te possuo pela vagina com quando me chupas o sexo.

− E ainda só aprendi a controlar a vagina como um todo, e mesmo assim com muito esforço. Quando aprender a controlar separadamente a entrada, o meio e o fundo, então é que vais ver o que é bom…

− Mal posso esperar – disse Raul. − Se calhar nunca mais vou querer penetrar-te por outro lado…

– Isso não, meu senhor – respondeu Teresa, alarmada. – Sou toda tua, com todas as aberturas do meu corpo. Não me desprezes… E agora que tenho outra vez o cuzinho bem apertado, vou querer que qualquer dia te sirvas também dele.

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(Do Capítulo 20)

O embrulho estava no quarto dos castigos. Teresa manteve-se de joelhos enquanto esperava, e Raul, retomando a solenidade com que tinha recebido a sua prenda, manteve-se de pé para lhe entregar a dela, que a recebeu nas duas mãos. Era um embrulho oblongo, que ela abriu para encontrar um cofrezinho de pau-rosa com embutidos de prata. Os embutidos formavam um desenho em trompe l’œil : visto duma maneira representava ramos e flores, visto doutra era uma paisagem de falos erectos que fizeram Teresa corar. No interior forrado a cetim Teresa encontrou, assente num suporte de prata, um vibrador como nunca tinha visto outro: o silicone de que era feito imitava jade, e a base, de enroscar, era em prata embutida com cristais Swarovski.

− Meu senhor, obrigada… é lindo…

Raul agachou-se para lhe dar um beijo.

− É lindo mesmo? Gostaste?

− Muito, meu senhor. É muito lindo.

E durante muito tempo ficou em silêncio, a passar os dedos pela macieza do silicone e a admirar a perfeição e a beleza do fabrico. Não tinha sido comprado numa sex-shop qualquer, de certeza, era demasiado bem feito e demasiado bonito para isso.

Raul sentou-se no sofá e ficou a admirar Teresa enquanto ela admirava a sua prenda. Sentia que ela tinha alguma coisa a dizer mas ainda não estava pronta a falar.

− Meu senhor… − disse ela por fim.

− Diz.

− Esta prenda… desculpa esta pergunta, é tão parva… Este vibrador é para eu usar, ou é para tu usares em mim?

− Nenhum vibrador que exista nesta casa é para tu usares – respondeu Raul. – Nem este, nem nenhum dos que estão guardados no quarto dos castigos. São todos para eu usar em ti. Não sei se já usaste algum, mas se usaste, ficas desde já proibida de o fazer de novo.

− Sim, meu senhor – disse Teresa.

Seguiu-se outra longa pausa, indicativa, para Raul, de que o assunto não estava encerrado.

− Meu senhor…

− Diz, meu amor – encorajou-a Raul.

− É que… É que quando estiveres a usar um vibrador em mim, vou ter que te dizer um segredo.

− Que segredo?

− Posso dizer-te só na altura? Posso, meu senhor?

Raul encolheu os ombros:

− Podes, mas a altura vai ser hoje mesmo. Esta noite vou usar em ti este brinquedo. Olha.

Raul pegou no vibrador, tirou-lhe a tampa, tirou do bolso uma embalagem e introduziu-lhe as pilhas, prestando atenção a que ficassem com as polaridades correctas.

− Anda – disse por fim. – Vamos para a cama.

No quarto, o vibrador ficou em cima da mesinha de cabeceira, no seu suporte de prata, enquanto na cama Raul e Teresa se acariciavam e beijavam. Não tinham televisão no quarto, mas tinham música, e Raul tinha posto um CD de Billie Holiday a tocar baixinho. O vibrador era de alta qualidade e muito silencioso: Teresa só o sentiu quando Raul lhe tocou com ele na comissura dos grandes lábios e a começou a massajar com ele ao longo dos grandes lábios, sempre pelo exterior da vulva. Depois, por um instante, sentiu-o nos lábios menores, e desejou que ele se demorasse por lá, mas a intenção de Raul era outra: com o vibrador assim lubrificado, massajou-lhe longamente o períneo antes de voltar a ocupar-se da vulva, que tinha entretanto florescido e apresentava, perfeitamente visíveis, os pequenos lábios e a abertura da vagina. O vibrador começou a percorrer-lhe os pequenos lábios, sempre de trás para a frente, passando ao lado ou por cima da uretra mas detendo-se todas as vezes, cruelmente, logo antes de chegar ao clítoris. Teresa tinha fechado os olhos, aberto as coxas o mais que podia, e entregava-se às sensações de prazer que Raul lhe provocava com sabedoria e crueldade. Por um momento, um momento só, sentiu que a ponta do vibrador lhe tocava o clítoris; só para a sentir recuar e procurar a entrada da vagina, onde começou a introduzir-se.

