Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘Polly Peachum’

Autor: Polly Peachum

Tradução: Vanderdecken

Quando conheci online o meu senhor estava à espera de ser manipulada. Contava com bazófia e exibicionismo, mascarando um ego profundamente inseguro, tal como tinha encontrado em tantos homens que tinha conhecido ou com quem tinha tido relacionamentos. Ele tinha-me dito numa das suas primeiras mensagens electrónicas que tinha a vocação de curar, que ajudava pessoas infelizes a melhorar emocionalmente. Com efeito, quando começámos a falar, ele deixou bem claro que, embora se sentisse atraído por mim, me encarava mais como alguém que podia ser ajudado do que como uma potencial companheira para a vida. Nesse tempo ele tinha uma escrava com quem era feliz, e embora esse relacionamento tenha terminado mais tarde (ele tinha decidido terminar várias relações dominante-submissa anteriores que tinha achado insatisfatórias por várias razões), ele não estava “à pesca de escravas” nem a tentar adicionar-me a qualquer espécie de harém sadomasoquista. Ele ajudava as pessoas numa base informal, segundo disse, sem cobrar nada pelos seus serviços, porque tinha uma paixão por essa missão, uma vocação. Isto tudo soava-me demasiado vago e New Age. Senti a mesma suspeita que sentiria por alguém que anunciasse ser um bruxo ou que podia comunicar com os mortos. Assumi que esta pretensa terapia não era mais do que um escape para o ego dele. E consequentemente decidi testá-lo.

Sem realmente acreditar que ele me podia ajudar emocionalmente (nunca ninguém na minha vida tinha sido capaz de me ajudar – todos os êxitos e todo o crescimento que eu tinha conseguido tinham sido apesar das pessoas à minha volta, não por causa delas), apresentei-lhe, embora não me desse completamente conta que era isto que estava a fazer, um desafio. Em resposta à sua mensagem terapêutica disse-lhe em substância, e de um modo bastante cínico, “Está bem, Sr. Terapeuta, esteja à vontade para me dar todo o tratamento que quiser, mas não espere de mim resultados prodigiosos.” Muito mais tarde o meu senhor contou-me como se tinha divertido com esta minha afirmação “petulante” e como soube imediatamente, mesmo antes de começarmos, com que rapidez eu havia de mudar de ideias. Como é que ele sabia isto sobre mim? Tendo lido cuidadosamente todas as minhas mensagens, e tendo uma vasta experiência com as pessoas, já sabia que eu era inteligente, motivada e muito sincera no meu desejo de submissão. Também já conhecia por esta altura muitos dos meus problemas e pancadas: as realidades que eu não estava a enfrentar, as coisas que eu estava a assumir sobre a vida e que não estavam a resultar, os meus medos e os meus pontos sensíveis.

O dar-me conta, como me dei rapidamente, de que ele sabia tanto sobre mim foi apenas uma das descobertas extraordinárias que eu havia de fazer sobre ele ao longo dos anos. À medida que a dinâmica senhor-amante-escrava ia sendo adicionada à dinâmica terapeuta-paciente, comecei a ver que tudo o que ele tinha dito sobre si próprio, incluindo aquelas coisas que tinham que ser gabarolice porque eram boas demais para ser verdade, era exacto e genuíno. Ele tinha realmente uma imensa confiança em si próprio e uma atitude positiva em relação ao que empreendia, atitude esta que era capaz de transmitir às pessoas que estava a tentar ajudar. Assumia realmente a responsabilidade por tudo o que fazia, e cumpria sempre a sua palavra. Se dissesse que me ia telefonar às sete da tarde de terça-feira, fazia-o. Tinha uma personalidade absolutamente estável que era imune a variações de humor e invulnerável à síndroma da conversão (depois de ler esta frase o meu senhor disse com o seu humor sardónico habitual – ele tem-se na conta dum Oscar Levant dos nossos tempos – “Outra maneira de dizer que sou um fanático”). Tinha uma força emocional enorme e maturidade completa e uma ausência desconcertante de botões emocionais. Não ficava avassalado quando aconteciam coisas terríveis na sua vida, nem ficava exageradamente zangado ou perturbado por qualquer coisa que eu fizesse. O melhor de tudo é que não se levava a si mesmo ou a qualquer coisa na sua vida demasiadamente a sério, e constantemente fazia humor com tudo isso – uma coisa de que um egoísta a fazer o papel do Senhor Lorde Dominante Omnipotente Do Universo é totalmente incapaz. Estes fortes traços de personalidade permitiram ao meu senhor ser razoavelmente bem-sucedido, e por vezes muito bem-sucedido, em tudo o que empreendeu. Em cinco décadas de vida foi escritor e editor de jornais e revistas; escritor de livros; fotógrafo, actor e músico; proprietário de um pequeno negócio; dirigente sindical e activista de direitos humanos. Para além deste trabalho pago, arranjou sempre tempo para aconselhar quem o procurasse a pedir ajuda e, a maior parte das vezes, para os ajudar a efectuar mudanças pessoais profundas. Finalmente, é desde há décadas um feminista convicto e já se batia pelos direitos das mulheres muito antes de se ter tornado moda que os homens falassem a favor deles.

Passaram-se seis longos e maravilhosos anos, e estou extraordinariamente feliz com a escolha que fiz e com o rumo que a minha vida tomou em consequência dela. Se me fosse dada outra vez a oportunidade de decidir tornar-me uma escrava sabendo o que sei hoje, faria exactamente a mesma escolha. Olhando cuidadosamente para mim própria tal como sou hoje e para a pessoa que era antes de me tornar uma submissa life-style, posso afirmar que as minhas experiências como submissa melhoraram imensamente a minha vida e nalguns aspectos viraram-na do avesso. Sem a orientação experiente do meu senhor, não acredito que nada disto fosse possível. Há seis anos eu estava incapaz de sair do pântano que eu própria tinha feito. Estava muito obesa e continuava a ganhar peso. Embora tivesse um emprego razoavelmente interessante, o meu próprio apartamento e um namorado, estava sem saber o que fazer da vida. Estava profundamente insatisfeita comigo mesma e sentia-me impotente, incapaz de mudar uma vida que era perfeitamente funcional mas estava encravada em ponto morto. Tinha as minhas pequenas satisfações, coisas que me davam prazer, mas a maior parte destas tinham-se tornado vícios. Bebia quase seis cervejas todas as noites a acompanhar os meus jantares enormes. Depois de meses deste auto-abuso corporal mal conseguia arrastar-me para fora da cama todas as manhãs e ir trabalhar. Muitas vezes telefonava a dizer que estava doente e sentia-me tremendamente culpada por isto. Comprava todas as revistas de moda e beleza assim que saíam e passava horas a olhar com inveja as belas manequins e a sonhar que me parecia com elas. Tal como comer e beber, a tentativa de me conformar aos ideais de beleza da sociedade era uma das maneiras que eu tinha de evitar o verdadeiro problema: os aspectos estéreis, irrealizados, da minha vida. Estranhamente, considerava-me feliz.

