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Cap. 38: VAIVÉM

[ … ] Depois da aula, em casa, Teresa serviu o almoço a Raul; à tarde viu um filme, sentada aos pés dele, sem saber o que aconteceria a seguir. À noite, Milena serviu o jantar sozinha porque Teresa recebera ordem de se arranjar com especial cuidado para o jantar.

– Fica de seios nus, mas não os maquilhes – disse Raul. – Põe os teus rubis.

Para acompanhar o jantar, Raul escolheu Mozart: a Sinfonia nº 38, o Concerto de Piano nº 23 e Eine Kleine Nachtmusik. Terminada a comida e a música, ordenou a Teresa que fosse buscar Ana, que estaria à sua espera, a casa de Miguel.

– Veste o teu casaco mais quente por cima do tronco nu, põe um cachecol e um gorro, mas não te calces. Deixa aqui a Ana, volta para casa do Miguel e fica à disposição dele até ele te mandar para casa.

Atordoada, Teresa nem sequer foi capaz de dizer “sim, meu senhor”, mas também não pensou em desobedecer. Estava desvendado o mistério: ia ser emprestada a outro homem; o seu dono, o seu senhor querido, de quem pensara ser a única escrava, ia servir-se doutra mulher; e não sabia qual das duas coisas lhe doía mais. Foi ao quarto de banho e arranjou-se para sair, sempre com aquele “sim, meu senhor,” que não dissera, a soar-lhe aos ouvidos como um mantra. Agasalhou-se, pegou nas chaves do Smart, desceu ao estacionamento, entrou no carro e foi onde Raul a enviara.

A própria Ana lhe abriu a porta, muito agasalhada mas, tal como Teresa, com os pés nus.

Durante o percurso não falaram. Cada uma estava perdida na contemplação do futuro imediato: iam ser cedidas, iam ser traídas. Não: traídas, não. Ambas se davam conta, mais agudamente que nunca, que Raul e Miguel não lhes pertenciam. Talvez tenha passado pela cabeça de Ana revoltar-se; mas, ao ao ver a expressão de Teresa – pálida, orgulhosa e decidida a obedecer custasse o que custasse – resolveu-se a orientar o seu comportamento pelo dela. Teresa entrou com o carro na garagem subterrânea e acompanhou Ana até à porta do apartamento para a entregar a Raul.

– Entra, Ana – disse este. – E tu, Teresa, podes ir. Obedece ao Miguel em tudo.

Sim, meu senhor, pensou Teresa. Fez o segundo percurso até casa de Miguel num estado de perturbação ainda maior do que tinha feito o primeiro. Já não contemplava apenas o seu futuro próximo, mas o presente que se desenrolava atrás de si, entre Raul e Ana. Sim, meu senhor. Estariam estas palavras, neste momento, a ressoar também na cabeça de Ana? Ou, mil vezes pior, estariam a sair-lhe dos lábios, dirigidas a Raul? Apertou o volante com as mãos até os nós dos dedos lhe ficarem brancos: Não, não era possível. Tudo, menos isso.

Miguel recebeu-a à porta. Ajudou-a a tirar o casaco, pegou-lhe no cachecol e no gorro, que arrumou, e quando a viu nua da cinta para cima não fez qualquer comentário.

– Anda comigo – disse.

O aquecimento central não era tão eficiente aqui como no apartamento de Raul, mas a temperatura não era demasiado desconfortável, nem para os pés nus, nem para o tronco nu de Teresa. Seguiu Miguel para o quarto, onde ele lhe ordenou que acabasse de se despir e tirasse as jóias.

Teresa obedeceu prontamente e em silêncio. Miguel encostou-se à ombreira da porta a vê-la tirar a saia e as jóias.

– Anda cá – disse Miguel.

Teresa avançou até ficar de pé a meio metro dele, que lhe tomou as mãos para as aquecer por um momento entre as suas e depois a beijou na boca, que ela não abriu mas também não fez força para manter fechada.

– Despe-me – disse ele.

Teresa começou por lhe tirar a T-shirt preta e arrumou-a nas costas duma cadeira. Como devo agir, pensou Teresa, com um homem que não é o meu senhor, mas a quem tenho que obedecer? Não lhe beijaria os pés, a não ser que ele lho ordenasse, nem lhe daria quaisquer outras mostras duma humildade que não sentia em relação a ele; mas obedeceria em tudo, e esforçar-se-ia o mais que pudesse para lhe dar prazer. Ajoelhou-se para o descalçar: as sapatilhas eram difíceis de tirar, tinham muitos cordões e era preciso fazer força. Ainda de joelhos, desapertou-lhe o cinto e as calças. Miguel ajudou-a a tirar-lhas, levantando alternadamente os pés; ela endireitou-as e arrumou-as junto com a T-shirt. As cuecas tinham uma mancha húmida que as tornava transparentes. Ajoelhou-se para lhas tirar, mas desta vez não se voltou a erguer: atirou as cuecas para junto da outra roupa e só então olhou para o membro erecto à sua frente. Era diferente do de Raul, mais comprido e mais fino, e completamente a direito. Como não tinha sido circuncidado, a glande era mais vermelha e parecia molhada.

– Chupa-me o pénis.

Sim, meu senhor, disse ela intimamente a Raul; não te deixarei ficar mal. Tomou na boca este pénis que não conhecia: havia de usar as carícias que Raul lhe tinha ensinado, ou as que tinha aprendido nos seus anos de puta? Qual destas opções honraria melhor o seu senhor? A primeira, claro: Raul tinha emprestado a Miguel a sua própria escrava, não uma puta qualquer apanhada na rua. Miguel gemeu de prazer com esta carícia, que ela continuou até ele lhe ordenar que se deitasse na cama e abrisse bem as pernas, entre as quais se ajoelhou para lhe ver o sexo. Viu os anéis de titânio que o transfixavam, fê-los oscilar um a um com a ponta do dedo e suspirou:

– Se eu pudesse, mandava fazer o mesmo à Ana…

Passou-lhe a mão lentamente pelo ventre, pelas ancas, beijou-lhe os seios, e finalmente ordenou:

– Estás seca, masturba-te um pouco.

Teresa enrubesceu até ao peito, mas obedeceu. Se estivesse com Raul, não estaria seca; estaria já quase à beira dum orgasmo. Mas Miguel tinha direito a que ela lhe apresentasse uma vagina bem lubrificada, que ele pudesse penetrar à vontade. Começou a acariciar o clítoris, imaginando que eram os dedos de Raul, até que ficou pronta a ser possuída. Miguel pôs um preservativo, deitou-se sobre ela, penetrou-a sem brutalidade – mas também sem uma ternura excessiva que só a humilharia – e começou a mover-se dentro dela. Teresa não teve qualquer dificuldade em usar as técnicas do pompoar, que se estavam a tornar automáticas para ela. Os movimentos dele tornaram-se mais rápidos e vigorosos e a respiração mais ofegante. E foi neste momento que Teresa sofreu a maior humilhação da sua vida:

– Vem-te agora – disse Miguel.

E ela teve o orgasmo que não tencionara ter, um orgasmo intenso que a obrigou a abraçar Miguel, a colar-se a ele apaixonadamente, a procurar-lhe a boca e a língua como procurava a boca e a língua de Raul; e tudo isto desencadeado por duas pequenas sílabas, uma ordem seca dada por outro homem. Já sabia que o seu corpo obedecia a Raul sem intermediação da sua vontade, e tinha orgulho em tê-lo treinado para isto; mas nunca imaginara que este treino o fizesse obedecer assim a outro homem. Quem era ela, a quem o seu próprio corpo não obedecia? Em que se estava ela a transformar? Passara os últimos meses a transformar-se, deliberada e metodicamente, na escrava de Raul; mas nunca tinha sido sua intenção tornar-se no seu próprio ser uma escrava, obediente por reflexo a certas ordens, dadas num certo tom fosse por quem fosse. Não tinha sido ela a transformar-se nisto; tinha sido Raul que a transformara. Sentiu uma indignação que lhe subia ao peito, logo cancelada pelas palavras que tantas vezes dissera, e não em vão: sou tua, faz de mim o que quiseres. Se estava a transformar-se, não no que planeara, mas no que Raul queria, isto não podia ser senão justo. Era humilhante, esta obediência reflexa a outro homem; mas não a fazia escrava dele: fazia-a, sim, mais escrava de Raul. Virou a cara para não ver Miguel, mas sentiu com agrado as suas carícias. Ficou-lhe grata quando ele, pudicamente, foi tomar duche sozinho e lhe permitiu que fizesse o mesmo. Já não o encontrou no quarto, onde vestiu a saia e pôs as jóias. Foi encontrá-lo na sala, já vestido, e sentiu vergonha dos seus seios nus como não tinha sentido ao entrar. Miguel deu-lhe um beijo leve na boca, a que ela correspondeu, e disse:

– Podes ir, o Raul telefonou. Não entres na garagem: espera à porta do prédio. Tranca o carro. Abre-o só para deixar entrar a Ana.

Mas Miguel ajudou-a rapidamente a vestir-se e deu-lhe um beijo à despedida, desta vez na cara.

Ao ficar sozinho com Ana, Raul pegou-lhe na mão e conduziu-a à sala.

– Entra, Ana. Põe-te à-vontade. Dá cá o casaco.

Ana tirou os agasalhos, que ele entregou a Milena para que os arrumasse.

– Dá uma volta para eu te ver – disse Raul.

Ana rodou sobre si mesma e voltou-se de novo para ele.

– Estou bem? – perguntou.

Estava linda, pensou Raul. Não estava de seios nus, como Teresa, mas sim com um top que lhe descobria o umbigo. A saia, preta e um pouco transparente, tinha a cinta muito descaída, e caía em pregas largas até aos tornozelos. Todos os adornos eram de prata, e o cabelo estava cuidadosamente penteado de modo a parecer que o não estava.

– Senta-te – disse Raul.

Ana sempre tinha visto Teresa sentada no chão, nunca no sofá, mas sentiu um certo acanhamento que a impedia de fazer o mesmo. Ia sentar-se na borda do sofá quando Raul lhe disse:

– Podes sentar-te no chão. Queres tomar alguma coisa?

Ana acenou que não. Raul pegou-lhe na mão, sentou-se no sofá, muito perto dela, e perguntou-lhe:

– Sabes para o que estás aqui?

– Para fazer tudo o que o senhor mandar – disse Ana.

– Então anda comigo, minha querida.

Quando chegaram ao quarto, Ana quis dar-se algum tempo. Não se sentia pronta para se despir já, como uma puta; e tinha necessidade de falar, de se justificar.

– O senhor vai-me possuir?

– Sim, querida, vou-te possuir – respondeu Raul, pronto a dar-lhe o tempo de que ela precisasse.

– Sabe, o Miguel é o único homem a quem me submeti até hoje… Já não era virgem quando comecei com ele, mas nunca tinha sido submissa de ninguém.

– E agora vai difícil obedecer-me.

– Um pouco – respondeu Ana. – Mas com o senhor sou capaz. Foram o senhor e o Miguel que decidiram sozinhos, não foram? A Teresa não entrou nessa decisão…

– Fomos nós sozinhos – respondeu Raul.

Esta resposta tornava tudo mais fácil. Se Teresa tivesse conspirado contra ela…

– Estão no seu direito… – murmurou. – Quer que me dispa agora?

Raul mandou-a tirar só o top. Ana tinha os seios um pouco mais pequenos que os de Teresa, de forma cónica, e com as aréolas dum rosado muito claro que quase não fazia contraste com a pele. Tapou-se com as mãos, mas logo se destapou, como se tapar-se fosse uma falta. Raul sorriu:

– Uma escrava não tem direito ao pudor, não é, minha querida?

– É verdade… – murmurou Ana, corando.

Raul mandou-a tirar a saia e deitar-se na cama, onde ficou apoiada sobre um cotovelo, olhando para ele enquanto ele se despia. Raul era o homem mais velho que Ana já tinha visto nu: não soubera o que esperar, mas afinal era um homem como os outros, mais atraente que muitos. A primeira carícia que ele lhe fez, entre o pescoço e o ombro, fê-la estremecer; mas devolveu-lha, tocando-lhe no peito; e beijou-o timidamente na boca. Raul deitou-se de costas, cruzou as mãos sob a nuca e disse:

– Anda tu por cima, Ana. Mostra-me o que sabes fazer.

Ana tinha a certeza que sabia fazer tudo. A experiência que tinha com homens era muito pouca, limitava-se quase só a Miguel. Sabia dar prazer a Miguel, e portanto devia ser capaz de dar o mesmo prazer a Raul. Pôs-se de gatas por cima dele, deixando pender os colares e as correntes, e começou a beijá-lo nos olhos, nas orelhas, na boca, nos mamilos… Quando estendeu a mão para lhe agarrar no pénis, ele disse que não, ainda não… Ainda não, porquê? Miguel gostava… Mas obedeceu e continuou a beijá-lo, progredindo devagar até lhe chegar ao sexo depilado, tão confortável de meter na boca. Quando começou a chupá-lo, sentiu a mão dele entre as pernas, que abriu para lhe dar espaço.

Raul começou por lhe tactear os lábios exteriores da vulva, de comissura a comissura, primeiro de um lado e depois do outro. A seguir, percorreu a fenda entre eles e, quando chegou ao extremo desta, continuou a acariciá-la entre as pernas, no rego entre a vulva e o ânus. Regressando à vulva, mais fina e mais comprida que a de Teresa, separou-lhe com os dedos os lábios exteriores e começou a afagar-lhe os interiores, que eram nela muito rosados e um pouco proeminentes. O toque de Raul era duma delicadeza extrema: Ana nunca tinha sido acariciada neste lugar por uma mulher, mas imaginava que seria assim, e era muito bom… Por um momento perdeu a concentração, mas ouviu Raul, que lhe dizia:

– Ana, presta atenção, não pares…

Não podia parar de chupar Raul. Estava ali para o servir: tinha sido essa a ordem, muito clara, que Miguel lhe dera. Mas como podia ela ignorar aqueles dedos que se lhe insinuavam pelos folhos da vulva, lubrificados pelos sucos da vagina? Raul descobria-lhe agora o pequeno capuz que lhe escondia o clítoris; este já tinha a pontinha de fora, mas Raul, com infinitos cuidados, afastou o capuz para trás de maneira a descobri-lo mais, e começou a titilar com movimentos rápidos o botãozinho que tinha deixado a descoberto. Ana não sabia o que queria, se queria que ele continuasse a fazer isto por toda a eternidade ou que a penetrasse e possuísse sem delongas. Mas sabia o que Miguel havia de querer: que ela se concentrasse e continuasse, até ordem em contrário, a chupar o melhor que soubesse o pénis de Raul. A ordem em contrário não se fez esperar muito:

– Vem agora, minha querida. Empala-te em mim.

