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Cap. 32: DISCÍPULOS

[ … ]

Entre as colegas de Teresa na dança havia uma jovem que também era colega dela no pompoar: chamava-se Ana e ainda não tinha vinte anos. Foi esta jovem que uma tarde convidou Teresa para lanchar. Quando Teresa lhe disse que não podia aceitar este convite sem autorização do namorado, Ana não mostrou repulsa nem surpresa, antes deleite:

– Então pede-lhe, por favor!

Mal tinham tido tempo de mandar vir as meias de leite e as torradas quando Ana, impaciente, começou a conversa:

– Quer dizer que nunca fazes nada sem autorização do teu namorado?

Teresa sorriu.

– É claro que faço muitas coisas por minha iniciativa, nem ele quereria que fosse doutra maneira. Mas uma das coisas em que combinámos que eu não teria qualquer liberdade foi o uso do meu tempo: por isso é que tive que lhe telefonar antes de aceitar lanchar contigo.

Ana bebeu um pouco de café com leite antes de se decidir a dizer:

– Acho isso tão bonito… Pensava que não havia mais ninguém como eu e o Miguel.

– O Miguel é o teu namorado? – perguntou Teresa. – E costumas obedecer-lhe?

– Adoro obedecer-lhe, e ele adora que eu lhe obedeça… Nunca contámos a nenhum dos nossos amigos, tivemos medo que nos gozassem ou que se afastassem de nós. Posso contar-te um segredo? Ele às vezes bate-me com uma vergasta, e eu deixo… Não ficas a pensar mal de nós?

– Claro que não, minha querida – respondeu Teresa. – O Raul também me vergasta algumas vezes, e castiga-me fisicamente doutras maneiras. Eu não tenho nenhum prazer em ser castigada, mas tenho um prazer enorme em poder sê-lo. Compreendes isto?

– Não sei, acho que nesse ponto somos um pouco diferentes. Eu tenho prazer em ser vergastada, pelo menos pelo Miguel. Com outro homem, nunca experimentei. Mas pensando bem, agora que falamos nisso, acho que o meu prazer maior é o direito que ele tem de me vergastar. É, é isso. Nisso somos parecidas, tu e eu.

– E o Miguel, gosta de te castigar?

– Acho que gosta um bocadinho, como eu, mas agora começo a pensar se o prazer maior dele não será ter esse direito… E o teu namorado? Também gosta de te fazer doer?

– Talvez seja como o teu: gosta, mas isso para ele não é o principal.

Ana calou-se de novo, a ganhar coragem, e disse finalmente:

– O nosso maior problema, meu e do Miguel, é não sabermos como se fazem as coisas.

Teresa franziu o sobrolho, intrigada:

– Como se faz o quê?

Ana pareceu um pouco atrapalhada:

– Não sei… Deve haver regras… Sabe, o que se faz na cena BDSM… Não conhecemos ninguém nesse meio a não ser a si, e a Teresa não corresponde nada às imagens que vemos nos media… De modo que não sabemos as regras, nem a maneira correcta de vestir… Espero que isto não fosse um abuso, mas tenho falado de si ao Miguel e ele diz que um dia gostava de a conhecer e ao seu namorado.

Ana trazia uma saia comprida de renda preta sobre outra opaca e mais curta. Tinha uma T-shirt preta sem mangas, muito decotada, e sobre esta, uma blusa preta transparente de mangas compridas. Não trazia as unhas nem os lábios pintados de preto, nem piercings visíveis, nem a profusa joalharia de prata, própria do visual gótico: apenas uns brincos de prata compridos que lhe chegavam aos ombros. Nos pés trazia umas sandálias pretas de tiras, com uns saltos altíssimos.

– Diz-me uma coisa, Ana – perguntou Teresa. – Esse teu modo de vestir corresponde mais ao teu gosto ou ao gosto do Miguel?

– Não sei bem… Devia ser ao do dele, não devia? Mas acho que é ao dos dois. Ou então talvez seja mais uma questão do que achamos apropriado ao nosso lifestyle.

Teresa sorriu um pouco da expressão em inglês:

– E que maneira de vestir acham vocês apropriada para o vosso lifestyle?

– De preto, acho eu… Mas ele, não é só por causa das regras que se veste de preto, é porque gosta mesmo. Do que ele não gosta é de usar adornos, nem enfeites, nem penteados esquisitos. É roupa preta, barba feita, cabelo à escovinha, e já está. É o estilo dele.

– Posso dar-te um conselho? – perguntou Teresa.

– Até agradeço.

– Não te vistas para nenhum lifestyle. Não há lifestyles. Quer dizer, havê-los, há, mas são pura diversão, não passam disso. Os estilos de vida, somos nós que os fazemos. Não há uma maneira apropriada para mulheres como nós se vestirem. Veste-te como ele gostar de te ver, nem que seja de cor-de-rosa bebé, ou de vestidinho às pintinhas. Se tu também gostares, tanto melhor, mas isso não é importante: o importante é o que ele gosta. Outra coisa, e esta é mesmo importante: não há regras. Ou melhor, só há uma regra, que é respeitar o outro. Se sentires que o Miguel não te ama ou não te respeita, larga-o. Mas se ele te ama e respeita, então não há regras. Isto é mesmo muito importante. Conta-lhe esta conversa e vê o que ele pensa.

