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Cap. 38: VAIVÉM

[ … ] Depois da aula, em casa, Teresa serviu o almoço a Raul; à tarde viu um filme, sentada aos pés dele, sem saber o que aconteceria a seguir. À noite, Milena serviu o jantar sozinha porque Teresa recebera ordem de se arranjar com especial cuidado para o jantar.

– Fica de seios nus, mas não os maquilhes – disse Raul. – Põe os teus rubis.

Para acompanhar o jantar, Raul escolheu Mozart: a Sinfonia nº 38, o Concerto de Piano nº 23 e Eine Kleine Nachtmusik. Terminada a comida e a música, ordenou a Teresa que fosse buscar Ana, que estaria à sua espera, a casa de Miguel.

– Veste o teu casaco mais quente por cima do tronco nu, põe um cachecol e um gorro, mas não te calces. Deixa aqui a Ana, volta para casa do Miguel e fica à disposição dele até ele te mandar para casa.

Atordoada, Teresa nem sequer foi capaz de dizer “sim, meu senhor”, mas também não pensou em desobedecer. Estava desvendado o mistério: ia ser emprestada a outro homem; o seu dono, o seu senhor querido, de quem pensara ser a única escrava, ia servir-se doutra mulher; e não sabia qual das duas coisas lhe doía mais. Foi ao quarto de banho e arranjou-se para sair, sempre com aquele “sim, meu senhor,” que não dissera, a soar-lhe aos ouvidos como um mantra. Agasalhou-se, pegou nas chaves do Smart, desceu ao estacionamento, entrou no carro e foi onde Raul a enviara.

A própria Ana lhe abriu a porta, muito agasalhada mas, tal como Teresa, com os pés nus.

Durante o percurso não falaram. Cada uma estava perdida na contemplação do futuro imediato: iam ser cedidas, iam ser traídas. Não: traídas, não. Ambas se davam conta, mais agudamente que nunca, que Raul e Miguel não lhes pertenciam. Talvez tenha passado pela cabeça de Ana revoltar-se; mas, ao ao ver a expressão de Teresa – pálida, orgulhosa e decidida a obedecer custasse o que custasse – resolveu-se a orientar o seu comportamento pelo dela. Teresa entrou com o carro na garagem subterrânea e acompanhou Ana até à porta do apartamento para a entregar a Raul.

– Entra, Ana – disse este. – E tu, Teresa, podes ir. Obedece ao Miguel em tudo.

Sim, meu senhor, pensou Teresa. Fez o segundo percurso até casa de Miguel num estado de perturbação ainda maior do que tinha feito o primeiro. Já não contemplava apenas o seu futuro próximo, mas o presente que se desenrolava atrás de si, entre Raul e Ana. Sim, meu senhor. Estariam estas palavras, neste momento, a ressoar também na cabeça de Ana? Ou, mil vezes pior, estariam a sair-lhe dos lábios, dirigidas a Raul? Apertou o volante com as mãos até os nós dos dedos lhe ficarem brancos: Não, não era possível. Tudo, menos isso.

Miguel recebeu-a à porta. Ajudou-a a tirar o casaco, pegou-lhe no cachecol e no gorro, que arrumou, e quando a viu nua da cinta para cima não fez qualquer comentário.

– Anda comigo – disse.

O aquecimento central não era tão eficiente aqui como no apartamento de Raul, mas a temperatura não era demasiado desconfortável, nem para os pés nus, nem para o tronco nu de Teresa. Seguiu Miguel para o quarto, onde ele lhe ordenou que acabasse de se despir e tirasse as jóias.

Teresa obedeceu prontamente e em silêncio. Miguel encostou-se à ombreira da porta a vê-la tirar a saia e as jóias.

– Anda cá – disse Miguel.

Teresa avançou até ficar de pé a meio metro dele, que lhe tomou as mãos para as aquecer por um momento entre as suas e depois a beijou na boca, que ela não abriu mas também não fez força para manter fechada.

– Despe-me – disse ele.

Teresa começou por lhe tirar a T-shirt preta e arrumou-a nas costas duma cadeira. Como devo agir, pensou Teresa, com um homem que não é o meu senhor, mas a quem tenho que obedecer? Não lhe beijaria os pés, a não ser que ele lho ordenasse, nem lhe daria quaisquer outras mostras duma humildade que não sentia em relação a ele; mas obedeceria em tudo, e esforçar-se-ia o mais que pudesse para lhe dar prazer. Ajoelhou-se para o descalçar: as sapatilhas eram difíceis de tirar, tinham muitos cordões e era preciso fazer força. Ainda de joelhos, desapertou-lhe o cinto e as calças. Miguel ajudou-a a tirar-lhas, levantando alternadamente os pés; ela endireitou-as e arrumou-as junto com a T-shirt. As cuecas tinham uma mancha húmida que as tornava transparentes. Ajoelhou-se para lhas tirar, mas desta vez não se voltou a erguer: atirou as cuecas para junto da outra roupa e só então olhou para o membro erecto à sua frente. Era diferente do de Raul, mais comprido e mais fino, e completamente a direito. Como não tinha sido circuncidado, a glande era mais vermelha e parecia molhada.

– Chupa-me o pénis.

Sim, meu senhor, disse ela intimamente a Raul; não te deixarei ficar mal. Tomou na boca este pénis que não conhecia: havia de usar as carícias que Raul lhe tinha ensinado, ou as que tinha aprendido nos seus anos de puta? Qual destas opções honraria melhor o seu senhor? A primeira, claro: Raul tinha emprestado a Miguel a sua própria escrava, não uma puta qualquer apanhada na rua. Miguel gemeu de prazer com esta carícia, que ela continuou até ele lhe ordenar que se deitasse na cama e abrisse bem as pernas, entre as quais se ajoelhou para lhe ver o sexo. Viu os anéis de titânio que o transfixavam, fê-los oscilar um a um com a ponta do dedo e suspirou:

– Se eu pudesse, mandava fazer o mesmo à Ana…

Passou-lhe a mão lentamente pelo ventre, pelas ancas, beijou-lhe os seios, e finalmente ordenou:

– Estás seca, masturba-te um pouco.

Teresa enrubesceu até ao peito, mas obedeceu. Se estivesse com Raul, não estaria seca; estaria já quase à beira dum orgasmo. Mas Miguel tinha direito a que ela lhe apresentasse uma vagina bem lubrificada, que ele pudesse penetrar à vontade. Começou a acariciar o clítoris, imaginando que eram os dedos de Raul, até que ficou pronta a ser possuída. Miguel pôs um preservativo, deitou-se sobre ela, penetrou-a sem brutalidade – mas também sem uma ternura excessiva que só a humilharia – e começou a mover-se dentro dela. Teresa não teve qualquer dificuldade em usar as técnicas do pompoar, que se estavam a tornar automáticas para ela. Os movimentos dele tornaram-se mais rápidos e vigorosos e a respiração mais ofegante. E foi neste momento que Teresa sofreu a maior humilhação da sua vida:

– Vem-te agora – disse Miguel.

E ela teve o orgasmo que não tencionara ter, um orgasmo intenso que a obrigou a abraçar Miguel, a colar-se a ele apaixonadamente, a procurar-lhe a boca e a língua como procurava a boca e a língua de Raul; e tudo isto desencadeado por duas pequenas sílabas, uma ordem seca dada por outro homem. Já sabia que o seu corpo obedecia a Raul sem intermediação da sua vontade, e tinha orgulho em tê-lo treinado para isto; mas nunca imaginara que este treino o fizesse obedecer assim a outro homem. Quem era ela, a quem o seu próprio corpo não obedecia? Em que se estava ela a transformar? Passara os últimos meses a transformar-se, deliberada e metodicamente, na escrava de Raul; mas nunca tinha sido sua intenção tornar-se no seu próprio ser uma escrava, obediente por reflexo a certas ordens, dadas num certo tom fosse por quem fosse. Não tinha sido ela a transformar-se nisto; tinha sido Raul que a transformara. Sentiu uma indignação que lhe subia ao peito, logo cancelada pelas palavras que tantas vezes dissera, e não em vão: sou tua, faz de mim o que quiseres. Se estava a transformar-se, não no que planeara, mas no que Raul queria, isto não podia ser senão justo. Era humilhante, esta obediência reflexa a outro homem; mas não a fazia escrava dele: fazia-a, sim, mais escrava de Raul. Virou a cara para não ver Miguel, mas sentiu com agrado as suas carícias. Ficou-lhe grata quando ele, pudicamente, foi tomar duche sozinho e lhe permitiu que fizesse o mesmo. Já não o encontrou no quarto, onde vestiu a saia e pôs as jóias. Foi encontrá-lo na sala, já vestido, e sentiu vergonha dos seus seios nus como não tinha sentido ao entrar. Miguel deu-lhe um beijo leve na boca, a que ela correspondeu, e disse:

– Podes ir, o Raul telefonou. Não entres na garagem: espera à porta do prédio. Tranca o carro. Abre-o só para deixar entrar a Ana.

Mas Miguel ajudou-a rapidamente a vestir-se e deu-lhe um beijo à despedida, desta vez na cara.

Ao ficar sozinho com Ana, Raul pegou-lhe na mão e conduziu-a à sala.

– Entra, Ana. Põe-te à-vontade. Dá cá o casaco.

Ana tirou os agasalhos, que ele entregou a Milena para que os arrumasse.

– Dá uma volta para eu te ver – disse Raul.

Ana rodou sobre si mesma e voltou-se de novo para ele.

– Estou bem? – perguntou.

Estava linda, pensou Raul. Não estava de seios nus, como Teresa, mas sim com um top que lhe descobria o umbigo. A saia, preta e um pouco transparente, tinha a cinta muito descaída, e caía em pregas largas até aos tornozelos. Todos os adornos eram de prata, e o cabelo estava cuidadosamente penteado de modo a parecer que o não estava.

– Senta-te – disse Raul.

Ana sempre tinha visto Teresa sentada no chão, nunca no sofá, mas sentiu um certo acanhamento que a impedia de fazer o mesmo. Ia sentar-se na borda do sofá quando Raul lhe disse:

– Podes sentar-te no chão. Queres tomar alguma coisa?

Ana acenou que não. Raul pegou-lhe na mão, sentou-se no sofá, muito perto dela, e perguntou-lhe:

– Sabes para o que estás aqui?

– Para fazer tudo o que o senhor mandar – disse Ana.

– Então anda comigo, minha querida.

Quando chegaram ao quarto, Ana quis dar-se algum tempo. Não se sentia pronta para se despir já, como uma puta; e tinha necessidade de falar, de se justificar.

– O senhor vai-me possuir?

– Sim, querida, vou-te possuir – respondeu Raul, pronto a dar-lhe o tempo de que ela precisasse.

– Sabe, o Miguel é o único homem a quem me submeti até hoje… Já não era virgem quando comecei com ele, mas nunca tinha sido submissa de ninguém.

– E agora vai difícil obedecer-me.

– Um pouco – respondeu Ana. – Mas com o senhor sou capaz. Foram o senhor e o Miguel que decidiram sozinhos, não foram? A Teresa não entrou nessa decisão…

– Fomos nós sozinhos – respondeu Raul.

Esta resposta tornava tudo mais fácil. Se Teresa tivesse conspirado contra ela…

– Estão no seu direito… – murmurou. – Quer que me dispa agora?

Raul mandou-a tirar só o top. Ana tinha os seios um pouco mais pequenos que os de Teresa, de forma cónica, e com as aréolas dum rosado muito claro que quase não fazia contraste com a pele. Tapou-se com as mãos, mas logo se destapou, como se tapar-se fosse uma falta. Raul sorriu:

– Uma escrava não tem direito ao pudor, não é, minha querida?

– É verdade… – murmurou Ana, corando.

Raul mandou-a tirar a saia e deitar-se na cama, onde ficou apoiada sobre um cotovelo, olhando para ele enquanto ele se despia. Raul era o homem mais velho que Ana já tinha visto nu: não soubera o que esperar, mas afinal era um homem como os outros, mais atraente que muitos. A primeira carícia que ele lhe fez, entre o pescoço e o ombro, fê-la estremecer; mas devolveu-lha, tocando-lhe no peito; e beijou-o timidamente na boca. Raul deitou-se de costas, cruzou as mãos sob a nuca e disse:

– Anda tu por cima, Ana. Mostra-me o que sabes fazer.

Ana tinha a certeza que sabia fazer tudo. A experiência que tinha com homens era muito pouca, limitava-se quase só a Miguel. Sabia dar prazer a Miguel, e portanto devia ser capaz de dar o mesmo prazer a Raul. Pôs-se de gatas por cima dele, deixando pender os colares e as correntes, e começou a beijá-lo nos olhos, nas orelhas, na boca, nos mamilos… Quando estendeu a mão para lhe agarrar no pénis, ele disse que não, ainda não… Ainda não, porquê? Miguel gostava… Mas obedeceu e continuou a beijá-lo, progredindo devagar até lhe chegar ao sexo depilado, tão confortável de meter na boca. Quando começou a chupá-lo, sentiu a mão dele entre as pernas, que abriu para lhe dar espaço.

Raul começou por lhe tactear os lábios exteriores da vulva, de comissura a comissura, primeiro de um lado e depois do outro. A seguir, percorreu a fenda entre eles e, quando chegou ao extremo desta, continuou a acariciá-la entre as pernas, no rego entre a vulva e o ânus. Regressando à vulva, mais fina e mais comprida que a de Teresa, separou-lhe com os dedos os lábios exteriores e começou a afagar-lhe os interiores, que eram nela muito rosados e um pouco proeminentes. O toque de Raul era duma delicadeza extrema: Ana nunca tinha sido acariciada neste lugar por uma mulher, mas imaginava que seria assim, e era muito bom… Por um momento perdeu a concentração, mas ouviu Raul, que lhe dizia:

– Ana, presta atenção, não pares…

Não podia parar de chupar Raul. Estava ali para o servir: tinha sido essa a ordem, muito clara, que Miguel lhe dera. Mas como podia ela ignorar aqueles dedos que se lhe insinuavam pelos folhos da vulva, lubrificados pelos sucos da vagina? Raul descobria-lhe agora o pequeno capuz que lhe escondia o clítoris; este já tinha a pontinha de fora, mas Raul, com infinitos cuidados, afastou o capuz para trás de maneira a descobri-lo mais, e começou a titilar com movimentos rápidos o botãozinho que tinha deixado a descoberto. Ana não sabia o que queria, se queria que ele continuasse a fazer isto por toda a eternidade ou que a penetrasse e possuísse sem delongas. Mas sabia o que Miguel havia de querer: que ela se concentrasse e continuasse, até ordem em contrário, a chupar o melhor que soubesse o pénis de Raul. A ordem em contrário não se fez esperar muito:

– Vem agora, minha querida. Empala-te em mim.

Ana assim fez, com um pequeno gemido. Coleou por Raul acima, deitou-se sobre ele com as pernas abertas, pegou-lhe no pénis para o apontar exactamente à abertura da vagina, e baixou-se sobre ele, sentindo como ele a enchia por dentro. Os movimentos de Raul dentro dela foram, ao princípio, quase imperceptíveis: queria dar-lhe oportunidade de mostrar do que era capaz; e ela, que não queria outra coisa, começou a combinar o que sabia que agradava a Miguel com o que sabia de pompoar.

Raul, deliciado, reteve o orgasmo. Começou a acariciar Ana nas nádegas e nas costas, beijando-lhe a boca, os mamilos, o pescoço sempre que ela se inclinava o suficiente para lhe chegar ao alcance dos lábios. Viu-lhe corar o rosto e o peito, ouviu-lhe a respiração transformar-se num gemido e logo a seguir num arquejo; sentiu como os músculos da vagina se apertavam, já não como no pompoar, mas num tremor involuntário; e esvaiu-se dentro dela com três estocadas fortes, ouvindo-a exclamar:

– Sim, Miguel, sim, vem-te em mim, meu querido!

Mais tarde, com ela estendida sobre ele, escondendo o rosto na curva do braço, ouviu-a dizer:

– Que vergonha, Raul… Chamei-lhe Miguel…

Raul riu-se, obrigou-a a encará-lo e respondeu:

– Tolinha… Pensas que isso me ofendeu? Pelo contrário, até me lisonjeou. Mas agora vá, toca a lavar e a vestir, que tens o teu dono à espera.

Teresa parou o Smart à porta do prédio. Alguém devia ter coordenado as coisas muito bem, porque não passaram mais do que uns segundos até Ana aparecer. Um grupo de rapazes e raparigas, à conversa ali perto, devem ter ficado um pouco admirados ao vê-la dirigir-se para o carro toda agasalhada, mas descalça. Teresa ligara o aquecimento: esperou que Ana se ajeitasse com o cinto de segurança e arrancou: a quinta vez que fazia o mesmo percurso nessa noite. Ao princípio não disseram nada, embora por vezes Ana desse a impressão de querer dizer alguma coisa. Por fim, não se conteve:

– Como te tratou o Miguel?

Teresa não compreendeu: queria Ana saber se Miguel a tinha tratado bem? Que importância tinha isso? Não eram ambas escravas?

– Não é isso – disse Ana. – O que é que ele te chamou? Chamou-te minha escrava?

– Não – disse Teresa, elucidada. – Chamou-me sempre Teresa.

Teresa gostou de sentir Ana relaxar ao seu lado, como que aliviada de um peso.

– E o Raul – perguntou. – Chamou-te minha escrava?

– Não, chamou-me Ana e minha querida. E eu também não lhe chamei meu senhor.

Teresa envolveu-se toda no prazer desta resposta: Raul fizera com Ana o que quisera, mas não lhe chamara minha escrava.

– Também me chamou tolinha…

Então puseram-se as duas a rir, em paroxismos tais que Teresa teve que parar o carro até recuperar o controlo sobre si mesma. Tolinha… e de cada vez que uma delas dizia esta palavra, a outra respondia:

– Cala-te, não me faças rir.

E assim foram até casa de Miguel, onde Teresa esperou que Ana entrasse, gelando de novo os pés.

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Cap. 29: LABIA MAJORA

Havia alguns minutos que Raul, debruçado sobre Teresa na cama, acariciava e beijava a sua escrava, que dava pequenos gemidos e retribuía brandamente as carícias dele. Pouco a pouco, as mãos e os lábios dele foram-se aproximando da vagina de Teresa, que começou lentamente a afastar as coxas para lhe facilitar o acesso. Raul acariciava-lhe os pequenos lábios e o clítoris, beijando-os e sugando-os com toda a leveza de que era capaz.

− Deixa-me ver bem a tua coninha, minha escrava.

Teresa, flutuando no mar morno da sua excitação, não entendeu: então ele não a estava a ver bem? Viu-o levantar-se, sair do quarto, e voltar com um candeeiro, que colocou aos pés da cama e acendeu.

− Abre mais as pernas.

Teresa obedeceu. Isto não era excitante, não dava prazer, não significava nada que ela entendesse, mas, para quem se deu a alguém, confiar é obedecer: Raul sabia com certeza o que estava a fazer. Parte da excitação que Teresa sentira regressou, apesar da luz forte, quando Raul recomeçou a tocar-lhe a vulva, afastando com os dedos os grandes lábios, tocando-lhe o clítoris, examinando o capucho que o escondia parcialmente, apalpando por fora a parte que se oculta no interior do corpo. Era como o toque do ginecologista, que a deixava fria, mas ao mesmo tempo era o toque do amante, que a deixava em brasa: mais uma sensação nova para juntar às que Raul lhe provocava. Raul sabia que o clítoris de Teresa era bem mais longo do que parecia, e se parecia pequeno, era porque só a ponta aflorava à superfície do corpo. Procurou seguir-lhe a raiz com os dedos e conseguiu-o em parte, mas não teve a sensibilidade suficiente para se dar conta do ponto em que a raiz do clítoris se bifurca, rodeia a uretra pelos dois lados e se vai ligar à vagina. Depois seguiu-lhe com os dedos os pequenos lábios, beijando-os de vez em quando, mas aparentemente mais atento ao exame que estava a fazer do que ao prazer que pudesse dar ou obter. Apertou-lhe os lábios exteriores um contra o outro: eram bastante carnudos, e apesar da excitação de Teresa, ocultavam por inteiro os lábios interiores, que eram mais estreitos do que o habitual, e frisados como pétalas de cravo.

− Perfeito – murmurou para si mesmo.

Era bom que Raul considerasse que ela tinha uma vulva perfeita, mas perfeita para quê? Teresa ignorava a razão deste exame a frio, que começava a excitá-la quase tanto como a excitaria uma verdadeira carícia; mas não ousou fazer qualquer pergunta. Em todo o caso, o exame não durou muito mais: Raul levantou-se, desligou o candeeiro e retomou as carícias de havia pouco, até que o corpo de Teresa se contorceu numa convulsão de prazer. Raul manteve-a no cume durante tanto tempo quanto foi capaz, para depois a trazer de volta muito lentamente. Teresa sentia-o muito excitado – bastava sentir-lhe a dureza do pénis – mas, como era típico dele, sem pressa nenhuma de a penetrar. O que queria ele agora dela? Começou a beijá-lo na cara, nos ombros e no pescoço. Raul começou a tocar-lhe sucessivamente os seios, os flancos, as ancas, testando-lhes a textura e a firmeza.

− Meu senhor, posso fazer-te uma pergunta? – disse Teresa. − O que foi aquilo há bocado? Estavas a brincar aos médicos?

Raul riu-se, beijou-a na comissura dos lábios e respondeu:

− Não é bem isso, minha escrava. São duas coisas que tenciono mandar fazer-te. Uma depilação definitiva…

– Hmmm… – respondeu Teresa. – Não sei se vou gostar… mas tu é que decides, claro.

– Claro – concordou Raul. – Amanhã tens uma consulta marcada. Andei a ver qual era a melhor clínica do Porto. O tratamento completo vai demorar de um a dois anos, até que os pelos não voltem a crescer, mas os resultados vão começar a ver-se logo a partir do primeiro.

− Sei como é – disse Teresa. – E qual é a outra coisa que me vais fazer?

− Vou mandar pôr-te piercings na vulva, nos lábios maiores. Mas isso é para mais tarde, e vai ter que ser feito em S. Paulo.

− Em S. Paulo? Que piercings tão especiais são esses? Pensei que bastava chegar ali à Baixa a qualquer casa de tatuagens e sair de lá meia hora depois com os piercings postos…

Raul começou a acariciar-lhe a vulva com a mão enquanto lhe respondia.

− Estes vão ser mesmo especiais. Vão ser em titânio e desenhados para o fim que tenho em vista.

Teresa soltou um gemido:

− Meu senhor… sou tua, farás de mim o que quiseres… mas agora estou a imaginar que me vais fazer as coisas mais inconcebíveis, sem eu saber o que é… Não vai ser nada que te impeça de me possuir, pois não?

Raul deu uma risada branda:

– E eu alguma vez ia querer deixar de te possuir? Não, meu amor, não vai ser nada disso. O que pode, é impedir que outros te possuam… Não te importas?

– Eu? Não, meu senhor. Até fico excitada… saber que sou só tua, mesmo fisicamente… que não me pertenço, mas a ti… mas gostava que me mostrasses outra vez isso mesmo; posso-te pedir isso?

Como poderia Raul não perdoar? Antes de a penetrar, recomeçou a acariciá-la e a beijá-la longamente na vagina, nos pequenos lábios e no clítoris, e, em cada ponto em que ele tocava, Teresa perguntava a si mesma: vai ser aqui? Vou ser furada aqui? Não a perturbava usar piercings: já tinha tido furos nos mamilos que depois tinham acabado por cicatrizar e desaparecer. Minutos mais tarde, quando lhe pediu licença para gozar, ele negou-lha; e ela ficou acordada durante horas, trespassada daquela estranha energia, daquele estranho prazer que não sabia explicar, sentindo-o dormir ao seu lado, saciado. Em cada dia que passavam juntos, parecia a Teresa que a sua escravidão se aprofundava mais um pouco. Tinha consentido nas modificações que Raul se propunha fazer-lhe no corpo, sem mesmo perguntar quais eram; apenas lhe pedira que lhe mostrasse mais uma vez que não se pertencia a si própria, mas a ele. Mas Teresa reflectia também que o que se aprofundava não era tanto a sua escravidão como o domínio de Raul sobre ela, um domínio cada vez mais envolto em ternuras e cuidados, como dizia Carolina, mas cada vez mais livre de culpas e de escrúpulos.

Noutra noite, numa noite de castigo, Teresa jantou à mesa com Raul – com a sua saia mais sumptuosa, e coberta de jóias como era regra, mas nua da cinta para cima. Milena, que servia a refeição, sorria-lhe de vez em quando e acariciava-lhe o ombro, como para lhe dar coragem; e Teresa bem precisava de coragem para suportar o que lhe estava reservado para daí a pouco.

Com efeito, Raul, depois de ter bebido o seu whisky e fumado o seu charuto, com ela todo o tempo a beijar-lhe os pés, mandou-a esvaziar a bexiga e esperar por ele, toda nua e sem jóias, no quarto dos castigos. Teresa esperou de pé, com a cabeça baixa e os braços caídos ao longo do corpo. Quando Raul entrou, não ergueu os olhos para ele, mas reparou que tinha mudado de roupa e estava agora de chinelos, pijama e roupão. Quando ele lhe pôs a mão no queixo para a obrigar a erguer a cabeça e lhe dar um beijo na face, Teresa fechou os olhos, virou-se para ele e ofereceu-lhe docemente os lábios.

− Deita-te na banca da esquerda, de barriga para cima.

Era a banca abaulada: deitada sobre ela, Teresa ficava com a pélvis mais alta que a cabeça e os pés. Tinha ido nessa tarde à consulta marcada na clínica de beleza: depois de a examinarem, tinham-na rapado com uma lâmina e feito vários testes antes de lhe fazerem o primeiro tratamento com luz pulsada. Era uma sensação estranha estar assim exposta, com o sexo completamente depilado, mais nua do que alguma vez se tinha sentido. Sentiu que Raul lhe amarrava o pulso direito, apertando a corda com força e atando-o a uma das argolas de bronze no canto da banca. Depois amarrou-lhe os tornozelos, escolhendo as argolas de bronze que a faziam afastar mais as pernas. Entretanto, ajeitando o corpo em direcção à cabeceira da banca, Teresa tinha conseguido aliviar a tensão da corda que lhe prendia o pulso; mas, com as pernas presas, isto já não lhe foi possível quando ele lhe amarrou o pulso esquerdo. Voltando aonde tinha começado, Raul desatou o pulso que tinha amarado em primeiro lugar e puxou a corda antes de o atar outra vez; e assim deu várias voltas à banca, esticando as cordas mais um pouco, sempre pela mesma ordem, até não ser possível a Teresa aliviar a tensão.

As cordas, assim apertadas, faziam-lhe doer. Quando Teresa pensou que já estava imobilizada, Raul ainda a prendeu com mais cordas nas coxas, junto aos joelhos, obrigando-a a escarranchar ainda mais as pernas. Não a amordaçou nem a vendou: embora a posição incómoda em que ela tinha a cabeça não lhe permitisse seguir todos os movimentos do dono pela sala, permitia-lhe ver alguns. Agora é que ele vai buscar o chicote, pensou Teresa; ainda bem que ele a tinha mandado esvaziar a bexiga, caso contrário talvez não pudesse evitar encharcar-se de medo. Mas Raul, quando voltou para junto dela, não trazia chicote nem vergasta, mas sim dois pequenos objectos que ela só identificou quando ele lhos prendeu aos mamilos: duas molas que a fizeram arquejar de dor. O que quer que ele tencionasse fazer a seguir, era preciso esperar que a dor abrandasse, caso contrário não sentiria mais nada. Enquanto esperava, ele alisou-lhe os cabelos e ofereceu-lhe a mão aos lábios para que ela a beijasse. Isto deu-lhe tempo a sentir algo mais do que a dor nos mamilos, que era agora uma sensação surda. Raul passou um dedo a todo o comprimento da vulva exposta de Teresa, que se deu conta de que estava completamente molhada. Meteu-lhe o dedo na boca, para que ela provasse os seus próprios sucos, e trepando para cima da banca, introduziu-lhe o pénis na vagina.

Pompoar – ordenou-lhe.

Teresa já estava suficientemente adiantada nas lições de pompoar para que alguns dos movimentos se lhe tivessem tornado quase instintivos, mas desta vez era-lhe exigido mais do que isso. Concentrou-se nas técnicas que ainda não tinha automatizado; e esta concentração, conjugada com o desconforto da sua posição, fez com que a onda do orgasmo, ainda pequena, que mal lhe começava a crescer ao largo do corpo, se aplanasse de novo. Não pediu autorização para ter orgasmo; para quê, se mesmo sem orgasmo o prazer que sentia era tão intenso, e se o prazer que soubesse dar Raul o compensaria amplamente? Sentiu que os movimentos dele se tornavam cada vez mais fluidos e que exigiam dele cada vez menos esforço, apesar de serem cada vez mais amplos e mais fortes; ouviu-lhe a respiração cada vez mais sonora, mas também cada vez mais solta; e preparou-se para acolher dentro de si, com alegria e amor, o jacto de esperma em que ele se esvairia em breve. Mas Raul, quase no momento de atingir o clímax, ainda lhe ordenou:

− Vem-te agora, escrava. Dá-me o teu prazer.

E, em obediência esta ordem, a prega de mar que antes, ao largo, se aplanara, a pequena onda que fora para Teresa uma promessa, cresceu de novo, agigantou-se, adquiriu no topo uma crista de espuma, curvou-se sobre a praia do seu corpo e desabou sobre ela, arrastando-a, virando-a em todas as direcções, mais uma vez perdida. Escrava, puta, galdéria, pensou, que me venho assim só porque um homem manda. Mas estes insultos que dirigia a si mesma não eram sinceros: não podia enjeitar a alegria e o orgulho que a invadiam; e puta não era de certeza, a não ser de Raul.

Mal acabou de a possuir, Raul levantou-se e limpou o pénis com dois toalhetes húmidos, tirados de uma embalagem que Milena tinha guardado para esse efeito num dos armários. Calçou os chinelos, vestiu-se, e começou a desamarrar Teresa tão metodicamente como a tinha amarrado. No fim, tirou-lhe as molas dos mamilos, causando-lhe uma dor bem maior do que lhe tinha causado ao pô-las.

− Não te levantes ainda, espera um pouco – ordenou.

Dirigindo-se para a cabeceira da banca, pôs uma mão por baixo da nuca de Teresa e outra por baixo dos ombros e soergueu-a devagar.

− Sentes-te bem? – perguntou.

Ao som afirmativo dela, ergueu-a mais um pouco e disse:

− Agora roda o corpo devagar e põe os pés no chão.

Teresa assim fez e Raul perguntou-lhe de novo se estava bem.

− Estou bem, meu senhor.

Raul ordenou-lhe que ficasse sentada mais uns segundos; depois ajudou-a a levantar e conduziu-a ao quarto de banho, onde tomou duche com ela. Teresa viu-se ao espelho. As marcas das cordas eram fundas e estavam muito vermelhas, e demorariam por certo algum tempo a desaparecer. Se passados dois dias, quando tivesse aula de dança do ventre, ainda se notassem, teria que revelar mais um pouco da sua condição.

Mais tarde, deitados na cama, Raul recomeçou a acariciar-lhe o corpo. Ao tocar-lhe os mamilos foi especialmente gentil, mas Teresa, que os tinha muito doridos, arquejou de dor. Mas continua, meu amor, continua… Raul continuou a acariciá-la, voltando de vez em quando aos mamilos. Teresa respondia-lhe com carícias e com beijos cada vez mais apaixonados.

− Meu senhor… meu dono… – disse Teresa por fim. – Não queres voltar a possuir a tua escrava?

Raul possuiu-a com vigor e ternura, não apressando os preliminares, nem a privando depois duma copiosa porção de beijos e carícias; e autorizou-lhe o orgasmo quando ela o pediu. Raul demorou muito tempo: quando o sentiu gozar, Teresa já tinha terminado completamente, mas disse-lhe:

− Sim, meu senhor, sim, goza em mim, goza sozinho na tua escrava… goza muito, meu querido…

Imaginou que Raul, cansado como devia estar, havia de querer a cama toda só para si e a mandaria dormir aos seus pés. Mas ele, em vez de a mandar embora, estendeu-lhe os braços, e nessa noite dormiram enlaçados.

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− Com que então, menos do que a poeira debaixo dos teus pés! – disse Teresa.

Depois de fecharem o acordo com Milena, tinham ficado mais uns minutos e agora estavam sós.

− Naturalmente – respondeu ele, enquanto se inclinava sobre ela para lhe chupar um mamilo. – É essa a tua ínfima condição.

− Naturalmente – repetiu ela. – Monstro sem vergonha. E o pior é que é verdade. Diz-me lá: o que é que eu sou para ti?

Raul beijou-lhe o outro mamilo.

– Menos que a poeira debaixo dos meus pés…

– Isso eu já sei… E que mais?

– Menos que os cães que afasto a pontapés…

– Mentiroso, tu nunca deste um pontapé num cão. E que mais?

– Menos que as éguas que puxam o meu coche…

Teresa arqueou-se sob os beijos dele.

– E que mais, meu senhor?

– Menos que um seixo que apanhei na praia…

Com a mão de Raul a acariciar-lhe o sexo, Teresa tinha já dificuldade em falar, mas perguntou ainda:

– Um seixo bonito?

– O mais bonito de todos – respondeu Raul. – Mas sem valor.

– Claro, sem valor… Meu querido…

– E eu, minha escrava? O que sou eu para ti?

Teresa tinha as pernas todas abertas, o corpo todo oferecido, e gemia:

– És o meu rei… o meu imperador… o meu Príncipe… o tigre que salta sobre mim… a onda que me derruba… o pé que me calca sem me ver… o tornado que me leva… o meu senhor amado…

Mais tarde, quando descansavam nos braços um do outro, Raul lembrou-se:

– Porque é que a Milena disse aquilo?

– Aquilo, o quê, meu senhor?

– Que o nosso amor era molto, molto bello.

– E disse isso – acrescentou Teresa – quando já tinha visto o quarto dos castigos…

– Mostraste-lho?

– Mostrei-lhe a casa toda – respondeu Teresa. – A maneira como ela olhou para os chicotes e depois para mim, como se para ela o nexo entre eles e o meu corpo fosse visível e evidente… Quando ela olhou para mim daquela maneira, poucas vezes me senti mais tua escrava. Depois ela sorriu-me, fez-me uma festa na cara e passado pouco tempo fez-me aquela proposta de ser nossa empregada.

– Renunciou ao amor, mas quer servir o nosso – disse Raul.

– Foi o que me pareceu – respondeu Teresa. – E não se vai impressionar com nada que me faças.

[ … ]

Milena integrou-se com facilidade na rotina da casa. Para ela, tudo era novidade e fonte de fascinação. Nunca tinha aprendido a utilizar uma cozinha que consistisse em muito mais do que alguns recipientes improvisados sobre uma fogueira. Depois de Zerberov a ter resgatado das mãos dos nómadas, tinha ganhado uma obsessão pela limpeza que nem sempre pudera pôr em prática entre os veludos desgastados e os dourados corroídos dos bares e dos clubes. Agora, ia a pé quase todas as manhãs ao mercado do Bom Sucesso, ou tomava o autocarro para o mercado do Bolhão. Quando ia para este lado, aproveitava para visitar as mercearias finas da Rua de Sá da Bandeira e comprar os ingredientes para as suas experiências culinárias. Geralmente, quando não tinha aula de pompoar, Teresa limpava e arrumava a casa durante a manhã, mas para Milena havia sempre algo mais a fazer. Raul ralhava com as duas: para quê arrastar móveis, para quê esvaziar estantes, se todos os meses podiam contratar uma empresa que lhes limpasse a casa a fundo? Teresa e Milena aprovavam a ideia, sorriam uma para a outra, e continuavam a fazer como entendiam.

As lições de dança do ventre chegaram ao ponto em que começavam a ser necessárias roupas e adereços apropriados: saias circulares, saias em painéis sobrepostos, écharpes para as ancas, calças de harém, véus, cintos ornamentados, tops, cholis, colares, brincos, pulseiras, guizos, moedas, ornamentos para os tornozelos. Raul não permitiu que Teresa escolhesse nada disto sozinha: sentados em frente ao computador, foram fazendo a sua selecção. A primeira escolha que tiveram a fazer foi se os enfeites seriam prateados ou dourados: disso iam depender todas as outras escolhas. Optaram pelo dourado, porque a variedade era maior e porque seriam mais fáceis de combinar com as jóias de ouro que Teresa já possuía. Quanto às roupas propriamente ditas, Raul decidiu que deixariam o corpo o mais descoberto possível e que seriam sempre da mais alta qualidade, sem tecidos sintéticos nem costuras mal feitas.

Não foi fácil encontrar boleros como Raul os queria: coletinhos curtos e rígidos em veludo, sem mangas, muito caveados, ricamente bordados a ouro, sem botões, e abertos à frente de modo a deixar os seios completamente nus ao menor movimento. Acabaram por ter de os mandar fazer: um num cinzento acastanhado muito escuro, e outro em azul-marinho, ambos bordados a ouro.

[ … ]

− Há alguns dias tivemos uma conversa engraçada na aula – disse Teresa uma noite, depois de jantar. – Por causa de um vídeo da Ansuya que estávamos a ver.

− Quem é essa Ansuya? − perguntou Raul.

− É umas das dançarinas mais famosas do mundo. Trazia um top rígido, como um soutien. A certa altura, ela fez lá um certo movimento e a mim pareceu-me, na minha ignorância, que aquilo era para ser feito com os seios nus. As outras responderam com exclamações do género “ui, eu era lá capaz”, mas para mim a questão não estava em ser capaz ou não, estava em estar certo ou não estar… para mim era evidente que aquele movimento se tinha desenvolvido durante séculos precisamente para fazer oscilar os seios. A professora achou que isto excitaria os homens em vez de celebrar o feminino, e eu perguntei porque é que uma coisa excluía a outra.

− E ela, o que é que respondeu?

− Não respondeu nada. Mas é uma boa professora e eu estou a aprender muito com ela, embora pense que a filosofia dela está cheia de dicotomias arbitrárias. É americana, coitada…

− Que dicotomias?

− Por exemplo, a diz que se dançássemos nuas ou meio nuas, o que estaríamos a fazer já não seria dança do ventre, mas sim dança erótica; e eu respondo que dança mais erótica do que a dança do ventre não existe. Outro exemplo: a professora diz que a dança do ventre é sensual e não sexual, e eu respondo que não só é sexual, como é intensamente e especificamente heterossexual, e abrange todas as facetas da sexualidade feminina que respondem à masculina. Ela acha que a dança do ventre não é para o olhar dos homens, eu acho que sem o olhar dos homens não haveria dança do ventre. A sensualidade é um elemento indispensável, porque é o elemento agregador disto tudo: é o meio que permite fazer arte do material bruto; mas o material bruto é mesmo o sexo puro e duro, e eu, pela minha parte, não quero excluir dele, nem o desejo feminino, nem o desejo masculino, por mais tosco e insolente que este seja.

− O meu desejo é tosco e insolente? – perguntou Raul.

− Insolente, é – respondeu Teresa. – E é assim que deve ser. A beleza do desejo masculino está na sua insolência. E a beleza dos homens, para uma mulher como eu, também. Se é tosco, é outra matéria: em comparação com o de muitos homens, o teu desejo não é tosco, pelo contrário: é requintadíssimo. E até é requintado em comparação com o de muitas mulheres. Mas lamento informar-te, meu senhor querido, que é bastante tosco comparado com o de algumas mulheres.

− Tu, por exemplo?

− Eu, talvez um dia.

[ … ]

Entretanto, foram chegando as roupas encomendadas para Teresa. Finalmente, uma noite, Raul pediu a Teresa uma passagem de modelos e uma demonstração do que já tinha aprendido.

− Às tuas ordens, meu senhor – disse Teresa.

Nessa noite, Raul jantou sozinho, servido com toda a formalidade pelas suas duas criadas. Depois, enquanto Milena levantava a mesa e arrumava a cozinha, Teresa pediu a Raul que se sentasse na sala. Em seguida desapareceu por um breve minuto para regressar completamente nua: neste preparo pôs a tocar o primeiro dos discos compactos que tinha reservado, serviu um whisky a Raul, acendeu-lhe um dos charutos maiores da charuteira, dispôs velas acesas em vários pontos da sala e completou esta iluminação com um candeeiro de halogéneo que situou por trás e para o lado de Raul.

− Está tudo pronto, meu senhor. Só falto eu.

No quarto, Milena já a esperava para a ajudar a mudar de roupa. O mais demorado foi pôr as jóias, mas estas, uma vez postas, não seriam mudadas.

− Depressa!

Por cada traje que exibia, Teresa dava alguns passos em direcção a Raul, tornava atrás, volteava sobre si mesma para rodar a saia ou as saias, aproximava-se de novo, meneava um pouco os quadris numa sugestão de dança e terminava dobrando os joelhos numa vénia. No fim, voltou para a sala, de novo nua mas ainda as jóias.

− Agora gostava de dançar um pouco para ti, mesmo sabendo ainda tão pouco.

− Não te faças humilde demais – respondeu Raul. – Também não sou um espectador perito: terei que aprender a ver à medida que tu vais aprendendo a fazer.

− Sim, meu senhor. Mas mesmo assim gostava que escolhesses os trajes com que vou dançar…

Raul reflectiu um pouco e decidiu:

− Estive a pensar na nossa conversa de há dias. Quero que dances três vezes com aquela saia azul-água: primeiro o traje completo, incluindo o top, depois a mesma saia com o bolero azul-marinho, e finalmente de seios nus.

− Sim, meu senhor.

Antes de se ir vestir para dançar, Teresa baixou a intensidade da luz, pôs mais um pouco de whisky no copo de Raul e mudou a música para algo de mais fácil. Não tentou mostrar um virtuosismo que não tinha, mas soube transmitir emoções autênticas com os movimentos do corpo. No fim, veio ter de novo com Raul, mais uma vez nua e sem jóias:

− Que achaste, meu senhor?

− Olha para as minhas calças e verás o que o meu corpo achou – respondeu ele, sorrindo. – Mas quanto à minha cabeça e à minha sensibilidade, acho que tens razão na tua maneira de pensar. Tudo o que vi na tua dança era flexível e maleável: o teu corpo, as tuas roupas, o teu cabelo. Os movimentos da dança tiravam claramente partido disso. A única coisa rígida, restritiva, sem movimento, era o top. A dança com os seios nus resultou bem, a dança com o bolero também. Isto, digo-o eu na minha ignorância, que é ainda maior que a tua. Mas de certo modo acho que a tua professora tem alguma razão: se os teus seios fossem maiores, o melhor seria usar qualquer coisa que os contivesse um pouco sem os imobilizar de todo. Os teus são sobre o grande e gosto muito de os ver oscilar livremente, mas numa apresentação profissional talvez conviesse sujeitá-los a alguma espécie de restrição flexível. Outra coisa que eu achei é que tudo o que vi era intensamente físico. Nada na tua dança renuncia ao corpo nem foge ao corpo. Se o ponto a que se quer chegar é algo de espiritual, e eu acredito que seja, não é certamente pela via do ascetismo nem do desprendimento.

− Também é o que eu acho e nem sempre consigo dizer. Depois de amanhã tenho outra vez aula: posso dizer às minhas colegas que dancei para ti?

− Claro que podes – respondeu Raul. – Porque não? As tuas colegas estão proibidas de dançar para os seus homens?

− Sei lá, algumas se calhar acham que estão. Mas vou-lhes dizer que dancei melhor por dançar para ti. Vou dizer que o olhar de um homem só melhora a dança, e que fiz hoje instintivamente e sem esforço certos movimentos que nas aulas só tinha conseguido fazer mecanicamente.

Raul sorriu, bebeu o último gole de whisky e perguntou:

− E quanto aos efeitos da dança, aqueles de que falámos primeiro: terá a minha odalisca notado esses efeitos? Terá deduzido deles que o seu dever ainda não terminou?

Teresa baixou a cabeça num arrependimento fingido e respondeu:

− Tenho que te confessar, meu senhor, que esses efeitos foram logo os primeiros que a tua odalisca notou, como grande galdéria que é. Não sei se me vais permitir que termine como escrava o que comecei como artista: se calhar não mereço.

– Talvez não mereças, mas a tua sorte é que eu não sou só um apreciador de arte, sou também um dirty old man impenitente. Por isso, vais ajoelhar-te à minha frente, tirar o meu sexo para fora e chupar-me até eu me vir.

− Sim, meu senhor – respondeu Teresa, sorridente. – Às tuas ordens, e com todo o prazer… mas esta parte, não a vou contar às minhas colegas. Bem… talvez conte só às que gostam de dirty old men.

[ … ]

− E por falar em dança – disse Raul. – O que disse a tua professora de dança do ventre sobre a nossa conversa de há dias?

− Disse que num mundo ideal eu talvez tivesse razão, mas no mundo realo não há lugar para seios nus. Mas sabes uma coisa? Levei as roupas que tu me compraste e o mulherio ficou todo deslumbrado com o bolero azul-escuro. Fizemos uma passagem de modelos com ele, sem nada por baixo, e não houve nenhuma que não quisesse experimentar, até a professora. Houve algumas que coraram e cruzaram os braços sobre o peito… mas todas quiseram experimentar.