Agora tudo mudou. Perdi o peso que precisava de perder seguindo um plano de alimentação e de exercício saudável e lento (nem lhe chamaria uma dieta – era tão moderado e inclusivo). A maior parte das vezes já não sinto a compulsão de comer demais. Já não bebo demais, nem procuro um escape na bebida. Hoje em dia raramente leio uma revista de moda, pois as mulheres retratadas nelas já não me parecem tão atraentes ou desejáveis de imitar – pelo contrário, muitas vezes dou por mim a pensar, quando olho para um desses sacos de ossos grotescos e pesadamente maquilhados que estas revistas tanto gostam de promover como o pináculo da atracção, que é uma pena essas pobres modelos esquálidas não se parecerem um pouco mais comigo! Já não estou insatisfeita com a minha carreira: faço acontecer coisas. Raramente sofro emboscadas de resultados inesperados devidos à minha acção inconsciente, como antigamente sofria com regularidade. Já não faço por ignorar o efeito das minhas acções no meu ambiente social ou de trabalho. Os meus esforços subterrâneos para sabotar a minha própria vida acabaram. Acredito que não estou a tentar evitar ou ignorar nenhum aspecto da minha vida. Mais importante: quem sou e o que sou já não são mistérios obscuros para mim. Descobri quem sou, o que quero da vida, e cada dia aprendo mais sobre como o obter. Já não deixo ninguém pôr-me o pé em cima, e consigo fazer coisas – como exprimir zanga a pessoas estranhas – que eram inconcebíveis para mim há seis anos. A minha emoção de fundo deixou de ser de depressão ligeira para se tornar de felicidade e paz comigo mesma. Já não estou à procura de um lugar na vida; cheguei a casa.

Apesar de o meu senhor me ter ajudado a curar e a crescer, a maior parte do trabalho fi-lo eu própria. Mas o que me permitiu desenvolver o meu poder de mudar a vida em aspectos tão importantes e positivos, quando tanta gente passa tantos anos em terapias formais sem obter estes resultados espectaculares, foi o facto de eu estar finalmente a fazer o que nasci para fazer, a fazer o que necessito de fazer na minha vida. Estou a viver e a experimentar, de modo positivo, sadio e inofensivo, as fantasias que tive durante anos de violação e cativeiro, perda de controlo, sofrimento erótico e degradação. Depois de anos a tentar compreender exactamente porque é que consegui o que consegui, concluí que quando alguém descobre o lugar a que pertence ou encontra alguma coisa que realmente adora fazer, muitos comportamentos negativos, incluindo hábitos arreigados, podem ser abandonados, porque não passam de sintomas duma profunda insatisfação com a vida.

Estou convicta que me tornei uma submissa apesar das minhas circunstâncias e experiências, e não por causa delas. Tenho o género de currículo que transforma as pessoas em inválidos emocionais, não em submissas sexuais. O meu pai era um alcoólico que morreu antes de eu atingir a puberdade. Enquanto foi vivo, ora abusou de mim física e emocionalmente, ora me estragou com amor e atenção. Depois de ele morrer passei meses a chorar todas as noites de solidão até adormecer. Por pior que ele fosse, foi a única pessoa na minha família que me fez sentir especial e amada. (Estou consciente que a minha vida adulta recria nalguns aspectos o meu relacionamento com o meu pai. Também estou consciente que para mim esta recriação é saudável e que a minha sexualidade envolve muitos aspectos que ultrapassam em muito esta representação infantil).

Pouco depois da morte do Papá, a minha mãe arrastou-me para fora do sistema público de educação e enviou-me para um colégio católico. O efeito de a minha família passar a vida a mudar de um lado para o outro e eu ter que ir para uma escola nova em cada ano, somado ao choque recente de ter perdido o meu pai, teve o seu efeito em mim, e por essa altura eu tinha-me transformado numa criança insegura, pateticamente tímida. Ficava parada contra a parede do recreio a ver as outras crianças brincar e inventava fantasias que me magoavam sobre a razão por que nunca era convidada a participar na diversão. Convenci-me que era muito estúpida; que era muito desajeitada. A minha família era demasiado pobre. Eu era uma estranha. Não era tão boa como os outros.

E além disso havia as freiras. Peguem numa criança que já é insegura à partida, com um sentido de si própria muito inadequado, e entreguem-na nas mãos de um bando amargo e meio louco de abusadoras emocionais, e vejam o sangue correr!

Durante estes anos de tortura a minha mãe recorreu a um emprego mal pago de professora para sustentar uma família com seis membros. A sua exaustão e a sua desilusão com a vida tornaram-na emocionalmente distante e impediram-na de notar sequer a minha infelicidade. Embora eu fosse uma criança dotada intelectual e criativamente, desenvolvi um sentimento de mim própria que continha elementos quase avassaladores de inferioridade e derrota. Sentia-me impotente, sentia que quase toda a gente em meu redor era mais poderosa ou mais inteligente do que eu, que não era capaz de fazer nada, que era incompetente para tratar da minha vida simplesmente porque era uma mulher como a minha mãe. Embora uma parte de mim soubesse que os meus colegas do sexo masculino não eram, em quase nenhum caso, mais inteligentes do que eu, considerava as minhas próprias ideias e opiniões sem valor em comparação com as deles, e era encorajada a isto pelas minhas professoras. Os meus extensos recursos criativos foram postos ao serviço de inventar razões para os pensamentos dos rapazes serem sempre melhores do que os meus.

A minha saída do colégio católico, terrivelmente ferida, deixou-me desarmada para enfrentar a puberdade e a minha primeira experiência sexual: uma violação aos catorze anos. E com esta admirável introdução ao mundo maravilhoso do sexo no meu currículo, passei a minha adolescência e a maior parte dos meus vinte anos tão frígida como o Pólo Norte. A literatura feminista que comecei a ler por essa altura deu-me esperanças idealizadas sobre como mas coisas deviam ser – sobre a maneira como eu, uma mulher jovem e forte, devia agir e sentir – mas não estava em posição de pôr estes ideais em prática. Não tinha um currículo de êxitos sobre o qual pudesse construir. Mas ainda estava viva muito lá no fundo, com um cerne inabalável de optimismo, uma esperança estúpida e constante de que tudo acabaria bem. É como se eu tivesse dentro de mim uma estrutura metafórica de aço, crua e sem forma, mas apesar de tudo incapaz de ceder. Sei que consegui manter um lugar dentro de mim ao abrigo das coisas horríveis que a vida tinha posto no meu caminho, ao abrigo das crueldades da vida. Nesse lugar eu era feliz, nesse lugar eu tinha esperança duma vida melhor, e nesse lugar vivi as minhas fantasias sexuais mais íntimas e mais preciosas.

(Continua)

Anúncios

Read Full Post »

Autor: Polly Peachum
Tradução: Vanderdecken

Não sei se fui sempre submissa, mas algumas das minhas memórias mais antigas, começando nos cinco anos de idade, envolvem actos e pensamentos submissos. Eu era a menina que queria sempre servir as outras crianças com quem brincava. Lembro-me de brincadeiras em que empurrava as minhas irmãs num carrinho de brincar até ao ponto da exaustão, pensando o tempo todo em quão confortáveis elas estavam e como se estavam a divertir graças ao meu esforço. Adorava poder servi-las. Com os meus pais sentia algo de semelhante mas muito mais intenso. Ficava radiante quando eles me davam tarefas para os ajudar na vida da casa, e aceitava a maior parte dos castigos, quando eles vinham, com obediência e sem os pôr em questão. Ser punida comportava para mim, mesmo nessa idade, um frémito distintamente erótico. Estava a ser corrigida fisicamete por alguém mais forte e mais sábio do que eu, e isto era não só correcto e justo mas também terrivelmente excitante.

