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Posts Tagged ‘sensualidade’

Os gostos não se explicam, não é?

Pois … mas o facto é que nem por isso deixamos de procurar explicação para eles.

Gosto de mulheres descalças porque os pés nus são de há muito um sinal de submissão e respeito. Moisés tirou as sandálias no cimo do monte Sinai, os muçulmanos descalçam-se para entrar na mesquita … sinal de submissão, portanto.

Mas também, paradoxalmente, sinal de liberdade: que o digas tu, leitora, de cada vez que chegas a casa exausta e atiras com os sapatos para o outro canto da sala. Que o digam todos aqueles – e conto-me entre eles – que sempre que podem tiram os sapatos, na praia ou no jardim público.

Sinal de sensualidade, também: o prazer de sentir sob os pés, ora uma textura, ora outra, a areia fina grossa da praia, a poeira fina do caminho, a pedra rugosa ou lisa do passeio, o mármore, a madeira, a carpete …

Andar descalço, diz-nos John Updike, é uma maneira mais discreta de fazer nudismo. Acho que tem razão: expor ao ar e ao vento partes do corpo que habitualmente andam tapadas, ainda que sejam só os pés, é uma forma de contacto com a natureza – com a Mãe Terra, dirão os mais místicos – que nos recorda que somos algo mais que o software instalado nos nossos cérebros.

Mas a principal razão por que gosto de ver uma mulher descalça não é nenhuma destas, é outra muito mais simples: uma mulher descalça é mais bela. Não, eu não disse «mais bonita»: disse «mais bela». Não é a mesma coisa.

Portanto, leitora, se hoje te apetece ficar mais bonita, uma das maneiras de o fazeres é calçar uns bonitos sapatos. E se os que tens em casa não te satisfazem, pega no teu cartão de crédito e vai comprar aquele par – tu sabes quais são, são aqueles que viste na montra e não compraste porque custavam uma pipa de massa.

Mas se o teu objectivo de hoje é a beleza; se queres ser hoje Ishtar e Afrodite; se queres que hoje sejam lançados por ti ao mar, como por Helena, mil navios – então, querida leitora, deixa para outro dia os tais sapatos, e descalça-te.

(Publicado no Blogger a 18/11/05)

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Os 50 anos de A história de O

Konstantin Gavros (*)
La Insignia. Brasil, janeiro de 2004.

Um incontrolável estranhamento nos assalta ao nos depararmos com o nome de uma personagem que se resume a uma insignificante letra “O”. E a primeira reação que temos, ao empreender a leitura, é de que esse signo vazio, esse círculo vazado e tão inexpressivo, esse antinome é a designação correta para uma mulher sem passado, sem história, suspensa em meio a um universo de prazeres que nos perturbam e incomodam, escrava – por sua livre escolha – dos desejos de outrem.

No entanto, a verdade é que não há equivalência entre o nome “O” e o zero – ou qualquer outro conceito que expresse passividade -, ainda que a autora não nos conceda, em momento algum, a descrição física de sua personagem; e ainda que a palavra “não” inexista no vocabulário de O.

De fato, não se pode confundir submissão com passividade. E, nesse sentido, a beleza e a sensualidade de O residem exatamente em suas seguidas ações, exercitando uma crescente submissão por sua própria vontade, buscando um amor cujo fulcro ela descobriu na obediência – uma descoberta que a faz despertar para o fato de que “as correntes e o silêncio, que deveriam amarrá-la no fundo de si mesma, estrangulá-la, sufocá-la, ao contrário, libertavam-na de si mesma.”

Há uma sugestiva semelhança entre essa personagem – que se oferece como uma dádiva irrestrita e permanente – e sua criadora, Pauline Réage. Não se trata, como tentaram alguns, de estabelecermos um paralelo entre a vida sexual da escritora e o universo sadomasoquista que ela desenha em A história de O. Mas trata-se de perceber como a senda percorrida por O – na qual, gradativamente, ela arranca de si as amarras que lhe foram impostas pela sociedade, até alcançar o âmago da sua libido, prostituindo-se a ponto de se sentir “consagrada” – é semelhante a de Réage. Nascida Anne Desclos, no seio de uma família conservadora e católica, ela assumiu, na maturidade, o pseudônimo de Dominique Aury, com o qual se tornaria a respeitada tradutora e editora da casa Gallimard, transformando-se, finalmente, por devoção a seu amante, Jean Paulhan, na escritora Pauline Réage. O périplo dessa instigante mulher, empreendido sob o silêncio e o quase anonimato, é a jornada dos que ousam explorar, sem limites, o seu interior, o que lhe permitiu subjugar os valores artificiais que Anne Desclos aprendera e, dissecando sua libido, dar vida não somente a O, mas também a si mesma, transmutando-se em Réage.