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Tomaram duche juntos, e a seguir devoraram um enorme pequeno-almoço, suficiente para os manter saciados até à hora de jantar. Era tempo de retomar a vida normal; mas antes de ir despir o roupão para pôr o seu uniforme de criada, Teresa ainda disse:
− Meu senhor, sabes qual é a primeira coisa que se deve fazer quando se cai do cavalo?
− Montar de novo – respondeu Raul. – Para não dar tempo a que o medo se instale.
− Então leva-me esta noite ao Justine. Se não entrar esta noite num bar, acho que nunca mais conseguirei entrar em nenhum sem morrer de medo.
Raul deixou-se ficar sentado à mesa, pensando nestas palavras de Teresa. Se alguém tinha razão para ter medo de entrar num bar ou numa discoteca, era ela. Estranha coincidência: uma pessoa que fazia pouca vida nocturna estar duas vezes na vida em dois bares com o mesmo nome, alguém lhes deitar fogo, e de ambas as vezes ser salva in extremis pelo homem que amava. Raul não era supersticioso, mas decidiu que, enquanto ele mandasse, Teresa nunca mais entraria em bar, discoteca, hotel, restaurante ou café que tivesse por nome Lua Vermelha, fosse em que língua fosse. Quanto a essa noite no Justine, decidiu fazer dela uma ocasião especial: telefonou à Baronesa, contou-lhe por alto o que tinha acontecido na noite anterior, disse que queria proporcionar a Teresa uma noite memorável e pediu-lhe que contactasse alguns frequentadores habituais para a receberem de maneira a fazê-la esquecer. Não, não era uma festa, não queria que preparassem nada de especial, apenas que pusessem Teresa um pouco no centro das atenções. Podia ser?
Quando Teresa reapareceu, Raul disse-lhe:
– Hoje vamos jantar fora, no Majestic, e depois vamos passar o resto do serão no Justine. Para o Justine quero que vás de preto, por respeito aos nossos amigos, mas toda às transparências. Quero que mostres bem os seios…
– Sim, meu senhor – disse Teresa, corando um pouco.
– E descalça, obviamente. Não quero que leves bijutarias, só jóias verdadeiras: rubis, muitos rubis, para que o vermelho contraste com o preto da roupa. Tens rubis que possas pôr nos pés?
– Tenho fios de ouro e anéis para pôr nos dedos dos pés. Com um pendente de rubis que tenho guardado, acho que posso improvisar qualquer coisa… Mas não tenho maneira de fazer o mesmo nos dois pés.
– Muito bem, adornas só o pé esquerdo e deixas o direito completamente nu. As jóias, só as pões antes de entrarmos no Justine. Para o Majestic levas aqueles teus sapatos rasos dourados e um casaquinho que te cubra os seios. Depois, no carro, tiras o casaquinho e os sapatos, e pões as jóias. Quero que fiques linda…
– Estou a pensar nas roupas pretas que tenho. Não faz mal se eu for um bocadinho gótica?
– Não, acho que até vai condizer bem com o ambiente. Mas não te quero gótica na cara nem nas unhas.
– Está bem, meu senhor. Outra coisa: tenho um coletinho de cabedal vermelho que me deixa os seios à mostra. Se o pusesse por cima duma blusa preta transparente…
– Não ficava mal – disse Raul. – Mas o que vais pôr durante o jantar?
– Estava a pensar num casaquinho vermelho com lapelas, que me ia cobrir os seios e o colete… Mas nesse caso, em vez dos sapatos dourados ficavam melhor uns vermelhos… Tenho uns que também são rasos.
– Não, se forem vermelhos, antes quero que sejam de salto alto. Fazem mais o estilo galdéria. Tens alguns?
Teresa riu-se:
– Meu senhor, é o que eu tenho mais. E se me queres galdéria, vais-me ter galdéria.
– Pronto, então está tudo combinado quanto às roupas. Eu vou de jeans pretas e T-shirt: quero que sejas tu a brilhar e não eu. E levo os meus mocassins pretos, sem meias. Só não te esqueças que no Justine eu me chamo Marco Aurélio, e tu selma.
No Justine foram recebidos por Igor, que cumprimentou Raul com um forte aperto de mão. Quando Teresa dobrou os joelhos ligeiramente, fazendo a vénia que Raul lhe tinha ensinado, Igor surpreendeu-a tomando-lhe a mão e beijando-a: não nas costas, evidentemente, mas na palma, como se faz a uma escrava. A Baronesa saudou Raul e aceitou a vénia de Teresa com um sorriso e um beijo.
A sala tinha sido modificada: num dos cantos tinham sido retirados os assentos e as mesas e colocados tapetes.
– É para as submissas se reunirem e conversarem – explicou a Baronesa. – Há algumas que não têm permissão de se sentarem em cadeiras.
– E o teu submisso? – perguntou-lhe Raul.
– Ora, Marco Aurélio – respondeu-lhe a Baronesa. – O meu, nem no chão se senta. Fica de pé, que tem aqui muito que fazer. Os outros, é com as Senhoras deles. Queres ficar nesta mesa? A sua escrava senta-se no chão, se bem me lembro.
Raul sentou-se no lugar que a Baronesa lhe indicara e Teresa ajoelhou-se aos pés dele.
– Tomam alguma coisa? – perguntou a Baronesa.
– Para a selma – disse Raul – uma água sem gás. Para mim, uma água tónica. Mas não nos sirva à mesa, nem mande ninguém servir-nos, que eu hoje só quero ser servido pela selma. Quando tiver as coisas prontas no balcão, faça sinal para ela as ir buscar.
– Isso é que é uma paixão – disse a Baronesa, e afastou-se, rindo, para trás do balcão.
Raul olhou à roda da sala. Lá estava a bondarina, com os seus enormes olhos verdes, aos pés de um homem que Raul não conhecia: devia ser o dono dela, o Mestre De Aviz. Ambos o cumprimentaram com um aceno de cabeça e um gesto a indicar que falariam mais tarde. Também a kathy lhes acenou e lhes sorriu. Quando a Baronesa fez sinal do balcão que as bebidas deles estavam prontas, Teresa pôs-se de pé, corando, dirigiu-se para o bar, tirou do tabuleiro a sua água e o seu copo e voltou para junto de Raul com a bebida dele. Ajoelhou-se, pôs o tabuleiro sobre a mesa, encheu-se de coragem e inclinou-se para lhe beijar os pés, um de cada vez. Só há poucos minutos tinha sido informada que este ritual era a razão de o seu dono vir sem meias. Também ela preferia assim: tirou parcialmente um sapato do pé de Raul para lhe beijar a pele nua, voltou a calçá-lo e repetiu a operação com o outro. Depois voltou a levantar-se, foi buscar a sua própria bebida – desta vez sem tabuleiro – e sentou-se aos pés do dono.
– Bonito – ouviu-se alguém dizer na sala.
A música ambiente parecia ter sido escolhida para ilustrar a relação entre Raul e Teresa: Enya, Lorena McKennit, Sarah Brightman, Leonard Cohen.
Passado tempo suficiente para que Raul começasse a saborear a sua bebida, aproximou-se deles, com bondarina um pouco atrás, o homem bem parecido que tinham visto na companhia dela. Tinha o cabelo muito curto, um casaco de corte clássico em cabedal preto, e não apresentava quaisquer insígnias além de um discreto emblema circular com três semicircunferências a irradiar de um centro. Raul levantou-se para o cumprimentar e Teresa ajustou a posição em que estava para ficar de joelhos.
– Boa noite – disse o homem, dirigindo-se apenas a Raul. – O nome por que sou conhecido aqui é Mestre De Aviz. Creio que já conhece a bondarina: ela pediu-me autorização para falar consigo.
– Passou bem? – disse Raul, apertando-lhe a mão. – Claro que já o conhecia de nome, e tenho muito gosto em conhecê-lo agora pessoalmente. O meu nome aqui é Marco Aurélio. Sente-se, por favor. Esta é a minha escrava selma. Selma, beija a mão do senhor.
Teresa abriu muito os olhos, espantada, mas obedeceu prontamente. Mestre De Aviz sentou-se, enquanto bondarina se lhe ajoelhava aos pés. Raul, que nunca se tinha encontrado com bondarina a não ser de igual para igual, apercebeu-se da perturbação dela quando Mestre De Aviz lhe fez sinal para que o cumprimentasse como Teresa o tinha sido cumprimentado a ele. Pegou na mão de Raul e beijou-lha, de maneira a não deixar ficar mal o dono. Bondarina estava com um vestido vermelho muito curto, de seda ou cetim, meio roto na bainha. Trazia ao pescoço uma coleira de couro gravado, muito bonita, fechada com um cadeado de aço. Estava descalça, como Teresa, o que era perfeitamente compatível com o estilo de submissão estabelecido entre ela e Mestre De Aviz: estavam a tentar uma adaptação do estilo Goreano. Kathy aproximou-se e ficou de pé junto à mesa, hesitante, sem saber se devia sentar-se no chão, como as outras submissas, ou se, por não estar na companhia do dono, deveria sentar-se numa das poltronas, como os dominantes. Bondarina, apercebendo-se desta hesitação, bateu levemente com a palma da mão no chão junto de si, convidando kathy a sentar-se.
A conversa incidiu sobre o que tinha acontecido no Red Moon. Todos sabiam do que tinha acontecido pelos jornais ou pela televisão, mas só depois de falarem com a Baronesa é que tinham ficado a saber que “Marco Aurélio” e “selma” tinham estado envolvidos. Sabiam que tinha sido encontrado nos destroços o cadáver de um homem carbonizado, mas nem Raul, nem Teresa revelaram a identidade desse homem. Teresa contou apenas que tinha sido raptada por um desconhecido que a tinha levado para o Red Moon sem ela saber para quê. Ninguém se lembrou de perguntar como é que Raul tinha sabido onde havia de a procurar; ou se alguém se lembrou, teve a discrição de não o fazer.
Teresa e bondarina ficaram com a tarefa de servir as bebidas, a primeira beijando os pés de Raul sempre que as trazia, a segunda beijando, ao estilo Goreano, o copo que apresentava a Mestre De Aviz. Kathy, sentindo-se na obrigação de as ajudar, acabou por também servir de joelhos os dois homens, inquieta por não saber se isto representava ou não uma traição ao seu próprio dono.
− Não te preocupes – disse-lhe a Baronesa. – Traição era comportares-te como se estivesses acima da bondarina ou da selma. Isso é que deixaria ficar mal o teu dono. Logo eu falo com ele e explico-lhe.
Raul desviou a conversa para outros assuntos: quando ia sair o número seguinte da Dominium, que festas se preparavam, quem tinha encontrado um novo dono ou dona, ou um novo escravo ou escrava. E assim se passou uma noite no Justine, diferente das outras porque todos se lembraram que, para lá do seu mundo consensual, existia outro, violento e cruel, a que ninguém estava imune.
Raul e Mestre De Aviz tinham os carros estacionados perto um do outro. Saíram ao mesmo tempo e foram pela rua a conversar, seguidos por Teresa e bondarina, ambas descalças. Pelo modo de andar de bondarina, via-se que ainda não estava habituada, mas Teresa caminhava como se toda a vida o tivesse feito – o que era verdade pelo menos um mês por ano.
Em casa, quando Raul penetrou Teresa, ela pediu-lhe que ficasse parado um momento dentro dela:
− Quero mostrar-te uma coisa…
Raul sentiu que o sexo dela se contraía e alargava; mas desta vez o movimento não envolvia a vagina como um todo: começava na entrada, apertando-lhe a base do pénis, continuava na secção média, acabava no fundo, onde lhe apertava a glande com força, e recomeçava tudo uma vez após outra.
− Que bom, minha escrava! – disse Raul.
− Ainda não aguento fazer isto muito tempo – respondeu Teresa. − Mas a minha professora de pompoar diz que quando estiver treinada serei capaz de continuar durante horas.
− Pois hoje continua até não poderes mesmo mais. E não te venhas.
− Sim, meu senhor – disse Teresa, contente. E concentrou-se com todas as suas forças em dar prazer ao seu dono.

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Eis o meu livro completo e enviado às editoras, que o publicarão ou não. Para já, tentei só A Fenda Edições, a Cavalo de Ferro e a Difel. Algumas personagens têm nomes novos, e o próprio título é novo: «Uma Escrava nas Luzes».

O trabalho foi tanto que nem me deixou dar a devida atenção a este blogue. Agora, que não tenho esse trabalho, estou no ar, sem saber bem o que fazer da vida. Acho que vou começar a publicar aqui mais excertos do romance: afinal só os publiquei até ao capítulo 32 e o manuscrito total tem 41 capítulos. Depois, não sei, pode ser que me ocorra outro projecto.

Para já, um grande abraço a todos os meus amigos e um pedido de desculpas por uma tão longa ausência.

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Final do Capítulo 29


O intervalo estava a chegar ao fim, a aula que ia dar a seguir era a última. Ligou para o telemóvel de Teresa:

− Onde estás?
− No shopping, a fazer umas compras.
− Falta-te muito?
− Não, já saí do supermercado e agora ando aqui a ver umas lojas.
− Então vai já para casa e espera lá por mim toda nua. Logo que possa vou ter contigo.
− Sim, meu senhor – disse Teresa. – Meu querido…
Raul desligou o telemóvel, mal dedicando um pensamento a quem quer que o tivesse sob escuta. Que lhes fizesse bom proveito. Foi dar a sua aula, saiu imediatamente, meteu-se no carro, parou numa florista e foi para casa, onde presenteou Teresa com um ramo de rosas. Teresa, que já tinha planeado recebê-lo de joelhos, ajoelhou-se para receber as flores. Depois correu para o interior da casa para as pôr numa jarra com água, e voltou para junto de Raul, igualmente apressada, para retomar a saudação planeada no ponto em que a tinha interrompido. Ajoelhando-se de novo, beijou-lhe a mão e disse:
− Aqui estou, toda nua, ao teu dispor. O que queres fazer de mim?
− Segue-me, minha escrava.
Teresa seguiu-o até ao quarto, onde ele, detendo-se, lhe ordenou:
− Agora despe-me.
Teresa começou por lhe tirar a T-shirt. Como ele era mais alto do que ela, teve que se estirar toda para lha fazer deslizar ao longo dos braços, que ele não esticou para cima, mas sim para a frente. A regra, quando ela o despia, era que lhe fosse beijando cada parte do corpo que fosse ficando a descoberta. Teresa obedeceu à regra beijando-lhe os ombros, chupando-lhe um pouco os mamilos, dando-lhe a volta de modo a poder beijar-lhe as costas ao longo da espinha, regressando por fim ao peito. Aproveitou esta oportunidade para o roçar com os seios sempre que pôde, o que, não sendo exigido, dava prazer aos dois. A seguir tirou-lhe os sapatos e as peúgas, beijando-lhe os pés. Por fim tirou-lhe as calças e as cuecas e beijou-lhe o sexo, que tinha segurado entre as mãos postas como que em oração.
− Vem dar-me um duche – disse Raul.
Enquanto ele se dirigia devagar para o quarto de banho, Teresa, numa corrida, deitou no cesto da roupa suja as peúgas, as cuecas e a T-shirt que lhe tinha tirado, e dispôs outras, lavadas, na cadeira ao lado da cama. No quarto de banho pôs o duche a correr, ajustou a temperatura da água e convidou Raul a subir para a banheira, onde começou por lhe molhar o corpo todo. Para o ensaboar teve que subir também para a banheira, e apesar de ter tomado duche meia hora antes também se molhou e ensaboou.
− Deixa-me esfregar-te, meu senhor…
E começou a esfregá-lo, não com as mãos, mas com o corpo todo, abraçando-se a ele pela frente e por trás, ajoelhando-se para lhe chupar o pénis ou para lhe lavar os pés. Raul aceitava estas homenagens serenamente, como algo que lhe era plenamente devido, mas nem por isso deixava de sopesar ocasionalmente um seio da sua escrava, ou de lhe introduzir dois dedos entre as coxas para a fazer sobressaltar. Teresa, atenta ao seu dever, não se queria excitar demais. Depois de passar o chuveiro por si própria e por ele, secou-se a si própria à pressa e a ele com todos os cuidados. Só uma coisa a desgostava ligeiramente: depois do seu primeiro duche tinha passado por todo o corpo um creme perfumado e amaciador, que agora se escoara pelo ralo da banheira.
− Meu dono… − disse. – Eu tinha passado creme no corpo… Queria estar toda macia para ti… Esperas agora um pouco que passe outra vez?
− Pois sim, minha escrava – consentiu Raul. – Mas antes acompanha-me ao quarto para me ajeitares as almofadas e me deixares confortável.
− Sim, meu senhor – disse Teresa, com um sorriso aberto. – Às tuas ordens.
Raul estendeu-se no meio da cama de barriga para cima. Teresa aproveitou o pretexto de o pôr confortável para se roçar levemente nele; mas, quando o viu de sexo completamente erecto, escapou-se, rindo:
− Vou pôr creme…
Raul apoiou a cabeça na almofada, sorriu ligeiramente, descontraiu-se e esperou até ficar com o pénis de novo flácido. Teresa, ao entrar, sorriu-lhe; depois, ajoelhando-se no seu catre, aos pés da cama, começou a beijar-lhe os pés, depois os tornozelos, subindo-lhe lentamente, com os lábios e com a língua, pelas pernas acima. Por vezes detinha-se neste progresso e voltava um pouco atrás, para logo depois recomeçar. Ao chegar-lhe às coxas subiu para cima da cama e ficou de gatas por cima dele, baloiçando para os lados os seios pendentes de modo a afagá-lo com os mamilos. Deteve-se por muito tempo a beijar-lhe o sexo, que encontrou de novo erecto. “Não estás menos pronto do que eu,” pensou, “mas se não me deres outra ordem vamos ter os dois que esperar”. Raul não lhe deu outra ordem, e assim Teresa continuou a trepar por ele acima, lentamente, lentamente, voltando atrás de vez em quando, quando ele menos esperava. Porque se submeteria ele, sendo Senhor, a esta tortura, sabendo que a podia fazer cessar a qualquer momento com uma simples ordem? Talvez soubesse que a sua escrava, ao torturá-lo, se estava a torturar ainda mais a si própria.
− Continua assim, minha escrava.
“Sim, escrava dele,” pensou. Um ser aberto, sem resistências que tivessem que ser vencidas, pronto para dar e receber qualquer prazer a qualquer momento, capaz de submeter o seu senhor à tortura da espera, mas só ao preço de a sofrer em dobro. Estava pronta. Como estava pronta! Mas primeiro havia os mamilos dele a beijar, as mãos dele a levar aos lábios, o ventre dele a acariciar com os seios, o rosto dele a encher de beijos…
− Mais devagar, escrava.
Mais devagar, mas essa palavra, escrava, a penetrá-la como uma lança, como um falo erecto, a fazer com que dentro dela tudo andasse mais depressa, tudo se precipitasse, tudo reclamasse um desenlace.
− Mais devagar…
E ela, devagar, chegava-lhe finalmente aos lábios, beijava-lhos com fúria, enrolava a língua na dele, acariciava com o sexo o sexo dele, sem ousar empalar-se como lhe exigia o corpo, aguardando uma ordem, apenas uma ordem que do mesmo passo a trespassasse e libertasse.
Mas a ordem não veio. Em vez dela veio uma estocada poderosa, dada por ele de baixo para cima com um movimento súbito dos quadris. Tanto bastou para que ela sentisse, eminente, um orgasmo que se anunciava avassalador. E pediu:
− Meu senhor, posso vir-me?
E Raul respondeu:
− Não.
Não?! Como não?! Como deter a avalanche que já se desprendia, a onda que já se agigantava?! Mas Teresa deteve-a, nunca veio a saber como. Numa escala qualquer que encontrou dentro de si, fez com que o prazer que sentia encontrasse um patamar onde pudesse ficar imóvel, sem subir nem descer, mudando de natureza, tornando-se em parte dor, em parte exaltação, mas continuando a ser algo de desmedido, de sublime. Sem perder um átomo desta estranha volúpia, abraçou o amante, sentiu como ele se movia dentro dela, como se derramava, como arquejava num orgasmo talvez igual ao que lhe negara. Manteve o amante dentro de si enquanto ia ficando flácido. Sentia que a vagina se lhe contraía e distendia como se afinal o orgasmo proibido lhe estivesse a vir, embora sem a sensação correspondente. Beijou Raul, como sempre o beijava depois do amor, mas estes beijos tinham uma urgência diferente. Acariciou-o, mas as carícias eram outras, mais vívidas. Disse-lhe que o amava, e isto era tão verdade como das outras vezes, ou ainda mais. Em vez da frustração inicial começava a sentir outra coisa igualmente intensa, mas agora da ordem da esperança; a excitação sexual era agora, por acréscimo, cerebral. Talvez nem sequer sentisse o desejo de enlaçar o corpo noutro corpo, mas sim de flutuar para sempre neste paraíso novo a que não sabia dar nome. Este estado de exaltação manteve-se enquanto tomou duche com Raul, enquanto se vestiu e arranjou para ir almoçar com ele, e continuou depois durante o resto do dia e para lá dele. Ao sair não pediu, como era norma, que ele lhe permitisse calçar-se, mas sim que a deixasse ir descalça, ao que ele acedeu.
Almoçaram no restaurante da Fundação de Serralves. Visitaram o Museu. Nalguns lugares do jardim o chão era um áspero e magoou um pouco os pés de Teresa. Quando chegaram a casa ela serviu-lhe o jantar, sentou-se-lhe aos pés enquanto ele lia, serviu-lhe um whisky, acendeu-lhe um charuto. Conversaram bastante, mas nenhum dos problemas práticos que tinham a resolver veio sequer à baila. À meia-noite foram-se deitar. Antes de adormecer, Teresa deu-se conta que aquele talvez tivesse sido um dos dias mais felizes da sua vida.

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( Do capítulo 18 )

Tinham acabado o exame, tinham decidido tudo o que tinham a decidir, e agora Teresa, deitada de costas na cama, brincava distraidamente com os seus próprios seios enquanto Raul, apoiado num cotovelo, a observava.

− Meu senhor… − disse ela por fim, apertando os seios um contra o outro.

− Sim? – disse Raul.

− Acreditas que possa haver alguma coisa que uma puta nunca tenha feito?

Raul desatou a rir:

− Ora deixa ver, meu tesouro. Nem sei o que te responda. Para te dizer a verdade, nunca pensei muito nisso. Porquê?

− Nada, uma tolice. Nunca nenhum homem gozou entre as minhas mamas. Dá para acreditar?

Raul riu-se de novo:

− É claro que dá para acreditar. Eu também nunca gozei entre os seios duma mulher. É por isso que estás a apertar os teus um contra o outro? Dava-te prazer que eu te fizesse isso?

− O meu prazer não conta, sabes bem – disse Teresa. – Mas sim, acho que me daria prazer ver a cabeça do teu pénis a aparecer e a desaparecer, muito rosada, entre as minhas mamas… E depois ver o teu esperma a sair… E tu, meu senhor? Terias prazer em te servires de mim assim?

− Talvez tivesse. Mas teria de ser com uma lubrificação qualquer, não gosto de esfregar pele seca em pele seca. Vai buscar vaselina ao quarto de banho.

Teresa correu a cumprir esta ordem. Quando regressou, Raul colocado duas almofadas no centro da cama.

− Para apoiares a cabeça – explicou. – Deitas-te do meio da cama para baixo, com as pernas de fora, eu deito-me por cima de ti. As almofadas são para apoiares a cabeça de modo a poderes ver o que está a acontecer. Agora passa um bocado de vaselina entre as mamas, e a seguir sobre o meu sexo.

− Sim, meu senhor – disse Teresa.

Ao passar-lhe vaselina no pénis, Teresa fechou a mão e fez-lhe um movimento masturbatório, que Raul achou mais agradável do que se tivesse sido feito com a mão seca. Teresa deitou-se na posição indicada, Raul estendeu-se por cima dela com os braços esticados de modo a deixar espaço para que ela pudesse erguer a cabeça e ver o seu próprio corpo. Teresa pressionou os seios um contra o outro, apertando entre eles o sexo de Raul: ficou com a glande dele diante dos olhos, e mais uma vez se deu conta de como ela era bonita. Preconceito de amor, sem dúvida: mas Teresa já tinha visto muitos órgãos masculinos, e a muitos tinha-os achado feios e repugnantes, com as suas glandes bulbosas ou as suas formas mal definidas. A glande de Raul era, vista de cima, quase triangular, como a ponta duma seta. Vista de frente, como ela agora a via, mostrava uma abertura suficientemente larga para que o esperma jorrasse dela aos borbotos e não aos esguichos. Na base, no ponto de união com a haste, circundava-a um rebordo muito marcado e ligeiramente rendilhado, como um colarinho quinhentista ou como a rebarba de um dardo, que a fazia mais grossa do que o comum e talvez contribuísse, ocorria agora a Teresa, para o prazer intenso que ele lhe provocava ao penetrá-la. Quando Raul se começou a mover, Teresa pôs-se a imaginar que este movimento se realizava dentro dela: ao ver a glande aproximar-se, imaginava-a a tocar-lhe o colo do útero; quando a via recuar e esconder-se completamente entre os seus seios, imaginava-a a acariciar-lhe os pequenos lábios e a entrada da vagina; e alegrou-se de poder ver com os seus próprios olhos o que se passava nas suas entranhas quando ele a possuía.

Quando Raul atingiu o clímax, Teresa assistiu, fascinada, ao jorrar do sémen em borbotos, um dos jactos tão forte que lhe atingiu o queixo e os lábios. Esperou que ele rodasse de cima dela para a cama antes de se limpar com um toalhete húmido. Depois limpou-o a ele, primeiro com a boca e a língua, depois com outro toalhete. Veio-lhe de novo à ideia aquele jacto de esperma mais forte, e de repente imaginou o sémen a entrar-lhe no útero, a fecundá-la… Isso agora nunca poderia acontecer, essa possibilidade tinha-lhe sido roubada para sempre pelas sevícias a que tinha sido sujeita em Itália. E os monstros que lhe tinham causado este dano irreversível continuavam livres de fazer o mesmo a quantas mulheres quisessem, enquanto as mesmas autoridades a que competia detê-los ousavam acusar de maus tratos aquele homem bom que a segurava nos braços e nunca a tinha tratado com outra coisa que não fosse todo o amor e todo o respeito.

Vieram-lhe as lágrimas aos olhos; escorreram-lhe pelo rosto. Raul, inquieto, perguntou-lhe:

− Que foi, meu amor? Que tens?

Teresa pegou num lenço de papel e assoou-se antes de responder:

− Nada, meu senhor, uma tolice… Nunca vou poder ter um filho teu…

Diz-se que para bom entendedor meia palavra basta. Nesta queixa de Teresa entendeu Raul tudo o que ela tinha sentido e pensado no instante anterior. Abraçou-se a ela com mais força, sem falar, e pôs-se a entristecer juntamente com ela até que ambos adormeceram.

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Com o meu pedido de desculpa pela longa ausência, publico hoje mais um excerto do romance que estou a escrever. O enredo tem também uma componente de acção e mistério, mas os trechos que tenho escolhido para publicar aqui são os que reflectem mais a componente erótica. Espero que gostem…

… – Tenho pensado muito nestas coisas, [- disse Raul – ] embora felizmente já não seja minha função resolvê-las: foi provavelmente isso que me provocou este pesadelo. Desculpa ter-te acordado.

– Lá por isso não peças desculpa [- disse Teresa. – ] Tens o direito de me acordares quando quiseres…

− Tenho? É claro que tenho. Mas de preferência para outros fins, não para te sobrecarregar com manifestações de fraqueza.

Teresa ficou algum tempo em silêncio, ainda com a cabeça apoiada no peito dele. Por fim mudou de posição para o olhar nos olhos e disse:

− Ouve, meu senhor. Há umas coisas que preciso de te dizer.

− Diz lá, então.

− Eu não sou burra nem ingénua…

− Não, isso não és – interrompeu Raul.

− Não sou burra nem ingénua, e a vida já me ensinou que em geral as mulheres são mais fortes do que os homens.

Raul ficou silencioso: era claro que estas palavras, das quais ele, de resto, não discordava, eram um intróito; e não quis interromper.

− Isto, para as mulheres, – continuou Teresa – é uma grande frustração, e muitas vezes tem-no sido ainda mais para mim, que sou forte mesmo para mulher.

Raul acenou em concordância, e Teresa continuou:

− Num mundo em que os homens são geralmente fracos, o mais provável para a maior parte das mulheres é nunca encontrar um homem mais forte do que elas. Para uma mulher mais forte do que as outras, então, acho que é praticamente impossível. Mas eu tive a sorte extraordinária de encontrar dois: primeiro o Ettore, e depois a ti, meu amor.

− Eu, um homem forte? – insurgiu-se Raul – E excepcionalmente forte, para cúmulo? Durante a maior parte da minha vida não me tive por fraco, é verdade. Mas agora? Com toda a minha carga de culpa? Com todas as minhas dúvidas, contradições e escrúpulos? Com pesadelos, porra! Com necessidade de colinho! É isto, um homem forte?

Teresa segurou-lhe o rosto entre as mãos, beijou-o com força na boca e disse com veemência:

− No teu caso, é, sim senhor. Homens fracos com carapaças duras foi o que eu mais encontrei na vida, ainda por cima nos meios que frequentei. Diz-me uma coisa: os horrores que viste no Kosovo alguma vez deixaram de ser horrores para ti? Criaste habituação? Tornaste-te indiferente?

Não, reflectiu Raul. Nunca se tinha habituado, nunca se tinha tornado indiferente.

− Sabes o que faria um fraco no teu lugar? Criaria uma carapaça. Ao fim de uns meses já teria aprendido a desprezar as vítimas que tinha por função apoiar. Faria piadas sobre elas. Lá no fundo, até desenvolveria alguma admiração pelos carrascos…

Raul teve um sobressalto. Sim, era verdade. Ele próprio tinha visto colegas seus evoluir neste sentido. Nunca os censurara, nem os censurava agora: era a maneira que tinham de se proteger. Teresa tinha razão: eram fracos. Mas isto não queria dizer que ele não o fosse também, à sua maneira.

− Diz-se que os fracos admiram os fortes – prosseguiu Teresa, implacável. – É mentira: os fracos não admiram os fortes, admiram os violentos. Mas tu não…

Não, Raul não admirava os violentos. Nem os temia, de resto. Se sentia alguma coisa por eles era desprezo e asco… E ódio, infelizmente. Ódio também.

− Pelos violentos, sinto ódio – murmurou. – E o ódio é uma forma de fraqueza.

− Pois é, meu senhor, mas é uma fraqueza que te há-de passar, que te está a passar. É isto que eu vejo em ti a cada dia que corre. Oxalá um dia possas contribuir para que seja feita justiça, mas se há alguma coisa de que estou certa, é de que nessa altura agirás desapaixonadamente: sem piedade, mas também sem ódio, como homem viril que és.

Oxalá, pensou Raul. Oxalá…

− Outra coisa, meu querido: − prosseguiu Teresa – passou-te pela cabeça alguma vez que eu fosse deficiente em auto-estima?

Raul teve que se rir perante uma ideia tão estapafúrdia:

− Deficiente em auto-estima? Tu?

− Pois, não achaste que me faltava auto-estima, mas viste logo que a minha orientação amorosa era para a submissão. Como conciliaste as duas coisas?

Raul pensou durante um momento e respondeu:

− Já antes tinha encontrado mulheres em que a auto-estima e a submissão se conjugavam. Esta possibilidade não era novidade absoluta para mim. O que eu nunca tinha encontrado era uma mulher que levasse tudo isso ao extremo, quase ao excesso. Quando descobri que precisavas de viver apaixonadamente, que tinhas essa tua exigência de absoluto… Pois bem, acho que foi nessa altura que me enamorei de ti.

− Nessa altura – disse Teresa – outro qualquer teria fugido de mim a sete pés. Uma coisa que eu aprendi nos últimos anos é que a minha maneira de amar pode ser uma coisa aterradora para os homens. Tu não tiveste medo de mim…

Talvez Teresa tivesse razão, pensou Raul, talvez ele fosse mais forte do que se sentia neste momento; talvez mesmo tão forte como ela, ou mais; mas ainda não estava em estado de se convencer disto. Olhou para ela, que no decorrer da conversa se tinha deixado escorregar pela cama abaixo de modo a ficar de novo deitada. Medo dela? Não, não sentia medo, sentia desejo. Estendeu a mão para lhe acariciar os seios, que a roupa da cama tinha deixado a descoberto, e logo a mão dela lhe procurou o sexo.

– Diz-me como gostas, meu senhor… Ensina-me…

Raul começou a instruí-la: que não lhe agarrasse o membro erecto com a mão toda, que usasse mais os dedos, que lhe acariciasse gentilmente a veia de baixo. Teresa, atenta a todas as instruções, ia tomando nota mentalmente: não o agarrar à bruta, explorar-lhe meigamente todos os refegos da pele, prestar especial atenção à glande. Raul tinha sido circuncidado na adolescência porque o prepúcio estreito lhe tornava dolorosas as erecções: agora, para maravilhamento de Teresa, a glande distendida era duma macieza prodigiosa, lisa e macia como nada mais sobre a Terra.

– Que lindo que é o teu pénis, meu querido… Tão macio na ponta… Gostas assim?…

E ia-o dedilhando levemente a todo o comprimento, insinuando os dedos delicadamente nas pregas da glande e na abertura, de onde despontava uma gota de líquido. Absorto no prazer que recebia e na instrução que dava, Raul quase parara de acariciar os seios de Teresa; mas não de todo, não de todo: e sentia entre os dedos os mamilos intumescidos que denunciavam a excitação dela.

Uma característica que Raul e Teresa tinham em comum era a falta de pressa nas suas actividades eróticas. Raul era capaz, por qualquer particularidade fisiológica ou psicológica que desconhecia, de manter indefinidamente uma erecção enquanto se dedicava àquilo a que as outras pessoas chamam preliminares; Teresa parecia nunca se cansar de brincar com o corpo dele, de o acariciar e beijar; e os dois juntos chegavam por vezes a deixar que este prazer intenso se esvaísse sem chegar a uma penetração ou a um orgasmo, como um rio no deserto que nunca desagua. Mas desta vez Teresa tinha pressa:

– Penetra-me agora, meu senhor. Obriga-me a vir-me. Vou ser desobediente, vou-te resistir, vais ter que me obrigar…

Raul beijou-a nos lábios e respondeu-lhe, sorrindo, que não lhe apetecia de todo violá-la. Se ela resistisse, paciência, não ia haver mais sexo para ninguém. Em resposta, Teresa deu-lhe um pequeno murro no ombro, como era seu costume quando ele desconversava, e disse:

– Não é isso, estúpido. Não te vou resistir nem desobedecer em nada, só em ter orgasmo…

– Então se é assim, – disse Raul – vem tu por cima.

Teresa sabia muito bem que nesta posição o orgasmo dele costumava ser mais lento e o dela mais rápido; mas obedeceu, ainda que protestando:

– Assim não vale…

Raul ficou perfeitamente imóvel enquanto ela se empalava lentamente nele. Teresa estava consciente de que estavam a medir forças. De um lado estava a sua vontade, que era firme e lhe proibia o orgasmo. Do outro, a exigir-lho, estava toda uma coligação: o seu desejo, o seu amor por Raul, a obediência a que se tinha obrigado, e sobretudo a vontade dele, que ela desejava soberana. No entanto, por mais que desejasse perder, não faria batota a favor do adversário: empenharia todo o seu esforço em vencer.

Se este fosse um jogo de xadrez, esta penetração teria correspondido apenas ao dispor das peças no tabuleiro. Agora Teresa, imóvel sobre Raul, olhos nos olhos, sentia a vagina distendida pelo órgão masculino que a enchia até ao fundo. Esperava a primeira jogada, e esta não se fez esperar: uma fortíssima palmada na nádega esquerda que a fez estremecer, quebrando a imobilidade a que se estava a obrigar. Procurou ajeitar o corpo de modo a aliviar a sensação de repleção que a dominava, mas Raul segurou-a firmemente pelos quadris e começou a mover-se dentro dela. Por vezes retirava-se completamente, de modo a acariciar-lhe, com a ponta macia do pénis, os lábios interiores da vagina e o clítoris, outras penetrava-a até ao fundo com movimentos ora bruscos, ora lentos e prolongados, que a apanhavam sempre de surpresa.

Não era fácil resistir a isto, mas a dificuldade aumentou quando ele lhe ordenou que “dançasse para ele” – o que significava, no seu código privado, que tinha que mover os quadris nos movimentos da dança do ventre; para a frente e para trás, para os lados, em círculos, em oitos. Desobedecer não fazia parte das regras do jogo; mas obedecer era quase assegurar a derrota, tanto mais que ao mesmo tempo ele lhe ia acariciando os seios e os mamilos com toques e beliscões de intensidade variável e imprevisível: ora leves como o toque duma pena, ora fortes e dolorosos, fazendo-a gemer. A mesma coisa com os beijos: ora delicados como o pousar duma borboleta, ora mordidos, exigentes, chupados, a prometer lábios pisados e nódoas negras no peito e no pescoço.

Teresa sentia que no fundo de si se formava o orgasmo que decidira recusar, e sentia-o vir à superfície, soltando-lhe os quadris, invadindo-lhe os pulmões, propagando-se pelos nervos, avermelhando-lhe o rosto e o peito. Começou a apertar e relaxar alternadamente a vagina, tentando apressar o orgasmo de Raul, mas ao fazê-lo estava a apressar também o seu. Sentiu como o amante acelerava os seus movimentos dentro dela, como se lhe soltavam, também a ele, os quadris, como a respiração se lhe tornava arquejante. Ia vencer: vencer por uma unha negra, mas vencer. Mas, no próprio momento em que via a vitória ao seu alcance, ouviu a voz dele que ordenava:

− Vem-te agora, minha escrava.

E veio-se, veio-se como lhe tinha sido ordenado, tão incapaz de se controlar como de não reagir a um choque eléctrico. Nunca antes ele lhe tinha chamado “minha escrava”; tinha esperado pelo momento próprio; e este tinha sido próprio, se tinha! Derrotada, e feliz na derrota, abraçou-se a ele, cobrindo-o de beijos e tentando, com as últimas contracções da vagina, prolongar-lhe o prazer até à última gota. Feliz na derrota: e tanto mais feliz por saber que a derrota táctica tinha sido uma vitória estratégica, um passo em frente na cura de Raul e no conhecimento que tinham ambos um do outro.

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Finalmente, mais um excerto do meu romance. Corresponde à segunda metade do capítulo 5.

O tempo tinha arrefecido e foi-lhes agradável regressar ao aconchego do apartamento. Teresa tirou as sandálias e o casaquinho e perguntou a Gustavo:

– Que música queres ouvir?

– Hmmm… – disse ele. – Tens Miles Davis?

– Tenho para aí alguma coisa – disse ela, e pôs-se a procurar entre os CD’s.

Por fim encontrou o que queria.

– Vais gostar disto – disse.

E enquanto a música começava a tocar baixinho dirigiu-se para Gustavo e fez menção de se sentar de novo aos pés dele.

– Assim não – deteve-a ele. – Toda nua.

– Toda nua?! – sorriu ela.

– Toda nua.

Teresa abriu mais o sorriso:

– Se o meu Senhor manda…

E sem mais demora despiu e arrumou toda a roupa que trazia vestida, que se resumia afinal à saia e à blusa. Depois sentou-se na mesma posição em que estivera antes, e enquanto ele lhe ia acariciando ora os cabelos, ora os seios, ora qualquer outra parte que achasse à mão, começou a conversar com ele sobre as trivialidades do dia: as compras dela, a viagem dele, a maçada em que os aeroportos se vão transformando cada vez mais… Por vezes caíam em confortáveis silêncios, durante os quais não faziam mais do que ouvir a música e tocar suavemente um no outro. Quando o CD chegou ao fim Teresa trocou-o e assim ficaram os dois, a embeber-se lentamente da presença um do outro.

– Vamos para a cama? – disse Teresa, quando o viu bocejar.

– Vamos.

– Então anda.

Na casa de banho mostrou-lhe o que tinha previsto para o acolher:

– Este é o teu roupão… as tuas toalhas… os teus chinelos…

Enquanto um tomava duche, o outro lavou os dentes. Secaram-se um ao outro com as toalhas. E por fim, sem que Gustavo se preocupasse em fazer uso do roupão ou dos chinelos que Teresa tinha disposto para ele, dirigiram-se nus para a cama, que Teresa abriu rapidamente e onde colocou duas enormes almofadas.

Na cama abraçaram-se e começaram a percorrer com as mãos e os lábios o corpo um do outro. Desde o primeiro toque Teresa sentiu a erecção de Gustavo, mas como ele não se mostrou apressado ela também não. Via-lhe, porém, as olheiras e os olhos um pouco raiados de sangue: estava cansado da viagem, e da lauta refeição que ela lhe tinha dado.

– Estás cansado, meu Senhor.

Gustavo sorriu-lhe:

– Estou, mas não tanto que não possa fazer as honras à última iguaria deste banquete…

Teresa, apalpando-lhe o pénis, respondeu:

– Isso estou eu a ver. Mas deita-te para trás, queres? Deixa-me ficar por cima e fazer todo o trabalho…

Gustavo deitou-se de barriga para cima no meio da cama, apoiou comodamente a cabeça na almofada, fechou os olhos e dispôs-se a gozar os prazeres que Teresa lhe proporcionasse. Esta passou-lhe uma coxa por cima do corpo, pegou-lhe no pénis e guiou-o para dentro de si, começando a mexer os quadris com movimentos lentos mas seguros. Conforme a inclinação que ela dava o corpo, Gustavo sentia-lhe a carícia, por vezes dos cabelos, por vezes dos seios macios. Abandonando a sua atitude passiva, pôs os braços à volta dela e começou a acariciar-lhe com mão firme as costas, as nádegas e a parte de trás das coxas. Ao sentir estas carícias, Teresa inclinou-se sobre ele e murmurou-lhe ao ouvido:

– Dá-me umas palmadas…

Antes de lhe dar a primeira palmada, Gustavo ainda continuou a apalpar-lhe as nádegas durante algum tempo. Depois ergueu a mão direita a uma altura suficiente para que ela ganhasse velocidade ao descer sobre o corpo de Teresa. Não bateu com força: estava mais interessado no efeito sonoro do que na sensação provocada.

– Sim… – disse Teresa; e começou a beijar Gustavo no peito ao mesmo tempo que soltava os quadris numa dança fogosa.

Com a segunda palmada Gustavo procurou abranger ambas as nádegas de Teresa; esta reagiu como a um choque eléctrico, com um repelão de todo o corpo, e redobrou os beijos apaixonados com que cobria o corpo do amante. Mas a terceira palmada estragou tudo: no momento em que a palma da mão atingiu o corpo de Teresa, Gustavo sentiu uma angústia tão intensa como inexplicável. O ar pareceu-lhe subitamente gelado, o sexo ficou-lhe flácido, e recordou a imagem, que julgava ter esquecido, dum rosto de mulher no Kosovo. Com um som que era em parte suspiro, em parte gemido, e em parte grito de protesto, rolou na cama de modo a sair de dentro da amante.

– Que foi?! – perguntou ela, alarmada. – Que foi, meu querido?!

– Não sei… Não sei bem. Lembrei-me duma coisa, duma coisa de que não devia ter-me lembrado.

Teresa juntou de novo as pernas mas continuou inclinada sobre ele, numa posição de tanta intimidade como a anterior, mas inteiramente doutra ordem. Os seios, pendendo suavemente sobre o peito dele, continuavam a ser um afago; mas agora este afago confortava-o em vez de o excitar.

– Conta-me, meu amor. Conta-me tudo.

E Gustavo contou. A mulher chamava-se Merita. Nunca tinha sido possível apurar a sua idade exacta, mas devia ter entre os vinte e os trinta anos. Quando ele, acompanhado duma psicóloga e duma agente da polícia local, entrou na sala onde ela estava a fim de tomar algumas notas, ela correu para um canto e ficou lá encolhida a olhar para ele com os olhos dum animal acossado. Teve que sair. Explicaram-lhe depois que era sempre aquela a sua reacção na presença de um homem, e que se as duas mulheres o tinham levado com elas era porque tinham tido esperança que ela estivesse a ultrapassar este trauma. A história dela era como a de tantas outras: um oficial das forças de manutenção de paz precisava duma mulher e de um apartamento para a guardar. As máfias locais estavam em posição de lhe fornecer estas comodidades, por um preço razoável. Merita era uma jovem viúva de guerra, sem família nem amigos que a protegessem. Foi fácil raptá-la, adaptar à pressa uma casa isolada e levá-la para lá, e entregar a chave ao cliente. Segundo os testemunhos recolhidos pelos psicólogos, Merita tinha sido, antes de ser raptada, uma mulher voluntariosa e senhora do seu nariz, perfeitamente capaz de regatear duramente no mercado da aldeia e de responder taco a taco a qualquer agressão física ou verbal. A mulher que os soldados, na sequência duma denúncia anónima, encontraram na casa isolada não era nada disto: era um animalzinho aterrorizado, incapaz de se exprimir por palavras, obediente a meia dúzia de ordens específicas dadas em inglês, mas aparentemente incapaz de compreender quaisquer outras palavras, mesmo na sua própria língua. O facto de ela reagir a ordens em inglês permitiu que se descobrisse rapidamente que o oficial em causa era um americano; e como estes tinham as suas próprias estruturas de justiça militar, separadas da estrutura multinacional em que Gustavo estava integrado, o caso passou rapidamente para as mãos deles; e Gustavo, envolvido em muitos outros, tinha-o esquecido até agora.

– Ainda bem que a coisa passou para as mãos deles – disse Gustavo, enquanto Teresa lhe afagava levemente os ombros e o peito. – O tipo acabou por ser condenado a uma pena muito mais dura do que aquela a que nós o condenaríamos. Mas mesmo assim leve demais. E queres saber o que me deu mais volta à cabeça?

Teresa beijou-o ao de leve no peito:

– Diz…

– Fisicamente, esta mulher estava de boa saúde. Consegues imaginar isto? De boa saúde. Um pouco desnutrida, mas veio a saber-se mais tarde que o homem até era cuidadoso com a alimentação dela; ela é que muitas vezes não queria ou não conseguia comer. E não tinha quaisquer marcas de maus tratos: o fulano reduziu-a ao que a reduziu com base apenas em técnicas em pressão psicológica e em palmadas no rabo. Ainda agora não compreendo: vi outras mulheres com queimaduras, com marcas permanentes no corpo com vestígios das torturas mais inconcebíveis, e mesmo assim menos degradadas psicologicamente do que ela. Ela própria tinha suportado, durante a sua vida de casada, maus tratos piores, sem que a sua auto-estima fosse afectada por isto. E este gajo, só com a palma da mão, fez dela o que fez…

Ditas estas palavras, Gustavo calou-se. Teresa, vendo-o perdido em pensamentos, respeitou este silêncio e limitou-se a beijá-lo de vez em quando, enquanto ele a acariciava, quase distraidamente, nas costas.

– Foi disto que me lembrei – recomeçou ele subitamente. – E subiu por mim acima um asco, uma vergonha…

Teresa deixou que o silêncio se prolongasse de novo. Por fim, sem deixar de o acariciar como a um animal nervoso, disse:

– Mas antes de ires para o Kosovo já tinhas feito isto com mulheres…

– Tinha, claro que tinha – respondeu Gustavo.

– E não sentiste nojo, nem vergonha, nem culpa…

– Não, é claro que não. Senti prazer, e elas também.

Teresa recomeçou a beijá-lo e a acariciá-lo sem dizer nada. Quando entendeu que tinha passado tempo suficiente, perguntou-lhe:

– E com a tua mulher?

– Com a Isabel? A Isabel é um caso aparte. É diferente de qualquer outra pessoa que eu já tenha conhecido, homem ou mulher. Parece-me incapaz de sentir dor ou prazer… Não, não é bem isso: sente dor e prazer, mas com muito pouca intensidade.

– Fisicamente, queres tu dizer?

– Fisicamente, psicologicamente, moralmente… De todas as formas. De início não me apercebi disto. Mas com o tempo comecei a acreditar que para ela o único verdadeiro prazer é ter dinheiro e o único verdadeiro sofrimento é não o ter.

– Não é caso único…

– Que eu conheça, é. E depois há outra coisa, que não sei se é impressão minha: o corpo dela parece feito de borracha dura. Tem uma consistência diferente, que parece que não é de mulher nem de homem… Estou a explicar-me muito mal.

– Não faz mal. Continua.

– Uma vez assisti a uma coisa… trilhou-se a fechar a porta do carro. Ficou com um daqueles vergões vermelhos, muito brancos nas bordas… Sabes? Olha-se para aquilo e vê-se logo que causou uma dor horrível.

– E ela?

– Qualquer outra pessoa teria dado um grito, soltado um palavrão, segurado com a outra mão a parte atingida… Ela não. Olhei para a cara dela e o que vi foi uma expressão petulante, de contrariedade, como se alguém ou alguma coisa tivesse falhado uma obrigação qualquer para com ela…

– Deixava-te bater-lhe?

– Quando eu me portava bem, quer dizer, quando fazia alguma coisa que pudesse conduzir a uma promoção, ou a mais dinheiro. Mas deixava-me bater-lhe como me deixava beijá-la, ou fodê-la: tanto lhe fazia. E eu acabei por me desinteressar tanto duma coisa, como das outras. Nos últimos anos do nosso casamento deixámos de ter relações sexuais.

Chegada a conversa a este ponto, pareceu a Teresa que era chegada a altura de menos palavras e mais acções. Os beijos e as carícias que não tinha parado de dar a Gustavo tornaram-se de novo mais deliberados, e ele correspondeu concentrando-se mais no corpo dela. Mas não recuperou a erecção anterior, ainda que o pénis lhe pulsasse um pouco e ficasse meio direito. Teresa deixou que este período de carícias recíprocas se prolongasse como se estivesse disposta a contentar-se com ele a noite inteira. Mas por fim, quando o viu sorriu de prazer, disse-lhe:

– Meu Senhor… Se a tua escrava te pedir muito uma coisa, tu fazes-lha?

– O que é?

– É uma coisa que não vais querer.

– Como assim?! Julguei que os senhores é que pediam às escravas coisas que elas não queriam…

– Não pedem, ordenam. E as escravas obedecem. Eu não te estou a ordenar, estou-te a pedir…

– Seja, estás-me a pedir. E é uma coisa que eu não vou querer…

– Sim.

– E que tu me pedes por uma razão qualquer que não me dizes…

– Sim. Uma boa razão, disso estou certa. Terás que confiar em mim. Terás que confiar muito em mim. Prometes?

Aos ouvidos de Gustavo isto soou como um desafio ao qual se misturava um apelo e uma dádiva. E tinha-se comprometido a aceitar todas as dádivas, mesmo as mais imprevisíveis, que lhe viessem desta mulher imprevisível. Sorriu para si próprio: aquele pedido tão humilde era na realidade uma ordem. Bem merecia esta Teresa o seu nome. Respondeu:

– Sim, Teresa, prometo. Seja o que Deus quiser.

Teresa encarou-o, muito séria:

– Meu Senhor, vês ali, entre a zona de dormir e a de estar, aquela cadeira muito sólida. Repara que não tem braços. Peço-te por favor que me leves até ela, que te sentes, que me estendas de bruços sobre o teu colo e que me dês uma severa e prolongada tareia de palmadas. Peço-te que faças isto mesmo que não tenhas prazer. Peço-te que o faças mesmo que sintas vergonha ou culpa. E não é para eu ficar com as nádegas rosadas: é para ficar com elas vermelhas, vermelhas escuras. És capaz de fazer isto que a tua escrava te pede?

Ricardo afastou para o lado as roupas da cama, com um gesto tão violento que caíram no chão e os deixaram aos dois nus sobre os lençóis. Segurou Teresa rudemente pelos ombros e afastou-a de si a todo o comprimento dos braços, como que para a ver melhor. Fixou nela os olhos irados e encontrou em resposta um olhar sereno e directo. Com um gesto brusco saiu da cama e foi sentar-se na cadeira.

– Anda! – comandou. – De que estás à espera?

Teresa foi ter com ele sem pressa mas sem hesitação. Viu-o rígido na cadeira, a tremer de cólera mal contida. Ainda bem. Era exactamente assim que o queria naquele momento: furioso. Logo que chegou deitou-se de bruços sobre o colo dele e esperou pela primeira palmada. Esta, tal como ela previra, não foi meiga. Nem foram meigas as que se lhe seguiram; cada uma detonava no apartamento como um tiro, e se não fossem as paredes grossíssimas do edifício os vizinhos teriam motivos para ficar intrigados.

Logo aos primeiros golpes Teresa ficou a saber que Gustavo sabia bem castigar uma mulher. Dominada pela dor, mal conseguia estar atenta ao sinal de que estava à espera; mas finalmente sentiu o pénis do amante a enrijar e a erguer-se, obrigando-a a ajeitar-se para criar uma abertura entre o corpo dela e o dele de modo a acomodar esta erecção. As palmadas dadas por um Gustavo excitado não eram mais suaves do que as que lhe tinha dado o Gustavo furioso de minutos antes, mas eram mais espaçadas, mais dirigidas a zonas específicas. A dor, quase intolerável, levava-a a gemer, ou mesmo a soltar um pequeno grito de vez em quando. De que cor teria agora as nádegas? De um vermelho tão escuro como o que tinha pedido? Não sabia, mas o ritmo regular das pancadas indicava que o castigo estava para durar.

Quando ele parou, Teresa ouviu-lhe a respiração arfante e sentiu as pingas de suor que caíam sobre ela. Estava cansado. Mas em vez de terminar o castigo, passou a utilizar a mão esquerda – o que tornaria as palmadas menos dolorosas para Teresa se não tivesse as nádegas já tão sensíveis. Ouviu-o arfar cada vez mais alto, sentiu-lhe o suor cada vez mais abundante, mas mesmo assim as palmadas não pararam durante muito tempo. Teresa já tinha sofrido castigos mais dolorosos do que este, mas todos eles tinham sido aplicados com chicotes ou outros instrumentos. Nunca imaginara que um castigo aplicado com a mão pudesse ser tão severo.

Enfim, uma pausa. Ouviu, vinda lá de cima, a voz rouca, e ainda um pouco zangada, do amante:

– Já chega?

Ai chegava, chegava! E de que maneira! Tinha as nádegas em fogo, e parecia-lhe que não seria capaz de suportar nem o toque duma pena. Mas em vez de responder “sim”, arranjou força e ousadia para dizer:

– Tu é que sabes, meu Senhor.

A estas palavras, Gustavo mudou de novo para a mão direita e assentou-lhe uma série de palmadas que foram com toda a certeza as mais fortes dessa noite. Quantas? Seis, dez, doze; Teresa, perdida de dor, não pôde contá-las. Por fim levantou-se bruscamente da cadeira, sem cuidar que a atirava ao chão. Inclinou-se para lhe pegar por um pulso e puxou-a para a cama, obrigando-a a segui-lo meio a correr, meio aos tropeções. Ao aterrar de costas, Teresa sentiu a dor provocada pelo contacto entre os lençóis e a sua pele dorida. Mas mal teve tempo para soltar um ai, porque Gustavo já a penetrava duma estocada só, fazendo-a estremecer toda com o embate dos corpos. As estocadas seguintes não foram menos rudes, mas ela já não lhe sentiu a rudeza, nem a dor das nádegas doridas a embater na cama, porque desde a primeira penetração foi avassalada por uma sucessão de orgasmos, ou por um só orgasmo interminável, que lhe obliteraram qualquer vestígio de dor.

Gustavo, por seu lado, ao penetrar Teresa, já não estava movido por qualquer vestígio de cólera, mas sim por um puro, inocente desejo, por uma exultação avassaladora. O fogo em que ardia fogo que tinha-o purificado, pelo menos por agora, de toda a vergonha, de toda a culpa e de toda a ira. Dominou-se para prolongar o prazer, mas não tentou dominar o vigor nem a amplitude dos seus movimentos sobre o corpo receptivo da fêmea.

Depois de tudo terminar deixaram-se ficar, fazendo travesseiro e colchão do corpo um do outro. Quando por fim olharam de novo para o rosto um do outro, Teresa sorriu para Gustavo e disse:

– Hmmm… Meu Senhor, se soubesses como eu estava a precisar duma coisa assim…

Gustavo devolveu-lhe o sorriso:

– Eu também, podes ter a certeza.

Teresa deu-lhe uma sapatada de brincadeira:

– Ah, sim?! Andavas precisado, era? E deste conta do que me fizeste?

Ricardo encolheu os ombros:

– As palmadas? Claro que me dei conta. Ficaste com o rabo da cor daquele Barolo que bebemos ao jantar… Aliás, mais daqui a bocado tenciono inspeccioná-lo para ver se já está na cor certa ou se ainda é preciso ajustá-la.

Desta vez Teresa deu-lhe um murro:

– Não estou a falar das palmadas, estúpido! Estou a falar da maneira perfeitamente desaustinada como me possuíste a seguir. Amanhã nem sei se vou conseguir andar. Ou então vou andar por aí de pernas abertas… Achas isto bem?!