Foi neste momento que Teresa recuou com um espasmo e um grito, como se tivesse sido tocada, não por um instrumento de prazer, mas por um ferro em brasa.

− Que foi, meu amor? Fiz-te doer? – perguntou Raul, alarmado.

− Não, não é isso – respondeu Teresa. – É o tal segredo de que te falei…

− Diz-me.

− Sim, meu senhor. Mas continua a fazer por fora…

Raul continuou a acariciá-la com o vibrador, interrompendo a carícia apenas quando ela parecia impedir Teresa de falar.

− Devo ser única – disse Teresa. − Não suporto ser penetrada por um vibrador.

− Única? Nem penses – respondeu Raul. – Há muitas mulheres que também não suportam.

Teresa suspirou de prazer à medida que sentia o vibrador percorrer-lhe a zona genital.

− Mas essas não gostam muito de ser penetradas seja pelo que for. Aceitam um pénis um pouco porque tem que ser, desde que haja mais alguma coisa além da penetração. Mas eu gosto de ser penetrada, às vezes com preliminares, às vezes sem eles. Se sinto que pertenço a um homem, nem sequer sou capaz de distinguir o meu prazer do dele… Mas um vibrador na vagina provoca-me uma sensação que não consigo descrever.

− Sentes dor?

− Não, não é dor. Mas não consigo…

− Tenta explicar – decidiu Raul. – E vamos fazer assim: quando eu achar que não estás a conseguir explicar, meto-te o vibrador um pouco na vagina. Quando achar que estás a conseguir, acaricio-te o clítoris ou outros sítios bons…

− Não me faças isso, meu senhor…

Mas estas palavras só lhe valeram que ele cumprisse a sua ameaça. Descrever uma sensação física é sempre difícil, ainda mais quando outras se sobrepõem e embargam as palavras. Por fim Raul teve que se satisfazer com esta explicação: a sensação que Teresa não suportava era muito parecida com o mais intenso dos prazeres, mas era indubitavelmente um sofrimento; e embora não se parecesse em nada com alguma dor que ela alguma vez tivesse sentido, era mais insuportável que muitas delas.

− Pronto, meu amor – disse Raul, por fim. – Parece-me que já entendi tudo o que podia entender.

E começou a excitar-lhe o clítoris, entremeando esta carícia com breves incursões na zona da vulva e à sua volta, até a ver sacudir-se num orgasmo que se prolongou por minutos. Depois Teresa abraçou-se a ele, aos beijos:

− Agora tu, meu dono… Serve-te de mim…

− Vem tu por cima – disse Raul.

Teresa empalou-se nele, ainda um pouco dorida do orgasmo recente, e começou a fazer os movimentos de que sabia que ele gostava. Quando ele gozou, foi ao quarto de banho para se lavar e para se munir do necessário para o lavar a ele. Depois deitou-se ao lado dele e abraçou-o.

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( Do capítulo 18 )

Tinham acabado o exame, tinham decidido tudo o que tinham a decidir, e agora Teresa, deitada de costas na cama, brincava distraidamente com os seus próprios seios enquanto Raul, apoiado num cotovelo, a observava.

− Meu senhor… − disse ela por fim, apertando os seios um contra o outro.

− Sim? – disse Raul.

− Acreditas que possa haver alguma coisa que uma puta nunca tenha feito?

Raul desatou a rir:

− Ora deixa ver, meu tesouro. Nem sei o que te responda. Para te dizer a verdade, nunca pensei muito nisso. Porquê?

− Nada, uma tolice. Nunca nenhum homem gozou entre as minhas mamas. Dá para acreditar?