Ao crescer, comecei a ter fantasias explicitamente eróticas de submissão: inventava histórias em que era uma cativa ou uma criada, forçada a fazer coisas extremamente embaraçosas e a suportar punições dolorosas administradas por alguém mais velho e mais forte do que eu. Estas fantasias excitavam-me: nunca me fizeram sentir má ou culpada. Julgo que assumi que todas as crianças tinham sonhos em que eram perseguidas nuas na arena de um circo por enxames de abelhas que tentavam introduzir-se nos seus rabos enquanto a multidão se ria à gargalhada duma situação tão vergonhosa e dolorosa.

Por volta dos nove anos de idade comecei a tentar envolver as crrianças com quem brincava em jogos de senhor-escrava, nos quais eu, naturalmente, era sempre a escrava. Mas apesar de a maior parte dos miúdos adorarem a novidade de serem os senhores, de mandarem em alguém para variar, raramente encontrei companheiros de brincadeira que continuassem a gostar do jogo depois de o terem jogado algumas poucas vezes. Eu, é claro, seria capaz de o jogar o dia inteiro se eles cooperasem, e sentia um enorme prazer em obedecer às exigências cada vez mais extravagantes do meu Senhor ou Senhora. Paradoxalmente, quando por volta dos treze anos aprendi finalmente alguns factos sobre o sexo, os constantes e poderosos temas sadomasoquistas que tinham imbuído a minha infância recuaram para segundo plano. Talvez isto se devesse ao facto de eu estar demasiado ocupada em aprender o que fazer numa saida com um rapaz; talvez ao facto de eu, uma leitora voraz, ter descoberto aos treze anos a literatura feminista, literatura que sugeria fortemente que não era apropriado ter fantasias nesta direcção. Fosse qual fosse a razão, as minhas tendências submissas tornaram-se, durante a puberdade, muito menos conscientes do que antes, emergindo apenas à noite como acompanhamento da masturbação. Mas mesmo nessas ocasiões eu não associava estas fantasias à minha pessoa ou às minhas necessidades: eram apenas uma coisa que eu fazia enquanto me masturbava.

Durante anos as minhas fantasias e tendências sexuais ficaram por examinar, pelo menos por mim própria. Aos 17 anos uma conhecida mais velha do que eu deu-me um exemplar da “História de O”, o romance sadomasoquista clássico do século XX, dizendo simplesmente “acho que vais achar isto interessante”. Devorei o livro, que se transformou na base das minhas fantasias nos anos seguintes, mas abafei todas as especulações sobre o porquê de ela me ter dado aquele livro. Não queria, simplesmente, pensar nisso. Olhando para trás, esta negação parece-me ao mesmo tempo divertida e compreensível. Tentem imaginar uma adolescente precoce a ter aulas na faculdade e a viver com dois rapazes dez anos mais velhos do que ela. Como uma verdadeira filha dos anos 70, o seu currículo icluía uma disciplina de Estudos Femininos ministrada por uma lésbica e uma disciplina de sexualidade humana estilo “beijinhos e abraços” durante a qual o sadomasoquismo foi mencionado de passagem durante uma conversa de cinco minutos sobre variações e fetiches para nunca mais ser trazido à baila. E no entanto esta adolescente volta para casa todas as noites e passa 40 a 60 minutos de joelhos no chão de madeira, aos pés duma cama, massajando os pés do seu companheiro de quarto, um jovem politicamente correcto, ecologicamente consciente e sensível aos papéis sexuais, até ele adormecer! E o tempo que ela gasta a fazer isto é a parte mais arrebatadora, excitante e íntima do seu dia. Uma vez mais, de um modo limitado e socialmente aceitável, encontrava-me em posição de reviver aqueles momentos de infância que me tinham dado tanto prazer. Mas a submissão sexual continuava a não ser algo que eu relacionasse comigo própria. Pura e simplesmente não pensava nela – a não ser como fantasia nocturna.

Nao fiz mais nada em relação às minhas fantasias até seis anos mais tarde, quando, aos 23 anos, tentei dar mais tempero a um relacionamento de cinco anos contando ao meu namorado episódios da “História de O” enquanto fazíamos amor. Ele ficou tao excitado com estas histórias que, para minha grande delícia, me surpreendeu dias depois amarrando-me os braços a um gancho no tecto do dormitório. Depois deu-me uma sova com uma vergasta que tinha cortado lá fora, degradou-me, e tentou realizar sexo anal comigo. Esta primeira experiência genuína de submissão forçada arrebatou-me até ao mais fundo de mim, mas na manhã seguinte quando o meu namorado viu as nódoas negras nas minhas ancas e nádegas ficou absolutamente horrorizado. A culpa que sentiu por ter feito aparecer aquelas marcas no corpo da sua amada impediu-o de alguma vez voltar a fazer comigo algo de tão “doentio”, apesar da minha afirmação que tinha adorado.

O conhecimento da minha relação com a submissão pode ter estado a subir lentamente do meu inconsciente para o meu consciente durante aqueles anos, mas foi necessária uma experiência catalítica, uma espécie de epifania, para me confrontar com o facto que sou uma submissa. Tinha quase 30 anos e andava com LuAnn, uma mulher com quem tinha trabalhado durante nove meses. LuAnn era uma leitora ávida de ficção popular e tinha-me chamado a atenção para os livros da série “Vampiros” de Anne Rice. Ao lê-los fui fortemente afectada e atraída pelos relacionamentos de poder entre um vampiro e as suas vítimas escolhidas – na realidade entre um vampiro com séculos de idade e experiência e uma jovem protegida sua, recentemente humana. No meu estilo habitual de leitura, que é levar tudo à minha frente, acabei por ler tudo o que Anne Rice alguma vez tinha escrito, e acabei por tropeçar nos seus romances eróticos, escritos sob o pseudónimo A.N. Roquelaure. Foi nessa altura, quando comecei a ler as aventuras de conto de fadas erótico de Beauty, que acorda de um sono profundo por meio duma violação e duma sessão de palmadas, que também eu acordei do meu sono pessoal para fazer a conexão essencial: esta sou eu. Eu sou como esta personagem de conto de fadas. Sou uma submissa, e não há nada que queira mais do que ser escrava de alguém! Bingo. Tocaram as campainhas. As trompas soaram. As luzes piscaram. Ali estava eu. Mas onde? Estava maluca e não sabia? Mas aquilo não me parecia maluquice. Parecia-me certo.

Nesse tempo eu não fazia ideia de quão poucas pessoas encaram o sadomasoquismo como aceitável para terceiros, muito menos para si próprias. Magoou-me a sério dar-me conta. como me dei rapidamente, que LuAnn estava totalmente impreparada para aceitar a minha auto-descoberta. Fiquei subitamente isolada, não sabia de todo para onde havia de me virar para encontrar pessoas que partilhassem os meus novos interesses, ou sequer como encontrar alguém que não sentisse repulsa pelos meus sentimentos. Tal como muitas outras pessoas nas minhas circunstâncias – só mais tarde me apercebi de quantas – procurei alívio na Internet. Sozinha no meu apartamento, aprendi a ligar um modem a um computador e descobri o mundo das comunicações online. Também encontrei rapidamente, graças à surpreendente ajuda do meu ex-namorado, as áreas mais desviantes nos sites de contactos e alguns serviços comerciais que podia subscrever. Aqui comecei a encontrar outros submissos e dominantes. Deixei mensagens longas sobre a minha sexualidade e numa questão de horas comecei a receber numerosas respostas e mensagens electrónicas. Conheci várias pessoas e cheguei a “jogar” com algumas delas por computador. Aprendi que o tipo de submissão que eu queria – imersão total, life-style – não era o que todas as pessoas envolvidas em sexo sadomasoquista querem. De facto, a grande maioria das pessoas que encontrei online pareciam satisfazer-se com um pouco de S&M com os seus parceiros no quarto ou ao fim de semana para voltarem a uma relação convencional entre iguais depois destas “sessões” relativamente breves. Eu, por outro lado, tinha a certeza que não queria nada que não fosse uma escravidão absoluta e sem fim.