Ana assim fez, com um pequeno gemido. Coleou por Raul acima, deitou-se sobre ele com as pernas abertas, pegou-lhe no pénis para o apontar exactamente à abertura da vagina, e baixou-se sobre ele, sentindo como ele a enchia por dentro. Os movimentos de Raul dentro dela foram, ao princípio, quase imperceptíveis: queria dar-lhe oportunidade de mostrar do que era capaz; e ela, que não queria outra coisa, começou a combinar o que sabia que agradava a Miguel com o que sabia de pompoar.

Raul, deliciado, reteve o orgasmo. Começou a acariciar Ana nas nádegas e nas costas, beijando-lhe a boca, os mamilos, o pescoço sempre que ela se inclinava o suficiente para lhe chegar ao alcance dos lábios. Viu-lhe corar o rosto e o peito, ouviu-lhe a respiração transformar-se num gemido e logo a seguir num arquejo; sentiu como os músculos da vagina se apertavam, já não como no pompoar, mas num tremor involuntário; e esvaiu-se dentro dela com três estocadas fortes, ouvindo-a exclamar:

– Sim, Miguel, sim, vem-te em mim, meu querido!

Mais tarde, com ela estendida sobre ele, escondendo o rosto na curva do braço, ouviu-a dizer:

– Que vergonha, Raul… Chamei-lhe Miguel…

Raul riu-se, obrigou-a a encará-lo e respondeu:

– Tolinha… Pensas que isso me ofendeu? Pelo contrário, até me lisonjeou. Mas agora vá, toca a lavar e a vestir, que tens o teu dono à espera.

Teresa parou o Smart à porta do prédio. Alguém devia ter coordenado as coisas muito bem, porque não passaram mais do que uns segundos até Ana aparecer. Um grupo de rapazes e raparigas, à conversa ali perto, devem ter ficado um pouco admirados ao vê-la dirigir-se para o carro toda agasalhada, mas descalça. Teresa ligara o aquecimento: esperou que Ana se ajeitasse com o cinto de segurança e arrancou: a quinta vez que fazia o mesmo percurso nessa noite. Ao princípio não disseram nada, embora por vezes Ana desse a impressão de querer dizer alguma coisa. Por fim, não se conteve:

– Como te tratou o Miguel?

Teresa não compreendeu: queria Ana saber se Miguel a tinha tratado bem? Que importância tinha isso? Não eram ambas escravas?

– Não é isso – disse Ana. – O que é que ele te chamou? Chamou-te minha escrava?

– Não – disse Teresa, elucidada. – Chamou-me sempre Teresa.

Teresa gostou de sentir Ana relaxar ao seu lado, como que aliviada de um peso.

– E o Raul – perguntou. – Chamou-te minha escrava?

– Não, chamou-me Ana e minha querida. E eu também não lhe chamei meu senhor.

Teresa envolveu-se toda no prazer desta resposta: Raul fizera com Ana o que quisera, mas não lhe chamara minha escrava.

– Também me chamou tolinha…

Então puseram-se as duas a rir, em paroxismos tais que Teresa teve que parar o carro até recuperar o controlo sobre si mesma. Tolinha… e de cada vez que uma delas dizia esta palavra, a outra respondia:

– Cala-te, não me faças rir.

E assim foram até casa de Miguel, onde Teresa esperou que Ana entrasse, gelando de novo os pés.

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Cap. 34: TITÂNIO

Entretanto havia a viagem ao Brasil, documentos a regularizar, dossiers médicos a organizar, contactos a estabelecer… Os piercings de Teresa iam ser aplicados por um cirurgião, porque os aros de titânio não podiam ser trabalhados no local. Os furos tinham que ter à partida o diâmetro e a curvatura correctos, e o acesso a eles exigia incisões, de modo a que os aros, completos com os ilhós em que deslizariam, entrassem de lado; e por fim havia que suturar estas incisões. Este procedimento exigia uma anestesia local e era muito mais complicado que o que se pratica nos ateliers, mas a cicatrização, devido à precisão dos cortes, ia demorar menos que os dois meses habituais.

O voo para São Paulo demorou quase dez horas, e a transferência para a clínica mais uma. Na mesma noite em que chegou, Teresa ficou internada: o dia seguinte seria dedicado a exames e análises, e no terceiro seriam implantados os anéis. A própria clínica, situada ao lado do parque Ibirapuera, tratou do alojamento de Raul num hotel próximo. Assim, pôde estar presente na primeira consulta com o cirurgião, que já tinha em seu poder um modelo dos quatro piercings que ia colocar. Cada peça consistia em dois anéis que entrariam parcialmente na carne de Teresa. Estes anéis, distantes um do outro por cerca de um centímetro, estavam unidos por uma barra que ficaria de fora; desta barra saía outra, na ponta da qual havia mais um aro. Esta barra engatava, por meio de ranhuras, na que lhe correspondia no lábio oposto, de modo a que os lábios ficassem apertados naquele ponto e os aros da ponta ficassem justapostos sobre a longitude da vulva.

– Reparem os senhores que o engate não é perfeito – disse o cirurgião. – Há um pouco de folga. Isto é propositado: os engates não podem ter arestas vivas, para não machucar; e têm que engatar sem repuxar os tecidos. Depois de os aros de cima engatarem… assim… será possível segurá-los com um cadeado. A senhora deseja piercings de cada lado do clítoris e da vagina, não é verdade?

– Sim – disse Raul – mas a uretra tem que ficar livre…

– Vou dizer-lhe a verdade: com os dois piercings apertados no lugar, a uretra ficará um pouquinho constrangida. Não terá dificuldade em urinar, mas vai ter que fazer uma higiene mais cuidada…

– Sim, nós sabemos.

– A cicatrização não vai demorar tempo demais, porque a incisão vai ser muito exacta e a sutura também. Mas precisa ter alguns cuidados. Quero falar neles aos dois para ter certeza que entendem.

– Faça favor – disse Raul.

– Hoje, a senhora irá para a o seu quarto e fará exames. Se tudo estiver certo, será operada amanhã de manhã. É uma operação muito simples, com anestesia local. Algumas suturas serão bio-solúveis, outras terão que ser removidas à medida que não sejam necessárias. Logo que possível, a senhora deverá mover um pouco os implantes para eles não colarem aos tecidos, mas sempre com muito cuidado. Não tente engatar os anéis exteriores antes de passarem três semanas. Não poderá fazer sexo vaginal antes de seis semanas, e espere oito semanas antes de usar os cadeados.

– E sexo anal? – perguntou Teresa.

– Pode fazer sexo anal passadas quatro semanas, mas tem que fazer logo a seguir uma higiene muito completa de toda essa parte de seu corpo, usando um bom anti-séptico. Agora a enfermeira vai levar a senhora ao seu quarto. O senhor poderá vir de visita a qualquer hora entre as dez da manhã e as dez da noite. Se tudo correr como esperamos, ficará internada três dias: hoje para preparação e exames, amanhã para a operação e mais um para tratamento pós-operatório. No último dia, o senhor também deverá estar presente para a enfermeira ensinar alguns cuidados que deve ter. Depois, a senhora deve descansar, não pode fazer muito esforço; pena que não possa visitar nossa cidade como ela merece.

– E pompoar, quando posso fazer? – disse Teresa.

– Exercícios de Kegel? Pode fazer daqui a quatro ou cinco dias: até ajuda a recuperar. Mas ao princípio faça com muito cuidado, ouviu? Se lhe doer, nem que seja um pouquinho, pare logo.

Depois disto, Raul foi posto delicadamente na rua. Um funcionário da clínica conduziu-o de automóvel ao hotel. No dia seguinte só o deixaram visitar Teresa de tarde: encontrou-a um pouco combalida e impaciente por não a deixarem pôr-se de pé. Para a entreter, Raul descreveu-lhe o hotel, o passeio que tinha dado de manhã, alguns factos que tinha apurado sobre a clínica:

– Sabes que como teu acompanhante tenho direito a alguns tratamentos de graça? Limpeza facial, drenagem linfática… tenho que ver melhor o catálogo.

Teresa fez-lhe sinal de que lhe queria falar ao ouvido, e quando ele se inclinou disse-lhe:

– Só não os deixes modificar-te o pénis, gosto dele exactamente como é.

E ao sentir-se sacudida de riso acrescentou, como se a culpa fosse dele:

– Ai, não me faças rir, que me dói…

Raul deu o suspiro os homens que dão há milénios quando confrontados com a injustiça feminina, ajeitou-lhe a inclinação da cama para ela ver melhor a televisão, beijou-lhe os lábios e perguntou:

– Estás bem assim?

– Estou bem, não te preocupes. Que livros são esses?

– Alguns são para ficar aqui, os outros para eu levar para o hotel.

– Não vais sair à noite?

– Não é preciso. Ligo para a recepção e eles mandam-me uma moça da cor e feitio que eu quiser.

– Para te acender o charuto e servir o whisky, não é?

– Pois claro. Para que mais havia de ser?

– Então manda-a passar por aqui para eu a ensinar. Não quero o meu senhor mal servido…

Riram-se os dois e ficaram algum tempo de mão dada, um pouco enleados, sem saberem bem o que dizer um ao outro. Por fim, foi ela que o mandou embora:

– Anda, vai. Também precisas de descansar. Eu fico bem, daqui a pouco apago a luz.

O dia seguinte foi passado na clínica, onde Teresa já podia passear uns minutos nos jardins.

– Esta coisa ainda me incomoda – disse ela no fim de um destes passeios.

– Dói-te?

– Não, quase não me dói. Mas sinto que são objectos estranhos… Hei-de habituar-me, está claro.

No terceiro dia Teresa teve alta. Antes de sair, uma enfermeira levou-a com Raul a um quarto mobilado como o duma casa particular, com um quarto de banho normal, e ensinou-lhes alguns procedimentos que teriam que seguir no futuro: muita água, muito sabonete, muita água oxigenada, muita circulação de ar, e tudo sempre o mais seco possível.

– Melhor andar de saia sem calcinha, moça… Não vai ter vergonha, vai?

Agora, havia que ocupar os dias. Teresa achava frustrante ter forças para andar e não o poder fazer tanto quanto queria. Os passeios no parque eram dados em passo lento, o que, se por um lado os fazia durar mais, por outro impacientava Teresa, que sempre gostara de caminhar depressa. Raul apontava-lhe os animais e as plantas, que naquele início de primavera brasileira animavam o parque com sons e com cores: assim conseguia que ela se detivesse por momentos e não forçasse demais o corpo.

Na primeira noite que passaram juntos, Teresa decidiu que era tempo de voltar a assumir os seus deveres de escrava: depois dos beijos profusos e das demoradas carícias do reencontro, ajoelhou-se à frente dele, num gesto tão gracioso que dava a impressão de já nada lhe tolher os movimentos, e pediu:

– Meu senhor, não queres gozar na minha boca? Há tanto tempo que não te sirvo…

Raul olhou-a nos olhos:

– Lembras-te de como eu te ensinei, minha escrava?

– Como não havia de me lembrar, meu senhor? Vou-te mostrar…

Raul desapareceu no quarto de banho da suite – aqui dizia-se banheiro – para reaparecer cheirando a sabonete e vestido com o pijama que ela lhe tinha oferecido. Sentou-se na poltrona e ordenou:

– Anda cá, escrava, e abre-me o pijama.

Quando Teresa obedeceu, compreendeu a razão de ele ter vestido o pijama: estava completamente depilado na púbis e na zona genital, e tinha querido fazer-lhe uma surpresa.

– Ficas bonito, meu senhor – disse Teresa.

Gostava, com efeito, de o ver assim. Agradava-lhe que ele não tivesse depilado as pernas nem as coxas, particularmente junto às virilhas, onde a pelugem é mais sedosa. Só depilara o escroto, a púbis e o ventre até ao umbigo. O pénis, assim, parecia maior, e viam-se melhor os testículos.

– Quando voltar a servir-me de ti pela vagina – explicou Raul – não quero que os meus pelos se enredem nos teus piercings. Comecei a fazer depilação a laser aqui na clínica. Em Portugal, continuo.

Teresa sabia que o seu prazer não contava, mas não se pôde impedir de sentir que agora era mais agradável metê-lo na boca, sem ter que cuspir pelos. Começou a chupá-lo como ele lhe tinha ensinado, com ternura e respeito; mas desta vez experimentou uma técnica que tinha inventado: virar a cabeça para os lados de modo a poder acariciar-lhe a glande com a mucosa macia do interior das bochechas. De que ele gostou, não teve dúvidas. Mas também ela tinha uma necessidade o satisfazer, uma necessidade que não era física mas emocional: renovar a dádiva de si que estava no centro do seu amor por ele. Por isso se dedicou tanto, por isso apressou a carícia até sentir a boca inundada de esperma.

Limpou-o com a boca e com a língua: outra vantagem de ele se ter depilado era que esta limpeza era agora muito mais fácil. Depois sentou-se no chão, apoiou a cabeça nos joelhos dele e disse:

– É estranho como chupar-te me faz sentir propriedade tua mais do que qualquer outra coisa… e já estava a precisar de me lembrar, meu amor. Nunca deixes de usar a minha boca.

– Não, minha querida – respondeu Raul. – Também eu te sinto mais escrava quando te ajoelhas para me servir, e não quero nunca prescindir de te possuir assim…

Dois dias depois de sair do hospital, Teresa foi com Raul ao consultório do cirurgião. O médico ficou tão satisfeito com a evolução dela que chamou Raul para junto de si:

– Venha, venha ver… Olhe aqui, no interior dos anéis, como os tecidos estão a cicatrizar… Se continuarem assim, as cicatrizes vão ficar quase invisíveis, e os aros vão ficar bem firmes… É bom sua mulher ter os labia majora tão grandes e resistentes. Mas não se esqueçam que a cicatrização completa demora muito mais que a cicatrização visível… É importante que respeitem os prazos que eu lhes dei.

– Nós sabemos, doutor – disse Teresa. – Vamos respeitá-los à risca…

Teresa não se permitia a impertinência de andar calçada no hotel: considerava que este era, de momento, a casa de Raul, onde tinha de mostrar humildade e respeito; mas nos jardins ele mandou que ela usasse havaianas: um passo em falso, provocado por qualquer pedra no caminho, seria perigoso.

Nos dias seguintes, Teresa tirou os pontos. Onde os anéis de titânio lhe entravam na carne, a pele estava muito fina e rosada, mas não lhe doía nem apresentava sinais de inflamação. Um automóvel alugado com motorista permitiu-lhe visitar com Raul alguns centros de interesse e percorrer duma ponta à outra a enorme Avenida Paulista. Uma noite, aproveitaram a proximidade do Auditório Ibirapuera para irem ouvir a Sinfonia Fantástica de Berlioz: o edifício de Niemeyer impressionou-os, e a música, furiosamente romântica, harmonizava-se com o seu estado de espírito. Passavam, porém, tanto tempo no hotel que Raul ganhou o hábito de se servir de Teresa pela boca mais vezes por dia do que seria de esperar de um homem com quase cinquenta anos. Teresa, que já tinha aprendido muito sobre as preferências dele nesta área, teve ocasião de aprender ainda mais, agora que nada se interpunha entre ela e a pele dele: a infinita leveza com que era preciso beijá-lo ou tocá-lo no escroto, o prazer que era possível dar-lhe passando-lhe a língua no períneo, a maior profundidade a que era agora possível engoli-lo e a necessidade de reaprender a não se engasgar … A ideia de se dedicar durante várias semanas exclusivamente a chupá-lo seduzia-a particularmente, a ponto de nem lhe interessar muito que ele a acariciasse. Tinha-lhe dito um dia que por vezes fantasiava não ser para ele mais do que uma cona; pois agora tinha a oportunidade de não ser mais do que uma boca; durante alguns dias concentrou-se em aproveitá-la e não se importou de andar com os maxilares sempre doridos. Agora que fazia cada vez mais da boca uma vagina de substituição, Teresa achava-se cada vez menos no direito de falar. Sem que ele lho ordenasse, ganhou o hábito de pedir autorização antes de iniciar qualquer conversa:

– Posso falar, meu senhor?