Ana ficou pensativa.

– Posso falar-lhe de si e do seu namorado? – perguntou.

– Não precisas de dizer meu namorado – disse Teresa. – Podes dizer meu dono ou meu senhor, que eu não me importo. E claro que podes falar de nós ao Miguel.

– Obrigada – disse Ana, à despedida. – Ele vai gostar de ter tudo isto em que pensar. E eu também vou ter que pensar, especialmente nessa questão do respeito.

Quando Teresa contou a Raul esta conversa, ele sugeriu-lhe que convidasse Ana e Miguel para lanchar no Majestic no fim da semana seguinte. No dia do encontro, Agosto estava a meio, e o tempo estava muito quente. Raul e Teresa chegaram propositadamente atrasados para que Ana e Miguel os vissem chegar: Raul de jeans e T-shirt pretos e cabelo curto, num estilo muito semelhante ao de Miguel; Teresa compareceu descalça, sem calcinhas e sem soutien: sem nada sobre o corpo que não fosse um vestido comprido em tons de rosa, lilás e branco, que deixava adivinhar à transparência os mamilos escuros, e só não deixava ver o triângulo da púbis por esta se encontrar depilada. Ana estava toda de preto: top atado nas costas com atilhos, mini-saia justa, meias de rede e sandálias de salto muito alto. Via-se que tinha feito um esforço especial para exprimir a sua condição de namorada submissa. Depois das apresentações, o diálogo entre os dois homens consistiu em pouco mais que uma troca de ideias gerais. Já Ana quis saber tudo, particularmente o significado dos pés nus de Teresa, se ela costumava andar assim na rua, que distância tinha percorrido desta vez, se lhe tinha custado muito.

– Não ando muitas vezes descalça na rua – disse Teresa. – O Raul só me costuma dar essa ordem em ocasiões especiais, como hoje. Em casa, sim, tenho que andar sempre descalça.

– Em casa, e na Fundação de Serralves – interrompeu Raul.

– Em Serralves?! – exclamou Ana – Porquê?!

– Por capricho meu – explicou Raul. – Mas também porque me seduz a variedade de texturas no chão da casa e nos jardins. E além disso há qualquer coisa naquele ambiente que parece que o exige.

– É verdade – disse Miguel. – Nunca me tinha ocorrido, mas é verdade.

– Mas não te custou vir descalça até aqui? – insistiu Ana.

– Nem por isso – respondeu Teresa. – Deixámos o carro no parque dos Poveiros: lá dentro o chão está fresco. O passeio cá fora é branco, não aquece muito. Só me podia ter queimado um bocado ao atravessar a rua, que é de alcatrão preto e fica muito quente… o truque é aproveitar as faixas brancas da passadeira, que não queimam. Aqui na Rua de Santa Catarina o chão é claro, não aquece muito. Com as texturas é mais difícil, algumas são muito ásperas, é preciso estar habituada… a única coisa a que nunca me habituei é o olhar das pessoas. Ainda fico embaraçada…

Miguel olhou para ela estreitando os olhos, e a seguir para Ana.

– Pois a mim, o que me daria prazer – disse ele – seria precisamente ver a Ana assim embaraçada.

Raul olhou atentamente para os dois. Ana estava vermelha e olhava para as mãos, mas um leve sorriso bailava-lhe nos lábios.

– Olhe, Miguel, não sei quais são os termos do seu compromisso com a sua namorada – disse Raul. – Não sei se o seu compromisso o autoriza a fazer-lhe este tipo de exigências, nem se a obriga a obedecer-lhes…

– Autoriza-o, sim, e a mim obriga-me – interrompeu Ana. – O Miguel é que talvez ainda não se tenha apercebido. São coisas de homem, de cavalheiro…

Foi a vez de Miguel enrubescer; e Teresa riu-se ao ver que Raul também tinha corado.

– Um cavalheiro um bocado obtuso, pelos vistos – respondeu Miguel. – Andei a ver a net e os fóruns e convenci-me que numa relação como a nossa havia convenções a respeitar: roupa preta, cabedal, todas as mulheres de saltos altos… A Ana e eu nunca fomos a um clube sadomasoquista: mas se a Ana fosse vestida, por exemplo, como a Teresa está agora, deixavam-nos entrar?

– Depende do clube – disse Raul. – Numa grande cidade europeia pode haver clubes centrados em certos fetiches, e aí teriam que se conformar a eles; mas aqui no Porto não temos dimensão para essas especializações. Num clube daqui, todos estariam a par do que esta indumentária da Teresa significa.

Miguel ficou calado por alguns instantes.

– Confesso que uma submissa descalça me diz mais que uma de saltos altos – disse por fim. – Isto não é de agora, sempre foi assim, mas parecia-me que isso não era… como hei-de dizer… ortodoxo…

– Não há regras nem ortodoxias – disse Raul. – Só a vontade do dono conta.

– Mas continuo a gostar de ver a Ana de preto, e de minissaia justa.

– Não há regras – repetiu Raul. – Se o Miguel tem esse direito sobre a Ana…

– Claro que tem – disse Ana em tom decidido.

