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Posts Tagged ‘perfeição’

A primeira resposta que dou a esta pergunta, aquela que me ocorre instintivamente e quase sem pensar, é “não”. Um Senhor que imagine que só por ser Senhor é superior à sua escrava, ou um “Dom” que se iluda e pense que só por ser “Dom” é superior à sua submissa, não passa de um tolo; e portanto, em vez de ser superior é-lhe provavelmente inferior.

Isto que escrevi acima é a resposta simples. Não deixa de ser basicamente a minha opinião, mas não posso dar-me por satisfeito com ela. É que para lá da resposta simples há outras bem mais complexas.

Uma das melhores amigas com quem me correspondo na net refere com insistência a sua necessidade de se entregar a alguém por quem possa sentir não só respeito, mas também admiração. Sente a necessidade de ver no seu Dono um ser superior, não só a ela própria, mas também aos seres humanos em geral. Não vou dizer que esta minha amiga está a visar alto demais, pela simples razão que sempre admirei quem visa alto. Mas aí está: se por qualquer volta da vida viesse a acontecer eu tornar-me Senhor desta minha amiga e ela minha escrava, haveria logo à partida um ponto em que eu a consideraria, se não superior a mim, pelo menos minha igual.

Não é que eu acredite na igualdade de todos em relação a todos. Pelo contrário, acredito firmemente que o homem que pensa é superior ao que não pensa, o que sente superior ao que não sente, o que lê superior ao que não lê, o que vive superior ao que apenas sobrevive, o que é útil aos outros superior ao que lhes é nocivo. A questão é que em todos estes pontos a escrava e a submissa têm exactamente o mesmo direito/dever de se aperfeiçoarem que têm o Senhor e o “Dom”.

Assim, a minha amiga, como tantas outras escravas e submissas, está perante um dilema: para que a pessoa a quem se entregam lhes seja superior, têm elas que ser inferiores; para serem inferiores têm que prescindir do seu crescimento como seres humanos; crescimento este que é precisamente o que as torna dignas de serem amadas e possuídas em pleno.

A única solução que encontro para este dilema é a seguinte: o Senhor e a escrava têm de crescer juntos; cada um deles tem que admitir que não é perfeito e admitir além disto, o que é difícil, que o outro também não; e cada um deles tem que fazer tudo o que estiver ao ser alcance para que o outro se transforme de verdade num ser superior. Um deles fará isto pela maneira como domina, o outro fá-lo-á pela maneira como se submete; mas a um nível muito profundo estarão os dois a fazer precisamente o mesmo. Aquilo que nenhum deles tem o direito de fazer é diminuir-se a si próprio ou a diminuir o outro.

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