Procurei entre as pessoas que encontrava online pela minha contraparte dominante: alguém que quisesse dominar e controlar tanto como eu queria ser dominada e controlada. Acabei por encontrá-lo – ou melhor, ele encontrou-me. Depois duma longa correspondência, numerosos telefonemas, e vários encontros que duraram vários dias, fiquei encantada quande ele me deu a oportunidade de me entregar a ele em escravidão. Embora ele me pudesse ter ordenado que me tornasse sua escrava, e eu teria obedecido instantaneamente, ele queria que esta escolha fosse minha – e a minha última decisão livre. Pensei cuidadosamente no assunto durante várias semanas, e até ao segundo em que ele me disse que era tempo de decidir considerei a ideia de que tinha uma escolha e ainda podia recuar. Embora não quisesse recuar e tudo em mim clamasse pela experiência da escravidão, eu ainda me dava bem conta de que até ao momento em que me desse a ele tinha o poder de continuar livre. Não sofri nenhuma lavagem ao cérebro; ele não tentou persuadir-me de nada. Pelo contrário, eu tinha estado activamente à procura dele ou de alguém como ele. Foi uma decisão minha, e foi a melhor (e última) decisão que alguma vez tomei.

(Continua)

Read Full Post »

Texto: Polly Peachum.
Tradução: Vanderdecken.

Uma vida assim, obviamente, não pode ser vivida sem ser examinada. As perguntas que as mulheres submissas se fazem, os colóquios interiores a que se entregam, surgem do mar cultural que as rodeia: as perguntas das submissas são em forma invertida as acusações que a sociedade lhes faz. Mas serão estas acusações justas, ou corporizam mitos em que a maior parte das pessoas acredita simplesmente porque lhes parecem a coisa mais simples e mais óbvia? Os próprios mitos têm que ser examinados. Será que aquilo que a sociedade assume sobre as submissas condiz com as experiências de vida pessoais das submissas? Os motivos daqueles que divulgam mitos e atitudes negativas sobre a sexualidade submissa têm também que ser examinados por qualquer mulher submissa que procure a sua própria aceitação das suas necessidades.

A mulher submissa mítica é fraca, incapaz de tomar decisões ou sem disposição para o fazer, porque nâo quer suportar os fardos normais e as responsabilidades que os outros adultos suportam, ou por por causa duma necessidade patológica de depender do dominante. Diz-se dela e do dominante que têm um relacionamento particularmente doentio e co-dependente.

Como é o caso com muitas crenças populares sobre pessoas e coisas, a crença na mulher submissa fraca é muitas vezes o exacto oposto da realidade. De facto, a maior parte das pessoas seriam incapazes de manter uma relação de submissão life-style a tempo inteiro, por mais que a desejem, simplesmente porque não têm a força de personalidade que isto exige. A maior parte das pessoas, quando pensam numa submissa, formam a imagem duma pessoa sem vontade própria, um capacho que pode ser pisado por qualquer um e não apenas um dominante em particular. A verdade é que, apesar de existirem certamente submissas que são fracas e correspondem à imagem do capacho, também há muitas pessoas fracas envolvidas em relações convencionais. Existem pessoas auto-destutivas – ponto final. Algumas são atraídas pelo sadomasoquismo, a maior parte não, mas todas elas irão até onde for preciso para encontrar a confirmação de que não têm qualquer valor.

Estas pessoas fracas constituem uma minoria entre as submissas conscientes, e são especialmente raras em relacionamentos life-style permanentes devido a um conjunto de razões inter-relacionadas. A mais importante destas é que as pessoas envolvidas em submissão life-style tendem a levar muito a sério a sua sexualidade e a dos seus parceiros potenciais. Isto dá lugar a uma longa e cuidadosa avaliação, tanto por parte da submissa como do dominante, antes que uma união, especialmente uma união permanente, se forme. Seria terrivelmente difícil para uma pessoa fraca ou auto-destrutiva esconder estas tendências de um dominante experiente, uma vez que sinais de uma auto-estima patologicamente baixa são uma das primeiras coisas que um dominante experiente procura detectar – para a evitar – numa submissa que está a aprender a conhecer (os dominantes saudáveis evitam relacionar-se com submissas auto-destrutivas porque estão interessados numa verdadeira troca de poder, e o poder é uma moeda que uma submissa auto-destrutiva não tem em quantidade suficiente para trocar). Um relacionamento bem sucedido de submissão life-style requer uma medida de força e de dádiva altruista para a qual uma pessoa obcecada com ver confirmado o sentido negativo que tem de si mesma não tem energia e na qual não está interessada. Uma obediência absolutamente sincera, do género que reverbera na alma quando o acto exigido é executado, é uma coisa rara e, mesmo para quem tem um talento natural, extremamente difícil de cultivar. Só uma mulher que tenha uma boa noção dos seus pontos fortes e uma opinião positiva das suas capacidades será capaz de aprender a obediência no grau e na forma requeridos numa relação sadomasoquista absoluta de senhor-escrava. Só uma personalidade muito forte e muito teimosa será capaz de perseverar quando as coisas se tornam difíceis: quando não quer obedecer ou quando as ordens são dadas de forma humilhante, talvez até à frente de terceiros a quem ela gostaria de impressionar com a sua independência.

Outra característica do estereótipo da submissa fraca é considerar-se que as submissas “escapam” para um relacionamento life-style a fim de evitar as responsabilidades da vida adulta e a necessidade de tomar decisões que elas comportam. Não posso falar em nome de todas as submissas life-style, mas eu certamente não entrei voluntariamente numa relação de escravidão para toda a vida com o fim de me livrar da necessidade de tomar decisões. Tinha 30 anos de idade, vivia independentemente havia doze anos, tomando as minhas próprias decisões, e não tinha a menor dificuldade em cuidar de mim própria antes de me envolver com o meu senhor. Pelo contrário, o que foi particularmente difícil para mim foi renunciar a tomar decisões. Estava habituada a tomar decisões nas minhas relações pessoais. Estava habituada a viver no meio de possoas que gostavam que eu tomasse decisões, e tinha-me habituado a confiar no meu próprio critério. Confiar noutra pessoa para tomar decisões sobre o nosso relacionamento, para não falar em decisões sobre mim própria, que fossem tão boas como as minhas ou melhores, foi muito difícil de conseguir, e só uma longa relação com alguém que é realmente tão competente como eu me permitiu sossegar o espírito nesta área.

(Relacionada de perto com a imagem da submissa como capacho está a imagem do dominante como um predador manipulativo, egoista e fraco que tira vantagem dos mais fracos do que ele: uma pessoa que não consegue construir um relacionamento com alguém que lhe seja igual. É verdade que alguns homens são atraídos a um papel dominante por razões de insegurança pessoal, por acreditarem que a única maneira que têm de atrair e conservar uma mulher é dominando-a; mas um dominante life-style bem sucedido faz o que faz a partir duma fonte de auto-confiança que lhe diz que o que está a fazer é profundamente certo: que é essa a sua vocação. É a imagem, no outro lado do espelho, da sensação que a submissa tem de estar finalmente “em casa”. Os membros mais experientes das comunidades BDSM distinguem com facilidade entre um pretenso dominante que age por todas as razões erradas e o artigo genuíno. Uma pessoa insegura que não é realmente dominante dá muitas pistas que podem ser facilmente nterpretadas por uma submissa experientes, tal como um dominador experiente consegue detectar uma mulher com problemas graves de auto-estima a tentar passar por submissa.)