Miguel olhou para ela como se a estivesse a ver pela primeira vez e quisesse fixar-lhe as feições.

– Claro que tenho… – murmurou para si mesmo.

E em voz alta disse:

– Ana, o que vais fazer agora é isto: vais lá dentro aos lavabos, deitas no caixote do lixo os sapatos e as meias, e voltas para aqui. No caminho para cá, passas pelo balcão e pedes um fino para esta mesa. Ou dois, se o Raul também quiser.

– Com todo o gosto – disse Raul.

Ana fez menção de objectar, mas, antes que tivesse tempo de o fazer, o namorado acrescentou:

– Ah, e já agora deixas lá ficar também as calcinhas.

Ana ficou um momento sentada, a olhar para as mãos. Depois, de rompante, levantou-se:

– Está bem.

Dirigiu-se para dentro do café, de cabeça levantada, para cumprir o que lhe tinha sido ordenado. E já que se sentia embaraçada, e não queria ceder ao embaraço, fez questão de ir até ao fundo do café por uma das duas coxias que correm entre as mesas e regressar pela outra, de modo a que todos os presentes lhe vissem bem, primeiro a mini-saia, e depois os pés descalços.

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Tomaram duche juntos, e a seguir devoraram um enorme pequeno-almoço, suficiente para os manter saciados até à hora de jantar. Era tempo de retomar a vida normal; mas antes de ir despir o roupão para pôr o seu uniforme de criada, Teresa ainda disse:
− Meu senhor, sabes qual é a primeira coisa que se deve fazer quando se cai do cavalo?
− Montar de novo – respondeu Raul. – Para não dar tempo a que o medo se instale.
− Então leva-me esta noite ao Justine. Se não entrar esta noite num bar, acho que nunca mais conseguirei entrar em nenhum sem morrer de medo.
Raul deixou-se ficar sentado à mesa, pensando nestas palavras de Teresa. Se alguém tinha razão para ter medo de entrar num bar ou numa discoteca, era ela. Estranha coincidência: uma pessoa que fazia pouca vida nocturna estar duas vezes na vida em dois bares com o mesmo nome, alguém lhes deitar fogo, e de ambas as vezes ser salva in extremis pelo homem que amava. Raul não era supersticioso, mas decidiu que, enquanto ele mandasse, Teresa nunca mais entraria em bar, discoteca, hotel, restaurante ou café que tivesse por nome Lua Vermelha, fosse em que língua fosse. Quanto a essa noite no Justine, decidiu fazer dela uma ocasião especial: telefonou à Baronesa, contou-lhe por alto o que tinha acontecido na noite anterior, disse que queria proporcionar a Teresa uma noite memorável e pediu-lhe que contactasse alguns frequentadores habituais para a receberem de maneira a fazê-la esquecer. Não, não era uma festa, não queria que preparassem nada de especial, apenas que pusessem Teresa um pouco no centro das atenções. Podia ser?
Quando Teresa reapareceu, Raul disse-lhe:
– Hoje vamos jantar fora, no Majestic, e depois vamos passar o resto do serão no Justine. Para o Justine quero que vás de preto, por respeito aos nossos amigos, mas toda às transparências. Quero que mostres bem os seios…
– Sim, meu senhor – disse Teresa, corando um pouco.
– E descalça, obviamente. Não quero que leves bijutarias, só jóias verdadeiras: rubis, muitos rubis, para que o vermelho contraste com o preto da roupa. Tens rubis que possas pôr nos pés?
– Tenho fios de ouro e anéis para pôr nos dedos dos pés. Com um pendente de rubis que tenho guardado, acho que posso improvisar qualquer coisa… Mas não tenho maneira de fazer o mesmo nos dois pés.
– Muito bem, adornas só o pé esquerdo e deixas o direito completamente nu. As jóias, só as pões antes de entrarmos no Justine. Para o Majestic levas aqueles teus sapatos rasos dourados e um casaquinho que te cubra os seios. Depois, no carro, tiras o casaquinho e os sapatos, e pões as jóias. Quero que fiques linda…
– Estou a pensar nas roupas pretas que tenho. Não faz mal se eu for um bocadinho gótica?
– Não, acho que até vai condizer bem com o ambiente. Mas não te quero gótica na cara nem nas unhas.
– Está bem, meu senhor. Outra coisa: tenho um coletinho de cabedal vermelho que me deixa os seios à mostra. Se o pusesse por cima duma blusa preta transparente…
– Não ficava mal – disse Raul. – Mas o que vais pôr durante o jantar?
– Estava a pensar num casaquinho vermelho com lapelas, que me ia cobrir os seios e o colete… Mas nesse caso, em vez dos sapatos dourados ficavam melhor uns vermelhos… Tenho uns que também são rasos.
– Não, se forem vermelhos, antes quero que sejam de salto alto. Fazem mais o estilo galdéria. Tens alguns?
Teresa riu-se:
– Meu senhor, é o que eu tenho mais. E se me queres galdéria, vais-me ter galdéria.
– Pronto, então está tudo combinado quanto às roupas. Eu vou de jeans pretas e T-shirt: quero que sejas tu a brilhar e não eu. E levo os meus mocassins pretos, sem meias. Só não te esqueças que no Justine eu me chamo Marco Aurélio, e tu selma.
No Justine foram recebidos por Igor, que cumprimentou Raul com um forte aperto de mão. Quando Teresa dobrou os joelhos ligeiramente, fazendo a vénia que Raul lhe tinha ensinado, Igor surpreendeu-a tomando-lhe a mão e beijando-a: não nas costas, evidentemente, mas na palma, como se faz a uma escrava. A Baronesa saudou Raul e aceitou a vénia de Teresa com um sorriso e um beijo.
A sala tinha sido modificada: num dos cantos tinham sido retirados os assentos e as mesas e colocados tapetes.
– É para as submissas se reunirem e conversarem – explicou a Baronesa. – Há algumas que não têm permissão de se sentarem em cadeiras.
– E o teu submisso? – perguntou-lhe Raul.
– Ora, Marco Aurélio – respondeu-lhe a Baronesa. – O meu, nem no chão se senta. Fica de pé, que tem aqui muito que fazer. Os outros, é com as Senhoras deles. Queres ficar nesta mesa? A sua escrava senta-se no chão, se bem me lembro.
Raul sentou-se no lugar que a Baronesa lhe indicara e Teresa ajoelhou-se aos pés dele.
– Tomam alguma coisa? – perguntou a Baronesa.
– Para a selma – disse Raul – uma água sem gás. Para mim, uma água tónica. Mas não nos sirva à mesa, nem mande ninguém servir-nos, que eu hoje só quero ser servido pela selma. Quando tiver as coisas prontas no balcão, faça sinal para ela as ir buscar.