– Oops! – fez Gustavo.

– Deixa lá – disse Teresa. – Como já te disse, era disso que estava precisada.

Depois de um breve silêncio Gustavo recomeçou a conversa:

– Só não entendo uma coisa. Disseste-me várias vezes que a dor física não te excita nem te dá prazer…

– E é verdade.

– Mas quando eu te penetrei depois daquela tareia estavas tão excitada que começaste logo a vir-te. Afinal as palmadas excitaram-te ou não?

Teresa suspirou e ficou um momento a ordenar as ideias.

– Olha, Gustavo – disse por fim. – Se aquelas palmadas me tivessem sido dadas por um homem a quem eu não amasse, não me teriam dado prazer nenhum. Sei disto por experiência. Se me tivessem sido dadas para me forçar a uma submissão indesejada, não me teriam provocado outra coisa que não fosse revolta. Entendes isto?

– Claro que entendo.

– O meu prazer não esteve em ser castigada. Esteve em poder ser castigada. Esteve em tu teres esse direito. Nunca mais te pedirei um castigo como te pedi hoje, mas aceitarei sempre com gratidão todos os que me deres, por mais severos que sejam. Não me interessa que mos dês por eu os ter merecido, ou que mos dês porque te dá prazer. Em todo o caso dar-mos-ás porque tens esse direito. É isto que precisas de saber.

– E achas que ainda não sei?

– Não acho, tenho a certeza: ainda não o sabes suficientemente. Mas hoje fizemos progressos: o teu corpo, ao menos, já sabe muito bem que sou propriedade tua.

Estas palavras, disse-as Teresa já num bocejo. Gustavo ia responder-lhe, mas viu que não valia a pena: ela já estava a dormir. Levantou-se da cama, pegou nas roupas que tinha lançado ao chão, cobriu com elas a amante, deitou-se ao lado dela e adormeceu por sua vez.

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Como escrevi abaixo, não vou publicar aqui capítulo a capítulo o meu segundo livro, como publiquei conto a conto o primeiro. Isto não impede que ofereça aos leitores deste blogue, de vez em quando, um excerto. Este que se segue encontra-se perto do final do segundo capítulo. Espero que gostem.

– O que é que leu no livro que o pôs assim a pensar? – perguntou Teresa.

– A maneira como homens e mulheres delimitam territórios – respondeu Gustavo. – Repara: isto passa-se em Veneza. Há dois irmãos de meia-idade que regressam do funeral da mãe. São ambos casados. Reúnem-se em casa de um deles, com alguns amigos íntimos, para tomar café e comer bolos. São gente culta, de classe média alta, os homens têm o hábito de ajudar em casa. E contudo quem vai imediatamente para a cozinha são as duas noras da falecida e a neta adolescente. Na sala ficam os homens, o neto do sexo masculino, e as mulheres que não pertencem à família imediata. Fica-se com a sensação que se algum destes entrasse na cozinha, seria expulso como um intruso, e que aquelas mulheres do Venetto, emancipadas e cultas, defenderiam o seu lugar na cozinha com a mesma ferocidade que qualquer camponesa semi-analfabeta da Calábria.

– No fundo somos todas iguais – riu-se Teresa.

– Posso perguntar-te uma coisa? – disse Gustavo.

Teresa pôs-se subitamente séria:

– Pode perguntar-me sempre tudo.

A simplicidade desta resposta fez com que Gustavo corasse um pouco, mas prosseguiu:

– Porque é que andas sempre descalça?

– Não ando sempre descalça. Só um mês por ano, durante as férias. Faço-o para me sentir livre. E para sentir uma continuidade entre o mundo e o meu corpo. Tenho necessidade disso.

– Foi isso que disseste à chefe de sala, no refeitório?

– Disse-lhe que se fosse para não poder andar à vontade, não teria escolhido Porto Colom como destino de férias. Acho que ela compreendeu.

– E o facto de te chamares Teresa de Ávila deve ter ajudado…

Riram-se os dois. A partir deste ponto a conversa prosseguiu com aquelas aparentes banalidades que são na realidade essenciais entre duas pessoas que se começam a conhecer. Se gostam mais do Verão, se do Inverno, se são aventureiros ou conservadores no comer e no beber, se gostam de andar de avião, se fazem exercício, os livros e a música de que gostam, que família têm e que relações têm com ela, o que os encanta e o que os irrita nos outros… Por fim Teresa bocejou, e Gustavo disse que talvez fosse horas de irem dormir.

– Desculpe… – disse Teresa.

– Não peças desculpa – disse Gustavo. – Eu também já tenho um pouco de sono.

Nas noites seguintes, a seguir ao jantar, Gustavo não voltou a fazer-se acompanhar de um livro. Nem voltou a aproximar-se do bar: servir-lhe o whisky tinha-se tornado, por acordo tácito, tarefa de Teresa. A única diferença é que o seu lugar de encontro deixou de ser sempre o átrio do hotel e passou a ser também, por vezes, o terraço junto às piscinas. Quando se encontravam aqui, Teresa sentava-se numa cadeira de plástico ao lado de Gustavo, mas quando era no átrio continuou a sentar-se sempre na carpete. Na terceira noite, quando Gustavo disse que se ia deitar, Teresa anunciou:

– Subo consigo.

Porque é que esta honesta simplicidade, que transparecia tantas vezes nas palavras de Teresa, tinha o condão de fazer corar Gustavo? Inclinou-se para ela, beijou-a ao de leve na boca, e respondeu-lhe com igual simplicidade:

– Vamos.

No elevador não se abraçaram nem beijaram, mas a proximidade a que a estreiteza do espaço os obrigava fez com que Gustavo sentisse o cheiro a sabonete que vinha do corpo de Teresa, misturado com o odor inconfundível da excitação sexual feminina. Havia ainda outros aromas, provenientes duma sacola que ela, contra o que era hábito, trazia a tiracolo. E que cheiro estaria ela a sentir, provindo dele? A sabonete, sem dúvida; mas será que a excitação dum homem tem cheiro, sobretudo se ainda na fase inicial?

Logo que ficaram sós, Teresa perguntou a Gustavo qual era, habitualmente, a primeira coisa que fazia quando chegava ao quarto.

– Geralmente vou um bocado para a varanda – respondeu ele, um pouco surpreendido com a pergunta. – Sento-me na cadeira, fumo um charuto e fico a olhar para o mar.

– Então faça isso mesmo – respondeu-lhe Teresa. – Faça de conta que eu não estou cá. Não se preocupe, quando voltar para dentro ainda me vai encontrar: não me vou embora sem a sua permissão.

Este era o início mais estranho que Gustavo alguma vez tinha visto par um encontro sexual; mas um certo sentido da novidade e da aventura levou-o a entrar no jogo. Afastou para o lado a cortina que separava o quarto da varanda, abriu a porta de correr, e ia a pegar na caixa dos charutos quando a voz de Teresa o deteve:

– Espere. Eu levo-lhe os charutos.

Que fazer senão obedecer? Era claro para Gustavo que tudo isto era um jogo, do qual Teresa conhecia as regras e ele não. Saiu para a varanda, sentou-se na cadeira de plástico branco, puxou para mais perto a mesa do mesmo material e esperou. Passado uns segundos apareceu a jovem, trazendo consigo não só a caixa de charutos, mas também o isqueiro e o aparelhinho de desenroscar que ele usava para cortar as pontas. Agachada ao lado dele, Teresa procedeu calmamente a esta operação, acendeu o charuto rodando-o entre os dedos, tirou a primeira baforada e ofereceu-lho. Seria claro para quem a estivesse a ver que não era a primeira vez que ela prestava a alguém este serviço. Depois, sem falar, retirou-se para o quarto, correu a cortina e a porta de vidro, e não voltou a dar mais sinal de si que não fosse algum ruído ocasional e ténue.

Sozinho na varanda, Gustavo esforçou-se por imaginar que estava igualmente sozinho em todo o aposento, e que lá dentro ao pé da cama não se encontrava, à sua espera, uma mulher jovem e atraente, a primeira com quem tinha um encontro íntimo desde havia meses. E de certo modo teve êxito nesta imaginação: durante os quarenta e cinco minutos que um charuto daquele tamanho e consistência demorava a fumar – tempo este que ele precisou de toda a sua auto-disciplina para não encurtar com baforadas nervosas – o pátio sob a varanda foi-se esvaziando de gente, o calor que um dia de sol tinha acumulado nos ladrilhos foi-se dissipando, e a presença silenciosa de Teresa no interior do quarto foi adquirindo quase a imponderabilidade de um sonho.

E foi um cenário de sonho, aquele com que Gustavo se deparou quando entrou de novo no quarto: a luz eléctrica apagada; velas acesas, perfumadas, dispostas em todos os lugares possíveis e nalguns que ele nunca imaginaria; taças com pétalas de flores; no toucador, na secretária, nas mesinhas de cabeceira, pratinhos minúsculos com tâmaras e amêndoas; e na cama, coberta por um fino lençol que não lhe velava a nudez, os cabelos escuros espalhados sobre o travesseiro, estava Teresa.

Estes preparativos tão elaborados falaram bem alto, como era intencional e óbvio, à sensualidade de Gustavo; mas antes disso, por uma fracção de segundo, falaram-lhe também ao entendimento. E o que lhe murmuraram foi que o que lhe estava a ser proposto era algo mais do que uma aventura de férias: agora competia-lhe a ele, pela maneira como agisse nos segundos e nos minutos seguintes, aceitar ou não esta proposta.

E foi isto que Gustavo fez: como a cama era baixa, precisou de pôr um joelho no chão para se inclinar sobre Teresa; nesta posição, beijou-lhe cerimoniosamente a testa, os olhos e a boca; em vez de a destapar, ajeitou-lhe o lençol sobre o corpo, como se fosse para lhe desejar boa noite; e por fim, aproximando a boca do ouvido dela, murmurou-lhe:

– Teresa, ainda não sei muito bem quem tu és, nem o que és; nem sei muito bem o que é que me estás a dar neste momento, só sei que é alguma coisa de muito importante; mas declaro aqui que seja o que for, aceito. Sejam as consequências quais forem, aceito.

Teresa tirou os braços de sob os lençóis para lhos lançar ao pescoço, e assim se beijaram durante um longo minuto. Então Gustavo levantou-se, entrou na casa de banho para lavar da boca o cheiro do charuto, despiu-se completamente e voltou para junto de Teresa, deitando-se ao lado dela debaixo dos lençóis. Abraçado a ela, sentiu que o sexo se lhe intumescia. Ela também o sentiu, porque comprimiu contra ele o ventre macio.

– Teresa…

– Estou aqui, Gustavo. Juntinha a si. Pronta para si. O que quer fazer comigo?

– Tudo, minha querida. Tudo. E tu? O que queres fazer comigo?

– Eu? Não pense nisso. Nunca pense nisso. Eu não tenho importância. Já me deu tudo o que eu queria quando me disse “aceito”… Agora trata-se do que o senhor quiser.

Gustavo, já excitado, sentiu uma excitação diferente e muito mais intensa ao ouvir estas palavras. Não se tratava só de excitação física, porque logo o primeiro contacto com o corpo nu de Teresa lhe tinha provocado uma erecção que quase lhe doía, de tão rija e tão túrgida. Nem só de desejo, porque esse era desde antes quase irresistível; era, sim, uma carga de energia, uma sensação de que tudo era possível agora e sempre. Quase se sentia capaz de flutuar no ar, se quisesse, por pura força de vontade, e a partir do ar penetrar, como um anjo, a carne feminina que se abria abaixo dele para o receber.

Afastou para o lado o lençol que lhes cobria os corpos, e pela primeira vez viu Teresa nua. Já lhe tinha notado, pelo balancear das saias rodadas, a largura das ancas; via agora que esta largura lhe vinha, não de qualquer gordura a mais, mas da estrutura óssea e da musculatura vigorosa. A cinta estreita mas bem musculada, os braços roliços mas firmes, o ar de flexibilidade, suavidade e força que emanava dela toda, tudo isto apontava para o mesmo:

– Fazes dança do ventre?

– Sim, há alguns anos. Mas não sou profissional, apenas uma amadora razoável. Hei-de dançar para si… Quer?

Gustavo não respondeu. Estranhamente, apesar de toda a sua excitação, não tinha pressa: era como se a energia de que se sentia repassado fosse inesgotável e eterna. Pôs-se a examinar e a sopesar os seios de Teresa, que numa dançarina profissional seriam talvez um pouco grandes demais, mas nela eram perfeitos.

Teresa, docilmente, punha-se a jeito para todos os toques, sem deixar de o acariciar com as mãos ávidas.

– Agrado-lhe? Quero tanto agradar-lhe…

Gustavo voltou a não responder. Esta pergunta era daquelas a que se responde sempre sim, seja esta resposta verdade ou mentira; e este sim seria uma daquelas respostas em que nenhuma mulher acredita, por verdadeira que seja.

– Vira-te de barriga para baixo – ordenou.

Teresa obedeceu sem hesitar. Seria intenção dele possuí-la pela abertura de trás? Se fosse, ela ficaria contente por ser assim possuída; mas não, tudo o que ele queria era continuar o exame minucioso a que a estava a sujeitar. As costas, como o resto do corpo, eram as duma dançarina; as nádegas, as duma Vénus Calipígia. Correu-lhe as mãos pela nuca, afastando para os lados o cabelo. Poucas partes do corpo, como a nuca, fazem duma mulher mais mulher. Mesmo nas feias a nuca costuma ser linda; e esta era bela da cabeça aos pés. A carícia que Gustavo lhe fez nas costas foi quase uma massagem; e ela, impedida de retribuir pela posição em que estava, começou a arquear-se e a ronronar como uma gata, toda entregue à mão que a afagava.

Nas nádegas a carícia foi diferente: ora uma passagem leve da mão, ora uma leve palmada para ver como oscilavam e tremiam. Teresa gemeu:

– Se o senhor quiser pode bater com mais força…

Gustavo achou suficiente bater apenas com a força necessária para lhe ver a pele enrubescer. Mas à luz quente das velas a mudança de cor mal se notava: noutra ocasião, à luz do dia… Continuou a examiná-la: a parte de trás das coxas, a dobra do joelho, que beijou, os calcanhares redondos e macios: como podia uma mulher que tanto andava descalça ter uns pés assim cuidados? Pedra-pomes diária, sem dúvida, cremes emolientes, pedicura frequente…

– Vira-te outra vez – ordenou.

E quando ela se pôs de novo de barriga para cima:

– Abre as pernas.

Gustavo ainda não sabia que, para Teresa, a ordem seca de abrir as pernas era mais excitante que longos minutos de preliminares e carícias. Procurou-lhe, com o pénis rígido, a abertura do sexo, e encontrou-a suficientemente molhada para se poder enterrar nela logo naquele momento, num movimento súbito. Mas não o fez: decidiu atormentá-la, mesmo que para tal tivesse também que se atormentar a si próprio. Por vezes fazia menção de a penetrar, chegava a entrar nela um pouco, para logo recuar e recomeçar a série infindável de beijos que lhe ia dando na boca, nos seios, na zona lateral do tórax, onde se conhecem as costelas… ou então percorria-lhe lentamente, com a ponta do membro, todo o rego entre o clítoris e a abertura anal, resistindo à tentação de entrar nela sempre que lhe passava entre os lábios vaginais.

Teresa nada ousava pedir, muito menos exigir. O desejo dela, via-o ele bem no modo como escarranchava as coxas e o abraçava com as pernas, tentando puxá-lo para dentro – para logo as fechar um pouco, a uma ordem dele, até ficarem no ângulo que ele queria. Ou na súplica das mãos que lhe palpavam o rosto, como as dum mendigo o de um santo, tentando descortinar uma promessa na posição dos lábios ou do queixo. Ou nos gemidos inarticulados, ou no arquear ansioso do corpo ao encontro do dele.

Penetrou-a por fim até ao fundo, num movimento lento, a que se seguiram outros igualmente lentos em que entrava nela e saía dela completamente. Era isto que ela queria. Era isto que ela não queria. Era este o seu prazer. Era esta a sua tortura. Oh, poder ela ser trespassada de vez, como a santa sua homónima pela lança do anjo, que lhe arrancava as entranhas!

Mas por fim Gustavo tinha tão pouco poder para se recusar à energia que o impelia como Teresa para a convocar; e o pénis dele tornou-se, sim, em lança de fogo, e trespassou-a, sim, até às entranhas, e fê-la morrer, sim, uma, duas, várias mortes. Gustavo viu-a fechar os olhos, abrir a boca num “O” perfeito, exalar, como quem exala a vida, o prazer último e completo. E quando ele próprio se esgotou nela sentiu ainda, no mais fundo de si, o reservatório inesgotável de virilidade que as palavras dela lhe tinham dado a conhecer.

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Autor: M’Ahmed ben Chérif Effendi

Tradução: Vanderdecken

Zima dirige-se de novo ao Príncipe e diz:

− Permite, Amo e Senhor, que vistamos as nossas roupas de modo a que esta virgem sofra ainda mais com a sua nudez.

A um aceno de concordância do Khan desaparecem os três para logo voltarem completamente vestidos. Zima traz um vestido de seda negra bordado a prata que lhe realça as linhas do corpo esbelto. Os dois rapazes conservam os calções vermelhos debruados a prata, mas o bolero foi substituído por um colete russo justo à cintura.

Desceram vários degraus, conduzidos por Zima até chegarem a um corredor longo e sombrio com paredes nuas, mal iluminado por tochas fumarentas. De súbito param diante duma porta maciça em madeira de carvalho, fechada por grossos fechos de ferro. Zima bateu três vezes com a pesada aldraba de ferro. Este lugar provocava um medo angustiante, e o eco abafado da aldraba sob as abóbadas despertava sonhos sangrentos. Quase se podia acreditar que se viam ainda os vestígios das várias torturas que numerosos infelizes tinham sofrido ao longo de muitos anos. Uma velha com feições descarnadas e aspecto temeroso apareceu para abrir a porta. Ao ver Zima cumprimentou-a tomando na mão manchada de henna a mãozinha da jovem e beijando-a com reverência. A seguir, sem dizer palavra, conduziu o pequeno grupo a uma cave escura cuja porta fechou depois de pedir licença aos visitantes.

Esta câmara, que na sua desolação esquálida contrastava singularmente com o luxo dos andares superiores, recebia um pouco de luz natural por uma fresta estreita; uma lamparina a óleo iluminava o compartimento com uma chama bruxuleante. Vários objectos pendiam das paredes húmidas; alguns bancos e uma banheira em pedra constituíam o parco mobiliário desta tumba. E no meio, atada a um pesado bloco de madeira, gritava e debatia-se uma jovem.

As cordas que a prendem firmemente entram-lhe pela carne e obrigam-na à imobilidade. A garganta está presa por uma banda de ferro que lhe pesa sobre os ombros como uma canga. Por debaixo dos sovacos correm-lhe cordas finas que lhe deformam os seios e os friccionam até fazer sangue. Uma tábua presa com fios de cânhamo fixa-lhe os braços ao bloco; pelo mesmo sistema tem imobilizadas as articulações das mãos. Uma tira de couro cravejada por dentro com picos de aço rodeia-lhe a cintura. As pernas estão presas ao bloco da mesma maneira que os braços, e os pés apoiam-se numa tabuazinha recurva com pregos de ponta arredondada, que não ferem mas provocam dores excruciantes.

Esta jovem é Alifa, a escrava rebelde que mereceu esta punição devido a inúmeros delitos. O castigo foi adiado para este dia para servir o prazer do Khan, como outrora os Césares gozavam o martírio dos cristãos. A sua punição é ainda aumentada pela vergonha que o olhar dum homem sobre a sua carne virgem representa.

Este espectáculo transforma o Príncipe; sem saber porquê, fica repleto dum ódio profundo contra a jovem indefesa exposta perante ele. Desperta nele toda a crueldade do Hindu, os seus lábios contraem-se num sorriso maldoso: assim é o tigre quando se prepara para se lançar sobre a presa. Hassan odeia esta jovem!

– Cadela de escrava! – brama, depois de ter apreciado calado este quadro sinistro por algum tempo. – Metes nojo! Pois bem! Agora vais sofrer para expiar os teus erros!

– Piedade! – suspira a infeliz entre lágrimas. – Os meus membros doem-me, o meu peito sangra… Poderoso Senhor, pela tua mãe, sê misericordioso! Manda-me soltar! Piedade!

– Vais ser torturada – responde ele.

Com um esforço sobre-humano a jovem procura romper os laços que a prendem, mas eles enterram-se-lhe ainda mais na carne. A dor é avassaladora, um grito de partir o coração rompe-lhe da garganta e ela desfaz-se em soluços. As lágrimas diminuem pouco a pouco e o seu olhar suplicante dirige-se de novo para o Príncipe. Mas este permanece inamovível, e um sorriso sardónico paira-lhe nos lábios cerrados. Atemorizada, Alifa baixa os olhos e sofre em silêncio…

– Olha para mim! – ruge o Khan ao mesmo tempo que mostra à escrava o seu pénis posto a nu. Alifa enrubesce e baixa de novo os olhos, mas Hassan, no cúmulo da cólera, ordena às duas negras que têm Alifa a seu cargo:

– Peguem nos chicotes e chicoteiem esta cadela na barriga pelo tempo que for preciso até ela olhar para o meu sexo!

Os golpes silvam no ar e estalam na barriga branca da jovem. Esta nova tortura arranca-lhe novos gritos de dor. Depois do terceiro golpe, procura erguer o olhar para o Príncipe, mas debalde, porque o pudor a obriga a baixar de novo as pálpebras. Os golpes continuam a chover, e de novo, por várias vezes, ela se esforça por contemplar o membro de Hassan, mas sempre sem êxito. Por fim aparece um fino fio de sangue nos vergões do chicote e ela desmaia…

As negras revivem-na com uma massagem e dão-lhe a sorver uma bebida retemperadora. Como ela continuava de cabeça baixa, prenderam-lhe um peso aos cabelos compridos para lhe puxar a nuca para trás e obrigar a pobre a olhar em frente. Com o rosto vermelho de vergonha, ainda não ousa obedecer; pouco a pouco, porém, vai-se habituando, e ao ser ameaçada com um ferro em brasa decide finalmente olhar para o Khan, a quem o olhar temeroso dirigido às suas partes sexuais excita em alto grau. E a jovem vê pela primeira vez na vida como o membro de um homem se vai endireitando lentamente, aos arrancos, até ficar direito e rijo.

Olha agora com espanto, esquecendo as dores que sente, este membro comprido que se move para cima e para baixo, endurece, passa de vermelho a roxo e se dilata ao ponto de parecer quase a explodir… Por fim Hassan, que receia um orgasmo demasiado rápido, cobre-se de novo com a sua camisa de seda e senta-se num banco.

Ordena que a desamarrem; uma ideia diabólica passa-lhe pela mente. Quando Alifa se sente livre a sua primeira reacção é pôr as mãos a esconder o sexo, num movimento instintivo ditado pelo seu pudor virginal.

– Tira as mãos! – ordena o Príncipe.

A jovem não obedece e mantém-se na mesma posição: imediatamente silvam dois chicotes de couro que lhe atingem os braços, e a dor obriga-a a obedecer ao desejo do Khan. Este chama as duas negras e dá-lhes instruções em voz baixa. Estas compreendem: tomam nas mãos as vergastas e põem-se à espera. O Príncipe ergue-se, deita fora a camisa de seda e dirige-se a Alifa todo nu. Ao ver aproximar-se de si este homem ávido, ela apressa-se a fugir: o Khan persegue-a e ela corre por toda a sala para escapar ao amplexo que a ameaça. Mas ao escapar tem que passar pelas negras, que a cada passagem a atingem com os chicotes nos ombros, nas coxas e no rabo. E o Príncipe persegue-a sem querer a sério apanhá-la. A escrava urra de dor a cada golpe do chicote, e os seus gritos originam, estas abóbadas subterrâneas, um eco assustador.

De repente, no fim das suas forças, pára, vira-se e dá ao Khan, antes que ele tenha tempo de se defender, uma sonora bofetada na cara. Ao receber este insulto inaudito ele fica desconcertado, pasmado, durante um momento; mas logo a cólera e a fúria lhe fazem perder a cabeça; com mãos trémulas agarra num chicote, prende a jovem pela garganta, atira-a ao chão e vergasta-a sem piedade.

Quando ele, esgotada por agora a sua cólera, termina, as negras ajudam a jovem a levantar-se e mergulham-na totalmente na banheira cheia de água gelada.

A infeliz sente-se finalmente melhor; bebe ainda um cordial, e depois de algum tempo de sossego vai-se recompondo cada vez mais. Contudo, arde-lhe o corpo todo, os membros doem-lhe horrivelmente, e julga sentir dentro de si um fogo que a consome; mas não ousa queixar-se porque teme uma nova punição: pois não duvida que os seus sofrimentos ainda não chegaram ao fim, e que o rude selvagem que a contempla com olhos ávidos e cruéis ainda não está saciado. E o Khan odeia-a agora com todo o ódio dum homem insultado. Ditará a sangue frio, para obter vingança, as penas mais terríveis.

– Pede perdão – rosna ele. – Diz que me queres, cadela miserável!

As negras sopram à jovem, para que ela obedeça ao seu Senhor, as palavras que deve dizer, e acompanham estas palavras com vergastadas.

– Poderoso Senhor – soluça ela – perdoa… à tua ínfima escrava o ultraje que ela cometeu contra ti… Desejo-te, meu amado, gostaria… de sentir o teu corpo sobre o meu… gostaria que o teu sexo penetrasse em mim… Sou uma cadela miserável… que não deseja mais nada que servir-te… Sei que sou indigna de ti… O teu membro é belo… é vermelho… é grosso… Quando se introduzir em mim há-de rasgar-me toda…

Este discurso continua ainda por muito tempo, sempre ditado pelas negras, que a cada hesitação abatem as vergastas sobre os braços nus de Alifa. A jovem está vermelha de vergonha por ter que dizer tais palavras; um tremor nervoso apodera-se de todo o seu corpo e apercebe-se do tormento que ainda a espera. Momentos de rancor surdo alternam no seu espírito com o mais profundo abatimento. Dá-se conta da sua impotência e quereria defender-se, desejaria não deixar macular a sua pureza virginal diante de tantos olhos; as palavras que diz doem-lhe na boca, e crê sentir um vento de loucura a percorrer-lhe o espírito.

Depois de um curto intervalo é obrigada a fazer um novo discurso que ultraja ainda mais o seu pudor. É constrangida a acompanhar as palavras de gestos e a mostrar as partes do corpo a que se refere.

– Olha para os meus seios, meu Amo, ainda são pequenos… mas são firmes como o mármore e têm bicos rosados… que apontam para ti… Observa os meus pés, poderoso Senhor, estão vermelhos dos tormentos que sofreram para te dar prazer… Vê a minha barriga tão branca… Aqui, entre as minhas coxas, meu Amo, está um lugar encantador. Onde quero que penetres.

Com estas palavras abre as coxas, coagida pelas negras, curva o corpo para trás e mostra o lugar de que fala.

– Vê também, Senhor, o meu rabo redondo e carnudo; pertence-te, embora não seja digno de te servir… Se quiseres, há-de abrigar o teu membro poderoso, e hás-de vir-te dentro dele.

Ao acabar de dizer estas palavras a jovem baixa a cabeça e desfaz-se em soluços…

– Está bem – responde o Khan. – Vais provar que é verdade o que disseste.

O Khan ergue-se e aproxima-se da jovem; acaricia-lhe as maçãs do rosto, mete-lhe um dedo entre os lábios, percorre-lhe o cabelo com a mão, ergue-lhe os braços e titila-lhe os sovacos. Depois desce, apalpa-lhe a barriga e chega finalmente ao lugar mais secreto, no qual tenta introduzir um dedo. Ao sentir este contacto, Alifa solta um grito e cobre o rosto com ambas as mãos, chorando lágrimas amargas. Estes soluços, porém, não incomodam o Khan, antes lhe fazem recrudescer a paixão. Afaga com a mão o rabo da escrava e belisca-lhe lascivamente as nádegas. Estes actos de concupiscência enchem a jovem de vergonha, e de novo as lágrimas lhe correm copiosas…

– Mostra a cara! – ordena o Khan, e como Alifa não obedece esbofeteia-a com força, mas debalde… A excitação dele cresce; belisca-a cruelmente nas coxas e enterra-lhe as unhas nos braços brancos.

O Khan observa-a em silêncio durante um momento, e depois continua a apalpá-la. As suas mãos passeiam-se pela carne da donzela sem que esta profira uma queixa ou uma palavra.

– Tens que te habituar – ralha uma das negras. – Se este magnânimo Senhor não te possuir, talvez sejas violada e chicoteada já amanhã por cem homens. Não sejas tão arrogante e deixa-te conquistar, víbora!

A jovem fixa com olhos espantados ambas as megeras, que lhe introduziram na alma a semente de um novo terror.

É-lhe concedido um pouco de sossego. Deita-se a um canto sobre o chão de pedra nua cuja frescura contribui para acalmar um pouco a ardência que lhe queima a carne. O Khan senta-se ao seu lado e fuma um cigarro. No fundo dos seus olhos cinzentos arde-lhe uma chama de luxúria; consome a donzela com o olhar. Quer possuí-la. Dá conhecimento deste desejo a Zima, e esta dá instruções às negras para que preparem tudo no compartimento vizinho para o sacrifício que o Príncipe quer oferecer ao deus Eros. As núbias lançam-se ao trabalho. Alifa continua estendida no chão, respirando com força, a cara virada para a parede e a mão colocada entre as nádegas para esconder o rabo. Apesar das dores, o seu pudor ainda oferece resistência. O jovem Ali não descia os olhos dela nem por um minuto; o seu membro viril levanta-se furioso.

Finalmente as duas megeras regressam: está tudo pronto. Cada uma delas toma um braço da jovem para a conduzir a um quarto espaçoso, mobilado com simplicidade e sem luxo. O Khan, Zima e Ali seguem-nas. Uma carpete espessa no chão, dois divãs de veludo verde, algumas poltronas baixas forradas a seda: é este todo o mobiliário. As paredes são simplesmente brancas, e uma lamparina fumarenta, pendente do tecto, ilumina a câmara com uma luz fraca.

Chegadas aqui, as duas negras largam a jovem e retiram-se. Só ficam o Khan, Zima, Ali e Alifa. Esta deixa-se cair sobre um divã e segura a cabeça com as mãos. Tem a noção do que lhe vai acontecer e sente nos lábios um gosto amargo. Neste momento teria recebido a morte com alegria. Tudo o que sofreu até agora lhe parece trivial em comparação com o sacrifício do seu corpo a este homem que odeia, cuja face brutal e cruel a enche de medo; já não ouve nem vê nada, está tão imersa em si mesma que não se dá conta do mundo exterior. De súbito ergue a cabeça e vê diante de si o Príncipe todo nu: o seu sexo erecto aponta para ela a cabeça vermelha.

Um pouco mais longe está o rapaz, também ele nu, e o seu membro está igualmente duro. Todos têm o olhar dirigido para ela, que observa a cena de olhos arregalados. O seu peito ergue-se e desata aos soluços. Chegou o momento em que o seu corpo virginal há-de ser conspurcado, primeiro por este selvagem, depois pelo rapaz que ainda mal pode ser chamado um homem.

– Alifa – diz o Príncipe – vou tomar posse de ti. Estás a ver o meu sexo: pois bem, ele vai penetrar no teu ventre!

No seu desespero avassalador a jovem encontra um pouco de coragem e brada:

– Não! Mil vezes não! Não me haveis de ter, hei-de defender-me!

Nos lábios do Khan aparece um sorriso sardónico. Aproxima-se lentamente da sua vítima, e esta recua alguns passos para logo começar a correr, perseguida por Hassan, à volta da sala… Agacha-se, pega numa almofada e atira-a à cara do Khan. Este carrega sobre ela, que tenta escapar mas passa junto de Ali, que estende a perna e faz com que ela caia no chão. O Khan pega-lhe logo pelos braços; ela arranha-o e defende-se – debalde! Ele arremessa-a com rudeza para cima de um divã e cai sobre ela. Desesperada, ela repele-o e fecha as pernas com toda a força. Sente o grosso membro do seu perseguidor, ora sobre a barriga, ora sobre as coxas. Com as mãos procura afastar o rosto do homem, que aproxima os lábios dos dela cheio duma aterradora concupiscência. Agarra-o pelo bigode e puxa-o para trás. Mas ele põe os braços à volta dela e puxa-a irresistivelmente contra o seu peito. –

O peito dela toca no dele; ele deposita um beijo nos seus lábios húmidos e morde-lhos com voluptuosidade. Aperta-a cada vez mais – até quase a sufocar. O membro duro embate-lhe no ventre. Agora quer possuí-la completamente. Segurando sempre o torso da jovem entre os seus braços musculosos, ele ergue-se um pouco e força um joelho entre as coxas dela, contra o seu monte de Vénus. Ela debate-se até que as pernas cedem, cansadas, e os joelhos do Khan descem até tocarem finalmente no divã. Um estertor fundo rompe-lhe da garganta; está vencida e sente-se enfraquecer. Com um movimento súbito, recua, e consegue apoiar-se de lado sobre a anca; com isto o Príncipe perde o terreno que tinha ganho, pois com este movimento as suas pernas saíram da posição conquistada. Furiosamente aperta-a ainda mais e comprime o membro erecto contra o corpo dela. Mas é tarde demais, e ela será a vencedora nesta luta desigual. No paroxismo da sua ânsia o Príncipe já não consegue conter-se, e um jacto de esperma derrama-se sobre o corpo virginal de Alifa.

Ele levanta-se, fora de si, segura-a pelos cabelos e começa a bater-lhe sem piedade. Chovem sobre ela os murros e os pontapés. Por fim acalma-se e permite que ela se levante também. Apesar da sua exaustão, paira nos lábios da jovem um sorriso de triunfo; pega numa almofada e seca com ela o esperma que lhe alagou as coxas.

Mais uma vez o mosquito venceu o leão, a escrava fraca conseguiu defender-se do homem robusto; este sente-se melindrado; a sua força esgotou-se, o seu pénis está flácido. No seu coração já só habita o ódio, misturado com a ira. Há-de vingar-se desta mulher que o humilhou, a ele, o Príncipe Hassan-Khan, o chefe temido e respeitado de todo um clã!

– Cadela – rosna ele. – Não cheguei a possuir-te, mas vai possuir-te este rapaz que aqui vês; Eu mesmo o ajudarei, e o seu membro há-de livrar-te dessa virgindade que defendes com tanta paixão.

Ao ouvir estas palavras o rapaz levanta-se; o seu membro ergue no ar a cabeça vermelha, os seus olhos relampejantes trespassam o corpo da escrava. Só espera um sinal do seu Senhor para se lançar sobre ela. Por fim o Príncipe dá a ordem. De um salto fica o rapaz junto da jovem, que deita ao chão no seu ímpeto; segura-a pelo pescoço com os braços e deita-se com todo o corpo sobre ela…

O Príncipe e Zima apressam-se para junto deles; esta segura os braços de Alifa, Hassan ocupa-se das pernas, que afasta com um impulso poderoso e mantém assim abertas. O corpo do jovem está agora entre as coxas da escrava. As pernas desta já não se podem fechar e isto permite ao Príncipe largar-lhe os pés para apontar o membro do rapaz. Este começa por fim a penetrar nela. Um grito de alegria rompe da garganta de Ali – e um soluço abafado da boca de Alifa. O rapaz está a rasgá-la, ela sente o membro que se vai introduzindo aos arrancos, cada impulso dele para diante é uma dor para ela. Subitamente parece que todo o seu ventre dá de si, apodera-se dela uma dor avassaladora, e passada esta não sente quase nada. Só o entrar e sair do membro lhe lembra a realidade do que está a acontecer. Deixa-se possuir, imóvel, desta vez derrotada. Não experimenta qualquer prazer, só a domina uma impressão bizarra. Os seus olhos fecham-se, dos seus lábios escapa uma respiração sibilante. Finalmente derrama-se um líquido aos borbotos no seu ventre e ela desperta do seu meio sono ao sentir-se inundada.

Neste momento sai-lhe um último soluço da garganta. O esperma de Ali traz-lhe à consciência a realidade completa. Compreende que tudo acabou e chora ainda pelo ultraje feito ao seu corpo. Tudo terminou. Com um último beijo entre os seios dela, o jovem afasta-se dela e levanta-se.

Alifa está livre, Zima largou-lhe os braços, e o Khan está de pé diante dela a olhá-la com uma expressão trocista. Ela foge para o outro extremo da sala e volta a chorar. A escrava Alifa perdeu a virgindade: nada de importante.

Agora o Khan quer também possuir a jovem. Desta vez são tomadas todas as medidas para que toda a resistência da escrava seja em vão. Como o Príncipe já não está excitado é preciso primeiro provocar-lhe uma erecção suficiente. Zima e Ali encarregam-se disto. Finalmente, quando os nervos do Príncipe se encontram de novo suficientemente atiçados, ele dirige-se a Alifa e obriga-a a apertar-lhe o pénis com a mão. Finalmente chegou o momento.

– Cadela – brada-lhe o Khan. – Não quiseste que eu te tivesse pela frente; agora vais ver, vou gozar no teu rabo, víbora!

O Khan aproxima-se e começa por lhe titilar com o membro o buraco do rabo. Alifa solta um berro e imediatamente cai sobre ela uma correia de couro. O Príncipe ri-se. Num repente, com um movimento brusco, dá uma estocada tão forte com o pénis que Alifa dá um uivo ensurdecedor. Tem o corpo todo em fogo e da testa caem-lhe gotas de suor frio enquanto o Khan se move para a frente e para trás no rabo dela. O seu membro grosso sente-se fortemente apertado nesta abertura estreita e o seu prazer é extraordinário, mas por muito tempo o esperma não vem. Este dia cheio de excessos esgotou-lhe a força viril.

Recua para descansar um pouco, mas logo se volta a introduzir com o mesmo movimento brusco no rabo da jovem.

Contudo não consegue ejacular; começa a mover-se desmesuradamente, descansa a face sobre a cabeça da escrava e acelera o movimento… nada acontece, só o suor lhe sai do corpo por todos os lados. A respiração torna-se-lhe arquejante.

Por fim o prazer está próximo, ele sente-o chegar, os seus movimentos tornam-se ainda mais rápidos. Sente um titilar lascivo no membro viril, acredita que tudo terminou, e contudo ainda não. Então o membro dilata-se, cresce no rabo de Alifa e deita um jacto de esperma. O prazer é demasiado: o Khan perde o domínio de si, aperta Alifa com os dois braços contra o peito. Fica deitado sobre o corpo dela, sem se mexer, com um tremor nos membros e os nervos exaustos…

De quando em quando o seu membro ainda palpita um pouco e deixa sair uma gota de esperma. O Príncipe não se move e não se aparta do abraço. Parece encontrar um novo prazer neste prolongamento da sua união. Também Alifa permanece sem emitir um som ou fazer um movimento; o seu sacrifício está acabado e é irreversível; já tudo lhe aconteceu, está definitivamente vencida. A sua carne já não lhe pertence, e ela entrega-a sem se queixar, quase sem um lamento no coração. Só subsiste ainda nela uma amarga aversão aos prazeres da carne, mas esta aversão há-de desaparecer com os novos amplexos, no harém do Khan há-de acabar por perdê-la… Um espasmo generalizado torce-lhe os músculos, parece que um anel de ferro lhe comprime a cabeça, está febril.

O Khan já não é a fera cruel que era ainda há pouco; cobre Alifa de beijos ternos, envolve-a em carícias suaves e palavras amáveis. Já não é uma vítima do amor que tem diante de si, já não é uma cadela que ele despreza, mas sim uma mulher que através da entrega do seu corpo – involuntária, é certo, mas entrega mesmo assim – lhe proporcionou um prazer sem medida. Toma-a nos braços e deita-a ternamente no divã; ainda lhe beija as pálpebras, a testa, os seios. E durante um momento os seus lábios prendem-se entre as coxas brancas e firmes.

Com isto começa a entrar qualquer coisa de novo e insuspeitado no coração da escrava: esta ternura e esta bondade fazem com que a sua ira se comece a desvanecer e sente-se presa – não de amor, mas de uma simpatia, um certo bem-querer a este homem que há poucos momentos ainda era o seu verdugo. O seu estado de espírito sofre uma singular transformação e desta hora em diante ela dedica a este homem o seu corpo, porque este corpo o faz tão amável!

O Khan levanta-se por fim, vira-se para Zima e diz-lhe:

– Já que desflorei esta jovem, tenho, segundo as regras desta casa, que a comprar. Pois bem, compro-a, e com ela o jovem Ali. Será a Huri graciosa que adulará os nossos desejos e servirá o nosso prazer, o meu e o de Ali. Ali, de hoje em diante ela pertence-te como me pertence a mim. Podes servir-te dela e tirar prazer dela como e quando quiseres.

O rapaz lança-se aos pés do seu Senhor e agradece-lhe comovido.

– Poderoso Senhor – diz ele. – Fico agradecido pela felicidade que recebo das tuas mãos; o meu corpo pertence-te como o duma escrava. Permite-me só que me sirva agora desta jovem. Quero-a tanto, meu Amo, que não posso mais esperar, permite, suplico-te, que eu a tome como tu acabas de a tomar!

O Khan nega por enquanto ao seu jovem escravo esta permissão, pois quer dar à jovem algum sossego. De resto ele próprio começa a sentir, depois desta longa sucessão de desvarios, algum cansaço; deseja sossegar o quanto antes os seus membros cansados numa cama macia.

(Continua)

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Alice chegou virgem ao seu décimo sexto aniversário. Tinha sido este o seu trato com Ricardo e Mariana: acolitá-los nos seus amores e nos seus rituais, mas nunca os tocar sexualmente nem ser tocada por eles. O contacto físico não lhe era proibido quando resultasse duma necessidade prática, como pentear Mariana ou ajudá-la a vestir-se, ou até como expressão casual de afecto, mas enquanto manifestação erótica estava fora dos limites estabelecidos.

Do mesmo modo, ninguém se importava que ela os visse nus no quarto de banho ou na piscina, nem que assistisse sem intervir aos seus amplexos de amantes ou aos seus rituais de Senhor e escrava. Afinal tinha sido isto mesmo que ela tinha pedido para aprender quando tinha reunido toda a sua coragem, anos antes, para se abeirar de Ricardo. Assim, assistiu muitas vezes, aparentemente sem outra emoção que não fosse uma intensa mas remota curiosidade, à penetração de Mariana por Ricardo; à liberdade absoluta com que ele lhe usava a vagina, a boca, a abertura anal, fazendo-a gemer de prazer ou gritar de dor; e até aos castigos físicos, muitas vezes cruéis, que ele a fazia sofrer e ela depois agradecia beijando-lhe a mão.

A tudo isto ela assistia como à mais convencional das rotinas. Porém todos os três sabiam que esta impassibilidade era apenas uma aparência e que por trás dela se escondia um veemente desejo de aprender.

Se Alice entrasse sem bater, como era regra, numa parte da casa onde Ricardo se preparasse para possuir ou punir Mariana, ou onde algum dos dois estivesse despido para o duche ou para o banho de sol, fazia e dizia com naturalidade o que tivesse a fazer ou a dizer, e demorava-se o que tivesse a demorar-se: nem menos, nem mais. A mesma regra se aplicava às gémeas Circe e Atena; e em menor grau a quaisquer criadas que Ricardo e Mariana tivessem ao seu serviço, a quem eram pagos salários elevados em troca desta discrição.

Apesar deste despudor institucionalizado, Alice coibia-se um pouco de aparecer nua perante os donos da casa. Sabia que um dia havia de ter, tal como Mariana, um Senhor, mas este Senhor não seria Ricardo; e não via razão para que este desfrutasse com demasiada frequência da visão de um corpo em cuja posse não estava interessado.

Com Circe e Atena não mostrava o mesmo pudor, nem as gémeas em relação a ela. Deusas, ninfas ou génios tutelares, era-lhes igual mover-se pela casa nuas ou envoltas nos seus panejamentos azul-poeira; ou ainda, revezando-se, vestidas como empregadas domésticas tradicionais, indumentária esta que de tão incongruente lhes dava um ar de deusas ou princesas disfarçadas, como numa comédia barroca.

Por outro lado, diante de deusas qualquer espécie de roupa parece vã e qualquer pudor parece frívolo: daí que Alice aceitasse ser banhada e vestida pelas gémeas com a mesma naturalidade com que Mariana aceitava os mesmos serviços de Alice.

Alice não tinha namorado. Também isto fazia parte do trato que fizera com Ricardo. Na escola as outras raparigas achavam estranho que ela se calasse quando a conversa tratava de namoros e aventuras eróticas. Era uma geração em que as raparigas se gabavam, como em gerações anteriores só os rapazes, das suas proezas sexuais: aventuras reais ou imaginadas, bebedeiras, excessos de toda a ordem, acrobacias inverosímeis, penetrações diversas. Só ela não entrava nestas conversas – ela, e também as bem comportadas, as tímidas, as “chocas”; mas ninguém confundia Alice com estas. O silêncio discreto de Alice não provinha de timidez ou fraqueza; as jovens feras que eram as suas colegas sentiam isto, ainda que confusamente; e como não a sentiam vulnerável não a perseguiam nem atormentavam como com crueldade e gáudio faziam às “chocas”. Pelo contrário, olhavam-na com uma mistura de curiosidade e temor, enquanto ela sorria interiormente do saber rudimentar que elas exibiam como se de sofisticação e experiência se tratasse.

Circe e Atena deambulavam frequentemente, juntas ou separadas, pelo mundo mediterrânico. Eram umas estranhas viagens, que nunca se percebia bem se eram de negócios, de família ou de turismo; corriam deste modo a Europa toda; uma vez foram à Índia, onde Alice viu pela primeira vez gente parecida com as gémeas no corpo, na cor e nas feições; outra vez foram ao Sul de Marrocos, onde Alice viu as mulheres berberes de rosto destapado, com decorações que pareciam tatuagens no rosto e nas mãos; os tuaregues, que também são berberes, vestiam-se como as gémeas, dos mesmos tons de azul. Por toda a parte as duas irmãs aparentavam ter familiares, amigos ou associados: mas um dos seus destinos mais frequentes era a Tunísia, o bairro de Túnis correspondente à antiga Cartago dos Fenícios, e foi aqui que se deu a primeira grande viragem no destino de Alice.

Na estação arqueológica estava quase sempre um rapaz muito novo que pelo aspecto poderia ser um parente próximo das gémeas: tão escuro de pele como elas, mas com as feições e o cabelo de um europeu.

Alice viu-o pela primeira vez nos arredores da estação arqueológica de Cartago, sentado num banco desdobrável, diante de um pequeno cavalete, a desenhar. Ao passar com Circe e Atena em direcção ao alojamento que lhes tinha sido destinado, a adolescente mal teve tempo de reparar nele: um vulto envolto nos mesmos panos azuis e cor de lousa que as suas mentoras habitualmente usavam e que a faziam sentir ridícula nos seus jeans de marca e blusões de couro – roupas europeias, urbanas, industriais, que a isolavam do ar e do mundo à sua volta. O jovem teria talvez dezoito ou vinte anos, mas Alice não teve tempo para o ver melhor.

As gémeas saudaram-no com um aceno, ao que ele respondeu com outro para logo se concentrar de novo no trabalho. Alice não viu o que ele estava a desenhar, mas a única coisa que lhe podia servir de modelo era uma massa de cactos, daqueles cujo fruto a se chama figo do diabo ou figo do inferno. Depois, quando ele lhe foi apresentado – chamava-se Harun e apesar do ar de família não foi mencionado qualquer parentesco entre ele e as gémeas – Alice encontrou-se perante um jovem adulto que, apesar de ser apenas um pouco mais velho do que ela, mostrava a autoridade e a experiência de um homem maduro – um homem que suscitava o respeito e mesmo a deferência de todos os presentes, incluindo as gémeas. Tinha no olhar e na postura a altivez meio selvagem duma ave de rapina: o mesmo orgulho que Alice conhecia em Ricardo, um modo de olhar para ela que só não era insolente porque parecia pertencer-lhe por direito incontestável.

Naquele minuto Alice soube sem qualquer dúvida que tinha encontrado o seu Senhor, e que não tinha errado na sua decisão quando iniciara a sua aprendizagem junto de Ricardo e Mariana.

Alice, a rebelde, a selvagem, a virgem guerreira meio punk e meio gótica; Alice, a rebarbativa, a sarcástica – sentiu-se uma fêmea diante de Harun: uma femeazinha macia e dengosa como tantas a quem sempre desprezara. Nos dias que se seguiram começou a prestar-lhe pequenos serviços: transportava-lhe o cavalete, levava-lhe chá de menta muito quente, que é o que melhor mata a sede nos grandes calores do Magrebe, ou ficava simplesmente sentada na poeira ao lado dele, à espera de lhe poder ser útil de qualquer outra maneira.

Começou a vestir caftan em lugar dos seus jeans e T-shirts, a calçar babuchas mouriscas em lugar dos seus característicos Doc Martens.

E depois, de novo em Portugal, tantas vezes falou de Harun às gémeas, tão repetidamente traiu a fascinação que sentia por ele, que Circe acabou por lhe dizer:

– A menina descanse, há-de ser dele.

E esta expressão, “ser dele”, que a jovem teria desprezado um ou dois meses antes como linguagem de telenovela, parecia-lhe agora apropriada e justa – como era apropriada e justa, não era preciso dizê-lo, aplicada a Mariana e a Ricardo.

Nas viagens que fazia com as gémeas encontrava-se muitas vezes com ele, fosse por acaso ou por desígnio: na Tunísia, em Heidelberg, em Paris, em Brugges. Ou então era ele que visitava as gémeas em Braga, onde Ricardo o recebia como se já o conhecesse de antes.

Às vezes fazia-se acompanhar de namoradas, o que provocava em Alice, que já se sentia com direitos sobre ele, ciúmes terríveis.

– Que direito tem a menina a ter ciúmes? – perguntavam-lhe as gémeas, quando ela, não podendo mais, ousava queixar-se. – Ainda não é dele; e mesmo quando for propriedade dele, ele não vai ser de certeza propriedade sua. Se além da menina ele quiser ter uma, ou duas, ou dez escravas, estará no seu direito, e a menina só terá que se dar com elas o melhor que puder.

− Mas o Ricardo só tem a Mariana – objectava a jovem.

− Pois tem, mas isso é uma decisão só dele, que tem a ver só com a natureza dele. A natureza do senhor Harun pode ser parecida com a do senhor Ricardo neste aspecto, mas também pode ser muito diferente: a menina é que vai ter que se adaptar.

Nada disto diminuía os ciúmes de Alice, exacerbados pelo facto de as suas rivais tratarem Harun com uma deferência que nelas lhe parecia servil e falsa: e iludia-se pensando que se a mesma deferência fosse exibida por ela própria, então seria sem dúvida dignificada e honesta.

Uma destas efémeras namoradas, uma jovenzinha muito loura e muito branca, vestida à oriental, que só falava alemão, pareceu-lhe de todas a mais fingida (ou a mais iludida) com a docilidade exagerada de que fazia alarde, tão contrária ao pendor bravio que Alice sabia ser o seu.