Algumas vezes teve a surpresa de o ouvir dizer não, a ele que tanto gostava de a ouvir; mas estes silêncios impostos eram preenchidos, por um lado, por uma tensão erótica que a fazia cantar por dentro, e por outro por toda uma linguagem de gestos e olhares que era quase uma telepatia. Mas este período mágico tinha que terminar. No dia anterior ao do regresso a Portugal, Teresa, meio morta de vergonha, telefonou para a recepção a perguntar se lhe podiam indicar uma sex-shop que não fosse longe dali. Deram-lhe a indicação pedida, mas informaram-na que o próprio hotel poderia mandar entregar no quarto qualquer artigo mais corrente que a senhora desejasse. Era apenas um lubrificante, disse Teresa. Se era só isso, não precisava de ir à sex-shop: quando voltasse ao quarto, depois de a faxineira o arrumar, encontraria o que desejava no banheiro. E foi assim que Teresa deu a Raul a última abertura do seu corpo que lhe faltava utilizar. Bastou-lhe deitar-se nua sobre a cama, colocar uma bisnaga de lubrificante sobre a mesinha de cabeceira de modo a que ele reparasse, e pôr-se de bruços à espera.

– Queres dar-me o teu cuzinho? – perguntou Raul.

– Não te posso dar o que não é meu – respondeu Teresa. – O meu cu sempre foi teu, mesmo que nunca te tenhas querido servir dele. Mas, se não é ousadia uma escrava exprimir um desejo, gostava que te servisses dele hoje.

Raul deu uma risada:

– É verdade, já é meu – observou. – E é verdade, és uma escrava muito ousada.

– Aqui dizem abusada – interrompeu Teresa.

– Ousada ou abusada, vou-te fazer a vontade: prepara-te, porque não vou ter dó de ti.

Despiu o roupão e começou a acariciar as nádegas de Teresa, que se levantavam de encontro à mão dele como se tivessem vontade própria. A esta carícia seguiram-se duas ou três leves palmadas, que lhe rosaram a pele e a fizeram respirar um pouco mais fundo. Quando a viu ficar um pouco excitada, Raul pôs um pouco de gel nos dedos e começou a massajá-la em volta da abertura de trás, aproximando-se cada vez mais do centro e acabando por lhe introduzir o dedo indicador, primeiro só até à primeira articulação, depois até à segunda, por fim até à base.

Quando lhe encostou ao ânus a ponta do pénis, que também tinha lubrificado cuidadosamente, disse-lhe que fizesse força para fora, como se estivesse a fazer sair qualquer coisa e não a deixá-la entrar. Teresa sorriu: este truque, conhecia-o ela dos seus anos de puta. Sempre tinha tentado evitar o sexo anal, mas nem sempre isto dependera da sua vontade. Mas agradou-lhe que Raul a tratasse como a uma jovem inocente; e de facto, desde a última vez que tinha sido possuída por trás, tinham-se passado tantos anos que o rabo se apertara de novo. Apesar Raul de ter tido todo o cuidado em lubrificá-la e em lubrificar-se, teve muito menos ao penetrá-la. Isto agradou a Teresa: sexo por trás é para doer, pensou; e embora gemesse de dor, virou a cara para e entreabriu os lábios num convite a que ele a beijasse.

O voo de volta foi mais difícil para Teresa do que tinha sido o de ida. Raul tinha comprado lugares em primeira classe, para que Teresa, sentada sobre os seus piercings, tivesse mais amplitude para ajustar a sua posição no assento – necessidade esta que ter o rabo dorido tornava agora mais premente. Reservara um lugar junto à coxia, para que ela se pudesse pôr de pé algumas vezes. Mas tratava-se dum voo nocturno, e Teresa também dormiu não podia passar o tempo todo a passear pela coxia.

Chegaram a Pedras Rubras, estremunhados, às nove da manhã. À sua espera estava Milena, muito engomada no seu uniforme de empregada, e com ela Ana e Miguel, que os acompanharam a casa. Depois do pequeno-almoço, Raul mandou Teresa deitar-se no sofá, levantou-lhe a saia e examinou-lhe o sexo: nos pontos de inserção dos piercings, a carne estava um pouco inchada e avermelhada. Depois do duche, que tomaram juntos, Raul fez questão que ela se secasse bem antes de ele próprio aplicar a pomada desinfectante e anti-inflamatória que o médico tinha receitado. Passaram o resto da manhã na cama, a descansar e a conversar. Almoçaram em casa, servidos por Milena, que pôs sobre a cadeira de Teresa a almofada mais macia que havia em casa; e de tarde passearam um pouco a pé: foram até à Rotunda da Boavista, à Casa da Música, tiraram fotografias um ao outro como um par de namorados e pediram a um casal de turistas que os fotografasse juntos.

– Espere, deixe-me tirar os sapatos! – disse Teresa.

Enquanto a senhora, já de cabelos brancos, lhe segurava os sapatos para que não ficassem caídos no chão a estragar a foto, o marido tirava-lhes o retrato, sorrindo com indulgência da veleidade romântica de Teresa.

De novo em casa, Raul foi para o escritório e mandou Teresa de novo para a cama: queria-a de pé ou deitada; mas sentada, o mínimo possível. À noite não quis possuí-la por trás: era sua intenção fazê-lo raramente, de modo a que a abertura se mantivesse sempre apertada. Ele também acha que por trás é para doer, pensou Teresa; e pôs no beijo que deu a Raul um pequeno extra de ternura.

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Cap. 33: NO LIMITE

Nas semanas seguintes, Ana e Miguel tornaram-se frequentadores do Justine, primeiro na companhia de Raul e Teresa, depois, muitas vezes, sozinhos. Conversando com as pessoas que conheceram, depressa se aperceberam que o compromisso absoluto de Raul e Teresa era muito mais radical do que era costume no meio. Não era uma questão de mais submissão ou menos submissão, mais dor ou menos dor, mas daquilo em que cada um centrava os seus desejos e a sua ideia de felicidade. Antes de frequentarem o Justine, Ana e Miguel pensavam que, quando uma pessoa submissa encontrava uma pessoa dominante, a história tinha chegado mais ou menos ao fim: pouco mais restava do que serem felizes para sempre. Verificavam agora que isto estava longe de ser o caso: era difícil encontrar o dominante certo para o submisso certo, e no Justine, como em qualquer outro lugar, não faltavam corações partidos. Aprenderam também a tolerância, uma vez que os centros do desejo eram quase tantos como as pessoas à sua volta: para uns a moda e o fetiche, para outros a dor física ou a humilhação, para outros a restrição de movimentos, para outros a entrega – que não era a mesma coisa que dádiva; alguns praticavam a monogamia mais estrita, outros viam a expressão máxima do domínio na cedência a terceiros do submisso ou da submissa, sem lhe permitir qualquer escolha quanto à identidade, quanto ao número, ou quanto ao sexo, da pessoa ou pessoas a quem temporariamente servia.

Quase sempre os centros do desejo eram múltiplos, o que tornava tudo ainda mais complicado. Miguel e Ana estavam convencidos que eram o dominante certo para a submissa certa, mas nem por isso deixaram de beneficiar do convívio que tiveram com outros frequentadores do bar. Não os surpreendeu a adesão quase fanática de todos a uma ética muito rígida e muito simples que se exprimia na máxima “safe, sane and consensual”: uma regra como esta era necessária num meio em que se cruzavam personalidades e desejos tão diversos, e era uma boa base para que a comunidade pudesse organizar uma rede informal mas eficaz de protecção mútua contra predadores e psicopatas.

Raul e Teresa eram menos assíduos. Quando ia ao Justine, Teresa costumava levar, enfiado na vagina, o primeiro óvulo de controlo remoto que Raul tinha adquirido. O óvulo mais recente, operado por telemóvel, nunca era usado no Justine e raramente noutros lugares: só algumas vezes, quando Teresa ia às compras ou encontrar-se com amigos e familiares. No Justine, Teresa estava sempre consciente que, estivesse a fazer o que estivesse – a falar com outros frequentadores do clube, a arranjar-se nos lavabos, a trazer uma bebida ao dono, a qualquer momento se poderia desencadear no interior do seu corpo, sem aviso, aquela vibração que para a sua sensibilidade continuava a misturar sofrimento e prazer. Miguel perguntou a Raul onde podia adquirir um aparelho semelhante, e passados poucos dias Ana passou também a usar um óvulo na vagina; mas para ela a sensação era de puro prazer.

Ana e Miguel não se tratavam por “meu senhor” ou “minha escrava”; perante terceiros, ele referia-se a ela como “a Ana” – ou, no Justine, “a trilby” – e ela a ele como “o meu Dono”. Descontadas estas formalidades, que não eram importantes, a sua relação parecia encaminhar-se numa direcção semelhante à de Raul e Teresa. Isto preocupava um pouco o par mais velho, que se sentia responsável e sabia que nem todas as relações de domínio e submissão se conformam a modalidades tão exigentes como a que tinham escolhido para si próprios. Preocupava-os a possibilidade de os dois jovens fazerem uma escolha que mais tarde um ou outro não pudesse suportar. Por isso viam com bons olhos a maneira como eles se iam integrando na comunidade: assim podiam conhecer outras formas de domínio e submissão e construir por si próprios a que mais se adaptava às suas necessidades particulares.

Um assunto que discutiam muito era o que aconteceria se as necessidades de um deixassem alguma vez de corresponder às do outro.

– Mas não correspondem? – perguntava sempre Raul.

– Correspondem – respondia sempre Ana ou Miguel. – Mas se não correspondessem, como era?

– Em teoria prevaleceriam as necessidades do Miguel – preconizava Teresa, radical como sempre.

– Mas na prática – prevenia Raul – têm que ter algo em comum para que os desejos de um possam enriquecer os do outro. É este o vosso caso, parece-me, e por isso não vejo porque se preocupam. Teriam razão para se preocuparem, por exemplo, se para um de vós uma coisa qualquer tivesse um valor simbólico ou erótico muito grande, que a tornasse indispensável, e para o outro essa coisa fosse absolutamente insuportável.

– Mas por outro lado – disse Teresa durante uma destas conversas – se aquilo que o senhor exige não for de todo insuportável para a escrava, esta dificuldade até pode ser uma coisa boa: pode ser uma forma de tornar a escrava mais escrava. É como os meus pés nus: no imaginário do Raul os pés nus sempre foram um símbolo importante de humildade e submissão. Agora já o são também no meu imaginário, que por isso mesmo está mais rico: já faziam antes parte dele, mas tinham outro significado, diferente e mais limitado. Este significado não se perdeu, apenas se lhe acrescentou o que Raul lhe deu. Claro que andar descalça é muitas vezes um grande sacrifício, e por vezes, em público, quase morro de vergonha. Mas para mim vale a pena: uma escrava que não esteja preparada para fazer sacrifícios grandes não merece o nome de escrava.

[ …]

Raul sorriu levemente, fez-lhe uma pequena festa no rosto e virou-lhe as costas para ir pousar o chicote na banca. Depois voltou com cordas para lhe amarrar os pulsos e os tornozelos aos quatro cantos do rectângulo formado pelas colunas. Teresa deixou-se amarrar docilmente; fechou os olhos e começou a murmurar repetidamente “amo-te, amo-te, amo-te”, como se a repetição infinita desta verdade fosse o mantra que a ia proteger na provação que a esperava.

– Agora vou-te vendar – disse Raul. – Posso?

Para não interromper o “amo-te, amo-te, amo-te” que continuava a dizer baixinho, Teresa limitou-se a acenar que sim. Se estivesse em estado de achar graça a alguma coisa, teria sorrido por ele ter pedido permissão para a vendar quando não precisava de permissão para nada do que estava a fazer. Continuou a dizer baixinho “amo-te, amo-te, amo-te” enquanto tentava prever ao fim de quantas chicotadas começaria a gritar.

Começou a gritar logo à primeira, um berro agudo e ensurdecedor que dificilmente se acreditaria que pudesse ficar confinado entre as paredes do quarto, ou sequer da casa. Esta chicotada atingiu-a obliquamente nas nádegas, marcando um traço que ia da parte superior da esquerda à inferior da direita. A segunda atingiu-a horizontalmente e um pouco mais acima, arrancando-lhe um grito tão forte como o primeiro. Das que se seguiram, nenhuma correspondia a nada que ela pudesse ter imaginado ser capaz de suportar. Mais do que todas as outras, doeram-lhe as que a atingiram no rego entre as nádegas e as coxas; mas por esta altura já se tinha cansado de gritar. Os primeiros gritos que soltara tinham sido emitidos num soprano cristalino, mas pouco a pouco foram enrouquecendo até se tornarem urros que quase nada tinham de humano. E mesmo estes acabaram por dar lugar a arquejos de aflição, entremeados de rosnidos de fera encurralada.

O chicote não fazia um silvo tão agudo como o da vergasta, e o som que fazia ao contactar com a carne não era tão seco. Mas a dor era inconcebivelmente maior, maior do que qualquer punição que Teresa já tivesse recebido.

Quanto tempo durou isto? Não é possível contá-lo, nem em segundos, nem em minutos, nem em número de golpes desferidos. Teresa só soube que o seu tormento tinha terminado quando Raul lhe tirou a venda. Olhou à sua volta, espantada: o quarto era o mesmo, o mundo não tinha mudado. Quando Raul lhe libertou os tornozelos, esfregou os pés um no outro, tentando restaurar a circulação. Depois, quando ele lhe libertou os pulsos, as mãos voaram-lhe para onde tinham estado antes de ele a amarrar: cruzadas em frente ao sexo, escondendo-o, tapando-o, negando-o ao olhar e ao desejo do macho. Raul não lhe ordenou que descruzasse as mãos: pôs-se em frente dela, olhou-a nos olhos – que ela não conseguiu furtar aos dele – disse-lhe “amo-te” e foi de novo buscar o chicote.