– Isso é que é uma paixão – disse a Baronesa, e afastou-se, rindo, para trás do balcão.
Raul olhou à roda da sala. Lá estava a bondarina, com os seus enormes olhos verdes, aos pés de um homem que Raul não conhecia: devia ser o dono dela, o Mestre De Aviz. Ambos o cumprimentaram com um aceno de cabeça e um gesto a indicar que falariam mais tarde. Também a kathy lhes acenou e lhes sorriu. Quando a Baronesa fez sinal do balcão que as bebidas deles estavam prontas, Teresa pôs-se de pé, corando, dirigiu-se para o bar, tirou do tabuleiro a sua água e o seu copo e voltou para junto de Raul com a bebida dele. Ajoelhou-se, pôs o tabuleiro sobre a mesa, encheu-se de coragem e inclinou-se para lhe beijar os pés, um de cada vez. Só há poucos minutos tinha sido informada que este ritual era a razão de o seu dono vir sem meias. Também ela preferia assim: tirou parcialmente um sapato do pé de Raul para lhe beijar a pele nua, voltou a calçá-lo e repetiu a operação com o outro. Depois voltou a levantar-se, foi buscar a sua própria bebida – desta vez sem tabuleiro – e sentou-se aos pés do dono.
– Bonito – ouviu-se alguém dizer na sala.
A música ambiente parecia ter sido escolhida para ilustrar a relação entre Raul e Teresa: Enya, Lorena McKennit, Sarah Brightman, Leonard Cohen.
Passado tempo suficiente para que Raul começasse a saborear a sua bebida, aproximou-se deles, com bondarina um pouco atrás, o homem bem parecido que tinham visto na companhia dela. Tinha o cabelo muito curto, um casaco de corte clássico em cabedal preto, e não apresentava quaisquer insígnias além de um discreto emblema circular com três semicircunferências a irradiar de um centro. Raul levantou-se para o cumprimentar e Teresa ajustou a posição em que estava para ficar de joelhos.
– Boa noite – disse o homem, dirigindo-se apenas a Raul. – O nome por que sou conhecido aqui é Mestre De Aviz. Creio que já conhece a bondarina: ela pediu-me autorização para falar consigo.
– Passou bem? – disse Raul, apertando-lhe a mão. – Claro que já o conhecia de nome, e tenho muito gosto em conhecê-lo agora pessoalmente. O meu nome aqui é Marco Aurélio. Sente-se, por favor. Esta é a minha escrava selma. Selma, beija a mão do senhor.
Teresa abriu muito os olhos, espantada, mas obedeceu prontamente. Mestre De Aviz sentou-se, enquanto bondarina se lhe ajoelhava aos pés. Raul, que nunca se tinha encontrado com bondarina a não ser de igual para igual, apercebeu-se da perturbação dela quando Mestre De Aviz lhe fez sinal para que o cumprimentasse como Teresa o tinha sido cumprimentado a ele. Pegou na mão de Raul e beijou-lha, de maneira a não deixar ficar mal o dono. Bondarina estava com um vestido vermelho muito curto, de seda ou cetim, meio roto na bainha. Trazia ao pescoço uma coleira de couro gravado, muito bonita, fechada com um cadeado de aço. Estava descalça, como Teresa, o que era perfeitamente compatível com o estilo de submissão estabelecido entre ela e Mestre De Aviz: estavam a tentar uma adaptação do estilo Goreano. Kathy aproximou-se e ficou de pé junto à mesa, hesitante, sem saber se devia sentar-se no chão, como as outras submissas, ou se, por não estar na companhia do dono, deveria sentar-se numa das poltronas, como os dominantes. Bondarina, apercebendo-se desta hesitação, bateu levemente com a palma da mão no chão junto de si, convidando kathy a sentar-se.
A conversa incidiu sobre o que tinha acontecido no Red Moon. Todos sabiam do que tinha acontecido pelos jornais ou pela televisão, mas só depois de falarem com a Baronesa é que tinham ficado a saber que “Marco Aurélio” e “selma” tinham estado envolvidos. Sabiam que tinha sido encontrado nos destroços o cadáver de um homem carbonizado, mas nem Raul, nem Teresa revelaram a identidade desse homem. Teresa contou apenas que tinha sido raptada por um desconhecido que a tinha levado para o Red Moon sem ela saber para quê. Ninguém se lembrou de perguntar como é que Raul tinha sabido onde havia de a procurar; ou se alguém se lembrou, teve a discrição de não o fazer.
Teresa e bondarina ficaram com a tarefa de servir as bebidas, a primeira beijando os pés de Raul sempre que as trazia, a segunda beijando, ao estilo Goreano, o copo que apresentava a Mestre De Aviz. Kathy, sentindo-se na obrigação de as ajudar, acabou por também servir de joelhos os dois homens, inquieta por não saber se isto representava ou não uma traição ao seu próprio dono.
− Não te preocupes – disse-lhe a Baronesa. – Traição era comportares-te como se estivesses acima da bondarina ou da selma. Isso é que deixaria ficar mal o teu dono. Logo eu falo com ele e explico-lhe.
Raul desviou a conversa para outros assuntos: quando ia sair o número seguinte da Dominium, que festas se preparavam, quem tinha encontrado um novo dono ou dona, ou um novo escravo ou escrava. E assim se passou uma noite no Justine, diferente das outras porque todos se lembraram que, para lá do seu mundo consensual, existia outro, violento e cruel, a que ninguém estava imune.
Raul e Mestre De Aviz tinham os carros estacionados perto um do outro. Saíram ao mesmo tempo e foram pela rua a conversar, seguidos por Teresa e bondarina, ambas descalças. Pelo modo de andar de bondarina, via-se que ainda não estava habituada, mas Teresa caminhava como se toda a vida o tivesse feito – o que era verdade pelo menos um mês por ano.
Em casa, quando Raul penetrou Teresa, ela pediu-lhe que ficasse parado um momento dentro dela:
− Quero mostrar-te uma coisa…
Raul sentiu que o sexo dela se contraía e alargava; mas desta vez o movimento não envolvia a vagina como um todo: começava na entrada, apertando-lhe a base do pénis, continuava na secção média, acabava no fundo, onde lhe apertava a glande com força, e recomeçava tudo uma vez após outra.
− Que bom, minha escrava! – disse Raul.
− Ainda não aguento fazer isto muito tempo – respondeu Teresa. − Mas a minha professora de pompoar diz que quando estiver treinada serei capaz de continuar durante horas.
− Pois hoje continua até não poderes mesmo mais. E não te venhas.
− Sim, meu senhor – disse Teresa, contente. E concentrou-se com todas as suas forças em dar prazer ao seu dono.