Uma questão crucial sobre nós próprias que a maior parte das submissas tem que ter em consideração, e que é particularmente importante para uma feminista, é saber se nós, no nosso desejo egoista de satisfação sexual bizarra, estamos a perpetuar a violência contra as mulheres. O sexo sadomasoquista é encarado muitas vezes como uma forma de violência ritualizada: impessoal, brutal, desumanizante e objectificante. Dizem que perpetua a hostilidade contra as mulheres e que compromete o paradigma duma relação de amor e intimidade. É visto por muitos como algo que amplia as desigualdades de poder entre homens e mulheres e promove uma forma de sexo que é fria e emocionalmente distante. Estas ideias são de vária ordem e convém examiná-las uma a uma.

Será que uma submissão consciente tem alguma coisa a ver com a desigualdade entre os sexos? Não me parece. Na Internet há secções onde qualquer um pode pôr anúncios a solicitar sexo sadomasoquista. Tipicamente, as pessoas que colocam estes anúncios mencionam a sua orientação dominante ou submissa. A maior parte destas mensagens é colocada por homens submissos que procuram mulheres dominantes. (Esta informação nao é definitiva, é claro. Há muitos factores que influenciam a disposição de procurar publicamente parceiros sexuais. Mas a realidade reflectida na Internet não sustenta a ideia de que os papéis desempenhados no sexo sadomasoquista reforçam os estereótipos sexuais – como não a sustenta nenhuma outra informação disponível.).

De acordo com Different Loving: The World of Sexual Dominance and Submission (3), “Muitos sexólogos aderem tradicionalmente à opinião de que os homens têm mais probabilidades do que as mulheres de terem fantasias sexuais sádicas… que as mulheres têm mais probabilidade do que os homens de terem fantasias sexuais masoquistas. Nenhuma prova, anedotal ou outra, sustenta estas conjecturas. Pelo contrário, o grupo mais numeroso nas comunidades [sadomasoquistas] é constituído por homens submissos e o generalizado interesse masculino pela submissão é um fenómeno observável.” Uma parte da crença de que a submissão feminina perpetua papéis sexuais estereotipados e promove a violência conta as mulheres radica sem dúvida numa confusão sobre a violência. Os que acreditam no mito da perpetuação afirmam que quando uma pessoa atinge outra com força suficiente para causar dor, o acto físico em si, independentemente de a pessoa atingida o ter pedido à outra e tirar dele grande satisfação, isto é violência no mesmo sentido que uma violação, um assalto ou um caso de abuso doméstico. Nem a intenção da pessoa “abusada” nem a do “abusador” são tidas em conta. Mas então, e a mulher submissa que erotiza a dor e os actos de força? Se estas são coisas que ela quer, que a afirmam de dia para dia e a elevam por vezes ao êxtase, podem ser comparadas seja de que maneira for à violência brutal infligida à força a uma vítima desesperada e involuntariamente impotente?

A crença de que as submissas tomam parte em relacionamentos que são impessoais e desumanizantes é particularmente aterradora. Os que acreditam nisto tendem a ser indivíduos que não têm qualquer experiência com submissas ou com relacionamentos sadomasoquistas. Um pouco de experiência com estas pessoas ensiná-los-ia que quem está envolvido em relacionamentos sado-masoquistas de longo prazo tende a ser alguém com uma considerável experiência sexual convencional e considera esta experiência insuficiente em termos de intimidade e de intensidade na comunicação pessoal (eu, por exemplo, tive um pequeno número de relacionamentos curtos, um relacionamento de 12 anos com um homem e outro de dois anos com uma mulher antes de me tornar uma sadomasoquista activa). As mulheres submissas chegam geralmente à conclusão que o sexo sadomasoquista permite uma intimidade profundamente vivida e um sentimento de proximidade que o sexo convencional está longe de proporcionar. A “não-consensualidade consensual” que é um elemento central nos relacionamentos sadomasoquistas conscientes requer um nível de honestidade profundo, e até radical, entre dominante e submissa para poder funcionar com êxito. Qualquer sadomasoquista bem sucedido aprendeu a praticar esta honestidade superdesenvolvida de um modo quase instintivo. Uma submissa que não esteja disposta a partilhar o que realmente sente ou que seja activamente desonesta quando o chicote a atinge ou a humilhação começa é geralmente alguém que um dominante experimentado evitará, e é alguém que em todo o caso tenderá a falhar como submissa (do mesmo modo, um dominante que seja desonesto e não-comunicativo torna-se perigoso e tende a falhar). A confiança e a honestidade, pedras angulares da intimidade, podem existir numa relação sexual convencional, mas nada na dinâmica destas relações as exige em grau elevado a qualquer dos participantes. Mas como estas qualidades são obrigatórias para qualquer praticante bem sucedidos num relacionamento sadomasoquista consciente, a impessoalidade numa tal relação torna-se simplesmente impossível. Do mesmo modo, a desumanização, embora possa ser usada por um dominante como uma técnica destinada a produzir fervor erótico numa submissa durante o sexo, condena qualquer relacionamento sadomasoquista a um fim prematuro se reflectir a atitude real de um ou dos dois participantes.

Contudo, apesar de ser esta a realidade duma mulher submissa, muito mais quente e aconchegada do que os leigos suspeitam, tão exigente em termos de auto-confiança e força emocional, tão requintadamente satisfatória, muitas submissas debatem-se, por vezes de modo recorrente, com a questão de saber se os seus gostos sexuais e sociais reflectem uma patologia grave, talvez relacionada com algum abuso físico ou sexual de que tenham sido vítimas na infância. Eu própria, com certeza, me debati com esta ideia.

Alguém que conhece muito bem os meus gostos e atitudes deu-me uma vez um botão em que se lê “Fui reduzida a ISTO!” Gosto muito deste botão, mas gostaria de o modificar um pouco de modo a fazê-lo dizer “Sempre quis ser reduzida a ISTO!”, uma vez que esta formulação descreve tao bem a história da minha vida.

(3) Gloria G. Brame, William D. Brame e Jon Jacobs, Different Loving: Exploration of the World of Sexual Dominance and Submission (Nova Iorque: Villard 1993). Não tenho conhecimento de qualquer tradução portuguesa deste livro.

(Continua)

Read Full Post »

(1. Nota do tradutor: o texto que se segue não é ficcional, mas sim
um ensaio autobiográfico da autoria de Polly Peachum, e é o primeiro de dois que eu tinha prometido traduzir para apresentar neste blog. Pessoalmente considero-o de leitura obrigatória para quem encara as questões de domínio e submissão sexual como algo inseparável dos afectos e dos projectos de vida, bem como quem se interessa pelas suas implicações filosóficas, psicológicas e morais. Devido à sua extensão publico-o em várias partes).

(2. Nota dos editores do site Diferent Loving:
Depois de ter sido contactada por uma conhecida escritora feminista da Terceira Vaga que tinha lido algum do seu trabalho no newsgroup da USENET alt.sex.bondage, Polly Peachum escreveu “Violência no Jardim” para incluir numa colectânea de ensaios feministas da Terceira Vaga. O objectivo declarado do livro era demonstrar que uma mulher pode ser feminista ao mesmo tempo que vive uma vida incompatível com os princípios feministas tradicionais. Embora a editora do livro tenha gostado muito do artigo e o tenha considerado uma das peças mais fortes da colecção, decidiu, influenciada por outras feministas doutrinárias, não o incluir porque a vida e as ideias que ele descreve são demasiado controversas (ou “doentias”, na expressão de uma das suas colaboradoras) e atrairiam a atenção dos media para este ensaio em particular e não para o livro em geral. Pelos vistos, as mulheres cujos estilos de vida se parecem com o de Polly não são dignas de atenção, para já não falar de serem dignas de defesa, por parte das feministas tradicionais.)