Raul riu-se de novo:

− É claro que dá para acreditar. Eu também nunca gozei entre os seios duma mulher. É por isso que estás a apertar os teus um contra o outro? Dava-te prazer que eu te fizesse isso?

− O meu prazer não conta, sabes bem – disse Teresa. – Mas sim, acho que me daria prazer ver a cabeça do teu pénis a aparecer e a desaparecer, muito rosada, entre as minhas mamas… E depois ver o teu esperma a sair… E tu, meu senhor? Terias prazer em te servires de mim assim?

− Talvez tivesse. Mas teria de ser com uma lubrificação qualquer, não gosto de esfregar pele seca em pele seca. Vai buscar vaselina ao quarto de banho.

Teresa correu a cumprir esta ordem. Quando regressou, Raul colocado duas almofadas no centro da cama.

− Para apoiares a cabeça – explicou. – Deitas-te do meio da cama para baixo, com as pernas de fora, eu deito-me por cima de ti. As almofadas são para apoiares a cabeça de modo a poderes ver o que está a acontecer. Agora passa um bocado de vaselina entre as mamas, e a seguir sobre o meu sexo.

− Sim, meu senhor – disse Teresa.

Ao passar-lhe vaselina no pénis, Teresa fechou a mão e fez-lhe um movimento masturbatório, que Raul achou mais agradável do que se tivesse sido feito com a mão seca. Teresa deitou-se na posição indicada, Raul estendeu-se por cima dela com os braços esticados de modo a deixar espaço para que ela pudesse erguer a cabeça e ver o seu próprio corpo. Teresa pressionou os seios um contra o outro, apertando entre eles o sexo de Raul: ficou com a glande dele diante dos olhos, e mais uma vez se deu conta de como ela era bonita. Preconceito de amor, sem dúvida: mas Teresa já tinha visto muitos órgãos masculinos, e a muitos tinha-os achado feios e repugnantes, com as suas glandes bulbosas ou as suas formas mal definidas. A glande de Raul era, vista de cima, quase triangular, como a ponta duma seta. Vista de frente, como ela agora a via, mostrava uma abertura suficientemente larga para que o esperma jorrasse dela aos borbotos e não aos esguichos. Na base, no ponto de união com a haste, circundava-a um rebordo muito marcado e ligeiramente rendilhado, como um colarinho quinhentista ou como a rebarba de um dardo, que a fazia mais grossa do que o comum e talvez contribuísse, ocorria agora a Teresa, para o prazer intenso que ele lhe provocava ao penetrá-la. Quando Raul se começou a mover, Teresa pôs-se a imaginar que este movimento se realizava dentro dela: ao ver a glande aproximar-se, imaginava-a a tocar-lhe o colo do útero; quando a via recuar e esconder-se completamente entre os seus seios, imaginava-a a acariciar-lhe os pequenos lábios e a entrada da vagina; e alegrou-se de poder ver com os seus próprios olhos o que se passava nas suas entranhas quando ele a possuía.

Quando Raul atingiu o clímax, Teresa assistiu, fascinada, ao jorrar do sémen em borbotos, um dos jactos tão forte que lhe atingiu o queixo e os lábios. Esperou que ele rodasse de cima dela para a cama antes de se limpar com um toalhete húmido. Depois limpou-o a ele, primeiro com a boca e a língua, depois com outro toalhete. Veio-lhe de novo à ideia aquele jacto de esperma mais forte, e de repente imaginou o sémen a entrar-lhe no útero, a fecundá-la… Isso agora nunca poderia acontecer, essa possibilidade tinha-lhe sido roubada para sempre pelas sevícias a que tinha sido sujeita em Itália. E os monstros que lhe tinham causado este dano irreversível continuavam livres de fazer o mesmo a quantas mulheres quisessem, enquanto as mesmas autoridades a que competia detê-los ousavam acusar de maus tratos aquele homem bom que a segurava nos braços e nunca a tinha tratado com outra coisa que não fosse todo o amor e todo o respeito.

Vieram-lhe as lágrimas aos olhos; escorreram-lhe pelo rosto. Raul, inquieto, perguntou-lhe:

− Que foi, meu amor? Que tens?