Teresa bem sabia para que era agora o chicote, era para ela o beijar: e nesse momento sentiu-se invadir por uma tal revolta, que numa fracção de segundo, na sua imaginação, saiu dali, vestiu-se, fez a mala, chamou um táxi, foi para o aeroporto e regressou ao seu apartamento no Corso Magenta. Mas na realidade, o que fez foi ajoelhar-se e beijar o chicote, sem que Raul precisasse de lho ordenar. Depois levantou os olhos para o dono e viu-o imóvel, de pé, à espera. À espera de quê? Que mais que queria ele ainda? Que ela lhe dissesse o que disse, é claro:

– Obrigada, meu dono.

No momento em que estas palavras lhe saíram da boca aconteceu uma coisa que a fez sentir ódio por si mesma: enrubesceu, os lábios entreabriram-se, os quadris rodaram num círculo imperceptível, como se tivessem vontade própria, e sentiu-se a ficar molhada. Este ódio por si própria, assim como veio, assim desapareceu; a vergonha a que ele deu lugar também teve a vida curta; a excitação, essa sim, permaneceu – e com ela surgiu-lhe na alma um sentimento de orgulho que a levou a repetir:

– Obrigada, meu senhor. Amo-te. Faças de mim o que fizeres, hei-de amar-te sempre.

Esta expressão de submissão não lhe amainou de todo a revolta: uma coisa era aceitar, por sua deliberada vontade, a dor que ele lhe quisesse dar, outra era responder-lhe com uma reacção involuntária do corpo. Mas não, estava a ser injusta: o acto de vontade tinha vindo antes, tinha sido responsabilidade sua; e se o corpo estava de acordo com a vontade, não merecia censura. Rola os quadris, escrava, entreabre a boca, semicerra os olhos, pensou Teresa. Afasta as pernas. Deixa que a cona se molhe. Tens direito a tudo isso: fui eu, enquanto mulher livre, que to dei.

[ … ]

Nem fazer segredo, nem fazer alarde, pensou Teresa. Era este o princípio que ela e Raul tinham adoptado. Numa aula de dança, em que está presente apenas um número limitado de pessoas, vestir-se como de costume não seria fazer alarde, tapar-se toda é que seria fazer segredo. Já o tinha feito uma vez, não ia fazê-lo de novo. Vamos lá ver o que acontece, pensou, e apresentou-se na aula com uma saia vermelha de cintura baixa que lhe deixava a descoberto quase todas a zonas do corpo onde tinha sido chicoteada.

O que aconteceu foi espanto, repulsa, solicitude e indignação. Não serviu de muito explicar que tudo se tinha passado com o seu consentimento: somente nalguns casos a indignação deixou de ser contra Raul e passou a ser contra ela. Em algumas das mulheres presentes, porém, a indignação foi mais convencional que sentida; houve as que ficaram um momento pensativas e não disseram nada; e Ana, é claro, ficou fascinada, querendo saber tudo, se tinha doído muito, se tinham feito amor depois, se ela própria seria capaz de suportar o mesmo, se Miguel quereria alguma vez, ou poderia, castigá-la assim.

– Se o Miguel te fizesse isto, suportavas?

– Claro que suportava! – respondeu Ana.

– Não sabes o que dói… – disse Teresa. – Dói mesmo muito, e parece que dura séculos.

– Não interessa, suportava e agradecia – respondeu Ana.

Teresa ficou sem saber se tamanha certeza lhe vinha do auto-conhecimento, dalguma necessidade antiga, ou apenas da extrema juventude, que não teme nada. Dançou particularmente bem nesse dia; se isto a fez subir ou descer na consideração das colegas, nunca chegou a sabê-lo.

[ … ]

Era um Setembro quente, mais quente do que tinha sido Agosto. Nestes primeiros dias do mês, Teresa tinha sido punida quase diariamente com uma variedade de instrumentos, uns mais dolorosos do que outros, mas o chicote que lhe causara a dor maior e as marcas mais fundas não voltara a ser usado. Cada punição confirmava o que Teresa já sabia: que a expectativa a excitava um pouco; que a experiência, enquanto durava, lhe tirava toda a excitação; e que se voltava a excitar, confirmando-se como escrava de Raul de um modo cada vez mais inegável, no momento em que se ajoelhava para beijar o chicote e para agradecer o castigo. Teresa compreendia e aprovava a intenção, que adivinhava em Raul, de transformar esta confirmação em rotina: não bastava que o “obrigada” e o “amo-te” que proferia ritualmente fossem verdade, como de facto eram: era preciso que se tornassem inevitáveis, automáticos, evidentes, a tal ponto que a sua eventual omissão se tornasse, ela sim, uma mentira.

Uma noite, Raul colocou um banco almofadado entre as duas colunas, mandou-a sentar e atou-lhe os pulsos aos capitéis, esticando-lhe os braços. Para dar folga às cordas, bastaria a Teresa pôr-se de pé, mas ele apertou-lhe um cinto aos quadris e atou-o com cordas a duas argolas na base das colunas. Agora ela já não poderia aliviar a tensão dos braços, mesmo que quisesse; mas mesmo assim Raul esticou as cordas ainda mais. Teresa ainda tinha os pés assentes no chão, mas ele amarrou-lhe os tornozelos, fê-la levantar as pernas e amarrou as pontas das cordas às mesmas argolas a que tinha amarrado os pulsos: Teresa tinha agora os braços e as pernas no ar, as nádegas assentes no banco, e o sexo arreganhado, todo à vista. Foi nesta posição que ele a vergastou, assentando-lhe os golpes na pele fina do interior das coxas, na parte de baixo das nádegas, e sobretudo na vulva. Teresa já tinha desistido de comparar dor com dor: já tinha aprendido que a punição que dói mais era sempre a que estava a sofrer no momento. Entregou-se toda à dor; ou, melhor dizendo, não foi preciso entregar-se, porque a dor se apoderou dela como sempre, totalmente, sem deixar lugar para qualquer outra sensação ou pensamento.

[ … ]

Dias depois, teve mais uma sessão de depilação eléctrica, e temia que a esteticista lhe visse as marcas da vergasta. De facto ainda as tinha, mas não sentiu a vergonha que teria sentido uns meses antes. A esteticista, quando as viu, comentou que a senhora afinal estava habituada a dores piores do que as que ela lhe provocava; para além disto não teve qualquer reacção, a menos que por reacção se contasse o especial cuidado com que a tratou. As pessoas nunca são quem julgamos, pensou Teresa, ao dar-se conta de que não sabia a que atribuir aquela vaga simpatia da esteticista: entrariam ali todos os dias mulheres com marcas de vergasta no sexo? Todas as semanas? Todos os anos? Ou teria sido ela a primeira, destinada talvez a ser também a última? Teria esta jovem tranquila visto alguma vez marcas semelhantes noutros contextos, noutros corpos, quem sabe se no seu próprio? Quantos mundos existem à nossa volta, diferentes uns dos outros, diferentes daquele que julgamos estar a ver?

[ … ]

De tarde vestiu uma saia que tanto servia para andar na rua como para dançar. Na parte superior do corpo pôs um choli que, ao contrário dum top rígido, permitiria que os seios lhe oscilassem sem terem que ficar nus, escandalizando as outras alunas. Na aula, prestou atenção a todas as instruções da professora, de modo a que todos os movimentos fossem exactos e perfeitos mas ao mesmo tempo fluidos e soltos.

– Hoje dançou muito bem – disse-lhe a professora. – Houve momentos em que pareceu inspirada.

Antes de ir lanchar com Ana, Teresa queria passar pelas colegas e pela professora uma folha em que elas pusessem os endereços para lhes poder enviar os convites para o casamento. Recolhida a folha, verificou que algumas a tinham passado adiante sem escrever nada: estavam no seu direito. No dia seguinte de manhã, depois da aula de pompoar, passou outra folha e ficou contente porque desta vez todas as colegas escreveram os seus endereços. Esta aula foi a primeira em que as alunas usaram vibradores; mas, ao contrário do que Teresa chegara a temer, desligados. O objectivo era ver se eram capazes de sugar o vibrador para dentro da vagina e de o expulsar sem usar outros músculos além dos que tinham estado a exercitar nas aulas anteriores. Teresa não foi das que tiveram mais dificuldade, mas o esforço foi tão grande que, ao saber que mais tarde se esperaria dela e das colegas que sugassem e expulsassem o vibrador dezenas de vezes seguidas, duvidou que tal fosse possível.

Teresa sempre tinha exercido uma profissão, e isto tinha-lhe alargado o mundo. Até puta fui, pensava por vezes, cada vez com menos amargura mas talvez com mais melancolia. Depois decidira dedicar-se inteiramente a Raul, mas sempre com uma réstia de medo que esta opção a confinasse a uma estreiteza de vida que não desejava. Verificava agora que o amor e o sexo, a obediência e o serviço prestados a um senhor, podem constituir uma ocupação a tempo inteiro, exigindo organização, disciplina e um treino intenso e difícil. Não se sentia menos digna como escrava do que se tinha sentido quando era uma mulher de carreira no mundo do jornalismo e da moda; tinha passado, pelo contrário, dum estatuto virtual para um estatuto real que a fazia sentir-se mais presente no mundo.

Foi assim, serena e segura de si como uma matriarca antiga, que assistiu à assinatura dos últimos papéis e ao cumprimento das últimas formalidades que conferiam à sua irmã Carolina a propriedade da empresa que tinha fundado. Também Carolina teve neste dia o seu acesso a um mundo ligeiramente diferente: abandonava o proletariado, tornava-se senhora de si e não tinha ninguém a quem prestar contas. E se não se deu conta que por este caminho tão diferente tinha chegado exactamente ao mesmo ponto que a irmã, já a esta o facto não passou despercebido. O Mundo é com efeito prodigioso e vário.

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Cap. 32: DISCÍPULOS

[ … ]

Entre as colegas de Teresa na dança havia uma jovem que também era colega dela no pompoar: chamava-se Ana e ainda não tinha vinte anos. Foi esta jovem que uma tarde convidou Teresa para lanchar. Quando Teresa lhe disse que não podia aceitar este convite sem autorização do namorado, Ana não mostrou repulsa nem surpresa, antes deleite:

– Então pede-lhe, por favor!

Mal tinham tido tempo de mandar vir as meias de leite e as torradas quando Ana, impaciente, começou a conversa:

– Quer dizer que nunca fazes nada sem autorização do teu namorado?

Teresa sorriu.

– É claro que faço muitas coisas por minha iniciativa, nem ele quereria que fosse doutra maneira. Mas uma das coisas em que combinámos que eu não teria qualquer liberdade foi o uso do meu tempo: por isso é que tive que lhe telefonar antes de aceitar lanchar contigo.

Ana bebeu um pouco de café com leite antes de se decidir a dizer:

– Acho isso tão bonito… Pensava que não havia mais ninguém como eu e o Miguel.

– O Miguel é o teu namorado? – perguntou Teresa. – E costumas obedecer-lhe?

– Adoro obedecer-lhe, e ele adora que eu lhe obedeça… Nunca contámos a nenhum dos nossos amigos, tivemos medo que nos gozassem ou que se afastassem de nós. Posso contar-te um segredo? Ele às vezes bate-me com uma vergasta, e eu deixo… Não ficas a pensar mal de nós?

– Claro que não, minha querida – respondeu Teresa. – O Raul também me vergasta algumas vezes, e castiga-me fisicamente doutras maneiras. Eu não tenho nenhum prazer em ser castigada, mas tenho um prazer enorme em poder sê-lo. Compreendes isto?

– Não sei, acho que nesse ponto somos um pouco diferentes. Eu tenho prazer em ser vergastada, pelo menos pelo Miguel. Com outro homem, nunca experimentei. Mas pensando bem, agora que falamos nisso, acho que o meu prazer maior é o direito que ele tem de me vergastar. É, é isso. Nisso somos parecidas, tu e eu.

– E o Miguel, gosta de te castigar?

– Acho que gosta um bocadinho, como eu, mas agora começo a pensar se o prazer maior dele não será ter esse direito… E o teu namorado? Também gosta de te fazer doer?

– Talvez seja como o teu: gosta, mas isso para ele não é o principal.

Ana calou-se de novo, a ganhar coragem, e disse finalmente:

– O nosso maior problema, meu e do Miguel, é não sabermos como se fazem as coisas.

Teresa franziu o sobrolho, intrigada:

– Como se faz o quê?

Ana pareceu um pouco atrapalhada:

– Não sei… Deve haver regras… Sabe, o que se faz na cena BDSM… Não conhecemos ninguém nesse meio a não ser a si, e a Teresa não corresponde nada às imagens que vemos nos media… De modo que não sabemos as regras, nem a maneira correcta de vestir… Espero que isto não fosse um abuso, mas tenho falado de si ao Miguel e ele diz que um dia gostava de a conhecer e ao seu namorado.

Ana trazia uma saia comprida de renda preta sobre outra opaca e mais curta. Tinha uma T-shirt preta sem mangas, muito decotada, e sobre esta, uma blusa preta transparente de mangas compridas. Não trazia as unhas nem os lábios pintados de preto, nem piercings visíveis, nem a profusa joalharia de prata, própria do visual gótico: apenas uns brincos de prata compridos que lhe chegavam aos ombros. Nos pés trazia umas sandálias pretas de tiras, com uns saltos altíssimos.

– Diz-me uma coisa, Ana – perguntou Teresa. – Esse teu modo de vestir corresponde mais ao teu gosto ou ao gosto do Miguel?

– Não sei bem… Devia ser ao do dele, não devia? Mas acho que é ao dos dois. Ou então talvez seja mais uma questão do que achamos apropriado ao nosso lifestyle.

Teresa sorriu um pouco da expressão em inglês:

– E que maneira de vestir acham vocês apropriada para o vosso lifestyle?

– De preto, acho eu… Mas ele, não é só por causa das regras que se veste de preto, é porque gosta mesmo. Do que ele não gosta é de usar adornos, nem enfeites, nem penteados esquisitos. É roupa preta, barba feita, cabelo à escovinha, e já está. É o estilo dele.

– Posso dar-te um conselho? – perguntou Teresa.

– Até agradeço.

– Não te vistas para nenhum lifestyle. Não há lifestyles. Quer dizer, havê-los, há, mas são pura diversão, não passam disso. Os estilos de vida, somos nós que os fazemos. Não há uma maneira apropriada para mulheres como nós se vestirem. Veste-te como ele gostar de te ver, nem que seja de cor-de-rosa bebé, ou de vestidinho às pintinhas. Se tu também gostares, tanto melhor, mas isso não é importante: o importante é o que ele gosta. Outra coisa, e esta é mesmo importante: não há regras. Ou melhor, só há uma regra, que é respeitar o outro. Se sentires que o Miguel não te ama ou não te respeita, larga-o. Mas se ele te ama e respeita, então não há regras. Isto é mesmo muito importante. Conta-lhe esta conversa e vê o que ele pensa.

Ana ficou pensativa.

– Posso falar-lhe de si e do seu namorado? – perguntou.

– Não precisas de dizer meu namorado – disse Teresa. – Podes dizer meu dono ou meu senhor, que eu não me importo. E claro que podes falar de nós ao Miguel.

– Obrigada – disse Ana, à despedida. – Ele vai gostar de ter tudo isto em que pensar. E eu também vou ter que pensar, especialmente nessa questão do respeito.