A história de O é, assim, o romance da depuração, no qual autora e personagem se encontram para responder a uma questão essencialmente humana e, portanto, essencialmente erótica: “Por que tanta doçura misturava-se nela ao terror ou por que o terror lhe era tão doce”? A submissa O encontrou sua resposta. E creio que Anne Desclos igualmente, pois, do contrário, o processo de auto-análise teria se interrompido na persona de Dominique Aury.

À parte a censura e as perseguições dos moralistas, A história de O se consagrou como o romance que trouxe à luz do século XX, em 1954, as pulsões sexuais que os preconceituosos repudiam como invenções doentias do marquês de Sade ou perigosas patologias. O livro tornou-se, com o passar dos anos, um símbolo da possibilidade de concretização de uma vasta parcela das nossas fantasias sexuais, corroborando e dando forma aos instintos que buscam na dor, no sofrimento e na humilhação – aplicando-os ou submetendo-se a eles – uma forma radical de prazer.

Desmistificando as práticas sadomasoquistas – tão antigas quanto o animal humano -, Pauline Réage concedeu grandeza e respeitabilidade a todos os que buscam prazer sexual na submissão e na dor: “(…) As partes do corpo mais constantemente ofendidas e que tinham se tornado mais sensíveis pareciam-lhe ao mesmo tempo mais belas, e como que enobrecidas; a boca que se fechava sobre sexos anônimos, os bicos dos seios constantemente acariciados por muitas mãos e os caminhos do ventre entre as coxas abertas, estradas abertas pelo prazer. Admirava-se de que ao ser prostituída viesse a ganhar em dignidade, e no entanto tratava-se de dignidade. Sentiu-se como que iluminada por dentro e via, no seu modo de andar, a calma, e no rosto, a serenidade e o imperceptível sorriso interior que se advinha nos olhos das reclusas.” De fato, com a delicada O, Réage demonstrou que, apesar de nos parecer paradoxal, há uma insuperável auto-estima em atender às exigências da libido.

É a certeza e a coragem de O que nos comovem e nos seduzem. Em sua busca inflexível, sempre movida pelo amor e por um “orgulho insensato”, ela aceita tudo, erigindo um altar à superação de todos os medos, de todos os limites, agarrando-se ao suplício não como uma forma de sublimação de suas frustrações, mas como um dos possíveis caminhos à fruição plena do prazer: “Quando o sofria [o suplício], trairia o mundo inteiro para lhe escapar, e após terminá-lo sentia-se feliz por tê-lo sofrido, tanto mais feliz quanto mais cruel e mais longo tivesse sido.”

Prazer e dor, vida e morte confluem, dessa forma, em um mesmo corpo, em uma mesma vontade, não para dilacerar a consciência dessa apaixonante mulher, mas, ao contrário, para torná-la mais viva, mais resoluta, mais íntegra.

A própria autora nos concede a chave para entendermos o significado desse romance que é um rito de passagem à compreensão de nossas mais fundas pulsões sexuais. No prefácio de seu segundo livro –Retour à Roissy– ela nos alerta que “uma vez que se deslinda a zona fantástica daquela outra, mediante a qual se recuperam as obsessões (sendo a repetição infinita de prazeres e sevícias tão necessária como absurda e irrealizável), tudo se ajusta fielmente, o vivido e o sonhado, tudo se descobre comumente compartido no universo de uma mesma loucura”. É preciso, portanto, superar a ficção, cruzar esse território que é, ao mesmo tempo, sonho e realidade, limite e renascimento, medo e alegria – e investigar o nosso eu. E se tivermos coragem para fazê-lo, talvez possamos descobrir o que Réage concluiu: “Se nos atrevemos a olhá-lo de frente, horrores, maravilhas, sonhos, mentiras, tudo é conjura e liberação.”

Essa O que, ao final da narrativa, emerge indelevelmente marcada nas nádegas, com a cintura adelgaçada, os quadris mais redondos, os seios mais pesados e um anel a lhe perfurar os grandes lábios, essa O transformada pelas torturas, é ela mesma que sussurra para si: “Mas que repouso, que delícia o anel de ferro que fura a carne e que pesa para sempre, a marca que nunca se apagará, a mão de um senhor que sabe apropriar-se sem piedade daquilo que ama.”

Nada é simples quando se trata do amor. E nada é facilmente compreensível quando se trata da sexualidade humana. Em um patamar muito acima dos moralismos e dos preconceitos difundidos pelas religiões, pela mídia e pelos valores pequeno-burgueses, A história de O questiona e acusa todos os que ousam minimizar ou desprezar a riqueza e a complexidade da nossa libido.


(*) Konstantin Gavros é escritor. Assina diariamente o blog A verdade é o sexo, o sexo a verdade. É, também, colunista de Novae.

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