Teresa pegou num lenço de papel e assoou-se antes de responder:

− Nada, meu senhor, uma tolice… Nunca vou poder ter um filho teu…

Diz-se que para bom entendedor meia palavra basta. Nesta queixa de Teresa entendeu Raul tudo o que ela tinha sentido e pensado no instante anterior. Abraçou-se a ela com mais força, sem falar, e pôs-se a entristecer juntamente com ela até que ambos adormeceram.

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Com o meu pedido de desculpa pela longa ausência, publico hoje mais um excerto do romance que estou a escrever. O enredo tem também uma componente de acção e mistério, mas os trechos que tenho escolhido para publicar aqui são os que reflectem mais a componente erótica. Espero que gostem…

… – Tenho pensado muito nestas coisas, [- disse Raul – ] embora felizmente já não seja minha função resolvê-las: foi provavelmente isso que me provocou este pesadelo. Desculpa ter-te acordado.

– Lá por isso não peças desculpa [- disse Teresa. – ] Tens o direito de me acordares quando quiseres…

− Tenho? É claro que tenho. Mas de preferência para outros fins, não para te sobrecarregar com manifestações de fraqueza.

Teresa ficou algum tempo em silêncio, ainda com a cabeça apoiada no peito dele. Por fim mudou de posição para o olhar nos olhos e disse:

− Ouve, meu senhor. Há umas coisas que preciso de te dizer.

− Diz lá, então.

− Eu não sou burra nem ingénua…

− Não, isso não és – interrompeu Raul.

− Não sou burra nem ingénua, e a vida já me ensinou que em geral as mulheres são mais fortes do que os homens.

Raul ficou silencioso: era claro que estas palavras, das quais ele, de resto, não discordava, eram um intróito; e não quis interromper.

− Isto, para as mulheres, – continuou Teresa – é uma grande frustração, e muitas vezes tem-no sido ainda mais para mim, que sou forte mesmo para mulher.

Raul acenou em concordância, e Teresa continuou:

− Num mundo em que os homens são geralmente fracos, o mais provável para a maior parte das mulheres é nunca encontrar um homem mais forte do que elas. Para uma mulher mais forte do que as outras, então, acho que é praticamente impossível. Mas eu tive a sorte extraordinária de encontrar dois: primeiro o Ettore, e depois a ti, meu amor.

− Eu, um homem forte? – insurgiu-se Raul – E excepcionalmente forte, para cúmulo? Durante a maior parte da minha vida não me tive por fraco, é verdade. Mas agora? Com toda a minha carga de culpa? Com todas as minhas dúvidas, contradições e escrúpulos? Com pesadelos, porra! Com necessidade de colinho! É isto, um homem forte?

Teresa segurou-lhe o rosto entre as mãos, beijou-o com força na boca e disse com veemência:

− No teu caso, é, sim senhor. Homens fracos com carapaças duras foi o que eu mais encontrei na vida, ainda por cima nos meios que frequentei. Diz-me uma coisa: os horrores que viste no Kosovo alguma vez deixaram de ser horrores para ti? Criaste habituação? Tornaste-te indiferente?

Não, reflectiu Raul. Nunca se tinha habituado, nunca se tinha tornado indiferente.

− Sabes o que faria um fraco no teu lugar? Criaria uma carapaça. Ao fim de uns meses já teria aprendido a desprezar as vítimas que tinha por função apoiar. Faria piadas sobre elas. Lá no fundo, até desenvolveria alguma admiração pelos carrascos…

Raul teve um sobressalto. Sim, era verdade. Ele próprio tinha visto colegas seus evoluir neste sentido. Nunca os censurara, nem os censurava agora: era a maneira que tinham de se proteger. Teresa tinha razão: eram fracos. Mas isto não queria dizer que ele não o fosse também, à sua maneira.

− Diz-se que os fracos admiram os fortes – prosseguiu Teresa, implacável. – É mentira: os fracos não admiram os fortes, admiram os violentos. Mas tu não…

Não, Raul não admirava os violentos. Nem os temia, de resto. Se sentia alguma coisa por eles era desprezo e asco… E ódio, infelizmente. Ódio também.