Quando Teresa contou a Raul esta conversa, ele sugeriu-lhe que convidasse Ana e Miguel para lanchar no Majestic no fim da semana seguinte. No dia do encontro, Agosto estava a meio, e o tempo estava muito quente. Raul e Teresa chegaram propositadamente atrasados para que Ana e Miguel os vissem chegar: Raul de jeans e T-shirt pretos e cabelo curto, num estilo muito semelhante ao de Miguel; Teresa compareceu descalça, sem calcinhas e sem soutien: sem nada sobre o corpo que não fosse um vestido comprido em tons de rosa, lilás e branco, que deixava adivinhar à transparência os mamilos escuros, e só não deixava ver o triângulo da púbis por esta se encontrar depilada. Ana estava toda de preto: top atado nas costas com atilhos, mini-saia justa, meias de rede e sandálias de salto muito alto. Via-se que tinha feito um esforço especial para exprimir a sua condição de namorada submissa. Depois das apresentações, o diálogo entre os dois homens consistiu em pouco mais que uma troca de ideias gerais. Já Ana quis saber tudo, particularmente o significado dos pés nus de Teresa, se ela costumava andar assim na rua, que distância tinha percorrido desta vez, se lhe tinha custado muito.

– Não ando muitas vezes descalça na rua – disse Teresa. – O Raul só me costuma dar essa ordem em ocasiões especiais, como hoje. Em casa, sim, tenho que andar sempre descalça.

– Em casa, e na Fundação de Serralves – interrompeu Raul.

– Em Serralves?! – exclamou Ana – Porquê?!

– Por capricho meu – explicou Raul. – Mas também porque me seduz a variedade de texturas no chão da casa e nos jardins. E além disso há qualquer coisa naquele ambiente que parece que o exige.

– É verdade – disse Miguel. – Nunca me tinha ocorrido, mas é verdade.

– Mas não te custou vir descalça até aqui? – insistiu Ana.

– Nem por isso – respondeu Teresa. – Deixámos o carro no parque dos Poveiros: lá dentro o chão está fresco. O passeio cá fora é branco, não aquece muito. Só me podia ter queimado um bocado ao atravessar a rua, que é de alcatrão preto e fica muito quente… o truque é aproveitar as faixas brancas da passadeira, que não queimam. Aqui na Rua de Santa Catarina o chão é claro, não aquece muito. Com as texturas é mais difícil, algumas são muito ásperas, é preciso estar habituada… a única coisa a que nunca me habituei é o olhar das pessoas. Ainda fico embaraçada…

Miguel olhou para ela estreitando os olhos, e a seguir para Ana.

– Pois a mim, o que me daria prazer – disse ele – seria precisamente ver a Ana assim embaraçada.

Raul olhou atentamente para os dois. Ana estava vermelha e olhava para as mãos, mas um leve sorriso bailava-lhe nos lábios.

– Olhe, Miguel, não sei quais são os termos do seu compromisso com a sua namorada – disse Raul. – Não sei se o seu compromisso o autoriza a fazer-lhe este tipo de exigências, nem se a obriga a obedecer-lhes…

– Autoriza-o, sim, e a mim obriga-me – interrompeu Ana. – O Miguel é que talvez ainda não se tenha apercebido. São coisas de homem, de cavalheiro…

Foi a vez de Miguel enrubescer; e Teresa riu-se ao ver que Raul também tinha corado.

– Um cavalheiro um bocado obtuso, pelos vistos – respondeu Miguel. – Andei a ver a net e os fóruns e convenci-me que numa relação como a nossa havia convenções a respeitar: roupa preta, cabedal, todas as mulheres de saltos altos… A Ana e eu nunca fomos a um clube sadomasoquista: mas se a Ana fosse vestida, por exemplo, como a Teresa está agora, deixavam-nos entrar?

– Depende do clube – disse Raul. – Numa grande cidade europeia pode haver clubes centrados em certos fetiches, e aí teriam que se conformar a eles; mas aqui no Porto não temos dimensão para essas especializações. Num clube daqui, todos estariam a par do que esta indumentária da Teresa significa.

Miguel ficou calado por alguns instantes.

– Confesso que uma submissa descalça me diz mais que uma de saltos altos – disse por fim. – Isto não é de agora, sempre foi assim, mas parecia-me que isso não era… como hei-de dizer… ortodoxo…

– Não há regras nem ortodoxias – disse Raul. – Só a vontade do dono conta.

– Mas continuo a gostar de ver a Ana de preto, e de minissaia justa.

– Não há regras – repetiu Raul. – Se o Miguel tem esse direito sobre a Ana…

– Claro que tem – disse Ana em tom decidido.

Miguel olhou para ela como se a estivesse a ver pela primeira vez e quisesse fixar-lhe as feições.

– Claro que tenho… – murmurou para si mesmo.

E em voz alta disse:

– Ana, o que vais fazer agora é isto: vais lá dentro aos lavabos, deitas no caixote do lixo os sapatos e as meias, e voltas para aqui. No caminho para cá, passas pelo balcão e pedes um fino para esta mesa. Ou dois, se o Raul também quiser.

– Com todo o gosto – disse Raul.

Ana fez menção de objectar, mas, antes que tivesse tempo de o fazer, o namorado acrescentou:

– Ah, e já agora deixas lá ficar também as calcinhas.

Ana ficou um momento sentada, a olhar para as mãos. Depois, de rompante, levantou-se:

– Está bem.

Dirigiu-se para dentro do café, de cabeça levantada, para cumprir o que lhe tinha sido ordenado. E já que se sentia embaraçada, e não queria ceder ao embaraço, fez questão de ir até ao fundo do café por uma das duas coxias que correm entre as mesas e regressar pela outra, de modo a que todos os presentes lhe vissem bem, primeiro a mini-saia, e depois os pés descalços.

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Cap. 31: SEIS VERGASTADAS E MAIS UMA

Desde que Teresa se tinha habituado a dançar para Raul depois de jantar, mostrando-lhe os progressos que fazia nas aulas, estava-se a tornar mais frequente Raul jantar sozinho, servido por Teresa e Milena. Isto evitava que Teresa tivesse que mudar de roupa duas vezes, e por outro lado dava lugar a uma competição lúdica entre as duas para ver quem organizava o serviço mais requintado. Esta competição levou a tais extremos de formalismo que não raras vezes acabavam as duas, acompanhadas por Raul, perdidas de riso perante uma invenção protocolar particularmente absurda. Mas se o protocolo excessivo e barroco do jantar era puro divertimento, as danças de Teresa perante Raul eram, pelo contrário, um assunto muito sério. Nestas danças, Teresa não estava limitada ao formato da dança do ventre e usava por isso de uma liberdade que não podia exercer nas aulas. Por vezes dançava vestida, outras nua ou meia nua; por vezes fazia dança do ventre, outras dança livre ou dança jazz; outras ainda inspiravam-se em gestos e estilos populares de todos os continentes. Dava-lhe especial prazer, dançando nua, fazer com que a atenção de Raul se concentrasse nas suas mãos ou nos seus braços; ou pelo contrário, estando completamente vestida, pôr em evidência as partes mais íntimas do corpo.
Na noite que se seguiu à da experiência com o vibrador, Teresa apareceu com a parte inferior do corpo coberta de panos transparentes, sobrepostos de modo a formar uma saia multicolor: carmim, vermelhão, siena queimado, laranja, roxo, amarelo indiano. A cinta era tão baixa que, se Teresa não estivesse depilada, lhe deixaria à mostra parte dos pelos púbicos. Logo de início, Raul notou uma rigidez que não era habitual nos movimentos de Teresa: os movimentos habituais estavam lá todos – o ondular dos músculos da barriga, o rolar das ancas, o sacolejar para os lados e para a frente, as órbitas descritas em forma de oito, o tremer dos seios e dos quadris – mas tudo muito controlado, muito deliberado, muito preso, sem a desenvoltura de que Teresa começava a ser capaz. A que se poderia dever esta regressão?
A resposta tornou-se óbvia quando Teresa deu por terminada a primeira fase da dança, que era feita com os pés assentes no chão e sem sair do sítio, e tentou fazer uma pirueta. Nesse momento, Raul ouviu o som surdo de alguma coisa mole mas pesada a cair no chão; e viu um dos pés nus de Teresa a dar um pontapé involuntário nas bolas ben-wa que acabavam de lhe cair da vagina.
– Anda cá – disse Raul. – Senta-te no meu colo.
Com Teresa ao colo, titilando-lhe distraidamente um dos mamilos, Raul começou a fingir que lhe ralhava:
– Com que então, experiências! Quem te mandou fazer isso? Deve ter sido a tua professora de pompoar, ou então a de dança do ventre, porque eu não me lembro de te ter dado essa ordem…
Teresa corou:
– Não foi ninguém… Foi ideia minha…
Raul riu-se de novo e deu-lhe uma pequena palmada de baixo para cima num dos seios, de modo a fazê-lo saltar.
– Suponho – especulou – que quando um senhor quer ter uma escrava com ideias, tem que se sujeitar a que algumas delas não sejam muito boas. E esta não foi muito boa, pois não?
– Pois não, meu senhor. Desculpa.
Raul deu-lhe uma palmada no rabo, desta vez com força, e ordenou:
– Então vai lá lavar as bolas e depois vem dançar para mim como deve ser.
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa, pondo-se de pé com um movimento álacre e esfregando o sítio onde tinha levado a palmada.
E de facto, depois de voltar e de pôr a música outra vez no início, soltou os quadris e dançou tão bem e tão fluentemente como habitualmente o fazia. Introduziu nesta dança, porém, um movimento que Raul reconheceu da noite anterior: aquele gesto peculiar de retraimento e entrega em que o corpo parece ansiar precisamente por aquilo de que foge. Era o movimento com que tinha reagido ao vibrador, e Raul gostou tanto que sugeriu a Teresa que o mostrasse à professora na aula e pedisse a sua opinião. Teresa assim fez: além de mostrar o movimento (para o qual a professora imediatamente inventou uma série de variações que treinou com as alunas), contou-lhe o episódio humilhante das bolas ben-wa caídas no chão e pontapeadas. Em vez de a censurar, porém, a professora aprovou a tentativa, dizendo à turma que algumas das melhores dançarinas do ventre eram pompoaristas; mas que se alguma aluna quisesse tentar o que Teresa tinha tentado, o melhor era preparar-se para treinar muito tempo até conseguir.

[ … ]

Desde esse dia, Teresa começou a treinar todos os dias em frente ao espelho. Teve que reaprender tudo a partir das técnicas mais elementares, ao mesmo tempo que progredia sem as bolas nas técnicas mais avançadas. Já conseguia introduzir na vagina a primeira bola ben-wa, embora ainda tivesse que ajudar a segunda com o dedo, e a certa altura já era capaz de as segurar tempo suficiente para sair de casa por curtos períodos com elas postas.
Tudo isto, junto com a dor quase diária da depilação eléctrica, começou a fazer com que a consciência que Teresa tinha do seu corpo se começasse a centrar na sua zona genital.
– Às vezes quase sinto o desejo – confidenciou uma vez a Raul – de não ser para ti mais do que uma cona, um buraco ao teu dispor.
A estas palavras, Raul abraçou-a.
– É um desejo teu que não vou satisfazer muitas vezes, mas compreendo-te bem: também eu, por vezes, desejaria libertar-me desta carga de humanidade e não ser mais que um falo… Não é possível, felizmente, caso contrário seríamos puros vegetais; ou se nos restasse alguma consciência, a vida seria um inferno.
– Bem sei – respondeu Teresa. – Mas às vezes…
– Sim, às vezes… – respondeu Raul. – Mas o que não pode ou não deve ser realizado, pode muitas vezes ser representado: e tu agora vais dançar a tua coninha para mim.
E Teresa, rindo, fez precisamente o que ele mandava.

[ … ]

À noite, em casa, Teresa manteve o vestido branco para jantar com Raul e se sentar depois aos pés dele. Antes de se irem deitar, Raul perguntou-lhe:
– Vamos tentar ir hoje um bocadinho mais longe com o vibrador?
– Meu senhor querido, sou tua… Só te peço que me amarres como da outra vez, senão ainda passo pela vergonha de tentar fugir.
Diga-se em abono de Teresa que em momento algum daquela noite se debateu seriamente contra as cordas que a sujeitavam; mas várias vezes se lhe acendeu nos olhos a mesma luz de loucura que Raul tinha visto uns dias antes. Mas o vibrador entrou mais fundo; manteve-se ligado mais tempo; e o período de recuperação que se seguiu foi mais rápido e mais fácil. Terminado o exercício, Teresa serviu Raul mais uma vez com a boca: como se fosse intenção dele que nestas noites o vibrador fosse, para o sexo dela, a última memória.
Poucos dias depois, Raul quis ir mais longe.
– Preciso de te amarrar? – perguntou.
– Não, meu querido – respondeu-lhe Teresa. – Acho que desta vez não vai ser preciso.
Quase foi preciso, mas Raul nunca o soube. Raul penetrou Teresa várias vezes com o vibrador ligado, mas ela, embora se debatesse e desse abundantes sinais de aflição, não chegou àquela fronteira de quase loucura aonde tinha sido preciso ir buscá-la nas outras noites: não só se manteve neste mundo sem ajuda, como chegou a um grau de excitação sexual em que Raul raramente a tinha visto.
Assim que Raul pousou o vibrador, penetrou-a duma vez; e assim que a penetrou, ela explodiu num orgasmo grandioso, sem ter tempo sequer de pedir licença. Com Raul ainda rígido dentro dela, Teresa começou, assim que se sentiu capaz, a aplicar as técnicas de pompoar que já dominava; e ao senti-lo quase a gozar, gozou também, desta vez com autorização. Por muito tempo ficaram abraçados; mas depois de apagarem as luzes, depois de os corações pararem de bater com tanta força e os pulmões de respirar com tanto esforço, Teresa entendeu chegada a altura de confessar:
– Tive um orgasmo sem licença, meu senhor.
– Sim, minha escrava, tiveste – respondeu Raul.
– Mereço um castigo.
– Mereces, sim.
– Meu senhor querido, não quero ser castigada. Tenho medo.
– Quem te garante que o castigo vai ser severo? – disse Raul. Provavelmente já sofreste pior às minhas mãos, sem merecer. E desta vez mereces, não mereces?
– Sim, meu senhor, mereço – respondeu Teresa, num murmúrio. – Por isso é que vai ser pior que qualquer outro castigo. E vais castigar-me, não vais?
– Sim, vou. Amanhã, às seis da tarde, no quarto dos castigos. Seis vergastadas fortes. Avisa a Milena que a essa hora não estamos para ninguém.
– Sim, meu dono – disse Teresa.
Quis virar-se para o outro lado, para que Raul não se desse conta das lágrimas que lhe corriam pelo rosto. Era o primeiro castigo premeditado que recebia: nunca tinha acontecido com Ettore, e muito menos, nos seus anos de puta, com os seus clientes, que iam e vinham e faziam o que lhes ocorresse no momento. Acabou por não virar as costas a Raul: ele saberia entender as suas lágrimas. Quando ele se voltou para a sua posição de dormir, Teresa abraçou-se a ele por trás e ficou a ouvir-lhe a respiração. O que sentiu ela antes de adormecer? Prazer, nenhum. Medo, certamente: um pouco. Tristeza, também, e melancolia. Esperança, porque lhe parecia que estava a ser conduzida pelo caminho certo. O que não sentia de todo era revolta.