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Clara teve finalmente que admitir perante si própria que já não se sentia escrava de Lúcio. Mais do que isto: teve que admitir, o que de certa maneira foi ainda mais difícil, que Lúcio já não se sentia seu Senhor. Tornara-se dependente, possessivo e ciumento. Já não dispunha dela com a liberdade de outrora – uma liberdade esplêndida, insolente, que era quase uma displicência; em vez disto agarrava-se a ela com um amor timorato e inquieto.

Ela, por sua vez, sentia-se culpada: culpada de já não se sentir dele por mais que dissesse a si mesma que havia de o ser sempre. Cada vez mais se lembrava das palavras com que tinham selado, meses atrás, o seu pacto: «a tua única liberdade é deixares de ser minha escrava quando quiseres.» Muito bem; lindas palavras; mas para Clara o exercício desta liberdade, a mera admissão de que ela pudesse ser exercida, aparecia como uma traição e um fracasso.

E havia ainda Ricardo. Pensar em Ricardo, como Clara não se conseguia impedir de fazer, era outra deslealdade para com Lúcio. A maior traição, porém, a traição que Clara não perdoava a si própria, era o quadro que a sua imaginação lhe pintava com cada vez maior frequência – sempre inesperado, sempre súbito, sempre indesejado: ela própria aos pés de Ricardo em vez de aos de Lúcio: Ricardo, e não Lúcio, na posição de Senhor – um Senhor verdadeiro, mais atento, mais firme, mais seguro de si, mais exigente.

Culpada, portanto. Sabia-se culpada. Porque não via Lúcio que ela era culpada? Porque não a punia? Porque não se apoderava de novo dela, e a fazia sua, e lhe tirava da cabeça o pensamento indesejado de pertencer a outro?

A relação não terminou com um corte limpo nem repentino. Teve afastamentos e reconciliações, lágrimas, discussões, dias de felicidade quase perfeita. Durante um desses períodos de afastamento, Clara, sem saber se era livre ou não, começou a encontrar-se com Ricardo; e ao fim de alguns destes encontros teria sem dúvida chegado a ir para a cama com ele se ele se tivesse prestado a isso sem que estivessem perfeitamente definidos os seus direitos sobre ela.