− Pelos violentos, sinto ódio – murmurou. – E o ódio é uma forma de fraqueza.

− Pois é, meu senhor, mas é uma fraqueza que te há-de passar, que te está a passar. É isto que eu vejo em ti a cada dia que corre. Oxalá um dia possas contribuir para que seja feita justiça, mas se há alguma coisa de que estou certa, é de que nessa altura agirás desapaixonadamente: sem piedade, mas também sem ódio, como homem viril que és.

Oxalá, pensou Raul. Oxalá…

− Outra coisa, meu querido: − prosseguiu Teresa – passou-te pela cabeça alguma vez que eu fosse deficiente em auto-estima?

Raul teve que se rir perante uma ideia tão estapafúrdia:

− Deficiente em auto-estima? Tu?

− Pois, não achaste que me faltava auto-estima, mas viste logo que a minha orientação amorosa era para a submissão. Como conciliaste as duas coisas?

Raul pensou durante um momento e respondeu:

− Já antes tinha encontrado mulheres em que a auto-estima e a submissão se conjugavam. Esta possibilidade não era novidade absoluta para mim. O que eu nunca tinha encontrado era uma mulher que levasse tudo isso ao extremo, quase ao excesso. Quando descobri que precisavas de viver apaixonadamente, que tinhas essa tua exigência de absoluto… Pois bem, acho que foi nessa altura que me enamorei de ti.

− Nessa altura – disse Teresa – outro qualquer teria fugido de mim a sete pés. Uma coisa que eu aprendi nos últimos anos é que a minha maneira de amar pode ser uma coisa aterradora para os homens. Tu não tiveste medo de mim…

Talvez Teresa tivesse razão, pensou Raul, talvez ele fosse mais forte do que se sentia neste momento; talvez mesmo tão forte como ela, ou mais; mas ainda não estava em estado de se convencer disto. Olhou para ela, que no decorrer da conversa se tinha deixado escorregar pela cama abaixo de modo a ficar de novo deitada. Medo dela? Não, não sentia medo, sentia desejo. Estendeu a mão para lhe acariciar os seios, que a roupa da cama tinha deixado a descoberto, e logo a mão dela lhe procurou o sexo.

– Diz-me como gostas, meu senhor… Ensina-me…

Raul começou a instruí-la: que não lhe agarrasse o membro erecto com a mão toda, que usasse mais os dedos, que lhe acariciasse gentilmente a veia de baixo. Teresa, atenta a todas as instruções, ia tomando nota mentalmente: não o agarrar à bruta, explorar-lhe meigamente todos os refegos da pele, prestar especial atenção à glande. Raul tinha sido circuncidado na adolescência porque o prepúcio estreito lhe tornava dolorosas as erecções: agora, para maravilhamento de Teresa, a glande distendida era duma macieza prodigiosa, lisa e macia como nada mais sobre a Terra.

– Que lindo que é o teu pénis, meu querido… Tão macio na ponta… Gostas assim?…

E ia-o dedilhando levemente a todo o comprimento, insinuando os dedos delicadamente nas pregas da glande e na abertura, de onde despontava uma gota de líquido. Absorto no prazer que recebia e na instrução que dava, Raul quase parara de acariciar os seios de Teresa; mas não de todo, não de todo: e sentia entre os dedos os mamilos intumescidos que denunciavam a excitação dela.

Uma característica que Raul e Teresa tinham em comum era a falta de pressa nas suas actividades eróticas. Raul era capaz, por qualquer particularidade fisiológica ou psicológica que desconhecia, de manter indefinidamente uma erecção enquanto se dedicava àquilo a que as outras pessoas chamam preliminares; Teresa parecia nunca se cansar de brincar com o corpo dele, de o acariciar e beijar; e os dois juntos chegavam por vezes a deixar que este prazer intenso se esvaísse sem chegar a uma penetração ou a um orgasmo, como um rio no deserto que nunca desagua. Mas desta vez Teresa tinha pressa:

– Penetra-me agora, meu senhor. Obriga-me a vir-me. Vou ser desobediente, vou-te resistir, vais ter que me obrigar…

Raul beijou-a nos lábios e respondeu-lhe, sorrindo, que não lhe apetecia de todo violá-la. Se ela resistisse, paciência, não ia haver mais sexo para ninguém. Em resposta, Teresa deu-lhe um pequeno murro no ombro, como era seu costume quando ele desconversava, e disse:

– Não é isso, estúpido. Não te vou resistir nem desobedecer em nada, só em ter orgasmo…

– Então se é assim, – disse Raul – vem tu por cima.