– Não se preocupe – dizia-lhe Circe. – Ele já reparou na menina há muito tempo, embora não o mostre. E quer a menina para ele. Essas namoradas com que a menina o via não passam de submissas: nenhuma foi propriedade dele de verdade como a menina há-de ser.

O que era uma submissa? Alice sabia o que era uma escrava: era uma mulher como Mariana, a quem ela tinha escolhido como modelo e ideal de vida. Mas não sabia o que significava a palvra “submissa” a não ser como adjectivo, e isso era o que tanto ela como Mariana eram em relação aos seus Senhores; e Circe também não a esclareceu. De tudo isto só se depreendia, concluiu Alice, que se estava a preparar qualquer coisa que ela não podia saber mas de que todos em casa de Ricardo tinham conhecimento. Por ela, tudo bem, podia esperar.

Como que para confirmar esta impressão, a certa altura Harun começou a aparecer sozinho. Na Europa não usava a djalaba nem os panejamentos com que Alice o tinha conhecido na Tunísia: em vez disso apresentava-se no traje convencional de um europeu que não quer dar nas vistas: botas Timberland, jeans nem muito novas nem muito velhas, e T-shirt de algodão sem desenhos nem letras. Sobre isto punha, pelo tempo frio, um robusto blusão de aviador; e no resto do ano um blusão em cabedal preto, fino e flexível, sem adornos.

Depressa ganharam o hábito de andar juntos. Calcorrearam, nos seus diversos encontros, as ruas de Túnis, de Braga, de Lisboa, de Heidelberg, de Brugges. Ao princípio caminhavam lado a lado pelas ruas, depois ela foi ganhando o hábito de caminhar um pouco atrás dele – não ostensivamente, como as magrebinas com quem muitas vezes se cruzavam, mas discretamente, a meio passo de distância ou menos. Nos recantos dos jardins, nos vãos das portas, trocaram alguns beijos e carícias, manifestações de afecto que só a pouco e pouco se foram erotizando, e que ao erotizar-se foram adquirindo, por vezes, o carácter de um tributo respeitosamente prestado e graciosamente recebido.

Não foram precisas muitas palavras para que a certa altura se estabelecesse entre os dois um daqueles compromissos de que só os muito jovens são capazes: e se era nítido para ambos, tanto como para quem os conhecesse, que havia entre eles um contrato tácito, era igualmente nítido que não era, nem eles queriam que o fosse, um contrato entre iguais.

Tal como Ricardo e Mariana, também Circe e Atena seguiam com atenção esta coreografia de aproximação recíproca.

– A menina sabe que quando fizer dezasseis anos – disse-lhe Atena um dia – já pode deitar-se com um homem sem que ele vá preso. É a lei aqui em Portugal.

Alice não entendeu muito bem a que propósito veio este aviso, se aviso era. Para ela, a Virgem Guerreira, estas leis eram um disparate. Não se considerava uma “menor”. “Se eu quiser ir com um homem, ninguém tem nada com isso”, pensava; “e depois disso, se eu não quiser, também ninguém me obriga, e se obrigar não são cá precisos polícias nem tribunais para lhe fazer pagar bem caro o atrevimento.”

− É por isso que andam todos a preparar o meu aniversário como se fosse a coroação da Rainha de Inglaterra? – retorquiu, subitamente furiosa. – Decidiram que eu ia ser desflorada no meu dia de anos? E quem é que decidiu isso? A minha opinião não conta?

– Ninguém decidiu que a menina vai ser desflorada – respondeu Atena. – Quanto à opinião da menina, por hoje ainda conta; se vai contar ou não no seu dia de anos, isso depende do que combinar com o senhor Harun daqui até lá. O que se vai comemorar não é a desfloração da menina, que pode acontecer ou não acontecer nesse dia. O que se vai festejar é a menina passar a ser uma mulher aos olhos de todos. E esta festa vai ser só o princípio, depois vão ser precisas outras cerimónias… Esta parte vai ser só entre nós, as mulheres. A senhora também vai ajudar.

No espírito de Alice a ira deu lugar à curiosidade:

– A Mariana? Ajudar em quê? Que rituais são esses?

– Depois verá. Não vai querer entregar-se ao seu Senhor ainda fechada, como uma ignorante…

O décimo sexto aniversário de Alice comemorou-se em Braga, na moradia de Ricardo. Quem tivesse assistido, de fora, à minúcia e vagar dos preparativos poderia concluir que ia haver uma longa lista de convidados. Mas não: de Heidelberg foi convidado o casal Liebknecht, Gunther e Silke, em casa de quem Mariana tinha jantado uma vez. De Túnis veio Harun, claro está; e não podia faltar a tia meio hippie de Alice, ou melhor, tia-avó, que no seu tempo tinha corrido meio mundo para depois tomar conta dela quando a menina deixou de ter outros familiares vivos. Esta tia tinha nome de pedra preciosa: Safira; e da prontidão com que tinha acedido ao pedido de Alice para se confiar à educação pouco convencional que lhe dariam Ricardo e Mariana a adolescente concluiu que o conhecimento de Safira e Ricardo, ou de Safira e Mariana, já vinha muito de trás. Para a ocasião a tia de Alice ataviou-se das suas mais belas sedas indianas – as mais escuras e discretas que tinha, de modo a permitir que a sobrinha brilhasse por contraste. Ao todo eram sete pessoas à mesa, com as gémeas a servir, vestidas de criadas – mas não criadas ocidentais, antes servas turcas de fantasia, com as suas calças de harém, os pés descalços, o fez vermelho na cabeça e o bolero curto que não apertava à frente e deixava ver, ao abrir-se, os seios nus.

Os anos duma mera adolescente preparam-se e comemoram-se geralmente em poucas horas: não foi assim com o aniversário de Alice. O maior esforço e despesa foram para as flores que encheram a casa e para as decorações do jardim. Mas a azáfama mais visível começou no dia anterior, com as compras de última hora e com a necessidade de ir buscar os convidados ao aeroporto.

No jantar de festa Mariana usou, para adornar o pescoço, os pulsos e os pés, minúsculas safiras a condizer com o caríssimo, mas severo, vestido azul. Do mesmo azul a gravata de Ricardo, usada com camisa branca a fato cinzento. Gunther e Silke estavam de preto, como competia ao estilo da sua relação; e contrastando com toda esta severidade, Harun esperava de pé, junto à mesa, envolto numa indumentária sumptuosa de príncipe saudita, à cintura uma adaga com o punho e na bainha cobertos de pedras preciosas.

Alice foi, como lhe competia, a última a entrar na sala. Tal como todas as mulheres presentes, estava descalça; mas os pés mal se lhe viam sob a larga roda do vestido de debutante, todo em tons de rosa. As gémeas tinham gasto horas a lavá-la, a perfumá-la, a vesti-la, a penteá-la, a fazer-lhe uma leve maquilhagem, a enfeitá-la – tiara, brincos, colar, pulseira e uma fina corrente de ouro à volta do tornozelo direito, ligada por uma fiada de brilhantes a um anel no dedo do pé.

Harun recebeu-a, muito formal, à porta da sala de jantar e conduziu-a ao seu lugar à mesa, onde a fez sentar. Um ano antes Ricardo tinha começado a treinar Alice, que nunca tinha bebido álcool, a apreciar vinhos: e hoje ela podia, na sua festa, acompanhar cada prato com a bebida apropriada, um pouco de Chablis no fundo do copo, um tinto precioso do Douro a acompanhar a carne, Porto à sobremesa, champanhe aos brindes. De tudo quase só o suficiente para molhar os lábios. Vieram as prendas: de Ricardo um relógio, de Mariana um conjunto de roupa interior bordada, da tia Safira um caftan em seda, dos Liebknecht um alfinete para usar ao peito, das gémeas uns brincos.

Harun deu-lhe uma pulseira de rubis.

Depois de ela a desembrulhar e pôr no pulso fez-se um silêncio na sala, como se a dádiva desta pulseira, que era no feitio daquelas a que se chama “escrava”, fosse o sinal combinado para algo de momentoso. No meio deste silêncio Harun levantou-se e ficou um momento, pálido e muito grave, a olhar de frente para Ricardo.

– Ricardo – disse Harun, – também eu, apesar de não fazer anos, tenho uma dádiva a pedir. Você sabe que dádiva é, todos aqui sabem. A Alice, que hoje se torna aos nossos olhos uma mulher, tem estado à sua guarda. Eu e ela fomos aprendendo a conhecer-nos; e concluímos os dois, sem margem para dúvidas, que é destino dela pertencer-me e destino meu possuí-la. Sabemos ambos, e agradecemos-lho do fundo do coração, que você nunca quis exercer sobre ela os direitos de um dono, mas também nunca recusou exercer as responsabilidades de um mentor. É nesta sua qualidade que ma entregará, se quiser aceder ao meu pedido − que também é o dela: aqui e agora, diante de todos; para que também ela, como a sua Mariana, tenha o Senhor que quer.

Alice corou um pouco. As palavras que ela própria tinha ajudado a escrever e a decorar soavam-lhe agora, saídas da boca de Harun, como um improviso surpreendente e ousado. Olhando à sua volta, viu todos suspensos da resposta de Ricardo, como se também eles estivessem, de facto, surpreendidos.

Ricardo pôs-se de pé e encarou Harun; mas antes de responder desviou dele o olhar, virou-se para Alice, e perguntou:

– Alice, ouviste o pedido que o Harun me fez. Ouviste-o dizer que é também o teu pedido. Isso é assim?

Alice teve que se esforçar para dizer em voz firme e clara as palavras que tinha preparado:

– O meu Senhor Harun falou por mim, Ricardo. É a ele que quero pertencer.

Mas Ricardo não se virou logo para Harun. Olhando para a tia de Alice, disse ainda:

– Safira, ouviu o Harun pedir-me que lhe entregasse a Alice; podia igualmente ter-lho pedido a si, que é a única familiar que ela tem e sempre foi bem-vinda nesta casa. Por isso quero perguntar-lhe: Consente você também, tal como eu consinto, nesta entrega?

Safira sorriu e acenou, com lágrimas nos olhos.

– Pois bem – decidiu Ricardo. – Vá para ali, Harun, se faz favor, onde todos o possam ver. E tu, Alice, vai até ele; beija-lhe a mão em sinal do teu respeito.

Alice levantou-se da cadeira com as pernas a tremer. Levantando o vestido para não enredar nele os pés, dirigiu-se ao seu companheiro de tantas aventuras, agora quase irreconhecível na sua gravidade de homem feito; e pegou-lhe na mão para a beijar. Era uma mão magra e morena, de dedos finos e longos. Pôs nela os lábios, demoradamente, e depois ergueu o olhar ao encontro do dele, que a abraçou e beijou enquanto à volta da mesa as mulheres enxugavam uma ou outra lágrima.

Nessa noite Alice passou o serão sentada no tapete aos pés de Harun, como Mariana aos pés de Ricardo. Tinha tido um dia cheio: além de se preparar para a festa de anos tinha sido recrutada pelas gémeas – ela que nunca desempenhava tarefas domésticas – para preparar o quarto de Harun. Agora, sentada aos pés dele, lembrava-se que só tinham posto uma almofada na cama. A cama de Ricardo era sempre feita com duas almofadas embora Mariana dormisse muitas vezes no chão aos pés da cama e não ao lado do dono. Alice achava estranho que a cama de Harun não tivesse sido preparada também para ela, mas não ousou perguntar porquê. Cansada como estava, e com sono, não pensou em despedir-se e ir para o seu quarto. Pareceu-lhe que devia seguir o exemplo de Mariana, que por mais cansada que estivesse nunca se ia deitar antes do dono; e por outro lado não sabia o que ainda se esperava dela no fim deste seu dia de aniversário. Claro que se entregaria alegremente a Harun se isso lhe fosse exigido; mas não se imaginava ainda a servi-lo como Mariana fazia a Ricardo. Suspeitava intimamente que tudo isto era um mal entendido, que não passava duma miúda insignificante como as outras, que se iniciam sexualmente com miúdos meio parvos. Harun era um homem, com toda a complexidade e força de um homem verdadeiro. E Alice, mesmo que lhe fosse exigido servi-lo nessa mesma noite – o que faria de bom grado, e com carícias plenas – não ousaria ainda pôr o nome de escravidão à sua relação com ele, uma ligação incipiente que, comparada com o amor de Ricardo e Mariana – enraizado, complexo, variado, inabalável – seria ainda superficial e pobre.

Ao serão não se conversou muito: Ricardo pôs música clássica a tocar bastante alto, optando desta vez, não pela sua preferida música de câmara, mas sim por grandes orquestrações sinfónicas de pendor orientalizante ou exótico: o Bolero de Ravel, os Quadros de uma Exposição de Mussorgsky, as Danças Polovtsianas de Borodin, a Dança do Sabre de Khachaturian, as Czardas de Monti, as diversas marchas húngaras ou turcas de Mozart, Beethoven, Brahms – e naturalmente a peça preferida de Alice, aquela que a tinha despertado para a música clássica: a Sinfonia Fantástica de Berlioz, com toda a sua profusão de danças macabras, missas negras, reuniões de bruxas, procissões nocturnas e marchas para o suplício.

Apesar de ter aprendido a gostar de música clássica, especialmente das grandes composições sinfónicas de pendor místico ou romântico, a música preferida de Alice não era esta. No seu quarto e no MP3 tinha Loreena McKennitt, Enya e os Clannad, os Nightwish, grupos de black metal, Mafalda Veiga entre os portugueses, e ainda grupos tão diversos como The Cult, os Joy Division, os Bauhaus, os Pink Floyd ou os Red Hot Chilli Peppers, ou nomes individuais que iam de Peter Murphy a Frank Zappa; mas na sala e na biblioteca de Ricardo não era isto que geralmente se ouvia e Alice não se sentia lá deslocada.

Gunther e Silke beberam bastante, Safira também. Ricardo, Mariana e Alice só um pouco de vinho, o necessário para fazer civilizada justiça a cada prato. E Harun nem isso, só o champanhe do brinde que Ricardo propôs em honra de Alice, que hoje deixava de ser criança e começava a sua nova vida de mulher. Por insistência de Gunther, cantou-se a seguir ao jantar: uma canção tradicional de estudantes de Heidelberg, da qual pelos vistos todos os mais velhos sabiam a letra. Uma das estrofes ficou particularmente na memória de Alice:

Vivant omnes virgines Faculae, formosae; Vivant et mulieres, Tenerae, amabiles, Bonae, laboriosae, Bonae, laboriosae.

Por fim Harun retirou-se com Ricardo para o escritório deste. Gunther foi para o jardim fumar um dos charutos de Ricardo. Mariana começou a arrumar a sala e a cozinha na companhia de Atena e Silke, mas, quando Alice fez menção de as ajudar, a outra gémea – que ao contrário da irmã tinha trocado o seu fantasioso uniforme de criada turca pelos seus habituais panejamentos azuis – fez-lhe sinal para que a seguisse.

No quarto fê-la despir completamente e ordenou-lhe que se deitasse em cima da cama. Debruçando-se sobre o corpo dela, começou a examiná-la minuciosamente, dos dedos dos pés aos cabelos, tomando notas num pequeno caderno. Por fim ordenou-lhe que se sentasse em frente ao toucador.

– Esta vai passar a ser a sua rotina todas as noites – observou.

Alice obedeceu. O toucador era muito baixo na zona do espelho, e quando a jovem, a uma ordem de Circe, abriu as pernas, viu reflectida a fenda do sexo e os lábios rosados da vulva por entre a pelugem sedosa que a velava tenuemente de negro.

– Olhe bem para si. Veja o que tem a dar ao seu dono. Os pelos em baixo são para ficar: é assim que ele gosta. Depois, quando ele a tiver visto nua, podemos ter que lhes dar outro corte. O cabelo é para crescer. As unhas, vai passar a usá-las curtas e cortadas em quadrado. Esses vernizes pretos ou vermelhos que gosta de usar acabam hoje: a partir de agora serão nacarados ou transparentes, ou rosa pálido. E para já a primeira coisa que vamos fazer é tirar-lhe o verniz das mãos e dos pés.

No toucador estavam já o frasco de acetona e as bolas de algodão que iam servir para isto.

– Chegue o banco para trás, se não se importa – ordenou Circe.

Logo que teve espaço ajoelhou-se aos pés de Alice e começou a remover-lhe meticulosamente o verniz das unhas: primeiro as mãos, depois os pés. Com um leite de limpeza tirou-lhe a maquilhagem escura à roda dos olhos e o bâton cor de sangue que lhe avermelhava os lábios. Feito isto, molhou-lhe o cabelo com um spray, escovou-lho a direito e aparou-lhe algumas pontas mais espigadas, repetindo que aquilo era mesmo para crescer.

– Agora vá lavar os dentes.

Alice assim fez, com pasta e escova e com uma máquina cuja cabeça rotativa lhe limpava todo o interior da boca com um finíssimo mas forte jacto de água.

– Tire os piercings, por favor.

Alice não tinha outros piercings que não fossem um no umbigo, outro na ala do nariz e os brincos, mas mostrou-se renitente:

– Não vou poder usar mais piercings?

– Provavelmente vai – respondeu Circe. – Mas serão os que o seu dono ordenar, e não os que a menina quiser.

Sem resposta para isto, Alice obedeceu.

– Agora um duche – apressou-a Circe. – Ande, mexa-se.

No duche lavou-lhe o cabelo três vezes com champô; depois, com sabonete, o corpo todo, da cabeça aos pés. Para não molhar as roupas tinha-se posto também nua, e Alice sentia-se minúscula junto daquele corpo negro e gigantesco que a dominava completamente. Especial atenção foi dada ao ânus e à vagina: para lavar aquele Circe introduziu-lhe diversas vezes o dedo molhado em sabonete, e depois sem nada, só com o jacto de água do chuveiro. Esta última penetração doeu um pouco, mas Alice fez por não dar mostras disto. Lavar por dentro o sexo de Alice sem lhe romper o hímen exigiu o recurso a um irrigador vaginal com uma cânula muito fina, que as grandes mãos de Circe manejaram com uma delicadeza surpreendente.

“Tanta coisa por causa duma convenção sem importância como a virgindade”, pensou Alice. “Uma membranazinha que não vale nada.” Contudo não deixava de se sentir lisonjeada com a atenção que toda a gente à sua volta prestava à tal membrana, como se todos naquela casa, incluindo a sua tia libertária e meio hippie, tivessem voltado ao século XIX ou à primeira metade do seguinte.

Terminado o duche, Circe secou Alice com uma toalha felpuda e alisou-lhe os cabelos com uma escova. Fazendo-a sentar num pufe, rapou-lhe cuidadosamente os pelos debaixo dos sovacos e depilou-lhe as pernas com cera quente. Depois de lhe observar cuidadosamente as sobrancelhas, decidiu deixá-las como estavam: eram negras, rectas e espessas, mas combinavam bem com os olhos escuros e brilhantes, os lábios carnudos e as duas covinhas aos cantos da boca.

– Posso-me vestir? – perguntou a jovem, quando pensou que a toilette estava pronta. Circe sorriu antes de responder:

– Ainda falta um bocado. Tem que aprender a cuidar de si para o seu dono, sabia?

–E esta toilette toda é para ir ter com o Harun?

– Quando ele a mandar chamar sou eu que a levo. Isto é, se a mandar chamar, pode não se querer servir da menina esta noite. Não é para ir ter com ele que se está a preparar,vai ser assim todas as noites: nunca se irá deitar sem estar arranjada.

– E vou ter-te a ti para me arranjares todas as noites?

– Por pouco tempo, só até ter a sua criada. E além disso vai ter que aprender a fazer muitas coisas sozinha. Agora chega de conversa, as senhoras estão à espera, venha comigo.

Alice imaginou-se a ter uma criada, ela, a miúda meio selvagem que passava a vida a entrar e a sair, como um gato, da casa de Ricardo; mas a ideia não lhe desagradou e deixou-se conduzir, nua, através dos corredores da casa, até um compartimento junto ao quarto de Ricardo que Mariana utilizava muitas vezes como sua sala de estar privada. Sentadas no sofá ou em pufes estavam todas as mulheres que tinham estado presentes ao jantar: mas o que chamou imediatamente a atenção de Alice foi o objecto que se encontrava no centro da sala: uma sólida e pesada base de madeira da qual sobressaía, erguendo-se na vertical, um falo em ébano ou pau preto, minuciosamente esculpido com signos cabalísticos que lhe davam um aspecto rugoso, não muito diferente daquele que a tessitura das veias dá a um pénis natural. Só a glande, perfeita na forma, era perfeitamente lisa, como a de um pénis verdadeiro. Pénis verdadeiros, erectos, Alice só tinha visto um, o de Ricardo, e tocado noutro, o de Harun. À luz das velas, que eram a única iluminação da sala e espalhavam no ar um perfume de incenso, Alice não podia ver o falo de ébano em todos os seus pormenores, mas notou que era todo a direito, sem a ligeira curvatura para cima do pénis de Ricardo. Seria isto uma imperfeição? Ou seria que nem todos os pénis eram como o de Ricardo? Seria o de Harun assim como este, a direito? Impossível era não ver neste artefacto um objecto precioso, talvez sagrado, longamente trabalhado e utilizado com veneração ao longo de décadas ou séculos. Ao polimento perfeito somava-se um brilho oleoso que se manifestava nos reflexos alaranjados das velas.

As mulheres entoavam, muito baixo, uma espécie de cantilena da qual Alice não foi capaz de distinguir nem as palavras, se as havia, nem a melodia, nem o ritmo.

− Curve-se – ordenou Circe. – Agarre os tornozelos com as mãos.

Em vez de obedecer, Alice perguntou:

− Onde está o Harun?

− Sabe que a menina está aqui – respondeu-lhe Circe num tom doce. – Sabe o que lhe vai acontecer, só não sabe aquela parte que é um segredo de mulheres. Autorizou tudo. Agora faça o que eu lhe disse, se faz favor.

Tudo isto estava muito longe do que a jovem esperara para aquela noite. Mas obedeceu, levada por um sentimento de inevitabilidade, e também pelo efeito hipnótico da cantilena das mulheres, da luz das velas, do aroma a incenso, e ainda por um certo prazer da aventura que a impelia a entregar-se de olhos fechados ao que desse e viesse.

Pôs as mãos nos tornozelos. Sentiu que Circe se aproximava dela por trás e lhe acariciava o sexo muito levemente. Depois sentiu que lhe era passado um unguento ao longo dos lábios vaginais, primeiro só por fora, depois cada vez mais por dentro até lhe lubrificar toda a vulva até ao hímen. Levantando um pouco a cabeça viu Atena, que lubrificava cuidadosamente, a todo o comprimento, o falo negro que se erguia do chão e que pareceu subitamente enorme aos olhos da jovem.

Esta preparação, e os cânticos cada vez mais ritmados que a acompanhavam, prolongaram-se por tanto tempo que Alice deu por si a desejar que tudo terminasse, que Circe, ou Atena, ou uma das outras pegasse naquele instrumento – que era óbvio que ia servir para a sua desfloração − e lho introduzisse no corpo, pouco importava se com brutalidade ou meiguice: contanto que por fim acontecesse.

Mas não foi assim que as coisas se passaram. A cantilena das mulheres consistia agora num arfar lento que soava como a respiração dum atleta cansado, ritmo este que algumas delas acompanhavam com leves batidas das mãos sobre a carpete. Circe ordenou a Alice que se pusesse de pé, com as pernas ligeiramente abertas, sobre o falo de ébano e que se fosse agachando sobre ele até lhe sentir a ponta à entrada da vagina. Alice assim fez. Procurou empalar-se nele um pouco mas quando sentiu um laivo de dor parou e elevou-se de novo uns milímetros. De novo se baixou até sentir dor, e começou assim um movimento de vai-vem quase imperceptível, gemendo um pouco com a dor e com o esforço. À sua volta as mulheres gemiam em uníssono com ela, num ritmo lento como o dela, como se todas elas estivessem também a forçar as articulações dos joelhos e das coxas e como se todas sentissem a mesma dor. O falo negro, firme no chão, era o centro da sala, o centro do mundo, o centro do corpo de Alice; nada mais lhe importava, naquele momento, do que vencer com a brandura da sua carne a rigidez implacável que pouco a pouco se ia introduzindo nela.

Ninguém a forçava, ninguém a ajudava. Circe e Atena tinham-se sentado com as outras mulheres e respiravam agora, e gemiam, ao mesmo ritmo que elas. E esta respiração, este canto, ia subindo de volume, acelerando o ritmo, controlando o corpo de Alice como uma música irresistível. Até que num dos movimentos descendentes, levada pelo cântico das mulheres, a jovem se empalou completamente e soltou um grito de dor, prontamente abafado mas logo ecoado nas vozes das outras.

Assim se manteve durante um momento, agachada, com os quadris imóveis, os olhos fechados, a cabeça lançada para trás, lançando um longo suspiro que ela própria não saberia dizer se já era de alívio, se ainda de dor. As outras mulheres estavam agora todas de pé à volta dela, segurando-a para que não se desequilibrasse, alisando-lhe o cabelo, enxugando-lhe o suor, murmurando-lhe palavras que eram carícias. Passado um longo momento recomeçou o movimento para cima e para baixo, muito levemente, muito a medo, como que para experimentar a sensação. Quando por fim parou, as mulheres não a fizeram levantar imediatamente: esperaram que ela abrisse os olhos e que a respiração se lhe normalizasse, para então a ajudarem, lentamente e com infinitos cuidados, a retirar o falo de dentro do corpo.

− Não te ponhas já de pé – disse-lhe a tia, que se aproximara de maneira a que as suas cabeças quase se tocassem. − Senta-te um pouco sobre os calcanhares. Queres ver uma coisa?

Quando Alice, ainda um pouco aturdida, acenou que sim, Safira desprendeu da base de madeira o falo de ébano, sobre o qual se podia ver um pequeno farrapo de sangue, e mostrou-o à sobrinha:

− Vou dizer-te um segredo. Foi este mesmo falo de ébano que me desflorou a mim, há muitos anos. É um objecto sagrado. Eu era ainda mais nova do que tu és agora, e vivia em África, longe de tudo. Os meus pais tinham morrido, os meus outros familiares ainda não tinham dado com o meu paradeiro e eu estava com a minha tribo adoptiva, o meu pai e a minha mãe adoptivos: o dia em que me tornei mulher, com toda a aldeia a acarinhar-me, foi um dos mais felizes da minha vida. Depois, quando os meus parentes brancos me foram buscar, a minha mãe preta deu-mo como presente de despedida: sabia que não voltaria a ser usado naquela aldeia, que as autoridades brancas não o permitiriam. E eu, mais tarde, por razões que talvez te conte um dia, dei-o à Mariana.

Alice estava demasiado confusa para saber o que pensar desta revelação. Como qualquer adolescente, tinha pensado muito no fim da sua virgindade, e como todas elas tinha sonhado com uma ocasião cheia de afecto e magia; mas pensara sempre que essa magia e esse afecto lhe viriam contidas no apaixonado abraço dum homem – quantas fantasias solitárias tinha tido em que os protagonistas tinham sido (não contando com a habitual colecção de celebridades) primeiro Ricardo, e depois Harun! Nunca pensara que lhe viessem, numa onda avassaladora e quente, dum círculo de que faziam parte as duas mulheres importantes da sua vida: a tia Safira, que a ensinara a nunca ligar a convenções, e Mariana, que invejara e aprendera a admirar pela absoluta dádiva de si que fizera a um Senhor. Mesmo as gémeas, que tinham presidido à cerimónia com a majestade de duas deusas, e até Silke Liebknecht, tinham contribuído para criar não só o ambiente certo, mas o universo certo para uma iniciação que ela nunca quisera trivial e não fora, de facto, trivial.

Mas ainda era virgem ou já não era?

− Nota bem que ainda és virgem – disse-lhe a tia, como se lhe tivesse adivinhado os pensamentos. – Só tens o hímen rasgado, é tudo. Na minha tribo isso significava que a menina já era mulher e estava pronta para servir o guerreiro que a comprasse. Mas os meus parentes vieram-me buscar antes que um guerreiro me comprasse aos meus pais adoptivos, e foi assim que passei os anos seguintes: mulher e virgem pelo critério da tribo, menina e virgem pelo critério dos meus parentes, a quem nunca contei a minha desfloração. Nem os meus parentes a teriam compreendido: teriam mandado arrasar a aldeia e prender toda a gente. Mesmo sem isso, só pelo facto de a tribo me ter adoptado, moveram influências para colocar na região um administrador e uma missão católica…

Circe aproximou-se das duas e interrompeu a conversa, estendendo a mão a Alice para a ajudar a levantar-se:

− Acha que consegue vir até à banheira?

Para as outras mulheres estas palavras foram o sinal para abandonar a sala, o que fizeram despedindo-se de Alice com beijos e carícias. O quarto de banho que Mariana compartilhava com Ricardo, e onde agora se ia completar a iniciação da jovem, estava equipado com uma banheira de hidromassagem que Circe encheu até mais de meio. Adicionou-lhe sais aromáticos e esperou que Alice se metesse na água, que estava escaldante. Alice experimentou com um pé:

– Está quente! Não consigo entrar!

− Entra devagarinho – respondeu Circe.

Muito devagar, Alice introduziu um pé na água, depois o outro, e começou a agachar-se, molhando com chapadas de água cada parte do corpo antes de a mergulhar para se ir habituando à temperatura. A pele clara ia ficando cada vez mais vermelha. De repente soltou um pequeno grito de dor: a carne tenra do sexo, dorida da invasão a que tinha sido sujeita pouco antes, tinha acabado de tocar na água quente. Por fim conseguiu sentar-se e suspirou de alívio enquanto se reclinava para trás com os olhos fechados. O corpo, mesmo as partes que não estavam imersas na água quente, estava todo molhado de suor ou do vapor de água, e os cabelos colavam-se-lhe à cara.

– Está bem, menina? –perguntou-lhe Circe.

Como única resposta Alice soltou um suspiro de satisfação. Circe ligou o dispositivo de hidromassagem e disse:

– Então descanse um pouco e relaxe. Eu já volto.

Alice começou a deixar-se invadir por uma grande calma à medida que o corpo se adaptava à temperatura da água. Quando Circe voltou – Alice reparou que estava de novo vestida com os seus panejamentos azuis – trazia numa bandeja duas flûtes de champanhe.

– Para bebermos juntas.

Alice ainda protestou um pouco, não estava habituada ao álcool e já tinha bebido ao jantar; mas Circe, ignorando todas as objecções, pôs-lhe o champanhe na mão e ergueu o copo:

– À sua felicidade, minha querida. Que a sua vida esteja sempre de acordo com o seu destino.

Alice sorveu o champanhe em pequenos goles, fazendo-o durar. Que observação enigmática, esta de Circe… Então a vida não está sempre, por definição, de acordo com o destino de cada um? Ou dar-se-á o caso de haver destinos que não se realizam? Talvez haja, concluiu. Talvez uma vida falhada seja isso mesmo. Talvez o mais indigno cativeiro seja uma pessoa falhar o seu destino, mesmo que este destino seja a escravidão; e talvez a única verdadeira liberdade seja realizá-lo.

Quando o vinho deixou de estar fresco e de lhe saber bem, pousou o que restava na plataforma de mármore à cabeça da banheira e fechou de novo os olhos, até que a água lhe começou a parecer fria.

– Não quero mais…

Era tempo de sair da banheira. Tinha a pele vermelha, as pontas dos dedos encarquilhadas, e sentia-se mais limpa do que alguma vez estivera. Circe envolveu-a, sem a secar, num roupão de pano turco e conduziu-a de novo ao seu quarto, onde a fez deitar nua sobre um toalhão estendido na cama e lhe passou por todo o corpo um creme hidratante, deliciosamente macio e perfumado. Não negligenciou nenhuma prega do corpo, nem mesmo os refegos mais íntimos entre as coxas, e demorou-se na tarefa com tanto vagar que Alice se começou a sentir sonolenta.

Mas antes que adormecesse Circe obrigou-a a levantar-se e a sentar-se numa poltrona com os pés mergulhados numa bacia de água quente que foi buscar à casa de banho. Sentada num pufe à frente da jovem, começou a tratar-lhe das mãos: arranjou-lhe as cutículas, cortou-lhe e limou-lhe as unhas e envernizou-lhas com uma mistura de vernizes que tinha preparado: metade transparente, um quarto cor de pérola nacarada, um quarto cor-de-rosa pálido. Enquanto o verniz secava, começou a tratar-lhe dos pés:

– Que solas de selvagem – observou.

Alice tinha, com efeito, as solas dos pés duras e ásperas, e foi necessário amaciar-lhas longamente com pedra-pomes. À medida que a água da bacia arrefecia, Circe substituía-a de maneira a mantê-la sempre quente. Por fim secou-lhe os pés, colocou-lhe bolas de algodão entre os dedos e tratou-lhe das unhas usando todos os instrumentos duma pedicura profissional – ou pelo menos assim parecia a Alice, para quem esta experiência era nova. Terminou este tratamento pintando-lhe as unhas com a mesma mistura de vernizes que tinha usado nas mãos.

Por esta altura a jovem tinha o cabelo quase seco: Circe passou-lhe um pouco de espuma de pentear e começou a escovar-lho com repetidas passagens de escova, mais de cem, até que ficou completamente seco só pela acção da escova, e brilhante como ela poucas vezes o tinha visto. Pôs-lhe creme no rosto, massajando suavemente com as pontas dos dedos. Como maquilhagem limitou-se a sombrear-lhe um pouco os olhos e a sublinhar discretamente as linhas das pálpebras: os lábios, naturalmente vermelhos, ficaram por pintar.

O verniz das unhas estava completamente seco; Circe amaciou as mãos e os pés de Alice com outro creme e fê-la levantar e rodar sobre si mesma para uma última inspecção.

– Está pronta – declarou. – Ponha este vestido.

– Sem nada por baixo?

– Sem nada por baixo.

Já não era o vestido de debutante que ela usara ao jantar, mas um traje formal em estilo romântico: um vestido de noiva se não fosse preto e roxo.

– Agora as jóias – disse Circe.

Por brincos pôs-lhe umas grandes argolas de prata, que juntamente com o cabelo cuidadosamente despenteado lhe davam um ar meio de cigana. Pôs-lhe colares à volta do pescoço, de vários comprimentos e materiais. Pulseiras nos braços, correntes nos tornozelos, e no dedo anelar esquerdo um anel com uma pedra negra. Alice já conhecia este anel: tinha visto outros iguais nas mãos de Mariana, Ricardo, Harun e outras pessoas. Sabia o que ele significava: que o seu portador era Senhor ou escravo de alguém. O metal de que era feito, cinzento escuro e muito leve, chamava-se titânio. Ajeitou o anel no dedo, como que para confirmar a sua aceitação, e perguntou:

– É agora que vamos ter com o meu dono?

– Não. Agora esperamos que ele a mande chamar. Já lhe disseram que a cerimónia com as mulheres terminou. Ou pode mandar dizer que podes ir para a cama, se tiver mais em que pensar do que em servir-se de ti.

E foi assim que Alice se sentou na pequena poltrona ao canto do quarto, entre expectante e desconsolada, com um vago sorriso no rosto, de pés nus e vestida como para uma festa, à espera de qualquer coisa ou de nada.

Mas não foi preciso esperar muito até que o telemóvel de Circe tocasse e ela dissesse, depois de escutar uns segundos, que sim, que já iam.

– Junte os pulsos atrás – ordenou Circe. – Está com sorte. O seu Senhor quer vê-la.

Alice deixou que a outra lhe prendesse os pulsos com duas pulseiras de prata unidas por um cadeado. Assim presa – lembrando-se de todas as vezes que tinha visto Mariana arranjada de forma semelhante, e do misto de admiração, inveja e receio que tinha sentido – foi conduzida ao quarto de Harun, quarto que ela própria tinha ajudado a preparar com tanto cuidado e minúcia.

Harun estava de pé, como que à espera, com um robe de cetim cor de creme sobre um pijama de seda da mesma cor, e tinha calçadas umas chinelas marroquinas de couro na cor natural. Saudou Circe primeiro; e a seguir, com um sorriso terno, saudou a jovem:

– Olá, Alice.

Alice quis responder “olá, meu Senhor”, mas não ousou. Ousá-lo-ia alguma vez? Em tom sumido, respondeu:

– Olá, Harun.

– Dispa-a – disse Harun a Circe.

Era fácil. O vestido abria por trás com um fecho éclair e as alças podiam ser desprendidas, de modo que foi possível tirá-lo sem libertar os pulsos da jovem. Alice nunca se tinha mostrado completamente nua a Harun, mas durante um longo namoro já tinha sentido muitas vezes as mãos dele debaixo da roupa, acariciando-lhe a cinta, os seios e por vezes, deliciosamente, o ventre. Agora não sentia vestígios de pudor ou vergonha, nem outra coisa que não fosse um enorme orgulho por se apresentar nua e bela, depois de uma tão longa e minuciosa preparação, diante dele. Quando ele a mandou dar uma volta sobre si mesma para que ele a visse toda, obedeceu com prazer, fazendo questão de empinar provocantemente os seios e as nádegas como se estivesse há longo tempo habituada a exibir-se assim.

Quando a viu de novo virada para si, Harun fez um gesto discreto em direcção ao chão. Circe, atenta a este sinal, disse docemente à jovem:

– Ajoelhe-se, minha querida.

Com as mãos presas não era fácil obedecer graciosamente a esta ordem, mas Alice conseguiu fazê-lo de um modo não demasiadamente desajeitado, o que suscitou a Harun um sorriso de aprovação.

– Tire-lhe as pulseiras – ordenou.

E para Alice, quando a viu com as mãos livres:

– Abre-me o roupão.

Com o roupão aberto, a jovem viu a ponta do pénis que lhe espreitava da abertura das calças de pijama. A um gesto dele, Alice tirou-lho completamente para fora: já lhe tinha tocado várias vezes e conhecia a sensação de o sentir crescer e enrijar-lhe nas mãos, mas nunca o fizera com esta liberdade, sem camadas de roupa a constrangê-la. Mais uma vez o sentiu crescer. Viu que era diferente do de Ricardo: todo a direito, como o falo de ébano de há pouco. A glande, avermelhada e macia, fez nascer nela um desejo que nunca tinha sentido antes.

– Posso dar-lhe um beijo? – inquiriu, timidamente.

Harun sorriu de novo:

– Sim, podes, meu amor. Um dos teus deveres, de futuro, vai ser servir-me com a boca. Mas não quero só um beijo, quero muitos. Beija-me o pénis já hoje como a escrava que vais ser, e não pares até eu to permitir.

Lembrando-se da reverência e respeito com que as mulheres da casa tinham rodeado, horas antes, o falo de ébano que a tia Safira trouxera de África há tantas décadas, a jovem começou a beijar cuidadosamente o falo vivo do seu dono, mal ousando, por vezes, um movimento de sucção. Sabia, pelo que tinha visto Mariana fazer a Ricardo, que também o podia lamber, chupá-lo, introduzi-lo na boca até ao fundo; mas não queria fazer isto sem que lhe fosse ordenado, e além disto tinha um pouco de medo de se engasgar ou ter vómitos. Assim foi prolongando uma longa sucessão de pequenos beijos na glande de Harun; e sentia ao fazer esta carícia um prazer que não saberia explicar mas que era real e intenso.

Harun, por seu lado, parecia disposto a contentar-se toda a noite com aquela carícia incipiente: foi afagando os cabelos da sua jovem amante e só ao fim de logos minutos acabou por dizer:

­– Chega, minha querida. Agora ajuda-me a despir…

Alice levantou-se para lhe tirar o roupão, que entregou a Circe para que o guardasse. Depois o casaco do pijama, que era de modelo antiquado, com botões à frente.

– Beija-me os mamilos – ordenou Harun.

Alice flectiu um pouco os joelhos para obedecer. Segurou-se às ancas do amante e começou a beijar-lhe o peito e os ombros. Sentia-se agora mais afoita, e foi quase sem hesitação que começou a dar-lhe chupões com alguma força, a que Harun reagia murmurando “sim”, “sim minha querida”, “sim minha escrava”. Com as mãos nas ancas do dono, a tentação de lhe baixar as calças do pijama era quase irresistível, tanto mais que o pénis, embora ainda visivelmente erecto, se encontrava agora de novo tapado pelo tecido. Mas quando fez menção de lhe baixar as calças ele deteve-a:

– Não, minha escrava, primeiro os chinelos.

Desta vez a jovem não precisou de qualquer ordem: sabia que ao despir o dono a regra era beijar-lhe as partes do corpo dele que ia pondo a nu. Já era assim com Mariana e Ricardo, e a ela parecia-lhe ser este um procedimento perfeitamente justo e natural. Posternando-se, beijou-lhe os pés com vagar e ternura, e ao fazê-lo começou a sentir que o seu ser se diluía num vórtice em que ela própria cada vez mais era nada e o dono daquele corpo que beijava cada vez mais era tudo.

– Agora o resto – ouviu-o dizer, como que de muito longe.

O resto era as calças, que Alice puxou para baixo numa pressa febril, ansiosa por ter de novo ao alcance dos lábios aquele ceptro real de ponta tão macia; mas Harun só lhe permitiu mais um beijo antes de interromper a carícia, ordenando-lhe que fosse para junto da cómoda e tirasse todas as jóias que tinha no corpo.

Que instinto levou Alice a deixar para o fim os brincos? Como poderia ela, ainda tão jovem, saber que o remover dos brincos duma mulher é por vezes, para o homem que a observa, um espectáculo completo de strip-tease? O certo é que o fez, e é certo também que esta acção não passou despercebida a Harun, que sorriu de novo. Quando a viu nua de roupas e de jóias, pegou-lhe na mão e conduziu-a à cama, que ele próprio abriu para que ela se deitasse. Cobriu-a ternamente, deu-lhe um rápido beijo na boca a que ela tentou responder lançando-lhe os braços ao pescoço, sem que ele todavia o permitisse.

Quando a viu deitada, Harun virou-se para Circe:

– Ponha a esteira para ela aos pés da cama, por favor. E ligue o candeeiro de halogéneo. Depois pode deixar-nos sós. Amanhã venha buscá-la para começar a instrução. Cuide bem dela: deixo-a entregue a si e à sua irmã durante a minha ausência.

Enquanto Circe cumpria estas instruções – a esteira consistia somente num fino colchão em espuma de borracha, num saco-cama e numa pequena almofada – Harun deu a volta à cama e deitou-se ao lado de Alice, que estava dividida entre a felicidade de estar na cama ao lado dele pela primeira vez na vida e a consciência de que esse privilégio não lhe ia ser concedido pela noite inteira. E que instrução era aquela que ia começar no dia seguinte? E porque falava o seu amado duma ausência? Para onde ia ele, logo depois de a ter feito mulher?

Mas não se atreveu a perguntar nada: ele faria o que quisesse e ela, escrava, esperaria sempre por ele o tempo que fosse preciso.

Assim que os dois jovens ficaram sós, Harun afastou de novo para trás as roupas da cama e, debruçando-se sobre a sua escrava, começou a examiná-la da cabeça aos pés, miudamente, interessando-se tanto pela textura das sobrancelhas – que alisou com um dedo – como pela forma das orelhas, o recortado dos lábios, as expressões que lhe perpassavam pelo rosto quando ele lhe beliscava na nádega ou lhe acariciava levemente um mamilo. Assim foi descendo pelo corpo dela abaixo, atento e curioso, entremeando esta observação minuciosa com pequenos beijos em cada parte do corpo que visitava: nos cantos da boca, na covinha do queixo, na base do pescoço, nos ombros, na curva do cotovelo… Alice estava tão temerosa como ansiosa pelo momento em que ele lhe examinaria a vulva, os lábios vaginais que sentia húmidos, o clitóris intumescido. Desejou que a luz não estivesse tão forte, mas depressa entendeu que isto era intencional, e resignou-se. Os beijos ternos que ele lhe ia dando por toda a parte excitavam-na e tranquilizavam-na ao mesmo tempo, e foi sem hesitar que abriu as pernas quando ele mandou; apenas fechou os olhos e virou a cara para o lado, para não se ver observada de um modo tão objectivo e impessoal. Sentiu o dedo dele tocar-lhe na carne mais íntima, ouviu-o suspirar. Surpreendeu-se quando se sentiu beijar ali, onde nunca tinha sido beijada; e não foi um beijo leve como os outros, mas uma chupadela franca que a deixou atónita e desejosa de que alguma coisa, qualquer coisa, viesse ocupar o vazio que lhe parecia ter-se feito naquele instante no seu ventre.

Mas logo a seguir, sem que esta breve carícia tivesse tempo de a satisfazer, o exame continuou, pelas coxas, pelos joelhos – que Harun apalpou pela frente e pelos lados como se nada houvesse mais importante no mundo como a forma exacta das rótulas da sua amada. Apalpou-lhe as pernas abaixo do joelho como já lhe tinha apalpado as coxas, sentindo as diferentes texturas da pele. As articulações dos tornozelos, tão delicadas, foram também objecto da mais funda atenção: olhadas, tocadas, flexionadas, testadas. Os dedos dos pés foram separados e os intervalos entre eles escrutinados – ainda bem, pensou Alice, que se tinha lavado tanto – e até dos tendões dos pés, dos maléolos interno e externo, das veias azuis sob a pele, das rugas transversais nas solas, foi tomada devida nota.

Por esta altura Alice sentia que ninguém, nem mesmo ela própria, conhecia tão bem o seu corpo como o conhecia Harun; mas ele ainda a mandou virar de barriga para baixo e recomeçou a ver tudo: os tendões atrás dos tornozelos, as dobras na parte de trás dos joelhos, as linhas de separação entre as coxas e as nádegas, o orifício anal e depois as duas pequenas concavidades no fundo das costas; e a sucessão das vértebras, o rego longitudinal entre as duas massas musculares do tronco, a saliência das omoplatas, a delicadeza enternecedora da nuca.

Durante todo este exame, que se prolongou por um período de tempo que Alice seria incapaz de calcular, o membro viril de Harun manteve-se sempre erecto. Como podia ele resistir, pensou Alice, a lançar-se sobre ela e a possuí-la sem delongas? Poderia aplicar-se a este homem ainda tão jovem aquilo que Mariana dissera várias vezes de Ricardo – que era senhor do seu pénis e não escravo dele?

– Agora vira-te para cima – ouviu-o dizer, por fim.

Alice virou-se de barriga para cima, abrindo as pernas sem que isso lhe fosse ordenado. Ou melhor, não foi ela que abriu as pernas, foram elas que se abriram a si próprias, as traidoras, as desavergonhadas, prontas a abrir caminho ao invasor. Harun saiu da cama para ir desligar o candeeiro, deixando acesa apenas a luz suave que iluminava o quarto anteriormente. De volta para junto dela, pôs-lhe o joelho entre as coxas, beijou-a fundamente na boca, acariciou-lhe os seios e as orelhas, beijou-lhe os olhos e o pescoço; e de repente Alice deu-se conta de que a glande do dono lhe acariciava a vulva molhada, movendo-se para trás e para diante ao longo dos lábios vaginais, titilando-lhe o clitóris; as mãos tinha-as Harun ocupadas em massajar-lhe os seios e apalpar-lhe as nádegas; o que lhe acariciava a vulva, embora sem a penetrar, era o seu sexo erecto. Ergueu os quadris para se aproximar mais dele, para aumentar a deliciosa pressão que a carne dele fazia sobre a dela, mas ele não tinha pressa e continuou por muito tempo a fazer-lhe carícias com o pénis à entrada da vagina. Quando ele por fim fez menção de a penetrar, Alice dise num murmúrio:

– Sim, meu Senhor. Possui-me. Sou tua… Já fui aberta para ti, como tu mandaste…

Harun entrou nela com um movimento só, suave mas firme. Esta penetração, seguindo-se tão de perto à desfloração operada pelo falo de pau preto, não foi tão indolor como Circe lhe tinha dado a entender, mas a dor foi bem-vinda para Alice, trouxe-a um pouco de volta à terra quando se sentia já a desprender-se do mundo. Depois de a penetrar, Harun ficou por muito tempo imóvel dentro dela, abraçando-a, beijando-a, murmurando-lhe ao ouvido “meu amor”, “minha escrava”… E só se começou a mover, lentamente, gentilmente, quando a dor abrandou e ela própria começou a oscilar timidamente os quadris, primeiro para frente e para trás, ao encontro do pénis que a enchia, depois também para os lados e em círculos, numa dança que ninguém lhe tinha ensinado mas em que ela se descobria subitamente perita.

Os movimentos de Harun iam-se tornando amplos e fortes, impetuosos, exigentes; e ela, ainda virgem segundos antes, procurava harmonizar com estes movimentos os seus próprios. Mas não o conseguiu por muito tempo porque uma sensação a avassalou que a fez esquecer-se de si, esquecer-se dele, esquecer-se de tudo o que não fosse aquela inexprimível delícia que a transformava num ser sem pensamento, sem passado, sem futuro. Não era o primeiro orgasmo que sentia, nem sequer o primeiro orgasmo provocado por Harun, mas era o primeiro que experimentava com o corpo assim invadido. A pouco e pouco esta sensação foi-se atenuando, mas Harun mantinha-se dentro dela, beijando-a, amando-a, de modo que a onda de prazer em que tinha perdido o pé refluiu, mas não para longe. Olhou para os olhos do amante e viu-os sorrir:

– Estou orgulhoso de ti… Minha escrava…

De novo a onda. E de novo, e de novo, até que Alice se esqueceu que alguma vez tinha conhecido um mundo que não consistisse num perpétuo orgasmo, um mundo que tivesse um “em cima” e um “em baixo”, um “dentro” e um “fora”, um “eu” e um “outro”.

Só lentamente retomou o pé, como um nadador a quem uma onda enorme e inesperada tivesse envolvido e sacolejado nas profundidades. Harun, agora completamente solto, penetrava-a com violentas estocadas, que ela recebia avidamente, como uma mártir em êxtase receberia os golpes da lança que lhe tirava a vida. Por entre a névoa do seu próprio prazer, Alice via o rosto de Harun: um rosto contorcido, um rosto belo, um rosto torturado que de repente se abriu num urro; e um jacto quente invadiu-lhe as entranhas, soltando nela ainda um último espasmo.

Por muito tempo Harun permaneceu em cima dela, a cabeça para o lado, apoiada na almofada. Alice teve pela primeira vez consciência de como ele era pesado. “O peso do meu dono”, pensou; “estou a sentir sobre mim o peso do meu dono”; e empenhou-se, apesar do ligeiro desconforto físico que sentia, em fazer do seu corpo o leito mais aprazível para o descanso do seu Senhor.

Mas Harun acabou por rolar para o lado, libertando-lhe os movimentos começando a abraçá-la, a beijá-la, até que ela lhe disse:

– Que bom… Agora estou a ficar com sono… Com tanto sono… Meu amor… Dás-me autorização que durma?

– Eu também tenho sono, – disse ele – mas ainda não te vou dar licença de adormecer, minha escrava. Primeiro vais ainda lavar-me o sexo, que será sempre o teu dever depois de eu te ter possuído.