.. O locus da fantasia dum homem com sorte não contém robots;
.. duma mulher com sorte, não contém predadores; chegam à idade adulta
.. sem violência no jardim.
……………………… ………………………………….. Naomi Wolf

Temos um gato doméstico, e por isso todas as manhãs, a título de mimo especial, carrego nos braços o nosso tigrezinho cinzento enquanto passeio pela selva caótica a que os nossos vizinhs erradamente chamam o seu jardim. Enquanto levo ao colo o meu gato ao longo de um trilho boerdejado com flores quase trinta centímetros mais altas do que eu, passando por uma massa escura de pinheiros, e para trás à roda da magnólia e dum canteiro de tomates que faz por sobreviver, dou por mim muitas vezes a devanear sobre quem ou o quê poderá estar escondido na vegetação, a olhar para mim com olhos esfaimados. Na minha imaginação “sem sorte”, o jardim sombrio e fértil está povoado de predadores. Por trás de cada arbusto, esgueirando-se fora de vista dentro das sombras, está alguém mais forte e mais brutal do que eu, alguém que me quer subjugar e curvar-me à sua vontade, alguém que quer torturar-me ou humihar-me cruelmente só para me ver corar, choramingar ou gritar de dor.

É um devaneio maravilhoso, arrebatador, e eu vivo uma versão dele, menos feral, na minha vida quotidiana. Vivo a minha vida como uma escrava a tempo inteiro no contexto duma relação sadomasoquista heterossexual. Sei que para muitas pessoas isto pode fazer-me parecer uma vítima auto-destrutiva, viciada em abuso. Esta perspectiva não é correcta nem justa. Os meus devaneios da selva (e a minha realidade concreta) representam a realização de desejos sexuais que são para mim de longe mais positivos – embora radicalmente diferentes – daquilo que a maior parte das pessoas considera saudável ou mesmo são de espírito.

Nao estou sozinha em ter esta espécie de sonhos. De acordo com um estudo mencionado por Naomi Wolf em The Beauty Myth, (1), o Dr. E. Hariton conclui que 49% das mulheres americanas estudadas têm fantasias de submissão. Como eu, sonham ser capturadas, batidas, chicoteadas, controladas e usadas como um brinquedo. Mas como a dominação sexual, a submissão e o sadomasoquismo em geral são olhados com horror e repulsa pela sociedade convencional, muitas pessoas com fantasias de submissão, mulheres ou homens, ficam-se pela fantasia. Eu, porém, fiz a escolha de tornar as minhas fantasias realidade, e ao fazê-lo realizei os sonhos que mais acalentava. Acredito que sou uma das pessoas mais felizes e realizadas que conheço. Tenho a certeza que devo a minha felicidade a um simples facto: prossegui e abracei os meus desejos mais profundos em vez de os ignorar. Transformei-me na pessoa que acredito que estive sempre destinada a ser, na pessoa que tinha necessidade de ser. Sou razoavelmente livre de conflitos internos, estou razoavelmente em paz comigo própria, e sinto-me vibrantemente viva. Aceitei a minha paixao pela submissão como a escolha saudável, afirmativa e maravilhosa que ela é para mim. Nos seis anos durante os quais tenho vivido este sonho, nao lametei uma única vez a minha escolha nem amaldiçoei os meus desejos perversos. De facto, considero-me uma das pessoas mais afortunadas que existem.

Suspeito que muitas mulheres me encaram como um instrumento oprimido, enganada por um homem para fazer o que as mulheres têm feito peos homens desde tempos imemoriais na maior parte das culturas: servir, obedecer, estar à sua disposição sexualmente. Eu vejome, por contraste, como um ser humano consciente, inteligente e intrépido que ousou fazer o que poucas muleres tentam: corri um risco enorme, rejeitei quase tudo o que a sociedade me dizia que tinha que aceitar para ser feliz, e prossegui deliberadamente aquilo que eu sabia no íntimo que me faria mais feliz. E tive êxito.

O meu êxito foi conseguido com dificuldade e isso torna-o ainda mais precioso para mim. Nenhuma mulher nesta cultura é educada com os outros a dizer-lhe que ser escrava é uma coisa boa. Nenhuma é encorajada a tornar-se empregada doméstica ou elogiada pela sua subserviência. Se formos uma criança com desejos destes, aprendemos a escondê-los dos nossos pais. Quando crescemos, aprendemos a escondê-los dos nossos companheiros de brincadeira. E se atingimos a puberdade, como eu a atingi, num tempo de crescimento da consciência feminista, até podemos aprender a escondê-los de nós próprias. Mas no cômputo final, uma pessoa esconder de si própria os seus verdadeiros desejos sexuais nunca funciona. Como o proverbial cêntimo falso, a nossa sexualidade regressa sempre de qualquer terra remota para onde a tenhamos banido e tem, mais tarde ou mais cedo, que ser tida em conta e resolvida, mesmo que a decisão resultante deste processo seja ter consciência do que nos motiva mas não agir de acordo com isso.

Muitas mulheres que, como eu, passaram para lá das fantasias e são submissas activas debatem-se com a contradição aparente entre estes desejos e o que a sociedade em geral – incluindo algumas feministas doutrinárias – nos diz que é bom para a nossa saúde mental e emocional. Resolver esta contradição é essencial para o nosso sentido de dignidade e de humanidade. O que os sadomasoquistas fazem, pensam e desejam será tão errado como tantos exigem que seja? E se assim é, porque é que o desejamos tão intensamente?

Os conflitos emocionais e intelectuais que uma submissa tem que resolver enquanto aprende a aceitar-se tal como é envolvem uma gama de temas que vão além da pergunta “estarei doente?” Há perguntas como “tenho que reprimir parte da minha personalidade para ser uma submissa?” “Tenho alguma vez o direito de me zangar?” “Como posso orgulhar-me de mim própria enquanto mulher e feminista se estou sempre às ordens do meu dono?” “Estarei, no meu desejo de gratificação sexual, a perpetuar a violência contra as mulheres?” “O que acontece se me for ordenado que faça alguma coisa que verdadeiramente tema ou odeie e seja incapaz de fazer?” “Posso acreditar que os meus desejos estão certos, mas como posso eu viver com o ódio de outras mulheres pelo que eu represento ou – ainda pior – com o seu dó de mim?”