[ … ]

– Traz-me um chá e uma torrada ao escritório – pediu.
Quando Teresa entrou com o chá, Raul agradeceu-lhe e disse-lhe que depois a chamava. Chamou-a às seis em ponto, para lhe ordenar que se despisse e que o esperasse no quarto dos castigos. Teresa, a tremer, obedeceu; e ele chegou logo a seguir, ordenando-lhe que se debruçasse com o rabo empinado sobre a banca do lado direito das colunas, onde já uma vez a tinha amarrado para a punir.
– Hoje não te vou amarrar – disse Raul. – São só seis vergastadas. Quero que as contes tu própria em voz alta: se não contares alguma, essa não vale. Por cada vez que abandones a posição recebes uma vergastada a mais. Está tudo claro?
– Sim, meu senhor – respondeu Teresa.
Ouviu os passos de Raul, que se colocava por trás dela, e ouviu o silvo no ar quando ele tomou o peso à vergasta. Subitamente, um novo silvo, e uma dor insuportável. Gemeu, e depois de ter gemido começou a sentir que um estranho silêncio se erguia entre eles. De que estava Raul à espera?
– Escrava… – ouviu-o murmurar.
E subitamente lembrou-se: tinha que contar as vergastadas.
– Uma! – exclamou em voz alta, grata pelo tempo que lhe tinha sido concedido.
Nova vergastada:
– Duas!
A terceira foi a pior até ao momento; Teresa contorceu-se toda, mas não levantou os pés do chão. Contou, com a voz embargada:
– Três.
Era uma crueldade ou uma gentileza ele não a ter amarrado? Teresa não sabia. A quarta vergastada atingiu-a muito em cima, quase na cinta, mas a quinta acertou-lhe na prega entre as coxas e as nádegas, provocando-lhe uma dor atroz que a levou a deitar-se para o chão.
– Quatro! Cinco! – contou.
– Sim, cinco – disse Raul calmamente. Mas ganhaste mais uma porque saíste da posição. Volta para o teu lugar.
Teresa voltou para a banca do castigo.
– Seis! – gritou.
E pensar que com esta, tivesse ela tido um pouco mais de coragem, podia estar o castigo terminado! Com as pernas a tremer obrigou-se a ficar onde estava, de nádegas empinadas, aguardando a última vergastada, a pior, a menos necessária; e quando ela veio foi quase com alívio que rouquejou:
– Sete!
Sete, finalmente. Teresa endireitou-se dirigiu-se para o lavatório instalado num canto da sala, lavou a cara, secou-se, e virou-se para o espelho de corpo inteiro que ali tinha sido colocado, virando-se de maneira a poder ver as marcas que tinha nas nádegas. Eram de um vermelho rosado, apenas mais escuro nos sítios em que se cruzavam. Este tinha sido o pior de todos os castigos, não por ser o mias doloroso, porque tinha sido um castigo verdadeiro: a punição duma falta cometida. Olhou para Raul, que estava com a vergasta na mão, à espera. Claro, ainda faltava a conclusão. Teresa deu um passo para Raul, beijou-lhe a mão que segurava a vergasta, beijou a própria vergasta e disse as palavras rituais:
– Obrigada, meu senhor, pelo castigo que me deste.
Isto, em voz alta; mas a seguir, ainda de joelhos, enquanto ele se afastava para pendurar a vergasta, repetiu, numa voz tão baixa que ele não a chegou a ouvir:
– Obrigada, meu querido…

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Cap.30: VIAGEM AO CENTRO DO CORPO

A caixa era bonita. Oblonga, em acrílico transparente, tinha as arestas facetadas. No interior do material tinha filamentos dourados que desenhavam rosas. A base estava protegida por uma camada de material brando e translúcido, de um rosa cor de carne.

− É para não riscar a mobília – explicou Teresa.

Tinha servido o jantar fardada de criada, coadjuvada por Milena, e, depois de se ter ido vestir para o serão com Raul, trouxera esta caixa que ele agora examinava. À transparência, viam-se duas esferas com quatro a cinco centímetros de diâmetro, da mesma cor que a base da caixa, unidas por um cordão. Quando Raul abriu a caixa, viu um tabuleiro, também em acrílico, com depressões circulares em que se fixavam as esferas. Os desenhos a ouro não o tinham deixado ver que uma das esferas, além de estar ligada à outra, estava presa a outro cordão mais fino que se dobrava sobre si mesmo e se unia a ela pelas duas pontas. Olhou para Teresa e pegou nas esferas: eram de silicone, muito macias, e davam-lhe, ao sopesá-las, uma estranha sensação de desequilíbrio.

− São ocas – explicou Teresa. – São bolas ben-wa. Estas têm outras esferas mais pesadas que se movem dentro delas. A minha professora de pompoar diz que é altura de começarmos a treinar com bolas, trouxe uma colecção delas para nós escolhermos, e pronto, eu trouxe estas para casa para tu veres. São as mais caras que ela trouxe, porque são em silicone e porque as de dentro são em aço inoxidável; também gostei muito da caixa, e tu?

Raul sabia o que são bolas ben-wa, mas nunca tinha visto nenhumas. Sabia que podiam ser usadas no pompoar ou nos exercícios de Kegel. Aprovava cordialmente o facto de estas serem em silicone, que do ponto de vista da higiene é o melhor material, e quanto aos pesos internos não tinha objecção.

− Os cordões são de nylon? – perguntou.

Eram de nylon: mais uma vez o ideal do ponto de vista da limpeza. Perguntou a Teresa o preço, deu-lhe o dinheiro e comunicou-lhe que as iam experimentar imediatamente.

− A professora ofereceu-nos um frasco de lubrificante juntamente com as bolas – disse Teresa. – Assim entram melhor. Está no quarto de banho: vou buscar?

− Vai – disse Raul.

Teresa saiu da sala e regressou com um frasco de plástico, equipado com uma cânula, como os que se vendem nas sex shops. A uma ordem de Raul, levantou as saias, deixando o sexo à mostra. Utilizando a cânula, lubrificou a entrada e o interior da vagina; depois untou as bolas e limpou as mãos a um dos toalhetes húmidos que tinha trazido consigo.

Raul foi lavar as mãos. Quando voltou, Teresa estava recostada no sofá, com o sexo à mostra e uma perna levantada. Quando Raul se sentou no outro sofá, Teresa colocou uma das bolas à entrada da vagina e empurrou-a com o dedo, introduzindo-a facilmente.

− Agora tenho que puxar a outra para dentro – explicou.

Mas, por mais que tentasse, não conseguiu sequer que a bola de dentro puxasse a de fora até a alojar junto da entrada. Raul levantou-se, lubrificou o indicador da mão direita e introduziu o dedo na vagina de Teresa, empurrando gentilmente a bola de dentro até a outra ficar em posição.

– Consegues agora? – perguntou.

Mas mesmo assim Teresa não conseguia. Por fim, sem deixar de tentar usar os músculos da vagina, empurrou a outra gentilmente com o dedo, até só ficar de fora o cordão.

− Levanta-te – ordenou Raul.

Teresa levantou-se, deixando cair a saia, que de novo a cobriu até aos tornozelos. Deu uns passos pela sala, mas de repente soltou um ai alarmado: uma das bolas tinha-lhe saído da vagina e puxava pela outra, que ela procurava desesperadamente reter mas que acabou também por cair no chão.

− A professora bem nos disse – observou Teresa. – Ao princípio não ia ser fácil, mas quando estivéssemos treinadas seríamos capazes de andar o dia inteiro com elas sem as deixar cair… Dá para acreditar? E eu, pronto, tive logo que escolher as maiores e mais pesadas… se calhar não vou conseguir.

− Se tu não conseguires – respondeu Raul – então mais nenhuma das tuas colegas consegue. Quando tens a próxima aula?

− Amanhã de manhã, às dez.

− Então a seguir almoças comigo e depois vamos buscar uma pessoa ao aeroporto.

− Quem? – perguntou Teresa.

Curiosity is not becoming in a kajira – respondeu-lhe Raul, dando-lhe uma palmada no rabo.

Teresa deu uma pequena risada e foram os dois lavar as bolas ben-wa: primeiro com água e sabonete, depois deixando-as imersas por uns minutos numa mistura de água da torneira e um pouco de água oxigenada, e por fim lavando-as de novo.

No dia seguinte, ao almoço, Teresa disse a Raul que tinha conseguido andar quase dez minutos pela sala de aula com as bolas postas, sem as deixar cair. A professora tinha ficado impressionada. O que ela não conseguia ainda, era puxar as bolas para dentro sem o auxílio do dedo; nem sequer a primeira, que segundo a professora era a mais fácil.

− E agora estou toda dorida. Se hoje me possuíres, não sei se te vou servir como deve ser.

− Eu dou um desconto – disse Raul, e pegou-lhe na mão para lhe beijar a concavidade da palma.

Depois, ainda no restaurante, mandou-a descalçar:

– Dá-me as havaianas.

Quando Teresa lhas deu, Raul embrulhou-as num saco de plástico e guardou-as na pasta. Teresa, que andava descalça com toda a naturalidade em lugares como Porto Cristo, não se conseguia habituar a fazê-lo no Porto, onde toda a gente olhava para ela e onde o chão não primava pela limpeza. A pessoa que foram buscar ao aeroporto vinha de São Paulo e chamava-se Clodomiro dos Reis, segundo o cartaz que Raul ergueu na zona de chegadas. Clodomiro dirigiu-se a Raul com um sorriso e estendeu-lhe a mão. Era um mulato pouco mais velho que Teresa, alto e bem constituído. Vinha vestido com umas calças azuis-escuras perfeitamente vincadas e um pólo azul-claro que parecia acabado de passar a ferro. Alguma coisa na aparência dele sugeria uma ligação às profissões médicas, e Teresa perguntou-se o que viria ele fazer ao Porto; mas como a curiosidade não fica bem a uma kajira, calou-se.

– Dr. Raul Morgado? – disse o viajante. – Como está o senhor?

– Dr. Clodomiro? Bem, obrigado, e o senhor? Esta é a minha escrava Teresa.

Era raro que Raul apresentasse Teresa a alguém como sua escrava; o facto de o ter feito agora sobressaltou-a e fez com que hesitasse antes de cumprimentar o recém-chegado com uma vénia. Mas este não pareceu surpreendido e disse, estendendo-lhe a mão:

– Ah, Teresa. Já ouvi falar muito de você, sabe, meu bem? Como está você?

Teresa não era acanhada, mas foi no tom sumido duma adolescente tímida que respondeu:

– Bem, obrigada, senhor…

Chegados ao carro, Raul mandou Teresa sentar-se no banco de trás para poder falar à vontade com Clodomiro, a quem começou por pedir desculpa por tê-lo feito vir de tão longe. A suite reservada no hotel estava pronta, um dos compartimentos com a marquesa, a mesa de apoio e os candeeiros que Clodomiro tinha especificado. Se Clodomiro não se importava, podiam ir já para lá. Chegados ao hotel, subiram os três ao último andar (Teresa agudamente consciente da curiosidade que os seus pés nus provocavam em todas as pessoas com quem se cruzavam), e Clodomiro abriu a porta da suite. Teresa viu-se num pequeno átrio com três portas, uma das quais abria para um vulgar quarto de hotel, outra para o quarto de banho e a terceira para um compartimento mobilado como um consultório médico.

Clodomiro pediu algum tempo para se preparar e Raul sugeriu voltar com Teresa meia hora mais tarde: estava bem assim? Estava, respondeu Clodomiro.

No bar do hotel, enquanto tomavam um café e uma água mineral, Teresa deixou escapar as palavras que tinha retidas no peito:

– Meu senhor, estou nas tuas mãos, mas diz-me: o que é que se vai fazer de mim lá em cima?

– Nada de difícil – respondeu Raul. – O Clodomiro vai-te tirar algumas medidas, e provavelmente fazer algumas recomendações. Depois vamos para casa, ele vai comer um almoço que para ele é jantar, e passado um bocado, se fizer como eu faria no lugar dele, toma um comprimido para dormir, uma dose reforçada de melatonina, e vai para a cama. Amanhã de manhã cedo, venho buscá-lo para o levar ao aeroporto e tu podes ficar a dormir.

– Não é dele que eu estou a perguntar, meu senhor, é de mim. Que medidas me vai ele tirar?

– Pronto, não te atormento mais – disse Raul. – O que o Clodomiro vai medir com toda a exactidão é a tua vulva. Sim, a tua vulva: o comprimento total, as dimensões do clítoris e do seu capuz, a protuberância e espessura dos grandes lábios e dos pequenos lábios, as distâncias entre a comissura superior dos grandes lábios e o clítoris, entre o clítoris e a uretra, entre a uretra e a vagina, entre a vagina e a comissura inferior, e outras medidas que sejam necessárias. As dimensões da vulva variam muito de mulher para mulher, como sabes, por isso é que é preciso tirar medidas. Depois, em São Paulo, é que o Clodomiro vai desenhar e fazer os piercings em titânio de que te falei.

– Só não compreendo porque é que esse desenho e essa colocação têm que ser tão exactas, meu senhor. Muitas mulheres põem piercings nos lábios vaginais sem ser preciso nada disso.

– Pois bem, minha escrava – disse Raul. – Chegou a altura de saberes um pouco mais. Vais ter quatro piercings nos grandes lábios, um de cada lado do clítoris e um de cada lado da vagina. Estes piercings vão estar concebidos de forma que cada um encaixe no do lado oposto de modo unir os grandes lábios sem os repuxar.

– Deixa ver se compreendo: quer dizer que com os piercings encaixados não vou ter acesso nem à minha vagina, nem ao clítoris…

– Não, mas é preciso deixar-te a uretra tão livre quanto possível, de modo a que possas fazer xixi sem grande dificuldade. Já estás a entender porque é que as medidas têm que ser exactas?

– Sim, estou a ver – disse Teresa. – Mas os anéis vão-se poder desencaixar, não vão?

– Claro que sim – respondeu Raul. – Caso contrário, como é que eu me ia poder servir de ti? Quando eu não quiser que os desencaixes, estão previstas aberturas para dois pequenos cadeados.

Cadeados?! Quem é que alguma vez tinha falado em cadeados?! Com o sobressalto, Teresa derrubou o copo de água que tinha à sua frente. Enquanto o empregado limpava o balcão do bar e trazia uma nova garrafa de água, Teresa teve de ficar silenciosa; e ainda bem, porque durante esta pausa teve tempo de se lembrar do que dissera minutos antes: que estava totalmente nas mãos de Raul; e que muitas vezes o tinha instado, sem qualquer hipérbole ou metáfora, a fazer dela o que quisesse; de modo que quando o empregado os deixou de novo a sós se limitou a perguntar como iam ser os cadeados.