– Oooh… Tem que ser? Tenho tanto sono…

– Tem que ser, meu amor. Hoje e sempre, por mais sono que tenhas. Anda, vai. Basta um toalhete com água morna e sabonete.

Meio trôpega, Alice dirigiu-se à casa de banho. Não sentia ressentimento nem revolta, nem a tarefa lhe parecia prosaica em comparação com o êxtase de há momentos; sentia, sim, um amor acrescido por este Senhor que se servia dela para as tarefas mais humildes com o mesmo à-vontade com que a usava na cama. De regresso ao quarto, lavou-o cuidadosamente. Depois voltou a humedecer o toalhete, agora só com água, e voltou para junto dele a fim de lhe retirar os restos de sabonete. Harun, de barriga para cima na cama, entregava-se a estes cuidados com os olhos fechados e os braços pesadamente caídos sobre os lençóis. Depois de o lavar, Alice foi à casa de banho fazer as suas próprias abluções. Quando voltou para junto de Harun ele já se tinha posto por baixo da roupa e estava em posição de dormir; mas quando a sentiu deitar-se ao lado dele ainda a abraçou e beijou chamando-lhe meu amor, minha escrava, até que a sentiu bocejar e gemer de sono.

− Meu Senhor, gostava de ficar abraçada a ti a noite inteira. Mas tenho tanto sono… Posso virar-me de costas para ti, para estar mais à vontade?

Harun fez-lhe uma festa no rosto antes de responder:

– Ouve com atenção, minha escrava, enão fiques triste. Essa autorização que me pedes, conto dar-ta muitas vezes de futuro. Muitas vezes mas nem sempre. Mas hoje não ta dou, hoje é dia de saberes o teu lugar, que é aos meus pés. Por isso mandei a Circe preparar a esteira. Há-de haver sempre uma esteira para ti aos pés da minha cama.

Alice não se tinha esquecido da esteira, mas ousara esperar que Harun se tivesse esquecido dela depois ter partilhado com ela tanto prazer e de a ter tratado com tanta ternura. Mas não tinha resposta que pudesse dar, só uma pergunta:

– Agora?

Harun acariciou-lhe de novo o rosto e beijou-a ao de leve nos lábios:

− Agora, minha escrava.

Alice, mesmo sabendo que o seu dever era obedecer com presteza a qualquer ordem, cumpriu esta com infinitas delongas. Durante algum tempo ainda manteve os lábios em contacto com os dele e depois, à medida que afastava os lençóis para se levantar, ainda o foi beijando no peito e na barriga. Já com uma perna fora da cama e um joelho no chão, ainda procurou com a boca o sexo dele para o beijar e chupar suavemente por tanto tempo quanto ousou.

– Vai, minha escrava – repetiu ele por fim. − Mas primeiro beija-me os pés.

Circe veio acordá-la de manhã cedo. Quando Alice gemeu, ainda tonta de sono e sem se lembrar onde estava, a outra pôs-lhe um dedo sobre os lábios.

− Venha – murmurou. – Não faça barulho, o seu dono ainda está a dormir.

− Mas… − objectou Alice.

Queria dar um beijo a Harun, mas Circe não permitiu:

− Não o acorde, menina. Não se preocupe, vai ter oportunidade de se despedir dele.

À espera de Alice, no seu quarto, estava um fato de treino e umas spatilhas de jogging.

− Vista-se – disse a outra. – Vai dar duas voltas ao quarteirão. Mas antes disso vá à cozinha, beba um copo de água e coma uma maçã.

− Tenho fome…

− Come depois. Ande, despache-se, hoje começa a sua escola e não temos muito tempo.

De que escola estava Circe a falar?

− Da escola que os senhores organizaram para si, é claro. Há muitas coisas que o seu dono quer que aprenda: quanto a isso foi muito claro.

Que matérias podia querer Harun que ela aprendesse? Alice tinha terminado a escolaridade obrigatória com as classificações mais elevadas e sempre partira do princípio que ia continuar a estudar; o quê, não sabia, mas imaginava que teria a ver com a sua condição de leitora voraz. Ainda não se tinha inscrito em nenhum curso, e agora, pelos vistos, alguém tinha escolhido por ela.

A manhã estava fresca. O que Alice tinha a fazer antes do pequeno-almoço era simples: dar duas voltas ao quarteirão, uma em marcha rápida e a outra em passo de corrida. Depois foi outro grande copo de água, um duche rápido e um pequeno-almoço substancial, servido na cozinha por Circe e Atena, refeição esta que a jovem, embrulhada num roupão, devorou como uma loba.

− Vá-se vestir – disse-lhe Circe por fim. – Ponha uma saia curta e larga, que não lhe prenda os movimentos, e uma T-shirt. Ponha calcinhas e soutien. Deixe-se estar descalça. Depois vá ter com os senhores à biblioteca.

Na biblioteca, à espera de Alice, estavam Circe e a sua irmã Atena, sentadas no chão; Ricardo, numa poltrona; aos pés dele, sentada sobre os calcanhares, Mariana; e ao piano uma mulher de cerca de trinta anos que Alice não conhecia: uma mulher bonita, um pouco anafada e de ar bondoso, que lhe foi apresentada como a sua futura professora de música.

− Música? Vou aprender música? – perguntou, admirada.

− Faz parte do currículo que o Harun determinou para ti – respondeu Ricardo. – Como oriental que é, considera a música e a dança prendas indispensáveis numa escrava. Mas como oriental ocidentalizado, não tem qualquer objecção ao piano. Portanto vais ser pianista: ninguém espera de ti virtuosismo, para isso é preciso ter talento e começar cedo, mas o teu dono exige que te tornes uma amadora competente − e sobretudo uma conhecedora razoável que não o envergonhe quando forem os dois juntos a um concerto. Também vais estudar outras matérias; eu e a Mariana fizemos algumas sugestões, assim como a tua tia, e das gémeas vieram algumas bem interessantes.

A primeira lição de música de Alice não foi particularmente excitante, consistindo apenas em infindáveis exercícios de colocação dos dedos sobre uma superfície plana – nem sequer o teclado do piano, apenas o tampo de uma mesa – seguido de instruções pormenorizadas sobre a colocação do banco em frente ao piano e sobre a maneira como se devia sentar. Depois a professora fê-la ouvir na aparelhagem da biblioteca o inevitável Für Elisa de Beethoven, do qual lhe ensinou a seguir alguns acordes desgarrados, os mais fáceis, prestando especial atenção ao ângulo dos dedos sobre as teclas. Para surpresa da jovem, que esperava que a primeira lição consistisse numa interminável repetição de escalas, esta actividade não ocupou mais do que alguns dos minutos finais.

Depois desta aula Mariana informou Alice do currículo completo: música, como já tinha visto; inglês, no qual se esperava dela que se tornasse proficiente, e em que de resto já tinha sido boa aluna na escola básica; francês e árabe, dados os longos períodos que passaria no Norte de África; literatura, que teria que conhecer tanto quanto possível nas línguas originais; história; história da arte; história das ideias e das mentalidades; religiões comparadas; esgrima; danças de salão; informática; matemática; lógica e pensamento crítico; ginástica geral e acrobática; dança do ventre; e pompoar, é claro: o dono dela dava especial importância ao pompoar.

Alice nem sequer sabia o que era o pompoar:

− Que é isso?

− Basicamente é a arte de controlar os músculos vaginais. Ou antes, se quisermos ser pedantes, os músculos circunvaginais, mas geralmente ninguém diz assim.

− Circunvaginais? Isso quer dizer que eu tenho músculos à volta da vagina? Não sabia tal coisa… E é possível mexê-los à vontade?

− Tens, e bem fortes – sorriu Mariana. – E nem imaginas o que se pode fazer com eles.

Alice tentou por um momento mover aqueles músculos que Mariana lhe dizia que tinha, mas foi como se lhe tivessem pedido que mexesse as orelhas.

− E para que serve isso? – indagou, pouco convencida.

− Ui, para tanta coisa… Para teres mais a noção do teu corpo, para começar. Para um dia poderes ter filhos com mais segurança e menos dor. Para seres mais saudável durante mais tempo nas tuas partes femininas. Para dares prazer ao teu dono, evidentemente. E até para poderes dar prazer a ti própria sem teres que te tocar com os dedos, se estiveres para aí virada… O pompoar é uma coisa que todas as mulheres deviam saber.

− E a Mariana sabe? Então porque é que nunca me falou nisso?

− Só sei que existe, mas nunca aprendi. Por isso é que vou ser tua colega: o Ricardo andava há algum tempo com vontade de me mandar aprender.

− E há professores disso? – insistiu Alice.

− Professores, não: professoras – corrigiu Mariana. – Vais conhecer a tua em breve. Acho que vais gostar dela. É uma senhora indiana de origem goesa e fala português perfeito. Chama-se Sadhana e vai também ser a tua professora de dança do ventre. “Sadhana” significa estudo, treino prolongado, realização, aprendizagem… Um nome de bom augúrio para nós duas.

Pompoar, dança do ventre… Nada disto desagradava a Alice, pelo contrário. Na sua imaginação via-se já como uma odalisca, versada nas artes ocultas que fazem de um senhor escravo da sua escrava… Mas aquela profusão de matérias que lhe tinha sido anunciada, como ia ela ter tempo para tudo? Ricardo, que assistira à conversa sem parecer que lhe dava atenção, sentiu-se divertido com o alarme dela e tranquilizou-a:

− Não vai ser tudo ao mesmo tempo, é claro. De esgrima e de danças de salão, por exemplo, vais ter só uma aula cada duas semanas. A esgrima é uma preparação para outras coisas, as danças de salão são para aprenderes a não te pores rígida nos braços de um homem, a entregares o corpo… Isso é importante para qualquer homem, acredita em mim. Nas literaturas não vais ter dificuldade nenhuma: ainda há poucos anos eras capaz de passar uma tarde inteira empoleirada numa árvore com um livro na mão. Agora não é em cima duma árvore, é num canto qualquer da casa, mas o difícil é encontrar-te sem um livro. As outras matérias vão ser cursos com diferentes durações: acaba um, começa outro. Uma boa parte da tua educação virá das viagens, das conversas, das leituras, das pessoas que conheceres… Só há duas coisas em que vais ter lições toda a vida: a dança do ventre e o pompoar. Pelo menos é isso que diz o Harun.

− Isso, e ler livros – respondeu Alice, num tom meio desafiador. – Acho que nunca vou deixar de ler.

− Ah, sim, ler. Outra das paixões do teu dono. Assunto de conversa não vos vai faltar…

Mas a aula seguinte não foi de literatura, mas sim já de pompoar, o que em muito contribuiu para satisfazer em Alice a curiosidade suscitada pela conversa que tinha tido com Mariana. Sadhana, a quem a jovem foi apresentada logo a seguir, era uma indiana de longos cabelos pretos e pálpebras inferiores muito escuras. Teria talvez trinta e poucos anos, e a postura do corpo era direita como a duma bailarina ou duma artista de circo – porém sem a rigidez que apresentaria uma mulher europeia igualmente erecta. A primeira ordem que deu a Alice e Mariana foi que se despissem completamente:

− Este é um estudo que fazemos nuas. – explicou, com um sotaque muito ligeiro que aos ouvidos destreinados das suas alunas soava mais africano do que asiático. − Sempre nuas.

A sala estava quente, quase sufocante e as duas obedeceram de bom grado.

− Sentem-se nesses colchões de ginástica.

Não foi sem um pouco de inveja que Alice observou que Mariana, que tinha mais que o dobro da sua idade – quase o triplo – mostrava mais flexibilidade do que ela ao sentar-se com as pernas cruzadas sob o corpo. Quando Sadhana as viu sentadas, despiu-se também: primeiro as sandálias, depois o sari que lhe deixava à mostra o umbigo, o choli branco de mangas curtas, e por fim o saiote comprido de cor lisa. Alice ficou um pouco surpreendida por ela não trazer calcinhas nem qualquer outra roupa sob o saiote, mas veio a saber mais tarde que este costume ainda é seguido por algumas mulheres indianas mais tradicionais e é geralmente considerado perfeitamente decente.

Enquanto a professora se sentava, não sobre um colchão de ginástica como as suas alunas, mas sobre um simples tapete, Alice teve tempo de lhe ver o sexo completamente livre de pelos, mas o que mais a fascinou foram os bicos dos seios e as aréolas, grandes e de um castanho tão escuro que eram quase negras.

Admirou-se também quando a viu sentar-se com toda a agilidade na posição de lótus: Sadhana, apesar da cintura estreita e da respeitável musculatura que se lhe adivinhava por baixo da fina camada de gordura, não tinha um corpo miúdo e esbelto como o de Mariana: pelo contrário, tinha um corpo a que com justiça se poderia chamar roliço. E a situação tinha para Alice o mérito da novidade: nunca antes tinha tido uma aula toda nua com a professora também nua.

− O que lhes vou ensinar – disse Sadhana – não é ainda, no que lhes diz respeito, uma arte. Um dia poderá sê-lo, se tiverem o talento e a persistência necessárias, mas por enquanto é só uma técnica. Por isso não vou admitir aqui fantasias nem romantismos: só trabalho e mais trabalho. Estamos entendidas?

Alice murmurou que sim, intimidada, e Mariana inclinou ligeiramente a cabeça.

− Então vamos começar. Pensem em fazer da vagina uma boca capaz de puxar o lingam para dentro ou de o empurrar para fora, equipada com uma língua capaz de o acariciar a todo o comprimento; e pensem em fazer dela ao mesmo tempo uma mão forte capaz de o apertar e de o prender.

− O que é o lingam? – perguntou Alice. – E é possível ter assim tanta força na vagina?

− O lingam é o membro viril. É assim que vem no Kama Sutra; mas vocês podem dar-lhe o nome que quiserem. E a vagina pode ser uma das partes mais fortes do corpo da mulher, tal como as coxas. Mas chega de teoria. Estão prontas para começar?

Alice declarou-se não só pronta, mas ansiosa por começar. Mariana limitou-se mais uma vez a acenar que sim.

− De certeza? – insistiu a professora. – Têm a bexiga vazia? O melhor é irem primeiro à casa de banho, se não daqui a pouco temos tudo encharcado.

− Já está? – continuou, quando elas regressaram. – Então quando se sentarem outra vez nos colchões fiquem em cima dos resguardos, porque enquanto não estiverem habituadas os primeiros exercícios podem fazer com que saiam algumas gotas de xixi.

Os resguardos eram daqueles que se compram em qualquer supermercado para proteger as camas das crianças pequenas e dos muito velhos, absorventes numa face e impermeáveis na outra.

− Agora – prosseguiu a mestra – façam força para urinar … se saírem algumas gotas não faz mal. Estão a fazer força? Óptimo, agora vem a parte difícil. Parem de fazer força, mas parem de repente, e façam força para não urinar. Certo? Puxem o xixi outra vez para dentro, vá, com toda a força.

− Não sou capaz – disse Alice.

− É claro que é capaz – respondeu a professora. – A menina não é diferente das outras. Não pare de fazer força para dentro. Está a fazer?

Alice não sabia para que servia aquilo, mas empenhou-se em seguir as instruções da professora. Apesar de ter a bexiga vazia, sentia de novo vontade de urinar. Olhou de relance para Mariana, que não lhe pareceu mais confortável do que ela.

− Agora quero que façam força alternadamente para dentro e para fora. Está bem? Agora para fora… agora para dentro… outra vez para fora… Vão ficar um pouco cansadas, e com muita vontade de fazer xixi, mas não faz mal. Há um ponto a que temos que chegar ainda hoje, e depois descansam.

Mariana e Alice já tinham vontade de descansar, mas não pararam de repetir o exercício que Sadhana lhes tinha ordenado.

− Continuem. Não parem. O que eu quero agora é que ao fazerem força para fora e para dentro se tentem dar conta dos músculos que estão a usar.

Mariana foi a primeira a pensar que tinha encontrado a parte do corpo de que estava à procura. O fundo do ventre doía-lhe um pouco. Seria aí?

− É uma dor surda, como a que se sente depois de um exercício puxado? – perguntou Sadhana. – Sim? Então já está onde tem que estar. São esses os músculos que a senhoravai aprender a controlar, mas hoje ainda não quero que tente fazer isso. Já é muito bom que os sinta.

Este pequeno diálogo deu a Alice a pista de que precisava para se orientar no seu próprio corpo. Também ela sentia um pouco de dor. Era ali, pelos vistos, que tudo se passava.

Sadhana estava satisfeita: tinham sido feitos progressos e era tempo de dar a aula por terminada. Mas antes que se despedissem Mariana quis fazer ainda uma pergunta:

− Sadhana, há uma coisa que eu não entendo. Os músculos que controlam a vagina são os mesmos que controlam o acto de urinar?

− Sim, quanto a um deles – respondeu a professora. – Não quanto aos outros. Mas a acção de uns reflecte-se nos outros, e foi por isso que comecei a vossa instrução utilizando músculos que vocês aprenderam a controlar quando ainda eram pouco mais que bebés. Vocês não se lembram, nenhuma de nós se lembra, mas a instrução que os vossos pais vos deram nessa altura não foi mais fácil nem menos demorada do que a que eu vos estou a dar agora.

− Mas a mim parece-me que já consigo controlar esses músculos um bocadinho. Cansa-me muito, mas acho que consigo.

− É natural – disse a professora. – Há muitos caminhos para chegar às coisas, e às vezes chegamos a elas quase por acaso. Lembra-se de como lá chegou?

− Não tenho a certeza de estarmos a falar da mesma coisa – respondeu Mariana. – Mas uma vez estava com o meu dono, ele estava quase parado dentro de mim, e eu de repente tive que tossir. Quando tossi ele disse-me que tinha sentido um aperto no pénis e pediu-me que fizesse outra vez. Eu não conseguia, mas então tossi de propósito e ele disse-me que o tinha apertado outra vez, mas com menos força. Depois, com o tempo, aprendi a apertá-lo sem tossir, mas não o faço muitas vezes seguidas porque me cansa muito e passado um bocado já não sou capaz.

− Estou a ver – disse a professora. – E sim, esses músculos que a senhora accionou foram os seus músculos circunvaginais. A tosse faz mover o diafragma e envolve também todos os outros músculos abdominais. A razão porque o apertou com menos força da segunda vez é que a tosse foi forçada. Mas é bom que já tenha uma ideia do que se espera de si.

Ao ouvir isto, Alice obrigou-se a tossir, mas não sentiu nada em baixo, nem mesmo nas partes do corpo que estavam doridas.

− Muito bem – disse a professora. – Agora um aviso: fora da aula não comecem a forçar nem a reter o xixi. Isso pode tornar-se muito desconfortável, além de ser perigoso se abusarem. Se conseguirem mover um pouco os músculos da vagina, então podem ir treinando enquanto fazem outras coisas. Mas só os da vagina, e se não conseguirem também não faz mal: ainda não estou a contar com isso.

E com efeito: nos dias e semanas que se seguiram Alice e Mariana começaram a exercer algum controlo sobre as suas vaginas. Enquanto treinavam esta capacidade estavam terminantemente proibidas de mover os quadris:

− A essa batota não quero que se habituem, nem mesmo no princípio – dizia-lhes, sempre que detectava um movimento suspeito. – A técnica do xixi e a técnica da tosse também são batotas, mas vão ser muito mais fáceis de desaprender quando chegar a altura.

E o facto é que as batotas se foram tornando cada vez menos necessárias. Mariana foi a primeira a conseguir controlar sempre que queria os músculos vaginais, o que a professora atribuiu ao grão de experiência que já tinha, mas Alice não lhe ficou muito atrás.

− Engraçado – comentou Mariana num dia em que a lição lhe tinha corrido especialmente bem. − Às vezes, ao fazer isto, sinto assim uns espasmos dentro do corpo iguais aos que sinto quando tenho um orgasmo.

A professora sorriu, satisfeita.

− Isso é bom, muito bom mesmo. E a Alice? A menina também sente esses espasmos?

− Eu, não – confessou a jovem. – Nem sequer ainda notei que sentisse espasmos quando me venho. Também, ainda não me vim assim tantas vezes, portanto não posso falar muito.

A estas palavras todas as três se riram.

− Descanse – disse a professora. – Ainda tem muito tempo para aprender. E a menina tem uma vantagem: o seu dono sabe praticar uma arte que é uma espécie de equivalente masculino do pompoar. Há homens, sobretudo no Oriente, que aprenderam a fazer com o pénis mais ou menos o mesmo que vocês estão a aprender a fazer com a vagina: movê-lo sem mover os quadris. Trata-se de controlar um músculo chamado músculo pubococcígeo, que os homens também têm mas que é mais difícil para eles exercitar.

− O meu Senhor às vezes faz isso – interrompeu Mariana.

− Ai sim? O seu dono consegue fazer isso? Então a senhora é uma escrava com sorte – disse Sadhana. – A vantagem disto é que se o homem tiver um orgasmo e a mulher também, estando os dois perfeitamente imóveis, o espasmo de que fala a Mariana não se perde no meio de todas as outras sensações.

Nos dias que se seguiram a esta conversa a professora não lhes ensinou nada de novo. Só as mandou repetir, e repetir, e repetir o que já tinham aprendido.

− Repitam até não poderem mais – dizia sempre. − Repitam até lhes doer tudo, das coxas à cintura. Mesmo quando estiverem a fazer outras coisas, sentadas a comer, sentadas numa aula, deitadas na cama à espera de adormecer, podem repetir estes exercícios. Mas só com a vagina, entenderam? Não vos quero a remexerem-se nas cadeiras para as outras pessoas verem, nem a fazer que tossem, nem muito menos a fazer avarias com o xixi. Entendido? Se for para fazer tolices prefiro que não façam exercícios nenhuns fora das aulas.

Ao princípio Alice achava quase impossível contrair e relaxar a vagina sem mover os quadris: como pode o cérebro dar ordens a um músculo, ou a um conjunto de músculos, cuja simples existência a sua detentora ignorava umas semanas antes? A pouco e pouco, porém, começou a ser capaz, e até a encontrar motivo de intenso divertimento sempre que se encontrava sentada, por exemplo, à mesa de um café e exercitava vigorosamente, sem que as pessoas à sua volta se apercebessem, os órgãos genitais. Só não conseguia fazer isto com as pessoas da casa: Ricardo e Mariana apercebiam-se sempre do que ela estava a fazer, bem como as gémeas e, é claro, Sadhana. Mesmo a tia Safira, com o seu ar desligado de tudo, notava nada o que ela estava a fazer; resultado, talvez, da experiência adquirida em décadas de viagens por África e pelo Oriente.

Um dia, ao fazer os seus exercícios, sem que o tivesse querido e sem que nada o fizesse prever, Alice teve um orgasmo. Apressou-se a informar a professora, que encolheu os ombros e se limitou a confirmar o que já Mariana lhe tinha dito: as contracções e distensões vaginais também podem servir para uma mulher dar prazer a si própria.

− Mas evite fazer isso – acrescentou. – Não é bom dar a uma arte nobre um uso trivial.

Mariana chegava exausta ao fim de cada aula, e Alice ainda mais. Saiam mais cansadas das aulas de pompoar do que das de dança do ventre, apesar de estas não serem propriamente fáceis. Durante semanas sentiram o ventre repassado duma dor surda, que só a pouco e pouco foi desaparecendo e fazia com que nunca perdessem a consciência do centro feminino dos seus corpos. Nem mesmo Alice, durante as aulas de árabe e de matemática, que eram as que lhe exigiam maior concentração, chegava a perder esta consciência do corpo que lhe permeava todos os momentos da vida.

Alice só tinha Mariana como condiscípula nas aulas de pompoar e de dança do ventre. Nesta disciplina a indumentária obrigatória começou por ser uma saia muito rodada, feita de um tecido muito flexível mas também muito mais pesado do que Alice tinha imaginado. Isto, explicou Sadhana, porque tinham que aprender desde o primeiro dia o peso das saias e o modo como ele afectava o seu balancear. Da cinta para cima podiam usar uma T-shirt, ou um soutien, ou nada, como quisessem. Jóias ou enfeites é que ainda não.

Assim se iniciou para Alice uma rotina mais exigente do que a que tinha conhecido em qualquer outra escola, rotina esta que só era salva da monotonia pela alternância constante entre o esforço intelectual e o esforço físico.

Nas noites em que a ausência do dono lhe doía mais, habituou-se a deixar a sua cama e o seu quarto e a ir dormir no chão, aos pés da cama dele, como tinha feito na noite em que ele a tinha possuído. Nas manhãs que se seguiam a estas noites acordava dorida, e se nesse dia as lições fossem mais exigentes do ponto de vista físico o trabalho tornava-se mais penoso.

Um dia, numa aula de dança, e sem que a professora lho ordenasse, experimentou combinar as contracções do pompoar com os movimentos que estava a fazer com os quadris. A professora apercebeu-se imediatamente mas, em vez de a censurar ou de lhe ordenar que se concentrasse na dança, fez um gesto com a cabeça que pareceu à jovem ser de aprovação.

− Muito bem, está a aprender – foi o seu comentário.

Depois desta aula Alice quis saber a razão por que Sadhana tinha aprovado o seu gesto. Não a tinha ela proibido de usar os movimentos dos quadris para auxiliar os da vagina?

− Mas não foi isso que a menina fez, pois não? – fez-lhe notar a professora. – Não usou um movimento como muleta para auxiliar o outro. Pelo contrário, deu a cada um deles o seu melhor esforço e procurou que eles se completassem. Não estou zangada consigo; pelo contrário, estou contente.

Como se toda a gente tivesse estado à espera deste desenvolvimento, o dia em que esta conversa teve lugar marcou o início de toda uma nova rotina em casa de Ricardo. Nessa mesma noite foi anunciado que Harun viria no dia seguinte para uma estadia prolongada. Alice mal dormiu. Mas a meio da manhã, quando o dono chegou, Alice tinha começado a sua aula de dança do ventre e não foi dispensada dela para o ir cumprimentar.

− Não fique triste, vai tê-lo a assistir – disse-lhe a professora. – E vai ter também o dr. Ricardo. A diferença que que faz quando há homens a assistir, vai a menina descobri-la logo ao começar, ainda mais sendo um deles o seu dono. Se não ficar nervosa demais, vai dançar melhor do que nunca: é este o efeito que os homens têm na dança. Agora, um aviso: a menina pode tentar seduzir o seu Senhor com o seu desempenho, mas não pense sequer em tentar impressioná-lo, e muito menos em dominá-lo. Ele já viu muito melhor do que a menina, por isso se tentar impressioná-lo, em vez de o seduzir pela autenticidade dos seus sentimentos, ele notá-lo-á logo e sentirá desprezo por si. Mostre-lhe apenas o que já sabe: é isso que ele espera de si e é isso que o fará orgulhar-se de si. Mostre ao seu dono o que sente por ele, e pode ter a certeza que ele ficará contente com o seu desempenho.

Claro que nada nestas palavras diminuiu o nervosismo de Alice. Entrou na sala, vestida com a uma saia igual às que usava nas aulas e com um choli que lhe deixava o ventre a descoberto. Continuavam a ser-lhe proibidas jóias ou enfeites. Por enquanto só lá estavam as mulheres: Safira, que se levantou da cadeira onde estava sentada para lhe dar um beijo; as gémeas, de pé como estátuas nos extremos da sala; Silke e Mariana, sentadas no chão sobre os calcanhares, junto do sofá vazio que ocupava a posição de honra. A ela, mandaram-na ajoelhar no centro do espaço deixado livre em frente ao sofá. Ao fim de uma espera que lhe pareceu interminável, viu Harun entrar na sala, conversando animadamente com Ricardo. Alice, a quem não tinha sido dada a oportunidade de receber à porta o seu amado, nem de saudar o seu Senhor, nem muito menos de se lhe lançar nos braços como lhe pedia o corpo e o coração, pôde agora saudá-lo de longe, inclinando a cabeça até ao chão. Harun respondeu à saudação: não apenas com o inclinar de cabeça protocolar, mas com um sorriso de encorajamento e um brilho nos olhos que tanto podia ser de orgulho como de amor. Alice viu como ele se sentava no sofá ao lado de Gunther e Ricardo e sentiu como os três homens enchiam a sala com a sua presença, como a não enchiam as mulheres apesar de serem em maior número. Naquele momento Alice soube com a mais absoluta certeza que era para eles que ia dançar, e não para a professora, nem para Mariana, nem para qualquer outro ser do seu próprio sexo.

A um sinal de Sadhana, pôs-se de pé, esperou pela música e começou. Esperara concentrar-se toda em Harun, mas logo se deu conta que a presença de Gunther e Ricardo também contribuía para que ela pusesse na sua dança um suplemento de alma que era uma homenagem – compreendia-o agora – não só ao seu próprio dono, mas também aos outros dois. Não tentou combinar com a dança as contracções do pompoar: essas, reservava-as para a noite, para quando Harun a mandasse chamar. Mas a certa altura, sem que tivesse feito alguma coisa por isso, sentiu que um espasmo de prazer lhe sacudia o fundo do ventre.

No último tempo da dança, quando ajoelhou aos pés de Harun, ele tomou-a nos braços, olhou-a longamente no fundo dos olhos e beijou-a de tal maneira que lhe fez saber que a sua dança de novata lhe tinha agradado tanto como se tivesse sido executada pela artista mais experiente e perfeita.

À noite, na cama, quando o dono a penetrou, Alice esforçou-se por aplicar tudo o que tinha aprendido durante as longas semanas precedentes. Harun sorriu deste esforço:

− Calma, minha querida. Estás a dar-me muito prazer, e de futuro hás-de dar-me muito mais; mas o que conta por enquanto não é o que me dás de prazer, é o que me dás de alma. Concentra-te nisso: foi essa a dádiva que desejei este tempo todo…

− Sim, meu Senhor, sou toda tua… de corpo e de alma…

Mas a verdade é que não era capaz de distinguir bem entre a dádiva do corpo e a dádiva da alma que ele lhe pedia. Para ela não se tratava duma alternativa entre entregar-se a ele completamente ou dar-lhe o prazer mais intenso de que fosse capaz, mas simduma conjugação entre as duas coisas: entregar-se e dar-lhe prazer.

A ordem que ele lhe deu a seguir resolveu este dilema:

− Fica quieta com os quadris – disse-lhe ele – e mostra-me o que aprendeste com a Sadhana.

O que Alice tinha aprendido até ao momento era ainda muito pouco, mas pôs todo o seu brio em mostrar-lho – e com alguns resultados, como pôde ver na expressão do amante. Tinha parado, obedientemente, de mover os quadris; e ele, quando a sentiu imóvel, parou também, mas isto só por fora, porque por dentro ela sentiu que o sexo do dono tinha ganho como que vida própria: um pássaro inquieto no ninho, um furão na toca, um aríete, uma cabeça de touro a erguer-se e a baixar-se, uma alavanca poderosa que tinha no corpo dele o seu fulcro e raiz.

E foi logo no auge desta delícia que ele a proibiu de ter orgasmo! De tão inesperada e injusta, a ordem trouxe-lhe lágrimas aos olhos – mas então que força foi aquela que a levou a agarrar-se a ele ainda com mais força, a puxá-lo para dentro de si ainda mais gulosamente, e a dizer-lhe indistintamente “sim, sim, meu querido, goza tu, goza sozinho, serve-te de mim … Eu não sou nada, não sou ninguém, deixa-me só servir o teu prazer…”

Mais tarde nessa noite, quando ele voltou a possuí-la, proibiu-lhe de novo o orgasmo. Só lho permitiu à terceira vez – ou melhor, ordenou-lho – quando a noite já começava a clarear e a ela lhe parecia que estava demasiado cansada para ter prazer. Como podia ela obedecer? Tinha o ventre dorido, os músculos cansados, e parecia-lhe que todos os conhecimentos de pompoar que tinha adquirido a tinham abandonado. Mas chamou à memória todos os sonhos, todas as fantasias, todas as saudades que tinha sentido, as noites solitárias em que se tinha masturbado, deitada no chão aos pés da cama dele; e estas lembranças, e as carícias dele, e os beijos dele, e os sábios movimentos do membro viril que tão depressa a acariciava, macio, como a invadia, ávido e rijo – tudo isto foi enfim suficiente para a fazer explodir na apoteose que lhe tinha sido ordenada e por que ela tão longamente anelara.

Depois ficaram a conversar:

− Desta vez vou ficar bastante tempo aqui em casa do Ricardo. Trouxe duas moças da Tunísia, uma para ser tua criada, a outra para ser criada da Mariana. A tua é solteira, tive que trazer também um irmão dela para tomar conta dela e arranjei-lhe um emprego temporário aqui em Braga. A da Mariana tem o marido na Tunísia e se ela ficar cá vai ser preciso o Ricardo mandá-lo vir e arranjar-lhe um emprego aqui em Braga. Enquanto a tua não aprender português, vais ter que falar francês com ela. Sabes francês? Só o da escola? Não faz mal, aprendes. Não são escravas, são imigrantes legais, com os papéis em ordem, direitos laborais e bons ordenados; mas foram bem informadas da tua condição, e da condição da Mariana, e da Silke, e não se escandalizarão com o que virem e ouvirem. E também não se vão importar de andar descalças, acham natural. O que nunca vais é vê-las de saias curtas ou mangas curtas… Depois, quando me for embora, levo-te comigo para a nossa casa de Túnis. Nessa altura levo também a Sadhana e algumas das tuas outras professoras que aceitaram continuar connosco. Também temos um apartamento em Paris e uma casa na Suíça, em Appenzell… Vamos andar sempre de um lado para o outro.

− Tens assim tantas casas? Deves ser muito rico – murmurou Alice, já com o sono a embargar-lhe a voz.

− Tenho o suficiente para viver como quero – respondeu Harun.

− Isso é ser muito rico – decidiu Alice.

Com esta conversa tinha ficado um pouco mais desperta. Enroscada a Harun, ainda perguntou:

− E o Ricardo, também é rico? Sempre me pareceu rico…

− Não. Rico, exactamente rico, não é. Mas tem uma profissão bem paga, e rendimentos próprios que herdou dos pais… A Mariana é mais rica do que ele, e além disso vende bem os quadros que pinta. Fez partilhas com o ex-marido que não a deixaram mal… De modo que também eles podem viver mais ou menos como lhes apetece.

− É bom, poder viver como nos apetece – disse Alice. – Ou melhor, no meu caso e no da Mariana, como apetece aos nossos donos. Não é?

Harun mal a ouviu. Veio-lhe um enorme bocejo, de repente. Encostou o rosto ao de Alice, que também estava meio morta de sono mas ainda perguntou:

− Meu Senhor… Hoje também vou dormir no chão?

− Não, hoje não. Hoje dormes aqui comigo.

− Mas primeiro lavo-te, meu Senhor… Não é?

Harun sorriu, agradado com a boa memória e com a obediência de Alice.

− Claro…

Apenas cumprido o rito da lavagem, adormeceram os dois, abraçados. Quando ela acordou ele estava ainda a dormir. Com todo o cuidado, para não o acordar antes do tempo, deslizou toda para debaixo das cobertas e tomou-lhe na boca o pénis flácido, sentindo-o endurecer lentamente e fazendo um jogo de adivinhar o que aconteceria primeiro: Harun acordar, ou começar a corresponder ainda adormecido à carícia da amante. Mas quando ele, sem fazer mais que uns ligeiros movimentos com as ancas e sem dar outros sinais que a prevenissem, lhe descarregou na boca uma quantidade de esperma que quase a fez engasgar, Alice deu-se conta de que nos últimos momentos quem estivera a fazer um jogo fora ele, fingindo-se ainda adormecido quando a carícia já o tinha despertado completamente. Encantado com esta pequena vitória sobre a sua escrava, Harun abraçou-se a ela, risonho e feliz, e cobriu-lhe de beijos o rosto e a boca. Depois deu-lhe uma leve palmada nas nádegas e disse-lhe, ainda a rir:

− Chega de beijoquices. Estou aqui sequioso por um chá e a minha escrava ainda não mo foi buscar…

Com uma risadinha, Alice pulou para fora da cama:

− É para já…

Enrolou à volta das ancas a saia com que se apresentara a Harun na noite anterior, e, sem sequer cuidar de se cobrir da cinta para cima, apressou-se em direcção à cozinha, sentindo que tudo estava bem com o mundo. Na cozinha encontrou uma mulher que não conhecia e que a ajudou a preparar o tabuleiro sem dar mostras de ter reparado nos seus seios nus: devia ser uma das tunisinas de quem Harun lhe tinha falado.

Com a presença de Harun em casa de Ricardo, a disciplina na educação de Alice perdeu um pouco da sua rigidez: mas não no que diz respeito às lições de pompoar, nem às de dança do ventre; e muito menos quanto à escrupulosa toilette nocturna de Alice, que nunca foi descurada no mais pequeno pormenor. Este ritual era cumprido todas as noites com a ajuda da nova criada de Alice, uma jovem de olhos amendoados chamada Aischa.

Alice tinha prazer neste luxo; mas Mariana achava que era perfeitamente capaz de tratar do seu próprio corpo e que não precisava de criada nenhuma.

− Para que queremos nós uma empregada? – perguntava por vezes a Ricardo. – Para a lida da casa temos cá mulheres que cheguem; e para tua criada particular basto eu, que sou feliz em sê-lo. Ou não sabes disto?

− Sei, sim, minha querida – respondia Ricardo. – E melhor criadinha do que tu, nunca a poderia desejar. Mas não te esqueças que tens outros deveres…

E para lhe mostrar quais eram esses deveres dava-lhe a mão a beijar, ou introduzia-lha entre as coxas. Mariana, pacificada, sorria e entregava-se à carícia; e ao fim de pouco tempo adaptou-se à presença de Leila, a segunda tunisina – uma mulher entre os trinta e os quarenta anos, anafada e bem disposta, que depressa mostrou inestimáveis talentos, não só como empregada doméstica, mas também como cabeleireira, manicura, pedicura e massagista. O seu constante bom humor não poupava ninguém, nem mesmo Ricardo; e a própria Mariana não conseguiu muitas vezes impedir-se de se rir ao vê-la imitar o tom pausado e sério com que o dono da casa tinha dado certa ordem ou tomado determinada decisão.

Quanto às aulas de pompoar, a fase seguinte consistiu em habituar Alice e Mariana a distinguir três secções diferentes nas suas vaginas.

− Têm que sentir a vagina – ensinou-lhes Sadhana – como um tubo composto por três anéis: um logo atrás da entrada, o outro no meio, e o outro lá mesmo no fundo, junto ao útero.

Tomar consciência destas três secções, e aprender a contraí-las e relaxá-las independentemente umas das outras, foi bem mais difícil e demorado do que tinha sido controlar a vagina no seu todo. Nuas e suadas na sala aquecida, Alice e Mariana tentavam uma posição, depois outra, voltavam por vezes aos truques iniciais do xixi e da tosse, esforçavam-se, insistiam, desesperavam. Nem Harun, nem Ricardo, nem homem nenhum era admitido na sala; não só porque Sadhana nunca admitiria mostrar-se nua à sua frente, mas também porque os esforços, o sofrimento e o ocasional desespero das duas alunas não eram um espectáculo próprio para aquilo a que a professora chamava, com o seu humor discreto, a delicada sensibilidade masculina.

Nas aulas de dança do ventre, pelo contrário, os homens eram bem-vindos: não só Harun e Ricardo, mas quaisquer amigos que pudessem estar de visita.

O Raqs Shaqi dança-se sempre melhor na presença de um homem – dizia a professora, como quem recita uma evidência.

Mas Alice tinha lido algures que a dança do ventre era na sua origem uma espécie de rito iniciático entre mulheres, algo de que os homens estavam excluídos, uma ginástica para o parto, uma manifestação espiritual do tempo do matriarcado… Que só depois, com o patriarcado e com o colonialismo, é que se tinha feito dela um espectáculo para excitar e seduzir os homens.

− Isso é o que as americanas dizem – respondeu a professora. – Têm aquela coisa calvinista de pôr dum lado o que é espiritual e do outro o que é corporal… E como são calvinistas, são feministas, e acham que agradar aos homens as diminui. Não é que não tenham razão quando falam nos rituais, na preparação do parto, nas cumplicidades e nos segredos femininos: só não percebem que nisto tudo cabe muito bem o nosso prazer em seduzir os homens, em lhes agradar, em lhes prestar homenagem. A presença dos homens, o prazer deles nos nossos corpos, nada disto faz de nós menos mulheres, pelo contrário: faz de nós mais fortes e mais mulheres. Assim como o nosso prazer na masculinidade deles faz deles mais fortes e mais homens. Qualquer mulher oriental entende isto, só para as ocidentais é que é difícil. E para as americanas, então…

Sadhana ficou absorta um momento. Mariana e Alice ainda a ouviram dizer baixinho, falando para si própria:

− O Raqs Shaqi… contra os homens… uma coisa hostil… doidas, completamente doidas.

Como que para sair desta absorção apertou os lábios, abanou a cabeça e dirigiu-se às alunas em tom decidido:

− Hoje não quero que dancem para mim. Imaginem que são a Xerazade, que estão a dançar para o Sultão e que amanhã ele vos pode mandar cortar a cabeça se hoje não achar interessante o vosso desempenho.

De aula para aula tanto Alice como Mariana faziam progressos. Mariana, com a sua aptidão natural, levava Sadhana a lamentar muitas vezes o desperdício que era ela não ter começado a aprender em adolescente ou criança. Alice era maior e mais robusta do que Mariana, e apesar da sua juventude era um pouco mais rígida de cintura; mas no cômputo geral as duas andavam a par. O primeiro adereço que a professora lhes permitiu foi um cinto dourado com guizos para usar à roda das ancas – com o aviso solene de que só teriam direito a outros enfeites ou instrumentos, nomeadamente as castanholas metálicas chamadas “snujes” que Alice não se cansava de pedir, quando soubessem mover as ancas de maneira a que os sons emitidos pelos guizos tivessem um ritmo compatível com o da música.

Alice era sempre das duas a que fazia mais perguntas

− Porque é que a dança do ventre não se dança com os seios nus? As saias, eu compreendo, podem completar os movimentos do corpo, até se pode dizer que também dançam. Mas uma coisa ali parada, a apertar o peito, que não faz nada além de esconder o corpo, para que é que serve?

− O Raqs Shaqi pode dançar-se também de seios nus – respondia pacientemente a professora. – E até meados do século XX esse foi o costume em certas regiões do Sul de Marrocos, por exemplo…. E na Antiguidade: há representações de dançarinas com os seios nus no antigo Egipto, na Índia… e, muitas vezes, completamente nuas.

− Está bem, mas agora? – insistia a jovem.

− Agora, não se pode esperar de uma dançarina que dedique tanto tempo e esforço a aperfeiçoar a sua arte para depois ser confundida com uma stripper qualquer ou com uma lap dancer sem escola. As americanas podem estar erradas em rejeitar a parte que é sedução na dança do ventre, mas têm razão em não querer utilizar a sua arte para excitar qualquer ignorante com dinheiro para pagar a entrada num clube nocturno. Não é só uma questão de puritanismo, também é de integridade artística. Há uma definição de prostituição com que eu concordo: prostituição é tudo aquilo que põe o que é nobre ao serviço do que é vil ou trivial. Até pode ser um poeta a fazer slogans publicitários, por exemplo: é prostituição na mesma. E as dançarinas profissionais de Raqs Shaqi têm toda a razão em não se quererem prostituir. Além disso há uma vantagem concreta em usar uma peça de roupa na parte superior do corpo a que possam ser afixados guizos: se estes tiverem um som que se distinga dos que são afixados às ancas e aos tornozelos, uma dançarina que seja dotada pode criar ritmos mais intrincados.

− Lá por isso, os guizos também se podem prender aos mamilos com piercings ou com molas – retorquiu Alice. – Mas está bem, nunca tinha pensado nisso em termos de integridade artística. É tudo mais complicado do que parece, não é?

Sadhana acenou com a cabeça.

− Não quer dizer que no Oriente, nalguma ocasião privada, perante um público conhecedor, uma grande artista não possa actuar muito mais nua do que de costume, e até actuar melhor por estar mais nua. Aí já não se trata de prostituição, estão a compreender? Quanto a vocês duas, veremos. No vosso caso o problema da integridade artística não se põe. A vossa dádiva aos vossos donos não foi vil nem trivial, caso contrário eu não estaria aqui a ensinar-vos. É como eu dissse: veremos.

E ainda Alice, noutra ocasião:

− Senhora professora, já ouviu falar em Gothic Bellydance?

− Já ouvi falar, e já vi fazer – respondeu a professora. – Mas nunca fiz nem ensinei.

− Eu gostava de aprender.

− Dança do ventre gótica: só me faltava essa! Mas a questão não é o que a menina gostava de aprender, é o que o seu dono quer que aprenda. Fale com ele, e se ele autorizar talvez eu aceite estudar isso consigo. Se a dança do ventre gótica acrescentar alguma coisa às outras variedades, é a maneira de também eu aprender alguma coisa; se não lhes acrescentar nada, então não me interessa: terá que a estudar sozinha.

No pompoar, depois de aprenderem bem o ritmo ternário correspondente aos três anéis imaginários em que dividiam a vagina, foram introduzidas ao ben-wa: duas bolas metálicas, ligeiramente maiores que bolas de ping-pong e unidas por um fio. A professora convidou as duas alunas a sopesar estas bolas: não eram leves, mas o que mais as surpreendeu foi o facto de não terem um centro de gravidade estável: era como se dentro delas se movessem outras bolas, umas mais pesadas do que as outras. Eram próprias para introduzir na vagina, disse a professora, e por isso tinham outro fio que ficava de fora e permitia tirá-las. Podiam ser usadas para vários fins, um dos quais era auxiliar a aprendizagem que estavam a fazer.

Assim começou uma nova fase nesta aprendizagem, que durou, no que diz respeito a Mariana, até ao dia em que ficou sem a professora. O fim da estadia de Harun em casa de Ricardo representou uma viragem na vida de todos. Mariana e Ricardo estavam a poucos meses de acabar o seu trabalho em Brugges e Heidelberg: depois disso passariam a repartir a vida entre Lisboa e Braga, acompanhadas por Leila, que se tinha prontificado a ficar em Portugal como sua empregada desde que o marido também pudesse vir. No seu regresso a Túnis, Harun far-se-ia acompanhar duma comitiva que não ficaria mal a um jovem príncipe: além de Alice, seguiriam com ele Sadhana, a professora de música e a de inglês, a criada Aischa, e o irmão de Aischa, a quem tinha sido oferecido o emprego de motorista de Alice. A vida de Harun e Alice não se repartiria, como a de Ricardo e Mariana, por duas cidades num só país, mas por várias cidades em três continentes. Gunther e Silke já tinham regressado a Heidelberg há muito tempo.

Quanto às gémeas, era tempo de assumirem os seus deveres de matriarcas e guias no seu clã espalhado pelo mundo, que nunca ninguém chegou a saber se era uma tribo, uma família, uma sociedade secreta, um grupo religioso ou uma empresa.

Não era uma despedida definitiva: sem dúvida que se voltariam todos a encontrar, todos juntos ou em grupos mais pequenos, ao sabor da hospitalidade e das viagens. Quando Mariana se viu privada da sua professora, os seus progressos na dança do ventre já tinham chegado ao ponto em que executava todos os movimentos básicos e dominava meia-dúzia dos ritmos principais; quanto ao pompoar, já tinha começado a treinar com o ben-wa e chegara ao ponto em que conseguia puxar para dentro ambas as bolinhas, mas ainda só conseguia expulsar uma.

− Continue a treinar – disse-lhe Sadhana. – Se quiser ir mais longe no Raqs Shaqi tem que ter lições, mas o pompoar é só uma questão de treinar todos os dias.

− Não se preocupe, senhora professora – interrompeu Alice, sorrindo por entre as lágrimas da despedida. – Vou estar em contacto com ela todos os dias pela Internet e se ela se desmazelar digo ao Ricardo.

Do aeroporto do Porto, onde tiveram lugar as despedidas finais, até à moradia de Ricardo em Braga não se demora mais do que três quartos de hora pela auto-estrada. Mal entraram no carro e se viram sozinhos um com o outro, Ricardo ordenou a Mariana que levantasse a saia e pôs-lhe a mão entre as coxas para lhe acariciar o sexo. Ao sentir o fio do ben-wa, perguntou:

− O que é isto?

Mariana explicou. E Ricardo, rindo, decidiu logo ali que, a partir do momento em que chegassem a casa, Mariana ficaria nua toda a semana seguinte, minuto por minuto e segundo por segundo, para que ele pudesse verificar a assiduidade com que ela cumpria os exercícios que a professora lhe tinha prescrito. Mariana riu-se também e chegou-se para mais perto dele. Milhares de metros acima de ambos, o avião que levava para longe os seus amigos descreveu uma larga curva no ar e entrou na rota que o plano de voo lhe tinha destinado.

(Publicado no Blogger a 31/05/08 e revisto a 01/06/08 )

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Uma das minhas queridas leitoras, que vai casar em breve, viu esta imagem quando a publiquei no Blogger e ficou sonhadora: porque não pode ela ir também assim? Não haverá por aí outra leitora a quem esta imagem faça sonhar? E leitores? Não há por aí nenhum que gostasse de levar a sua noiva assim ao altar?

(Publicado no Blogger a 09/04/08 )

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És bela no prazer. Leio-te a boca
Escrita entre dois vincos,

O discurso da carne entre silêncios.

O texto e a textura no decurso

Do sexo. Os passos todos.

É dolorosa a via decorrida.
Como não ter no rosto aberta a marca?

Como não ter no olhar impresso o rasto?

Porém és bela, e dóis-me.
O texto é esse, fundamente escrito

Na nossa carne viva. Doloridos

Os corpos, meu amor.

Macerado parêntesis, tão breve
E tão perfeito o dia entre dois traços.

(Publicado no Blogger a 05/05/07)

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O conto «A Dança» que estou a escrever, e que estava pensado para encerrar as Histórias de Mariana, está a ficar longuíssimo. Depois de o terminar vou ter que cortar o mais possível às palavras cortando o menos possível no sentido. De qualquer modo, se chegar a publicar a série em livro, penso que em vez de a fechar com este conto a vou abrir com ele. Um abraço a todos.






(Publicado no Blogger a 30/01/07)

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(Publicado no Blogger a 28/01/07)

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serchukEstavas deitada no chão aos meus pés, toda nua, como já se ia tornando costume. Quando eu te disse «dá a barriga» ficaste um pouco admirada, talvez por eu nunca antes te ter feito esta exigência. Mas percebeste imediatamente do que se tratava: é o que eu digo sempre à tua gatinha quando chego a tua casa e ela se começa a rebolar no chão a pedir festas.
Com uma risadinha, também tu te rebolaste e ficaste de barriga para cima, com as pernas e os braços no ar; e eu, sentado no sofá, inclinei-me para a frente e comecei a fazer-te festas no umbigo, nas mamas, no pescoço. E comecei também a fazer-te festas com os pés: tinha-os um pouco frios e soube-me bem metê-los entre as tuas coxas, aninhá-los na tua coninha tão quentinha.
Ainda murmurei:
– Dá a barriga, minha escrava.
E tu ronronavas, ronronavas…

(Publicado no Blogger a 25/12/06)

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Reloj detén tu camino
porque mi vida se apaga.
Ella es la estrella que alumbra mi ser,
yo sin su amor no soy nada.