A realidade da minha vida é profundamente chocante para a maior parte das pessoas. Entre as submissas activas, pertenço ao raro subgrupo que vive o sonho 24 horas por dia, absolutamente e completamente, sem intervalos, momentos de descanso ou tempo para respirar. Na subcultura sadomasoquista, esta opção é chamada “lifestyle submission“(2). Desde o momento em que me entreguei a outra pessoa, tomei a minha escravidão muito a sério. Ela é tão real para mim como se tivesse cobertura legal, talvez mais real, porque nas sociedades em que a escravatura é ou foi legal houve sempre escravos que se recusaram a considerar-se propriedade de outrem. Embora não exista nenhum tribunal que sancionasse o direito de propriedade que o meu senhor tem sobre mim, considero a nossa relação senhor-escrava muito mais vinculativa do que qualquer documento, porque decidimos os dois que assim seria. Quando me dei ao meu senhor, foi com o entendimento explícito que eu não teria o direito de terminar a relação por mais que no futuro desejasse fazê-lo. No nosso acordo, só ele é que tem o direito de dissolver o vínculo de propriedade, e isto continuará assim não importa o quão infeliz a relação me possa tornar. Nunca em seis anos me senti infeliz a ponto de querer terminar. Porém, se alguma vez no futuro me sentir assim, o meu senhor prometeu-me que me observará cuidadosamente e à nossa relação e que tentará por um longo período resolver as dificuldades a fim de determinar se ir-me embora é realmente a melhor solução para mim. Se, depois de muitos meses de observação cuidadosa, ele estiver convencido que a minha infelicidade com ele ou com a relação é uma condição permanente que não pode ser remediada por nenhum dos dois, libertar-me-á. Mas não me libertará imediatamente da minha escravidão em relação a ele só por eu ter formulado esse desejo. Não posso ir-me simplesmente embora: se o fizesse, tanto eu como ele sabemos que ele teria o todo o direito de me ir buscar por quaisquer meios que entendesse, uma vez que eu lhe pertenço realmente e absolutamente, e não apenas quando é conveniente para mim pertencer-lhe.

Embora relacionamentos como o meu não sejam caso único, em muitas outras relações de poder que observei o casal não leva este aspecto da propriedade ao extremo a que nós o levámos. O conceito nestes relacionamentos é que a escrava está continuamente a dar a sua escravidão ao senhor. Esta “dádiva” é constantemente renovada em cada momento e pode ser cancelada a qualquer momento se ela assim quiser. Este acto significaria provavelmente o fim do relacionamento, mas finalmente ambos os intervenientes querem que a escrava tenha a palavra final, o veto final e, em última análise, o poder absoluto. Para mim, um relacionamento como este seria uma fraude, do mesmo modo que o jogo infantil de “brincar aos pais e às mães” é uma imitação irreal e inconsequente duma família verdadeira com as suas responsabilidades morais e obrigações legais. Eu nunca consentiria numa falsa escravidão como esta. Sim, certamente, nada me impede de pegar no nosso gatinho, meter-me no carro e ir-me embora para nunca mais regressar voluntariamente, mas a verdade é que nunca, em caso nenhum, farei isto. Comprometi-me a ser a escrava deste homem por tanto tempo quanto ele queira, e este compromisso, esta decisão de me dar, é sagrado para mim. Numa cultura em que os casamentos, o sacerdócio e outros compromissos supostamente permanentes e sagrados são quebrados com a mesma facilidade com que mudamos de ideias sobre a roupa que vamos vestir para ir trabalhar, muitas pessoas acham difícil compreender ou acreditar neste conceito de dedicação absoluta; não acreditam que ele possa realmente funcionar. Mas eu sei que sou uma pessoa capaz de ser fiel a um tal compromisso, e o meu senhor também o sabe, e isto é o que interessa. As opiniões dos outros sobre a realidade da minha escravidão têm tanto efeito nela como um enxame de mosquitos suicidas tem na capacidade de uma fogueira se manter acesa. O efeito dos mosquitos, se têm algum, é – numa medida muito pequena – alimentar as chamas da minha dedicação.

A minha vida com o meu senhor é controlada de modo muito apertado. Tenho que tentar obedecer a cada ordem que me seja dada, e nas raras vezes em que desobedeço sou severamente punida. As minhas acções não me pertencem, a não ser nas poucas ocasiões em que o meu proprietário me permite agir livremente (por exemplo, foi ele que me deu permissão de escrever para esta publicação; se não ma tivesse dado vocês não estariam a ler isto). Os meus sonhos nao me pertencem, nem os meus pensamentos: tenho que os revelar ao meu senhor quando ele o exige.

Todo o dinheiro que ganho é imediatamente entregue ao meu senhor, e é ele que decide como e quando ele é gasto. Do mesmo modo, todo o meu antigo património, tudo o que eu dantes chamava meu, pertence-lhe agora a ele. Tenho que obter autorização para todas as acções importantes e para muitas acções menores. Por exemplo, se quiser comprar uma roupa nova ou assinar um novo contrato de trabalho (como consultante de alta tecnologia faço trabalho para vários clientes), tenho que obter a sua permissão. Em casa, e muitas vezes noutros lugares, se quiser usar a casa de banho tenho mais uma vez que pedir autorização. Não me é permitido sair da cama sem autorização; de facto, sou amarrada à cama todas as noites por uma corda presa a uma coleira. Se for convidada para jantar ou para uma bebida por alguém com quem trabalho, tenho que pedir permissão, e muitas vezes são-me dadas ordens sobre o tipo e quantidade de comida e bebida que posso consumir. O meu proprietário exige que eu faça a maior parte do trabalho doméstico, que faça exercício regularmente, e que venha imediaraente quando ele me chama, esteja eu envolvida no que estiver. Palmadas, vergastadas e outras formas de “abuso” físico são um elemento recorrente da minha vida.

Embora esteja vinculada pelas muitas regras que governam o meu comportamento, a minha vda de todos os dias parecese à superfície com a da maior parte das pessoas. Mantenho a minha sexualidade completamente escondida no trabalho, e embora um colega mais perspicaz possa por vezes dar-se conta de que o meu parceiro é “controlador” isto é o máximo a que as coisas chegam. Só nos assumimos como senhor e escrava perante outros sadomasoquistas ou perante aqueles poucos entre os nossos amigos em quem confiamos. Embora isto não seja assim para o meu senhor, tenho descoberto que as únicas pessoas com quem quero realmente fazer amizade são cada vez mais as que partilham as minhas práticas sexuais. A submissão é uma parte tão importante da minha vida que as amizades em que esse aspecto tem que ser escondido me parecem incompletas, quase desonestas. O meu senhor assume-se perante os membros da sua família mais próxima; eu não me assumo perante os da minha, principalmente porque estou afastada deles e não tenho confiança neles. Deixei para trás a minha família e os meus amigos quando me mudei de um extremo para o outro do país para viver com o meu senhor, e desde então, infelizmente, adquiri muitos conhecidos mas poucos amigos íntimos (é difícil que chegue encontrar bons amigos quando temos toda a humanidade por onde escolher; quando temos apenas uma pequena fracção dela, a procura de pessoas simpáticas demora muito mais). Embora esteja activamente à procura de novos amigos, já me resignei à ideia que isto vai levar anos, se não décadas.

Apesar de estar à procura de amigos entre outros sadomasoquistas, suspeito que por fim as amizades que vier a formar serão com pessoas sexualmente convencionais que tenham a compreensão e a compaixão necessárias para me aceitarem tal como sou. As pessoas mais fora do convencional que encontro são muitas vezes uma desilusão porque acabamos por verificar que a única coisa que temos em comum é o que fazemos para obter excitação erótica, e isto é muito pouco para formar a base duma amizade.