– Não podes ter dois donos – disse ele no dia em que ela lhe ofereceu a boca num beijo.

Tão estranho é o coração humano que Lúcio, quando soube dos encontros entre Clara e Ricardo, se ressentiu mais desta infidelidade não consumada do que se teria ressentido da mais tórrida e apaixonada das ligações eróticas. Numa das últimas discussões que tiveram disse à amante, entre desencantado e furioso:

– Finalmente, não és minha escrava.

Clara ainda não estava preparada para admitir esta verdade. Foi buscar o chicote, disse a Lúcio que não a poupasse, e ele de facto não a poupou; mas no fim, perante as lágrimas dela e os vergões em carne viva que lhe cobriam o corpo, continuou a dizer:

– Não, Clara. Já não és a minha escrava.

Dias depois, durante a noite, quando ele tinha acabado de sair de dentro dela, ela murmurou, como tantas vezes antes, «sou tua».

– Pois se és minha – respondeu Lúcio – não te vais entregar ao Ricardo.

Clara não respondeu. Entregar-se a Ricardo era o seu maior desejo, e sobre isto não podia mentir. Além disso não tinha compreendido bem as palavras de Lúcio, que pareciam uma ameaça mas não tinham sido ditas em tom de ameaça. Só compreendeu quando ele continuou:

– Não te vais entregar a ele. Se não te pertences, não te podes entregar a ninguém. Quem te vai entregar ao Ricardo sou eu.

E sem mais palavras, surdo aos pedidos e às perguntas dela, levantou-se, vestiu-se a saiu. Nos dias que se seguiram, Clara não o encontrou nem em casa, nem nos lugares que ele costumava frequentar, e não conseguiu contactá-lo por meio nenhum. Durante este tempo todos os encontros que teve com Ricardo foram para falar de Lúcio, do estado de espírito de Lúcio, do medo que Clara tinha de que ele fizesse «alguma asneira».

Por fim foi Ricardo quem lhe disse:

– O Lúcio telefonou-me.

– Telefonou-te? A ti? Onde é que ele está?

– Está em Itália. Chega amanhã. Quer encontrar-se contigo e quer que eu esteja presente.

Clara ficou sem saber o que pensar. Ao fim de um longo silêncio, perguntou:

– E tu vais?

– Vou. E tu também. Vamos os dois. Mas esta noite dormes comigo.

Nessa noite, quando os corpos dos dois se uniram pela primeira vez, foi como se fossem amantes de longa data, reencontrados ao longo duma longa e penosa ausência. Amaram-se toda a noite com lágrimas e sorrisos, com denodo e temor, com violência e brandura. Mas nem por uma vez ele disse «és minha» ou ela disse «sou tua».

O encontro foi em casa de Lúcio, que os recebeu num compartimento mobilado como uma biblioteca. Convidou Ricardo a sentar-se numa poltrona e fez sinal a Clara que se sentasse no chão, como tantas vezes antes. Quando ela, corando, fez menção de se ajoelhar no seu lugar habitual em frente ao sofá, ele abanou a cabeça e indicou-lhe com o queixo o tapete à frente de Ricardo.

– Aceita um whisky? Um charuto?

– Com todo o gosto – respondeu Ricardo. – Mas só o whisky, por favor.

– Clara, queres servir-nos?

Clara, que já estava ruborizada, enrubesceu ainda mais ao ouvir esta frase que lhe pareceu cheia de segundos sentidos. Ao verter a bebida atrapalhou-se e deitou um pouco por fora de um dos copos. Poucos dias antes este lapso teria sido pretexto para um castigo severo, mas desta vez Lúcio limitou-se a dizer:

– Deixa estar, não faz mal. Depois a empregada limpa.

Parecia não estar com pressa: esperou que ela servisse os dois whiskies e se sentasse de novo no chão aos pés de Ricardo antes de perguntar:

– Diga-me, Ricardo, a Clara alguma vez lhe disse que me pertencia?

– Sim – respondeu Ricardo. – Várias vezes.

– Ah. E alguma vez lhe disse que tinha deixado de me pertencer?

– Não, nunca.

– Nem que lhe pertencia a si?

– Também não. Tanto quanto sei, a Clara considera-se propriedade sua.

Lúcio sorriu levemente.

– Nem nunca lhe disse que desejava ser sua?

– Os desejos da Clara – respondeu Ricardo, pausadamente – não contam.

Lúcio levantou-se do sofá e serviu-se doutro whisky.

– Da última vez que estive com a Clara – murmurou – disse-lhe que não queria que ela se entregasse a si. Queria ser eu a entregar-lha. Ela contou-lhe?

Ricardo assentiu com a cabeça e Lúcio continuou:

-Sabe, Ricardo? Há uma coisa sobre mim de que a Clara provavelmente nunca se deu conta. Não esteve comigo tempo suficiente para isso. Mas é importante que o saibam agora, ela e você.

Ricardo levantou uma sobrancelha e esperou polidamente que Lúcio prosseguisse.

– Sou um jogador, meu caro Ricardo Sempre o fui, desde que me conheço. Não por compulsão, nem por qualquer tendência auto-destrutiva. Pertenço à espécie rara dos que ganham mais do que perdem.