– Vão ser fabricados na Suíça especialmente para ti, de acordo com o desenho que o Clodomiro fizer depois de teres os piercings no sítio. A ideia é que sejam o mais pequenos e mais leves possível, mas de alta segurança, e que não oxidem nem causem reacções alérgicas. Por isso vão ser feitos em titânio e aço cirúrgico.

Teresa ficou calada, numa espécie de melancolia feliz. Ter o sexo fechado à chave, e a chave nas mãos do homem que amasse, era uma fantasia que começara a ter, sabia lá, aos treze ou quinze anos, e que nunca a tinha abandonado. O que nunca esperara, era vê-la realizada tão de repente, tão sem consulta, tão sem aviso. Estou realmente nas tuas mãos, pensou; e quando ele subiu de novo para a suite acompanhou-o docilmente, sem sequer reparar, desta vez, nos olhares curiosos que os seus pés nus atraíam. Quando bateram à porta, foram recebidos por Clodomiro, vestido com uma bata branca. Tinha revestido a marquesa com uma protecção de papel e tinha-a colocado com a parte dos pés virada para a janela aberta. Perto da janela, Clodomiro tinha colocado dois potentes focos apontados à marquesa. Numa mesa ao lado repousavam, em tabuleiros de aço, vários instrumentos de medida: réguas, calibradores, compassos e outros objectos de que Teresa não sabia o nome nem a utilidade.

– Tire a saia, meu bem, e deite-se de barriga para cima com os pés para a janela – disse Clodomiro, enquanto calçava umas luvas de cirurgião. – Abra um pouco as pernas, mas não muito.

Durante vários minutos, Teresa sentiu o contacto frio de vários instrumentos com as suas partes íntimas. Nenhum destes contactos a excitou, e de resto parecia-lhe que Clodomiro tinha encenado tudo de modo a evitar qualquer excitação sexual da parte dela. Quando Teresa pensou que tudo estava terminado, ele mandou-a virar-se de barriga para baixo.

– As dimensões de sua vulva não são as mesmas em todas as posições, você sabia? Abra as pernas para eu medir de novo.

A cada medida que tirava, Clodomiro pronunciava algumas palavras para um microfone que trazia preso à lapela da bata. No fim foi chamou Raul:

– Chegue perto, por favor. Vou precisar de sua ajuda.

Raul aproximou-se da marquesa e perguntou em que podia ajudar.

– Fiz todas as medições em sua escrava sem a excitar. Agora preciso medir com ela excitada, e é para isso que preciso do senhor.

Teresa tremeu de indignação; e embora entendesse o despropósito deste sentimento, só a disciplina a que se obrigara a impediu de se recusar. Raul fez-lhe uma festa na face e beijou-a:

– Linda menina…

Depois começou a apalpar-lhe as nádegas expostas, depositando nelas, ora um pequeno beijo, ora uma ligeira palmada. O corpo obediente de Teresa começou logo a reagir: quando Raul lhe acariciou a vulva encontrou os pequenos lábios já húmidos e o clítoris que começava a sobressair do capuz. Passado não mais do que um minuto, disse:

– Venha ver, Dr. Clodomiro. Já chega?

Clodomiro disse que sim, pediu a Raul que acariciasse Teresa noutras partes do corpo de modo a que ela não perdesse a excitação, e reiniciou todo o processo, primeiro com Teresa virada para baixo, e por fim com ela virada para cima. As dimensões da vulva, explicou, variam também com a excitação da mulher. Teresa, que na fase anterior do processo não sentira vergonha, sentia-a agora, e intensa. Escrava, pensou, sou mesmo escrava… obedeço a tudo… Mas Clodomiro ainda não tinha terminado:

– Não se cubra ainda, meu bem, ainda tenho uma coisa para falar com seu senhor.

Era bom, disse Clodomiro, que Teresa já tivesse começado uma depilação definitiva. Mas precisava de saber que tipo de depilação ela estava a fazer, e se ainda estava no princípio ou se estava adiantada, porque depois dos piercings postos não ia poder fazer depilação a laser nem a luz pulsada muito perto deles. Quando Raul lhe deu esta informação, apertou os lábios e disse:

– Então lamento, mas se o senhor quiser que sua escrava fique depilada e com piercings, ela vai ter que sofrer um pouco nos próximos dias. Vou marcar na vulva dela duas zonas onde vai ter que fazer mesmo depilação eléctrica antes de ir para São Paulo. A um aceno de concordância de Raul, Clodomiro tirou da pasta um marcador e desenhou nos grandes lábios de Teresa duas ovais alongadas: aquela zona tinha que ficar depilada num mês, mesmo que para o resto dispusesse de um ano ou dois.

– Esse desenho não vai sair lavando uma vez ou duas, tem que lavar mais, mas eu deixo ficar a caneta para você renovar.

Teresa ficou a pensar como havia de explicar a urgência na clínica de depilação, e concluiu que o melhor era dizer a verdade: afinal, quando regressasse do Brasil, não poderia evitar que lhe vissem os piercings, portanto não valia a pena fazer segredo.

Nessa noite, Teresa voltou a dormir aos pés de Raul, sentindo-se de novo meio loba; mas conhecia muito bem o seu lugar na alcateia, e não era o último. De madrugada, quando o despertador tocou e o ouviu levantar, levantou-se também para lhe preparar o pequeno-almoço. Era tão cedo que Raul só quis uma chávena de café e uma bolacha.

– Não te vistas, fica nua – disse-lhe Raul ao vê-la de pé. – Depois volta a deitar-te, ainda é cedo.

Mas Teresa já não se deitou. Estar nua e em jejum causou-lhe um arrepio, apesar da casa aquecida. Depois de Raul sair, bebeu uma chávena de café com leite, comeu uma bolacha, lavou-se e vestiu a sua farda de criada para o receber com um segundo pequeno-almoço quando ele regressasse. Quando ouviu a chave na porta, correu para o átrio e sentou-se sobre os calcanhares com as coxas abertas e as palmas das mãos viradas para fora para que a primeira coisa que ele visse ao entrar fosse uma kajira, como lhe tinha chamado no dia anterior. No ar pairava já um perfume a café e a torradas com manteiga; Raul entrou, sorriu de a ver assim, inclinou-se para lhe dar um beijo e observou, sorrindo, que para compor a personagem Teresa deveria estar nua – ou vestida, quando muito, com um farrapo de seda ou de serapilheira: nunca com o seu uniforme engomado de empregada doméstica. Depois declarou-se faminto: Teresa deu uma risadinha feliz e correu descalça para a cozinha.

[ … ]

Em casa, Raul quis jantar sozinho, servido pelas suas duas empregadas. Quando acabou de jantar, não quis que Teresa ajudasse Milena a arrumar a cozinha, mas que fosse imediatamente para o quarto e o esperasse nua em cima da cama, só com uma toalha a proteger a coberta. Como a altura de arrumar a cozinha era a oportunidade de Teresa e Milena comerem alguma coisa, esta ordem levou a que Teresa ficasse sem jantar nessa noite, o que não acontecia pela primeira vez. Mas isso que importava? Pôs-se a esperar por Raul, que demorou. Ouviu música vinda do escritório: quem serviria o whisky a Raul, quem lhe acenderia o charuto? Milena não, certamente: fá-lo-ia ele próprio; e foi esta imagem, mais do que a demora de Raul, que a fez sentir-se abandonada. Ouviu Milena a usar o quarto de banho, a entrar no seu quarto e a fechar a porta. Depois, no escritório de Raul, parou a música. Ouviu-lhe os passos: seria finalmente para vir ter com ela? Mas não, os passos pararam noutro lugar; a chave Yale do quarto dos castigos rodou na fechadura, para voltar a rodar passados alguns segundos. Quando Raul chegou ao quarto, trazia na mão umas cordas e mais qualquer coisa que Teresa não chegou a ver, porque ele a pousou em cima da cómoda, que tinha o topo mais alto que a cabeça dela.

Raul inclinou-se sobre ela, beijou-lhe ternamente os lábios e ordenou-lhe que unisse os pulsos, o que ela fez sem hesitar. Atou-lhe os pulsos ao pilar direito da cabeceira da cama, deixando cerca de trinta centímetros de folga. A seguir, aos pés da cama, atou-lhe o tornozelo direito ao pilar direito, deixando-lhe uma folga igual; mas quando lhe atou o tornozelo esquerdo ao pilar correspondente, deixou-lhe uma folga muito maior, que lhe permitia fechar as pernas desde que ficasse deitada no lado esquerdo da cama. Feito isto, despiu-se calmamente, deitou-se ao lado dela e começou a acariciá-la por todo o corpo, evitando de início fazê-lo nos lugares do corpo que mais a excitavam. O facto de ele não a tocar nem beijar nos cabelos, na boca, no pescoço, nos seios ou no sexo (para não falar nos flancos, ao lado das costelas, que em Teresa eram também uma zona erógena) levava-a a sentir uma consciência mais aguda dessas partes do corpo. Era um tormento delicioso sentir a mão ou a boca dele a aproximar-se-lhe dos seios, só para se afastar de novo, no último momento, sem lhes tocar; ou mais tarde, depois de finalmente lhe ter acariciado ou beijado os seios, sentir-lhe a mão ou a boca passar-lhe ao largo dos mamilos sem lhes dar a atenção que eles exigiam. As carícias e os beijos desciam-lhe lentamente do tórax para o umbigo, do umbigo para o monte-de-vénus; por vezes voltavam atrás ou inflectiam para os lados, mas acabavam por voltar ao caminho certo; mas no momento que chegavam à comissura da vulva, ao início da racha, detinham-se e começavam um novo percurso: por fora das coxas ou por dentro, mas sempre, sempre, sem a tocar ou a beijar no sexo.

Quando viu que Teresa não aguentava mais, Raul foi buscar à cómoda o objecto que lá tinha deixado: era o vibrador que lhe tinha oferecido. Quando o viu, Teresa decidiu que suportaria mais do que das vezes anteriores, apesar de esperar que este mais não fosse muito mais.

– A regra é esta, minha escrava – disse-lhe Raul. – Vou usar este vibrador nos teus pequenos lábios e no teu clítoris, como tu gostas. De vez em quando vou introduzir-to um pouco na vagina, muito devagar, até chegar ao limite do que tu suportas; nessa altura começo a acariciar-te outra vez por fora. De acordo?

– Sim, meu senhor…

– Posso continuar a acariciar-te por muito tempo ou por pouco: quanto a isto, não atenderei a quaisquer pedidos teus.

– Sim, meu senhor…

– De vez em quando volto a introduzir-te o vibrador na vagina e a procurar outro limite. Poderá ser uma questão de maior profundidade ou maior duração; ou ambas as coisas, não sei. Mas da segunda vez tentarei ir um pouco mais longe. De acordo?

– Sim, meu senhor, sabes bem que sou tua…

– Isto repetir-se-á até eu entender que cheguei, por hoje, ao limite dos teus limites. Não serás tu a dizer-mo, serei eu a vê-lo nos teus olhos e no teu corpo. No fim servir-me-ei de ti de ti como me der mais prazer. De acordo?

– Sim, meu senhor, sim, sou tua, faz como quiseres…

Por toda a vida Raul havia de se lembrar desta noite. Viu Teresa empalidecer de medo ou enrubescer de excitação; viu-a retrair-se ou entregar-se, por vezes quase no mesmo gesto; ouviu-a gemer, suplicar, chorar, rir, suspirar que sim, gritar que não. Uma vez, duas vezes, várias vezes sentiu-a estremecer como sob um choque eléctrico. Por mais que uma vez viu-lhe nos olhos a expressão de loucura de um cavalo em pânico; e só quando a viu para além deste ponto é que pousou o vibrador na mesinha de cabeceira. Sabia que não podia fazer Teresa regressar de repente do lugar aonde a tinha levado: começou a tocá-la ao longo do corpo, com movimentos que eram parte carícia, parte massagem. Quando a sentia perto, murmurava-lhe meiguices; quando a sentia longe, chamava-a pelo nome. Quando sentiu que ela se começava a aperceber de onde estava e com quem estava, começou a beijá-la no sexo; para lhe provocar um pouco de dor, apertou-lhe os mamilos, e isto trouxe-a de volta mais um pouco. Finalmente encontrou nos olhos dela um olhar que o reconhecia.

– Meu senhor… és tu…

Mas ainda não tinha regressado completamente. Raul viu-lhe a breve expressão de surpresa quando quis mover as mãos e sentiu que estava amarrada; mas claro, estava amarrada, como tinha sido possível esquecer-se? Para Raul, este foi o momento de começar a desatar os nós que a prendiam, agora que a tinha de novo no mundo de toda a gente. Soltou-lhe primeiros os pulsos, que ela esfregou para reactivar a circulação, e depois os tornozelos.

– Vou limpar o vibrador – disse ela por fim.

– Tens muito tempo para isso – respondeu Raul. – Agora quero que fales.

– Que fale de quê, meu amor? Meu senhor querido?

– Do que quiseres – respondeu Raul. – Ou da experiência extremamente cruel a que acabo de te sujeitar.

Teresa não se lembrava de há quantos segundos ou minutos tinha começado a retribuir as carícias de Raul, mas no momento em que deu por si a fazê-lo sentiu um desejo enorme de se explicar:

– Não sei… Não sei bem – respondeu. – A parte fácil é que foi mesmo uma experiência extrema; cruel, não sei bem se foi. E é claro que tens sempre o direito de dispor de mim como quiseres, e porque dispuseste de mim estou feliz agora, mesmo que já não saiba se o estava há poucos minutos.

– Mas há a parte difícil…

– A parte difícil é que foi uma experiência extrema sem a menor semelhança com outras experiências extremas. Não se assemelhou a nada. Já falámos nisto uma vez, e continuo tão incapaz de explicar o que senti como nessa altura. Foi uma coisa insuportável como a dor extrema, mas não foi dor. Foi uma coisa com o sabor do prazer, mas não foi prazer: pelo contrário, se não me tivesses amarrado, eu era capaz de ter fugido.

– E que mais?

– Não sei, meu senhor, não sei mesmo… o melhor é fazer agora o que mandaste, ir limpar o vibrador e depois voltar para te servires de mim.

– Sim, é o melhor – disse Raul.

Poucos minutos depois, agachada sobre o seu senhor, Teresa recebia na boca o jacto de esperma com que ele se derramava nela. Ainda sentia toda a zona do sexo a pulsar: se tivesse tido escolha, teria sido penetrada pela vagina, e quanto mais brutalmente, melhor. Mas não tenho escolha, pensou. É essa a minha liberdade. Aplicou-se a limpar o pénis do dono com a língua e com os lábios, pondo nesta tarefa toda a entrega que teria posto se lhe tivesse sido permitido servi-lo doutro modo. Depois, sem que ele lho ordenasse, foi deitar-se no catre aos pés dele. Já com a luz apagada, ainda lhe falou:

– Obrigada, meu senhor…

– Obrigada porquê, meu tesouro?