Detén el tiempo en tus manos,
haz esta noche perpetua,
para que nunca se vaya de mí,
para que nunca amañezca.

Roberto Cantoral. El reloj

O bairro do Sacromonte é dos poucos lugares de Granada que não são dominados pela visão tutelar da Serra Nevada ou da Alhambra. A serra é escondida pela estreiteza das ruas e pela altura dos muros, que apenas a deixam ver de relance num ou noutro virar de esquina; e a acrópole mourisca está demasiado próxima para que a vista a abarque. Para ver um panorama desimpedido da serra haveria que subir aos próprios jardins do palácio; para o ter deste haveria, pelo contrário, que descer as ruelas íngremes até ao fundo do bairro e subir as da colina fronteira – Albacín, a medina – até ganhar distância e encontrar miradouro.

A vivenda que Ricardo e Mariana tinham tomado de empréstimo ficava no Sacromonte a meia encosta, no fundo de um carmen murado. Mas, se não viam a Alhambra, não deixavam de lhe sentir a presença no rendilhado dos portões de ferro, na privacidade dos jardins, na própria cor das pedras. Mariana tinha tratado de tudo. A vivenda, tinha-lha emprestado o galerista de Baltimore que lhe organizara a primeira exposição em solo americano, e que levara a generosidade ao ponto de lhe pôr à disposição o automóvel que guardava numa garagem escavada na rocha.

Don’t think about it. – respondera, quando ela lhe tentara agradecerThe house needs to be aired. You will be doing me a favor, really. Just make sure you take out the Porsche at least once, it hasn’t been driven for two months.

As férias de Mariana tinham começado um dia mais cedo que as de Ricardo. À proposta deste, que se encontrasse com ele em Heidelberg e fizessem a viagem juntos, respondeu Mariana que não:

– Vou um dia antes, tenho ver como é a casa, preparar tudo condignamente para o meu dono…

Ricardo não insistiu: se Mariana tinha feito planos não seria ele a estragá-los.

– Quero ver o que vai sair daí – limitou-se a dizer.

E com efeito, ao desembarcar do Talgo na estação de caminhos-de-ferro de Granada começou logo a ver, pelo sorriso travesso da amante, que havia ali grandes preparativos. Quando viu o Porsche no parque de estacionamento pensou que faria parte desses misteriosos preparativos e não estranhou quando ela lhe sugeriu, contra o habitual, que fosse ele a guiar. E não estranhou também em frente ao portão da vivenda quando ela lhe pediu para arrumar o carro, oferecendo-se para levar ela própria para dentro a mala dele e dando-lhe indicações para chegar à garagem.

Ao regressar a pé Ricardo não se apressou: queria dar tempo a Mariana de terminar o que quer que fosse que tinha preparado. O portão de ferro trabalhado estava apenas encostado: abriu-se com um rangido e Ricardo encontrou-se num jardim perfumado, num carmen andaluz. Era Fevereiro; já fazia calor; mas os dias ainda eram curtos e o sol esplendoroso que o tinha acolhido à chegada tinha dado lugar a um crepúsculo acentuado pela vegetação densa. Um carreiro de lajes polidas, flanqueado por duas filas de velas acesas, conduzia à entrada principal. Ricardo fechou o portão atrás de si, percorreu a rota de luzes que a amante lhe tinha marcado, e bateu à porta.

– Entra, está aberta. Vai-te sentando, eu já vou ter contigo.

A sala estava disposta de uma maneira que Ricardo achou estranha. Todo o mobiliário estava acumulado num dos extremos: um divã, almofadas, tapetes, uma mesa baixa. Sobre a mesa estavam dispostos pratinhos com tapas, frutas secas e pequenos doces; de um bule exalava-se um vapor com cheiro a menta, e a única chávena confirmava o convite de Mariana para que ele se sentasse sem esperar por ela.

Também a iluminação – quatro grossas velas em pedestais e mais duas sobre a mesa – estava toda do mesmo lado, deixando o outro numa obscuridade que mal permitia distinguir, a um canto, o que parecia ser um monte de panos pretos. Já Ricardo se tinha sentado e vertido para a chávena o chá de menta quando o monte de panos se mexeu e dele se destacou o corpo miúdo de Mariana; e foi quando ela se aproximou dele e da luz que Ricardo viu que estava nua, sem o menor adorno sobre o corpo.

A luz das velas reflectia-se-lhe no brilho dos olhos e na brancura do sorriso, mas não chegava para que se lhe distinguissem pormenores do rosto ou do corpo. Porém Ricardo via-a nitidamente com os olhos da memória: o ventre musculoso e liso; a cintura delgada; as ancas, que numa mulher menos delicada de corpo seriam estreitas mas que em Mariana, comparadas com os ombros e com a cinta, eram largas; os braços e as pernas musculadas, de dançarina ou ginasta. Um efeito de luz, talvez o tremeluzir das velas, fez com que Ricardo se lembrasse dos seios de Mariana quando eram os dois estudantes em Coimbra: cónicos, pequenos, mas com mamilos e aréolas bastante grandes. Mais tarde, das duas vezes em que Marta tinha ficado grávida, os seios tinham-lhe crescido, mas depois voltaram a diminuir e Ricardo nunca os chegou a ver nessa fase. Quando os viu de novo estavam outra vez tão pequenos como vinte anos antes: apenas um pouco descaídos, o que causava a Marta um pouco de desgosto.

Dois anos mais tarde, durante uma visita a Portugal, apareceu-lhe um nódulo no seio direito. Felizmente era benigno, mas era melhor retirá-lo; e porque não aproveitar a cirurgia, sugeriu o médico, já que Marta se lembrava com saudade dos seus seios de grávida, para colocar uns implantes? Marta teve dúvidas: ia ficar com um aspecto natural? Dependia da prótese que escolhesse, disse o médico. E dificultaria o diagnóstico de alguma coisa que aparecesse? Não: poderia fazer mamografias como antes, as próteses não encobririam nada. Pensando em como gostava de decotes, e na surpresa que ia fazer a Ricardo, Marta consentira; e tinha valido a pena: o peito, agora firme e generoso, parecia perfeitamente natural à vista e também ao toque, como comprovou Ricardo quando teve oportunidade de os sopesar.

Ao sair do monte de panos Mariana devia ter accionado um comando qualquer, porque subitamente se começou a ouvir música: Estavam todas juntas, quatrocentas bruxas, à espera da lua cheia… Ricardo recordou-se do dia em que Mariana lhe tinha oferecido esta música pelos anos, um LP do tempo do vinil: tinha sido no apartamento que ela partilhava com outras estudantes, onde ele as tinha ajudado a revestir o chão com quadrados de alcatifa adquiridos quase de graça. Já nesse tempo Marta gostava de dançar para ele, e tinha o hábito de o fazer marcando os movimentos sobre os quadrados de alcatifa, como agora, décadas mais tarde, sobre as lajes quadradas do pavimento.

Mas não era exactamente uma dança que Mariana executava, nem a música de Zeca Afonso se prestava a tal: era talvez uma mímica, a exposição de uma história, da história dos dois, do tempo em que Marta se sentava aos pés dele em posição de lótus e trocavam fantasias.

A ilusão que os movimentos de Mariana davam a Ricardo de ter diante de si a Marta de outros tempos era reforçada pelo facto de nada no corpo dela, com excepção dos seios, ter mudado nessas décadas. (Segundo ela, tinha havido outras mudanças; o rabo estava mais descaído, por exemplo, e algumas rugas estavam mais vincadas; mas Ricardo, em quem se somava a normal displicência masculina com a cegueira de amante, não conseguia ver a diferença).

Em todo o caso bastou um segundo e uma mudança na música para que Marta passasse de novo dos vinte e tal aos quarenta e tal anos: a aparelhagem sonora (devia ser um gravador de bobinas, à moda antiga, e as fitas deviam ter sido gravadas por Mariana expressamente para esta ocasião) tocava agora canções de Caetano Veloso: No dia do seu primeiro reencontro tinham posto a tocar um CD, Federico e Giulietta, enquanto percorriam a estrada de Coimbra à Figueira da Foz e a Quiaios pela Serra da Boa Viagem. A voz de Caetano, agora em fita magnética, cantava de novo Come Prima e Coimbra; Marta e Ricardo partiam de novo de Coimbra e iam à praia come prima, como dantes.

Não, afinal não era uma mímica, mas os movimentos de Mariana invocavam os de Marta naquele dia, o caminhar pela praia, a procura duma rocha ao abrigo de olhares indiscretos, o penoso caminho de volta ao carro, a garrafa de água comprada à pressa no regresso porque no improviso do passeio se tinham esquecido de levar que beber… e agora em Granada o corpo dela, de si tão ágil e ligeiro, que nunca descaía os ombros nem arrastava os pés, lembrava o dele naquele dia, exausto e sedento.

A primeira noite que tinham passado juntos depois do reencontro tinha sido na praia da Tocha, num apartamento alugado, já no final desse Verão. Tinha sido um fim-de-semana sem música, mas se alguma música o pudesse traduzir seria a colecção de boleros que agora saía dos altifalantes escondidos na penumbra da sala. Besame mucho… como se fuera esta noche la ultima vez … Mariana caiu de joelhos no chão de lajes e sentou-se sobre os calcanhares com as coxas separadas. Com um movimento impetuoso lançou para trás os cabelos, como fizera ao cavalgar Ricardo naquele apartamento em frente ao mar: de olhos fechados, de narinas frementes, arrebatada de paixão, retesos os músculos do ventre e os tendões do pescoço. O corpo curvado fremia de energia contida, como um arco pronto a disparar. Os seios, agora mais redondos e túrgidos do que naquele outro dia, suavizavam a dureza das clavículas e das costelas.

Para que nunca amañezca, implorava a canção, e logo o solo de saxofone secundava a prece. Mas um dia havia de amanhecer: não tinha sido na Tocha, nem depois em Lisboa, Heidelberg, Brugges ou Paris; nem ia ser agora em Granada, mas algum dia, oxalá longínquo, poderia nascer uma manhã em que olhassem um para o outro como dois estranhos. Ricardo lembrava-se bem daquela noite, a primeira em que ele e Marta tinham feito amor depois de se reencontrarem: Marta tinha chorado então; agora exprimia sem lágrimas aquele pranto, no arquear do corpo e no erguer dos braços.

(continua)

(Publicado no Blogger a 19/11/06)


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Eram oito da noite de sexta-feira e Mariana estava a pôr a mesa para Ricardo. Só para ele, porque hoje ia servi-lo sem participar na refeição como se fosse uma criada. Quanto a ela, já tinha comido: uma salada com cubos de queijo, pão torrado e um molho à base de iogurte magro.

Ricardo, calculava Mariana, devia estar neste momento a sair do seu gabinete em Heidelberg e a fazer-se à estrada num carro alugado, para estar com ela o mais cedo possível. Ia chegar cansado e sem jantar, depois de um dia de trabalho duro e de duas ou três horas a conduzir na Autobahn.

Não valia a pena cozinhar-lhe uma ceia completa, ele ficava sempre sem apetite quando viajava. Em vez disso Mariana preparou tostas, uma tábua de queijos e uma tacinha com framboesas e abriu uma garrafa de vinho, que deixou num aparador a respirar. A seguir dispôs velas aromáticas na sala, deixou a caixa de fósforos à mão, subiu a temperatura no termóstato, ligou o dispositivo de aquecer as toalhas na casa de banho e preparou os óleos para a massagem que tencionava dar ao amante se ele não se agarrasse logo a ela e não a arrastasse para a cama.

Tomou duche antes de tomar banho, como as gueixas; lavou a cabeça, enrolou o cabelo molhado numa toalha, meteu-se na banheira com sais aromáticos, enxugou-se, amaciou o corpo com um creme perfumado, secou e escovou o cabelo.

Tinha-se depilado toda de manhã. Quando o dono lhe ordenara que fizesse isto, tinha protestado, mas agora estava a gostar de se ver lisa como uma menina impúbere.

Pintou as unhas dos pés e das mãos com a mistura de vernizes de que ele gostava: metade transparente, um quarto cor de rosa pálido, um quarto branco-pérola. Vestiu-se e maquilhou-se como ele tinha dito que queria: saia comprida e rodada em tons de terra e laranja, semi-transparente, sem calcinhas; corpo nu da cinta para cima; cinto de fantasia; bijutaria profusa nos pés, nos pulsos, no pescoço, nas orelhas e sobre o peito; um pouco de rouge, muito pouco, na cara; baton cor de framboesa nos lábios e nos mamilos. Pôs umas chinelas, para usar até ao momento em que ele tocasse à campainha de baixo: Ia recebê-lo como ele tinha mandado, com os pés nus em sinal de respeito; mas também, em sinal do mesmo respeito, com eles limpos.

Quando a campainha tocou guardou as chinelas e foi-se pôr à porta do apartamento para ele não ter que esperar no patamar. Ao sentir-lhe os passos abriu-lhe a porta; lá vinha ele, arrastando o seu velho trolley de viagem azul. Na mão esquerda trazia um ramo de rosas vermelhas atadas com um fio de ráfia: devia ter-se picado nelas ao sair do carro ou ao tocar à campainha, porque trazia um arranhão entre o polegar e o indicador que ainda ressumava perolazinhas de sangue.

Mariana franqueou-lhe a entrada, fechou a porta atrás dele e, mal lhe dando tempo a pousar o trolley, lançou-se-lhe ao pescoço. Ricardo correspondeu apaixonadamente a este beijo, atrapalhado apenas por ter só um braço livre; com o outro mantinha afastado dela o ramo das rosas, para que não a picassem. Quando ele por fim lhe entregou o ramo Mariana levou-o ao nariz, aspirou-lhe o perfume, e ajoelhou com um gesto natural e gracioso para beijar a mão do amante.

– Anda para a sala. Tens fome?

– Não tenho muita…

Mas depois de tirar o casaco e de ir à casa de banho sentou-se à mesa. Mariana, ajoelhada, pousava a cabeça nas coxas dele beijava-lhe a mão quando ele a acariciava. Só se levantou uma vez, para lhe servir o vinho. Duas tostas, dois cubos de queijo, algumas framboesas que ele ia comendo ou dando a comer à amante, e meio copo de Barolo: a isto se resumiu a refeição de Ricardo.

– Estás cansado, meu querido.

– Um pouco. Preciso de tomar um duche.

– Senta-te no sofá, eu dispo-te.

Ricardo fechou os olhos e deixou-se despir como um menino ensonado. A meio do duche Mariana foi ter com ele para acabar de o ensaboar. No fim ajudou-o a secar e levou-o de novo para a sala.

– Deita-te no sofá. Vou dar-te uma massagem para te tirar essa tensão dos ombros.

– Se fizeres isso ainda adormeço aqui mesmo e depois não te sirvo para nada – respondeu ele com um sorriso.

– Não faz mal. Deita-te. Espera, vou pôr aí uma toalha.

Mariana tirou todos os ornamentos que trazia no corpo e pôs-se nua para ter mais liberdade de movimentos. À massagem que deu ao dono com as mãos acrescentou umas carícias com os seios e com o sexo depilado que o fizeram ronronar como um gato.

– Hmmm, tão bom…

A previsão que Ricardo tinha feito de adormecer não se cumpriu completamente. Terminada a massagem rolou do sofá para cima do tapete, pôs-se de barriga para cima, fechou os olhos e estendeu os braços como uma criança a pedir mimo:

– Vem cá, minha escrava…

Mariana trepou para cima dele, montou-o e começou a acariciar-lhe o pénis ainda flácido com a vulva acetinada e húmida. Ricardo sorriu, consolado:

– Tão bom…

A erecção que tinha tido lugar intermitentemente desde que Ricardo tinha entrado em casa de Mariana não tardou a estabelecer-se de novo com renovada pujança, e Mariana empalou-se nela com um suspiro de prazer.

Começou então uma noite memorável, com Mariana a movimentar vigorosamente os quadris, para cima e para baixo, para a frente e para trás, para os lados, em círculos, e com Ricardo a erguer-se ao encontro dela, mais fundo, mais fundo.

Por vezes ela inclinava-se toda para trás para conseguir o ângulo que mais a excitava, mas o pénis dele estava tão retesado que lhe doía ao ser vergado para baixo. Então puxava-a com força para si de modo a sentir-lhe os seios contra o peito; ela soprava como um gato assanhado mas obedecia, e deixava pender a cabeça para a frente de modo a poder acariciá-lo também com os cabelos.

Ricardo sentia o orgasmo quase a chegar mas, fosse pelo cansaço que sentia, fosse por estar por baixo, ou fosse ainda pela dor que Mariana lhe provocava quando se inclinava para trás, a excitação em que estava só crescia sem se resolver num desenlace. Por vezes o cansaço dos músculos levava-o a ficar passivo enquanto Mariana dançava por cima dele, mas logo o desejo, louco, o obrigava a acelerar e ampliar as estocadas que dava na amante.

Mariana veio-se. E veio-se outra vez. E veio-se outra e outra, tantas vezes que não as pôde contar, tantas vezes que a certa altura já não tinha orgasmos separados, tinha um único orgasmo que continuava e continuava e parecia nunca mais acabar.

Por fim – depois, quando olharam para o relógio, viram que passava das quatro da manhã – Ricardo deu um urro cavernoso, e num último, prodigioso arranque esvaiu-se todo dentro dela, que arquejava «dá-me, dá-me tudo» e se veio também pela última vez nessa noite.

Nem se lavaram. Conseguiram ir os dois, aos tropeções, da sala para o quarto, onde se deitaram em cima da cama e adormeceram imediatamente. Quando acordaram tinham, ele o pénis quase em carne viva, ela a vagina em idêntico estado, e no tapete sobre o qual tinham feito amor vieram a encontrar uma pequena mancha de sangue que nunca vieram a saber se era dele ou dela.

Mariana acordou tarde e viu o amante ainda adormecido ao seu lado. Durante a noite tinham arranjado maneira de puxar o edredon para cima deles, e ainda bem porque a casa estava um pouco fria. Começou preguiçosamente a dar pequenos beijinhos na cara de Ricardo e viu como mesmo a dormir o rosto dele se adoçava num ligeiro sorriso. Depois pousou a cabeça no travesseiro e deixou-se ficar numa deliciosa indolência até o ver acordar e espreguiçar-se.

Esta visão deu-lhe vontade, como que por contágio, de se espreguiçar também e de bocejar longamente.

– Tens fome, meu querido?

– Mais que fome, estou esfaimado. Se não me dás de comer, como-te a ti.

– Então deixa-me tomar duche primeiro, depois tomas tu enquanto eu te preparo o pequeno-almoço.

Ricardo ainda fechou os olhos por uns minutos. Depois levantou-se, vestiu o roupão, calçou os chinelos de quarto e dirigiu-se para a casa de banho, de onde Mariana estava a sair embrulhada numa toalha.

Ao enxugar-se – vigorosamente, como era seu costume – reparou que lhe doía ao esfregar o pénis com a toalha, apesar de esta ser invulgarmente fofa e macia. A pele estava muito vermelha e sensível. Tinham sido horas seguidas de fricção no corpo da amante, e ainda bem que ela estava depilada e macia, porque aquele tempo todo a roçá-lo com os pelos púbicos teria sido mais do que poderia aguentar.

Quando entrou na sala de roupão e chinelas, Mariana já estava vestida, com uma saia preta pelos tornozelos e uma blusa de seda branca. A mesa estava posta e da cozinha vinha um cheiro bom de café e torradas com manteiga.

– Senta-te. Vai bebendo o sumo, que eu já te trago o resto.

À porta da cozinha estavam umas chinelas.

– Vou calçar-me. A tijoleira da cozinha está muito fria. Posso?

– Sim, hoje podes, mas só na cozinha.

Um ruído de louça e talheres a remexer, um súbito aroma a ovos fritos a a bacon, e lá vinha Mariana com um cesto enorme de torradas.

– Vai comendo enquanto estão quentes.

Sentou-se em frente ao dono para beber o sumo de laranja e depois levantou-se, com uma torrada na mão para ir de novo à cozinha. Quando regressou trazia uma travessa de ovos mexidos com bacon e salsichas, e mais torradas. Pôs música a tocar no leitor de CD’s (a sonata de violino e piano «Primavera», de Beethoven), e sentou-se a comer. Por vezes dava-lhe na boca um pedacinho de torrada, ou ele a ela. Serviu muesli misturado com iogurte de cereja, que comeu com um apetite igual ao do amante. Por fim foi à cozinha buscar o café.

– Queres mais?

– Só se for mais café.

– Então vou buscá-lo quente, não bebas esse.

Ficaram mais de meia hora à mesa, a beber café, a pegar nas mãos um do outro e a conversar de coisas sem importância. Quando viram as horas era quase uma da tarde.

– Ai… Ainda vou ter que arrumar isto tudo…

– Eu ajudo-te.

– Não, vai-te vestir.

Ricardo vestiu as suas calças de bombazina cor de mel e uma camisa de flanela aos quadrados, com uma T-shirt por baixo. Não demorou muito a vestir-se e a calçar as peúgas: ainda teve tempo de arrumar a sala e o quarto e fazer a cama enquanto Mariana terminava de lavar a louça e limpar a cozinha.

De tarde foram passear em Brugges, ao longo dos canais. Pararam em frente ao edifício gótico da Câmara Municipal, viram as montras nas ruas centrais, fizeram algumas compras num supermercado. O Equinócio da Primavera já tinha passado, a hora tinha mudado, os dias estavam mais longos e estava sol, mas não se demoraram na rua: depois de lancharem numa confeitaria voltaram para o apartamento de Mariana, onde ficaram sentados a ouvir música e a conversar enquanto lhes apeteceu.

– Daqui a pouco vou fazer o jantar – disse Mariana, abraçando o amante e dando-lhe um beijo. – Queres tomar alguma coisa antes?

– Sim, meu amor. Tens um whisky?

– Já to vou dar. Deixa-te estar sentado.

Mas em vez de se dirigir para o armário das bebidas Mariana meteu-se no quarto, de onde emergiu uns minutos depois com um vestido que Ricardo não lhe conhecia: cintado, preso aos ombros por alças, com uma saia pelos tornozelos muito rodada, e todo às riscas verticais em vários tons de rosa. Na sua versão original devia ter um forro, mas era fácil de ver que Mariana o tinha tirado e que não trazia nada por baixo.

– Gostas do meu traje de escrava?

– Muito. Vestiste-o para me servires o whisky?

– O whisky e não só. Mas espera, primeiro vou-te calçar os chinelos.

Os chinelos de Ricardo estavam no armário da entrada. Mariana foi-os buscar, ajoelhou-se e descalçou o dono, beijando-lhe cada um dos pés depois de tirar a respectiva peúga e antes de lhe pôr o chinelo. Concluída esta tarefa pôs música no leitor de CD’s – Shepherd Moons, da cantora irlandesa Enya – trouxe um tabuleiro que enganchava no sofá, e sobre este pôs um naperon, um copo de cristal e um cinzeiro.

– Um cinzeiro? – admirou-se Ricardo

– Sim. Hoje vais fumar. E não discutas.

A seguir tirou duma gaveta um estojo de cabedal para dois charutos, uma caixa de fósforos e um aparelho de cortar as pontas, e pousou tudo no tabuleiro ao lado de Ricardo. O estojo continha dois Cohibas.

– Não tinhas mais em que gastar o teu dinheiro? – ralhou Ricardo.

Mariana riu-se, foi ao armário das bebidas, tirou uma garrafa de whisky por abrir e mostrou o rótulo ao amante

Cigar? – disse ele. – Não conhecia essa marca.

– Na loja disseram-me que era muito bom. E que era o ideal para acompanhar um bom havano.

Ricardo riu-se e preparou-se para abrir a garrafa, mas a amante deteve-o:

– Não. Tu não fazes nada. Eu sirvo.

Obediente, Ricardo recostou-se no sofá e ficou a contemplar com um olhar de ternura a sua escrava que se esforçava, ajoelhada, por abrir a garrafa. Depois de o ter conseguido deitou no copo dois dedos de whisky, cortou as pontas a um dos charutos, meteu-o na boca e acendeu-o, rolando-o entre os dedos como tinha visto o dono fazer. Ricardo viu-a sugar as bochechas para dentro para puxar o fumo, exactamente como fazia qundo lhe chupava o sexo, e com um brilho nos olhos acariciou-lhe o cabelo.

Levadas a bom termo todas estas tarefas Mariana sentou-se no chão aos pés de Ricardo e começou a contar-lhe todos os pormenores da sua mais recente exposição. De vez em quando levantava-se, animada, e ia buscar um quadro que se tinha esquecido de lhe mostar antes, ou fotografias de outros quadros, que lhe ia dispondo sobre os joelhos para ele ver. Entusiasmada, explicava-lhe as novas técnicas que tinha aprendido desde a última visita: as tintas, os betumes, os vernizes, as areias coloridas, as espátulas, os pincéis, as folhas e as bagas recolhidas no bosque e coladas na tela.

Ao esmorecer da conversa Ricardo inclinou-se para a frente, segurou-lhe o queixo e beijou-a ternamente nos lábios.

– Agora vou-te possuir, minha escrava.

– Sim…

Mariana num instante se pôs nua, o vestido saía pela cabeça e ela não trazia mais nada sobre o corpo.

– Deita-te aqui no sofá – disse Ricardo. Quando a viu deitada ajoelhou-se sobre o tapete, debruçou-se sobre ela e começou a cobri-la de beijos, começando nos ombros, subindo ao pescoço, aos olhos, às orelhas e à comissura dos lábios, e descendo aos seios. Por longos minutos não fex mais nada além de lhe lamber e chupar os mamilos enquanto lhe insinuava a mão entre as coxas. Mariana começou logo a abrir um pouco as pernas, ou melhor, as pernas abriam-se-lhe por si próprias, sem que ela sequer o notasse. Sem pressa nenhuma Ricardo foi descendo com os lábios ao longo do corpo dela, às vezes voltando para cima em direcção aos seios e ao pescoço, mas indo sempre um pouco mais abaixo de cada vez que descia. Meteu-lhe a língua no umbigo, beijou-lhe os flancos do sovaco à anca, explorando-lhe com a língua os espaços entre as costelas, e ao lamber-lhe o monte de Vénus depilado sentenciou:

– Sim, estás mesmo macia, com a língua é que se nota…

… e depois, cruelmente, começou de novo a subir-lhe pelo corpo acima.

Se a boca que Mariana tinha entre as pernas tivesse voz, teria gritado de frustração. Mas não por muito tempo, porque de repente Ricardo afastou-lhe as coxas com as mãos e beijou-lhe o sexo como se lhe beijasse a boca, para logo moderar este ímpeto e começar a procurar-lhe com os lábios e a língua todas as dobras e minúsculas refegas. A língua procurava, dardejante, o botão do amor, para logo o abandonar e tentar insinuar-se no interior da vagina ou para lamber todo o comprimento da vulva.

Quando começou a chupar-lhe o clítoris mais vigorosamente, como se o quisesse sugar e engolir, ouviu-a dizer:

– Meu senhor… Posso-me vir?…

Ricardo nunca tinha imposto a Mariana que pedisse autorização para ter orgasmo e agora ela própria, sem que ele entendesse bem porquê, inaugurava esta regra.

– Não, minha escrava, não podes.

Mas continuou a beijá-la até já não poder distinguir se os sons que ela fazia eram de prazer ou de sofrimento. Por fim, cansado, parou, e começou a percorrer com os lábios e a língua o caminho oposto ao que tinha feito antes até lhe chegar de novo à boca, que beijou, enleando a língua na dela apaixonadamente. Só então se levantou, devagar, mantendo a boca unida á dela e esperando até ao último segundo para a largar.

– Espera um pouco – disse, e dirigiu-se para o quarto.

Saiu de lá pouco depois, competemente nu, e trazia na mão uma fita vermelha que Mariana reconheceu imediatamente: era a prenda que ela lhe tinha dado por ocasião dum encontro anterior, também em Brugges.

– Dá cá as mãos.

Mariana estendeu-lhe as mãos com os pulsos cruzados. Ricardo atou-as rapidamente com uma ponta da fita, mandou-a esperar, foi ao trolley buscar a máquina fotográfica e começou a ordenar-lhe que assumisse poses: de joelhos, posternada, exibindo as marcas e as equimoses da vergasta, de pé, com os braços erguidos, mostrando os pulsos amarrados… Mariana acedia a tudo, obediente, meiga, apaixonada. Ricardo apercebeu-se nela dum estado de espírito invulgar: um dengue, uma excitação, um roçar-se por ele como que por acaso, uma intensidade, uma atenção ardente ao momento vivido…

– Não me deixaste ter orgasmo… Meu amor…

Isto disse Mariana a certa altura, baixando os olhos, num momento em acabava de se ajoelhar e mostrava à objectiva os pulsos atados. E Ricardo sentia nela, por baixo da mansidão e da obediência, o fogo larvar dum desejo que se satisfazia na insatisfação.

Quando acabou de a fotografar, não a desamarrou: mandou-a deitar de costas no tapete e amarrou a outra ponta da fita de seda ao cano do aquecimento, no ponto em que este saía do chão. Estendido sobre ela sem lhe fazer peso, voltou a beijá-la e começou a percorrer-lhe o corpo com as mãos numa carícia firme como se faz aos animais.

– Meu senhor…

– Diz.

– Vais possuir-me?

– Vou, sim, minha escrava.

– Queria pedir-te…

Ricardo apertou-lhe o seio esquerdo e chupou-lhe o mamilo antes de a encorajar a continuar:

– Querias pedir-me…

– Queria pedir-te que fosses meigo. Estou tão dorida de ontem…

Ricardo deu uma risada:

– Vou ser meigo, sim. Até porque eu também estou dorido, tenho tudo em carne viva…

Mariana já tinha as pernas abertas: Ricardo penetrou-a numa carícia longa e, sem chegar a ir até ao fundo, começou a mover dentro dela a ponta do pénis, beijando-a ao mesmo tempo profusamente nos lábios e nos seios. Com as mãos amarradas, Mariana não o conseguia abraçar, por isso o envolvia com as coxas, acariciando-lhe com os calcanhares a barriga das pernas e a parte de trás dos joelhos.

– E desta vez posso vir-me, meu senhor?

– Não, minha escrava, não podes. Ocupa-te só do meu prazer.

No gemido que Mariana soltou misturava-se um imenso lamento com um prazer novo, um prazer que ela não conhecia. Começou a mover as ancas e a tentar controlar os músculos da vagina de maneira a apertar e a chupar o sexo do amante, a dar-lhe o parzer que ele lhe exigia e ao qual tinha obviamente todo o direito, a erguer os seios de encontro ao peito dele para o acariciar brandamente, até que o sentiu acelerar os movimentos e ejacular dentro dela com um gemido que parecia, também ele, um lamento.

Admirou-se por não sentir frustração nem ressentimento por não ter gozado, mas sim uma enorme vontade de continuar a servir. «Serei na verdade assim tão fêmea e tão escrava?», pensou; e quando o dono rolou de cima dela para o chão começou a chegar-se para ele, a acariciá-lo com as pernas e com os pés, já que tinha as mãos amarradas. Todo o corpo dela era movimento, e todos os seus movimentos iam no sentido de se chegar ao dono, de o acariciar, de lhe suplicar um toque ou uma palavra. Lembrou-se de ter dito uma vez a Ricardo que ele a tinha «desligado»; pois bem, agora estava «ligada», com toda a sua energia de fêmea apaixonada a fluir-lhe no corpo e todos os sistemas a funcionar em alerta máximo.

– Desamarra-me, meu senhor…

Assim que Ricardo a desamarrou Mariana começou a fazer-lhe festas e beijá-lo por todo o corpo

– Estou tão louca… Não me deixaste ter orgasmo, e estou tão louca…

– É, estou intrigado com uma coisa… Porque é que me pediste autorização? Eu por mim era capaz de nunca me ter lembrado de to proibir– disse Ricardo..

– Não sei o que é que me deu. Disseste-me muitas vezes que uma escrava não tem direito ao prazer, se calhar foi por isso.

– Disse, e tu concordaste. Mas fizeste bem em lembrar-me … De hoje em diante tens que pedir sempre autorização.

Mariana revirou os olhos e fez uma careta, logo desmentida pela grinalda de beijos com que cobriu o peito do amante:

– Oh, não, o que é que eu fui dizer! – exclamou, numa aflição fingida. – O que pode uma pobre escrava fazer para servir o seu senhor, se ele até até a proíbe de se vir?

– Uma pobre escrava, não sei, mas se esta rica escrava que aqui está está assim tão empenhada em servir o seu senhor, pode muito bem ir para a cozinha, por exemplo, e fazer o jantar para ele, que está cheio de fome…

Mariana, a rir-se, começou a bater com os seus pequenos punhos no peito de Ricardo

– Cafajeste… sem vergonha… Escravidão é escravidão, não é?!

– Pois é… – disse Ricardo.

E quando viu Mariana levantar-se quase de um salto, vestir o roupão, entregar-lhe o dele e dirigir-se à cozinha, acrescentou:

– E descalça, se fazes favor. Não quero cá essa história de tijoleira fria, como de manhã. Lugar de fêmea é descalça na cozinha.

Mariana deteve-se o tempo suficiente para lhe deitar a língua de fora, mas afastou com o pé as chinelas que estavam no chão à saída da sala.

De dentro da cozinha levantou a voz:

– Tenho aqui Quiche Lorraine, é só pôr no micro-ondas. Queres?

– Pode ser, gosto bem de quiche. E o vinho de ontem ainda deve estar bom, era uma pena deitar fora uma garrafa quase inteira.

Ao pôr a mesa, ao servir o jantar, durante a refeição, Mariana continuou a exibir o comportamento que tanto intrigava e encantava Ricardo. A todas as oportunidades havia um seio a roçar um braço, ou então apenas um sorriso, um suspiro, um baixar de olhos, um rubor…

– Anda cá, escrava.

– Para quê?

– Anda cá. Levanta a saia.

Quando Mariana chegou junto dele Ricardo introduziu-lhe a mão entre as coxas.

– Estás toda molhada…

– Pois estou… Não me deixaste vir, patife…

– Não estás bem?

– Estou bem, estás farto de saber que estou mesmo muito bem… Não sei como é que isto me pode dar tanto prazer… Mas se daqui a pouco eu entrar em combustão espontânea, já sabes porque foi. Nunca te devia ter pedido autorização.

– É… Pela boca morre o peixe… Mas não te preocupes: amanhã não vai acontecer o mesmo porque vais ter castigo em vez de sexo.

– Está bem… Podes castigar-me, mas também quero sexo.

– Também, o quê?

– Eu sei, não tenho quereres. Vou dizer doutra maneira: também gostava que o meu senhor possuísse a sua escrava. Está bem assim?

– Melhor. Mas ao castigar-te também estou a possuir-te, não te esqueças. Em todo o caso, o castigo amanhã é por ser o nosso último dia. Quero deixar-te marcas que durem até ao próximo encontro.

– Sim, meu querido, também quero ficar marcada. Mas para as marcas nunca desaparecerem o melhor era eu fazer uma tatuagem…

– E hás-de fazê-la, com as minhas iniciais.

Antes de responder, Mariana bebeu um gole de vinho.

– Hmmm, isso deixa-me louca… Louca para ser possuída outra vez pelo meu senhor…

– Primeiro vamos acabar de jantar. E desconfio que mesmo depois disso vais ter um bocado de trabalho para me provocar outra erecção.

O jantar foi rápido, e Mariana arrumou a cozinha num instante. Quando regressou à sala encontrou Ricardo sentado no sofá. Sem hesitação nem preliminares ajoelhou-se no tapete à frente dele, afastou-lhe para os lados as abas do robe e tomou-lhe o sexo na boca. Assim que sentiu bem rijo, atirou o roupão para cima do sofá deitou-se de costas no tapete:

– Anda…

Entre o momento em que saiu da boca da amante e o momento em que se colocou entre as coxas dela em posição de a penetrar, Ricardo quase perdeu a erecção: Mariana teve que o chupar de novo para que ele finalmente lhe penetrasse a vagina – com o pénis um pouco flácido, mas que uma vez dentro dela recuperou a rigidez dos embates anteriores. Estavam ambos bastante doridos, mas mesmo assim Ricardo possuiu Mariana sem hesitação ou demora, indo e vindo nela até que a viu ficar vermelha: primeiro a cara e depois o pescoço, o peito e os seios. Viu-a abrir a boca como se fosse gritar, ouviu-lhe a rápida e forte inalação de ar, cavalgou-lhe o frenesim urgente dos quadris e finalmente assistiu, empolgado, ao gozo da sua escrava: um orgasmo sumptuoso, uma convulsão sísmica que lhe soltou todas as energias acumuladas no corpo e na alma desde que ele a tinha mandado deitar no sofá duas horas antes.

O dia seguinte amanheceu com bom tempo. Algumas nuvens, poucas, juntavam-se ocasionalmente e faziam chover umas raras gotas de água. Ricardo e Mariana foram passear para junto do canal e dos moinhos de vento: ele de calças castanhas com vinco, pullover cor de mel, casaco de cabedal castanho escuro e chapéu de feltro, ela de saia comprida, blusa de seda e casaquinho vermelho. Almoçaram num pavilhão com vista para o canal, conversando sobre o fim de semana que projectavam passar em Paris quando o tempo estivesse um pouco mais quente.

Lá fora a relva estava húmida e muito verde.

– Apetecia-me descalçar-me e correr nesta relva – disse Mariana.

– E a mim apetecia-me mandar-te descalçar.

– Mas não posso, estou de collants e não posso tirá-los diante de toda a gente.

– De collants?! Na presença do teu dono?! Vais mas é já ao quarto de banho para os tirar, e de castigo não voltas a calçar-te hoje.

Mariana ainda alegou o frio, o incómodo, as pessoas à volta; mas acabou por obedecer, um pouco embaraçada no princípio, mas pouco tempo depois corria o jardim descalça com a singeleza impudente duma criança à solta. Ricardo não voltou a permitir-lhe que se calçasse nem no jardim, nem no caminho de casa. E se no jardim o espectáculo duma senhora bem vestida mas de pés nus pareceu banal a quem o viu, o mesmo não se passou percurso que mais tarde fizeram de braço dado nas ruas cheias de gente. Mas o garbo altivo de Ricardo desarmava os olhares e, comunicando-se a Mariana, convertia-lhe o pejo em euforia.

Jantaram pelo caminho. Quando entrou em casa Mariana levava os pés gelados. Mas antes de ir tomar um duche quente ainda se apresentou diante de Ricardo com uma bacia de água quente para lhe lavar os pés cansados, lhe calçar os chinelos, lhe servir uma bebida e lhe acender um charuto.

Depois de tomar duche não se vestiu, envolveu-se em véus transparentes e dançou para ele, tirando-os um a um.

Ricardo assistia beberricando o seu whisky e puxando uma fumaça ocasional. Só os olhos a rir denotavam a atenção com que seguia todos os movimentos da sua amada.

– Vem cá.

– Sim, mas ainda me deves um castigo – disse Mariana.

E Ricardo viu que sem ele notar ela tinha ido ao quarto buscar a vergasta vermelha e lha tinha posto ao alcance da mão.

(Publicado no Blogger a 20/09/06)

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Mariana estava à espera do amante em Bruxelas, na estação de caminhos-de-ferro. Depois de alguns minutos viu-o surgir-lhe apressado de entre os outros passageiros. Vinha embrulhado numa grande gabardina mal abotoada, batida por um vento que parecia soprar só sobre ele; e Mariana lembrou-se que sempre tinha sido assim, que em havendo vento o cabelo dele era o que mais depressa se despenteava, as suas roupas as que mais esvoaçavam, o seu guarda-chuva o que mais dificilmente se segurava aberto.

Assim que Victor a viu, pousou a maleta, tomou-a nos braços e beijou-a longamente na boca.

– Hmmm, – fez Mariana, e procurou enroscar-se nele tanto quanto as grossas roupas de Inverno o permitiam.

Quando pararam para respirar, Mariana sorriu para Victor:

– Meu querido… Que bom…

– Este foi um beijo de namorado, – respondeu ele. – Agora vou dar-te um beijo de dono.

E assim fez. Quem estivesse a olhar para eles não notaria a diferença, mas eles notavam, ou pensavam que notavam. Era um jogo que tinham inventado meses antes, e agora “um beijo de namorado”, “um beijo de dono”, “um beijo de escrava” eram parte do seu vocabulário amoroso.

Para Mariana era uma deliciosa embriaguês poder beijar Victor assim em público, no anonimato de uma cidade distante, como nunca o tinha podido fazer em Lisboa. No mesmo dia em que tinham inventado este jogo, Mariana tinha dito a Victor que gostaria que um dia ele se lhe derramasse sobre o corpo, em vez de dentro dela, para ela ver.

– Nunca viste?

Mariana corara:

– De frente, não…

Ele sorrira-lhe um sorriso de assentimento; depois tinha-a beijado ainda mais profusamente do que de costume.

– Presta atenção, Mariana. Este beijo foi um beijo de namorado, ou de dono?

– De namorado…

– Não, foi de dono. De namorado é assim:

E dava-lhe um novo beijo, em nada diferente do anterior:

– Já percebeste?

Mariana ria e entrava no jogo:

– Acho que sim… Agora dá-me outro de dono, para eu ter a certeza.

– Sim… Mas a seguir dás-me tu um de escrava.

Mariana rira e obedecera, mas misturada no riso ia alguma tristeza, porque este jogo lhe lembrava que todos os beijos que dava a Victor eram de escrava. Uns dias depois, numa carta, lançara o desafio para um novo jogo: “Também eu sou capaz de te dar beijos de dona.”

– Veremos. – Respondera Victor ao telefone.

Agora que estava de novo nos seus braços, embrulhados os dois em várias camadas de roupa de Inverno, entregava-se de novo toda nos beijos que dava a Victor. E talvez fosse esta a resposta dele ao desafio: um longo beijo, terno mas firme, carregado de desejo; outorgado sem vergonha nem hesitação mas com uma ténue ponta de reserva, como que a dizer-lhe que o melhor estava para vir. Um beijo, ainda, de namorado.

– Agora beija-me tu, – disse Victor no fim.

Mariana obedeceu com toda a ternura de que era capaz naquele momento, mas uma pequena gargalhada de felicidade e malícia brincava-lhe no fundo do peito. Era a hora de saída dos empregos; à volta deles uma multidão apressada dividia-se como uma torrente à volta duma rocha, atenta apenas aos horários e aos relógios.

– E agora um beijo de dona. Daqueles que também tu és capaz de dar.

Como descrever a paixão que Mariana pôs neste beijo? Sabia que estava a ser testada: com um pequeno soluço de sofreguidão colou-se toda a Victor, tentando fazê-lo seu, sorvê-lo todo, incorporá-lo todo e para sempre dentro de si.

– Ui, – disse ele por fim. – Se fosse há vinte anos, um beijo assim, e os nossos pais obrigavam-nos a casar. Mas não foi um beijo de dona, foi um beijo de escrava.

E para mostrar a diferença deu-lhe ele um beijo de dono, este sim, fundo, insolente, impiedoso, como ela nunca seria capaz de lhe dar.

Era verdade: o beijo dela tinha sido de escrava. Mas que arrogância a dele em dizê-lo! Não interessa: Mariana estava feliz. Abraçou-se a Victor ainda mais estreitamente, o corpo todo contra o dele, seios, tórax, ventre, sentindo-lhe a erecção mesmo por baixo das roupas grossas; e que lhe importava a ela que os seus beijos fossem de dona, de namorada ou de escrava, desde que nunca mais terminassem?

Foram para Brugges no pequeno automóvel utilitário que ela tinha comprado para as suas deslocações na Bélgica. Contrariamente ao que era hábito, Mariana pediu a Victor que conduzisse. Antes de sentar ao lado dele tirou o casacão comprido e estendeu-o no banco de trás; e depois de saírem da cidade subiu a saia, abrindo ligeiramente as pernas num convite a que ele a acariciasse. Victor depressa verificou que ela não trazia calcinhas. Nem soutien, de resto, como era evidente pelo cair do pullover.

– Vês como te obedeço? – Disse-lhe Mariana.

– Vejo como me serves, meu amor.

Victor não se importava, antes pelo contrário, que Mariana tivesse mais prazer em servi-lo do que em obedecer-lhe; e não era necessário dizer que a vontade de servir implicaria sempre um dever de obediência.

– Levanta a camisola, – ordenou; e quando ela lhe fez a vontade pôs-lhe a mão por dentro da roupa e tomou-lhe um mamilo entre os dedos.

Assim a foi acariciando, alternando os toques no corpo dela com os gestos necessários à condução. Quando a largava era para lhe falar numa voz velada do que tinha sido o seu dia a dia durante o tempo em que tinham estado separados. Mas a conversa acabava sempre por recair no que fariam um ao outro quando chegassem a casa; e quando se davam conta de que tinham voltado a este assunto riam-se da impaciência que os consumia, tão pouco própria da sua idade e do seu conhecimento do mundo.

No átrio de entrada do seu apartamento, a primeira coisa que Mariana fez foi tirar os sapatos e as meias. Descalçar-se logo que entrava em casa com o dono era para ela já um gesto automático, e fazia-o sempre sem hesitar e sem esperar que lhe fosse ordenado; mas nunca sem se lembrar daquele dia no Algarve: De agora em diante, será para ti impensável – uma falta de respeito – ficares calçada quando estiveres sozinha comigo.

Depois de tirarem os casacos, e do primeiro beijo dentro de casa; e depois de ela se lhe ter ajoelhado aos pés, e de ele a ter erguido para a beijar de novo na boca – a primeira ordem de Victor a Mariana foi que vestisse uma saia rodada.

– E põe o aquecimento mais forte.

Pôr uma saia rodada sim, pensou Mariana. Mas por agora ainda não. Não estaria Victor cansado da viagem? Não quereria tomar nada?

– Quero-te a ti, e sem demora, – respondeu ele. – Oh, e um copo de água, pode ser da torneira; mas isso pode esperar até estares apresentável para mo servires.

Mariana sentiu que a excitação que lhe tinha vindo a crescer durante a viagem diminuía um pouco; ou melhor, que era substituída por uma excitação diferente, mais cerebral, e temperada por uma ténue ansiedade. Decidida ainda a não obedecer depressa demais, aproximou-se de Victor e abraçou-o:

– Sim, meu querido. Já vou mudar de roupa. Senta-te. Podes pôr música se quiseres.

Victor apertou-a nos braços e olhou-a fundamente nos olhos, sorrindo-lhe um sorriso cúmplice. Sem demasiada pressa de ser obedecido, começou a beijá-la nos olhos, na face, nas comissuras dos lábios. Mariana nunca tinha tido um amante que a beijasse tanto, nem que se satisfizesse tanto com beijá-la. E embora em relações anteriores não fosse dada a exageros neste tipo de manifestação amorosa, acolhia agora com avidez os beijos de Victor. Os beijos à volta da boca começaram a parecer-lhe uma tortura de Tântalo: porque não a beijava ele a sério, boca contra boca, língua contra língua? Tentou fazer-lho ela a ele, mas ele, mais alto e mais livre de movimentos, esquivou-se sem dificuldade. E sorria-lhe com os olhos, impudente, cruel.

Por fim, quando Mariana se sentia prestes a gritar de frustração, sentiu-o descer sobre ela como um predador sobre a presa, os lábios esmagando os dela, a língua abrindo-lhe a boca e invadindo-a sem pedir licença, apaixonadamente, longamente. Um beijo de dono.

– Agora vai, minha escrava. Vai fazer o que eu te mandei.

Antes de a largar levantou-lhe ainda a saia. Por um segundo acariciou-lhe as nádegas nuas; e por fim Mariana, corada, sem fôlego, dirigiu-se ao quarto com o seu passo rápido de mulher pequena. Despiu-se rapidamente, lavou-se no quarto de banho, penteou-se, e pôs uma saia preta de algodão até aos pés, muito rodada. Por baixo vestiu as calcinhas e o soutien que tinha escolhido antes de sair de casa, duas peças minúsculas em renda preta. As calcinhas agradavam-lhe especialmente por terem a cinta alta e serem decotadas sobre a anca, de modo que lhe alongavam as pernas.

Hesitou em pôr uma blusa transparente, mas decidiu escolher uma que fosse opaca: queria que o soutien fosse uma surpresa para o amante.

Foi assim vestida que entrou na sala. Victor estava sentado no sofá.

– Anda cá, – chamou-a.

Mariana curvou-se para o beijar na boca e quando ele lhe puxou pela mão sentou-se ao lado dele. A casa estava a aquecer rapidamente, e nem mesmo Mariana, friorenta como era, sentia qualquer desconforto em encontrar-se vestida com roupas de Verão e descalça sobre os ladrilhos da sala. E de resto tudo na sala era agora aconchego, as luzes veladas, as persianas corridas para baixo, o tapete felpudo diante do sofá.

Dieu, qu’on est bien, cantava Brel no leitor de CD’s.

– Tens fome? – perguntou Mariana.

Victor não tinha fome, mas ela sim.

– Estou cheia de preguiça, – disse-lhe, dengosa. – Posso pedir-te uma coisa, meu amor?

Victor riu-se e disse que sim.

– Podias trazer-me um iogurte. Mas quero que mo dês na boquinha.

Na cozinha Victor tirou um iogurte do frigorífico, abriu-o e misturou-lhe uma colher de mel, como sabia que Mariana gostava. A brancura opaca do iogurte misturou-se com a transparência acastanhada do mel para dar um creme esbranquiçado e translúcido. Depois, sentado no sofá ao lado dela, começou a dar-lho às colheres, dizendo-lhe como se diz às crianças:

– Come, come tudo, vamos lá; agora é um Porsche a entrar na tua garagem; e agora é um comboio a entrar na estação: vem de Heidelberg, e eu venho nele. Agora… agora é o meu sexo a entrar na boquinha do teu corpo.

–Mmmm! – Dizia Mariana. – Que bom!

E quando ele terminou sentou-se-lhe ao colo, de frente para ele, com a saia levantada e as pernas escanchadas de modo a sentir-lhe a excitação. Sob os joelhos sentia a cobertura do sofá, macia mas enrugada, e entre as coxas as calças grossas que Victor tinha vestidas. Quanto a ele, meio preso entre ela e as costas do sofá, tinha a liberdade de movimentos apenas suficiente para lhe passar as mãos pelo corpo, acariciando-lhe as costas e a nuca e descendo-lhe pelos flancos até aos quadris. A carícia tão depressa era leve como firme; mas nunca tão vigorosa e impaciente como a que ela lhe fazia a ele por sobre a roupa, com o sexo todo, girando as ancas num movimento redondo e largo.

– Sim, meu amor, – ouviu-o dizer. – Dança para mim.

Victor tinha-lhe posto as mãos por baixo da saia e acariciava-lhe as barrigas das pernas, as solas dos pés. Mariana esfregou-se sobre a erecção do amante, numa vigorosa dança do ventre, até que lhe sentiu as mãos por baixo da blusa: era altura de se despir, a blusa e a saia antes do soutien e das calcinhas. Mas antes disso queria despi-lo a ele.

Para lhe desabotoar a camisa não precisava de sair da posição em que estava; mas quando quis tirar-lhe os sapatos e as calças teve de se sentar ao lado dele no sofá. Preparava-se para lhe pegar numa perna e atravessá-la sobre os joelhos de modo a poder descalçá-lo quando outra ordem a deteve:

– Assim não. De joelhos dá-te mais jeito.