O relacionamento que tenho com o meu dono tem a capacidade de compensar de muitas maneiras a minha falta de amigos íntimos. Ao contrário das rotinas frias e rígidas que são tantas vezes o destino das escravas na literatura erótica, a nossa vida quotidiana é cheia de rituais íntimos, plenos de amor, combinados com um pouco de sadismo para manter as coisas interessantes. Numa manhã normal sou acordada pelo meu senhor à hora que ele entende que me devo levantar, geralmente entre as 5:30 e as 6:30, mesmo nos fins de semana. Conto-lhe os sonhos que tive durante a noite, e, como geralmente ainda estou meio a dormir depois deste recital, ele deixa-me “flutuar” por uns minutos antes de me desamarrar e de me mandar para a casa de banho. O nosso acordar inclui várias outras actividades que fazemos puramente por prazer: uma luta corpo-a-corpo na cama, uma canção matinal, umas palmadas para acordar ou umas cambalhotas. Depois vou preparar o pequeno-almoço, recolher os jornais e levo o gato para o seu passeio no jardim. Depois de um pequeno-almoço sem pressas, lavo a louça e trato de algumas outras tarefas domésticas. Com esras concluídas, o meu senhor tem uma pequena conferência comigo para discutir o que pretende de mim nesse dia. Durante estas conferências com o meu dono, tal como acontece com todas as nossas conversas, sou autorizada – de facto sou encorajada – a fazer todos os comentários e sugestões que desejar, mas a decisão final sobre as minhas actividades nesse dia compete-lhe a ele. Se estou a trabalhar num contrato, visto-me para ir ter com o cliente ou então vou para o nosso escritório de casa para começar o meu trabalho. Se não trabalhar nesse dia, o que faço depende do que o meu senhor quer que seja feito e também do que eu gostaria de fazer. Posso ir às compras, posso limpar a casa, posso enviar emails aos meus correspondentes electrónicos, ou posso simplesmente sentar-me no sofá com um livro. Tal como os casais convencionais, fazemos férias na montanha ou na praia. A diferença crucial entre o que eu faço num dia normal e o que uma pessoa convencional faz não está no género de actividades, mas no facto de qualquer que seja a actividade eu ter que obter primeiro luz verde do meu senhor. Outra diferença é que quando estou em casa, seja a trabalhar, seja a divertir-me, o meu senhor interrompe-me muitas vezes durante o dia com ordens: dar-lhe o almoço, ir-lhe buscar alguma coisa a outra divisão, ouvi-lo ler-me uma notícia, ter outra conferência de planeamento, curvar-me para ser vergastada, etc. Pode ser qualquer coisa. À noite, depois de as coisas do jantar estarem arrumadas e de eu terminar as minhas tarefas domésticas, fazemos muitas vezes qualquer coisa juntos antes de ir para a cama, tal como ver televisão ou jogar um jogo de cartas ou gamão – ou alguma coisa mais intensamente sadomasoquista. Quando é hora de ir para a cama, participo noutra série de rituais lúdicos. Antes de o meu dono apagar a luz sou amarrada à cama e vendada. Geralmente estou a dormir profundamente ao fim de dez minutos.

A minha vida apertadamente estruturada com a sua pesada carga de trabalho e a necessidade sem fim de obedecer pode parecer intolerável para a maior parte das pessoas, mas eu colho dela muitas recompensas. Estou loucamente apaixonada pelo meu dono e ele por mim: ele compreende as minhas necessidades especiais e preenche-as na perfeição. Neste relacionamento há um nível de intimidade que nunca experimentei em mais nenhum. É tão reconfortante podermos dizer – de facto, sermos obrigados a dizer – os nossos segredos mais íntimos a outra pessoa; outra pessoa sabe tudo isto; não estou sozinha. O meu senhor é um dominante terno e compassivo, e há um a forte componente terapêutica no nosso relacionamento. Ele apoia-me, faz-me crescer, faz-me sentir bem comigo mesma, mas nunca me mente. Tenho confiança absoluta nele. Estou a descobrir que quanto mais tempo vivo com ele e quanto melhor o conheço, mais tempo quero passar com ele.

Independentemente de quão benigno seja este domínio, independentemente de quão eroticizada seja a dor física, permanece a questão, contudo, de saber porque é que alguém se sujeita a violações ultrajantes da sua liberdade pessoal. Parte da explicação é sexual: ao ceder o controlo, ao não ter uma palavra sobre decisões importantes ou triviais que me afectam, sinto continuadamente uma excitação erótica de baixa intensidade. Estou ligeiramente excitada o tempo todo. para além disso, muitos submissos “life-style”, incluída eu, têm uma componente na sua personalidade a que eu dou o nome de “ética de serviço”. Eu desejo profundamente servir. Adoro dar prazer ao meu dono fazendo o que ele manda. Não houve fase nenhuma da minha vida em que eu não tivesse consciência dessa ética de serviço. Para nós, submissas mulheres, a alegria de servir é tão importante como a intimidade: experimentar extremos de dor ou humilhação às mãos do nosso dominante é algo que cria um laço de intensa intimidade. Esta pessoa pode fazer-me seja o que for. Não tenho absolutamente defesas nenhumas contra ele. A minha alma está nua e em exibição diante dele. Esta intimidade é assustadora na sua intensidade. O grau de confiança necessário para a experimentar é prodigioso. Mas qualquer submissa que a tenha sentido num contexto de impotência total descreve-a em termos extáticos, quase místicos. para nós, o preço de admissão em vulnerabilidade e medo vale a pena ser pago em troca de um bilhete para o céu na Terra.

Estas são algumas características da submissão a que eu e outras submissas damos valor. Mas o que uma submissa sente, o que a excita, surpreende muitas pessoas. A entediante resposta convencional, muitas vezes expressa com escárnio, é “chicotes e correntes”, mas para mim as sensações, fantasias e impressões ricamente idiossincráticas que excitam a minha imaginação erótica e trazem ao primeiro plano o meu carácter submisso são praticamente infindáveis na sua variedade. Incluem o cheiro intoxicante a couro novo; a visão de alguém vestido todo de negro; o toque arrepiante do aço frio na minha pele; ver um par de luvas a ser postas devagar; o sabor pungente e humilhante dos meus próprios sucos num par de dedos que me entram à força na boca; sons duros e agudos, como um taco de golfe a bater na bola, que me lembram do som que a madeira ou o couro fazem ao atingir um corpo; a sensação aterradora de um fio de sangue a escorrer pela parte de trás da minha perna; a visão de um homem a bater ritmicamente um pingalim de montar contra a palma da mão; o sabor ácido do medo acompanhado duma louca sensação de sobressalto no estômago; o olhar atento, de águia, que se pode ver na face de certos dominantes; uma bofetada na cara; uma mão na minha garganta, apertando um pouco, ameaçando; a visão duma agulha quando passa através da pele; a sensação única de estar deitada no chão com uma bota a pressionar a minha cabeça; uma consciência intensa, embaraçosa, arrepiante da minha nudez em frente de um grupo de pessoas completamente vestidas; ser forçada a ajoelhar, gatinhar ou prosternar-me; ser forçada a assumir a posição clássica de cabeça contra o chão, com o rabo erguido para expor as nádegas e os órgãos genitais para diversão do meu dominante; a incapacidade de tomar fôlego e a dor na minha boca que vêm de dar prazer oral forçado; o som do riso do meu amado em resposta aos meus gritos de agonia; o abraço apertado duma coleira de aço que se fecha à roda do meu pescoço; o sabor de um chicote de couro que é forçado contra os meus lábios para ser beijado ou lambido. A vida de uma submissa “life-style” é uma fantasmagoria de baixa intensidade – e muitas vezes não tão baixa – de estimulação erótica, intimidade profunda, e uma consciência intensa de que somos especiais.

(1) Traduzido em português com o título “O Mito da Beleza” pela editora Difusão Cultural (Lisboa 1994)

(2) À letra, “submissão como estilo de vida”. Preferi manter o inglês original porque nos meios sadomasoquistas em Portugal e no Brasil o inglês é muito utilizado nas terminologias específicas.

(Continua)

Read Full Post »