Teresa sabia muito bem que nesta posição o orgasmo dele costumava ser mais lento e o dela mais rápido; mas obedeceu, ainda que protestando:

– Assim não vale…

Raul ficou perfeitamente imóvel enquanto ela se empalava lentamente nele. Teresa estava consciente de que estavam a medir forças. De um lado estava a sua vontade, que era firme e lhe proibia o orgasmo. Do outro, a exigir-lho, estava toda uma coligação: o seu desejo, o seu amor por Raul, a obediência a que se tinha obrigado, e sobretudo a vontade dele, que ela desejava soberana. No entanto, por mais que desejasse perder, não faria batota a favor do adversário: empenharia todo o seu esforço em vencer.

Se este fosse um jogo de xadrez, esta penetração teria correspondido apenas ao dispor das peças no tabuleiro. Agora Teresa, imóvel sobre Raul, olhos nos olhos, sentia a vagina distendida pelo órgão masculino que a enchia até ao fundo. Esperava a primeira jogada, e esta não se fez esperar: uma fortíssima palmada na nádega esquerda que a fez estremecer, quebrando a imobilidade a que se estava a obrigar. Procurou ajeitar o corpo de modo a aliviar a sensação de repleção que a dominava, mas Raul segurou-a firmemente pelos quadris e começou a mover-se dentro dela. Por vezes retirava-se completamente, de modo a acariciar-lhe, com a ponta macia do pénis, os lábios interiores da vagina e o clítoris, outras penetrava-a até ao fundo com movimentos ora bruscos, ora lentos e prolongados, que a apanhavam sempre de surpresa.

Não era fácil resistir a isto, mas a dificuldade aumentou quando ele lhe ordenou que “dançasse para ele” – o que significava, no seu código privado, que tinha que mover os quadris nos movimentos da dança do ventre; para a frente e para trás, para os lados, em círculos, em oitos. Desobedecer não fazia parte das regras do jogo; mas obedecer era quase assegurar a derrota, tanto mais que ao mesmo tempo ele lhe ia acariciando os seios e os mamilos com toques e beliscões de intensidade variável e imprevisível: ora leves como o toque duma pena, ora fortes e dolorosos, fazendo-a gemer. A mesma coisa com os beijos: ora delicados como o pousar duma borboleta, ora mordidos, exigentes, chupados, a prometer lábios pisados e nódoas negras no peito e no pescoço.

Teresa sentia que no fundo de si se formava o orgasmo que decidira recusar, e sentia-o vir à superfície, soltando-lhe os quadris, invadindo-lhe os pulmões, propagando-se pelos nervos, avermelhando-lhe o rosto e o peito. Começou a apertar e relaxar alternadamente a vagina, tentando apressar o orgasmo de Raul, mas ao fazê-lo estava a apressar também o seu. Sentiu como o amante acelerava os seus movimentos dentro dela, como se lhe soltavam, também a ele, os quadris, como a respiração se lhe tornava arquejante. Ia vencer: vencer por uma unha negra, mas vencer. Mas, no próprio momento em que via a vitória ao seu alcance, ouviu a voz dele que ordenava:

− Vem-te agora, minha escrava.

E veio-se, veio-se como lhe tinha sido ordenado, tão incapaz de se controlar como de não reagir a um choque eléctrico. Nunca antes ele lhe tinha chamado “minha escrava”; tinha esperado pelo momento próprio; e este tinha sido próprio, se tinha! Derrotada, e feliz na derrota, abraçou-se a ele, cobrindo-o de beijos e tentando, com as últimas contracções da vagina, prolongar-lhe o prazer até à última gota. Feliz na derrota: e tanto mais feliz por saber que a derrota táctica tinha sido uma vitória estratégica, um passo em frente na cura de Raul e no conhecimento que tinham ambos um do outro.

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