Mariana sorriu. Tinha sido apanhada a fazer batota e foi com uma pequena risada que se ajoelhou aos pés do amante, que lhe retribuiu com um sorriso. Victor trazia umas botas forradas, com solas de borracha, próprias para a chuva e para a neve. As peúgas eram grossas, de lã, tão apertadas que custaram um pouco a sair. Depois de o descalçar Mariana pegou-lhe num dos pés e ergueu-o até aos lábios para lho beijar.

– Sim, meu amor, – disse Victor; mas quando ela ia fazer o mesmo ao outro pé ele fez força para baixo e não deixou.

– Vou-te ensinar uma coisa, minha escrava.

– O quê? – murmurou Mariana indistintamente, a boca colada aos pés dele.

Mas Victor entendeu-a:

– Isto: de futuro, quando me beijares os pés, não mos levantes do chão; baixa-te tu até eles.

Mariana riu-se:

– Está bem.

Não era uma mulher humilde, como já tinha feito notar ao amante; pelo contrário, era orgulhosa; mas uma boa parte desse orgulho, punha-o em ser uma escrava perfeita, como também lhe tinha dito. Inclinando-se até ao chão beijou-lhe os pés, terna e aplicadamente; depois ergueu-se sobre os joelhos e puxou-lhe as calças para baixo. As cuecas eram uns calções de popeline às riscas, abertos à frente e sem botões. O melhor era deixar-lhas vestidas: entrever-lhe o sexo semi-erecto a espreitar de entre as sombras do púbis era mais excitante do que tê-lo já, todo nu e exposto, à sua frente.

Foi com algum divertimento que notou o gesto discreto com que ele procurou tapar-se. Por pudor? Talvez; mas Victor nunca fora especialmente dado a esta virtude, pelo menos na presença dela. Ou por vontade de vê-la nua primeiro?

A ordem que se seguiu confirmou a segunda hipótese:

– Agora despe-te tu, minha escrava. Toda nua. Mas primeiro serve-me o copo de água que te pedi.

Na cozinha Mariana aproveitou para ajeitar as roupas descompostas. Os ladrilhos brancos estavam frios, mas não tanto que os não pudesse suportar. Vestida para o servir, trouxe-lhe a água, que ele bebeu de um trago. Depois de lhe tirar da mão o copo vazio começou a despir a blusa, de pé à frente dele, atenta a que ele lhe visse bem o soutien: as rendas, as transparências, os brilhos acetinados, a florzinha vermelha bordada entre as copas. Victor sorriu-lhe, agradado:

– Ah, puseste um soutien. E preto, ainda por cima. Mas acho que gosto mais do que tinhas posto quando tomei posse de ti: aquele cinzento com as florzinhas cor-de-rosa.

Mariana também achava que o outro soutien era mais bonito do que este; mas as calcinhas deste conjunto ficavam-lhe melhor.

– Não concordas?

Victor continuou a olhá-la atentamente enquanto ela tirava a saia. E com efeito: à minúscula flor vermelha no soutien, entre os seios de Mariana, respondia outra, ligeiramente maior, nas cuecas, no ponto exacto em que as rendas transparentes deixavam ver o início dos pelos púbicos; e tudo em harmonia com os cabelos negros, as sobrancelhas carregadas, os olhos brilhantes de Mariana.

Assim ficaram os dois, aparentemente esquecidos de que tinham começado a despir-se para fazer amor. Sentada aos pés do dono Mariana conversava e ria; de vez em quando levantava-se cheia de vivacidade para lhe mostrar uma fotografia ou um quadro, para pôr outro CD no leitor, ou simplesmente para o beijar na boca.

O sofá era fundo, o tapete macio, o aquecimento eficaz. Dois candeeiros, dispostos em diagonal em cantos opostos da sala, davam uma meia-luz velada e quente. A excitação de Mariana e Victor não era menos intensa agora do que quando tinham começado; mas tinha perdido toda a urgência, e era agora algo para ser gozado lentamente mais do que imediatamente resolvido. Victor acariciava a face e os cabelos da amante, encantado com ela e tonto de felicidade.

– Anda cá, – disse-lhe por fim.

Mariana foi-se-lhe sentar de novo ao colo: desta vez atravessada sobre os joelhos dele, virando-se de modo a que ele não tivesse que lhe desapertar o soutien às cegas. Com a mão esquerda Victor procurou-lhe o sexo: as calcinhas eram tão exíguas que não foi preciso tirar-lhas, e bastou afastar-lhe para o lado a tira de tecido entre as pernas para lhe poder acariciar o sexo nu.

Mariana, por sua vez, procurou com a sua pequena mão quase de criança o sexo do dono e acariciou-lho devagar, como ele gostava. Sentiu-o macio e confortável sob os dedos, quente do sangue que o enchia; e rijo como não tinha deixado de estar desde que se tinham beijado na estação, mas a essa rigidez não correspondia o vigor de movimentos e de gestos com que tinha entrado em casa dela pouco antes. Perscrutou-lhe o rosto: viu-lhe os olhos a começarem a raiar-se de vermelho, as olheiras a despontar.

– Estás cansado, meu querido? Da viagem?

– Um pouco. E o dia também não foi muito bom. Mas isto passa: agora estou contigo.

– Espera um pouco. Vou-te fazer um chá e vamos conversar.

Enquanto Victor tomava o chá preto que Mariana tinha preparado ao gosto dele – muito forte e sem açúcar nem leite – foram conversando sobre as suas vidas quotidianas, os filhos, os afazeres profissionais, os colegas, os problemas, os projectos. Durante o tempo que esta conversa durou, Mariana não parou de acariciar ao de leve o sexo de Victor, sentindo-o ficar alternadamente mais duro ou um pouco mais flácido conforme a atenção se lhe ia focando mais na carícia ou na conversa. Enquanto Mariana preparava o chá e uns biscoitos para o acompanhar, Victor tinha posto o seu robe de cetim vermelho escuro, mas ela tinha-se deixado ficar nua.

Victor bebeu várias chávenas de chá – chávenas de chá, nem menos de três, nem mais de trinta, costumava dizer a mãe de Marta – mas quase não tocou nos biscoitos. Mariana sabia que esta falta de apetite era nele sinal de cansaço, e depois de ele lhe entregar a chávena ordenou-lhe:

– Agora vais tirar o robe, tomar um duche e deitar-te no sofá, para a tua escrava te dar uma massagem.

Quando Victor começou o duche, Mariana juntou-se a ele:

– Deixa-me lavar-te.

Victor fechou os olhos, suspirou de contentamento e entregou-se nas mãos da amante, que o ensaboou e enxaguou três vezes da cabeça aos pés sem lhe descurar nenhuma prega do corpo. De cada vez, depois de o enxaguar, Mariana ajoelhava-se diante dele e tomava-lhe o sexo na boca enquanto ele, de olhos fechados, ia relaxando o corpo e murmurava:

– Sim, minha querida… Meu amor… Minha escrava…

No fim secou-o com uma grande toalha felpuda que tinha posto previamente a aquecer no radiador: não com os movimentos vigorosos com que ele se esfregaria se fosse ele próprio a secar-se, mas com o cuidado e com a ternura com que se seca um bebé depois do banho.

– Agora vai deitar-te no sofá, de barriga para baixo.

De regresso à sala, Victor viu que Mariana tinha posto outro toalhão sobre o sofá. Deitou-se de bruços em cima dela e esperou com os olhos fechados, a cabeça apoiada sobre o antebraço, que Mariana pegasse no frasco de óleo para para bebé que utilizava para o massajar. Sentiu Mariana ajoelhar-se no sofá com uma perna de cada lado do corpo dele: o sexo dela sobre a sua pele era uma carícia complexa que combinava a macieza das mucosas húmidas com a relativa aspereza dos pelos púbicos. Também o calor do corpo feminino contrastava com a frescura do óleo quando ela lhe derramou sobre os ombros uma pequena porção. Depois as mãos dela, pequeninas, quase infantis, ternas, mas fortes e firmes a procurar-lhe os nódulos de tensão nos músculos do pescoço e dos ombros.

Victor soltou um suspiro de prazer e abandonou-se às mãos de Mariana.

A seguir foram os braços, músculo a músculo, e as mãos, dedo a dedo, desfazendo pacientemente tensões; e à medida que a amante lhe massajava cada membro, Victor sentia que essa parte do corpo lhe ficava como que mais pesada, abandonada à força da gravidade que a puxava de encontro à superfície mole mas firme do sofá.

As costas foram exploradas vértebra a vértebra, numa carícia que por vezes o magoava um pouco, e só por via dessa ligeira dor é que Victor não era vencido pela sonolência que o tomava. Mariana moveu o corpo em direcção dos pés de Victor de maneira a deixar-lhe as nádegas livres para as massajar, mas antes de começar esta fase inclinou-se sobre ele e passou-lhe pelas costas, repetidamente, os bicos dos seios ao mesmo tempo que lhe dava pequenos beijos nos ombros e na nuca, numa carícia tão leve como o bater de asas duma borboleta.

As nádegas foram trabalhadas primeiro com movimentos circulares, depois amassadas como que a fazer pão, e por fim repetidamente percorridas com um longo e vigoroso deslizar de ambas as mãos, do alto das coxas até aos rins, que não foram poupados a uma série de pancadas dadas com as arestas das mãos como golpes de karate.

Para tratar das pernas do amante Mariana teve que o cavalgar de novo, sentando-se sobre as nádegas dele, mas desta vez virada para os pés. Victor tinha as coxas e as pernas duras, musculadas e muito tensas. Foi necessário que ela as acariciasse, que as beliscasse músculo a músculo, as amassasse e por fim lhes batesse com os punhos fechados, com toda a força, numa rápida chuva de golpes entremeados de beijos e carícias.

– Estás a gostar?

– Sim… É bom…

– Estavas tão tenso… Estás a ficar melhor?

Victor sentia-se flutuar. Às solas dos pés, dedicou-lhes Mariana quase tanto tempo como tinha dedicado a tudo o resto, insinuando os dedos finos por todas as reentrâncias e relevos

Mas vem sempre um momento em que as lentidões mais lânguidas e aconchegadas dão lugar a frenéticas urgências: os beijos que os amantes trocavam agora, cada vez mais ávidos, deixavam para trás as outras carícias, que se mantinham suaves e lentas; e finalmente Mariana sentiu que não podia esperar mais. Tentou mudar de posição, acabar de despir o amante e sentar-se-lhe ao colo com as coxas abertas, de modo a empalar-se nele; mas ele, com sábia crueldade, prendeu-a pela cintura, obrigou-a a manter-se na posição em que estava e continuou a acariciar-lhe o sexo. Mariana não queria esta carícia cheia de delongas: não queria este prazer vazio, este orgasmo que se aproximava sem que ela o pudesse evitar ou retribuir. O clímax, quando lhe veio, veio-lhe entre risos e lágrimas. Durante todo o tempo que lhe durou, e depois durante o refluxo, Victor apertou-a nos braços, cobrindo-a de beijos, consolando-a.

Mariana sentia-lhe a erecção contra a coxa e começou a roçar-se meigamente contra ele.

– Sim, meu amor, – disse-lhe Victor quando a viu de novo sorridente. – Quero vir-me assim, contra o teu corpo. Como me convidaste a fazer no outro dia, lembras-te?

E mais tarde, enquanto ela, toda aninhada nele, o beijava ternamente, segredou-lhe ao ouvido:

– Vou possuir-te agora entre os seios. Dás-mos, meu amor? Dás-me os teus seios?

Dava; certamente que dava. Pois não se tinha dado já toda, de corpo e alma?

A uma ordem dele tirou as calcinhas e deitou-se de costas no tapete, em frente do sofá. Mariana considerava-se uma mulher com experiência e mundo, e era-o de facto, mas nunca tinha visto o esperma a jorrar dum pénis. O contentamento que sentia vinha da oportunidade de ver com os olhos um fenómeno que até aí só tinha conhecido por senti-lo dentro do corpo. E vinha também de poder servir o amante sem reservas, de sentir que ele se lhe entregava todo, finalmente. Seguiu-o com os olhos enquanto ele se dirigia, com os shorts ainda vestidos, à mala que tinha trazido e voltava para junto dela com uma pequena lata de vaselina na mão. Para não lhes doer, disse ele.

– Mas isto não dói, – disse Mariana.

– A ti, não, mas pode-me doer a mim.

Mariana nunca tinha tido na cama um homem tão delicado de pele. Parecia uma mulher ou uma criança, e das mais mimosas. Viu-o tirar da lata, com as pontas dos dedos, uma porção de vaselina e sentiu uma ténue impressão de frio quando ele começou a espalhar-lha nas faces interiores dos seios. Depois sentiu-se requebrar sob as mãos quentes que lhe deslizavam, lúbricas, por todo o peito. Quando ele se lhe deitou por cima apertou os seios com as mãos, tentando criar para ele um canal tão fácil como o de que ele se servia habitualmente, mas mais apertado se possível.

Levantando a cabeça podia ver em primeiro plano a glande rosada que lhe avançava em direcção à cara e se lhe recolhia de novo entre os seios, num vaivém cada vez mais rápido. Vista assim de perto a abertura na ponta parecia tão larga como uma mangueira de jardim, e Mariana fantasiou toda uma torrente que jorrando dela a havia de avassalar. Para assistir mais confortavelmente a esta erupção estendeu o braço para o sofá e pegou numa almofada, que pôs por baixo da nuca.

Victor levou largos minutos a atingir o orgasmo. Mariana sentiu-o antes de o ver, um jacto cremoso e quente que lhe atingia o peito e o pescoço, e depois, expandida a maior força, um fluido branco que se derramava em borbotos cada vez mais débeis. Logo que o amante parou de se mover Mariana limpou-se com um lenço de papel.

– Não porque os teus fluidos me incomodem, meu senhor; pelo contrário. Mas não vale a pena sujar o tapete. Não te importas?

– Não me importo que te limpes com o lenço, mas a mim quero que me limpes com a tua boca.

Mariana riu-se. Depois de se limpar inclinou-se sobre Victor e começou a lamber-lhe e a chupar-lhe o sexo, delicadamente. Mas não deixou por isso de o lavar como era seu costume depois de fazerem amor – quando o sentia preguiçoso demais para tomar duche – com um toalhete perfumado e água morna.

Com isto começaram uma conversa longa, lânguida e bastante tonta sobre os cheiros e os sabores do sexo.

– A que sabe então o meu esperma?

– Hmmm… Deixa ver… A pêssegos. E a minha cona?

– A caviar.

– Não vale, essa tiraste-a da Dona Flor!

– Então sabe a bacalhau.

– Estúpido! Diz-me a que é que sabe a minha cona, ou então começo a fazer-te cócegas até te obrigar a pedir misericórdia!

– Está bem, agora a sério. A tua cona… A tua coninha querida… sabe à água da chuva, durante uma tempestade de Verão, a escorrer-me pela cara.

E esta conversa conduziu-os, em devido tempo, a um renovar do desejo; e este desejo levou a que de novo fizessem amor; mas o amor que fizeram dessa vez pertence a outra história.

Debaixo deles o espesso tapete beige titilava-lhes os corpos. À volta, se estendessem a mão, sentiriam o ladrilho que revestia o chão; e no calor da sala a frescura deste toque era um conforto. O sofá onde tinham estado antes era cor de tabaco, e erguia-se-lhes diante dos olhos como uma montanha. Nas paredes brancas, os quadros de Mariana: nus femininos, alguns auto-retratos, naturezas mortas, pintadas com cores fortes e pinceladas vigorosas.

E um retrato a óleo de Victor numa cervejaria famosa de Bruxelas, sentado a uma mesa de madeira cor de mel. No retrato aparecia ligeiramente corado, vestido com uma T-shirt preta: a única indicação de que era Inverno lá fora era o grosso sobretudo pendurado num canto, juntamente com as luvas, o cachecol e o boné de tweed. Sobre a mesa um cinzeiro de latão vazio, um candeeiro Tiffany aceso, uma base de copos em cartão e o amarelo cádmio duma caneca de cerveja. Uma gota de líquido escorrera para a mesa.

Via-se que tinha acabado de pousar a caneca, e que estaria talvez a cumprimentar alguém que tivesse acabado de chegar. O olhar com que olhava para fora do quadro tinha a mistura de ironia e ternura que lhe era peculiar. O cabelo era uma melena romântica, revolta e comprida. Os lábios estavam húmidos da cerveja; e por baixo do nariz tinha uma réstia de espuma, branca e translúcida, da cor do esperma que Mariana lhe tinha visto sair aos borbotos do sexo entumescido.

(Publicado no Blogger a 20/08/06)

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– Terias que ser minha escrava – disse ele.

Dúnia não hesitou:

– Sempre fui tua escrava…

No outro extremo da ligação telefónica fez-se um longo silêncio. Por fim ouviu-se a voz dele, mais grave, e com um laivo de ternura (ou seria respeito?) que Dúnia nunca lhe tinha ouvido antes:

– Dás-te conta do que estás a dizer? Sabes o que implica ser escrava de um homem como eu?

Tudo o que Dúnia sabia era que o adorava como a um Deus, que já tinha sofrido muito por ele e que estava disposta a sofrer muito mais, contanto que ele nunca a deixasse: não era isso ser escrava? Mas reuniu forças para responder:

– Não sei… Mas não me importo, faz de mim o que quiseres.

Então ele explicou-lhe: era ele ter todos os direitos sobre ela e ela nenhuns sobre ele – nem sequer sobre si própria; era estar sempre disponível para ele, com todas as aberturas do seu corpo; era contentar-se com qualquer migalha de amor que ele lhe atirasse; era obedecer-lhe em tudo – não só no que lhe desse prazer a ela, mas também, e principalmente, no que mais lhe custasse fazer e no que mais lhe parecesse arbitrário e sem sentido; era estar pronta a ser punida quando lhe desagradasse e a não ser recompensada quando lhe agradasse; e era sobretudo nunca mais se pertencer a si própria.

– Só terás um direito: o de deixares de ser minha escrava quando quiseres.

Dúnia ouviu isto tudo sem verdadeiramente ouvir, aturdida por uma sensação de volúpia que a fazia como que dissolver-se nas palavras pausadas que lhe chegavam pelo telefone e das quais se destacava, como um farol no nevoeiro, a palavra amor. A palavra amor na voz dele.

– Compreendes bem o que eu te estou a dizer, Dúnia?

– Sim, compreendo…

– E consentes em tudo?

– Sim…

– Então diz: sim, meu senhor.

Foi a vez de Dúnia fazer um longo silêncio. Se esta exigência lhe era tão doce, porque é que lhe custava tanto obedecer-lhe? Por fim conseguiu dizer:

– Sim, meu senhor.

Teve medo que ele não tivesse ouvido o murmúrio final, e que a mandasse repetir tudo. Mas não, ele nada lhe exigiu, parecia aguardar que ela continuasse a falar. Dúnia respirou fundo e acrescentou:

– Vamo-nos encontrar? Meu Senhor.

– Sim, estou aí dentro de hora e meia ou duas horas, depende do trânsito. Espera por mim de saia ou vestido, não te quero ver de calças. Sem nada por baixo. E descalça.

Dúnia admirou-se:

-Descalça porquê?

– Porque eu to ordeno – respondeu ele com um sorriso na voz. – Não chega?

E logo, num tom mais sério, sem lhe dar tempo a responder:

– Por três razões: porque eu to ordeno, porque uma mulher descalça é sempre bela, e porque os pés nus são um símbolo de submissão muito antigo, e que me diz muito. Espera-me descalça, é importante.

Mal desligou, Dúnia pôs-se a preparar tudo. Só hora e meia! Talvez nem isso: de Heidelberg, onde ele vivia, a Freiburg, onde vivia ela, pelas auto-estradas alemãs, leva-se uma hora no máximo. Mas talvez ele precisasse de tempo para se arranjar, e com isso lhe desse oportunidade de arrumar a casa, comprar flores, velas e comida, preparar o jantar, lavar-se, perfumar-se, vestir-se, enfeitar-se…

Uma hora e meia depois Dúnia tinha tudo pronto e estava à espera, vestida com uma saia larga de algodão castanho que lhe dava pelo tornozelo, com um top de alças de côr alaranjada e calçada com umas chinelas havaianas enfeitadas com missangas de cores quentes – certamente era isso que ele tinha querido dizer quando lhe tinha ordenado que o esperasse descalça, não era? Não tinha que ser descalça mesmo, com certeza, e as chinelas eram tão lindas…

A campainha da porta sobressaltou-a. Pegou no intercomunicador. Era ele.

– Sobe.

Com o coração a bater descompassado, Dúnia abriu a porta do apartamento, que deixou encostada, e pôs-se à espera, atenta ao barulho do elevador. Sentiu-o arrancar e depois parar, arrancar de novo. Estava a subir! No momento em que ouviu o som das portas a abrir-se pensou em correr até ao quarto e descalçar-se. Porque é que não se tinha descalçado? Agora não havia tempo, ele estava aí, estava à porta. Recuou para a sombra, para onde ele não a visse logo.

Sentiu-o mexer na porta:

– Está aberta, entra!

Ele entrou. Trazia um pequeno saco que devia trazer uma muda de roupa e alguns artigos de toilette. Estava mais magro? Sim, estava mais magro. Ela é que tinha engordado: de repente sentiu-se uma matrona balofa e pesada à beira dele, e ao ver que ele a olhava de cima a baixo sentiu-se ruborizar.

– Estás mais bonita, Dúnia.

Mais bonita, ela? Com aqueles pneus? Como podia ele achá-la bonita? Mas antes que tivesse tempo de se convencer completamente que estava feiíssima, ouviu-o dizer:

– Desobedeceste-me. Tinha-te dito que me esperasses descalça.

– Era mesmo preciso? Estou praticamente descalça. Não são bonitas estas chinelas? – e lançou-lhe os braços ao pescoço para o beijar.

Ele abraçou-a e retribuiu-lhe o beijo: ao princípio com ternura, depois, logo a seguir, com avidez e paixão. Era este, então, o sabor da boca dele! Dúnia tinha esperado tão longamente por estes braços, por esta boca, e agora bebia dela, insaciável. Colada contra ele, sentiu-lhe a erecção mesmo através do sobretudo grosso. «Ele deseja-me!» E abraçou-se a ele com mais força.

Mas cedo, demasiado cedo, sentiu que ele a afastava e pousava a sacola no chão.

– Ajoelha-te.

As mãos dele nos ombros dela confirmavam a ordem. Um pouco contrafeita, ajoelhou-se no chão do hall de entrada, sobre o tapete; para que ele não lhe visse a cara virou a cabeça para o lado e para baixo e apertou a face esquerda contra o corpo dele, só para lhe sentir a dureza do pénis por baixo da roupa.

– Beija-me a mão.

Beijar-lhe a mão? Não era assim que Dúnia tinha imaginado este primeiro encontro, mas não lhe custou obedecer. Ser escrava era isto? Não era muito difícil, pelo contrário. As mãos dele eram bonitas, delicadas, com dedos finos, quase de mulher – mas quando a agarraram pelos braços para a pôr de pé, a força que exerceram era a dum homem.

Depois de a apertar contra si e de a beijar de novo, ele pediu-lhe que lhe indicasse a casa de banho. Era à direita do hall. A porta a seguir dava para a cozinha, e passada esta estava-se na sala. Dúnia pegou-lho no sobretudo, no chapéu, nas luvas e no cachecol e pendurou tudo no armário da entrada.

A mesa na sala já estava posta com dois lugares.

– Queres beber alguma coisa, meu querido?

Ele sentou-se no sofá.

– Quero, minha escrava – respondeu ele. – Traz-me um copo de água. Tenho sede.

E quando ela, meio atordoada pela naturalidade com que ele lhe tinha chamado escrava, se começava a afastar em direcção à cozinha, acresentou:

– E descalça-te para mo servires.

Era mesmo verdade, então, que ele a queria descalça. Depois de deixar as chinelas no quarto, Dúnia foi à cozinha para deitar água num copo. Depois levou-o para a sala e ia entregar-lho, mas ele não lhe pegou.

– Serve-me de joelhos. Quando me servires alguma coisa deves fazê-lo sempre de joelhos.

Desta vez Dúnia não achou tão estranho ajoelhar-se diante dele, talvez porque nessa posição lhe era mais fácil entregar-lhe o copo. À medida que bebia a água em pequenos goles ele acariciava-lhe os cabelos. Ela, na posição em que estava, não podia mais do que beijar-lhe as mãos. Às vezes tentava soerguer-se para o beijar na boca, mas ele não lho consentia: em vez disso inclinava-se ele e, puxando-a pelos cabelos, punha-lhe o rosto a jeito para a beijar.

Conversaram assim durante algum tempo, ele sentado no sofá, ela de joelhos diante dele, beijando-lhe as mãos e ouvindo as regras por que de futuro se regeria. Estava calor, Dúnia tinha posto o aquecimento no máximo: a meio da conversa ele teve que despir o pullover para ficar em mangas de camisa.

Durante o jantar Dúnia experimentou pedir-lhe que lhe permitisse calçar-se, o que ele recusou tranquilamente mas com firmeza. No fim da refeição ela pôs a tocar um CD de Loreena McKennit que ele lhe tinha oferecido meses antes pelos anos, quando ainda eram apenas bons amigos; e enquanto ele o ouvia sentado no sofá ela levantou a mesa e arrumoun rapidamente a cozinha. Por fim foi ajoelhar-se aos pés dele (sem que ele lho ordenasse, desta vez) e recomeçou a beijar-lhe as mãos. Desta vez, porém, ele não se mostrou tão esquivo: não só não a proibiu de se levantar como a puxou para cima, beijando-lhe a boca e metendo-lhe a mão no decote para lhe rolar os mamilos entre os dedos. Os seios estavam nus por baixo do top, tal como ele tinha ordenado. Os dedos dele apertavam-lhe os mamilos com força, fazendo-lhe doer: como teria ele adivinhado que era isso que ela queria?

Também as nádegas estavam nuas por baixo da saia, como a mão exploradora dele não tardou muito a confirmar. Quando sentiu a mão dele a tocá-la no sexo húmido, ela quis-lhe desapertar as calças: ele consentiu mas obrigou-a a continuar de joelhos. Tinha o pénis um pouco curto mas bastante grosso, curvado para cima, e circuncidado.

– Posso beijá-lo? – perguntou Dúnia.

– Sim, mas pede como deve ser.

– Posso beijá-lo, meu Senhor?

– Começa por beijá-lo, sim. Depois vou ensinar-te a lambê-lo e a chupá-lo a meu gosto: aprende bem, porque tenciono possuir-te muitas vezes pela boca. Mas primeiro põe-te nua.

Dúnia era suficientemente pudica para nunca ter tirado a parte de cima do bikini na praia, porém não tanto que nunca nenhum namorado a tivesse visto nua. Mas nunca assim, nunca como lhe estava agora a ser exigido: o normal, para ela, era ir descartandoa roupa à medida que as carícias iam progredindo, ou então despir-se sozinha na casa de banho e dar meia dúzias de passos apressados para a cama, cobrindo-se logo com os lençóis. Despir-se assim, na sala, pelas suas próprias mãos, perante um homem sentado e vestido que não parava de olhar para ela com um pequeno sorriso indecifrável – isso ela nunca o tinha feito. Tinha mesmo que ser?

– Tem mesmo que ser, minha escrava. Quero que te dispas para mim.

Dúnia deu um suspiro, pôs os olhos no chão para ele não a ver ruborizar e tirou o top, ficando com os seios à mostra. Tinha os mamilos rosados e as aréolas muito claras. Lentamente, sentindo os olhos dele postos nela, dobrou o top e colocou-o sobre uma das cadeiras da sala.

– Anda cá, Dúnia…

Ainda de olhos baixos, aproximou-se dele, que lhe pôas as mãos nos ombros, a fez ajoelhar e começou a beijá-la na boca, acariciando-lhe os seios ao mesmo tempo.

– Continua…

Levantou-se para tirar a saia, mas antes que o fizesse ele deteve-a:

– Primeiro solta os cabelos.

Dúnia começou a tirar um por um os ganchos e alfinetes que lhe prendiam o cabelo e a pousá-los na mesinha baixa ao lado do sofá. Os seios nus oscilavam a cada movimento. Dúnia queria virar-se de costas para os esconder, mas o olhar dele prendia-a. À medida que o cabelo se lhe espalhava pelos ombros também o rubor se lhe espalhava pelo rosto e pelo peito sardento.

– Já está…

– Agora o resto – disse ele.

Dúnia desatou a fita com que a saia se apertava e tirou-a por baixo, equlibrando-se ora num pé, ora noutro. Dobrou a saia à frente do corpo, adiando assim o momento em que ele lhe veria o fundo do ventre. Quando teve de se virar para pousar a saia na cadeira sentiu os olhos dele como uma queimadura sobre as nádegas brancas e redondas. Sem tirar os olhos do chão virou-se de novo para ele com as mãos a tapar o sexo.

– Agora despe-me a mim.

Dúnia inclinou-se sobre ele para lhe desabotoar e despir a camisa. Ele sorriu-lhe, beijou-a ao de leve e ordenou-lhe:

– Beija-me os mamilos.

Dúnia não sabia que os homens também gostavam de ser beijados nos mamilos, nenhum dos seus namorados anteriores lho tinha alguma vez pedido; mas aplicou-se com prazer nesta tarefa até ele lhe ordenar que continuasse a despi-lo. Ajoelhou-se, e ia desapertar-lhe o cinto quando ele lhe segurou os pulsos, a beijou, e disse:

– Não, minha escrava, assim não. Primeiro os sapatos.

Era inverno lá fora, e nevava. As botas almofadadas de camurça preta eram difíceis de tirar, tal como as grossas peúgas verdes, iguais às usadas pelo exército suíço. Dúnia teve que fazer força. Depois soergueu-se para lhe desapertar o cinto e puxar as calças para baixo. Por fim, as cuecas, molhadas à frente, junto ao elástico, pelo líquido que a excitação dele produzira.

– Beija-o agora, escrava.

Lentamente, humildemente, com a palavra escrava a ecoar-lhe nos ouvidos, Dúnia inclinou a cabeça em direcção ao sexo erecto do seu Senhor. Sabia que mais tarde ele a acompanharia ao quarto e se deitaria com ela na cama limpa e perfumada, já preparada para os receber; mas neste momento tudo o que queria era ficar assim a servi-lo, eternamente de joelhos.

(Publicado a 03/08/06)

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Naquele jardim secreto em que és a minha escrava,
O meu deslumbramento, quando te revejo,
É, como a dor, pungente, e enorme como um beijo
Que começa no fundo do tempo e não acaba.

Ali, envolta em véus translúcidos de linho,
Danças, obediente à voz do meu desejo.
Depois trazes baixelas, pratas, nozes, queijo
E serves-me descalça a fruta, o pão e o vinho.

Ó meu amor querido! Os teus pés nus! Os seios
Que descobres e dás à minha mão de dono!
O teu corpo que se abre em flor à minha frente!

Tu és a água e és a sede; os nós, os veios,
A seiva, a fonte fresca, a boca que abandono
Para beber da taça funda do teu ventre.

Vanderdecken

(Publicado no Blogger a 19/07/06)

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Bayadère

Ainda tenho a tua écharpe transparente…
Costumavas pô-la à volta dos quadris quando dançavas para mim de seios nus, ou a cobrir os seios quando punhas aquela tua saia preta de seda; era uma saia rodada e comprida, com uma textura encarquilhada… Ainda a tens?

Às vezes dançavas nua, as mais das vezes semi-nua, mas sempre descalça, como as odaliscas nos haréns. Tinhas braceletes, colares, brincos, anéis, numa profusão que não mostravas a mais ninguém – logo tu, sempre tão sóbria em público – mas que exibias para mim com aquele teu sorriso descarado que se abria mais quando eu te chamava serigaita.

O teu corpo pequeno e escuro, a cinta fina como nunca vi mais nenhuma, os pulsos e os tornozelos quase de criança, a agilidade de gata, a liberdade com que rebolavas as ancas – essas, sim, largas, de mulher feita – naquele movimento que segue as linhas de um oito deitado, símbolo do infinito, o mesmo movimento que tantas vezes fizeste, escarranchada sobre mim, com o meu pénis a doer de tesão dentro de ti, e eu: dança, dança, escrava, dança para mim

… e tu, sim, danço para ti, e lançavas a cabeça para trás, balançando os cabelos como uma égua no cio balança a crina.

A écharpe, ainda a tenho…

(Publicado no Blogger a 17/07/06)

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Bela no prazer

Estavas em cima de Mim. Eu tinha chegado cansado: acabara de trabalhar às oito, tinha conduzido 500 km para vir ter contigo, de noite, pelas auto-estradas de quatro países. Tinhas-Me recebido a meio da noite em tua casa, tinhas-Me dado de comer – mas Eu, quando estou cansado, tenho pouca fome – tinhas-Me assistido no duche e massajado, e agora estavas toda nua em cima de Mim.
Contra as Minhas ordens, tinhas-te erguido de modo que os teus seios já não tocavam o Meu peito. Não estavas deitada em cima de Mim, estavas sentada. O Meu Sexo erecto, vergado para baixo pelo teu movimento, doía-Me. E Eu puxava-te para Mim, para aliviar a tensão e para sentir a carícia do teu corpo e dos teus cabelos.

O teu ventre dançava, em liberdade total, envolvendo o Meu Sexo. E Eu, encantado, olhava o teu rosto: um ricto de prazer, sempre tão parecido com a dor, torcia-te as feições. Nunca me pareceste tão bela como naquele momento.

(Publicado no Blogger a 15/10/05)

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kn-11-iÉ assim:
Viro para a minha rua. Os faróis do carro varrem a janela do quarto. Tu estás na sala, mas apercebes-te do clarão.
Estaciono o carro junto ao muro do jardim. Tu, entretanto, foste à janela e viste que era eu. Sabias que era a hora e estás quase pronta.
Saio do carro devagar, a dar-te tempo. Abro a cancela. Subo os degraus para a porta da entrada, com cuidado para não escorregar no gelo. Faço uma pausa. Meto a chave na fechadura. Ouço os teus passos: estás a correr descalça, e não és propriamente levezinha.
Entro. Penduro o casaco. Limpo os óculos, que embaciaram com o calor da casa. Abro a porta da sala.
Estás à minha espera como te ordenei. De joelhos, descalça, seios nus, saia rodada, bijuterias sobre todo o corpo.
Tens a mesa posta. Cheira àquelas comidas alentejanas que tu gostas de fazer. Estou com fome. Mas não me dirijo à mesa, dirijo-me a ti.

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slavegirl8op Come prima, più di prima t’amerò
Per la vita la mia vita ti darò
Sembra un sogno
Rivederti e accarezzarti
Le tue mani
Fra le mani stringere ancor.

Panzeri/Di Paola/Taccani

O bairro do Sacromonte é dos poucos lugares de Granada que não são dominados pela visão tutelar da Serra Nevada ou da Alhambra. A serra é escondida pela estreiteza das ruas e pela altura dos muros, que apenas a deixam ver de relance num ou noutro virar de esquina; e a acrópole mourisca, no topo da colina, está demasiado próxima para que a vista a abarque. Para ver um panorama desimpedido da serra haveria que subir aos próprios jardins do palácio; e para ver o palácio haveria, pelo contrário, que descer as ruelas íngremes até ao fundo do bairro e subir as da colina fronteira – Albacín, a medina – até ganhar distância e encontrar miradouro.

A casa que Ricardo e Mariana tinham pedido emprestada ficava no Sacromonte a meia encosta, no fundo de um carmen murado. Não se via de lá a Alhambra, mas sentia-se-lhe a proximidade reflectida na privacidade dos jardins, nos aromas da vegetação, na própria cor das pedras.

Mariana tinha tratado de tudo. O dono da casa era um galerista de Boston: tinha sido ele quem lhe organizara a primeira exposição em solo americano e desde então tinham ficado amigos. Quando Mariana lhe pedira a casa, insistira em emprestar-lhe também o automóvel.

Don’t think about it – respondera, quando Mariana lhe tentara agradecer. – The house needs to be aired. You will be doing me a favor, really. Just make sure you take out the Porsche at least once, it hasn’t been driven for two months.

As férias de Mariana tinham começado um dia mais cedo que as de Ricardo. À proposta deste, que se encontrasse com ele em Heidelberg e fizessem a viagem juntos, respondeu Mariana que não:

– Vou um dia antes, tenho que ver como é a casa, preparar tudo condignamente.

E acrescentara:

– Preparar tudo para o meu dono…

Ricardo não insistira.

– Quero ver o que vai sair daí – limitara-se a dizer.

E com efeito, ao desembarcar do Talgo na estação de caminhos-de-ferro de Granada começou logo a ver, pelo sorriso travesso da amante, que havia ali grandes preparativos. Quando viu o Porsche no parque de estacionamento pensou que faria parte desses misteriosos preparativos e não estranhou quando ela lhe sugeriu, contra o habitual, que fosse ele a guiar. E não estranhou também em frente ao portão da vivenda quando ela lhe pediu para arrumar o carro, oferecendo-se para levar ela própria para dentro a mala dele e dando-lhe indicações para chegar à garagem.
Ao regressar a pé Ricardo não se apressou: queria dar tempo a Mariana de terminar o que quer que fosse que tinha preparado. O portão de ferro trabalhado estava apenas encostado: abriu-se com um rangido e Ricardo encontrou-se num jardim perfumado, num carmen andaluz. Era Fevereiro; já fazia calor; mas os dias ainda eram curtos e o sol esplendoroso que o tinha acolhido à chegada tinha dado lugar a um crepúsculo acentuado pela vegetação densa. Um carreiro de lajes polidas, flanqueado por duas filas de velas acesas, conduzia à entrada principal. Ricardo fechou o portão atrás de si, percorreu a rota de luzes que a amante lhe tinha marcado, e bateu à porta. De dentro ouviu a voz de Mariana:

– Entra, a porta está aberta. Vai-te sentando, eu já vou ter contigo.

Ricardo atravessou um pequeno átrio e entrou numa sala oblonga, arranjada como que para um espectáculo: num dos extremos estava colocado um divã, almofadas, tapetes e uma mesa baixa com pratinhos de tapas, frutas secas e pequenos doces, e de um bule exalava-se um vapor com cheiro a menta. Ricardo reparou que sobre a mesa só havia uma chávena: fosse qual fosse a surpresa que Mariana lhe tinha preparado, não incluía uma refeição a dois.

Com as janelas tapadas por grossas cortinas, a sala tinha por iluminação quatro grossas velas em pedestais, duas de cada lado do divã, e mais quatro sobre a mesa, num candelabro profusamente ornamentado que pareceu a Ricardo ser de bronze ou latão. No outro extremo da sala era possível distinguir a custo um écran de plasma e duas colunas de som. À medida que os olhos de Ricardo se adaptaram à penumbra foi-se apercebendo de um biombo escuro, talvez negro, recortado contra um ténue clarão avermelhado tal como o que seria emitido pelas luzes de presença dum aparelho de som ou vídeo. Junto do biombo, a um canto, uma mesa pequena com o que parecia ser uma jarra de água, um copo e outros objectos que Ricardo não conseguiu identificar porque a luz das velas não chegava lá.

Aceitando o convite implícito na chávena solitária, Ricardo sentou-se, serviu-se de chá e recostou-se no divã, mordiscando uma tâmara. Foi este o sinal para que se começassem a ouvir, muito lá do fundo, uns acordes de contrabaixo em que Ricardo reconheceu o início de um CD que tinha oferecido à amante: Federico e Giulietta, gravado em Rimini por Caetano Veloso num concerto de homenagem a Federico Fellini e a Giulietta Masina.

Uma intensa luz
Que não se vê
Passa pela voz
Ao se calar…


Uma voz macia na penumbra, num registo entre o tenor e o contra-tenor. O refrão é cantado em italiano:


Come tu mi vuoi, sarò, sarò,
Quello che tu vuoi, farò, farò.
Non ti lascierò mai
Ma non ti amerò mai,
Questo tu lo sai, si, lo sai.

A estas palavras apareceu no écran uma fotografia de Marta no pátio da Universidade de Coimbra, com a torre ao fundo. Na fotografia Marta aparentava vinte e poucos anos e trazia uma saia rodada, aos godés azuis-claros e azuis-escuros, com uma blusa azul que deixava ver à transparência o soutien branco. Ricardo recordava-se bem desta indumentária. Tinha sido assim vestida – mas sem soutien nem calcinhas – que Marta o tinha acompanhado uma vez ao cinema. Ricardo reviveu o prazer que tinha sentido nesse dia ao vê-la corar perante a surpresa de quem, cruzando-se com eles na rua, reparava na transparência da blusa; e recordou-se de como lhe tinha levantado a saia na escuridão do cinema e encontrado o sexo molhado e quente.

Ao mesmo tempo que a fotografia aparecia no écran, Mariana saiu de trás do biombo e dirigiu-se para um candeeiro de pé, que ligou, regulando a lâmpada de halogéneo para o mínimo; esta luz débil chegou para ver que estava ricamente adornada de jóias, que tilintavam quando ela se movia, e que fora estas não tinha mais nada a cobri-la. Não eram jóias valiosas, apenas o género de bijutaria de prata e lápis-lazúli que se pode comprar em qualquer souk marroquino.


Mas como estava bela! Comparando-lhe o corpo com o de Marta estudante, Ricardo espantava-se por não lhe encontrar outras diferenças que não fossem os seios: dantes pequenos e cónicos, agora túrgidos, redondos. A luz fraca reflectia-se-lhe no brilho dos olhos e na brancura do sorriso, mas não chegava para que se lhe distinguissem todos os pormenores do rosto ou do corpo. Porém Ricardo, a quem os olhos da memória tinham vindo em auxílio dos do rosto, via-a nitidamente: o ventre musculoso e liso; a cintura delgada, que ainda podia ser abarcada com duas mãos de homem; as ancas em forma de ânfora, que numa mulher menos delicada de corpo seriam estreitas mas que em Mariana, comparadas com a cinta, eram largas; os braços e as pernas musculadas, de dançarina ou ginasta. Os seios, modelados por duas maternidades, bambaleavam um pouco.


(Mais tarde, já depois de ter os filhos crescidos, Marta tivera de extrair um nódulo, felizmente benigno, que lhe aparecera na mama direita; e quando o cirurgião lhe sugeriu que aproveitassem a operação para colocar implantes aceitou imediatamente. Pôs porém a condição de o resultado final ser a reprodução dos seus seios de grávida.

– Uns seios de grávida? – rira-se o médico. Mas Marta mostrara-lhe fotografias:

– Está a ver? Nunca tive o peito tão bonito como quando estive grávida…

A operação foi um êxito. Marta gostava de decotes generosos e tinha pena de só os ter podido usar durante um curto período; e agora Mariana, pensando nisto e na surpresa que ia fazer a Ricardo, achava que a sua decisão tinha valido a pena: o peito de adolescente tinha dado lugar a umas mamas firmes e generosas que pareciam perfeitamente naturais – à vista e também ao tacto, como comprovou Ricardo mais tarde quando teve oportunidade de as sopesar longamente.

Nua, nua, nua estava Mariana, ainda mais nua porque coberta de jóias. A primeira posição que tomou na dança era típica dela: de pé, tornozelos cruzados, braços abertos num ângulo de 45 graus, cabeça virada para o lado pondo em evidência os tendões do pescoço. Esta posição, bem como os olhos postos no chão e o pequeno sorriso enigmático, era familiar a Ricardo desde os tempos de Coimbra e fê-lo lembrar-se dum outro disco, um LP do tempo do vinil com canções de Chico Buarque, que Mariana lhe tinha oferecido seu vigésimo segundo aniversário. em casa dela, ou melhor, no apartamento que ela partilhava com outras estudantes e que ele tinha ajudado a decorar e a mobilar. As raparigas tinham conseguido comprar quase de graça uns restos de alcatifa em dois tons de azul e com a ajuda dele tinham-nos cortado em quadrados iguais que depois dispuseram num xadrês. Já nesse tempo Marta gostava de dançar para Ricardo marcando os movimentos pelos quadrados de alcatifa. Agora, décadas mais tarde, marcava-os da mesma maneira e com os mesmos gestos pelas lajes quadradas do pavimento.

Mas não era exactamente uma dança que Mariana executava, nem esta primeira canção de Federico e Giulietta se prestava a tal: era talvez uma mímica, a exposição de uma narrativa, uma narrativa do tempo em que Marta, depois de dançar para Ricardo, se sentava aos pés dele em posição de lótus e trocava com ele histórias e fantasias.


Os movimentos de Mariana davam a Ricardo a impressão de ter diante de si a Marta de outros tempos, ilusão esta fortalecida pelo facto de nada no corpo dela, com a já notada excepção dos seios, ter mudado nessas décadas. (Segundo Mariana tinha havido outras mudanças; o rabo estava mais descaído e algumas rugas estavam mais vincadas; mas Ricardo, com a cegueira dos amantes, não conseguia ver esta diferença).

Em todo o caso bastou um segundo e a mudança duma canção para outra para que Marta passasse de novo dos vinte e tal para os quarenta e tal anos. Quando a primeira faixa parou de tocar Mariana pegou no telecomando para saltar a seguinte e passar à terceira:

Lua, lua, lua, lua
Giulietta Masina
Ah, puta de uma outra esquina
Ah, minha vida sozinha
Ah, tela de luz puríssima…
Ah, vídeo de uma outra luz
Pálpebras de neblina, pele d’alma
Giulietta Masina
Aquela cara é o coração de Jesus
.


No dia do seu primeiro reencontro Marta e Ricardo tinham ido no carro dele de Coimbra à Figueira da Foz e daí a Quiaios pela Serra da Boa Viagem. Pelo caminho tinham ligado o rádio, e riram-se quando ouviram a canção que uma emissora local estava a transmitir:


Coimbra do Choupal
Ainda és capital
Do amor em Portugal
Ainda

Nesse dia tinham acabado por ir à praia. Os movimentos de Mariana em Granada invocavam os de Marta nessa ocasião, o caminhar pela areia, a procura duma rocha ao abrigo de olhares indiscretos, o penoso caminho de volta ao carro, a garrafa de água comprada à pressa no regresso porque no improviso do passeio se tinham esquecido de levar que beber…
E a um toque de Mariana no telecomando a voz do cantor brasileiro, cantando perante a sua audiência italiana com um sotaque português quase perfeito, confirmava as palavras desse outro cantor, de cujo nome nem Mariana nem Ricardo se lembravam:


Coimbra das canções
Tão meigas que nos pões
Os nossos corações
A nu
Coimbra dos doutores
P’ra nós os teus cantores
A fonte dos amores
És tu.


A primeira noite que tinham passado juntos depois do reencontro tinha sido na praia da Tocha, num apartamento alugado para o fim de semana, no final do mesmo Verão em que tinham ido à Figueira. Mariana tocou num botão para fazer mudar a imagem no écran e Ricardo viu-a sorridente, numa esplanada que podia ser em Cascais, com os dois filhos já crescidos e com o mesmo vestido de padrão às flores que tinha levado ao encontro com ele nesse fim de semana. Outro carregar de botão e surgiu no ecran a imagem duma Columbina chorando ajoelhada com os braços erguidos ao céu, como as mulheres pobres que vemos nos telejornais depois de lhes matarem os filhos.


Então Mariana caiu de joelhos no chão de lajes. Sentou-se sobre os calcanhares com as coxas separadas e, com um movimento impetuoso, lançou para trás os cabelos como fizera ao cavalgar Ricardo naquele apartamento em frente ao mar: de olhos fechados, de narinas frementes, arrebatada de paixão, retesos os músculos do ventre e os tendões do pescoço. O corpo curvado para trás fremia de energia contida, como um arco pronto a disparar. Os seios, mais volumosos do que naquele outro dia, suavizavam a dureza das clavículas e das costelas. Ricardo lembrava-se bem daquela noite, a primeira em que ele e Marta tinham feito amor depois de se reencontrarem: Marta tinha chorado então; agora exprimia sem lágrimas aquele pranto, no arquear do corpo e no erguer dos braços.


A última faixa do CD começou a tocar: Tu, che amar non sai, tu che amar non vuoi, sei stregata dall’amor. À luz fraca da única lâmpada, complementada a custo pela das velas acesas, a penugem esparsa do baixo-ventre de Mariana confundia-se com as sombras, mas ainda assim era possível descortinar, entre as muito abertas, no sexo propositadamente exibido, um brilhozinho molhado de excitação. Foi neste pequeno revérbero que se fixou o olhar de Ricardo quando Mariana curvou a cabeça para a frente, ocultando os seios com os cabelos, e se deixou ficar ajoelhada.

Finalmente Ricardo quebrou o silêncio com um pequeno som de aprovação e contentamento. Como se só tivesse estado à espera deste sinal, Mariana pôs-se de pé e dirigiu-se para a mesinha instalada junto do biombo, tirando um a um todos os adornos que trazia sobre o corpo. Duma caixa que estava em cima da mesa tirou outros, desta vez já não em prata e azul, mas em ouro e vermelho: brincos, pulseiras, colares, um anel, e por fim uma máscara veneziana, também ela dourada, que colocou sobre a metade superior do rosto. Assim ornamentada e mascarada, verteu um pouco de água num copo e bebeu-a. Devia estar cansada, notou Ricardo: tinha o corpo esbelto brilhante de suor.

Com os dois aparelhos de telecomando Mariana concluiu os preparativos para a segunda dança. No écran de plasma surgiu a imagem de um lugar que Ricardo bem conhecia e onde tinha passado muitas horas com Marta: a entrada rococó do Jardim da Sereia em Coimbra. Ao mesmo tempo começou-se a ouvir a abertura da ópera Orfeo ed Euridice de Gluck, em que Orfeu, tendo comovido os deuses com a sua música, consegue destes autorização para ir buscar aos Infernos a sua bem-amada Eurídice. De que Inferno teria ele, Ricardo, resgatado Mariana, ou Mariana a ele? E de que Infernos teriam ainda que se resgatar um ao outro? Serenamente, com o passo medido pela sonoridade barroca da música, Mariana caminhou em direcção a Ricardo, pegou-lhe nas mãos e inclinou-se para ele, murmurando-lhe ao ouvido:


– Às vezes dou a mim mesma o nome de Mariana…


E Ricardo lembrou-se que tinha sido ali, em Coimbra, naquele jardim da fotografia, que Marta tinha escolhido o seu nome de escrava: num dia em que Ricardo estava doente de solidão, doente de rotina e conformismo. Nesse dia Mariana tinha começado a curá-lo. Ricardo fez um movimento para beijar a amante mas esta escapou-se-lhe, rindo:

– Ainda não terminei…

Ao som da orquestra Mariana deu duas voltas completas à zona da sala que tinha deixado livre. Caminhava sem pressa, com o passo medido duma dama do século XVIII num salão de baile, serena e cuidadosa como se arrastasse atrás de si a longa cauda dum vestido de gala – e esta lentidão, esta mesura, contrastando com a completa nudez do corpo, obrigavam a que o olhar de Ricardo se lhe fixasse em cada meneio, em cada passo, em cada gesto das mãos ou inclinação da cabeça.