– Pela dificuldade. Por não me deixares ficar presa ao fácil.

– Então também eu te agradeço, minha escrava, e pelo mesmo motivo. Agora dorme.

Teresa bocejou de tal maneira que Raul mal compreendeu quando ela lhe disse boa noite. Poucos minutos depois, estavam ambos a dormir.

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Cap. 29: LABIA MAJORA

Havia alguns minutos que Raul, debruçado sobre Teresa na cama, acariciava e beijava a sua escrava, que dava pequenos gemidos e retribuía brandamente as carícias dele. Pouco a pouco, as mãos e os lábios dele foram-se aproximando da vagina de Teresa, que começou lentamente a afastar as coxas para lhe facilitar o acesso. Raul acariciava-lhe os pequenos lábios e o clítoris, beijando-os e sugando-os com toda a leveza de que era capaz.

− Deixa-me ver bem a tua coninha, minha escrava.

Teresa, flutuando no mar morno da sua excitação, não entendeu: então ele não a estava a ver bem? Viu-o levantar-se, sair do quarto, e voltar com um candeeiro, que colocou aos pés da cama e acendeu.

− Abre mais as pernas.

Teresa obedeceu. Isto não era excitante, não dava prazer, não significava nada que ela entendesse, mas, para quem se deu a alguém, confiar é obedecer: Raul sabia com certeza o que estava a fazer. Parte da excitação que Teresa sentira regressou, apesar da luz forte, quando Raul recomeçou a tocar-lhe a vulva, afastando com os dedos os grandes lábios, tocando-lhe o clítoris, examinando o capucho que o escondia parcialmente, apalpando por fora a parte que se oculta no interior do corpo. Era como o toque do ginecologista, que a deixava fria, mas ao mesmo tempo era o toque do amante, que a deixava em brasa: mais uma sensação nova para juntar às que Raul lhe provocava. Raul sabia que o clítoris de Teresa era bem mais longo do que parecia, e se parecia pequeno, era porque só a ponta aflorava à superfície do corpo. Procurou seguir-lhe a raiz com os dedos e conseguiu-o em parte, mas não teve a sensibilidade suficiente para se dar conta do ponto em que a raiz do clítoris se bifurca, rodeia a uretra pelos dois lados e se vai ligar à vagina. Depois seguiu-lhe com os dedos os pequenos lábios, beijando-os de vez em quando, mas aparentemente mais atento ao exame que estava a fazer do que ao prazer que pudesse dar ou obter. Apertou-lhe os lábios exteriores um contra o outro: eram bastante carnudos, e apesar da excitação de Teresa, ocultavam por inteiro os lábios interiores, que eram mais estreitos do que o habitual, e frisados como pétalas de cravo.

− Perfeito – murmurou para si mesmo.

Era bom que Raul considerasse que ela tinha uma vulva perfeita, mas perfeita para quê? Teresa ignorava a razão deste exame a frio, que começava a excitá-la quase tanto como a excitaria uma verdadeira carícia; mas não ousou fazer qualquer pergunta. Em todo o caso, o exame não durou muito mais: Raul levantou-se, desligou o candeeiro e retomou as carícias de havia pouco, até que o corpo de Teresa se contorceu numa convulsão de prazer. Raul manteve-a no cume durante tanto tempo quanto foi capaz, para depois a trazer de volta muito lentamente. Teresa sentia-o muito excitado – bastava sentir-lhe a dureza do pénis – mas, como era típico dele, sem pressa nenhuma de a penetrar. O que queria ele agora dela? Começou a beijá-lo na cara, nos ombros e no pescoço. Raul começou a tocar-lhe sucessivamente os seios, os flancos, as ancas, testando-lhes a textura e a firmeza.

− Meu senhor, posso fazer-te uma pergunta? – disse Teresa. − O que foi aquilo há bocado? Estavas a brincar aos médicos?

Raul riu-se, beijou-a na comissura dos lábios e respondeu:

− Não é bem isso, minha escrava. São duas coisas que tenciono mandar fazer-te. Uma depilação definitiva…

– Hmmm… – respondeu Teresa. – Não sei se vou gostar… mas tu é que decides, claro.

– Claro – concordou Raul. – Amanhã tens uma consulta marcada. Andei a ver qual era a melhor clínica do Porto. O tratamento completo vai demorar de um a dois anos, até que os pelos não voltem a crescer, mas os resultados vão começar a ver-se logo a partir do primeiro.

− Sei como é – disse Teresa. – E qual é a outra coisa que me vais fazer?

− Vou mandar pôr-te piercings na vulva, nos lábios maiores. Mas isso é para mais tarde, e vai ter que ser feito em S. Paulo.

− Em S. Paulo? Que piercings tão especiais são esses? Pensei que bastava chegar ali à Baixa a qualquer casa de tatuagens e sair de lá meia hora depois com os piercings postos…

Raul começou a acariciar-lhe a vulva com a mão enquanto lhe respondia.

− Estes vão ser mesmo especiais. Vão ser em titânio e desenhados para o fim que tenho em vista.

Teresa soltou um gemido:

− Meu senhor… sou tua, farás de mim o que quiseres… mas agora estou a imaginar que me vais fazer as coisas mais inconcebíveis, sem eu saber o que é… Não vai ser nada que te impeça de me possuir, pois não?

Raul deu uma risada branda:

– E eu alguma vez ia querer deixar de te possuir? Não, meu amor, não vai ser nada disso. O que pode, é impedir que outros te possuam… Não te importas?

– Eu? Não, meu senhor. Até fico excitada… saber que sou só tua, mesmo fisicamente… que não me pertenço, mas a ti… mas gostava que me mostrasses outra vez isso mesmo; posso-te pedir isso?

Como poderia Raul não perdoar? Antes de a penetrar, recomeçou a acariciá-la e a beijá-la longamente na vagina, nos pequenos lábios e no clítoris, e, em cada ponto em que ele tocava, Teresa perguntava a si mesma: vai ser aqui? Vou ser furada aqui? Não a perturbava usar piercings: já tinha tido furos nos mamilos que depois tinham acabado por cicatrizar e desaparecer. Minutos mais tarde, quando lhe pediu licença para gozar, ele negou-lha; e ela ficou acordada durante horas, trespassada daquela estranha energia, daquele estranho prazer que não sabia explicar, sentindo-o dormir ao seu lado, saciado. Em cada dia que passavam juntos, parecia a Teresa que a sua escravidão se aprofundava mais um pouco. Tinha consentido nas modificações que Raul se propunha fazer-lhe no corpo, sem mesmo perguntar quais eram; apenas lhe pedira que lhe mostrasse mais uma vez que não se pertencia a si própria, mas a ele. Mas Teresa reflectia também que o que se aprofundava não era tanto a sua escravidão como o domínio de Raul sobre ela, um domínio cada vez mais envolto em ternuras e cuidados, como dizia Carolina, mas cada vez mais livre de culpas e de escrúpulos.

Noutra noite, numa noite de castigo, Teresa jantou à mesa com Raul – com a sua saia mais sumptuosa, e coberta de jóias como era regra, mas nua da cinta para cima. Milena, que servia a refeição, sorria-lhe de vez em quando e acariciava-lhe o ombro, como para lhe dar coragem; e Teresa bem precisava de coragem para suportar o que lhe estava reservado para daí a pouco.

Com efeito, Raul, depois de ter bebido o seu whisky e fumado o seu charuto, com ela todo o tempo a beijar-lhe os pés, mandou-a esvaziar a bexiga e esperar por ele, toda nua e sem jóias, no quarto dos castigos. Teresa esperou de pé, com a cabeça baixa e os braços caídos ao longo do corpo. Quando Raul entrou, não ergueu os olhos para ele, mas reparou que tinha mudado de roupa e estava agora de chinelos, pijama e roupão. Quando ele lhe pôs a mão no queixo para a obrigar a erguer a cabeça e lhe dar um beijo na face, Teresa fechou os olhos, virou-se para ele e ofereceu-lhe docemente os lábios.

− Deita-te na banca da esquerda, de barriga para cima.

Era a banca abaulada: deitada sobre ela, Teresa ficava com a pélvis mais alta que a cabeça e os pés. Tinha ido nessa tarde à consulta marcada na clínica de beleza: depois de a examinarem, tinham-na rapado com uma lâmina e feito vários testes antes de lhe fazerem o primeiro tratamento com luz pulsada. Era uma sensação estranha estar assim exposta, com o sexo completamente depilado, mais nua do que alguma vez se tinha sentido. Sentiu que Raul lhe amarrava o pulso direito, apertando a corda com força e atando-o a uma das argolas de bronze no canto da banca. Depois amarrou-lhe os tornozelos, escolhendo as argolas de bronze que a faziam afastar mais as pernas. Entretanto, ajeitando o corpo em direcção à cabeceira da banca, Teresa tinha conseguido aliviar a tensão da corda que lhe prendia o pulso; mas, com as pernas presas, isto já não lhe foi possível quando ele lhe amarrou o pulso esquerdo. Voltando aonde tinha começado, Raul desatou o pulso que tinha amarado em primeiro lugar e puxou a corda antes de o atar outra vez; e assim deu várias voltas à banca, esticando as cordas mais um pouco, sempre pela mesma ordem, até não ser possível a Teresa aliviar a tensão.

As cordas, assim apertadas, faziam-lhe doer. Quando Teresa pensou que já estava imobilizada, Raul ainda a prendeu com mais cordas nas coxas, junto aos joelhos, obrigando-a a escarranchar ainda mais as pernas. Não a amordaçou nem a vendou: embora a posição incómoda em que ela tinha a cabeça não lhe permitisse seguir todos os movimentos do dono pela sala, permitia-lhe ver alguns. Agora é que ele vai buscar o chicote, pensou Teresa; ainda bem que ele a tinha mandado esvaziar a bexiga, caso contrário talvez não pudesse evitar encharcar-se de medo. Mas Raul, quando voltou para junto dela, não trazia chicote nem vergasta, mas sim dois pequenos objectos que ela só identificou quando ele lhos prendeu aos mamilos: duas molas que a fizeram arquejar de dor. O que quer que ele tencionasse fazer a seguir, era preciso esperar que a dor abrandasse, caso contrário não sentiria mais nada. Enquanto esperava, ele alisou-lhe os cabelos e ofereceu-lhe a mão aos lábios para que ela a beijasse. Isto deu-lhe tempo a sentir algo mais do que a dor nos mamilos, que era agora uma sensação surda. Raul passou um dedo a todo o comprimento da vulva exposta de Teresa, que se deu conta de que estava completamente molhada. Meteu-lhe o dedo na boca, para que ela provasse os seus próprios sucos, e trepando para cima da banca, introduziu-lhe o pénis na vagina.

Pompoar – ordenou-lhe.

Teresa já estava suficientemente adiantada nas lições de pompoar para que alguns dos movimentos se lhe tivessem tornado quase instintivos, mas desta vez era-lhe exigido mais do que isso. Concentrou-se nas técnicas que ainda não tinha automatizado; e esta concentração, conjugada com o desconforto da sua posição, fez com que a onda do orgasmo, ainda pequena, que mal lhe começava a crescer ao largo do corpo, se aplanasse de novo. Não pediu autorização para ter orgasmo; para quê, se mesmo sem orgasmo o prazer que sentia era tão intenso, e se o prazer que soubesse dar Raul o compensaria amplamente? Sentiu que os movimentos dele se tornavam cada vez mais fluidos e que exigiam dele cada vez menos esforço, apesar de serem cada vez mais amplos e mais fortes; ouviu-lhe a respiração cada vez mais sonora, mas também cada vez mais solta; e preparou-se para acolher dentro de si, com alegria e amor, o jacto de esperma em que ele se esvairia em breve. Mas Raul, quase no momento de atingir o clímax, ainda lhe ordenou:

− Vem-te agora, escrava. Dá-me o teu prazer.

E, em obediência esta ordem, a prega de mar que antes, ao largo, se aplanara, a pequena onda que fora para Teresa uma promessa, cresceu de novo, agigantou-se, adquiriu no topo uma crista de espuma, curvou-se sobre a praia do seu corpo e desabou sobre ela, arrastando-a, virando-a em todas as direcções, mais uma vez perdida. Escrava, puta, galdéria, pensou, que me venho assim só porque um homem manda. Mas estes insultos que dirigia a si mesma não eram sinceros: não podia enjeitar a alegria e o orgulho que a invadiam; e puta não era de certeza, a não ser de Raul.

Mal acabou de a possuir, Raul levantou-se e limpou o pénis com dois toalhetes húmidos, tirados de uma embalagem que Milena tinha guardado para esse efeito num dos armários. Calçou os chinelos, vestiu-se, e começou a desamarrar Teresa tão metodicamente como a tinha amarrado. No fim, tirou-lhe as molas dos mamilos, causando-lhe uma dor bem maior do que lhe tinha causado ao pô-las.

− Não te levantes ainda, espera um pouco – ordenou.

Dirigindo-se para a cabeceira da banca, pôs uma mão por baixo da nuca de Teresa e outra por baixo dos ombros e soergueu-a devagar.

− Sentes-te bem? – perguntou.

Ao som afirmativo dela, ergueu-a mais um pouco e disse:

− Agora roda o corpo devagar e põe os pés no chão.

Teresa assim fez e Raul perguntou-lhe de novo se estava bem.

− Estou bem, meu senhor.

Raul ordenou-lhe que ficasse sentada mais uns segundos; depois ajudou-a a levantar e conduziu-a ao quarto de banho, onde tomou duche com ela. Teresa viu-se ao espelho. As marcas das cordas eram fundas e estavam muito vermelhas, e demorariam por certo algum tempo a desaparecer. Se passados dois dias, quando tivesse aula de dança do ventre, ainda se notassem, teria que revelar mais um pouco da sua condição.

Mais tarde, deitados na cama, Raul recomeçou a acariciar-lhe o corpo. Ao tocar-lhe os mamilos foi especialmente gentil, mas Teresa, que os tinha muito doridos, arquejou de dor. Mas continua, meu amor, continua… Raul continuou a acariciá-la, voltando de vez em quando aos mamilos. Teresa respondia-lhe com carícias e com beijos cada vez mais apaixonados.

− Meu senhor… meu dono… – disse Teresa por fim. – Não queres voltar a possuir a tua escrava?

Raul possuiu-a com vigor e ternura, não apressando os preliminares, nem a privando depois duma copiosa porção de beijos e carícias; e autorizou-lhe o orgasmo quando ela o pediu. Raul demorou muito tempo: quando o sentiu gozar, Teresa já tinha terminado completamente, mas disse-lhe:

− Sim, meu senhor, sim, goza em mim, goza sozinho na tua escrava… goza muito, meu querido…

Imaginou que Raul, cansado como devia estar, havia de querer a cama toda só para si e a mandaria dormir aos seus pés. Mas ele, em vez de a mandar embora, estendeu-lhe os braços, e nessa noite dormiram enlaçados.

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