Ricardo inclinou um pouco a cabeça:

– Espécie rara, com efeito.

– Mas mesmo assim aprendi a perder – disse Lúcio, como se o não tivesse ouvido. E acrescentou, perdendo pela primeira vez um pouco da calma com que até então tinha conduzido a conversa:

– Aprendi a perder, e aprendi sobretudo a nunca jogar a feijões. Está-me a entender?

– Não – disse Ricardo. – Lamento, mas não estou a compreender aonde quer chegar.

Lúcio mostrava agora alguns sinais de agitação:

– Aonde quero chegar? Quero chegar aqui: sei que vou perder a Clara, se não a perdi já. Mas não quero que você a ganhe sem pagar um preço. Reflecti muito enquanto estive em Itália, e decidi isto: a Clara, nunca lha darei, mas vendo-lha. Se você a quiser e puder pagar, eu vendo-lha. Aceita?

Sentada no chão, Clara teve um sobressalto violento. Ter-se-ia levantado de repente se Ricardo, com um gesto imperioso, a não tivesse obrigado a ficar quieta.

– E já pensou no preço? – perguntou ele, serenamente.

Lúcio bebeu um trago de whisky e mencionou uma quantia que levou Clara a dar outro salto no lugar. Porquê isto? Lúcio era rico, bem mais rico que Ricardo. Nem precisava de dinheiro, nem era ganancioso: disto tinha Clara a certeza. E para Ricardo a quantia pedida era, sem ser ruinosa, significativa. Teria Lúcio tido em conta as circunstâncias do outro?

– Por esse preço não a quero – disse Ricardo, impassível. – Dou-lhe o dobro.

A estas palavras Lúcio ergueu o queixo.

– Peço-lhe que não me insulte. Pedi-lhe um preço por esta mulher, é esse preço que está em discussão.

– Tem razão – disse Ricardo. – Peço desculpa. Estou de acordo com o preço, naturalmente.

E sem mais palavras tirou do bolso o livro de cheques. Enquanto desenroscava a tampa da caneta virou-se para Clara:

– Descalça-te, Clara. Agora és propriedade minha.

Com as lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto, Clara tirou os sapatos de salto muito alto com que Lúcio gostava de a ver e que tinha trazido calçados em homenagem a ele. Viu o cheque mudar de mãos. Aproximou-se de Ricardo, ajoelhou, beijou-lhe a mão.

À despedida, o sorriso que deu a Lúcio foi tanto de agradecimento como de compaixão. Os sapatos, deixou-os com ele.

(Publicado no Blogger a 08/09/07)

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Mariana chegou cedo a Heidelberg, antes do pôr-do-sol. Como de costume Ricardo estava à sua espera na estação. Março estava a chegar ao fim e ainda havia uns restos sujos de neve nas beiras dos passeios.

A viagem de eléctrico foi rápida. Quando chegaram a casa Ricardo ordenou:

– Vai tomar duche e arranjar-te. Eu já tomei antes de te ir buscar, agora é só vestir-me.

Mariana sabia que uns amigos ou conhecidos de Ricardo o tinham convidado para jantar e que tinham insistido em conhecê-la; por isso trouxera na bagagem cosméticos, um vestido de cocktail decotado, meias de nylon e sapatos de salto alto. Mas quando saiu da casa de banho em calcinhas, soutien e cinto de ligas, segurando o vestido à frente do corpo para Ricardo ver, este disse-lhe:

– Não, assim não. Tira tudo, põe só aquele vestido em cima do corpo.

E mostrou-lhe o vestido que tinha estendido sobre a cama, comprido, vermelho escuro, todo de véus e transparências. Sobre a mesinha de cabeceira, aberto, um estojo com bijuterias: colar, pulseira, anéis, adornos para os pés, tudo engastado com pedras – granadas ou turmalinas – da mesma cor que o vestido.

– Mas eu pensava – disse Mariana, surpreendida – que o convite era formal.

Ricardo já estava vestido: fato preto sobre uma T-shirt preta que parecia de seda, sapatos com solas de couro e atacadores, um anel de metal escuro com uma pedra preta na mão esquerda.

– E é formal, as formalidades é que são outras.

E mostrou-lhe o convite: «Schwarzer Anzug, Halsband».

– Fato preto? Coleira? Vais pôr-me uma coleira, como as dos cães? Quem é esta gente, afinal?

– O Gunther e a Silke sabem que a tua coleira é andar descalça – respondeu Ricardo. – Veste-te.

Ao enfiar o vestido, Mariana verificou sem surpresa que a parte de cima era bastante transparente. Isto não a incomodou sobremaneira, sabia que tinha os seios bonitos e gostava de os mostrar. O que a preocupava era outra coisa:

– Vais-me obrigar a ir descalça pela neve? Em cima desta bijuteria não posso calçar nada…

– Não faz mal, a casa deles é aqui perto. Mal vais sentir o frio.