Ao soarem as últimas notas da abertura, Mariana, depois de dobrar ligeiramente os joelhos numa vénia a Ricardo, fez avançar o CD até ao princípio da terceira faixa. Na versão que estavam a ouvir, o papel de Orfeu – originalmente composto para um castrato – era interpretado pela contralto Marilyn Horne, e o de Cupido pela soprano Helen Donath. Ao longo destas duas árias os movimentos de Mariana continuaram tão lentos e medidos como durante a abertura, mas o estilo galante deu lugar a uma sensualidade nos gestos, manifestada nas carícias que Mariana fazia a si própria, no semi-cerrar das pálpebras, no entreabrir dos lábios e das coxas, na ostentação dos seios e das nádegas. Ao mesmo tempo, a imagem no écran começou a mudar: à fotografia do Jardim da Sereia começaram a sobrepor-se as letras da palavra MARTA, impressas a verde escuro em caracteres severamente geométricos. Depois a imagem do Jardim da Sereia começou a esmaecer e a ser substituída pela silhueta em perfil dum homem de pé, com o pénis erecto, e duma mulher posternada à sua frente. E logo que esta transformação ficou completa, a palavra que lhe estava sobreposta começou a mudar para «mariana»: em minúsculas, em cursivo e a vermelho. A dança terminou, como a primeira, com Mariana ajoelhada diante de Ricardo; mas deta vez só numa pose formal, só com um joelho em terra e a cabeça inclinada como um pagem a ser armado cavaleiro.

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– Agora, meu Senhor, vou continuar a dançar para ti. Posso?

– Dança, minha escrava.

Mariana tirou o avental. De novo toda nua, ligou a aparelhagem; e dos altifalantes saiu um dos sons que Ricardo, tão pouco apreciador de folclore como Mariana, menos esperaria: uma modinha da Nazaré, ferrinhos, concertinas, cavaquinhos, pandeiretas, cântaros percutidos na boca por abanadores de palha e um coro de que sobressaiam as vozes esganiçadas das mulheres.

Também o mar é casado, ó ai,

Também o mar tem mulher.
É casado com a areia, ó ai,
Bate nela quando quer.

Não se tratava de recordar a Nazaré, é claro. Ricardo e Mariana nunca tinham estado juntos na Nazaré. O que veio à memória de Ricardo foi outra terra de pescadores, a Figueira da Foz, a praia de Buarcos, o hotel onde tinham passado a noite e onde ele tinha batido em Mariana pela primeira vez. Não foi só pela música que Ricardo se recordou dessa noite, foi preciso também que Mariana, nos movimentos da dança, passasse as mãos pelas nádegas; e então, sim, lembrou-se das palmadas que lhe tinha dado e que a tinham, no dizer dela, «desexcitado» – e de como ela se tinha voltado a excitar logo a seguir, com uma excitação nova e diferente que nunca mais tinha deixado de colorir a relação entre os dois… Mariana dançava com os braços no ar, rodopiava, corria, marcava o fim de cada verso com um bater do pé no chão, como se durante toda a vida tivesse pertencido a um rancho folclórico e nunca tivesse faltado aos ensaios.

Mas antes que a cantiga chegasse ao fim o som começou a esmorecer. Por fim já nada restava que não fosse uma batida surda e quase imperceptível, que Mariana acompanhava com gestos pouco mais que esboçados. E desta batida emergiu outra música, tão gradativamente como a anterior tinha terminado. Era ainda o mar; era ainda a Figueira, Buarcos, Quiaios, a Tocha, Mira, Sesimbra; mas visto com outros olhos, sentido com outros sentidos, cantado com outra voz.

Fui ao mar

No meu batel,
Além ao mar cruel
E o mar bramindo
Diz que eu fui roubar
A luz sem par
Do teu olhar

Tão lindo.

A voz de Dulce Pontes. No embalo da música, Mariana ondeava os quadris, os ombros, os braços, e caminhava na direcção de Ricardo para logo refluir, como o mar.
Que luz teria Ricardo roubado, e a quem, que assim iluminava o voltear de Mariana – tão depressa junto dele a oferecer-se toda, como, subitamente arisca, no canto oposto da sala, inacessível.

Esta liberdade que Mariana tomava de se negar ao seu Senhor nos movimentos da dança era uma pura ficção que mais não fazia do que realçar, por contraste, a realidade; e esta era o direito absoluto de Ricardo sobre ela. Um único gesto que ele fizesse bastaria para que Mariana se lhe lançasse aos pés, pronta a satisfazer o mínimo ou o mais exigente dos seus caprichos.

– Dança para mim, minha escrava.

E Mariana dançava, abria os braços na horizontal, criava um movimento sinuoso que lhe começava na ponta dos dedos e se propagava horizontalmente até aos dedos da outra mão: uma sucessão de ondas, convexa na flexão dos pulsos e na redondeza dos ombros, côncava na dobra dos braços e na junção das clavículas. Mais abaixo oscilavam-lhe os seios como dois batéis sem lastro. O ventre, brilhante de suor, despedia revérberos como o mar no Verão, e as ancas poderosas balançavam como entre as margens dum oceano balançam as marés.

Dançaria assim a Rainha de Sabá para Suleiman. o Sábio? Roxana para Alexandre, o Grande? Cleópatra para Marco António? Sentado no sofá na posição dos Césares, com o torso direito, os braços descansados nos apoios laterais, um pé mais avançado do que o outro, Ricardo era neste momento o imperator, o centurião; contemplava Mariana com o olhar tranquilo que um soldado lança aos despojos de guerra que lhe couberam; e foi com a sua voz de legionário, a sua voz de Leonardo, que repetiu:

– Dança, escrava. Dança para mim…

Mariana tinha dançado muitas vezes para Leonardo, como também para Gino, para Baltazar e para Jorge, os outros três avatares de Ricardo, e para cada um tinha estilos diferentes. A varina efusiva e vigorosa de uns minutos antes tinha desaparecido completamente para dar lugar a uma lânguida odalisca. A dança agora era uma dança do ventre: sem véus, nem sedas, nem guizos, nem moedas douradas a chocalhar, só o corpo nu de Mariana e os cabelos soltos; mas nem por isso um espectáculo menos sumptuoso.

Xerazade, pensou Ricardo. E o mesmo tinha pensado Mariana, sem dúvida, ao organizar a sucessão de músicas, porque agora o que se começava a ouvir era a Xerazade Op. 35 de Rimsky-Korsakov. O primeiro andamento desta suite sinfónica, um Largo Maestoso, e o último, um Allegro Molto, aludem ao mar e a Sindbad, o marinheiro. Ao balançar das ondas acrescentava agora Mariana, nos movimentos da dança, a graça majestosa e a leveza dum dhow, essas embarcações de vela latina, antecessoras das caravelas portuguesas, que ainda hoje percorrem o Oceano Índico das praias do Hindustão às de Moçambique.

Mariana fincara os pés no chão; a cabeça, conservava-a inclinada para a frente, imóvel numa posição que tanto podia ser de respeito como de concentração; e mantinha o pescoço na vertical, direito como um mastro num dia de calmaria. Entre o pescoço e os pés, porém, todo o resto do corpo se movia sem cessar, seios, cintura, ancas, cada músculo e cada refego de carne puxado numa direcção diferente como se todos os ventos do ar e todas as ondas do mar os disputassem. As mãos, como gaivotas, solicitavam a cada momento a atenção de Ricardo, forçando-o a desviar os olhos dos mamilos maquilhados de cor-de-rosa escuro (como ele gostava) e da racha entre as pernas onde de vez em quando podia entrever (como uma pérola ainda dentro da ostra, ou como uma gota de orvalho numa violeta) um brilho de excitação ou de suor.

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E estava nesta galhofa quando a música, de repente, mudou. Vivaldi, As Quatro Estações. O Verão. Mariana pôs-se de pé num salto ágil e começou a caminhar em direcção a Ricardo em bicos de pés, em passinhos rápidos e a medo como se pisasse areia quente. Em vez do sorriso aberto e descarado de segundos antes, ostentava agora uma expressão de concentração, quase de dor; e naquele meio-andar, meio-correr, tremiam-lhe os seios.

A voz dos violinos era toda claridade e brilho. A um gesto de Mariana todas as luzes da sala se acenderam, um conjunto feérico de lâmpadas incandescentes, fluorescentes, de halogéneo, de luz negra; algumas tinham sido instaladas por Mariana – ou pelo menos assim pareceu a Ricardo – expressamente para aquele momento, de modo a fazer resplandecer tudo o que ali fosse branco. Sob a luz branca e forte, a própria tijoleira vermelha escura pareceu adquirir a cor de salmão clara que Ricardo recordava de uma certa casa no Algarve. Mariana, de frente para ele, colocava um pé diante do outro e abria os braços numa pose de equilibrista, e Ricardo viu-a de novo a caminhar sobre os seixos duros da praia que lhe resvalavam debaixo dos pés. Durante esse encontro tinha-a obrigado pela primeira vez a andar descalça em casa e na rua.

Durante o mesmo fim de semana Ricardo tinha ejaculado, pela primeira de muitas vezes, na boca de Mariana. Que também ela se recordava disto, mostrou-o ao ajoelhar-se (desta vez, porém, com as pernas escarranchadas, a exibir o sexo), formando um O com a boca e movendo a cabeça para trás e para diante ao som da música. Tinham sido dois dias com tantas coisas novas, tantas barreiras ultrapassadas… Lembrar-se-ia Mariana que nesse dia, antes de chupar o sexo do dono, lhe tinha beijado os pés? Sim, lembrava-se: Ricardo viu-a levantar-se, aproximar-se dele e ajoelhar-se de novo para repetir, com simulado constrangimento, um acto de submissão e homenagem que depois, com o tempo, se lhe tinha tornado natural.

A vontade de Ricardo, por esta altura, era agarrá-la pelos sovacos e forçá-la a erguer-se o suficiente para ele lhe poder enfiar o sexo na boca. O que o corpo lhe pedia não era que ficasse ali, molemente enterrado no sofá como um sultão saciado, mas sim que se lançasse como um tigre sobre a presa. Conteve-se, porém. Obrigou-se a ficar quieto enquanto Mariana agia, comandava, dirigia tudo. Quando ela se afastou de novo sem sequer lhe aflorar com os lábios a ponta do pénis, Ricardo quase gemeu de frustração; mas deixou-se estar respeitosamente sentado, espectador atento do acto de comemoração e homenagem que a sua escrava criara para ele e para si própria. Apenas os olhos lhe dançavam, competindo em vivacidade com a música que enchia a sala. As mãos, mal esboçavam um movimento em direcção àquele corpo que tão intensamente o tentava, logo se retraíam e uma voz dentro dele proibia:

– Não, ainda não; espera…

Ainda faltava muito para que Mariana dançasse toda a história do seu amor e da sua escravidão. Pois seja, pensou Ricardo. Vou aguentar até ao fim ainda que rebente de desejo.

Afinal não foi preciso esperar tanto. Mal se extinguiram os últimos acordes de Vivaldi, Mariana pegou no comando à distância e desligou a aparelhagem.

– Queres comer? Ou queres outra coisa?

– Anda cá, escrava – respondeu-lhe Ricardo. – Sabes muito bem o que eu quero.

Mariana correu para ele, risonha, ajoelhou-se-lhe aos pés e começou a desabotoar-lhe as calças.

– Ai sei, sei. Só se esta escrava fosse ceguinha é que não via esse volume dentro das calças do dono.

E começou a chupar-lhe o pénis: sem requintes, sem delongas, sem tentativas de prolongar o prazer, apenas com a preocupação de o fazer chegar ao climax o mais rapidamente possível. Mas o prazer de Ricardo não foi menos intenso por lhe ser ministrado de forma tão expedita: pelo contrário, manifestou-se num orgasmo que lhe veiodeveras das profundezas do corpo. Mariana engoliu tudo, continuou ainda por uns momentos a chupá-lo e a lambê-lo, levantou-se, e sugeriu-lhe que fosse tomar duche e vestir o roupão enquanto ela preparava alguma coisa de comer. Ao sair do quarto de banho, Ricardo viu que Mariana já não estava completamente nua: tinha posto um avental que a tapava à frente deixando ver os seios pelos lados, e por trás as nádegas roliças. Assim se manteve enquanto tomaram os dois uma refeição ligeira, ele sentado à mesa, ela de pé a a preparar e a servir a comida.

– Senta-te outra vez no sofá – disse-lhe ela no fim.

Ricardo ficou a vê-la enquanto ela levantava a mesa com a mesma eficiência e rapidez com que lhe tinha chupado o pénis; depois ouviu-a a cirandar na cozinha; e por fim viu-a voltar à sala.

– Agora, meu Senhor, vou continuar a dançar para ti. Posso?

– Dança, minha escrava.

Mariana tirou o avental. De novo toda nua, ligou a aparelhagem e o ar encheu-se das vozes esganiçadas de um coro de mulheres:

Também o mar é casado, ó ai,
…………Também o mar tem mulher.
…………É casado com a areia, ó ai,
…………Bate nela quando quer.

Era a Figueira da Foz, é claro. A noite que tinham passado no hotel, as palmadas nas nádegas que Ricardo tinha dado a Mariana e que tinham feito com que ela se desexcitasse – para se voltar a excitar logo a seguir com uma excitação nova e diferente, que nunca mais a tinha deixado… Mariana dançava com os braços no ar, rodopiava, corria, marcava o fim de cada verso com um bater do pé no chão. Mas sem aviso a música mudou, agora era Juliette Gréco a cantar Les Feuilles Mortes:

Mais la vie sépare ceux qui s’aiment,
…………Tout doucement, sans faire de bruit,
…………Et la mer éfface sur le sable
…………Les pas des amants desunis.

No embalo da música, Mariana ondeava os quadris, os ombros, os braços, e caminhava na direcção de Ricardo para logo refluir como o mar. Mas não por muito tempo, que não se queriam ali canções sobre amantes separados. A voz rouca de Gréco calou-se a meio da frase para ceder de novo o lugar às das varinas:

O mar enrola na areia,
…………Ninguém sabe o que ele diz.
…………Bate na areia e desmaia
…………Porque se sente feliz.

A desmaiar de felicidade sentia-se Ricardo, enquanto observava extasiado o voltear da amante, tão depressa junto dele a oferecer-se toda, como – subitamente esquiva – no canto oposto da sala. Esta liberdade que Mariana assumia, nos movimentos da dança, de se negar ao seu senhor e dono era pura ficção, que mais não fazia do que acentuar o facto, por assim dizer normal, de Ricardo a possuir e de ela ser possuída por ele. Um único gesto dele bastaria para que Mariana desligasse a música e se lançasse aos pés do amante, pronta a satisfazer-lhe o mínimo ou o mais exigente dos caprichos. Ambos sabiam isto muito bem, e porque o sabiam é que esta dança lhes parecia uma excursão para fora do mundo e das suas responsabilidades, um conto das Mil e Uma Noites contado e recontado ali bem perto, na Alhambra.

(Continua)

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Mariana chegou cedo a Heidelberg, antes do pôr-do-sol. Como de costume Ricardo estava à sua espera na estação. Março estava a chegar ao fim e ainda havia uns restos sujos de neve nas beiras dos passeios.

A viagem de eléctrico foi rápida. Quando chegaram a casa Ricardo ordenou:

– Vai tomar duche e arranjar-te. Eu já tomei antes de te ir buscar, agora é só vestir-me.

Mariana sabia que uns amigos ou conhecidos de Ricardo o tinham convidado para jantar e que tinham insistido em conhecê-la; por isso trouxera na bagagem cosméticos, um vestido de cocktail decotado, meias de nylon e sapatos de salto alto. Mas quando saiu da casa de banho em calcinhas, soutien e cinto de ligas, segurando o vestido à frente do corpo para Ricardo ver, este disse-lhe:

– Não, assim não. Tira tudo, põe só aquele vestido em cima do corpo.

E mostrou-lhe o vestido que tinha estendido sobre a cama, comprido, vermelho escuro, todo de véus e transparências. Sobre a mesinha de cabeceira, aberto, um estojo com bijuterias: colar, pulseira, anéis, adornos para os pés, tudo engastado com pedras – granadas ou turmalinas – da mesma cor que o vestido.

– Mas eu pensava – disse Mariana, surpreendida – que o convite era formal.

Ricardo já estava vestido: fato preto sobre uma T-shirt preta que parecia de seda, sapatos com solas de couro e atacadores, um anel de metal escuro com uma pedra preta na mão esquerda.

– E é formal, as formalidades é que são outras.

E mostrou-lhe o convite: «Schwarzer Anzug, Halsband».

– Fato preto? Coleira? Vais pôr-me uma coleira, como as dos cães? Quem é esta gente, afinal?

– O Gunther e a Silke sabem que a tua coleira é andar descalça – respondeu Ricardo. – Veste-te.

Ao enfiar o vestido, Mariana verificou sem surpresa que a parte de cima era bastante transparente. Isto não a incomodou sobremaneira, sabia que tinha os seios bonitos e gostava de os mostrar. O que a preocupava era outra coisa:

– Vais-me obrigar a ir descalça pela neve? Em cima desta bijuteria não posso calçar nada…

– Não faz mal, a casa deles é aqui perto. Mal vais sentir o frio.

O apartamento de Gunther e Silke ficava no terceiro andar dum prédio antigo sem elevador. No átrio de entrada Ricardo ajudou Mariana a tirar o casaco e entregou-o, juntamente com o seu sobretudo, à pessoa que lhes tinha aberto a porta: uma mulher de cerca de trinta anos, bonita, com os cabelos severamente apanhados na nuca e um caftan preto que lhe caía até aos pés nus. Mariana reparou que a mulher, tal como ela, não trazia coleira; reparou também que nem Ricardo a cumprimentou nem ela disse nada: apenas quebrou a sua posição hierática para lhes arrumar os agasalhos num armário e para lhes indicar, com um gesto cheio de dignidade, a entrada da sala.

Lá dentro, à espera, estavam os donos da casa: um homem louro, mais alto e mais entroncado do que Ricardo, vestido como ele excepto por uma camisa e gravata pretas. Atrás dele e um pouco para a esquerda estava uma mulher alta, magra e de cabelos pretos que se manteve de pé com os olhos baixos enquanto o homem avançava um passo, apertava a mão a Ricardo, dava as boas-vindas e fazia as apresentações:

Ach, Richard, willkommen. Das is meine Frau Silke.

Bezaubert. Und das ist meine Sklavin Mariana – respondeu Ricardo. – Mariana, Gunther. A Silke é a mulher dele.

Silke estava toda de preto: mini-saia e colete de cabedal, meias de nylon, sapatos de salto alto e uma coleira com picos metálicos como as dos cães pastores. Sempre de olhos no chão deu dois passos em direcção a Ricardo, dobrou os joelhos numa vénia e beijou-lhe a mão. Depois avançou em direcção a Mariana, levantando para ela os olhos que eram dum azul quase transparente e beijou-a na face.

Mariana estava em plena vertigem: tinha sido apresentada por Ricardo como a sua Sklavin (escrava); tinha visto pela primeira vez, sem ser em fotografias, uma pessoa com uma coleira de cão; e agora esperava-se dela, era óbvio, que cumprimentasse um homem desconhecido com um beijo na mão. Chamou em seu auxílio todo o treino em boas maneiras que tinha recebido em criança e adolescente. Pareceu-lhe ouvir a mãe, as tias, as freiras do colégio: em casa das pessoas tens que fazer como as pessoas. Sem dar sinal da sua perturbação, dirigiu-se a Gunther, fez-lhe uma vénia e beijou a mão que ele lhe estendia. No dedo anelar viu um anel de pedra preta igual ao de Ricardo. Sentiu que os olhos dele a examinavam de cima a baixo e ouviu-o dizer a Ricardo:

Schade, dass Sie Ihre Sklavin nicht verteilen…

Mariana ouviu estas palavras com alívio. Se para Gunther era uma pena que Ricardo não partilhasse a sua escrava, para ela isto não era pena nenhuma. Pelo contrário, o temor de que ele o quisesse fazer, conjugado com a certeza que tinha de que o recusaria, era a causa principal da perturbação que sentia. Mais calma, olhou para a sala com maior atenção. No fundo, junto da mesa, estavam duas raparigas louras, calçadas como Silke com meias pretas e sapatos de salto alto. Tinham saias até abaixo dos joelhos mas estariam nuas da cinta para cima se não fosse pelos peitilhos brancos, que mal lhes cobriam os seios, dos aventais folhados. Na cabeça, completando os trajos de criada, traziam toucas brancas rendadas e folhadas como os aventais, e no pescoço coleiras como a de Silke.

A um sinal da intendente ou governanta que tinha aberto a porta da entrada, e que entretanto tinha regressado à sala, estas raparigas serviram uma bebida a cada um dos homens. Silke serviu-se a si própria e a Mariana e começou com ele uma conversa, ou melhor um interrogatório. Desde quando era Mariana escrava de Ricardo? Porque é que não usava coleira? Porque é que estava descalça? A bijuteria era muito bonita e ficava-lhe muito bem, sobretudo nos pés. Tinha sido R icardo (Silke dizia Richard) que lha tinha dado?

A curiosidade de Mariana não incidia tanto sobre Gunther, ou Silke, ou as criadas, ou mesmo sobre as coleiras, como sobre a figura de mulher que lhe tinha aberto a porta. Quem era ela? Porque é que nunca falava? Ach, es ist nur die Hilda, die Verwalterin. Só a Hilda, a governanta. E porque é que estava descalça? Ora, andava sempre assim. Era ela que queria. Era uma pessoa muito sóbria, sehr genügsam, e gostava do silêncio.

Durante o jantar Mariana quase só teve olhos para Hilda, apesar do silêncio e da quase invisibilidade com que esta, com os seus pés nus e o seu traje severo, dirigia o serviço. Uma vez, uma vez só, Hilda encontrou o olhar de Mariana – e isto intencionalmente, com o propósito óbvio de lhe indicar, por um sorriso quase imperceptível e um igualmente discreto inclinar de cabeça, que a compreendia e saudava.

Depois do jantar, servido o conhaque e acesos os charutos, Hilda desapareceu. Mariana, a um sinal do dono, sentou-se no tapete à frente dele. As duas criadas colocaram-se de pé, sem que ninguém lho tivesse ordenado, junto dos dois homens, que lhes levantaram as saias e lhes foram acariciando os sexos – uma tinha-o rapado, a outra não – enquanto conversavam sobre as subtilezas da investigação literária e ignoravam ostensivamente os ciúmes de Mariana, vestida de vermelho e prostrada no chão.

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Eram oito da noite de sexta-feira e Mariana estava a pôr a mesa para Ricardo. Só para ele, porque hoje ia servi-lo sem participar na refeição como se fosse uma criada. Quanto a ela, já tinha comido: uma salada com cubos de queijo, pão torrado e um molho à base de iogurte magro.

Ricardo, calculava Mariana, devia estar neste momento a sair do seu gabinete em Heidelberg e a fazer-se à estrada num carro alugado, para estar com ela o mais cedo possível. Ia chegar cansado e sem jantar, depois de um dia de trabalho duro e de duas ou três horas a conduzir na Autobahn.

Não valia a pena cozinhar-lhe uma ceia completa, ele ficava sempre sem apetite quando viajava. Em vez disso Mariana preparou tostas, uma tábua de queijos e uma tacinha com framboesas e abriu uma garrafa de vinho, que deixou num aparador a respirar. A seguir dispôs velas aromáticas na sala, deixou a caixa de fósforos à mão, subiu a temperatura no termóstato, ligou o dispositivo de aquecer as toalhas na casa de banho e preparou os óleos para a massagem que tencionava dar ao amante se ele não se agarrasse logo a ela e não a arrastasse para a cama.

Tomou duche antes de tomar banho, como as gueixas; lavou a cabeça, enrolou o cabelo molhado numa toalha, meteu-se na banheira com sais aromáticos, enxugou-se, amaciou o corpo com um creme perfumado, secou e escovou o cabelo.

Tinha-se depilado toda de manhã. Quando o dono lhe ordenara que fizesse isto, tinha protestado, mas agora estava a gostar de se ver lisa como uma menina impúbere.

Pintou as unhas dos pés e das mãos com a mistura de vernizes de que ele gostava: metade transparente, um quarto cor de rosa pálido, um quarto branco-pérola. Vestiu-se e maquilhou-se como ele tinha dito que queria: saia comprida e rodada em tons de terra e laranja, semi-transparente, sem calcinhas; corpo nu da cinta para cima; cinto de fantasia; bijutaria profusa nos pés, nos pulsos, no pescoço, nas orelhas e sobre o peito; um pouco de rouge, muito pouco, na cara; baton cor de framboesa nos lábios e nos mamilos. Pôs umas chinelas, para usar até ao momento em que ele tocasse à campainha de baixo: Ia recebê-lo como ele tinha mandado, com os pés nus em sinal de respeito; mas também, em sinal do mesmo respeito, com eles limpos.

Quando a campainha tocou guardou as chinelas e foi-se pôr à porta do apartamento para ele não ter que esperar no patamar. Ao sentir-lhe os passos abriu-lhe a porta; lá vinha ele, arrastando o seu velho trolley de viagem azul. Na mão esquerda trazia um ramo de rosas vermelhas atadas com um fio de ráfia: devia ter-se picado nelas ao sair do carro ou ao tocar à campainha, porque trazia um arranhão entre o polegar e o indicador que ainda ressumava perolazinhas de sangue.

Mariana franqueou-lhe a entrada, fechou a porta atrás dele e, mal lhe dando tempo a pousar o trolley, lançou-se-lhe ao pescoço. Ricardo correspondeu apaixonadamente a este beijo, atrapalhado apenas por ter só um braço livre; com o outro mantinha afastado dela o ramo das rosas, para que não a picassem. Quando ele por fim lhe entregou o ramo Mariana levou-o ao nariz, aspirou-lhe o perfume, e ajoelhou com um gesto natural e gracioso para beijar a mão do amante.

– Anda para a sala. Tens fome?

– Não tenho muita…

Mas depois de tirar o casaco e de ir à casa de banho sentou-se à mesa. Mariana, ajoelhada, pousava a cabeça nas coxas dele beijava-lhe a mão quando ele a acariciava. Só se levantou uma vez, para lhe servir o vinho. Duas tostas, dois cubos de queijo, algumas framboesas que ele ia comendo ou dando a comer à amante, e meio copo de Barolo: a isto se resumiu a refeição de Ricardo.

– Estás cansado, meu querido.

– Um pouco. Preciso de tomar um duche.

– Senta-te no sofá, eu dispo-te.

Ricardo fechou os olhos e deixou-se despir como um menino ensonado. A meio do duche Mariana foi ter com ele para acabar de o ensaboar. No fim ajudou-o a secar e levou-o de novo para a sala.

– Deita-te no sofá. Vou dar-te uma massagem para te tirar essa tensão dos ombros.

– Se fizeres isso ainda adormeço aqui mesmo e depois não te sirvo para nada – respondeu ele com um sorriso.

– Não faz mal. Deita-te. Espera, vou pôr aí uma toalha.

Mariana tirou todos os ornamentos que trazia no corpo e pôs-se nua para ter mais liberdade de movimentos. À massagem que deu ao dono com as mãos acrescentou umas carícias com os seios e com o sexo depilado que o fizeram ronronar como um gato.

– Hmmm, tão bom…

A previsão que Ricardo tinha feito de adormecer não se cumpriu completamente. Terminada a massagem rolou do sofá para cima do tapete, pôs-se de barriga para cima, fechou os olhos e estendeu os braços como uma criança a pedir mimo:

– Vem cá, minha escrava…

Mariana trepou para cima dele, montou-o e começou a acariciar-lhe o pénis ainda flácido com a vulva acetinada e húmida. Ricardo sorriu, consolado:

– Tão bom…

A erecção que tinha tido lugar intermitentemente desde que Ricardo tinha entrado em casa de Mariana não tardou a estabelecer-se de novo com renovada pujança, e Mariana empalou-se nela com um suspiro de prazer.

Começou então uma noite memorável, com Mariana a movimentar vigorosamente os quadris, para cima e para baixo, para a frente e para trás, para os lados, em círculos, e com Ricardo a erguer-se ao encontro dela, mais fundo, mais fundo.

Por vezes ela inclinava-se toda para trás para conseguir o ângulo que mais a excitava, mas o pénis dele estava tão retesado que lhe doía ao ser vergado para baixo. Então puxava-a com força para si de modo a sentir-lhe os seios contra o peito; ela soprava como um gato assanhado mas obedecia, e deixava pender a cabeça para a frente de modo a poder acariciá-lo também com os cabelos.

Ricardo sentia o orgasmo quase a chegar mas, fosse pelo cansaço que sentia, fosse por estar por baixo, ou fosse ainda pela dor que Mariana lhe provocava quando se inclinava para trás, a excitação em que estava só crescia sem se resolver num desenlace. Por vezes o cansaço dos músculos levava-o a ficar passivo enquanto Mariana dançava por cima dele, mas logo o desejo, louco, o obrigava a acelerar e ampliar as estocadas que dava na amante.

Mariana veio-se. E veio-se outra vez. E veio-se outra e outra, tantas vezes que não as pôde contar, tantas vezes que a certa altura já não tinha orgasmos separados, tinha um único orgasmo que continuava e continuava e parecia nunca mais acabar.

Por fim – depois, quando olharam para o relógio, viram que passava das quatro da manhã – Ricardo deu um urro cavernoso, e num último, prodigioso arranque esvaiu-se todo dentro dela, que arquejava «dá-me, dá-me tudo» e se veio também pela última vez nessa noite.

Nem se lavaram. Conseguiram ir os dois, aos tropeções, da sala para o quarto, onde se deitaram em cima da cama e adormeceram imediatamente. Quando acordaram tinham, ele o pénis quase em carne viva, ela a vagina em idêntico estado, e no tapete sobre o qual tinham feito amor vieram a encontrar uma pequena mancha de sangue que nunca vieram a saber se era dele ou dela.

Mariana acordou tarde e viu o amante ainda adormecido ao seu lado. Durante a noite tinham arranjado maneira de puxar o edredon para cima deles, e ainda bem porque a casa estava um pouco fria. Começou preguiçosamente a dar pequenos beijinhos na cara de Ricardo e viu como mesmo a dormir o rosto dele se adoçava num ligeiro sorriso. Depois pousou a cabeça no travesseiro e deixou-se ficar numa deliciosa indolência até o ver acordar e espreguiçar-se.

Esta visão deu-lhe vontade, como que por contágio, de se espreguiçar também e de bocejar longamente.

– Tens fome, meu querido?

– Mais que fome, estou esfaimado. Se não me dás de comer, como-te a ti.

– Então deixa-me tomar duche primeiro, depois tomas tu enquanto eu te preparo o pequeno-almoço.

Ricardo ainda fechou os olhos por uns minutos. Depois levantou-se, vestiu o roupão, calçou os chinelos de quarto e dirigiu-se para a casa de banho, de onde Mariana estava a sair embrulhada numa toalha.

Ao enxugar-se – vigorosamente, como era seu costume – reparou que lhe doía ao esfregar o pénis com a toalha, apesar de esta ser invulgarmente fofa e macia. A pele estava muito vermelha e sensível. Tinham sido horas seguidas de fricção no corpo da amante, e ainda bem que ela estava depilada e macia, porque aquele tempo todo a roçá-lo com os pelos púbicos teria sido mais do que poderia aguentar.

Quando entrou na sala de roupão e chinelas, Mariana já estava vestida, com uma saia preta pelos tornozelos e uma blusa de seda branca. A mesa estava posta e da cozinha vinha um cheiro bom de café e torradas com manteiga.

– Senta-te. Vai bebendo o sumo, que eu já te trago o resto.

À porta da cozinha estavam umas chinelas.

– Vou calçar-me. A tijoleira da cozinha está muito fria. Posso?

– Sim, hoje podes, mas só na cozinha.

Um ruído de louça e talheres a remexer, um súbito aroma a ovos fritos a a bacon, e lá vinha Mariana com um cesto enorme de torradas.

– Vai comendo enquanto estão quentes.

Sentou-se em frente ao dono para beber o sumo de laranja e depois levantou-se, com uma torrada na mão para ir de novo à cozinha. Quando regressou trazia uma travessa de ovos mexidos com bacon e salsichas, e mais torradas. Pôs música a tocar no leitor de CD’s (a sonata de violino e piano «Primavera», de Beethoven), e sentou-se a comer. Por vezes dava-lhe na boca um pedacinho de torrada, ou ele a ela. Serviu muesli misturado com iogurte de cereja, que comeu com um apetite igual ao do amante. Por fim foi à cozinha buscar o café.

– Queres mais?

– Só se for mais café.

– Então vou buscá-lo quente, não bebas esse.

Ficaram mais de meia hora à mesa, a beber café, a pegar nas mãos um do outro e a conversar de coisas sem importância. Quando viram as horas era quase uma da tarde.

– Ai… Ainda vou ter que arrumar isto tudo…

– Eu ajudo-te.

– Não, vai-te vestir.

Ricardo vestiu as suas calças de bombazina cor de mel e uma camisa de flanela aos quadrados, com uma T-shirt por baixo. Não demorou muito a vestir-se e a calçar as peúgas: ainda teve tempo de arrumar a sala e o quarto e fazer a cama enquanto Mariana terminava de lavar a louça e limpar a cozinha.

De tarde foram passear em Brugges, ao longo dos canais. Pararam em frente ao edifício gótico da Câmara Municipal, viram as montras nas ruas centrais, fizeram algumas compras num supermercado. O Equinócio da Primavera já tinha passado, a hora tinha mudado, os dias estavam mais longos e estava sol, mas não se demoraram na rua: depois de lancharem numa confeitaria voltaram para o apartamento de Mariana, onde ficaram sentados a ouvir música e a conversar enquanto lhes apeteceu.

– Daqui a pouco vou fazer o jantar – disse Mariana, abraçando o amante e dando-lhe um beijo. – Queres tomar alguma coisa antes?

– Sim, meu amor. Tens um whisky?

– Já to vou dar. Deixa-te estar sentado.

Mas em vez de se dirigir para o armário das bebidas Mariana meteu-se no quarto, de onde emergiu uns minutos depois com um vestido que Ricardo não lhe conhecia: cintado, preso aos ombros por alças, com uma saia pelos tornozelos muito rodada, e todo às riscas verticais em vários tons de rosa. Na sua versão original devia ter um forro, mas era fácil de ver que Mariana o tinha tirado e que não trazia nada por baixo.

– Gostas do meu traje de escrava?

– Muito. Vestiste-o para me servires o whisky?

– O whisky e não só. Mas espera, primeiro vou-te calçar os chinelos.

Os chinelos de Ricardo estavam no armário da entrada. Mariana foi-os buscar, ajoelhou-se e descalçou o dono, beijando-lhe cada um dos pés depois de tirar a respectiva peúga e antes de lhe pôr o chinelo. Concluída esta tarefa pôs música no leitor de CD’s – Shepherd Moons, da cantora irlandesa Enya – trouxe um tabuleiro que enganchava no sofá, e sobre este pôs um naperon, um copo de cristal e um cinzeiro.

– Um cinzeiro? – admirou-se Ricardo

– Sim. Hoje vais fumar. E não discutas.

A seguir tirou duma gaveta um estojo de cabedal para dois charutos, uma caixa de fósforos e um aparelho de cortar as pontas, e pousou tudo no tabuleiro ao lado de Ricardo. O estojo continha dois Cohibas.

– Não tinhas mais em que gastar o teu dinheiro? – ralhou Ricardo.

Mariana riu-se, foi ao armário das bebidas, tirou uma garrafa de whisky por abrir e mostrou o rótulo ao amante

Cigar? – disse ele. – Não conhecia essa marca.

– Na loja disseram-me que era muito bom. E que era o ideal para acompanhar um bom havano.

Ricardo riu-se e preparou-se para abrir a garrafa, mas a amante deteve-o:

– Não. Tu não fazes nada. Eu sirvo.

Obediente, Ricardo recostou-se no sofá e ficou a contemplar com um olhar de ternura a sua escrava que se esforçava, ajoelhada, por abrir a garrafa. Depois de o ter conseguido deitou no copo dois dedos de whisky, cortou as pontas a um dos charutos, meteu-o na boca e acendeu-o, rolando-o entre os dedos como tinha visto o dono fazer. Ricardo viu-a sugar as bochechas para dentro para puxar o fumo, exactamente como fazia qundo lhe chupava o sexo, e com um brilho nos olhos acariciou-lhe o cabelo.

Levadas a bom termo todas estas tarefas Mariana sentou-se no chão aos pés de Ricardo e começou a contar-lhe todos os pormenores da sua mais recente exposição. De vez em quando levantava-se, animada, e ia buscar um quadro que se tinha esquecido de lhe mostar antes, ou fotografias de outros quadros, que lhe ia dispondo sobre os joelhos para ele ver. Entusiasmada, explicava-lhe as novas técnicas que tinha aprendido desde a última visita: as tintas, os betumes, os vernizes, as areias coloridas, as espátulas, os pincéis, as folhas e as bagas recolhidas no bosque e coladas na tela.

Ao esmorecer da conversa Ricardo inclinou-se para a frente, segurou-lhe o queixo e beijou-a ternamente nos lábios.

– Agora vou-te possuir, minha escrava.

– Sim…

Mariana num instante se pôs nua, o vestido saía pela cabeça e ela não trazia mais nada sobre o corpo.

– Deita-te aqui no sofá – disse Ricardo. Quando a viu deitada ajoelhou-se sobre o tapete, debruçou-se sobre ela e começou a cobri-la de beijos, começando nos ombros, subindo ao pescoço, aos olhos, às orelhas e à comissura dos lábios, e descendo aos seios. Por longos minutos não fex mais nada além de lhe lamber e chupar os mamilos enquanto lhe insinuava a mão entre as coxas. Mariana começou logo a abrir um pouco as pernas, ou melhor, as pernas abriam-se-lhe por si próprias, sem que ela sequer o notasse. Sem pressa nenhuma Ricardo foi descendo com os lábios ao longo do corpo dela, às vezes voltando para cima em direcção aos seios e ao pescoço, mas indo sempre um pouco mais abaixo de cada vez que descia. Meteu-lhe a língua no umbigo, beijou-lhe os flancos do sovaco à anca, explorando-lhe com a língua os espaços entre as costelas, e ao lamber-lhe o monte de Vénus depilado sentenciou:

– Sim, estás mesmo macia, com a língua é que se nota…

… e depois, cruelmente, começou de novo a subir-lhe pelo corpo acima.

Se a boca que Mariana tinha entre as pernas tivesse voz, teria gritado de frustração. Mas não por muito tempo, porque de repente Ricardo afastou-lhe as coxas com as mãos e beijou-lhe o sexo como se lhe beijasse a boca, para logo moderar este ímpeto e começar a procurar-lhe com os lábios e a língua todas as dobras e minúsculas refegas. A língua procurava, dardejante, o botão do amor, para logo o abandonar e tentar insinuar-se no interior da vagina ou para lamber todo o comprimento da vulva.

Quando começou a chupar-lhe o clítoris mais vigorosamente, como se o quisesse sugar e engolir, ouviu-a dizer:

– Meu senhor… Posso-me vir?…

Ricardo nunca tinha imposto a Mariana que pedisse autorização para ter orgasmo e agora ela própria, sem que ele entendesse bem porquê, inaugurava esta regra.

– Não, minha escrava, não podes.

Mas continuou a beijá-la até já não poder distinguir se os sons que ela fazia eram de prazer ou de sofrimento. Por fim, cansado, parou, e começou a percorrer com os lábios e a língua o caminho oposto ao que tinha feito antes até lhe chegar de novo à boca, que beijou, enleando a língua na dela apaixonadamente. Só então se levantou, devagar, mantendo a boca unida á dela e esperando até ao último segundo para a largar.

– Espera um pouco – disse, e dirigiu-se para o quarto.

Saiu de lá pouco depois, competemente nu, e trazia na mão uma fita vermelha que Mariana reconheceu imediatamente: era a prenda que ela lhe tinha dado por ocasião dum encontro anterior, também em Brugges.

– Dá cá as mãos.

Mariana estendeu-lhe as mãos com os pulsos cruzados. Ricardo atou-as rapidamente com uma ponta da fita, mandou-a esperar, foi ao trolley buscar a máquina fotográfica e começou a ordenar-lhe que assumisse poses: de joelhos, posternada, exibindo as marcas e as equimoses da vergasta, de pé, com os braços erguidos, mostrando os pulsos amarrados… Mariana acedia a tudo, obediente, meiga, apaixonada. Ricardo apercebeu-se nela dum estado de espírito invulgar: um dengue, uma excitação, um roçar-se por ele como que por acaso, uma intensidade, uma atenção ardente ao momento vivido…

– Não me deixaste ter orgasmo… Meu amor…

Isto disse Mariana a certa altura, baixando os olhos, num momento em acabava de se ajoelhar e mostrava à objectiva os pulsos atados. E Ricardo sentia nela, por baixo da mansidão e da obediência, o fogo larvar dum desejo que se satisfazia na insatisfação.

Quando acabou de a fotografar, não a desamarrou: mandou-a deitar de costas no tapete e amarrou a outra ponta da fita de seda ao cano do aquecimento, no ponto em que este saía do chão. Estendido sobre ela sem lhe fazer peso, voltou a beijá-la e começou a percorrer-lhe o corpo com as mãos numa carícia firme como se faz aos animais.

– Meu senhor…

– Diz.

– Vais possuir-me?

– Vou, sim, minha escrava.

– Queria pedir-te…

Ricardo apertou-lhe o seio esquerdo e chupou-lhe o mamilo antes de a encorajar a continuar:

– Querias pedir-me…

– Queria pedir-te que fosses meigo. Estou tão dorida de ontem…

Ricardo deu uma risada:

– Vou ser meigo, sim. Até porque eu também estou dorido, tenho tudo em carne viva…

Mariana já tinha as pernas abertas: Ricardo penetrou-a numa carícia longa e, sem chegar a ir até ao fundo, começou a mover dentro dela a ponta do pénis, beijando-a ao mesmo tempo profusamente nos lábios e nos seios. Com as mãos amarradas, Mariana não o conseguia abraçar, por isso o envolvia com as coxas, acariciando-lhe com os calcanhares a barriga das pernas e a parte de trás dos joelhos.

– E desta vez posso vir-me, meu senhor?

– Não, minha escrava, não podes. Ocupa-te só do meu prazer.

No gemido que Mariana soltou misturava-se um imenso lamento com um prazer novo, um prazer que ela não conhecia. Começou a mover as ancas e a tentar controlar os músculos da vagina de maneira a apertar e a chupar o sexo do amante, a dar-lhe o prazer que ele lhe exigia e ao qual tinha obviamente todo o direito, a erguer os seios de encontro ao peito dele para o acariciar brandamente, até que o sentiu acelerar os movimentos e ejacular dentro dela com um gemido que parecia, também ele, um lamento.

Admirou-se por não sentir frustração nem ressentimento por não ter gozado, mas sim uma enorme vontade de continuar a servir. «Serei na verdade assim tão fêmea e tão escrava?», pensou; e quando o dono rolou de cima dela para o chão começou a chegar-se para ele, a acariciá-lo com as pernas e com os pés, já que tinha as mãos amarradas. Todo o corpo dela era movimento, e todos os seus movimentos iam no sentido de se chegar ao dono, de o acariciar, de lhe suplicar um toque ou uma palavra. Lembrou-se de ter dito uma vez a Ricardo que ele a tinha «desligado»; pois bem, agora estava «ligada», com toda a sua energia de fêmea apaixonada a fluir-lhe no corpo e todos os sistemas a funcionar em alerta máximo.

– Desamarra-me, meu senhor…

Assim que Ricardo a desamarrou Mariana começou a fazer-lhe festas e beijá-lo por todo o corpo

– Estou tão louca… Não me deixaste ter orgasmo, e estou tão louca…

– É, estou intrigado com uma coisa… Porque é que me pediste autorização? Eu por mim era capaz de nunca me ter lembrado de to proibir– disse Ricardo..

– Não sei o que é que me deu. Disseste-me muitas vezes que uma escrava não tem direito ao prazer, se calhar foi por isso.

– Disse, e tu concordaste. Mas fizeste bem em lembrar-me … De hoje em diante tens que pedir sempre autorização.

Mariana revirou os olhos e fez uma careta, logo desmentida pela grinalda de beijos com que cobriu o peito do amante:

– Oh, não, o que é que eu fui dizer! – exclamou, numa aflição fingida. – O que pode uma pobre escrava fazer para servir o seu senhor, se ele até até a proíbe de se vir?

– Uma pobre escrava, não sei, mas se esta rica escrava que aqui está está assim tão empenhada em servir o seu senhor, pode muito bem ir para a cozinha, por exemplo, e fazer o jantar para ele, que está cheio de fome…

Mariana, a rir-se, começou a bater com os seus pequenos punhos no peito de Ricardo

– Cafajeste… sem vergonha… Escravidão é escravidão, não é?!

– Pois é… – disse Ricardo.

E quando viu Mariana levantar-se quase de um salto, vestir o roupão, entregar-lhe o dele e dirigir-se à cozinha, acrescentou:

– E descalça, se fazes favor. Não quero cá essa história de tijoleira fria, como de manhã. Lugar de fêmea é descalça na cozinha.

Mariana deteve-se o tempo suficiente para lhe deitar a língua de fora, mas afastou com o pé as chinelas que estavam no chão à saída da sala.

De dentro da cozinha levantou a voz:

– Tenho aqui Quiche Lorraine, é só pôr no micro-ondas. Queres?

– Pode ser, gosto bem de quiche. E o vinho de ontem ainda deve estar bom, era uma pena deitar fora uma garrafa quase inteira.

Ao pôr a mesa, ao servir o jantar, durante a refeição, Mariana continuou a exibir o comportamento que tanto intrigava e encantava Ricardo. A todas as oportunidades havia um seio a roçar um braço, ou então apenas um sorriso, um suspiro, um baixar de olhos, um rubor…

– Anda cá, escrava.

– Para quê?

– Anda cá. Levanta a saia.

Quando Mariana chegou junto dele Ricardo introduziu-lhe a mão entre as coxas.

– Estás toda molhada…

– Pois estou… Não me deixaste vir, patife…

– Não estás bem?

– Estou bem, estás farto de saber que estou mesmo muito bem… Não sei como é que isto me pode dar tanto prazer… Mas se daqui a pouco eu entrar em combustão espontânea, já sabes porque foi. Nunca te devia ter pedido autorização.

– É… Pela boca morre o peixe… Mas não te preocupes: amanhã não vai acontecer o mesmo porque vais ter castigo em vez de sexo.

– Está bem… Podes castigar-me, mas também quero sexo.

– Também, o quê?

– Eu sei, não tenho quereres. Vou dizer doutra maneira: também gostava que o meu senhor possuísse a sua escrava. Está bem assim?

– Melhor. Mas ao castigar-te também estou a possuir-te, não te esqueças. Em todo o caso, o castigo amanhã é por ser o nosso último dia. Quero deixar-te marcas que durem até ao próximo encontro.

– Sim, meu querido, também quero ficar marcada. Mas para as marcas nunca desaparecerem o melhor era eu fazer uma tatuagem…

– E hás-de fazê-la, com as minhas iniciais.

Antes de responder, Mariana bebeu um gole de vinho.

– Hmmm, isso deixa-me louca… Louca para ser possuída outra vez pelo meu senhor…

– Primeiro vamos acabar de jantar. E desconfio que mesmo depois disso vais ter um bocado de trabalho para me provocar outra erecção.

O jantar foi rápido, e Mariana arrumou a cozinha num instante. Quando regressou à sala encontrou Ricardo sentado no sofá. Sem hesitação nem preliminares ajoelhou-se no tapete à frente dele, afastou-lhe para os lados as abas do robe e tomou-lhe o sexo na boca. Assim que sentiu bem rijo, atirou o roupão para cima do sofá deitou-se de costas no tapete:

– Anda…

Entre o momento em que saiu da boca da amante e o momento em que se colocou entre as coxas dela em posição de a penetrar, Ricardo quase perdeu a erecção: Mariana teve que o chupar de novo para que ele finalmente lhe penetrasse a vagina – com o pénis um pouco flácido, mas que uma vez dentro dela recuperou a rigidez dos embates anteriores. Estavam ambos bastante doridos, mas mesmo assim Ricardo possuiu Mariana sem hesitação ou demora, indo e vindo nela até que a viu ficar vermelha: primeiro a cara e depois o pescoço, o peito e os seios. Viu-a abrir a boca como se fosse gritar, ouviu-lhe a rápida e forte inalação de ar, cavalgou-lhe o frenesim urgente dos quadris e finalmente assistiu, empolgado, ao gozo da sua escrava: um orgasmo sumptuoso, uma convulsão sísmica que lhe soltou todas as energias acumuladas no corpo e na alma desde que ele a tinha mandado deitar no sofá duas horas antes.

O dia seguinte amanheceu com bom tempo. Algumas nuvens, poucas, juntavam-se ocasionalmente e faziam chover umas raras gotas de água. Ricardo e Mariana foram passear para junto do canal e dos moinhos de vento: ele de calças castanhas com vinco, pullover cor de mel, casaco de cabedal castanho escuro e chapéu de feltro, ela de saia comprida, blusa de seda e casaquinho vermelho. Almoçaram num pavilhão com vista para o canal, conversando sobre o fim de semana que projectavam passar em Paris quando o tempo estivesse um pouco mais quente.

Lá fora a relva estava húmida e muito verde.

– Apetecia-me descalçar-me e correr nesta relva – disse Mariana.

– E a mim apetecia-me mandar-te descalçar.

– Mas não posso, estou de collants e não posso tirá-los diante de toda a gente.

– De collants?! Na presença do teu dono?! Vais mas é já ao quarto de banho para os tirar, e de castigo não voltas a calçar-te hoje.

Mariana ainda alegou o frio, o incómodo, as pessoas à volta; mas acabou por obedecer, um pouco embaraçada no princípio, mas pouco tempo depois corria o jardim descalça com a singeleza impudente duma criança à solta. Ricardo não voltou a permitir-lhe que se calçasse nem no jardim, nem no caminho de casa. E se no jardim o espectáculo duma senhora bem vestida mas de pés nus pareceu banal a quem o viu, o mesmo não se passou percurso que mais tarde fizeram de braço dado nas ruas cheias de gente. Mas o garbo altivo de Ricardo desarmava os olhares e, comunicando-se a Mariana, convertia-lhe o pejo em euforia.

Jantaram pelo caminho. Quando entrou em casa Mariana levava os pés gelados. Mas antes de ir tomar um duche quente ainda se apresentou diante de Ricardo com uma bacia de água quente para lhe lavar os pés cansados, lhe calçar os chinelos, lhe servir uma bebida e lhe acender um charuto.

Depois de tomar duche não se vestiu, envolveu-se em véus transparentes e dançou para ele, tirando-os um a um.

Ricardo assistia beberricando o seu whisky e puxando uma fumaça ocasional. Só os olhos a rir denotavam a atenção com que seguia todos os movimentos da sua amada.

– Vem cá.

– Sim, mas ainda me deves um castigo – disse Mariana.

E Ricardo viu que sem ele notar ela tinha ido ao quarto buscar a vergasta vermelha e lha tinha posto ao alcance da mão.

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