O apartamento de Gunther e Silke ficava no terceiro andar dum prédio antigo sem elevador. No átrio de entrada Ricardo ajudou Mariana a tirar o casaco e entregou-o, juntamente com o seu sobretudo, à pessoa que lhes tinha aberto a porta: uma mulher de cerca de trinta anos, bonita, com os cabelos severamente apanhados na nuca e um caftan preto que lhe caía até aos pés nus. Mariana reparou que a mulher, tal como ela, não trazia coleira; reparou também que nem Ricardo a cumprimentou nem ela disse nada: apenas quebrou a sua posição hierática para lhes arrumar os agasalhos num armário e para lhes indicar, com um gesto cheio de dignidade, a entrada da sala.

Lá dentro, à espera, estavam os donos da casa: um homem louro, mais alto e mais entroncado do que Ricardo, vestido como ele excepto por uma camisa e gravata pretas. Atrás dele e um pouco para a esquerda estava uma mulher alta, magra e de cabelos pretos que se manteve de pé com os olhos baixos enquanto o homem avançava um passo, apertava a mão a Ricardo, dava as boas-vindas e fazia as apresentações:

Ach, Richard, willkommen. Das is meine Frau Silke.

Bezaubert. Und das ist meine Sklavin Mariana – respondeu Ricardo. – Mariana, Gunther. A Silke é a mulher dele.

Silke estava toda de preto: mini-saia e colete de cabedal, meias de nylon, sapatos de salto alto e uma coleira com picos metálicos como as dos cães pastores. Sempre de olhos no chão deu dois passos em direcção a Ricardo, dobrou os joelhos numa vénia e beijou-lhe a mão. Depois avançou em direcção a Mariana, levantando para ela os olhos que eram dum azul quase transparente e beijou-a na face.

Mariana estava em plena vertigem: tinha sido apresentada por Ricardo como a sua Sklavin (escrava); tinha visto pela primeira vez, sem ser em fotografias, uma pessoa com uma coleira de cão; e agora esperava-se dela, era óbvio, que cumprimentasse um homem desconhecido com um beijo na mão. Chamou em seu auxílio todo o treino em boas maneiras que tinha recebido em criança e adolescente. Pareceu-lhe ouvir a mãe, as tias, as freiras do colégio: em casa das pessoas tens que fazer como as pessoas. Sem dar sinal da sua perturbação, dirigiu-se a Gunther, fez-lhe uma vénia e beijou a mão que ele lhe estendia. No dedo anelar viu um anel de pedra preta igual ao de Ricardo. Sentiu que os olhos dele a examinavam de cima a baixo e ouviu-o dizer a Ricardo:

Schade, dass Sie Ihre Sklavin nicht verteilen…

Mariana ouviu estas palavras com alívio. Se para Gunther era uma pena que Ricardo não partilhasse a sua escrava, para ela isto não era pena nenhuma. Pelo contrário, o temor de que ele o quisesse fazer, conjugado com a certeza que tinha de que o recusaria, era a causa principal da perturbação que sentia. Mais calma, olhou para a sala com maior atenção. No fundo, junto da mesa, estavam duas raparigas louras, calçadas como Silke com meias pretas e sapatos de salto alto. Tinham saias até abaixo dos joelhos mas estariam nuas da cinta para cima se não fosse pelos peitilhos brancos, que mal lhes cobriam os seios, dos aventais folhados. Na cabeça, completando os trajos de criada, traziam toucas brancas rendadas e folhadas como os aventais, e no pescoço coleiras como a de Silke.

A um sinal da intendente ou governanta que tinha aberto a porta da entrada, e que entretanto tinha regressado à sala, estas raparigas serviram uma bebida a cada um dos homens. Silke serviu-se a si própria e a Mariana e começou com ele uma conversa, ou melhor um interrogatório. Desde quando era Mariana escrava de Ricardo? Porque é que não usava coleira? Porque é que estava descalça? A bijuteria era muito bonita e ficava-lhe muito bem, sobretudo nos pés. Tinha sido R icardo (Silke dizia Richard) que lha tinha dado?

A curiosidade de Mariana não incidia tanto sobre Gunther, ou Silke, ou as criadas, ou mesmo sobre as coleiras, como sobre a figura de mulher que lhe tinha aberto a porta. Quem era ela? Porque é que nunca falava? Ach, es ist nur die Hilda, die Verwalterin. Só a Hilda, a governanta. E porque é que estava descalça? Ora, andava sempre assim. Era ela que queria. Era uma pessoa muito sóbria, sehr genügsam, e gostava do silêncio.

Durante o jantar Mariana quase só teve olhos para Hilda, apesar do silêncio e da quase invisibilidade com que esta, com os seus pés nus e o seu traje severo, dirigia o serviço. Uma vez, uma vez só, Hilda encontrou o olhar de Mariana – e isto intencionalmente, com o propósito óbvio de lhe indicar, por um sorriso quase imperceptível e um igualmente discreto inclinar de cabeça, que a compreendia e saudava.

Depois do jantar, servido o conhaque e acesos os charutos, Hilda desapareceu. Mariana, a um sinal do dono, sentou-se no tapete à frente dele. As duas criadas colocaram-se de pé, sem que ninguém lho tivesse ordenado, junto dos dois homens, que lhes levantaram as saias e lhes foram acariciando os sexos – uma tinha-o rapado, a outra não – enquanto conversavam sobre as subtilezas da investigação literária e ignoravam ostensivamente os ciúmes de Mariana, vestida de vermelho e prostrada no chão.

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